Entrevista-choque - O 'Granadas'
- Como é que aconteceu isto pá? Diz-me o teu nome.
- 'Granadas'. Sou o 'Granadas', para toda a gente. Nasci no sul de Angola no mês
de Maio de '59. Saquei o 11º ano. O meu pai era médico aí no sul, no Quando
Cubango. Vivi em Silva Porto, também. Em 1975 viemos. E comigo vinha um
carregamento de erva e diamantes (...)
Quem está à minha frente tem um aspecto bera, estragado e envelhecido demais
para a idade, as mãos e o rosto deixam transparecer sinais de doença, velhice
precoce, e de abusos sem fim consentidos em 44 anos de vida. Um cabelo já bem
cinzento e embranquecido, em constante desalinho, culmina uma face chupada onde
se adivinha facilmente a caveira. Os olhos são mortiços, encovados, perdidos,
ocasionalmente ganham um brilho ténue nalgum sobressalto do diálogo. Este é o
Granadas, ansioso, a enrolar mais um cigarrito de Drum, sem filtro, já deitado e
coberto por três cobertores enquanto vai falando e encetamos esta longa
entrevista. De tempos a tempos solta mais uma rajada longa de tosse seca.
- Ficaste logo na zona de Lisboa?
- Sim. Lisboa. Sintra. Mas havia um desenraizamento... Erva, cota-cota, suruma -
isso era a malta de Moçambique - liamba... (está outra a vez a falar do espólio
que trouxe)... vendia-se despreocupadamente.
- És preso logo em '76. Como é que sucedeu isso?
- Rebentei com o dinheiro todo. Milhares de contos então, que era muito
dinheiro. Talvez igual a cem mil contos actuais. Derreti em drogas duras,
ácidos, heroa, coca. Tinha que entrar em mais negócios. Comprava, consumia,
vendia.
Conheci malta da antiga LUAR e do MRPP. Sete ou oito oficiais, várias patentes,
além do meu primo, também oficial. Uma parte do que sucede, um contacto, é
proposto por um furriel que é esse meu primo. Tinha o que precisava, do paiol de
Santa Margarida. Os outros estavam em várias unidades. O meu primo seria a
ligação. Nunca chibei nenhum deles. É então que surge a coisa da ETA...
- Como é que foi essa parte da ETA, falaste-me já nisso. Foram o único cliente
do vosso grupo?
- Foram. Por coincidência numa compra de haxixe, que a ETA lidava com isso.
Conheci um deles. Oferece haxe em troca de explosivos. Eu como tinha
conhecimentos, aceitei e fui aprofundando essa ligação ao gajo da ETA.
- Então, fins de '75 início de '76, estavas tu em plena 'estação operacional'.
Como é que isso se processava?
- Três vezes ao mês. De 10 em 10 dias uma odisseia. Em Lisboa, recebia os
explosivos encaminhados através desse meu primo, vindos dele ou dos outros, mas
principalmente de Santa Margarida, onde ele estava. Concentrava lá tudo mas
também vinham de outros paióis. O meu primo é que conhecia tudo. Ah! E tinha uma
mota que o tipo da organização da ETA me deu, uma Esquivarna (?) 250 cc. Era
suficiente. Para 50 quilos de cada vez, em saco e mochila.
- A mota era para curtas distâncias, não?
- Só lá para a zona de Vilar Formoso.
- E que explosivos? Armas, também?
- C-4. Em explosivos era só o C-4. As armas eram G-3, FBP. Carregadores,
munições e granadas. Granadas defensivas.
- G-3, de mota?
- Desmontadas. Duas viagens, por vezes. Para não atrair atenções e por causa do
peso. Cada uma são 3 ou 4 quilos.
- Então, 150 quilos ao mês, doze meses... Uns 1.800 quilos de contrabando de
material de guerra, ao todo?
- À volta disso. Bem, passava Vilar Formoso. Um contacto ETA, era sempre o
mesmo, estava à minha espera. Junto à margem. Levava-me para uma ilhota remota
num dos riozecos do região, local onde era vendado.
- Estereótipo do gajo da ETA, esse sujeito...
- Sim, gorro, rosto tapado. Nunca soube o nome. Metia-me numa lancha com 250
cavalos em cada um dos dois motores. Não tenho noção do tempo, mas era muito
rápido. Quando chego ao destino retiram a venda, altura em que vejo então várias
lanchas... e estou num campo de treinos. Pequenas construções, cobertura em
telha. Cartazes com o corpo humano em madeira, para tiro ao alvo, e carros para
simulação com o C-4 e o controlo remoto. Forneci dispositivos desses também,
nalgumas das viagens, arranjados igualmente nas mesmas fontes.
- Patentes portuguesas... quartéis...
- Um major, seria a patente mais elevada.
- As viagens, sempre à noite? A Lua... dava mesmo assim para veres o tipo de
motores...
- À noite e nunca com Lua cheia.
- E então estás neste campo de treino, numa noite vazia de luz, sem Lua, escura.
Trazes o carregamento e o que é que acontece?
- Estou a ser levado para uma dessas construções, estou já sem a venda. Há mesas
desmontáveis.
- Cartazes políticos? O machado com a serpente à volta?
- Não. Estou aqui neste campo com as carcaças de carros, ancoradouro e estas
construções rasteiras... Conferem a minha mercadoria. E experimentam.
- Como assim?
- Disparam e experimenta-se o C-4.
- Voltemos atrás. Como é feito o contacto prévio?
- Em Vilar Formoso, tinha um walkie-talkie, dava para uns 500 metros. O
contacto, mesmo, ficara agendado da vez anterior... Olha, nunca sabia ao certo.
Entregavam-me o material em Lisboa e isso era sinal para estar em Vilar Formoso
24 horas depois.
- Estás a derivar pá! Não te contradizes?
- Eu passara também ao meu primo, o contacto, e ele tinha esses outros sete, e o
meu primo tinha já contacto telefónico e até por rádio, creio, com a
organização.
- Material experimentado... continua.
- E eles faziam o pagamento em haxixe e dinheiro. Marcos, pesetas, ou dólares.
Mais em dólares. E quase sempre também uma parte em haxixe, onde eu tinha mais
lucro.
- Davas o dinheiro e o haxe ao primo?
- Era depositado, o que eu trazia, em Santa Apolónia, num cacifo. Aliás, para
receber as armas e os explosivos o esquema era o mesmo.
Do campo, voltavam a vendar-me. Era o caminho inverso. De novo em Vilar Formoso,
o comboio até Lisboa. A mota fica em Vilar Formoso, okay? O comboio é para a
viagem Vilar Formoso / Lisboa e Lisboa / Vilar Formoso. Sempre ida e volta,
desde Lisboa, e sozinho.
- E o haxixe?
- Tinha contactos cá. Tirava 50% para mim 50% para eles. Mais a parte do
dinheiro que me cabia e o resto estava tudo pago.
- Três viagens por mês, foi o que disseste. Quantos meses?
- Durante quase um ano. Tive muito dinheiro! - assenta firmemente com aquela
cabeça esbranquiçada, a entrevista está já emoldurada por um fumo denso, imersa
neste cheiro intenso a tabaco de enrolar e a papel queimado, ao algodão que com
a chispa de um isqueiro sem gás incendeia e usa para dar ignição ao cigarro.
- E essas feridas pá? Todas feitas nesses doze meses? Que idade tinhas nessa
altura?
- Dezasseis. Dezasseis anos. Sabes, lá em Angola... trouxe granadas, essas
granadas defensivas. Umas dez.
- A polícia já te estava no encalço? A espanhola, francesa, portuguesa?
- A francesa, mas isso foi depois... e a GNR.
- Francesa? Porquê?
- Por tudo o que aconteceu depois, até o tiro que levei na perna... mas isso
conto mais tarde.
- Conta lá isso bem, okay?! Como é que apareces em França?
- Em Portugal serei preso em finais de '76 por outros crimes.
- Nada a ver então com isto, com a ETA, polícia espanhola?
- Não. Crime de homicídio.
- Explica-te, pá!
- Já foi por causa da vertente do haxixe, das vendas aqui, que a GNR andava em
cima de mim.
- A GNR de onde? Mas não tinhas um comprador certo para o chamon?
- Tinha. Tinha contactos. A quem entregava e recebia o guito.
- Onde é que isso falhou?
- Em Sintra. No Algueirão. Foi aí que se deu o fim do jipe...
- Uma história dentro da história?
- Morava no Algueirão. Com o pai, a família. Já estava há quatro meses a ser
humilhado pela GNR, a levar com eles, mas nunca me apanharam nada, nunca houve
'flagra', nada! À noite, estava sozinho na estação quando vi o jipe.
- Conta lá os antecedentes, já abordaste isso.
- Um mês antes, num café de Algueirão, estava com o meu pai, e de repelão eles
entram e encostam-me à parede, revistam-me ali em público, dentro do café,
perante toda a gente, desconfiados que eu tenha armas ou haxixe.
- E nada?
- Nada. Humilharam-me. Palavrões. Uns sopapos e pontapés.
- Reagiste?
- Não.
- Só a ameaça?
- Disse-lhes que um dia iam desta para melhor!
- E foi isso?
- O encontro com o destino traça-se então nessa noite no Algueirão um mês
depois, junto à gare ferroviária.
- Viste o jipe a aproximar-se...
- Reconheci-os. Esperei que a viatura passasse...
- Era a mesma patrulha do café?
- Havia um que era. Tudo patentes altas (?). Major, tenente e cabo. O tenente já
havia estado nessa tal tarde no café.
- Lembras-te do nome dos tipos?
- Não.
- Então?
- Deixei-os passar. E foi a vingança. A brincadeira do café não foi a única
humilhação. Já há quatro meses que andavam a chatear-me. Deixei-os passar...
- E a granada?
- Granadas. Andava com cinco! Ia precisamente nesse dia para o posto para
rebentar com os gajos. As cinco... despoletava uma e as outras explodiriam por
simpatia. Ora os gajos estão já aqui, faço-me a eles. Deixo-os passar, uma
dezena de metros, agacho-me e lanço um 'ananás'.
- E...?
- Entrou mesmo para dentro do jipe, pelas traseiras. Abaixei-me - a onda de
choque, estilhaços... não era suicida! O sopro, o trovão, a onda de choque.
Estilhaços nas pernas. Era uma rampa, junto à CP, parte do sopro veio de certo
modo deflectido para baixo.
- Ficaste surdo? Ergueste a mona...
- Levantei-me atordoado. O jipe está em pirueta, soltou-se uma roda. Os gajos,
corpos mutilados, foram cuspidos. O jipe parecia uma pedra de dominó a fazer
carambola.
- A populaça topou-te.
- Eram nove e meia da noite. Atordoado, desmaiei.
- Os outros quatro ovos?
- O saco com as outras granadas tinha-o deixado num canteiro junto ao muro.
Estou rodeado por gente, alguém viu, o estrondo foi enorme, e eu ali mais ou
menos inteiro, caído não longe do jipe e com estilhaços no corpo. Deduziram.
Chegou entretanto a brigada da GNR e foi isso que me safou pois essa malta já
queria chegar-me a roupa ao pelo. E aí foi a própria GNR que impediu.
Prendeu-me.
- Os amigos são para as ocasiões!
- Até às oito da manhã estive na GNR do Algueirão, o posto que eu estava para
rebentar, e aí surgiu a PJ militar.
- Lisboa?
- Sim. Bateram-me até ir parar em coma ao Hospital Prisional de Caxias. Arrearam
para ver se eu falava mas não falei, até que entrei em coma. Sem uma única
marca. Com cobertores, sacos de areia, luvas espessas. Havia uma sala com
cortiça, era o que parecia, e eu ainda algemado.
- Em Caxias não há interrogatório? Quantos dias?
- Não. Oito dias em coma. Nunca mais voltei à PJ Militar. O processo está feito.
Permaneço no E P Caxias até responder.
- Quando é que vais responder?
- Após dois meses. Um caso muito publicitado, mas rápido. Julgado em Sintra.
Apanhei 20 anos, indeterminados - isto é, 20 anos é só o mínimo. Em função de
reapreciação futura para algo mais. Foi assim.
- Onde aprendeste a usar, as granadas defensivas?
- Em Angola. O meu pai tinha uma FBP e granadas para defesa pessoal. Isso era
habitual em África.
- Não pá, o habitual são zagaias, e Mausers e Kalashnikovs desde há 50 anos,
desde as façanhas dos 'mau-maus'! 'Tá bem, prossegue. E no momento em que
atiraste o ananás, sabias que os gajos iam bater a bota e ficaste aliviado, foi
isso? Sabias? Tão certinho como Omega...
- Sabia que aquilo ia mesmo matar. Fiquei... estava carregado de coca também,
tinha-me injectado com cocaína.
- Argumentaste isso em Tribunal? O Advogado...
- O pai apareceu depois com um advogado mas já era tarde e o juiz nem me deixou
explicar essa parte.
- Nunca sentiste pena, que tudo podia ser diferente, tinhas muitas opções à tua
frente, não necessariamente aquela?
- Não! Não tenho remorsos. Não posso ter remorsos!
- Nem mesmo agora? Voltavas então ao mesmo?
- Se tivesse que fazer, fazia sim.
- Mesmo sabendo que ias atravessar este deserto de 27 anos...
- Sim!
- Uma coisa em que reparo: estás cheio de marcas, tatuagens.
- Estou.
- Cada uma com a sua história, não?
- Sim. Todas na prisão. Desde um olho - um olho estilizado, tipo olho maçónico -
nesta mão direita... Sim, tenho umas cinco ou seis. Não, nenhuma promessa, nada
de especial, era da praxe. Onde está o olho tinha antes as 5 quinas e com o olho
disfarcei essa anterior. Em Espanha isso era mau.
- Porquê?
- Dá logo 'bandeira', indica um gajo como prisioneiro, cadastrado. Assim como
aqui em Portugal, não é?! (os cinco pontos em azul representarão o prisioneiro,
no centro, e cada um dos exteriores as 4 paredes).
- Portanto ficas em Caxias no início dessa pena de 20 anos 'indeterminados'. E
daí?
- Fui transferido para várias cadeias. Pinheiro da Cruz, Vale de Judeus,
Coimbra, Alcoentre, Monsanto, Sintra - aqui, já com uns 15 anos de pena
cumpridos, e de onde fugiria dois anos depois.
- Histórias, nesse período de 15, 17 anos.
- Tentativas de suicídio... Várias. Agressões de guardas, e de reclusos,
violentas. Pontapés, pancada, partiram-me uma costela, no 'Vale'. Engolia
objectos, o que tinha à mão, para mostrar o desespero, chamar a atenção. Garfos,
pilhas.
- Continuaste a consumir, nas várias canas, ao longo destes anos todos?
- Sempre. Sempre a consumir. Sempre disponível para o produto. Às vezes
escasseia, mas lá fora também é assim, mas a qualidade em geral é melhor do que
na rua. Fiado e muita porrada também há, se não se pagar!
- Já te aconteceu? A costela...
- Não, a costela foi de desabafos a guardas, mandei-os para o caralho. Foi a
soco e pontapé e gabaram-se: 'tens sorte que são botas de 20 contos!' Fez-me
lembrar o posto da GNR. Porrada e meteram-me agora a cabeça dentro de água, na
retrete.
- Doenças crónicas, nestas andanças, vida desregrada, tentativas de suicídos,
ingestão de objectos...
- Nada de especial, só o HIV.
- Injectavas-te?
- Sim. No 'Vale' e noutras também. 'Flashes' de coca. Uma quarta para a viola
(veia) com a 'gringa' (seringa). O HIV não sei a origem. Nos cuidados de
saúde... o melhor foi sempre a Psiquiatria. A clínica médica foi o trivial, nem
bom nem mau, dentro do razoável.
- Quando é que fizeste a primeira tentativa de acabares contigo?
- Foi com a lâmina no pescoço. Em Vale de Judeus. Em 1979, por aí por essas
alturas. Engoli pilhas, lâminas, colheres, um garfo - engoli agora há pouco
tempo, já em Monsanto, já me estava a chegar ao pulmão. A mais espectacular,
acho. Ninguém acredita! Só a radiografia é que o diz - o garfo inteiro, com os
bicos e tudo, não foi só o cabo.
- Para te matares ou para chamar a atenção? É que às vezes nem há muita
convicção e a coisa dá para o torto!
- Para chamar a atenção, para ir para Caxias para a Psiquiatria. 'Tou mesmo a
precisar, necessitado de descansar a cabeça. Já me está a pesar muito a
condenação. Levaram-me e vim no mesmo dia, estou à espera de ser internado.
Espero.
- Então vêm aí mais garfos?
- Não, isso deu-me na altura. Não vou fazer mais, foi muito difícil tirar.
Endoscopia e enfiaram-me uma garra. Vomitei um pouco de sangue.
- E continuas com uma senhora tosse! Parece uma ponto 50, uma metralhadora
pesada de fita, uma M-60, pá!
- É bronquite asmática. Estou a ser medicado. E fumo muito, muito.
- E chegamos assim a 1992, 1993, quando dás o pulo. Vamos à fuga!
- Aos 17 anos.
- Não é aos 17 anos de idade, aos 17 anos de cana, não é?
- Aos 17 anos de cana, estava em Sintra. Há algum tempo, dois, três ou quatro
anos... Uma cadeia mais ou menos aberta, uma grande quinta. Estava num pavilhão
de confiança como aqui o RAVI. Até às 19h00 está-se aberto. Pode-se circular
pelos terrenos. Fugi após o conto, às 19h00. Às 19h15 é que a porta era fechada
e a vigilância diminuta. Vim cá para fora para o terreno, havia o buraco feito
por baixo do arame. Fui escavando de novo ao longo da última semana e tapava com
erva. Já me servira dele mais vezes para saídas e reentradas! Escavei com um pau
e pus de novo erva sobre aquilo. Esgueiro-me agora sob o arame e fui embora. Até
casa, buscar dinheiro e a mochila com roupa, e abalei para Espanha.
- Já tinhas isso combinado com a família ou mais alguém?
- Ia de vez em quando a casa, à noite, saía mais vezes por esse ou outro buraco.
Mas nesse dia já não voltei.
- Informaste a família ao que ias?
- Fui buscar dinheiro e o saco e disse que ia para Espanha. Disseram-me para ter
cuidado.
- Então como é que fizeste?
- Meto-me num táxi até Santa Apolónia e apanho o comboio para Madrid.

- Quem é que estava à tua espera?
- Em Madrid, ninguém. Então, já eu tinha largado o negócio
há uns bons anos, não é?! Iniciava uma vida de fugitivo que
duraria três anos e meio. Por Espanha e França, meto-me em
quintas a trabalhar, na apanha de tomate, no sul da França.
Mas agora os primeiros dias em Madrid são numa pensão.
- Quanto tempo em Espanha?
- Uns dois meses, a derreter o guito. Daí é que fui de mota,
comprei uma 'Esquivarna', rumo a França, onde comecei à
procura de emprego.
- Chegaste onde?
- Bordeaux. Já tinha o contacto de uma quinta, para
trabalhar, na apanha de tomate.
* * *
- Passaste por Monsanto antes, foi? Disseste isso na lista
de 'franchises-pousadas' da Droga Garantida Sem Problemas...
- Uma porrada de vezes, a maior parte em trânsito. Quando
fiquei mais tempo foi em 1986, uns seis meses, e fiquei no
F, no bailico de um tal David, um gajo famoso que tem um
restaurante...
- Okay. Voltaremos mais tarde a isso. Não explicaste na
parte médica isso dos ferimentos. Falaste-me já em três
feridas de bala. Então o que foi?
- Temos que voltar atrás, desculpa. Em 1976. Pela GNR. Não
contei antes, pois não? Por isso é que tive mais raiva.
- Quando o caso aconteceu já andavam atrás de ti, não era?
- Sim. Tinha havido a cena do café. E... estás a ver aqui o
pescoço? Um disparo, de G3, já tinha fugido deles. O
projéctil, foi uma sorte do caraças. Perfurou, saiu, sem
atingir nada importante, vaso ou órgão, só tecidos moles.
Entra atrás da laringe, entre a laringe e a coluna
vertebral! (mostra-me as duas cicatrizes) Razou a laringe
por trás, sorte, não cortou nenhuma peça importante! Entre a
laringe e a espinha... Sabes como é que sarei?
- Humm?!
- Com pólvora. O meu pai tratou-me inicialmente e eu às
escondidas é que pus pólvora, sara mais depressa!
- Não viste muitos filmes? Imaginação febril...?
- Não, foi assim mesmo.
- Os outros dois ferimentos?
- Um foi um tiro de Magnum, quando foi a fuga em Paris...
- Ah! Voltamos a França. Estiveste 3 anos e meio ao largo...
- Três anos e meio. Tinha a polícia internacional no
encalço, ia oscilando entre França e Espanha.
- Saíste do campo do sul da França. Como é que soubeste que
era a altura de fugir, estabeleceste plafonds de prazos?
- Tenho uma emboscada deles, um francês tinha-me avisado -
era parecido comigo e deram-lhe com a fotografia, e viram
que não era ele. Trabalhava no tomate, também.
- Chegas a Paris. Quanto tempo em Paris?
- Ao fim de três dias sou abordado no Metro pela
'gendarmerie' ou Interpol, consigo fugir. É aí que disparam
para a perna direita, não me partiu a perna porque foi de
raspão. Fui a um médico particular que me fez o tratamento e
uma plástica. Levou-me, em pesetas, umas trinta mil pesetas.
É esta cicatriz grande na perna direita. (exibe a marca, são
bem uns quinze centímetros, feia e larga, escura e
irregular) Outro tiro de sorte!
- Sorte!... Fugiste, estás-te a curar...
- Saí na estação seguinte e fui ao médico. Tratei-me.
Levanto as coisas da pensão. Apanho o comboio para Espanha,
Bilbau.
- Sais de Austerlitz? E em Espanha?
- Sim, creio que é essa. Em Espanha ando escondido. Pensões.
Uma por dia. Bilbau. Encontrei o tal contacto da ETA...
- 'Tás a delirar pá!
- Alguém que se cruza comigo e faz um gesto com um polegar
erguido...
- Pá, um marginal pá, outro marginal, o que é que estás à
espera? Passaram-se 17 anos. Então quando é que se dá o
outro tiro que contas?
- Foi na perna esquerda. Ia de mota, aqui em Bilbau. Uma
Esquivarna (outra Esquivarna ou lá como se escreve o raio da
marca). Mandam-me parar e eu acelero para cima deles. Puxam
da pistola - estou a topá-los pelo retrovisor, dou uma
guinada à mota e o tiro acertou-me na perna esquerda.
Doeu-me para caralhos!
- Caíste?
- Não, não. Fugi e procurei um médico.
- É uma cicatriz mais pequena.
- Um meio dedo.
- A seguir...
- Médico. Curou-me. Extraiu a bala. 9mm. Fiquei com a bala
durante 2 anos. Para recordar e vingar!
- ?
- E vinguei. Matei um com uma Parabellum!
- Não faças isso! Estás a brincar?! E nunca foste apanhado
por esse crime?
- Não. Era ao fim da tarde. Bilbau. Perto das sete horas.
Cara vendada como gostava de andar, capuz, capacete, em cima
da mota.
- Quanto tempo? Foi tudo dessa vez?
- Ainda fugido, dessa vez. Então, os 3 anos e meio são no
total. 1 ano e meio até Paris e 2 anos depois, incluindo
isto em Bilbau.
- Onde é que foi morto esse polícia espanhol? Conhecias?
- Não. Sabia é que estava no meu encalço, tentou abordar-me
por três vezes. Com carro...
- Então emboscaste-o?
- Embosquei-o num cruzamento, eu ia de mota com o capuz a
tapar a cara e capacete. Ele está de carro. Parei ao lado no
semáforo e dou um tiro à queima-roupa.
- 'Dei' ou 'dou'? Estás de novo no teu subconsciente a dar o
tiro neste momento. É importante esse pormenor.
- Dou o tiro à queima-roupa. A arma, uma 'Luger', tinha
silenciador, 9 mm, também.
- Dizes que ele morreu? Não ficou ferido?
- Morreu. Foi na cabeça!
- Não viste jornais? Rádio?
- Sei que morreu. A polícia andava toda em cima de mim. O
carro já não arrancou do sinal, ficou parado.
- E tu desapareceste dali? Estamos em 1995, '96?
- 1995. Claro. Aquela merda não fez barulho. Fui-me logo
embora. Nem esperei que abrisse o sinal mas controlei pelo
retrovisor que o carro já não arrancou pouco depois quando
ficou verde.
- Bom. Tens a certeza que foi isso mesmo? Não foi
imaginação, tu a quereres-te vingar, no subconsciente... o
nosso cérebro pode fazer partidas dessas. E depois, tens a
consciência daquilo que me acabas de contar, as implicações,
se for publicado? E se for verdade?
- Tudo o que escreveste é 'real'! Estive mais dois meses de
pensão em pensão. Regresso a Portugal. A minha mãe adoeceu.
No Natal. De 1995, é isso. Ocasião em que ela faleceu. Sou
preso em Portugal por estar a dar na coca e ir ao café
comprar um maço de tabaco. Os inspectores apontam-me uma
arma à cabeça e levam-me preso. A brigada de narcóticos da
GNR. Estou novamente preso no posto da GNR de Algueirão e
meia hora depois fugia.
* * *
- A 'realidade'!... Tu, pá, quase me fazias uma confusão de
um lapso de tempo de 10 anos, sobre quando passaste aquela
vez por Monsanto. 1986 ou 1996. Foi então em 1986, certo?
Depois já voltamos a esta fuga da GNR em 1995.
- Estás a falar em Monsanto? Sim, foi em 1986, há 18 anos.
- Estás certo? É esta a realidade 'real'? Ias à Psiquiatria
porquê, o que é que te dizem? Algo que possa influenciar
decisivamente esta tua noção do tempo ou da absorção da
realidade, que possas criar todo um cenário que não existiu,
para desempenhares mais um papel? Como é que garantes, há
testemunhas? De que o que me vais voltar a contar de
Monsanto é real?
- Isto é real, o que está aí...
- Então, estás pois tu em 1986, em Monsanto, nessa passagem
de seis meses. Como é que era, continuavas a consumir?
- Continuava. Tal como nas outras canas e quando em fuga.
Sempre.
- Como é que fazias para consumir, para comprar?
- Fiado. Comprava. Haxixe, 'rohips' (Rohypnol). Coca,
injectava. Na altura, estritamente num grupo, circulava a
'gringa'. Mas eu até tinha uma só para mim, não partilhava.
- Foi então que conheceste esse David de quem me falaste...
- Foi. Vivíamos no mesmo bailico. Eu é que vendia os cafés.
Comprava à quantidade na cantina, fazia e vendia.
- E o David?
- O David recebia o dinheiro dos cafés e do 'resto'. Ele lá
fora já possuía um café na Buraca. Estava 'dentro' por
tráfico. É conhecido, ele. O David, da Buraca. Era irmão do
Zé da Tarada - que foi morto por ciganos. O Zé da Tarada foi
um dos mais famosos assaltantes.
- O 'resto'?
- Droga. Era eu que vendia. Chamon. Ele era o dono do
negócio e eu faço o contacto com o público, a venda.
- Como é que isso era conseguido, quem trazia? Guardas?
- Não. Era o Charlie. Vinha duas ou três vezes por semana cá
abaixo, aos sectores. Estávamos no F e o David era o fiscal
do F. Deve ter sido no primeiro ou segundo ano dele aqui
neste EP.
- Confirmas que não te enganas na identificação?
- Confirmo. Passei uns seis meses lá em baixo, não assisto
directamente mas sei, e o David confirma. Quando ele vem ao
nosso sector e bailico o David faz-me sinal, pede-me para
sair. Esse tipo chega às onze, onze e pouco quando vem de
casa. Não há chamon antes da visita. Após a passagem dele
passa a haver...
- Que quantidades traz?
- Dez, quinze 'bolotas', como lhes chamamos - de cada
tirada. Arreia essas 10 ou 15, umas duas ou três vezes por
semana.
- Isso ainda era uma pipa de massa.
- Dava na altura para abastecer a cadeia toda. Éramos nós, o
David. E ele, esse Charlie, era o principal fornecedor.
- Isto é muitíssimo grave, apesar do afastamento temporal.
Tens noção disso?
- Tenho. Confirmo!
- Que mais gente desse tempo reconheceste agora?
- A Drª Mike.
- A Drª Foxtrot?
- Não. Que eu me lembre, não.
- Guardas?
- Não me lembro. Ah! O Papa Echo é desse tempo. Era o
período do Chefe Mariano.
- Então quais são as diferenças para a época actual? Hoje já
não está o Charlie a meter-se directamente nisso...
- Não. Actualmente são visitas do sexo masculino. As gajas,
só pó. Uma quarta, dose para consumo do namorado...
- Então a quantidade?
- Masculinos, visitas, passa bem. Não mandam despir aos
homens, passa bem. Chamon e pó.
- Mas fala-se em guardas...
- Que eu saiba, não conheço nenhum.
* * *
- Então ficámos na altura em que foges agora do posto da GNR
no Algueirão. Estamos em 1995 mais coisa menos coisa, um ou
dois anos perdem quase o significado, não é? E foi aí que
partiste a testa, pelo que já adiantaste.
- A testa partida? Olha, foi mesmo nesta fuga, da GNR. Um
desastre de mota, marrei de frente com um Ibiza. Mas como a
mota não ficou muito danificada continuei, mesmo com o
sangue a escorrer. Uma placa de platina, depois.
- Então como é que fugiste do Algueirão?
- Pela porta, um estava a atender no PBX e o outro a dormir,
distraídos. Saí e fechei-os à chave.
- Deram logo por isso?
- Não sei. Comecei a correr e fugi.
- E daí?...
- Olha, e soube por outras vias que às sete da manhã a
estação estava cercada por guardas GNR com G-3 mas aí já eu
estou longe. Apanho o primeiro comboio, o das quatro e meia.
Saí do posto eram onze e meia da noite. Estive escondido.
- O comboio não era o sítio lógico para te agarrarem?
- Fui apanhá-lo nas Mercês. Estive escondido não perto da
estação. Não no Algueirão. As Mercês são já mais perto do
Cacém. Tomo pois o comboio das quatro e meia da madrugada.
- Ninguém surgiu no comboio?
- Não.
- Depois?
- Saio no Rossio. E vou para a minha casa, aliás, a casa do
meu tio, na Almirante Reis. Estou lá umas horas. Peço-lhe 30
mil escudos. E em vez de ir para Espanha deixo-me ficar em
Portugal e sou logo preso umas 48 horas depois, às 4 da
manhã, com uma pistola Magnum apontada à cabeça. Em Mem
Martins.
- Porquê Mem Martins?
- Pela brigada de narcóticos da GNR. Ia buscar mais dinheiro
a casa, e roupa, para ir, então aí, até Espanha.
- ?
- Em que sou julgado, agora, pela fuga, a doze meses de
cadeia. Em que me encontro já preso, há quatro anos, a
cumprir os 3 anos e meio da fuga de França...
- O que é que fica por contar?
- Nada. Só a lista das diversas cadeias e o quotidiano, o
quotidiano... monótono... de quase todos estes 27 anos.
* * *
- Então quando é que sais? Falaste em viajar.
- Faltam-me 14 meses. Maio de 2005. 4 de Maio. Vou montar um
quiosque, para trabalhar, e penso fazer um cruzeiro com a
herança dos meus pais. Tenho o tio e um irmão...
- Cruzeiro. Onde?
- Caraíbas. Dissolver uns 3 mil dos 14 mil contos!
- Não tens medos, receios da vida exterior ou de voltar a
falhar? A derreter tudo, o dinheiro, as opções... De
prosseguires essa cruzada contra a GNR?
- Não! Mudo de esquina, já não tenho idade, não tenho nada a
ver com eles.
- Medo do caso em Espanha, do episódio que me contaste de um
gajo a quem furaste a cachola, em Bilbau, se é como dizes?
- Não. Nunca tive problemas.
- Não foi imaginação tua, paranóia? Se calhar nem estava
atrás de ti. Ou nem tinha a tua identificação.
- Não. Foi com a 'Luger' e silenciador. 9 mm. Parabellum.
Estava sim atrás de mim mas estava sozinho.
- E drogas? É o ponto final? Continuas? A tua 'ração de
combate'.
- Sempre. A ração de combate do dia a dia! Químicos,
psicotrópicos. Isso não vou largar. A 'gringa', isso nunca
mais. Drogas pesadas, ponto final. Só o velho chamonzeco. E
aqui dentro é fácil também, como vês...
- Gajas? Nunca?
- ...
- Miúdas, namoradas?
- Só em Angola, em 1975...
- O que vês no espelho? O vingador? Um exterminador?
- Sim. Um vingador!!! Sem dúvida nenhuma.
- Não tens pena de isso ser assim?
- Nenhuma. Puro vingador. Puro e duro.
- Funcionou contra ti, isto...
- É assim mesmo.
- Quando quero derrotar, neutralizar um inimigo, procuro ser
mais engenhoso, alianças tácitas com alguém com o mesmo
objectivo estratégico, algo maior, que camufle a questão
pessoal. Nem que seja apenas temporariamente. Mas tu, não!
Tinhas que ir logo à carga, directamente...
- Gosto mais assim.
- Não fazes um pouco de introspecção? Tentares explicar-te a
ti próprio?
- Não. Deixo isso para os outros. Não me critico nem me
culpo.
- Quando te cortas, aquilo que fazes a ti, é o que não podes
fazer aos outros, ou não é?
- Humm...
- Qual foi a faceta determinante que te levou a seguir todo
este caminho que trilhaste e não outro. A falta de afectos,
miúdas, desenraizamento de Angola, drogas, certo tipo de
amizades? O real, para ti o que é o real? A tua percepção do
tempo, do lugar, da Realidade? A consciência, o grau de
consciência de ti mesmo? A auto-estima... O que existe, como
te sentes, o que ficou...
- Não há mais nada. Não ficou nada.
- Boa sorte... e não fales muito com estranhos, quando
saíres!
- Vou fumar e dormir...
* * *
Não corrijo a (des)linearidade da entrevista. A sequência
espaço-temporal. Deixo que fique tal como está, em ritmo
aleatório, por vezes; dita nesses relâmpagos que lhe
irrompem do Passado, se acotovelam, desordenadamente, para
atingirem o Presente, no meio desta nuvem de fumo cinzenta
clara, que emerge mais como a expansão da cabeleira
desalinhada dele, em inflacção. Este Presente entrecortado
pela sincopada tosse, essa metralhadora de fita que corta e
compassa as palavras ora hesitantes, ora mais firmes, mas
que ele assegura sempre serem o retrato falado do 'Real'.
Acende um pauzinho de incenso-jasmim, adocicado, que
completa a névoa, a bruma em que agora se dissolve e
desaparece, para dormir. Fumar e dormir.