Snow Crash

Neal Stephenson

 

                                                                                                                       

Ó First published in USA by Bantam Books – 1992

ISBN 0-14   02.   32 92-3

Tradução - Paulo Oliveira

 

 

 


 

Às compras no Metaverso a partir do sofá

 

Na Realidade os Segurbúrbios são estados-nação em miniatura, os MetaGuardas aceitam os principais cartões de crédito e a CosaNostra está ao controle das franchises de pizzas.

 

Hacker por conta própria e moço de entregas, Hiro Protagonist compartilha com o seu par de espadas e mais um guitarrista ucraniano de ‘grunge-metal’,  um quarto/arrecadação ‘U-Stor-It’, em L. Angeles.   Na ‘Street’ ele é um dos eleitos que escreveu os protocolos do Metaverso por onde deambulam os avatars personalizados e o espaço de anúncio é pago ao pixel.

 

A Street é muito mais artilhada que a Realidade e menos perigosa até que um insidioso marginal começa a distribuir por aí fora amostras grátis de Snow Crash...

 

 

 

 

Os críticos

 

‘Snow Crash parece destinado a ser para a techno-cultura da década de noventa o que Neuromancer foi para a dos anos ‘80’.   - Observer

 

‘Mexido, denso, profundo e giro, mescla de Neuromancer e de Vineland.   O melhor livro que li este ano’.   - Rudy Rucker

 

‘Um livro soberbo que em muito excede os limites definidos quer da ficção científica quer da ficção cibernética.   Em todos os sentidos, um clássico moderno’.   - Martin James, in Muzik

 

‘A mais estonteante estreia nos anos recentes’.   - Charles Shaar Murray, in Time Out

 

‘O mais escaldante escritor de ficção científica da América.    Snow Crash é inquestionavelmente a maior novela de FC dos anos ‘90 (…) The Diamond Age promete mais do mesmo.   Os dois juntos representam uma nova era na Ficção Científica’.   - Bruce Sterling, in Details

 

‘The Diamond Age perspectiva o próximo século tão brilhantemente como Snow Crash visualizou o depois de amanhã... Quando Stephenson fala, tem-se a sensação que ele vai ter razão’.  – Newsweek

 

‘Mitologia descontraída para o século XXI num estilo livre em avanço acelerado’.  – William Gibson

 

‘Uma cornucópia de personagens, uma riqueza de actualidade e de vertentes sociais e tecnológicas, histórias-dentro-de-histórias, e não pouco sarcasmo.   Arrisque-se’.  - Time Out, acerca de ‘The Diamond Age’

 

‘Stephenson captura a nuance e o ritmo do novo mundo tão perfeitamente que pensamos ele estar já aqui hoje’.  – Washington Post

 

‘O Quentin Tarantino da Ficção Científica pós-cyberpunk’.   -  Village Voice

 

‘A extrapolação noir estilizada torna-se gloriosamente numa sátira social plena de piada.  Saboreiem a deliciosa prosa de Stephenson e a sua alegremente irreverente escrita de um humor elaborado.   O cyberpunk não morreu – apenas desenvolveu (tardiamente) um sentido de humor’. - Locus

 

               

 

 

O autor

 

Neal Stephenson publicou quatro novelas: The Big U; Zodiac; Snow Crash (em 1992) e The Diamond Age.   Pela última receberia em 1996 o Prémio Hugo.   Em conjunto com J. Frederick George e sob o nome de Stephen Bury escreveu os livros Interface e Cobweb.   A maior parte dos seus livros foram editados pela ‘Penguin’.   Neal Stephenson vive em Seattle onde trabalha noutras novelas.

 

 

Neal Stephenson emerge de um clã de professores desenraizados, itinerantes, das ciências puras e das engenharias.

Começou a sua educação superior como um graduado em Física e mudou então para Geografia onde aparentemente tal lhe permitiria abarbatar mais tempo livre no computador mainframe da sua universidade.

Quando se formou e descobre, para sua perplexidade, que não existia emprego para Geofísicos sem experiência, começou a olhar para trilhos alternativos tal como trabalhos em carros, serviços agrícolas, e escrita de novelas.   O seu primeiro romance - The Big ‘U’ - foi publicado em 1984 e desapareceu sem deixar rasto.   Zodiac: The Eco-thriller é a sua segunda novela.   Na sua primeira edição em 1988 rapidamente se tornou num fenómeno de culto com seguidores entre engenheiros de controle de produção de águas, e foi desfrutado – embora raramente adquirido – por muitos ambientalistas radicais.   O enorme sucesso que é  Snow Crash foi escrito entre 1988 e 1991 enquanto o autor escutava quantidades industriais de música opressiva, imparável e em alto volume.   Seria seguido por The Diamond Zone, igualmente um êxito.

 

 

 


 

 

snow... (neve) - subst.   2.a.   Algo semelhante a neve.   B. Os pontinhos brancos no écran da TV resultantes de má recepção.[1]

crash... verbointr.   ...5. queda abrupta, num negócio ou economia

The American Heritage Dictionary

 

vírus... do latim vírus -  [líquido peganhento, veneno, de odor ou paladar agressivo]   1. Veneno como o emitido por um animal venenoso.   2. Patologia.   Princípio patológico ou substância venenosa no corpo como resultado de algumas doenças, em especial diz-se de algo capaz de ser introduzido noutras pessoas ou animais por inoculação ou outras formas e neles replicar a mesma doença.   3. fig.   Um veneno moral ou intelectual, ou influência malévola.

The Oxford English Dictionary

 

1

O Deliverator pertence a uma classe de elite, uma categoria consagrada.   Esgalhou bem até chegar aqui.   Agora mesmo prepara-se para a terceira missão da noite.   O uniforme que enverga é negro que nem carvão activado, devora toda a luz do espaço envolvente.   Uma bala resvalará pela cobertura em aracnofibra como um passaroco embatendo na porta dos fundos, mas o excesso de transpiração facilmente flui por ela como a brisa no meio duma floresta recém varrida a napalm.   Onde recobre as zonas ossudas do corpo o fato possui armogel: ao toque, aquilo parece gelatina mas - nem vos conto - protege que nem uma pilha de listas telefónicas.

Quando lhe deram o emprego entregaram-lhe uma arma.   O Deliverator nunca transacciona em cash, mas bem, pode haver quem lhe dê na mona vir à carga – quererem a viatura ou até o recheio.   A arma é fina, aerodinâmica, leve, o tipo de arma que não desagradaria a um designer de moda.   Cospe uns finíssimos dardos que voam a cinco vezes a velocidade do hipersónico avião-espia SR-71 e quando se acaba de usá-la é só ligar ao isqueiro do carro.   É... aquilo funciona a electricidade.

O Deliverator nunca puxou da arma em situação de raiva ou medo.   Só uma vez a empunhou em Gila Highlands.   Alguns punks daí, de Gila Highlands, um dos fantásticos novos Segurbúrbios, esses autênticos estados-miniatura, quiseram uma entrega mas não queriam pagar.   Pensavam impressioná-lo com um taco de baseball.   O Deliverator saca da arma, alinha aquilo do laser nesse ameaçador taco – um Louisville Slugger – e vá de disparar.   O coice foi tremendo como se a arma lhe rebentasse na mão.   O terço central do taco acabara de se transformar numa coluna de serradura incandescente acelerando para fora em todas as direcções como uma estrela em explosão.   O punk acaba com um olhar estúpido estampado naquela cara a agarrar o punho do bastão de onde sai ainda um fumo leitoso da extremidade.   Do Deliverator só conseguiu foi chatice.

Desde aí o Deliverator tem mantido a arma no porta-luvas e confia antes num adequado par de espadas de samurai que de qualquer forma já eram a sua arma de eleição.   Os punks de Gila Highlands não haviam tido receio da arma por isso vira-se obrigado a usá-la.   Mas espadas... não precisam de demonstração!

O carro do Deliverator tem potencial bastante enlatado nas baterias, suficiente para projectar um presunto para lá da cintura de asteróides.   Ao contrário das ‘bimbo-boxes’ – as furgonetas – ou daquelas  batedeiras típicas da malta dos Segurbúrbios, a viatura do Deliverator liberta toda essa potência através dos seus esfíncteres, escapes todos escancarados, polidos, flamejantes.   Quando mete prego a fundo, há merda a sério.   Querem que vos fale do contacto com o asfalto?   Os rodados dos vossos carros têm estreitas porções de toque, conversam com o alcatrão em quatro sítios que não passam da largura de uma língua.   A viatura do Deliverator tem uns volumosos e grossos pneus com zonas de contacto tão cheias como as coxas de uma gaja gorda.   O Deliverator está em contacto com o terreno, arranca como um dia bera, consegue travar em cima de uma moeda.

Porque é que o Deliverator se equipa assim?   Porque o pessoal confia nele.   É um modelo-exemplo.   Isto é a América.   O pessoal faz aquilo que muito bem lhe dá na gana, porra!   Há algum problema nisso?   Porque têm o direito a fazê-lo.   E porque têm armas e não há ninguém que os vá parar.   Como resultado, este país ficou com uma das piores economias do mundo.   Quando se trata disso – falamos de balanças comerciais – a partir do momento em que deixámos fugir os nossos cérebros para outras paragens e que as coisas se baralharam – fabricam-se carros na Bolívia, microondas no Tadjiquistão e vendem-nos aqui – e uma vez a nossa margem em recursos naturais tornada irrelevante pelos gigantescos navios e dirigíveis de Hong Kong que podem empacotar todo o Dakota do Norte e por um tostão despachá-lo para a Nova Zelândia, uma vez que a ‘Mão Invisível’ arredou todas essas desigualdades históricas e as disseminou aos quatro ventos como uma película planetária que um qualquer assentador de tijolos paquistanês até considerará como prosperidade, sabem que mais?   Resta-nos apenas quatro coisas que ainda fazemos melhor que todos os outros

 

música

filmes

microcódigo (software)

pizzas entregues a alta-velocidade

 

O Deliverator costumava escrever software.   Ainda o faz às vezes.   Se a vida fosse uma branda escola elementar dirigida por gente fina, doutorados, o seu relatório traria com certeza:   “Hiro é extremamente inteligente e criativo mas falta-lhe apurar o seu sentido de cooperação.”   Assim, arranjou este novo emprego.   Não envolve inteligência ou criatividade – mas também não é necessário espírito cooperativo.   Apenas um princípio - o Deliverator arca com essa parte – “você tem a sua pizza em trinta minutos ou tê-la-á grátis, mata o chofer, fica com a viatura e mete-nos um processo de todo o tamanho.”

Oh!   Costumava-se discutir sobre tudo isso, muitos anos-condutor de tempo das firmas foi queimado nisso: chefes de família de cara vermelha  e suados, envoltos nas suas próprias petas, tresandando a Old Spice e ao stress do trabalhinho, esperando ali sob o clarão pálido da ombreira da porta, protestando com os seus Seikos, a apontarem para o relógio sobre o lava-loiças, juro!   não conseguem ver as horas?!

Já não era assim.   A entrega de pizzas tornara-se uma indústria principal, conseguida e apurada.   Ia-se para uma Universidade de Pizzas CosaNostra por quatro anos para aprender tudo isso.   Flanqueavam-se as portas à entrada sem saber escrever uma frase em inglês, gente vinda da Abkhásia, Ruanda, Guanjanuato, Jérsei do Sul, e saía-se de lá sabendo mais de pizzas que um beduíno sabe de areia.   E debateram esta questão.   Colocava-se em gráficos a frequência dessas disputas à porta de casa, sobre tempos de entrega.   Os primeiros Deliverators eram completamente monitorizados, gravados, analisados, bem como as respectivas tácticas de argumentação, histogramas de tensão da voz e as estruturas gramaticais específicas empregues pela classe-média branca Tipo-A dos ocupantes de Segurbúrbios que contra toda a lógica achavam que era esta a situação para a desforra num estilo pessoal muito ‘custeriano’ contra tudo o que afligia e ia amortalhando as suas vidas:   iriam mentir, iludir-se até a si próprios sobre a hora em que telefonaram para o pedido, e conseguirem assim uma pizza grátis.   Não, eles mereciam mesmo uma pizza grátis a acompanhar a vida, a liberdade e o almejar do que quer que fosse, isso era lixadamente inalienável.

Foram enviados psicólogos até aos lares desta gente, foram-lhes dados televisores para submetê-los em seguida a entrevistas anónimas, ligaram-nos a polígrafos, estudaram-se as suas ondas cerebrais conforme visionavam filmes sanguinolentos, fitas de rainhas-porno e de carros espatifando-se na madrugada, e de Sammy Davis Jr., punham-nos em quartos tresandando a suor e com paredes revestidas em tons malva e então interrogavam-nos sobre Ética de uma forma tão perplexa, inesperada, que até um Jesuíta não poderia responder sem incorrer em pecado venial.

Os analistas na CosaNostra Pizza University concluiriam que aquilo era próprio da natureza humana e nada havia a fazer, não se podia alterar, pelo que se enveredou por uma alteração técnica rápida e económica – as caixas inteligentes.   A caixa de pizzas é agora uma carapaça plástica enrugada, para manter a solidez, com um pequeno visor de díodos luminosos – um LED – a brilhar num dos lados, dizendo ao Deliverator quantos preciosos e produtivos minutos já bateram desde o fatídico telefonema.   No interior há chips e outra tralha electrónica.   As pizzas descansam numa pequena pilha de encaixes por detrás da cabeça do Deliverator.   Cada pizza desliza para a sua gaveta tal como uma placa de extensão se encaixa no miolo dum computador, ouve-se um ‘clic’ conforme a interface da caixa-inteligente se liga ao sistema instalado a bordo da viatura do Deliverator.   O endereço de quem pediu aparece já, desenterrado a partir do número telefónico, descarregado para a RAM - a memória interna da caixa-inteligente.   Daí foi comunicado ao carro cujo computador projecta logo o melhor caminho a seguir nesse ‘display’ frontal, um mapa transparente desenhado em colorido brilhante contra o pára-brisas de modo que o Deliverator nem tenha sequer que baixar o olhar.

Se o prazo de trinta minutos expirar, notícias de catástrofe são encaminhadas num relâmpago para a sede geral da CosaNostra e daí ao próprio Tio Enzo – o ‘Coronel Sanders’ siciliano, o Andy Griffith de Bensonhurst, o personagem fantástico de ameaçadora navalha em riste que povoa tantas noites de pesadelo do Deliverator, capo e primeira figura da CosaNostra, Lda. – que estará directamente ao telefone com o freguês em cinco minutos desculpando-se profusamente.   No dia seguinte, Tio Enzo aterrará no seu helicóptero a jacto no pátio do cliente e mais uma vez pedirá desculpas e oferece uma viagem grátis a Itália – tudo o que o cliente tem a fazer é assinar uma resma de papelada que irá fazer dele uma figura pública autêntico porta-voz das Pizzas CosaNostra, colocando um ponto final à sua vida privada tal como tem sido até aí.   Acabará por sair disto tudo com o sentimento até de que deve à Mafia um favor.

O Deliverator não sabe, claro, o que acontece ao condutor em tais falhanços, mas ouviu alguns rumores.   A maior parte das entregas ocorre à noitinha, no que o Tio Enzo considera ser já o seu período privativo.   Como é que se sentem se tiverem que interromper o jantar com a família para ir ligar a um estuporado burro num Segurbúrbio e humilhar-se pela porra de uma pizza atrasada?   Tio Enzo não gastou cinquenta anos a servir a sua família, o seu país, e numa idade em que a maior parte já só pretende é jogar golfe e estragar com mimos as netinhas, para isto, para poder sair da banheira a escorrer e ir baixar-se e beijar os pés de algum punk de dezasseis anos em skates, que se queixa de uma pizza pepperoni ter levado 31 minutos a chegar.   Oh, Deus.   Isso faz o Deliverator suster um pouco a respiração só para abarcar a ideia.

Mas ele não se poria a conduzir para as pizzas CosaNostra se as coisas fossem de forma diferente.   E sabem porquê?   Porque há algo nisso, de se ter sempre a vida em suspenso.   É como ser-se piloto kamikaze.   A mente límpida.   Outra gentola – empregados de loja, fritadores de hambúrgueres, engenheiros de software, o vocabulário todo disso, o rol completo de todos os empregos sem sentido que fazem este ‘Viver na América’ –  a ‘outra gente’ agarra-se apenas a essa antiga e simples competição: ‘revirar melhor os hambúrgueres ou compilar rotinas informáticas mais rápido e melhor que os outros companheiros de turma dois quarteirões mais abaixo, pois é disso que se trata, estamos em competição com os outros gajos, e é nisto que o pessoal repara’.

Mas que merda de corrida de ratos que isto é.   A CosaNostra não envolve competição.   A competição vai contra a ética da Máfia.   Não trabalhas mais por estares a concorrer contra alguma operação idêntica um pouco mais à frente na rua.   Trabalhas mais porque tudo está em jogo.   O teu nome, honra, família, a tua vida.   Esses palhaços dos hambúrgueres podem ter uma melhor expectativa de vida – mas que tipo de vida é essa – acabas por perguntar a ti próprio.   Aí está porque ninguém, nem mesmo os japoneses, conseguem entregar pizzas mais rápido que a CosaNostra.   O Deliverator orgulha-se de envergar o seu uniforme, orgulha-se de conduzir aquela viatura, de marchar através da entrada da frente de lares de inumeráveis Segurbúrbios, um aspecto severo na sua indumentária preta de ninja, uma pizza ao ombro, dígitos vermelhos no LED incendiando orgulhosos números pela noite adentro – 12:32 ou 15:15 ou o ocasional 20:43.

O Deliverator funciona ligado à loja Pizza CosaNostra N.º 3569, no Valley.   A Califórnia do Sul parece não se decidir entre expandir-se ou deixar-se congestionar ali mesmo.   Faltam estradas que cheguem para aquela gente toda.   A Fairlanes, Lda. bem que constrói mais a toda a hora à custa de ‘bulldozear’ as redondezas à fartazana, mas não era para isso mesmo que construíram esses mamarrachos?   Para levarem com os bulldozers?   Sem passeios, sem escolas, sem nada.   Nem corpo de polícia próprio tinham, ou controle de imigração, a qualquer hora os indesejáveis podiam entrar sem serem revistados ou chateados.   Hoje em dia, sim, um Segurbúrbio é um sítio para se viver.   Uma cidade-estado com a sua própria constituição, leis, polícia, tudo.

O Deliverator chegou a ser durante algum tempo um agente na FMSSF – Farms of Merryvale State Security Force (a Força de Segurança do Estado das Farms de Merryvale).   Viu-se despedido por puxar de uma das espadas perante um reconhecido delinquente.   Roçou-a através do tecido da camisa do gajo, passando-lhe depois a face da lâmina ao longo da base do pescoço e terminando por pregá-lo ao painel emoldurado e acolchoado em vinil existente na parede da casa que o bandideco se preparava para arrombar.   Pensava que era algo perfeitamente admissível, mas acabaram por despedi-lo, pois o puto era afinal o filho do vice-chanceler das Farms de Merryvale.

Oh, os manguços tinham uma desculpa:   alegaram que uma espada de samurai com 90 centímetros não estava incluída no seu ‘Protocolo de Armas’.   Disseram que havia violado o SPAC – Código de Detenção de Suspeito Transgressor, que o ‘delinque’ havia sofrido trauma psicológico.   Agora até de facas de manteiga ficara com medo, usava as costas de uma colher para barrar o doce no pão.   Afirmavam que ele os havia tornado vulneráveis.

O Deliverator teve que pedir dinheiro emprestado para pagar por isso e teve de facto que pedi-lo à Máfia.   Desde então passou a constar da sua base de dados – mapa de retina, ADN, gráfico de voz, impressões digitais, impressões palmares, dos pés, pulsos, a porra de qualquer parte do corpo que tivesse sulcos –  em quase tudo esses bastardos botaram tinta para fazerem uma impressão e a digitalizarem para o computador deles.   Mas era o dinheiro deles, claro que eram cuidadosos no respeitante a emprestá-lo.   E quando se candidatou para o emprego de Deliverator ficaram entusiasmados em admiti-lo pois já o conheciam.   Chegado o empréstimo, teve que tratar pessoalmente com o vice-capo assistente para o Valley, o qual acabou por recomendá-lo para o tal trabalho como Deliverator.   Era como estar-se em família.   Uma verdadeiramente assustadora, retorcida e abusiva família.

A loja n.º 3569 da CosaNostra fica na Vista Road logo depois do Kings Park Mall.   A Vista Road pertencera em tempos ao Estado da Califórnia e havia sido entretanto rebaptizada como Estrada Fairlanes, Lda.  - CSV-5.   A sua principal rival costumava ser a auto-estrada federal dos Estados Unidos, agora conhecida como Estrada Cruiseways, Lda. - CAL-12.   Mais acima no Vale as duas acabavam por se cruzar.   Chegaram a existir acesas disputas, o cruzamento encerrado pelo fogo esporádico de franco-atiradores.

Finalmente um importante construtor comprou toda a zona de intersecção e tornou tudo isso numa imensa área comercial com acesso por viatura.   Agora as duas vias alimentam apenas um enorme e complexo sistema de parqueamento, perdendo assim a respectiva identidade.   Passar através deste cruzamento envolve inúmeras opções, vias à escolha, pelo meio deste sistema de parques, autênticos filamentos entrançados nesta vastidão de tantas direcções possíveis como o trilho de Ho Chi Minh.   Neste jogo a CSV-5 salienta-se por dar uma passagem mais rápida mas a CAL-12 garante um melhor pavimento.   Isto é típico – as estradas da Fairlanes salientam o facto de ‘colocá-lo lá rápido’, o ideal para condutores do Tipo-A, e a Cruiseways realça antes o prazer da condução, para condutores Tipo-B.

O Deliverator é um condutor Tipo-A, raivoso.   Aponta agora para a sua base-mãe, a 3569 da CosaNostra, devorando a faixa da esquerda da CSV-5 a 120 quilómetros por hora.   O seu carro, uma invisível pastilha preta, apenas um lugar escuro que vai reflectindo o túnel de anúncios luminosos das franchises – o ‘loglo’[2].   Uma fila de luzes laranja parece borbulhar, agitar-se lá na frente onde estaria a rede do radiador, fosse este um dos antigos carros ‘respiradores’ de ar.   O clarão laranja faz lembrar gasolina em fogo.  Perpassa através das janelas traseiras do pessoal mais à frente, ressalta dos retrovisores, projecta uma máscara flamejante pelos olhos deles adentro, atinge o subconsciente onde acorda terríveis medos de se verem esmagados totalmente conscientes debaixo de um tanque de combustível em explosão, o que os faz afastar e dar passagem ao Deliverator na sua carruagem preta de pepperoni em fogo.

O ‘loglo’ ali por cima, esse clarão dos anúncios que marca a CSV-5 em dois rastos distintos, é como todo um corpo de luz eléctrica feito de inúmeras células, cada uma delas desenhada em Manhattan por gente da imagética que levam mais pelo design de um simples e único logo que o Deliverator conseguirá fazer em toda a sua vida.   Apesar dos esforços de conferir algo distinto a cada, todos afinal acabam por se confundir e amalgamar especialmente quando se passa por eles a uns 120 à hora.   Ainda assim é fácil reconhecer o CosaNostra 3569 pelo cartaz alto e largo mesmo pelos actuais standards exagerados.   Com efeito aquela franchise rasteira não se parece senão como uma base, um monte de lastro para a enorme estrutura em fibra de arame sintético que ergue o cartaz para esse céu, firmamento de marcas comerciais.   ‘Marca Registada’, baby!

O reclame em si é clássico, sóbrio, não uma fantasia inserida em qualquer efémera campanha massificada de promoção da Máfia.   É uma afirmação, um monumento feito para perdurar.   Simples e dignificante.   Mostra-nos o Tio Enzo num dos seus janotas fatos italianos.   Riscas finas brilhando e flectindo como tendões, o bolso um quadrado luminoso.   Cabelo perfeito, alisado, mantido para trás com algo fixante, cada madeixa devidamente direita, aparada pelo primo Art - o barbeiro - que gere a segunda maior cadeia de gama baixa de estabelecimentos de cabeleireiro do mundo.   Aí está pois o Tio Enzo, não na verdade sorrindo, um quê de rapina no olhar só para que não restem dúvidas, não em pose de modelo mas apresentando-se como um tio deve ser, e afirma ele:

 

A Máfia

Na Família tens um amigo

pago pela Fundação CosaNostra

 

O cartaz serve pois de estrela polar, uma bússola, para o Deliverator saber que ao chegar ali pela CSV-5 onde o canto inferior do anúncio é obscurecido por aqueles arcos de vidro fosco em estilo pseudo-gótico da também franchise ‘Portões de Pérola do Reverendo Wayne’, é altura para se chegar às faixas da direita por onde se arrastam os vagarosos e as ‘bimbo-boxes’ à balda, indecisos, olhando para cada entrada de franchise que passam sem saber se aquilo esconde uma promessa ou ameaça.

Atravessa à frente de uma ‘bimbo-box’, rasa pela Buy ‘n’ Fly (Comprar & Desandar) que fica mesmo ao lado e enfia para a CosaNostra  3569.   Gemem os grossos rodados, as zonas de contacto queixam-se um pouco, mas mantém-se firmemente agarrados ao pavimento patenteado para alta-tracção das Fairlanes e levam-no até à zona de abastecimento.   Não está nenhum outro Deliverator à espera.   Isso é bom pois significa para ele mais rotação, acção rápida, sempre em movimento!   Conforme guincha ao travar a escotilha electromecânica na parte lateral da viatura está já a abrir-se revelando as ranhuras vazias para as pizzas, a portinhola com um estalido acabando de se retrair e escamotear como a asa de qualquer besouro.   As fendas em espera... À espera  por pizza quentinha.

À espera... O Deliverator faz soar a buzina.   Não está a ser nada habitual isto.   A janela da franchise escancara-se.   Isto nunca devia acontecer.   Bem que podemos procurar no manual editado pela CosaNostra Pizza University qualquer referência cruzada para os termos janela, abastecimento, atendedor, e o livrinho lá dará os procedimentos para esta janelinha – nunca deverá estar aberta.   A menos que algo esteja errado.

A janela escancara-se e – ainda estás aí sentado? – há fumo a sair entretanto através dela.   O Deliverator ouve um zumbido discordante por sobre a tempestade de metal do seu sistema de som e verifica que provém de um alarme de fumo no interior da franchise.

Prime o botão ‘sem som’ do stereo.   Os seus tímpanos aguçam-se no meio deste quase silêncio, tão opressivo – e a janela a debitar o mesmo grito de alarme.   O carro ali especado, em espera.   A escotilha aberta já há um bom pedaço, todos aqueles poluentes atmosféricos em contacto, a pegarem-se às partes eléctricas na retaguarda das gavetas para as pizzas – terá que as limpar mais cedo que o previsto, tudo a correr exactamente ao contrário do que vem no livrinho que diz tudo e mais alguma coisa destes ritmos do universo da pizza.

No interior, um abkhaze que mais parece uma bola de futebol não se farta de andar para trás e para diante segurando um manual aberto usando o pneu da pança como suporte e para aquilo não se fechar; gira com a leveza de um tipo equilibrando um ovo numa colher.   Está a gritar em abkhaze.   Todos os que gerem franchises da CosaNostra nesta parte do Vale são imigrantes abkhazes.

Não parece ser grave o incêndio.   O Deliverator assistiu uma vez a um a sério nas Farms de Merryvale e não se conseguia ver nada com o fumo.   E era tudo: fumo gorgolejando não se sabia bem de onde, ocasionais relâmpagos alaranjados rentes ao solo elevando-se como calor em altas nuvens.   Este não era esse tipo de fogo.   É o tipo de incêndio que larga apenas fumo suficiente para fazer disparar os alarmes.   E estava ele aqui a perder tempo com esta merda.

O Deliverator manda agora uma buzinadela contínua até que o gerente abkhaze se chega à janela.   É suposto usar-se o intercomunicador para contactar com os condutores, podia dizer o que quisesse que aquilo era levado directamente ao carro do Deliverator, mas não, tinha que se pôr para ali a falar cara a cara com ele como se o Deliverator fosse qualquer merda de carroceiro.   Lá está ele de face vermelha, suando, olhos revirando-se conforme tenta encontrar as palavras certas em inglês para se explicar.

“Um incêndio, pequenino” – diz ele.

O Deliverator nada diz.   Sabe que está tudo a ser registado em vídeo.   Depois, o conteúdo da fita é encaminhado para a CosaNostra Pizza University onde irá ser analisado num laboratório científico para gestão de pizza.   Será mostrado aos estudantes da universidade – provavelmente até aos mesmos que virão a substituir este tipo quando for despedido –  como um exemplo, um ‘caso de cartilha’ de como lixar a vida.

“Um novo empregado – pôs o jantar no microondas – a embalagem em papel de alumínio e buuum!” – tenta o gerente justificar-se.

A Abkhásia fez parte da União Fodida Soviética.   Um novo imigrante da Abkhásia a tentar usar um microondas é como meter um verme tubular das profundidades oceânicas a efectuar cirurgia cerebral.   Onde é que foram arranjar estes gajos?   Não há americanos que saibam cozinhar a porra de uma pizza?

“Dá-me uma!” – pede o Deliverator.

Falar em pizzas parece trazer o tipo de volta a este século.   Agarra num manípulo e com estrondo encerra a janela abafando o incansável lamento do alarme.   Um braço robotizado nipónico empurra uma pizza para fora e encaixa-a na gaveta do topo.   Logo a escotilha se fecha, protegendo-a.   Conforme o Deliverator larga da zona de abastecimento carregando na velocidade, verificando a morada que se projecta já sobre o pára-brisas, a decidir se há-de virar à direita ou à esquerda, é que a coisa acontece.   O ‘stereo’ desliga-se desta vez comandado pelo sistema automático de bordo.   As luzes do cockpit passam a vermelho.   Vermelho!   Um besouro repetitivo principia a ouvir-se.   O visor LED sobre o pára-brisas – uma repetição do que está na caixa da pizza – mostra 20:00.

Deram ao Deliverator uma pizza já pedida há vinte minutos.   Verifica a morada.   Encontra-se a 19 quilómetros.

2

O Deliverator deixa sair um rugido involuntário e mete prego a fundo.   As emoções mandam-no voltar atrás e liquidar aquele gerente, tirar as espadas da bagageira, mergulhar como um ninja pela janelinha de correr e persegui-lo através daquele caos na confusão de microondas da franchise e defrontá-lo num crucial e terrível apocalipse.

Mas é o mesmo tipo de pensamento que lhe ocorre quando alguém se mete à frente na auto-estrada e ele nunca chegou a vias de facto – até agora.

Vai conseguir desenrascar-se.   É praticável.   Mete ao máximo as luzes laranja de aviso, os faróis dianteiros em auto-flash.   Ignora o besouro de aviso, liga a aparelhagem para a banda Taxiscan usada pelos teletáxis e que varre todas as frequências usadas por esses condutores, à cata de algo interessante sobre o tráfego.   Não consegue perceber a porra de uma palavra!   Bem que podes comprar as tais cassetes do ‘aprende-enquanto-guias’ e aprender a falar Taxilinga.   Era essencial se se quisesse um emprego no ramo.   Diziam que era baseado no inglês mas nem uma palavra em cem era reconhecível.

Ainda assim, podia-se ter uma ideia.   Se houvesse problema adiante aqui nesta via lá estariam a tagarelar sobre isso em Taxilinga e isso dar-lhe-ia um certo aviso, permitiria que escolhesse uma estrada alternativa de maneira a que não

Se soldasse ao volante

Engarrafado no tráfego

Olhos a incharem, ele a sentir a tensão esmagá-los

Contra o crânio

Ou apanhado atrás de uma casa volante

Já com a bexiga a rebentar

E ter a pizza para entregar

Oh, Deus, Deus meu

Em atraso

 

20:26 suspensos sobre o pára-brisas; tudo o que antevê e em que pensa são nesses 30:01

Há algo de azáfama na conversa entre os taxistas.   Taxilinga acaba por ser um tagarelar melífluo com alguns laivos de sons estranhos, tal como manteiga temperada com vidro moído.   Continua a entender por várias vezes a palavra ‘tarifa’.   Sempre a regatear sobre a merda das tarifas!   Ganda coisa!   O que acontece se tivesses uma tarifa para entregar

atrasada

Não apanhaste já o suficiente em gorjas?   Ganda negócio!

Como habitual, é a grande lentidão que domina no cruzamento da CSV-5 com a Oahu Road e a única alternativa é fazer um corta-mato através dos TMAWH - The Mews at Windsor Heights.   Todas as zonas TMAWH têm a mesma configuração.   Sempre que cria mais um Segurbúrbio a Corporação de Desenvolvimento TMAWH até manda abaixo qualquer cadeia de montanhas que se intrometa nos planos, diverge rios por mais portentosos que sejam, e que ameacem interromper esta planificação viária ergonomicamente delineada para encorajar a segurança da condução.   Um Deliverator pode entrar num Mews at Windsor Heights vindo de qualquer lugar desde Fairbanks a Yaroslav ou da zona económica especial de Shenzhen e encontrar o caminho de volta.

Uma vez entregues pizzas por todas essas casas do Segurbúrbio uma porrada de vezes, começas a topar alguns dos seus pequenos segredos.   O Deliverator é um tipo assim.   Sabe que num TMAWH normal existe apenas um largo – um largo – que impede que se entre por uma das entradas  e através do Segurbúrbio se saia directamente pela outra.   Se tiveres relutância nisso de pisar relva, a coisa pode levar-te bem uns dez minutos, andar às voltas pelo TMAWH.   Mas se tens tomates para deixar esses rastos atrás a sulcar o tal parque, então é um tiro passar pelo centro.

O Deliverator conhece esse parque.   Já teve pizzas a entregar por aí e na altura olhou para o largo, fez o reconhecimento, decorou a localização da casota e da mesa de piquenique, até na escuridão os saberia situar – e sabe que se isto acontecesse, uma pizza com 23 minutos e milhas para andar e com este engarrafamento na CSV-5 e Oahu, podia então meter-se pelos The Mews at Windsor Heights (o seu ‘visa’ electrónico de gajo de entregas faria alçar o portão de entrada automaticamente), entraria a chiar Heritage Boulevard abaixo, batia a curva para Strawbridge Place (ignorando o sinal de BECO SEM SAÍDA, os ideogramas de limite de velocidade e de CRIANÇAS BRINCANDO que se encontram especados tão profusamente pelos TMAWH), a esmagar as lombas sonoras debaixo dos seus poderosos pneus radiais, e dispararia pela entrada do N.º 15 do Strawbridge Circle, depois, uma volta apertada à esquerda torneando o barracão nas traseiras, deslizar para as traseiras pegadas do N.º 84 de Mayapple Place – evitando a mesinha manhosa - e pela sua passagem particular desaguar na Mayapple que o levará a Bellewood Valley Road que daí corre direitinha até à saída do Segurbúrbio.   A polícia de segurança dos TMAWH bem que poderá estar já à sua espera à saída mas os STD (Severe Tire Damage) – os rebentadores de pneus – apenas funcionam num sentido: aquilo foi feito é para manter o pessoal do lado de fora e não do lado de dentro.

Este carro, foda-se, pode ir tão rápido que se um chui mandar uma trinca num donuts à entrada do Deliverator pelo Heritage Boulevard provavelmente ainda não a engoliu até à altura em que o Deliverator se esgueire pela saída para Oahu.

Thunk.   Mais lâmpadas vermelhas que se acendem no pára-brisas: o perímetro de segurança da viatura do Deliverator acaba de ser violado.

Não.   Não pode ser.

Alguém vem aí atrás.   Mesmo no seu flanco esquerdo.   Uma pessoa num skateboard rolando auto-estrada abaixo mesmo atrás dele, precisamente quando já está nos seus vectores de aproximação ao Heritage Boulevard.

O Deliverator no seu estado de distracção deixou-se ser fisgado.   É como ser-se arpoado.   Só que aquilo é um grande electroíman redondo, almofadado, na ponta de um cabo em aracnofibra.   Acaba de ressoar nas traseiras da viatura do Deliverator e engatou-se aí.   Três metros atrás dele o dono deste maldito engenho vai a surfar, consegue assim uma boleia dele em skates como se fosse um esquiador arrastado por um barco.

Do retrovisor saltam flashs alaranjados e azuis.   O parasita não se limita a ser um punk curtindo uma boa.   É um gajo de negócios a fazer dinheiro.   O macacão laranja e azul que o envolve numa almofada de armogel sintetizado é o uniforme de um Korreio.   Um Korreio da RadiKS – a Radikal Korreio Systems.   Tal como um estafeta de bicicleta mas centenas de vezes mais irritante porque nem tinham que pedalar à própria custa – apenas se agarram a ti e roubam-te velocidade.

É óbvio.   O Deliverator ia numa brasa, luzes a piscar, esforçando as zonas de tracção ao máximo.   A coisa mais rápida que se movia sobre aquela estrada.   É óbvio que seria o eleito pelo Korreio para se enganchar.

Não há que ficar embaraçado.   Com o atalho através dos TMAWH terá tempo de sobra.   Ao passar por um carro mais lento que segue pela faixa central guina mesmo à sua frente.   O Korreio terá que se soltar se não quer ser projectado lateralmente contra este veículo vagaroso.   Já está.   O Korreio deixou de se ver a três metros lá atrás... Está aqui mesmo, afinal, a espreitar pela janela da retaguarda.   Antecipando a manobra o Korreio enrolara o cabo que está ligado a um punho com bobina motorizada e encontrava-se agora mesmo em cima do carro das pizzas, o rodado da frente da sua prancha sob o pára-choques traseiro do Deliverator.

Uma mão embrulhada em laranja e azul estende-se para diante com uma folha de plástico transparente aberta e pespega-a contra a janela do lado do condutor.   O Deliverator acaba de levar com um autocolante.   O emblema tem cerca de 30 centímetros e tem garrafais letras cor de laranja  impressas ao contrário de modo a ser  lido do interior.   Pode-se ver

 

ESSA É VELHA!

 

Quase falha o desvio para The Mews at Windsor Heights.   Mete travões a fundo, deixa o tráfego passar e corta para a rampa de acesso ao Segurbúrbio.   O posto de fronteira encontra-se bem iluminado e os agentes no controle prontos para revistar todos os entrados – mesmo busca-em-cavidades-orgânicas – se for malta do tipo errado,  mas o portão ergue-se logo como por magia, o sistema acaba de reconhecer tratar-se de um veículo da CosaNostra Pizza, só uma entrega, sir.   E conforme ele passa, o Korreio, essa carraça presa ao rabo, atreve-se ainda a acenar para a polícia de fronteira.   Uma chaga!   Como se viesse aqui regularmente!

E provavelmente virá mesmo aqui amiúde.   Buscar alguma merda importante a gente importante dos TMAWH, para entregar em qualquer outro FOQNE (Franchise-Organized Quasi-National Entities) – Entidades Quase-Nacionais organizadas em Franchising – passando através destas alfândegas.   É o que fazem os Korreios.   Ainda.

Segue demasiado lento, perdeu algum do balanço que levava, o tempo a fugir.   Onde é que se meteu esse Korreio?   Ah, soltou agora um pouco mais de cabo e vai novamente mais atrás.   O Deliverator sabe que este parvo vai levar com uma ganda surpresa.   Será que se aguenta na porra da prancha conforme é atirado sobre os destroços esmagados de algum triciclo de criança a 100 quilómetros por hora?   É isso que vamos verificar.

O Korreio inclina-se para trás – O Deliverator não pode deixar de o ver pelo retrovisor – mas ele inclina-se mesmo para trás como um esquiador náutico, força na prancha para compensar, e vai girando, agora a andar praticamente a par do veículo conforme metem pelo Heritage Boulevard e aí carimba ele mais um autocolante, desta feita ao pára-brisas!   Aí está

 

NAS CALMAS, ex-LAX[3]

 

O Deliverator já ouviu falar destes novos emblemas autocolantes.   Levam horas a serem descolados.   Tem que ir com a viatura a uma casa especializada.   Pagar triliões de dólares.   O Deliverator tem agora duas coisas em agenda:   vai dar um abanão a este escumalha de rua custe o que custar e entregar a merda da pizza tudo isto no espaço de

 

24:23

 

... nos próximos cinco minutos e trinta e sete segundos.

É isso – há que tomar mais atenção à estrada – vira para a transversal sem aviso com esperança talvez de despedaçar o Korreio contra a tabuleta num poste à esquina.   Tentativa gorada!   Os mais espertos vigiam com atenção os teus pneus dianteiros, vêm logo quando começas a virar, não os surpreendes assim à má fila.   Strawbridge Place abaixo.   Parece imensamente comprida, mais do que se lembrava – é natural quando se está com uma pressa destas.   Vês o reflexo dos carros lá à frente estacionados nos lados da rua – era suposto estarem lá mais ao fundo na rotunda.   E aí está a tal casa.   Revestimento em vinil azul claro, dois pisos com uma garagem térrea adjacente.   Faz da passagem particular da casa agora o centro do seu universo, limpa o Korreio da mente, tenta não pensar no Tio Enzo, o que estará ele a fazer neste momento – no banho, talvez, ou a arrear o calhau, ou na cama com alguma actriz, ou a ensinar musiquetas sicilianas a uma das suas vinte e seis netinhas.

O choque com o ressalto para a passagem manda a suspensão da frente meio caminho para dentro do compartimento do motor, mas é para isso que os amortecedores existem.   Esgueira com o carro passagem acima – devem ter visitas esta noite, não se recorda desta malta conduzir um Lexus – corta através da pequena sebe para o pátio lateral, tenta contornar o barracão, a tal casota que não está mesmo nada interessado em abalroar

não está lá, retiraram-na

próximo problema, a mesa de piquenique no outro quintal

alto aí, há uma vedação, quando é que meteram esta vedação?

Não é tempo para travões.   Há que ganhar mais velocidade, mandá-la abaixo sem desfazer toda aquela embalagem que leva.   É apenas uma cerca em madeira com um metro e pouco.   Facilmente a vedação é derrubada e perde quanto muito dez por cento da velocidade.   Mas estranhamente aquilo parecia como uma vedação à moda antiga.  Talvez tenha feito um desvio nalgum sítio...   pensa ele, conforme se vê já catapultado para dentro de uma piscina particular vazia.

 

Estivesse ela cheia de água e a coisa não teria sido tão bera, talvez o carro se safasse e ele não devesse à CosaNostra um novo.   Mas não, como um ‘Stuka’ espeta-se contra a parede mais afastada, aquilo é mais uma explosão do que um choque.   O airbag enche-se e um segundo mais tarde desce como uma cortina revelando a estrutura da sua nova vida.   Cá está ele especado num carro abatido numa piscina vazia de um TMAWH, as sirenes da polícia de segurança do Segurbúrbio aproximam-se e ainda há a pizza no suporte atrás da sua cabeça aguardando aí como uma lâmina de guilhotina em suspenso e a dizer 25:17

‘Aonde é a ida?’ – pergunta alguém.   Uma voz de mulher.

Olha para cima através da moldura retorcida da janela, cercada pela estrutura fractal do vidro de segurança cristalizado em fanicos.   É a Korreio que lhe fala.   Este Korreio não é um tipo, é uma gajinha nova.   A porra de uma adolescente.   Aí está ela, fresquinha, ilesa.   Deslizou com a prancha até ao chão da piscina e já está a oscilar para trás e para diante de um lado até ao outro, sobe por um dos bordos quase até ao cimo, meia-volta, torna a descer e trepa pelo lado oposto.   Na mão direita segura o tal dispositivo, o electromagneto, o cabo agora completamente recolhido no punho de tal forma que aquilo mais parece um raio da morte intergaláctico de feixe largo.   O peito dela rebrilha como o dólmen de um general com um cento de fitinhas e medalhas, só que cada rectângulo daqueles não é uma fita mas um código de barras.   Códigos de barras com números de identificação para acesso a diferentes companhias, auto-estradas ou FOQNE.

“Ôi! – diz ela – para onde é que vai esta pizza?”

Ele condenado à morte e ela ali a gingar.

“White Columns, N.º 5 Oglethorpe Circle” – responde-lhe ele.

“Posso tratar disso.   Abre lá a portinhola.”

O coração dele parece inchar para o dobro do normal.   As lágrimas inundam-lhe os olhos.   Sobreviverá!   Prime um botão que abre a escotilha.

Na próxima órbita dela pelo chão da piscina a Korreio arranca a pizza do encaixe.   O Deliverator franze-se ao imaginar a cobertura de alho feita num harmónio contra o fundo da caixa.   Depois já ela atafulhou a caixa debaixo do braço.   A visão daquilo é mais do que um Deliverator consegue suportar.

Mas ela conseguirá lá chegar.   O Tio Enzo não tem que pedir desculpas por pizzas feias, arruinadas, frias, só por pizzas atrasadas.

“Hey! – chama ele – toma isto!”

O Deliverator estende um braço vestido de preto para fora da janela quebrada.   Um rectângulo branco sobressai à ténue luz do quintal – é um cartão de visita.   A Korreio saca-o na órbita seguinte e lê

 

HIRO PROTAGONIST

O último dos ‘hackers’[4] por conta própria

O maior lutador de espadas do mundo

Correspondente da CIC – Central Intelligence Corporation

Especialista em Informação relacionada com software

(Música, Filmes & Microcódigo – programação)

 

Na parte de trás está a treta do costume sobre como ser contactado: um número de telefone, um código localizador universal para telefone de voz, um apartado, o seu endereço em meia-dúzia de redes electrónicas de comunicações.   E uma morada no Metaverso.

“Nome estúpido” – refere ela enfiando o cartão num dos cem bolsinhos que cobrem o macacão.

“Mas nunca o esquecerás” – responde-lhe Hiro.

“Se tu és um hacker...”

“Como é que estou aqui numa de entregar pizzas?.”

“Yah!”

“Porque sou um hacker freelance - por conta própria.   Olha, qualquer que seja o teu nome – fico-te a dever esta.”

“O nome é Y.T.” – remata a tipa dando repetidamente com o pé no chão da piscina, aumentando a energia.   Voa dali para fora como catapultada e aí vai ela a sumir-se na noite.   As inteli-rodas da prancha, muitos, muitos pequenos bastonetes que se estendem e retraem para ajustarem ao formato do terreno, levam-na através do relvado como manteiga escorrendo sobre Teflon quente.

Hiro, que há trinta segundos atrás deixou de ser o Deliverator, sai do carro e retira da bagageira as duas espadas, ata-as à volta do corpo e prepara-se para uma fuga nocturna de fazer perder o fôlego através dos TMAWH.   A fronteira com Oakwood Estates dista apenas alguns minutos, ele tem o esquema daquilo memorizado, mais ou menos, e sabe como é que a bófia deste Segurbúrbio funciona, ou não foi ele já um deles.   Daí que tem boas chances de conseguir fazê-lo.   Vai ser interessante.

Por cima dele na moradia a que pertence a piscina, acendeu-se uma luz e há criancinhas a olharem cá para baixo para ele pelas janelas do quarto de dormir, todas quentinhas e enfeitadas nos seus pijamas dos ‘Pqninos Crips’ e dos ‘Guerreiros Ninja da Jangada’, que tanto podem ser ignífugos como anti-cancerígenos mas não as duas coisas.   O papá a emergir da porta das traseiras, a enfiar um casaco.   Uma família gira, uma família segura numa casa cheia de luz, como a família de que ele fazia parte até há 30 segundos atrás.

3

Hiro Protagonist e Vitaly Chernobyl, companheiros de quarto, gelam na entrada de casa, um espaçoso 6 por 9 metros num U-Stor-It[5] em Inglewood, Califórnia.   O quarto tem o soalho composto por lajes de cimento, paredes em aço rugoso separando-o das unidades contíguas e – isto é um sinal de distinção e luxo – uma porta basculante em aço virada a noroeste, oferecendo-lhes alguns raios avermelhados em ocasiões como esta quando o sol está no seu ocaso sobre o LAX.   De tempos a tempos um ‘777’ ou um Transporte Hipersónico Sukhoi / Kawasaki estacionam em frente, interpondo-se, roubando esta vista do pôr do sol, ou simplesmente espremem a luz encarniçada com os exaustores dos jactos transformando os raios paralelos num padrão riscado sobre a parede.

Mas há sítios piores para se viver.   Mesmo aqui neste U-Stor-It há sítios bem piores.   Só as unidades maiores como esta dispõem de portas individuais.   Muitas delas limitam-se a um acesso através de uma área de carga comum que conduz a um intrincado de vastos corredores em aço reforçado e de monta-cargas.   Esse é o tipo de alojamentos miseráveis de 1,5 por 3 metros e de 3 por 3 onde gente da tribo yanoama cozinha os seus feijões e coze punhados de folhas de coca sobre montículos de talões de lotaria a arder.

Diz-se à boca calada que nos velhos tempos quando os U-Stor-It eram na verdade usados para o propósito com que foram construídos – nomeadamente providenciar espaço de armazenamento extra e barato para os californianos com excesso de bens materiais – certos empresários vinham calmamente ao escritório alugar uns 3 por 3 usando uma identificação falsa e toca a encher aquilo com bidões de aço cheios de lixo químico tóxico e abandonavam-nos para ali deixando a batata quente à U-Stor-It Corporation.   De acordo com estes rumores a U-Stor-It limitara-se a selar essas unidades e a riscá-las do seu catálogo.   Agora, clamam os imigrantes, algumas unidades continuam assombradas por esse espectro químico.   É a história que contam à miudagem para impedi-la de arrombar essas unidades encerradas.

Até aqui ninguém tentou assaltar a unidade de Hiro e de Vitaly pois não há lá nada para afanar e nesta altura do campeonato da sua vida nenhum deles é suficientemente importante para ser morto, raptado ou interrogado.   Hiro é dono de um par de espadas nipónicas mas andam sempre com ele e a perspectiva de roubar tão altamente perigosas armas colocam ao potencial candidato inerentes perigos e contradições:   Quando te metes no puxa-puxa pela posse de uma espada ganha sempre quem a empunha!   Hiro tem também um computador bem porreiraço que usualmente leva para onde quer que vá.   Vitaly, por seu lado, é proprietário de meio-volume de Lucky Strikes, uma viola eléctrica e uma ganda ressaca.

De momento Vitaly Chernobyl alonga-se imóvel num futon – um bloco acolchoado sobre o chão - e Hiro Protagonist, de pernas cruzadas, mantém-se sentado perante uma mesa baixa ao estilo nipónico e que não passa de uma palete de mercadoria apoiada em blocos de cinza prensada.

Conforme se põe o sol a luz vermelha é suplantada pela luminosidade dos muitos anúncios néon emanada do beco de franchises que constitui o habitat natural deste U-Stor-It.   Esta luminosidade conhecida como ‘loglo’ vai insinuando todos os cantos mais recônditos da unidade com um mosaico de cores ultra-saturadas.

Hiro tem um tom de pele tipo café-com-leite e cabelo ao estilo ‘rasta’ nuns entrançados bicudos mas aparados.   Já não lhe cobre tanto a cabeça como antes mas ele é jovem, de modo algum careca ou a caminho disso, e o ligeiro recuo da sua linha de cabelo sobre a testa apenas consegue realçar ainda mais as proeminentes maçãs de rosto.   Traz colocados um par de óculos brilhantes que lhe circundam metade do crânio e cujas extremidades arqueadas e com pequeninos auscultadores encaixam nas orelhas.

Os fones têm embutido um sistema de anulação de ruído exterior.   Este tipo de sistema funciona até melhor contra ruídos constantes.   Quando os ‘jumbos’ aceleram para a descolagem pela pista do outro lado da rua o som é reduzido a um mero rumor grave e abafado.   Mas quando Vitaly Chernobyl rebenta num solo experimental com a guitarra isso ainda consegue lixar os ouvidos de Hiro.

Os óculos enviam uma ligeira e difusa claridade sobre os seus olhos e reflectem uma visão distorcida em ângulo aberto de uma avenida brilhantemente iluminada que se estende a perder de vista pelo meio de uma escuridão infinita.   Na realidade nada disso existe;   é um cenário criado por computador de um local imaginário.

Para além dessa imagem é possível distinguir os olhos de Hiro que deixam perceber uns traços asiáticos.   Tem os olhos da mãe, que veio do Japão mas é coreana.   No resto, sai mais ao pai, que era do exército, e do Texas, mas de raízes africanas, o exército que existia nesses dias antes de ser espartilhado num número de organizações concorrentes como o Sistema de Defesa do General Jim e a Segurança Nacional do Almirante Bob.

Quatro coisas em cima da palete: uma garrafa de cerveja de uma marca cara, arranjada na área de serviço ‘Puget Sound’, demasiado dispendiosa até para Hiro, uma espada longa conhecida em nipónico como uma katana e uma mais curta conhecida como wakizashi – o pai de Hiro abafou-as do Japão a seguir à nuclearização na 2ª Guerra Mundial – e um computador.

O computador é uma cunha negra sem nada em especial.   Não tem cabo de alimentação mas há um tubinho fino em plástico translúcido que emerge de uma ficha atrás, espiralando através da palete e do soalho, e ligado a uma tomada de fibra-óptica montada às três pancadas acima da cabeça do adormecido Vitaly Chernobyl.   Pelo centro do tubinho plástico passa um cabo de fibra-óptica fino que nem um cabelo.   O cabo transporta uma quantidade de informação impressionante nos dois sentidos, entre o computador de Hiro e o resto do mundo.   Para se transmitir em papel essa mesma quantidade de informação teriam que arranjar como que um ‘jumbo’ 747 de carga recheado de listas telefónicas e enciclopédias, a mergulhar na sua unidade constantemente em cada par de minutos.

Mesmo o computador é demasiado dispendioso para Hiro mas é obrigado a ter um.   Acaba por ser uma ferramenta no seu trabalho.   Na comunidade mundial de hackers Hiro é um vagabundo nato pleno de talento.   Esse é o seu estilo de vida que lhe soava romântico até bem  recentemente como há cinco anos atrás.   Mas no dealbar tenuamente iluminado da plena idade adulta que está assim para os vinte e poucos anos como a manhã domingueira suplanta uma noite de sábado, observa agora claramente a que é que isso leva: encontra-se falido e desempregado.   E apenas há poucas semanas atrás, o seu emprego como ‘entregador’ de pizzas – o único trabalho não especializado, irrelevante, que realmente gosta – foi-se por água abaixo.   Desde aí tem dado mais ênfase ao seu trabalho acessório de emergência como ‘stringer’, ser correspondente por conta própria para a C.I.C. – a Central Intelligence Corporation, em Langley, Virgínia.

O negócio é simples.   Hiro consegue informação.   Pode ser um rumor, uma fita vídeo ou áudio, um pedaço copiado de um disco de computador, uma fotocópia ou documento.   Até uma anedota feita a partir da última catástrofe mediatizada.   Envia o material para a base de dados da C.I.C. – a Biblioteca, anteriormente a Biblioteca do Congresso, mas já ninguém hoje lhe chama isso.   A maior parte do pessoal já nem sabe bem ao certo o que é que essa palavra – congresso – quer dizer.

E mesmo a palavra ‘biblioteca’ se vai tornando difusa.   Costumava ser um sítio repleto de livros, muitos deles antigos.   Então a partir de certa altura passou a incluir videotapes, discos, revistas.   Depois, toda a informação começou a ser convertida em formatos legíveis por máquinas informáticas, quer dizer, em zeros e uns.   E conforme crescia o número de tipos de ‘media’ a maquinaria tornava-se mais e mais actualizada e os métodos de consulta à Biblioteca cada vez mais sofisticados que se aproximou de um ponto em que deixou de haver qualquer diferença prática entre a Biblioteca do Congresso e a Central Intelligence Agency, e fortuitamente isto veio a acontecer justamente na altura em que o governo se desmembrava todo.   Assim as duas uniram esforços e avançaram com todo aquele grosso manancial de material disponível.

Milhões de outros ‘stringers’ da C.I.C. encontram-se simultaneamente a enviar para a Central milhões de outros fragmentos de informação.   A clientela da C.I.C., principalmente as grandes corporações e Soberanias vasculham através da Biblioteca em busca de informação útil e se encontram algo de interesse nalgum pedaço do que Hiro forneceu é que ele então é pago.

Há um ano atrás enviou-lhes todo um rascunho do argumento para um filme que conseguira palmar do cesto dos papéis de um agente em Burbank.   Meia-dúzia de estúdios queriam vê-lo.   Por uns seis meses, comeu e tirou umas férias à pala disso.

Desde aí os tempos têm sido mais apertados.   De uma forma amarga acaba por aprender que 99 por cento da informação da Biblioteca nunca é de todo usada.

A ter em conta: após alguém dos Korreios lhe ter dado a dica sobre a existência de Vitaly Chernobyl, ocupou-se intensivamente nas derradeiras semanas a pesquisar um novo fenómeno musical – o crescer desses agrupamentos ucranianos ‘atómicos’ de fuzz-grunge em Los Angeles.   Largou pela Biblioteca imensas pistas sobre o tema incluindo peças em áudio e vídeo.    Nem uma editora de gravação, agente ou crítico de rock se dignou em aceder à informação.

É lisa a parte de cima do computador exceptuando aquela lente ‘olho-de-peixe’, uma semi-esfera de vidro polido com um acabamento óptico que solta uns reflexos púrpura.   Sempre que Hiro usa o equipamento a lente emerge e encaixa no sítio, a sua base nivelando-se com a superfície do computador.   O ‘loglo’ da vizinhança vê-se agora encurvado e reduzido sobre a convexidade da lente.   Hiro acha aquilo erótico.   Em parte porque há semanas que não se estica com ninguém ao lado.   Mas não só.   O pai de Hiro, que esteve bastantes anos estacionado lá pelo Japão, era um obcecado por câmaras.   Não parava de as trazer das suas comissões ao Extremo-Oriente, embaladas em tantas camadas de protecção que quando as tirava da caixa para exibi-las perante Hiro aquilo era como assistir a um extravagante strip-tease conforme iam emergindo de todo aquele couro preto e nylon, zips e presilhas aderentes.   Uma vez a lente exposta, pura equação geométrica tornada real, ao mesmo tempo tão poderosa e vulnerável, Hiro só conseguia comparar aquilo como se fosse escavando através de saias, lingerie, lábios exteriores, lábios interiores... Fazia-o sentir-se nu e fraco, e aventureiro.

A lente capta metade do universo – a metade acima da superfície do computador que inclui a maior parte de Hiro.   Consegue assim saber sempre onde ele pára, segui-lo e verificar em que direcção Hiro está a olhar.

No interior do computador existem três lasers – um vermelho, um verde e um azul.   Poderosos suficientemente para gerarem uma luz brilhante mas não o bastante para queimarem através do fundo da tua retina, grelharem-te o cérebro, fritarem esse osso frontal, lixarem-te os lóbulos cerebrais.   Como todos sabem desde o liceu, estas três cores de luz podem ser combinadas em diferentes intensidades para produzir qualquer dos tons que a vista de Hiro é capaz de identificar.

Assim, um fino feixe de qualquer cor pode ser disparado das entranhas da máquina através dessa mesma lente ‘olho-de-peixe’ em qualquer direcção.   Com uns espelhinhos electrónicos no miolo do computador este feixe é posto em varrimento para trás e para diante através das lentes dos óculos de Hiro, da mesmíssima maneira que o feixe electrónico num televisor vai ‘pintando’ a superfície interna do tubo catódico.   Aqui a imagem resultante como que está suspensa no espaço justaposta à visão de Hiro da realidade.

Desenhando uma imagem ligeiramente diferente para cada olho, a imagem pode tornar-se tridimensional.   E postas a variar à cadência de setenta e duas vezes por segundo, são colocadas em movimento.   Executar tal imagem em movimento e tridimensional com uma resolução de 2K por lado confere uma nitidez tal idêntica à resolução máxima que a vista humana pode destrinçar, e ao bombearmos som digital stereo através daqueles fonezinhos, as nossas imagens 3D em movimento adquirem uma banda sonora perfeitamente realista.

Assim Hiro não está de modo algum aqui.   Encontra-se imerso num universo gerado por computador que o seu portátil lhe vai mostrando através daqueles óculos e enfiando pelos ouvidos.   Em linguagem comum chamam a esse lugar imaginário o Metaverso.   Hiro passa aqui, no Metaverso, uma porrada de tempo.   Ajuda a suplantar essa merda do U-Stor-It.

 

Hiro encontra-se em aproximação à Street.   É como que a Broadway, os Champs Élysées do Metaverso.   É aquela avenida brilhantemente iluminada que podemos ver em miniatura e ao contrário reflectida nas lentes dos seus óculos.   Na verdade aquilo não existe.   Mas neste preciso momento milhões de pessoas deambulam por ela.

As dimensões da Street são fixadas por um protocolo esculpido por esses poderosos ninjas tecnológicos do Grupo do Protocolo Global de Multimédia da Associação de Equipamento de Computação.   A Street faz lembrar uma enorme alameda estendendo-se ao longo do equador e a toda a volta de uma esfera negra com um raio de pouco mais de dez mil quilómetros.   Isso dá precisamente 65.536 quilómetros de comprimento, consideravelmente maior que o perímetro terrestre.

O número 65.536 parece um número esquisito para quase todos excepto para um hacker que o reconhece mais prontamente que a data de aniversário da própria mãe: acontece que é uma potência de 2 – 216 - e mesmo esse expoente 16 é por sua vez 24 e 4 é 22.   Tal como 256; 32.768; 2.147.483.648.   Assim 65.536 é uma dessas pedras basilares do universo hacker em que 2 é o único número realmente importante pois é o número de dígitos diferentes que um computador pode reconhecer.   Um desses dígitos é o 0, o outro é o 1.   Qualquer número que possa ser criado de uma forma quase ‘fetichiana’ multiplicando-se 2 por si próprio e subtraindo-lhe 1, ocasionalmente, será instantaneamente entendível por um hacker.

Como qualquer lugar na Realidade a Street está sujeita ao desenvolvimento.   Os Construtores podem abrir as suas próprias transversais entroncando-as à via principal.   Podem erigir prédios, parques, sinalização e mesmo coisas que não existam na Realidade tal como enormes espectáculos de luzes levitando no ar, bairros especiais onde as leis do espaço-tempo tridimensional são ignoradas, e zonas de livre combate onde vale o pessoal andar a perseguir-se e a matar-se uns aos outros.

A única diferença é que uma vez que a Street na verdade não existe é apenas um protocolo gráfico em computador posto algures em papel, nenhuma destas coisas tem existência física.   São antes pedaços de software colocados à disposição do público através de toda essa rede global de fibra-óptica.   Quando Hiro se liga ao Metaverso e olhando para a Street observa os prédios e anúncios eléctricos estendendo-se a perder de vista na escuridão e desaparecendo ao longe na curvatura daquele globo, ele está na verdade a olhar para representações gráficas – as interfaces de utilizador – de uma miríade de diferentes peças de software que saíram da engenharia das maiores corporações.   De forma a dinamizar tudo isto na Street tiveram que conseguir a aprovação do Grupo de Protocolo Global de Multimédia e adquirir espaço de exposição, aprovação do local, obter licenças, pagar luvas a inspectores, o trivial.   O dinheiro que todas estas companhias pagam para construir algo na Street vai todo para um fundo de aplicação pertença e gerido pela GPGM que arca com o desenvolvimento e expansão do equipamento que mantém a existência desta Street.

Hiro possui uma moradia num dos bairros mesmo encostados à zona mais concorrida.   Pelos standards da Street é um dos mais antigos.   Há cerca de dez anos quando os protocolos da Street foram pela primeira vez assentes Hiro e alguns dos colegas juntaram os seus tostões e adquiriram uma das primeiras licenças de construção, criaram um pequeno bairro de hackers.   Por essa altura não passava de um rendilhado de luz por entre a vastidão do negrume dominante.   A Street era então apenas um colar de candeeiros públicos à volta de uma bola negra no espaço.

Desde aí o bairro não mudou muito mas a Street sim.   Por ter aderido logo de início, a malta amiga de Hiro conseguiu um bom avanço em negócios do ramo.   E alguns tornaram-se mesmo imensamente ricos com isso.   E é assim.   Hiro possui uma bela e vasta casa no Metaverso mas tem que partilhar um 6 por 9 na Realidade.   A habilidade imobiliária parece nem sempre estender-se entre universos.

Tanto o solo como o céu surgem em preto tal como um écran de computador ainda vazio.   É sempre de noite aqui no Metaverso e a Street continuamente garrida e brilhante como uma Las Vegas liberta das amarras da finança e da física.   Mas os tipos na vizinhança de Hiro são excelentes programadores e assim fizeram um bairro cheio de bom gosto.   As casas parecem mesmo verdadeiras.   Vê-se mesmo um par de imitações de Frank Lloyd Wright e alguns arrojos em estilo vitoriano.

Só que é sempre um choque desembarcar na Street aqui onde tudo parece ter um quilómetro de altura.   Estamos na Baixa, a zona mais densamente construída.   Se formos uns duzentos quilómetros para cada uma das direcções o desenvolvimento decresce quase para zero, apenas há essa estreita faixa de candeeiros de rua lançando charcos luminosos de luz branca sobre o veludo negro do solo.   Mas a Baixa é como uma dúzia de Manhattans, tecidas a néon e empilhadas umas por cima das outras.

No mundo real – planeta Terra, Realidade – há qualquer coisa entre seis e dez biliões de pessoas.   Num dado momento muitos deles estão a fabricar tijolos de argila ou esvaziando as suas AK-47.   Um bilião delas talvez tenha dinheiro para um computador.   E esta gente tem mais dinheiro que todos os outros juntos.   Deste potencial bilião de proprietários de computadores talvez um quarto se importe a sério em adquiri-los e os tenha comprado e destes só um quarto terá máquinas suficientemente possantes para se haverem com o protocolo da Street.   O que dá cerca de sessenta milhões de pessoas que numa dada altura possam estar ligadas.   Agora a esse número juntem outros 60 milhões que embora não possam ter uma máquina própria têm acesso quer através de equipamento público ou por computadores pertencentes à escola ou ao patrão, sendo assim que podemos ter a Street ocupada simultaneamente pelo dobro da população de Nova Iorque.

Aí está porque é que o raio do sítio se encontra agora tão sobredesenvolvido.   Põe um anúncio luminoso ou prédio aí na Street e os cem milhões de gajos mais ricos, melhor informados, e melhor conectados do planeta irão vê-lo com certeza todos os dias da sua vida.

De largura mede cem metros e no meio corre uma fina linha de monocarril.   O monocarril é uma peça grátis de software de utilidade pública que permite aos utilizadores deslocarem-se pela Street de uma forma rápida e fácil.   Alguns limitam-se a usá-la para andar de um lado para o outro apenas para admirar a paisagem.   Quando Hiro viu pela primeira vez este local há uns dez anos atrás o monocarril ainda não havia sido escrito.   Foi necessário na altura produzirem software próprio para as suas motas e carros de forma a poderem girar por ali à volta, esgalhar nos seus pedaços de software, deserto fora, nesta noite electrónica.

4

Y.T tem sido já brindada por várias vezes com o espectáculo que é ver muitos jovens rascas a enfiarem a sua carinha laroca por piscinas vazias de Segurbúrbios nesses raides nocturnos mas sempre montados nos seus skates, nunca de carro.   Há uma imensa beleza irreal se prestares atenção, nestes cenários  da noite suburbana.

Voltemos à prancha que rola já pela relva sobre aquelas ‘inteli-rodas’ RadiKS Mark IV.   Ela decidira-se a fazer o upgrade para essas mágicas rodas dentilhadas a seguir ao aparecimento do anúncio na revista ‘Thrasher’:

 

FIAMBRE ESCULPIDO

É o que verás ao espelho se te atreveres com uma prancha vulgar de rodados broncos, fixos, sem circuitos inteligentes, e estabeleces um interface com uma peça de escape, pedaço de pneu, caganita de neve, carcaça de um bicharoco atropelado, correia, travessa ferroviária, ou um peão distraído.

 

Se pensas que isto é improvável deves é ter andado a surfar por demasiados centros fantasmas.   Todos estes obstáculos e outros mais foram recentemente observados num troço de uma milha da New Jersey Turnpike.   O surfer que se atreva a deslizar por uma tal via numa tábua dessas já deve estar com o cérebro todo queimadinho.

 

Não dês ouvidos a esses auto-intitulados puros e duros que clamam que todo e qualquer obstáculo pode ser saltado.   Os Korreios profissionais sabem bem: se fisgaste um veículo rápido o bastante quer para diversão ou negócio, o tempo de reacção é cortado para décimos de segundo – ainda menos se fores colado a ele.

 

Mas já com um ‘inteli-rodas’ RadiKS Mark II – será mais barato que uma plástica completa à cara e muito mais divertido.   ‘Inteli-rodas’ usam sonar, calculador de distância por laser, e radar na faixa de ondas de 1 mm para alerta de peças de escape ou qualquer que sejam os destroços por aí espalhados mesmo antes de te aperceberes deles.

 

Não Sejas Careta – Actualiza-te Hoje Mesmo!

 

 

Estas eram palavras sábias.   Y.T. optou pelos tais rodados.   Cada um consiste de uma jante com uma série de sólidos raios. Cada um destes bastonetes telescopia-se em cinco secções.   No extremo um suporte robusto revestido a borracha pivoteia sobre uma esferinha rolante.   Conforme as rodas giram, os ‘pés’ - um de cada vez - contacta o solo, quase se fundindo o conjunto todo como um pneu contínuo.   Se surfares sobre um ressalto os bastões retraem-se ao passar sobre ele.   Se passares sobre um buraco, as patitas robotizadas dessas rodas mergulham pelas reentrâncias do asfalto.   De uma forma ou outra o impacto é absorvido não há batidas, pancadas, coices, que interfiram com a prancha ou que trepem pelos ténis ‘Converse’ com que a cavalgas.   O anúncio estava correcto – não podes ser um surfer profissional da estrada sem estas ‘inteli-rodas’.

A entrega rápida da pizza será uma coisa trivial.   Ela desliza daquela relva tocada pelo orvalho para a passagem particular sem qualquer percalço, ganha velocidade sobre o passeio e corre rampa abaixo em direcção à rua.   Com um ligeiro torção do rabo reorienta a prancha e aí está ela Homedale Mews fora à cata de uma vítima.   Um carro preto, vistoso com umas luzes estúpidas e sirene, assobia por ela em sentido contrário, na direcção do local do pobre Hiro Protagonist.

Os seus óculos brilhantes e provocadores RadiKS Knight Vision auto-escurecem perante qualquer clarão violento, as pupilas podem sentir-se seguras para se conservarem bem abertas perscrutando a estrada à procura de algo que se mova.   O sítio da piscina ficava no alto deste Segurbúrbio, daqui é sempre a descer mas não tão rápido quanto se deseja.

Meio quarteirão à frente numa transversal, uma ‘bimbo-box’ – uma mini-van – tossica ao pôr em acção os seus patéticos quatro cilindros.   Ela consegue ver o ângulo da carroçaria a partir das suas actuais coordenadas.   As luzes brancas de marcha-atrás acendem-se momentaneamente conforme o condutor engata a caixa automática para D(rive) passando por R(everse) e N(eutral).   Y.T. faz pontaria ao passeio arrelvado, alcança-o ainda a uma boa velocidade, os bastões nas ‘inteli-rodas’ sabem que esse piso se aproximava e movimentam-se, ajustam-se de modo adequado ao novo terreno para que em suavidade se deslize da rua para esta textura sem novidades.   Passeio adentro os pés dos rodados deixam um rasto de pequeninas marcas hexagonais.   Uma caganita seca de cão, encarniçada por essa indigesta carniça colorida, ostenta agora em relevo o logotipo da RadiKS, imagem-espelho da que surge impressa na ponta de cada bastonete.

A ‘caixa-bimba’ principia a deixar o passeio para o meio da via.   Os lados dos pneus emitem chianços, sons de esfrega, de algo que torce, conforme roçam pelo passeio.   Estamos nos ‘búrbios, onde é melhor perderes mil quilómetros de vida útil dos teus ‘Goodyears’ por viciosamente parqueares meio em cima do passeio do que arriscares todo um ostracismo social e manifestações em massa de histeria só por estacionares alguns centímetros afastado desse passeio: ‘no meio da estrada!’ (Okay mamã, consigo andar daqui até ao passeio), uma ameaça ao trânsito, obstáculo mortal para jovens ciclistas descuidados.   Y.T. acaba de premir no manípulo o botão que solta o cabo desenrolando-o cerca de um metro.   Fá-lo girar em círculos sobre a cabeça como um colar das ilhas do sul.   Ela está prestes a disparar o seu habitual mensageiro.   O disco do dispositivo – quase do tamanho de uma saladeira – assobia conforme continua a orbitar.   Este show off é desnecessário mas é fixe!

Fisgar uma ‘caixa-bimba’ pede mais arte que um principiante pode imaginar pois tratando-se de veículos baratuchos a sua congénita pobreza em aço ou outro material ferroso na estrutura faz daquilo um desafio autêntico para a MagnaPoon – o disco - se fincar.   Mas já existem por aí os novos discos supercondutores que até a estruturas de alumínio se agarram induzindo pequenas correntes electromagnéticas espiraladas, forçando as carcaças a ser um autêntico electromagneto, embora a Y.T. ainda não possua um desses discos.   São a imagem de marca do surfista puro e duro nestes Segurbúrbios e que ela não é apesar destes biscates nocturnos.   O seu disco só se consegue agarrar a aço, ferro ou – ligeiramente – a níquel.   E o único aço numa ‘caixa-bimba’ deste tipo está apenas no chassis.

Ela executa a aproximação ligeiramente agachada.   Agora o plano orbital do voltear do aparelho está perto da vertical quase que roça neste tremeluzente alcatrão suburbano no troço para diante de cada volta.   Quando esgana o botão de largada o disco dispara de uma altura de cerca de 1 centímetro acima do solo apontando ligeiramente para cima através da rua e termina por sob a chapa da caixa-bimba mamando no aço.   Em cheio!   Tão sólido quanto possível neste volátil, difuso e diáfano universo de plástico, pintura e marketing, essencialmente, conhecido na gíria como mini-furgonetas familiares.

A reacção é instantânea, demasiado rápida até pelos standards destes ‘búrbios.   Esta pessoa quer despachar a Y.T.   A ‘furgo’ descola como um touro encharcado em hormonas e que acaba de ser espetado no rabo pelo ferrão aguçado do picador.   Não é a mamã que está ao volante.   É um jovem Garanhãozito, adolescente, que como qualquer outro puto deste Segurbúrbio entretém-se desde os catorze anos a meter para a ‘viola’ – a veia – doses cavalares de testosterona todas as santas tardes de liceu, no recôndito da sala dos armários.   Tornou-se num gajo corpulento com um caparro do caraças, estúpido, totalmente previsível.

Mexe-se erraticamente, aqueles músculos criados de uma forma artificial não totalmente sob controle.   O volante acastanhado, moldado em couro rugoso, cheira à loção que a mãe usa para as mãos, o que o deixa baratinado.   A ‘combi’ mete-se num pára-arranca-pára-arranca porque o gajo se põe a dar patadas sucessivas no acelerador pois mantendo-o sempre a fundo parece não produzir qualquer efeito.   Queria que o veículo fosse como os seus músculos – mais potência do que aquela que é capaz de domar.   Em vez disso o carro dá-lhe uma seca.   Num compromisso decide-se por premir o botão ‘Power’ o que faz saltar fora e desligar um outro – ‘Económico’, relembrando-lhe como numa demonstração pedagógica que os dois se excluem mutuamente.   O pequeno motor da furgoneta muda para uma mudança mais baixa o que o faz parecer mais potente.   Conserva o pé a esmagar o acelerador e já a descer a Cottage Heights Road a velocidade da ‘combi’ acerca-se dos cem à hora.

Aproximando-se do final da Cottage Heights Road onde esta encaixa na Bellewood Valley Road ele espia já uma boca de incêndio.   São numerosos aqui nos TMAWH esses hidrantes, por razões de segurança, e belissimamente desenhados, por razões de valorização do local - não são mais aquelas coisas grotescas em ferro com o nome afixado de alguma já abandonada fundição dos tempos da Revolução Industrial e recobertas com centenas de camadas de tinta escamada e rasca municipal.

Aqui são em bronze e polidos automaticamente por robot apropriado todas as quintas-feiras de manhã, como tubos na vertical emergem à maneira destes relvados perfeitos crescidos quimicamente nos canteiros dos ‘Búrbios e ostentam no seu brilho a oferta de um menu de três opções de ligação de mangueira ao potencial bombeiro.   Foram desenhados, claro, num écran de computador como tudo o mais ali, pelos mesmos estetas  que traçaram as moradias do estilo Dyna Vitoriano e aquelas caixas de correio cheias de bom gosto e as imensas placas toponímicas em mármore colocadas como lápides em cada cruzamento.   Desenhados em computador mas com um olho posto nessa elegância de coisas antigas e esquecidas.   Bocas de incêndio que o pessoal de bom gosto se orgulha de ter em frente aos seus canteiros.   Bocas de incêndio que até a malta do marketing lá das imobiliárias não se sente tentada a eliminar nas fotos das brochuras.

A porra desse Korreio está assim para morrer enroladinho da silva num desses hidrantes.   Garanhãozito – o Menino Testosterona – vai tratar disso.   É uma manobra que está farto de topar na TV – aqui não há truques – já praticou aquilo uma porrada de vezes na sua cabecinha.   Ganhando velocidade ao máximo pela Cottage Heights puxará do travão de mão conforme torce o volante.   A cauda da mini-furgoneta irá rodopiar.   Aquele Korreio chato vai estalar que nem um chicote na ponta do seu inquebrável cabo.   Direitinho vai ser atirado contra a boca de incêndio.   Garanhãozito o Adolescente sairá daqui vitorioso, pronto para desfilar em triunfo pela Bellewood Valley e pronto para o mais vasto mundo dos homens crescidos, de carros porreiros, pronto enfim para ir devolver a já atrasadíssima cassete vídeo “Os Guerreiros da Jangada - IV: A Batalha Final.”

Y.T. não conhece em concreto nada disto, claro, da essência disto tudo, mas suspeita já.   Nada é ainda real.   É a reconstrução psicológica que faz do ambiente a bordo daquela ‘caixa-bimba’.   Há quase um quilómetro que topa aquela boca de incêndio e repara que o Garanhãozito estendeu já uma mão para a alavanca do travão.   É tudo tão óbvio!   Até sente pena por este gajo e pela sua maneira.   Ela desbobina, deixa sair uma porrada de trela.   O tipo torce o volante todo e estrangula o travão.

A mini-van até vai de lado como que ultrapassando-se a si própria, descontrolando-se, e não a manda em arco como o tipo queria.   Ela até aproveita o embalo que trazia.   Conforme a cauda do veículo gira ela volta a recolher o cabo abruptamente convertendo o movimento angular oferecido em velocidade práfrentex e acaba por passar que nem um tiro rente à carrinha a bem mais de cem à hora.   Dirige-se agora a essa lápide em mármore com o nome da rua – BELLEWOODE VALLEY ROAD.   Desvia-se dela, entra em curva apertada, os bastonetes dos rodados da prancha a morderem a estrada, a puxá-la dessa laje, e bem abaixada já que com os dedos pode bem tocar o pavimento, completa a curva, os bastõezinhos inteligentes nas rodas encaminham-na finalmente para a rua que pretende.   Entretanto acaba de desligar o campo electromagnético que mantinha o prato colado à carrinha.   O disco solta-se e vem tamborilando atrás pelo alcatrão até se recolher no seu punho, automaticamente rebobinado.   E lá segue ela apontada direitinha à saída do Segurbúrbio em fantástica velocidade.

Lá atrás ribomba um choque explosivo que se lhe repercute até às entranhas conforme a furgoneta derrapa e vai de lado contra a placa de mármore.

Já ela se agacha por sob o portão de segurança e entra no tráfego de Oahu.   Corta a direito, encontra-se no meio de dois BMWs que ruidosamente chiam e guinam precipitadamente, os dois condutores destes BMs encetam uma verdadeira manobra evasiva súbita – aquilo até parece os condutores no anúncio da própria BMW – e é assim que se convencem que não serão fisgados.

Ela mete-se em posição fetal para se esquivar sob um semi-reboque e repara que vai em direcção ao separador central, uma barreira tipo ‘Jersey’, como se se fosse matar, espatifar toda, mas as barreiras ‘Jersey’ são fixes para quem tenha ‘inteli-rodas’.   A parte de baixo é arqueada como desenhada de propósito para a malta dos skates.   Rola até meia altura daquilo, corrige com cuidado, e volta a descer para uma aterragem suave na corrente do trânsito.   Há um carro mesmo aqui, nem tem que atirar o cabo, basta-lhe estender o braço para plantar o prato mesmo no tampo da bagageira.

O condutor resignado à sua sorte não se importa nem a chateia.   Acaba por a levar tão longe como a entrada do próximo Segurbúrbio, o White Columns.   Muito sulista e tradicional, um dos Segurbúrbios Apartheid.   Um enorme placard ornamentado suspende-se sobre o portão principal declarando: PESSOAS BRANCAS.   NÃO-CAUCASIANOS TERÃO QUE SER VERIFICADOS

Ela tem ‘visto’ para o White Columns.   Y.T. tem visas para tudo o que é sítio.   Está aqui mesmo sobre o peito dela, um pequenino código de barras.   Um feixe laser perscruta-a conforme ondula até à entrada e já a cancela gira abrindo-se para ela.   É uma bonita peça toda trabalhada em ferro mas os apressados moradores do White Columns decerto não têm tempo para se sentarem ali à espera à entrada do Segurbúrbio a olhar para um vagaroso portão a abrir-se em calma majestosa ao estilo do Velho Sul e assim aquilo está mas é montado sobre umas calhas electromagnéticas.

Ela rola já pelas primeiras áleas de árvores bem alinhadas do White Columns que remontam à era antes da arcaica guerra da secessão, uma microplantação a seguir à outra, aproveitando-se ainda em parte do derradeiro restinho de energia cinética proporcionado pelo tanque de combustível daquele Garanhãozito Adolescente.   O mundo está cheio de força e energia e pode-se ir longe condensando o que for possível delas.

O visor LED na caixa de pizzas dita agora 29:32 e o tipo que a pediu – Mr. Pudgely - e os seus vizinhos, os Pinkhearts e o clã dos Roundasses, estão já todos reunidos no terreno da frente da sua microplantação numa celebração antecipada.   Como se tivessem comprado o primeiro prémio da lotaria.   Da porta da frente tem-se uma visão desimpedida de todo o percurso até à Oahu Road e não se alcança nada que pareça ser um veículo de entregas da CosaNostra.   Oh, há algo curioso – cheira a interessante isto – este Korreio com uma grande caixa quadrada sob o braço – pode ser um dossier, um novo desenho publicitário para algum supremacista caucasiano a propagandear-se como capataz no próximo lote.

Os Pudgely, Pinkhearts e Roundasses estão agora todos a olhar para ela, queixo caído.   Resta-lhe apenas a energia suficiente para girar até ao limiar.   O balanço consegue levá-la até ao topo da entrada e ela pára mesmo a seguir ao Akura de Mr. Pudgely e à ‘caixa-bimba’ da Sr.ª. Pudgely, desmontando da prancha.   Ao notarem a sua saída os bastonetes que formam as rodas acomodam-se, ajustam-se à superfície do solo e impedem a prancha de voltar para trás por ali abaixo.

Uma luz cegante desce do céu sobre todos eles.   Mas nela os óculos Knight Vision impedem que cegue momentaneamente, enquanto os clientes flectem os joelhos, encolhem ombros, como se aquele poderoso feixe tivesse peso.   Os homens mantêm os braços peludos contra a fronte, agitam os seus corpos tubulares para trás e para diante tentando perceber a fonte daquela iluminação, balbuciando coisas desconexas uns para os outros, teorias apressadas sobre a origem deste jorro luminoso como se até tivessem totalmente um controlo do estranho fenómeno.   As mulheres cacarejam e abanam todas.   Devido à tal influência mágica dos seus Knight Visions, Y.T. consegue ainda ler 29:54 sobre o visor LED.   É isso mesmo que lê quando deixa a pizza na ponta das asas do senhor Pudgely.   No céu, a luz mistério apaga-se.

 

Os outros encontram-se ainda cegos mas Y.T. observa através da noite com esses Knight Visions toda a gama até próximo dos infravermelhos e consegue ver a origem disso – um helicóptero furtivo de dupla pá, a uns dez metros por sobre a moradia  vizinha.   Está pintado num preto fixe e sem qualquer distintivo, não é um helicóptero de reportagem – embora neste momento um outro de modelo antigo e barulhento, intensamente iluminado com anúncios sempre em actualização, matraqueia e sulca o ar através do espaço aéreo das White Columns varrendo as plantações com o seu foco, ansiando ser o primeiro a conseguir um furo noticioso:  ‘uma pizza foi esta noite entregue com atraso.   Desenvolvimento às onze’.   Posteriormente o nosso conceituado jornalista especulará onde estará o Tio Enzo na digressão obrigatória que fará ao nosso Centro Geral Metropolitano de Estatísticas.   Nesta altura o helicóptero preto encontra-se praticamente dissolvido nas trevas, de luzes apagadas, e estaria quase invisível não fosse o rasto infravermelho que se solta do seu par de turbinas a jacto.

É um helicóptero da Máfia e tudo o que queriam era um registo do acontecimento em vídeo de forma a que Mr. Pudgely não tenha a ponta de um corno por onde pegar para meter um processo caso decidisse levar a coisa ao Sistema Judicial do Juiz Bob e pedir uma pizza grátis, etc. e tal.

Mais uma coisa.   Há esta noite uma porrada enorme de porcaria a bailar na atmosfera, megatoneladas de poeira varrendo tudo desde Fresno, e assim quando o feixe de laser cruza o espaço é perfeitamente visível essa fina linha geométrica condensando-se em milhões de grânulozinhos de um vermelho palpitante alinhados por um entretecer de fibra-óptica e que se animam instantaneamente na trajectória entre o helicóptero e o peito de Y.T.   Depois, dir-se-ia expandir-se como uma pequena ventoinha, tornar-se um triângulo agudo de luz vermelha cuja base abarca todo o torso dela.   Bastou meio segundo.   Eles estão a pesquisar as muitas barras de código que lhe tapam o peito.   A descobrir de quem se trata.   A partir de agora a Máfia sabe tudo sobre Y.T. – onde mora, o que faz, a cor dos olhos, registos de crédito, ascendência, tipo sanguíneo.

Feito isso o helicóptero inclina-se e desaparece de vez na noite como um negro disco de hóquei caindo numa bacia de tinta da China.

Mr. Pudgely está para ali a palrar qualquer coisa, uma anedota talvez sobre o quão perto estiveram, os outros forçando uma gargalhada, mas Y.T. não os consegue ouvir, o som deles abafado agora pelo troar do helicóptero televisivo e como num flash  vêm-se imobilizados, cristalizados sob o seu holofote.   O ar nocturno está infestado de pequeninos insectos e Y.T. vê-los a todos a girar num turbilhão em misteriosas formações apanhando boleia de pessoas e das correntes atmosféricas.   Um poisa-lhe no pulso mas ela nem o sacode.

O foco de luz anda por ali durante um minuto.   O largo quadrado da caixa de pizza com o símbolo da CosaNostra é o testemunho mudo.   O heli paira sobre a cena, gastam um pouco de fita apenas por rotina, se por acaso aquilo for necessário.

Y.T. aborrece-se.   Volta a montar na prancha.   Os rodados florescem, tornam-se de novo circulares.   Ela segue ondulante num rumo que roça os carros estacionados e desliza rua abaixo.   O holofote persegue-a ainda por um breve instante, a tomar mais algumas cenas para arquivo, provavelmente.   O videotape está ao preço da chuva e nunca sabemos quando é que algo pode vir a ser útil.   Assim, mais vale ter tudo em fita.

E é disso que o pessoal vive – a gente que anda metida no negócio da informação.   Gente como Hiro Protagonist.   Ou sabem de algo interessante ou andam por aí e gravam tudo o que aparente ter interesse.   E enviam isso para a Biblioteca.   Quando há alguém que pretenda acesso ao material especializado que eles têm ou às suas gravações, pagam-lhes por consultar ou importar a respectiva informação da Biblioteca.   É algo fantasioso, mágico, mas Y.T. simpatiza genericamente com a ideia.   Habitualmente a C.I.C. não presta qualquer atenção especial a um Korreio.   Mas aparentemente Hiro tem alguma ligação com eles.   Pode ser que ela consiga um acordo com Hiro.   Porque ela, Y.T., sabe uma quantidade de coisinhas interessantes.

Uma das coisinhas que sabe é que a Mafia lhe deve agora um favor.

5

Conforme Hiro se aproxima da Street repara em dois casais jovens, provavelmente usando os computadores dos pais para um duplo encontro no Metaverso, a descerem da Porta Zero que é a porta de entrada local e estação de monocarril.

Claro que ele não está a ver pessoas reais.   Tudo isto faz parte dessa animação gráfica gerada pelo seu computador de acordo com as especificações que lhe chegam pelo cabo de fibra óptica.   As pessoas no écran são peças de software chamadas ‘avatars’.   São os corpos audiovisuais que se usa para comunicar uns com os outros no Metaverso.   O avatar de Hiro encontra-se agora também na Street e se os casais que acabam de descer do monocarril olharem na sua direcção poderão vê-lo tal como ele os observa.   Podem até entrar numa de conversa:   Hiro no seu U-Stor-It em L.A. e os quatro adolescentes provavelmente num sofá num subúrbio de Chicago cada um com o seu portátil.   Talvez nem palrem muito mais do que fariam na Realidade.   Estes são putos fixes e não devem estar para dar conversa a um solitário extravagante com um refinado avatar personalizado e que para mais carrega um par de espadas.

O teu avatar pode ter o aspecto que quiseres, dependendo das limitações do teu equipamento.   Até se fores um tipo feio podes construir para ti um avatar todo giro.   Se acabas de botar os pés fora da cama o teu avatar pode ter ainda vestidas umas belas roupas e apresentar-se com make-up aplicado à maneira.   No Metaverso tanto podes ser um gorila, um dragão ou até mesmo um gigantesco pénis falante.   Passa cinco minutos a caminhar pela Street abaixo e vais ver tudo isto.

O avatar de Hiro parece-se com ele mesmo, com a diferença de que independentemente do que ele use na Realidade o seu avatar enverga invariavelmente um quimono em couro preto.   A maior parte da malta hacker não vai muito à bola com a ideia de avatars em cores muito garridas e trabalhadas pois sabe que é preciso um bom pedaço mais em sofisticação e processamento para desenhar uma face realística e bem mais detalhada e humana do que esboçar um pénis falante.   Mais ou menos o mesmo tipo de diferença a que os conhecedores de alfaiataria dão importância, os pequeninos detalhes que separam um fato barato de lã cinzenta feito em série de um fato em lã cinzenta cuidadosamente feito à mão.

Não te materializas assim sem mais nem menos em qualquer lugar do Metaverso como se fosses o Capitão Kirk enviado das alturas por um feixe.   Isso seria confuso e irritante para o pessoal à tua volta.   Quebraria toda a metáfora, o sentido disto.   Materializar-se assim de sítio nenhum (ou desaparecendo de volta à Realidade) é considerado como uma função algo privada ocorrendo melhor dentro dos limites da tua própria ‘Residência’ aqui no Metaverso.   Hoje em dia muitos dos avatars são anatomicamente correctos e nuzinhos como um bebé quando acabam de ser criados, pelo que tens que te pôr decente antes de emergires aí fora pela Street.   A menos que sejas mesmo intrinsecamente indecoroso e não te importes.

Caso não passes de um simples peão e não possuas nenhuma Residência, como acontece por exemplo com os que acedem a partir de um terminal público, então tens que te materializar numa das Portas.   Existe um total de 256 destas Portas Expresso aqui na Street igualmente espaçadas ao longo da sua circunferência a intervalos de 256 quilómetros.   E cada um destes intervalos é por sua vez subdividido em 256 vezes em Portas Locais espaçadas exactamente por 1 quilómetro (os argutos estudantes da semiótica hacker notarão a obsessiva repetição do número 256 que é a potência 28 – e mesmo este 8 tem esse aspecto sumarento de que ainda vai pingar em 2 conjuntos de 22).   As Portas cumprem uma função análoga à dos aeroportos:   É por aqui que sais para o Metaverso de onde quer que estejas.   Uma vez que te materializes numa destas portas podes andar à vontade pela Street, saltares para o monocarril, ou fazer o que te der na gana.

Os dois casais que observa a sair do monocarril não têm a possibilidade de possuir avatars personalizados ou conhecimentos para os escreverem eles próprios.   Têm assim que comprar desses avatars ‘pré-fabricados’ e prontos a usar.   O de uma das jovens até é bem engraçado, o último grito dos existentes na série K-Tel.   Até parece que ela comprou um ‘Kit-de-Construção-de-AvatarsTM e que o desenhou ela própria, um modelo personalizável nas suas múltiplas partes e opções.   Até poderá ser algo parecido com a dona.   E o do seu par também não está nada mau.

Quanto à outra miúda, o avatar dela é uma Brandy e o par um Clint.   Tanto os Brandy como os Clint são ambos modelos populares prontos-a-usar.   Quando as gajinhas rascas do liceu se metem em encontros no Metaverso, invariavelmente apontam para a secção ‘Jogos de Computador’ dos supermercados Wal-Mart e adquirem uma cópia da Brandy.   A utilizadora até pode escolher entre três tamanhos de peito: improvável, impossível e caricato.   A Brandy tem um repertório limitado de expressões faciais: elegante e mal-humorada; elegante e maliciosa; ousada e interessada; risonha e receptiva; elegante e tonta.   As pestanas alongam-se por mais de um centímetro e o software é tão baratucho que as mostra sólidas como placas de ébano.   Quando uma Brandy mexe as pestanas quase podemos sentir a corrente de ar!

O Clint é apenas a contraparte masculina das Brandy.   É anguloso e simpático e também extremamente limitado na escolha de expressões faciais.

Hiro matuta preguiçosamente, tenta imaginar como se terão encontrado estes dois pares.   Pertencem claramente a classes sociais diferentes.   Talvez aparentados, um mais velho outro mais jovem.   Mas bem, entretanto já eles descem pela escada rolante, desaparecem engolidos pela multidão e tornam-se parte da Street onde existem já Clints e Brandys que cheguem para fundar um novo grupo étnico.

 

A Street está bem movimentada.   A maior parte do pessoal aqui são americanos ou asiáticos.   Na Europa ainda é agora manhã cedo.   Devido à preponderância de americanos a multidão reflecte todo um aspecto garrido e surreal à sua volta.   Em relação aos asiáticos, está-se a meio da jornada diária e apresentam-se nos seus fatos azuis escuros.  Para os americanos é ‘party time’, noite adentro, e exibem um aspecto variado dentro de toda a gama que um computador pode mostrar.

No momento em que Hiro transpõe a linha que separa o seu bairro da Street, formas coloridas submergem-no de todas as direcções como insectos à volta de uma carcaça morta na estrada.   ‘Animerciais’ não são autorizados no bairro de Hiro mas quase tudo é permitido na Street.

Um caça a jacto passa e rebenta em chamas, despenha-se da sua trajectória e aponta na direcção dele a duas vezes a velocidade do som.   Escavaca-se na Street uns quinze metros à sua frente, desintegra-se e explode, desabrocha numa nuvem confusa de destroços e fogo que escorrega por sobre o pavimento direita a ele, crescendo e envolvendo-o de tal maneira que tudo o que consegue agora ver é uma chama turbulenta perfeitamente simulada e definida.

Depois a imagem imobiliza-se e um homem toma forma em frente de Hiro.   É aquela figura clássica de um hacker, barbudo, pálido, escanzelado, tentando sobressair no seu bojudo anorak em seda brasonada com o símbolo de um dos grandes parques de diversão do Metaverso.   Hiro conhece o gajo, costumavam cruzar-se a toda a hora em convenções comerciais.   Há quase dois meses que tenta contratar Hiro.

“Hiro, não entendo porque é que te manténs à distância.   Estamos a fazer uma pipa de massa aqui – kongbuks e ienes – e sabemos ser flexíveis em pagamentos e bónus.   Estamos agora a montar uma coisa ao estilo ‘Espada & Feitiçaria’ e podemos usar um hacker com a tua experiência.   Vem ter comigo para falarmos, okay?”

Hiro caminha no sentido desta aparição animada que se desvanece.   Os parques de diversão no Metaverso podem ser fantásticos oferecendo uma gama variada de filmes interactivos tridimensionais.   Mas no fim porém acabam por não ser mais que videogames.   Hiro ainda não está tão nas lonas que se meta a ir escrever jogos de vídeo para esta companhia.   É propriedade de nipónicos o que quer dizer que todos os programadores têm que vestir camisas brancas e apresentarem-se às oito da manhã, sentarem-se em cubículos e assistirem a reuniões.

Quando Hiro aprendeu a fazer isto – a programar – isto voltando atrás uns quinze anos, um hacker abancava e punha-se a escrever por si mesmo toda uma peça completa de software.   Agora tal não é mais possível.   O software sai de fábricas e os hackers não passam – em maior ou menor escala – de trabalhadores numa linha de montagem.   Pior ainda, podem ver-se nomeados como gestores que nunca chegam sequer a escrever código eles próprios.

A perspectiva de se tornar um trabalhador numa linha de montagem confere a Hiro algum incentivo para rejeitar a ideia e dar esta noite um giro à cata de boa informação.

Tenta-se ambientar psicologicamente, quebrar essa letargia que afecta os sub-empregados de longa duração.   Essa coisa da informação pode ser uma boa base uma vez que estejas bem inserido no esquema.   E com as suas ligações não será problema de maior.   Apenas tem que se levar a coisa a sério.   A sério.   A sério.   Mas é tão difícil hoje em dia ser-se sério com alguma coisa.

Deve à Máfia o valor de um carro novo.   Essa é uma boa razão para levar as coisas a sério.

Atravessa a Street e passa sob a linha de monocarril na direcção de um edifício grande, atarracado e preto.   É extraordinariamente sóbrio para os padrões ali da Street, como um lote em que alguém descurou a construção.   É uma pirâmide preta e rebaixada com o seu topo aparado.   Tem uma única porta – visto tudo isso ser imaginário não existem regulamentações ditando o número de saídas de emergência.   Não há seguranças, placas de sinalização, nada que impeça aparentemente as pessoas de entrar embora se vejam milhares de avatars amontoados ali à volta e a espreitarem para o interior tentando entrever qualquer coisa.   Esta gente não consegue passar pela porta pois não foi convidada.

Por sobre a porta existe um hemisfério negro baço de cerca de um metro de diâmetro fixado à fachada do prédio.   É a coisa mais parecida com decoração que o sítio apresenta.   Logo por baixo em letras gravadas no material preto da parede o nome daquilo: THE BLACK SUN - O Sol Negro.

Bem, aquilo não constitui nenhuma obra-prima arquitectónica.   Quando Da5id, Hiro e outros hackers escreveram o ‘The Black Sun’ não tinham verba suficiente para alugar arquitectos ou designers e então remeteram-se a formas geométricas simples.   Mas os avatars que pululam à volta da entrada não parecem importar-se com isso.   Se estes avatars fossem gente real numa avenida real Hiro nem seria capaz de se abeirar da entrada de tal forma aquilo está congestionado.   Mas o sistema de computador que comanda a Street tem coisas melhores com que se ocupar do que monitorizar individualmente cada uma das milhões de pessoas aqui – tentar impedi-las de entrar por outra adentro.   Não se importa pois em resolver esta incrivelmente difícil questão.   Na Street, os avatars podem passar a direito uns através dos outros.

Assim, quando Hiro atravessa a multidão apontado à entrada, na verdade e literalmente corta através dessa gente toda.   Quando as coisas se tornam de tal forma empasteladas o computador simplifica desenhando todos os avatars com uma consistência fantasma e translúcida de modo que podemos ver por onde vamos.   Hiro para si próprio apresenta um aspecto sólido mas todos os outros parecem um fantasma.   Passa pela multidão como se eles fossem um banco de nevoeiro, vendo claramente a fachada do Black Sun em frente dele.

Ultrapassa a linha de propriedade e alcança a entrada.   Nesse momento torna-se sólido e visível a todos os avatars que se amontoam no exterior.   Começam todos numa berraria simultânea.   Não que tenham uma ideia de quem diabo ele seja – Hiro não passa de um correspondente enrascado da C.I.C. que vive num U-Stor-It lá para as bandas do aeroporto.   Só que, no mundo inteiro, há apenas uns dois milhares de gajos que conseguem transpor a entrada do Black Sun.

Volta-se e olha para trás para aqueles dez mil entusiastas apinhados.   Agora que se encontra já sozinho ali no hall de entrada, que deixa de estar imerso nessa enchente de avatars, consegue vislumbrar toda aquela gente na fila da frente da multidão com uma perfeita clareza.   Todos eles, avatars artilhados, arrojados e práfrentex, esperando que Da5id – dono e hacker-em-chefe do The Black Sun – os convide a entrar.   Piscam e fundem-se numa barreira de histeria.   Estonteantes mulheres belas, pintadas e retocadas em spray-software e animadas a setenta e duas imagens por segundo, como gajas do Playboy a destacarem-se em 3-D – estas são potenciais actrizes aguardando ser descobertas;   tornados de luzes em girândola e abstractos de olhar louco – hackers ansiando que Da5id tope o seu talento e os convide lá para dentro, lhes ofereça um emprego.   É todo um salpicado aleatório de gente que surge ali em preto e branco – gente que acede ao Metaverso através dos terminais públicos mais baratos e que aparece representada assim nestas formas mal acabadas e cheias de grão e a preto e branco.   Uma parte deles são mesmo ‘lélés da cuca’, como fãs psicopatas devotados à fantasia de apunhalar até à morte determinada actriz.   Como na Realidade nem perto conseguem chegar, tratam de meter os oculinhos até ao Metaverso para arrebatarem a sua presa preferida.   Há também candidatos a estrelas rock envoltos em iluminação laser como se acabassem de abandonar um palco de concerto, e avatars de homens de negócio nipónicos, sofisticadamente construídos nos seus modernaços equipamentos mas sublimemente reservados e aborrecidos dentro dos seus fatos.

Há um tipo a preto e branco que se destaca por ser mais alto que o resto.   O protocolo da Street estipula que o teu avatar não pode ser mais alto do que tu.   Isto para evitar gente com um quilómetro de altura a movimentar-se por aí.   Só que se o tipo está a utilizar um terminal pago, público, que deve ser este o caso, nem pode modelar o respectivo avatar que acaba por ser uma imagem do utilizador embora de inferior qualidade.   Falar assim para um gajo destes na Street, a preto e branco, é como conversar com alguém que encostou o nariz a uma fotocopiadora premindo repetidamente o botão ‘Copiar’, enquanto ficas a olhar para o que vai saindo do tabuleiro, folha a folha.

Este gajo tem cabelo longo e risco ao meio que como uma cortina entreaberta deixa ver uma tatuagem plantada na testa.   Não se consegue ver claramente a tatuagem com esta resolução de imagem que é uma merda mas parece consistir em palavras.   Por baixo do nariz, um pontiagudo bigode ao estilo Fu Manchu.

Hiro percebe que o gajo acaba de reparar nele e que o mira e remira de alto a baixo, prestando uma especial atenção às espadas.   Um esgar alastra por aquela face a preto-e-branco do tipo.   Um esgar de satisfação, de ter reconhecido algo.   O esgar de alguém que sabe qualquer coisa que Hiro ignora.   O indivíduo a preto e branco tem-se mantido com os braços cruzados sobre o peito, como um chavalo que se encontra agastado, que tem estado à espera de alguma coisa, e agora os braços descaem para os lados, girando relaxados nos ombros como um atleta exercitando-se.

Aproxima-se o mais que pode e inclina-se para diante.   É tão alto que a única coisa que se vê atrás dele é o vazio negro do céu cruzado pelo clarão dos rastos de vapor dos animerciais que passam.

“Hey, Hiro – o gajo a preto-e-branco está a chamá-lo – queres experimentar um pouco de Snow Crash?”

 

Há sempre um magote de gente à espera por ali, em frente do The Black Sun, proferindo coisas estranhas.   Tu em geral ignora-las.   Mas isto atrai a atenção de Hiro.

Primeira singularidade: o gajo sabe o nome de Hiro.   Mas o pessoal tem formas de obter essa informação.   Pode não querer dizer nada.

Segunda anormalidade: isto soa à oferta de um vendedor de droga o que seria normal ocorrer num bar na Realidade.   Mas isto é o Metaverso.   E não vendes drogas no Metaverso porque não ficas pedrado por olhares para alguma coisa.

Terceira ocorrência estranha: o nome da droga.   Hiro nunca antes ouviu falar de nenhuma droga chamada ‘Snow Crash’.   Também não seria fora do comum – todos os anos se inventam mais umas mil novas drogas e cada uma surge à venda sob uma meia-dúzia de nomes comerciais.

Só que snow-crash é jargão de computador.   Designa uma falha de sistema, um ‘bug[6] num nível tão básico que t’arrebenta a parte do computador que controla o feixe de electrões do monitor fazendo-o espalhar-se à balda pelo écran tornando assim aquela rede ordenadinha de pixéis num branco torvelinho invernoso – (a tal chuva no écran).   Hiro já viu isso ocorrer um milhão de vezes.   Mas é um nome demasiado peculiar para uma droga.

A coisa que mais lhe atrai a atenção é a autoconfiança do tipo.   Tem uma serenidade brutal, uma presença impassível.   É como estarmos perante um asteróide.   O que estaria okay se ele estivesse a fazer algo com o mínimo de senso.   Hiro procura discernir algumas pistas mais na face dele mas quanto mais de perto o observa mais esse merdoso avatar a preto-e-branco parece tornar-se numa massa indistinta de pixéis contrastantes.   Como pormos o nariz escarrapachado contra o écran de uma TV desarranjada.   Até faz doer os dentes!

“Desculpa-me – diz Hiro – o que é que disseste?”

“Queres experimentar um pouco de Snow Crash?”

Tem uma pronúncia viva que Hiro não consegue bem situar.   O seu áudio é tão bera como o canal vídeo.   Hiro consegue ouvir em fundo carros a passar pelo local onde este tipo se encontra.   Deve ter-se ligado a partir de um terminal público adjacente a alguma auto-estrada.

“Não estou a entender – diz Hiro – o que é isso de Snow Crash?”

“É uma droga, oh pateta – responde o gajo – o que é que pensavas?”

“Aguenta aí um minuto.   Esta é nova para mim – diz Hiro – Honestamente estás mesmo à espera que te vá dar aqui algum dinheiro?   E depois o que é que faço, ponho-me à espera que envies o material?”

“Disse experimentar e não comprar – retorquiu o tipo – não tens que me dar nenhum dinheiro.   Amostra grátis.   E nem tens que ficar à espera do carteiro.   Podes tê-la já .”

Do interior do bolso saca um hipercartão.

Parece um cartão de visita.   O hipercartão é um avatar próprio para um tipo de coisas.   No Metaverso é usado para representar um amontoado de dados, informação.   Pode ser texto, áudio, vídeo, imagens fixas ou qualquer outra informação susceptível de ser representada digitalmente.

Pensa num cromo de futebol que tem uma foto, algum texto e alguns dados numéricos.   Um ‘hipercartão’ de futebol pode conter um filme de promoção do jogador em acção, num formato porreiro como TV de alta-definição, uma biografia integral lida pelo próprio jogador em som stereo digital, uma base de dados estatística, completa, juntamente com software especializado para te ajudar na pesquisa dos dados que pretendes.

Um hipercartão pode transportar um montante de informação virtualmente infinito.   Pelo que Hiro conhece, este tipo de hipercartão pode conter até todos os livros da Biblioteca do Congresso ou os episódios todos que algum dia foram filmados da série ‘Hawaii Five-O’, ou as gravações completas de Jimi Hendrix ou ainda o Census de 1950 dos EUA.

Ou – mais provavelmente – uma larga variedade de perniciosos vírus de computador.   Se Hiro pegar nesse hipercartão e o guardar, então toda a informação que ele representa será transferida do computador deste gajo para o de Hiro.   Hiro naturalmente não irá tocar-lhe em circunstância alguma, da mesma forma que não ferras no teu pescoço qualquer seringa que um desconhecido em Times Square te ofereça.

E nada disto faz sentido.   “Isso é um hipercartão.   Pensei ouvir-te dizer que Snow Crash era uma droga” – diz Hiro, agora totalmente embasbacado.

“E é – responde o gajo – experimenta-a.”

“Mas ela é para te lixar o cérebro? – insiste Hiro – ou o computador?”

“Ambos.   Nenhum.   Que diferença faz?”

Hiro finalmente apercebe-se que acaba de desperdiçar sessenta segundos da sua vida nesta conversa de treta com um paranóico esquizofrénico.   Faz meia-volta e penetra no Black Sun.

6

Na saída do White Columns um carro aguarda, esconso, dir-se-ia uma pantera agachada, lente de aço envernizada reflectindo o loglo resplandecente da Oahu Road.   É uma Unidade.   Uma das Unidades Móveis da MetaGuardas, Ilimitada.   Um emblema prateado encontra-se gravado na porta, uma placa cromada com um distintivo policial do tamanho de um prato ostentando o nome da citada organização pacificadora privada, e anunciando

 

LIGUE 1-800-OS GUARDAS

Principais cartões de crédito aceites

 

MetaGuardas, Ilimitada é a força de manutenção de paz oficial do White Columns e também do The Mews at Windsor Heights, The Heights at Bear Run, Cinnamon Grove e The Farms of Cloverdelle.   Também impõe a regulação rodoviária em todas as auto-estradas e itinerários operados pela Fairlanes, Lda.   Alguns outros dos diferentes FOQNE – Entidades Quase Nacionais Organizadas em Franchise – também usam os seus serviços: Cayman Plus e Os Alpes, por exemplo.   Mas os estados-franchise preferem ter a sua própria força de segurança.

Podes apostar que tanto a Metazania como a Nova África do Sul se encarregam da sua própria segurança.   Essa é a única razão para as pessoas se tornarem cidadãos, para que possam ser engajadas.   Obviamente que a Nova Sicília tem também uma segurança própria.   A Narcolômbia não precisa de segurança nenhuma pois o pessoal tem medo até de passar junto à franchise deles a menos de 160 à hora (Y.T. trata sempre de arrebatar um bom pedaço de energia nestas imediações, em bairros pejados de consulados narcolombianos) e, por sua vez, a Grande Hong Kong de Mr. Lee, o avô de todas as FOQNE, gere isso num estilo tipicamente à Hong Kong, com robots!

O maior concorrente da MetaGuardas é a WorldBeat Security (Segurança Melhores do Mundo) que controla todas as vias pertença da Cruiseways e para mais tem contratos a nível global com os Dixie Traditionals, os Pickett’s Plantation, Rainbow Heights (verifica que são dois Segurbúrbios tipo Apartheid e um para ‘fatos pretos’ – bófias federais), com os Meadowale on the [...inserir nome do rio] e com os Brickyard Station.   A Segurança Melhores do Mundo é mais pequena que a MetaGuardas mas toma conta de contratos de maior gabarito.   Supostamente tem uma secção de espionagem mais desenvolvida e contudo, e se é isso que o pessoal quer, é um deles, correspondem-se mas é com um representante acreditado junto da Central Intelligence Corporation.

E depois existem ainda os ‘Enforcers’ – mas custam um balúrdio e não atinam muito com isso de supervisão.   Murmura-se que sob os seus uniformes envergam T-shirts com o escudo não-oficial dos Enforcers afixado: um punho brandindo um cassetete nocturno e marcado com o dístico PROCESSA-ME.

Assim Y.T. vai deslizando por um declive suave em direcção ao pesado portão em ferro do White Columns, esperando que ele gire para o lado, à espera, à espera... mas o portão parece não mais se mover.   Nem há ainda qualquer feixe laser a pulsar do abrigo do guarda a verificar quem é Y.T.    O sistema como que foi ultrapassado.   Se Y.T. fosse uma garotinha estúpida iria até ao MetaGuarda e perguntaria o porquê daquilo.    O MetaGuarda limitar-se-ia a replicar – ‘segurança da cidade-estado’ e nada mais.   Estes Segurbúrbios!   Estas cidades-estados!   Tão pequenas, tão inseguras, que até qualquer coisinha como não pisarem a tua relva ou pores o som da aparelhagem demasiado alto se torna um assunto de segurança nacional.

Nem pensar em contornar a vedação pelo alto com a prancha.   As White Columns estão envolvidas totalmente por uma vedação em ferro de dois metros e meio, estendida por robots.   Ela rola até ao portão, agarra-se às grades, chocalha-o, mas o portão é demasiado grande e sólido para ser assim abanado.

Não é permitido aos MetaGuardas encostarem-se à sua Unidade – dá-lhes um ar de preguiça e fraqueza.   Podem quase-encostar-se, parecer que se estão a encostar, exibirem-se num ganda’stilo de encostado-ao-carro como este tipo concretamente está agora, mas não se podem encostar.   Para mais, com toda aquela parafernália e brilhante majestade do seu Conjunto Portátil de Equipamento Pessoal pendente do Arnês Modular para Equipamento Pessoal, de certeza que riscaria o acabamento de pintura da Unidade.

“Para começar pá, upa com essa barreira ao comércio, tenho entregas a fazer” – anuncia Y.T. ao MetaGuarda.

Um rebentar vago e húmido que não chega a ser uma explosão faz-se ouvir proveniente da parte de trás da Unidade Móvel.   Como um arroto colossal, abafado à distância, de um bebé saciado.   Aquilo e o choque mole de uma bisga propulsionada por uma língua enrolada mas em tamanho gigante.   A mão de Y.T. ainda segura às barras do portão pica por um instante, depois sente frio e calor ao mesmo tempo.   Dificilmente a consegue mexer.   Toda ela cheira a vinil.

O outro colega do MetaGuarda desce do banco de trás da Unidade Móvel.   A janela da porta traseira está aberta mas tudo ali na Unidade Móvel é tão negro e brilhante que nem disso nos apercebemos até a porta se abrir.   Ambos os MetaGuardas debaixo dos seus polidos capacetes pretos e óculos de visão nocturna escarnecem.   O que acaba de sair da Unidade Móvel transporta um Projector Químico Paralisante de Curto Alcance – uma pistola-cuspideira.   O arranjinho deles funcionou.   Y.T. não se lembrara de focar os Knight Visions dela sobre o assento traseiro para verificar se havia algum franco-atirador de bisgas.

Aquele visco quando expandido no ar desta forma chega ao tamanho de uma bola de futebol.   Quilómetros e quilómetros de finíssimas mas fortes fibras uniformes, como esparguete.   O molho desta massa é pegajoso, uma coisa escorregadia que está líquida por um instante quando a pistola-bisnaga dispara e logo rapidamente se solidifica.

Os MetaGuardas têm que alombar com este tipo de equipamento porque quando os estados-franchise são assim tão pequenos, não se consegue andar em perseguições por aí à volta.   O ‘delinq’ – quase sempre um pobre desleixado inocente – está sempre a uns 3 segundos de distância por skate de um local de asilo seguro num estado-franchise vizinho.   Também todo esse fardo incrível que constitui o Arnês Modular para Equipamento Pessoal, um autêntico candelabro d’equipamento e tudo o que lhe está amarrado, atrasam-nos de uma forma tal que sempre que tentam correr é motivo para o pessoal rebentar à gargalhada para eles.   Assim, em vez de alijarem lastro nalguns quilos, metem ainda mais material para o arnês como esta pistola-de-visco.

Aquele molho fibroso e ranhoso desse visco enrodilhou-se completamente à volta da mão e braço dela e prendeu-os à barra do portão.   O excesso daquele muco entranha-se e escorreu um pouco pelo ferro abaixo mas está já a secar, a transformar-se em borracha.   Alguns fios soltos revolutearam e acabam por fincar-se no ombro, peito e na cara dela.   Conforme recua a parte adesiva separa-se das fibras esticando-se em longos e infinitamente finos fiozinhos como mozzarella quente.   Estes secam e solidificam instantaneamente, tornam-se bastante  quebradiços e encarquilham-se como fumo.   Não está assim tão grotescazeca ela agora uma vez que a face ficou livre já dessa viscosidade embora a mão esteja ainda perfeitamente imobilizada.

“É aqui avisada de que qualquer movimento da sua parte não explicitamente permitido por autorização verbal da minha parte pode induzir-lhe um risco directo tanto física como consequentemente psicológico e, possivelmente – isto dependente do seu sistema pessoal de crenças – riscos espirituais induzidos pela sua reacção pessoal ao risco físico mencionado.   Qualquer movimento da sua parte constitui uma aceitação implícita e irrevogável de tal risco” – avança o primeiro MetaGuarda.   No seu cinto um pequeno altifalante encarrega-se de traduzir simultaneamente tudo isto em espanhol e japonês.

“Ou como estamos habituados a dizer – continua o outro MetaGuarda – Alto, sucker - pateta!”

A intraduzível palavra ressoa de pequeno fone pronunciada respectivamente como ‘esucker’ e ‘saka’.

“Somos representantes autorizados da MetaGuardas, Ilimitada.   Ao abrigo da Secção 24.5.2 do Código de White Columns estamos autorizados a levar a cabo uma actuação como força policial neste território.”

“Tal como chatear pobres coitados inocentes” – replica Y.T.

O MetaGuarda desliga o tradutor.   “Ao falar inglês implícita e irrevogavelmente aceita que toda a conversação posterior tenha lugar em língua inglesa” – diz ele.

“Nem consegues decifrar o que Y.T. diz” – continua Y.T.

“Foi identificada como um Foco de Investigação de uma Ocorrência Criminal Registada que alegadamente terá ocorrido noutro território, nomeadamente em The Mews at Windsor Heights.”

“Isso é outro estado, homem.   Estamos em White Columns.”

“Sob provisão do código de The Mews at Windsor Heights estamos autorizados a impor a lei em assuntos de segurança nacional e de harmonia da sociedade igualmente no território referido.   Um tratado entre The Mews at Windsor Heights e White Columns autoriza-nos a colocá-la provisoriamente em custódia até que a sua situação como Foco de Investigação fique definida.”

“Já estás lixada” – conclui o segundo MetaGuarda.

“Como o seu comportamento tem sido não-agressivo e não transporta quaisquer armas à vista, não estamos autorizados a recorrer a medidas heróicas para assegurar a sua cooperação” – afirma o primeiro dos MetaGuardas.

“Mantém-te fixe que nós continuamos a ser fixes” – prossegue o segundo MetaGuarda.

“Contudo estamos equipados com sistemas, incluindo - mas não limitados a isso – armas de projécteis, que caso sejam usados podem colocar uma ameaça extrema e imediata à tua saúde e bem-estar.”

“Tenta algum movimento graçola e fazemos-te saltar a mona” – remata o segundo MetaGuarda.

“Trata mas é de descolar a porra da minha mão” – pede Y.T.   Já antes ouviu esta cantiga um milhão de vezes.

 

O White Columns como muitos dos Segurbúrbios não têm cadeia ou esquadra de polícia.   Tão desagradável à vista!   Afecta o valor imobiliário essa má exposição escusada.   Os MetaGuardas limitam-se a uma franchise ao fim da rua que funciona como escritório.   E quanto a cadeia, qualquer lugar que dê para habeas – haver – em detenção o ocasional corpus andarilho, bem, em qualquer rua principal de um franchisado meio-decente se encontra uma.

Rolam ainda a bordo da Unidade Móvel.   As mãos de Y.T. permanecem algemadas na frente dela.   Uma das mãos envolta ainda naquele muco borrachoso tresandando tão intensamente a vapores de vinil que ambos os MetaGuardas abriram a janela.   Metro e meio daquelas fibras soltas descaíram para o colo dela e estendem-se pelo chão da Unidade, algumas pontas saindo mesmo da porta e a arrastarem-se pelo pavimento.   Os MetaGuardas estão a levar a coisa com calma, seguem pela faixa central mas não dizem que não a passar uma multazinha aqui ou ali por excesso de velocidade visto até terem jurisdição por estas bandas.   Os condutores à volta deles guiam devagar e cuidadosamente, afligidos pela perspectiva de terem que parar e escutar para ali meia hora de citações, avisos e justificações confusas de gajos destes.   Mas os gajos de entregas da CosaNostra que surgem ocasionalmente e os ultrapassam na brasa pela faixa da esquerda, luz laranja incendiada, fingem nem reparar neles.

“O que é que vai ser, ‘A Choldra’ ou o ‘Em Cana’?” – pergunta o primeiro MetaGuarda..   Da maneira que fala estará a dirigir-se ao outro MetaGuarda.

“O ‘Choldra’, se faz favor” – pede Y.T.

“O ‘Em Cana’” – decide o outro MetaGuarda voltando-se e lançando-lhe uma careta através do vidro antibalístico, e tornando a acelerar.

Todo o interior do carro fica iluminado conforme passam por um ‘Buy ‘n’ Fly’ (Comprar & Desandar).   Demora-te num dos parques de estacionamento dos ‘Buy ‘n’ Fly’ e até apanhas um bronzeado. Sem falar que depois ainda vêm os gajos da Segurança Primeiros do Mundo e prendem-te.   Toda aquela iluminação induzida pelos sistemas de segurança fazem brilhar por um momento os autocolantes Visa e MasterCard na janela do lado do condutor.

“Y.T. é portadora de cartões – diz Y.T. – quanto é que é para sair?”

“Como é que é isso de te estares sempre a chamar Whitey (Esbranquiçada)?” – indaga o segundo MetaGuarda.   Como muita gente de cor idealizou mal o nome.

“Não é Whitey, é Y.T.” – corrige o primeiro.

“É isso, como se chama Y.T.” – diz Y.T.

“É o que eu disse – insiste o segundo MetaGuarda – Whitey.”

“Y.T. – diz o primeiro, acentuando o T tão brutalmente que manda uma rajada brilhante de saliva contra o pára-brisas – deixa-me adivinhar, Yolanda Truman?”

“Não.”

“Yvonne Thomas?.”

“Não.”

“Iniciais dequê’ntão?.”

“De nada.”

Na verdade quer dizer ‘Yours Truly’ (Sinceramente Tua) mas se não o conseguem adivinhar que se lixem.

“Não há nada a fazer – diz o primeiro MetaGuarda – estás aqui por algo contra os TMAWH.”

“Não estou a falar em sair oficialmente, mas eu podia fugir...”

“Isto é uma Unidade da instituição.   Não aparamos fugas” – continua o primeiro MetaGuarda.

“Digo-te como é que é – agora o segundo MetaGuarda – pagas-nos um trilião dele e levamos-te para um dos d’ ‘A Choldra’.   Aí regateias com os gajos.”

“Meio trilião” – contrapõe Y.T.

“Setecentos e cinquenta biliões – diz o MetaGuarda.   Oferta final.   Merda, estás aí com as algemas como é que queres regatear connosco?”

Y.T. corre o zip de um bolso na coxa do seu macacão, retira o cartão com a mão limpa, fá-lo deslizar por uma ranhura nas costas do assento da frente e volta a pô-lo no bolso.

 

A ‘Choldra’ parece ser nova e porreira.   Y.T. já viu hotéis que eram piores lugares de pernoita.   O logotipo é um cacto saguaro com um chapéu preto de cow-boy pousado num ângulo engraçado no topo, tudo isto colocado num placard limpo e novinho em folha

 

A CHOLDRA

Qualidade ‘premium’ em encarceramentos e serviços de detenção

Ramonas são bem-vindas

 

Há mais um par de outros carros da MetaGuarda ali no parque e um autocarro celular dos Enforcers estacionado nas traseiras ocupando dez lugares consecutivos.   Isto atrai logo toda a atenção dos MetaGuardas.   É que os Enforcers estão para os MetaGuardas como a Força Delta está para o Corpo de Paz.

“Uma para entrar – anuncia o segundo MetaGuarda.   Aguardam na área de recepção.   Sobre as paredes alinham-se anúncios luminosos cada um deles contendo a imagem de algum ‘desperado’ do Velho Oeste.   Num deles Annie Oakley parece fixar o olhar vago em Y.T.   Como um modelo exemplar.   O balcão de check-in é feito em falso estilo rústico.   Os empregados têm todos chapéu à cow-boy e estrelas de cinco pontas com os respectivos nomes gravados.   Na parte de trás da divisão abre-se uma porta em barras de ferro trabalhadas como imitação de um estilo antigo.   Uma vez atravessada, aquilo parece uma sala de cirurgia.   Toda uma correnteza de pequenas celas brancas e de linhas arredondadas como um comboio de cabinas de chuveiro pré-fabricadas – e de facto até têm essa dupla função pois podes tomar duche no meio do quarto.   Luzes intensas que automaticamente se desligam às onze da noite.   Uma TV que funciona a moedas.   Linha telefónica privada.   Y.T. mal pode esperar.

O cow-boy atrás da secretária dirige para ela um scanner correndo-o sobre o código de barras pessoal.   Centenas de páginas sobre a vida pessoal de Y.T. desenvolvem-se sobre um écran gráfico.

“Huh... – solta ele – feminino.”

Os dois MetaGuardas olham um para o outro, um génio – este gajo nunca poderia ser um MetaGuarda.

“Vocês desculpem-me, estamos cheios.   Para esta noite não há vagas femininas.”

“Então pá...”

“Vêm aquele autocarro ali nas traseiras?   Houve uns distúrbios no ‘Snooze ‘n’ Cruise’ (Soneque & Viaje).   Alguns narcolombianos andavam a despachar um lote adulterado de Vertigo e aquilo tornou-se uma loucura.   Os Enforcers enviaram meia-dúzia de patrulhas e trouxeram uns trinta tipos.   E deste modo estamos lotados.   Experimentem o ‘Em Cana’ ali mais abaixo.”

Y.T. já não está a gostar do rumo disto.

Voltam a enfiá-la no banco de trás do carro e ligam o dispositivo de anulação sonora para o banco traseiro.   Tudo o que ela consegue escutar são os seus próprios sons, contracções e gorgolejar do seu bandulhosinho vazio e qualquer pequeno estalar sempre que mexe aquela mão emporcalhada.   Estava mesmo já com a ideia feita de uma refeição na ‘Choldra’ – Chilli-Fogueira ou Hambúrgueres à Bandido.

No assento da frente os dois MetaGuardas conversam um com o outro.   Voltam a enfiar-se na torrente de trânsito.   Adiante surge agora um placard quadrado iluminado, um Código Universal de Produto, preto no branco, com ‘Buy ‘n’ Fly’ escrito por baixo.

Pegado no mesmo poste e por sob o anúncio do Buy ‘n’ Fly, temos um mais modesto, um rectângulo estreito, e num tipo de letra genérico aparece escrito – ‘Em Cana’.

Estão a levar a Y.T. para um ‘Em Cana’.   Estes bastardos.   Ela bem martela o separador com as suas mãos algemadas deixando umas patadas pegajosas no vidro.   Esses bastardos que tentem depois limpar isto.   Eles voltam-se e miram-na, como uma escumalha culpada, como se ouvissem alguma coisa mas nem soubessem o quê.

Penetram por aquele nimbo de luzes de segurança num azul radioactivo da zona do Buy ‘n’ Fly.   O segundo MetaGuarda vai lá dentro e fala com o gajo que está atrás do balcão.   Um rapaz gordo e branco está a comprar uma revista com camiões-monstros, enverga um boné da New South Africa com uma bandeira dos confederados e ao escutá-los espreita pela janela querendo pôr os olhos sobre um verdadeiro delinquente.   Um segundo homem surge das traseiras, da mesma etnia que o do balcão – mais um gajo de pele escura com olhos chamejantes e um pescoço ossudo.   Este anda com um livro, um manual preso por três anilhas com o logo do Buy ‘n’ Fly.   Para se saber quem é o gerente de uma franchise nem é preciso andar a ler as respectivas placas com o nome e título, basta procurar quem é o que anda com o livrinho.

O gerente conversa com o MetaGuarda, concorda com a cabeça, e retira um molho de chaves da gaveta.

O segundo MetaGuarda sai, deambula até ao carro e num repelão abre a porta de trás.

“Cala-te – avisa – ou da próxima disparo-te mas é a pistola-da-plasticina na boca.”

“É bom que gostes do ‘Em Cana’ – diz Y.T. – porque é onde vais estar amanhã à noite, oh meu chavalo-da-bisnaga.”

“Tenzacerteza?”

“Yeah!   Por fraude com cartão de crédito.”

“Eu polícia, tu agitadora.   Como é que vais meter um processo no Sistema Judicial do Juiz Bob?.”

“Trabalho para a RadiKS.   Nós protegemo-nos.”

“Não, tu esta noite não.   Hoje à noite levaste uma pizza da cena de um estampanço de carro.   Abandonaste o local do acidente.   A RadiKS mandou-te entregar essa pizza?.”

Y.T. não riposta.   O MetaGuarda tem razão.   A RadiKS não a mandou entregar essa pizza.   Fê-lo por impulso próprio.

“Portanto a RadiKS não te vai ajudar, mantém-te calada.”

Ele puxa-lhe pelo braço e o resto dela vem atrás.   O gajo com o manual das argolinhas lança a Y.T. uma olhadela só o suficiente para se certificar que se trata realmente de uma pessoa, não um saco de farinha, um bloco de motor ou um toco de árvore.   Condu-los pelos recônditos fétidos do Buy ‘n’ Fly, recantos sombrios de refugo miserável em contentores a transbordar.   Destranca a porta traseira, uma coisa sem jeito em aço e com marcas de pés-de-cabra junto à moldura como se bestas de garras metálicas tivessem tentado penetrar ali.

Y.T. é levada escadas abaixo para a cave.   O primeiro MetaGuarda segue-a levando-lhe a prancha e vai chocalhando-a descuidadamente contra as ombreiras e contra descoloridas grades de garrafas em policarbonato.

“É melhor tirar-lhe o uniforme e toda essa quinquilharia” – sugere o segundo MetaGuarda, não sem um traço de lascívia.

O gerente fita Y.T. tentando evitar que o seu olhar percorra de alto a baixo pecaminosamente o corpo dela.   Por milhares de anos a sua gente sobreviveu em estado de alerta: esperando que os mongóis irrompessem a galope pela linha do horizonte, ou à espera de reincidentes transgressores a virarem as suas caçadeiras de canos serrados para dentro do balcão.   A sua prontidão de alerta é agora palpável e dolorosa.   Ele está como uma proveta escaldante de nitroglicerina.   Adicionem a isto um problema de má conduta sexual e as coisas só podem piorar.   Para ele isto não é piada nenhuma.

Y.T. encolhe os ombros tentando pensar em algo não enervante e engraçado.   Nesta altura era suposto ela guinchar e encolher-se, contorcer-se e chiar, desmaiar e rogar.   Estão a ameaçar tirar-lhe as roupas.   Isso é mau.   Mas não se transtorna pois sabe que é disso que estavam à espera.

Um Korreio tem que estabelecer espaço no pavimento.   Um comportamento conforme à lei e previsível tranquiliza os condutores.   Mentalmente já te reservaram como que uma pequena área na faixa de rodagem assumindo que te vais manter aí e não conseguem haver-se quando deixas esse espaço.

Y.T. não aprecia estas ‘caixas reservadas’.   Y.T. estabelece o seu próprio espaço no pavimento z’zagueando decididamente de faixa para faixa, impondo um precedente de aleatoriedade arrepiante.   Isto põe o pessoal de nervos em franja, a reagir a ela em vez de ser ao contrário.   Agora estes tipos aqui estão a tentar pô-la numa ‘caixa’, fazê-la seguir as regras deles.

Ela deszipa o macacão até abaixo do umbigo.   Por baixo nada mais, nua excepto a pele ondulante e pálida.

Os MetaGuardas levantam as sobrancelhas.

O gerente dá um salto atrás, levanta ambas as mãos como pretendendo fazer um escudo que o proteja de tão devastador ‘input’ de informação visual.   “Não, não, não” – grita ele.

Y.T. encolhe os ombros e volta a fechar o zip.

Ela não receia nada; traz colocada uma ‘dentata’.

O gerente algema-a a um cano de água fria.   O segundo MetaGuarda por sua vez remove dela o seu par de algemas, das mais recentes e de um modelo cibernético, e encaixa-as de novo no seu arnês.

O primeiro MetaGuarda encosta a prancha contra a parede, precisamente fora do alcance dela.   O gerente pontapeia uma lata ferrugenta de café pelo chão fora com perícia tal que a carambola tangencialmente à pele dela, e agora já ela pode ir a esta ‘casa de banho’.

“De onde é que és?” – indaga Y.T.

“Tadjiquistão” – diz ele.

Um ‘djique.   Ela devia ter adivinhado.

“Bem, o futebol-de-balde-de-merda deve ser o vosso passatempo nacional.”

O gerente não percebe a deixa.   Os MetaGuardas emitem um riso repetido e ligeiro.

Os papéis são assinados.   Todos os demais vão escada acima.   Ao sair o gerente apaga as luzes.   No Tadjiquistão a electricidade é o grande problema.

A Y.T. já está no ‘Em Cana’.

7

O Black Sun é tão grande como um par de campos de futebol colocados lado a lado.   O décor consiste em tampos de mesas quadrados e em preto pairando no ar (seria irrelevante estar a desenhar as pernas), igualmente espaçadas pelo chão e arrumadas em grelha.   Como os pixels.   A única excepção ocorre ao centro onde se juntam os quatro quadrantes do bar (4=22).   Esta parte é ocupada por um bar circular com dezasseis metros de diâmetro.   Tudo é de um preto baço o que torna um bom pedaço mais fácil ao sistema de computador representar as coisas sobre esse fundo genérico, não há que se preocupar em preencher todo um segundo plano complicado.   E assim toda a atenção pode ser focada nos avatars e é assim que o pessoal grama da coisa.

Não existe qualquer interesse de maior em ter um avatar todo artilhado na Street onde aquilo está tão congestionado e todos os avatars se fundem e passam uns através dos outros.   Mas o The Black Sun é uma peça de software com muito mais classe.   No Black Sun não é permitido aos avatars colidirem.   Há um número limite para a gente presente aqui  simultaneamente e eles não podem caminhar uns através dos outros.   Tudo é sólido, opaco e realístico.   E a clientela tem um bom bocado mais de classe – não há cá pénis falantes.   Os avatars parecem gente real.   E o mesmo acontece com a maior parte dos ‘daemons’ – os demoniozinhos às ordens, génios.

O termo ‘daemon’ já vem ele também do velho jargão do sistema operativo UNIX e referia-se aqui a uma peça do software utilitário de baixo-nível, uma parte fundamental do sistema operativo.   No The Black Sun um daemon é como um avatar mas não representa um ser humano.   É um robot que vive no Metaverso.   Um pedaço de software, um género de espírito ou génio que habita na máquina e em geral com alguma função particular atribuída.   O Black Sun tem um número de daemons que vão servindo bebidas imaginárias aos donos e fazem pequenos recados ali à malta.

E ali até se pode ter uns daemons porteiros/seguranças que nos livram dos indesejáveis – agarram nos avatars e atiram-nos porta fora aplicando certos princípios básicos da ‘física avatar’.   Da5id ocupou-se até em melhorar a física no Black Sun de modo a torná-lo um pouco mais estilo ‘cartoon’ e assim gente realmente desagradável pode levar uma cachaporra na cabeça com malhos gigantes ou serem esborrachados debaixo de cofres que tombam das alturas, antes de serem ejectados.

Isto acontece aos que são zaragateiros, a alguém que não se canse de se agarrar constantemente ou dar palmadinhas e bajular alguma celebridade, e a qualquer um que pareça contagioso.   Quer dizer, se o teu computador pessoal estiver infectado com vírus e tente disseminá-los via Black Sun, mais vale estares com um olho no tecto.

Hiro murmura uma palavra – ‘Bigboard’ – evoca o Grande Painel.   Este é o nome de um módulo de software que ele escreveu, uma ferramenta deveras poderosa para um correspondente da C.I.C.   O que isso faz é escavar pelo sistema operativo do Black Sun, vasculha-o à cata de informação e depois chuta cá para fora, projecta-a em frente à sua face num mapa quadrado, espalmado, dando-lhe uma rápida panorâmica de quem está agora aqui e com quem cada um conversa.   São tudo dados não autorizados a que ele supostamente não poderia ter acesso.   Mas Hiro não é nenhum actor bimbo a vir aqui só para estar em rede.   É um hacker.   Se quer alguma informação rouba-a directamente das entranhas do sistema num tu cá tu lá com o equipamento, bebe desse murmúrio ex machina.

A tabela do Bigboard mostra-lhe que Da5id se encafuou no seu sítio habitual, uma mesa no Quadrante Hacker próxima do bar.   O Quadrante Movie Star (Estrelas de Cinema) está com a sua constelação regular de Soberanias e aspirantes a tal.   O Quadrante Rock Star (Estrelas do Rock) esse encontra-se esta noite muito movimentado.   Hiro consegue ver que uma conhecida estrela ‘rap’ nipónica, um tal chamado Sushi K parou ali para uma visita.   E há ainda um punhado de gajos da indústria discográfica a deambularem pelo Quadrante Nipónico – que se parece com os outros quadrantes excepto que é mais calmo, as mesas mais próximas ao chão e abundam aí diligentes daemons-geishas curvando-se em vénias.   Muita da gente aqui provavelmente pertencerá à comitiva de managers, publicitários e advogados de Sushi K.

Hiro avança pelo Quadrante Hacker directo à mesa de Da5id.   Reconhece muita da gente aqui mas como habitualmente fica surpreso e perturbado pelo número de caras novas – todas estas faces argutas, perceptivas, envelhecidas de vinte e uma primaveras.   O desenvolvimento de software tal como o desporto de alta competição tem o condão de pôr a malta aos trinta e um a sentir-se decrépita.

Espreitando pela coxia em direcção à mesa de Da5id, vê Da5id à conversa com uma pessoa a preto-e-branco.   Apesar da ausência de cor e da porcaria da resolução, Hiro reconhece-a pela maneira como ela cruza os braços conforme fala e a maneira como atira o cabelo enquanto escuta o Da5id.   O avatar de Hiro imobiliza-se e fica a olhar para ela adoptando precisamente a mesma expressão facial com a qual ele costumava olhar para esta mulher há anos atrás.   Na Realidade ele estende uma das mãos para agarrar uma cerveja, manda um gole da garrafa e deixa-a revolutear na boca, uma miríade de pequenas ondas entrechocando-se nesse espaço fechado.

 

O nome dela é Juanita Marquez.   Hiro conhece-a desde os tempos em que foram os dois caloiros na mesma altura em Berkeley e estavam na mesma secção de laboratório da turma de física do 1º ano.   Quando a viu pela primeira vez formou uma impressão que não iria mudar por largos anos: ela era de um tipo embirrento, marrona, picuinhas, e que vestia como se fosse responder a um lugar de contabilista numa agência funerária.   Ao mesmo tempo tinha uma língua inflamada, tornava-a num autêntico lança-chamas que não se coibia de usar contra os outros quando a punham brava, e então a coisa era uma enorme cena de retaliação em política de terra-queimada, às vezes tão só por qualquer ligeiro deslize, gaffe ou quebra de etiqueta e que nenhum dos outros caloiros se dera sequer conta.

Foi só um número de anos mais tarde quando os dois acabaram a funcionar nisso da ‘Black Sun Systems, Inc.’ que ele encaixou no devido lugar o segundo termo desta equação.   Na altura ambos estavam a trabalhar em avatars.   Ele na parte dos corpos e ela em faces.   Ela era o departamento de caras pois ninguém mais pensava que as faces tivessem tal importância, tratavam-nas apenas como bustos cor de carne no topo dos avatars.   E ela precisamente na senda de tentar provar-lhes como estavam tremendamente enganados.

Mas nessa fase, a sociedade de tal forma machista de carolas que integravam a estrutura dominante da Black Sun Systems afirmava que a questão das caras era trivial e superficial.   Claro que aquilo não era mais do que sexismo, do tipo especialmente virulento compartilhado por masculinos chatos que acreditam sinceramente serem demasiado brilhantes para serem sexistas.

Essa primeira impressão que remonta aos seus dezassete anos não era mais do que isso – uma reacção primária de um pós-adolescente filhinho da tropa que estava agora por sua própria conta há apenas três semanas.   A mente estava porreira mas de todas as coisas do mundo ele então apenas entendia de uma ou duas: filmes sobre samurais e um computador Macintosh.   E disso sabia ele bem, mesmo bem demais.   Era uma panorâmica sem qualquer espaço para alguém como Juanita.

Há um certo tipo de cidadezinhas que prolifera como furúnculos na cauda de qualquer das bases americanas espalhadas pelo mundo.   Numa série extensa de tais lugares Hiro Protagonist cresceu à pressão, como qualquer orquídea mutante, de estufa, posta a florescer sob o brilho intenso de milhares de luzes de segurança de Buy ‘n’ Flys.   O pai de Hiro juntara-se ao exército em 1944 com a idade de dezasseis anos e passou doze meses no Pacífico, a maior parte dos quais como prisioneiro de guerra.   Hiro nasce quando o seu pai estava já numa meia-idade avançada.   Por essa altura o papá já há muito que podia ter passado à reserva e ter a sua pensão, só que não saberia o que fazer consigo próprio uma vez desmobilizado, e assim foi-se deixando ficar até que acabaram por lhe dar o pontapé no rabo no final dos anos oitenta.   Na altura em que Hiro ingressou em Berkeley, já havia vivido em Wrightstown, Nova Jérsei; Tacoma, Washington; Fayetteville, Carolina do Norte; Hinesville, Geórgia; Killeen, Texas; Grefenweler, Alemanha; Seul, Coreia; Ogden, Kansas; e Watertown, Nova Iorque.   Todos estes sítios acabavam por ser basicamente os mesmos, com os mesmos guettos de franchises, os mesmos tipos de cruzamentos e até a mesma gente – fartou-se de encontrar os mesmos amigalhaços que já conhecera anos antes, outros filhos da tropa que aconteceu terem desembocado mais uma vez na mesma base.

Embora com tons de pele diferentes, todos eles pertenciam ao mesmo grupo étnico: militar.   Os putos negros não falavam como putos negros.   Os tipos asiáticos já não eram aqueles que se desunhavam para serem os primeiros da escola.   Os miúdos brancos, na maioria, não tinham qualquer problema em emparelhar ao lado dos negros e asiáticos.   E as miúdas também sabiam qual era o lugar delas.   Todas tinham o mesmo tipo de mamãs com as mesmas bundas generosas metidas em calças elásticas e as mesmas permanentes, e no geral todas elas eram basicamente doces e ternurentas, conformadas, e se acontecesse serem espertas tratavam era de o ocultar.

Assim a primeira vez que Hiro pôs os olhos sobre Juanita – ou qualquer outra como ela – as suas perspectivas encontravam-se de certa forma todas distorcidas.   Ela tinha um cabelo comprido, preto e brilhante, que nunca fora sujeito a qualquer químico para além do normal shampoo.   Nem punha qualquer pintura azul nos olhos.   Usava roupa escura, de corte, dentro das normas.   E não aceitava qualquer porcaria que fosse, de ninguém, nem sequer dos professores, que nessa altura, e pelo menos para ele, pareciam matreiros e ameaçadores.

Quando a tornou a ver após uma ausência de vários anos – um período passado principalmente no Japão trabalhando entre verdadeiras pessoas adultas vindas de uma classe social acima da que estava habituado, gente de substância que trajava aquilo que na verdade é roupa, e faziam algo de sério com as suas vidas – ficou marado ao verificar que Juanita era na verdade uma tipa elegante, esteticamente de arromba.   Ao princípio até pensou que ela se tivesse submetido a qualquer tipo de mudanças radicais desde o primeiro ano na universidade.

Mas entretanto ele voltaria em visita ao seu pai a uma dessas cidadelas do exército e depara com a rainha do baile de finalistas do liceu que conhecera.   Havia crescido de tal forma rápida, chocante mesmo, transformando-se numa senhora assim a atirar pró-gordo, de cabelo berrante e roupas berrantes, que lia de passagem os tablóides nas filas para a caixa no armazém militar, sem dinheiro de sobra para gastar em jornais; e que ia fazendo balõezinhos com a pastilha elástica, e havia-se já com duas crianças para as quais não tinha energia para vigiar ou disciplinar.

Ao ver esta mulher ali no supermercado da base é que ele finalmente passa por uma tardia e discreta epifania, uma revelação, só que não é qualquer feixe de luz brilhante descendo dos céus, dir-se-ia mais como o ténue clarão acastanhado de uma lanterna meio-descarregada no topo de um escadote:   Juanita na verdade não tinha mudado muito desde aqueles dias, apenas amadurecido nela própria.   Havia sido ele quem mudara.   Radicalmente.

Uma vez foi ao escritório dela, estritamente numa questão de trabalho.   Até então tinham-se visto amiúde por ali perto do escritório mas comportavam-se como se nunca se tivessem conhecido antes.   Mas quando nesse dia chegou ao escritório, ela diz-lhe para fechar a porta atrás dele, apaga o écran do computador e começa a brincar com um lápis rodando-o nas mãos.  A ele, olha-o como quem olha para um prato de sushi do dia anterior.   Na parede atrás dela existia uma pintura de amador de uma senhora de idade, colocada numa moldura antiga e trabalhada.   Era a única decoração no escritório da Juanita.   Todos os outros hackers tinham fotos a cores da descolagem do Space Shuttle, ou posters da nave Enterprise.   “É a minha falecida avó, que Deus tenha piedade da sua alma – diz ela ao vê-lo olhar para o retrato – o meu modelo de inspiração.”

“Porquê?   Era alguma programadora?”

Ela só olhava para ele, por sobre o lápis com que brincava, quão lento pode ser um mamífero e ainda ter funções respiratórias?   Mas em vez de o mandar abaixo dá-lhe uma resposta simples:   “Não.”   Depois concede-lhe uma explicação mais detalhada.   “Uma vez, quando tinha quinze anos de idade, faltou-me o período.   Eu e o meu namorado escolhêramos o método do diafragma mas sabia que era falível.   Eu era boa em matemática, até tinha a taxa de falhanço memorizada, gravada a fogo no meu subconsciente, ou seria no meu consciente?   Nunca os diferencio.   Bem, de qualquer modo estava aterrorizada.   O nosso cão de família começou a tratar-me de uma maneira diferente – supostamente conseguem detectar pelo faro uma mulher grávida.   Ou uma cadela grávida, em geral.”

Aqui já a cara de Hiro se havia imobilizado numa expressão inquiridora, atónita, e da qual Juanita faria uso extensivo posterior no seu trabalho.   Porque conforme conversava com ele observava a sua face, analisando a forma como os pequeninos músculos na sua testa repuxavam as sobrancelhas para cima e faziam os olhos mudar de aspecto.

“A minha mãe era inerte a qualquer sinal, à intuição.   O meu namorado, pior do que isso, de facto mandei-o logo à vida pois isso fez-me ver que tipo de anormalidade o gajo era – como muitos membros da nossa espécie” – através disto referia-se ela à parte masculina da Humanidade.

“De qualquer forma a minha avó um dia veio visitar-nos – continuou ela relançando um olhar por sobre o ombro, para a pintura – e evitei-a até que nos sentámos todos à mesa para jantar.   E aí ela abarcou toda a situação, talvez em apenas dez minutos, apenas por me observar a face do outro lado da mesa.   Eu não teria dito mais que dez palavras – ‘passa-me a tortilha’.   Não sei como é que a minha cara reportou essa informação ou que tipo de trama interna cerebral na minha avó lhe permitiu alcançar esse incrível feito.   Condensar factos a partir do vapor da nuance.

Condensar factos a partir do vapor da nuance.   Hiro nunca mais esqueceu a sonoridade dela a pronunciar estas palavras, aquele sentimento que desceu sobre ele conforme via pela primeira vez o tão brilhante que Juanita era.

Ela prosseguia – “Nem me apercebi bem realmente disto tudo a não ser dez anos depois já como estudante graduada ao tentar construir um interface de utilizador que conseguisse canalizar muito rapidamente uma quantidade de informação, um trabalho para um desses gigantescos ‘baby killers’ – assassinos de bebés.”   Esse era o termo ‘simpático’ que ela usava para o que quer que fosse ligado ao Departamento de Defesa.   “Estava a imaginar várias soluções usando todo o tipo de avanços técnicos sofisticados, como tentando implantar eléctrodos directamente no cérebro.   E então lembrei-me da minha avó e vi, meu Deus, a mente humana pode absorver e processar uma quantidade incrível de informação – se estiver no formato apropriado.   Uma interface apropriada.   Se lhe deres a face correcta.   Queres café?”

Então foi assaltado por um pensamento alarmante.   Como é que ele terá sido nos seus tempos de faculdade?   Até que ponto não foi um palerma?   Terá deixado Juanita com uma má impressão?   Qualquer tipo jovem ter-se-ia preocupado com isso remetido a um silêncio, mas Hiro nunca se coibiu em analisar as coisas até ao fim e assim convidou-a para jantar fora e após um par de bebidas – ela a tomar água soda – manda-lhe a pergunta:   “Pensas que sou um parvo?”

Ela riu-se.   Ele sorria, acreditando que arranjara uma maneira para um bom pedaço de conversa, terno e atraente.

Só não imaginou até há um par de anos atrás é que essa pergunta havia constituído de facto o ponto de viragem do seu relacionamento.   Será que Juanita pensava que Hiro era um parvo?   Ele teve sempre alguma razão para pensar que a resposta fosse um sim, mas nove em cada dez vezes ela insistia que a resposta era não.   Isso levou a algumas grandes discussões e a algumas boas sessões de sexo entre os dois, algumas rupturas dramáticas e apaixonadas reconciliações, mas no final a bagunçada daquilo tudo tornou-se demais para eles – já desgastados pelo trabalho – e acabaram por se afastar um do outro.   Ele estava emocionalmente estropiado por interrogar-se constantemente sobre o que é que ela na verdade pensava dele e confuso pelo facto de tão profundamente se importar pela opinião dela.   E ela talvez, começava a perguntar-se - se Hiro estava tão convencido na sua mente que não era merecedor dela, talvez fosse por saber algo que ela não conhecesse.

Hiro poderia ter esboçado o quadro, a causa daquilo como diferença de classes, excepto que os pais dela é que viviam numa casa em Mexicali de chão poeirento enquanto o pai dele embolsava mais dinheiro que muitos professores da faculdade.   Mas a ideia de classe ainda ganhava pé na sua mente, pois classe é algo mais do que o rendimento – tem a ver com saberes onde é o teu lugar numa teia de relações sociais.   Juanita e os seus amigos sabiam onde era o seu encaixe com uma tal certeza que raiava as fronteiras da demência.   E Hiro por seu lado nunca o sabia.   O seu pai fora um sargento de primeira, a mãe uma mulher coreana de gente que havia sido escrava em minas nipónicas, e Hiro não sabia sequer se era negro ou asiático ou apenas e simplesmente ‘da família militar’, quer fosse rico ou pobre, educado ou ignorante, talentoso ou sortudo.   Nem havia qualquer parte do país a que pudesse chamar ‘o meu sítio’, até que se mudou para a Califórnia o que é no fim tão vago como dizeres que vives no Hemisfério Norte.   Provavelmente terá sido afinal a sua desorientação geral que trouxe essa diferença.

Após a ruptura Hiro enveredou em saídas essencialmente com uma série de gajas bimbas que – ao contrário da Juanita – ficavam impressionadas pelo facto de ele trabalhar para uma firma high tech em Silicon Valley.   E mais recentemente ele via-se até a procurar mulheres ainda mais rapidamente impressionáveis que se contentavam com bem menos.

Juanita manter-se-ia celibatária por uns tempos e foi então que começou a sair com Da5id até que finalmente acabaram por casar.   Da5id não tinha uma dúvida que fosse sobre qual era a sua posição neste mundo.   Os seus amigos eram judeus russos cuja família habitava as mesmas pedras acastanhadas dos bairros de Brooklyn há mais de setenta anos e após imigrarem da Letónia onde viviam há meio milénio.   Com a Torah ao colo, conseguia traçar a sua linhagem completa remontando por toda a árvore até Adão e Eva.   Era filho único e fora sempre o melhor da turma em tudo, e quando conseguiu o seu mestrado em Ciências de Computação, em Stanford, lançou-se no mundo e formou a sua própria firma com calma, com tanta ou nenhuma agitação como a que o pai de Hiro exibia ao arrendar nova caixa postal sempre que mudavam.   Então tornou-se rico e agora dirige o The Black Sun.   O Da5id estava sempre muito convicto acerca de tudo.

Mesmo quando estava completamente errado.   E foi por isso que Hiro deixou o seu emprego na Black Sun Systems, apesar de promessas de riquezas futuras, e que a Juanita se divorciou de Da5id dois anos após casar com ele.

Hiro nem foi a esse casamento da Juanita com o Da5id; repousava languidamente na prisa para onde foi atirado algumas horas antes da cerimónia.   Foi encontrado no parque ‘Golden Gate’ apanhadinho de amor sem mais nada vestido a não ser um thong – uma estreita tira de couro – a beber enormes haustos de uma garrafa tamanho ‘jumbo’ de Courvoisier, e a simular ataques estilo kendo – uma arte marcial – com uma genuína espada samurai.   Como que flutuava por sobre a relva impulsionado pelas poderosamente musculadas coxas conforme ia seccionando ao meio os razantes ‘frisbees’ e bolas de baseball.   Apanhares uma bola longa que vem a voar com a borda da tua lâmina e partindo-a bem ao meio como a uma toranja não é nenhuma proeza insignificante.   O único contra é que os donos da bola possam interpretar mal as tuas intenções e chamar a polícia.

Acabou liberto ao pagar todas as bolas e ‘frisbees’ – esses discos voadores em plástico côncavo – mas desde tal episódio nunca mais se preocupou em perguntar a Juanita o que é que achava, se ele era ou não um parvo.   Até Hiro sabia agora a resposta.

Desde aí os seus caminhos tornaram-se bem diferentes.   Nos primeiros anos do projecto Black Sun a única forma que os hackers tinham para se pagar do seu trabalho era emitindo acções para si próprios.   Hiro tinha a propensão para as vender quase tão rápido como as recebia.   Juanita não.   E agora ela é rica e ele não.   Seria fácil dizer que Hiro é um investidor estúpido e Juanita esperta, mas os factos são um pouco mais complexos do que isso:   Juanita pôs todos os ovos num único cesto mantendo todo o seu dinheiro em acções do Black Sun.   No rescaldo disso, como se vê, ela acabou dessa forma por fazer uma quantidade de dinheiro, como também poderia ter acabado falida.   E Hiro não teve, de certo modo, qualquer escolha.   Quando o pai adoeceu, o exército e a V.A.[7]  tomaram a seu cargo a maior parte das contas médicas, mas mesmo assim debateram-se com uma quantidade de despesas e a mãe de Hiro – que dificilmente falava inglês – não estava preparada para sozinha fazer ou gerir dinheiro.   Assim, quando o pai dele morreu, Hiro recolheu todo o seu dinheiro do Black Sun para colocar a mamã num agradável centro na Coreia.   Ela adora o sítio.   Faz golfe até todos os dias.   Ele poderia ter mantido o seu dinheiro no The Black Sun e ter dez milhões de dólares cerca de um ano mais tarde quando as acções se tornaram públicas, mas a sua mãe seria então praticamente uma das pessoas na rua, desprotegida.   Portanto quando a sua mãe o visita no Metaverso, com aquele ar bronzeado e feliz, enfiada nos seus trapos de golfe, Hiro vê isso como a sua fortuna pessoal.   Isto não paga a renda dele, mas está tudo okay! – mesmo quando vives num lugar de merda há sempre o Metaverso, e no Metaverso Hiro Protagonist é um príncipe guerreiro.

8

Sente a língua a picar.   Repara que na Realidade se esquecera de engolir a cerveja.

É irónico como Juanita se apresenta aqui neste sítio num avatar a preto-e-branco de baixa tecnologia.   Ela precisamente, uma das que idealizou a forma de pôr os avatars a mostrar qualquer coisa que se assemelhasse a emoções reais.   Esse é um dos factos que Hiro nunca esqueceu pois ela fez a maior parte desse trabalho quando os dois ainda estavam juntos e sempre que vê um avatar a mostrar surpresa, ou zangado, ou apaixonado, aqui pelo Metaverso, vê isso como um eco de si próprio ou de Juanita – o Adão e Eva do Metaverso.   É uma coisa algo difícil de esquecer.

Pouco tempo depois de Juanita e Da5id se divorciarem é que o Black Sun na verdade ‘descola’.   E uma vez a facturarem à grande, a transaccionarem as partes daquilo, inundados pela adulação dos outros da comunidade hacker, todos chegam à conclusão agora de que o que fez deste lugar um sucesso não foram os algoritmos para evitar colisões ou os daemons porteiros/seguranças ou qualquer outra dessas coisas.   Foram os rostos da Juanita.

Vá, perguntem ao gajo de negócios ali no Quadrante Nipónico.   Eles chegam aqui mas é para conversarem sobre coisas a sério com gajos enfatiotados vindos de todo o mundo e consideram isto tão bom como um cara a cara.   Mais ou menos que ignoram o que está a ser dito – que se perde até em parte na tradução.   Prestam atenção é às expressões faciais e linguagem corporal da pessoa com quem falam.   E é assim que sabem o que é que vai na cabeça de um tipo – a condensarem factos do vapor da nuance.

Juanita recusou-se a analisar esse processo, insistindo que era algo inefável, algo que não se podia explicar por palavras.   Uma católica radical de terço e tudo, ela não tinha qualquer problema com este tipo de coisas.   Mas os carolas ali do sítio não gostaram da resposta, disseram que fazia daquilo um misticismo irracional e ela acabou por deixá-los e arranjou emprego numa companhia nipónica.   E estes, até nem tinham qualquer problema com essa coisa de misticismo irracional conquanto isso fizesse dinheiro.

Mas Juanita nunca mais voltou ao The Black Sun.   Por um lado, porque estava lixada com Da5id e com os outros hackers que nunca apreciaram devidamente o trabalho dela.   Por outro, ela também decidiu que aquilo tudo se trata de um ‘bogus’ – fictício - e que não importa o quão bom fosse, o Metaverso está a distorcer a forma como as pessoas falam umas com as outras, e ela não quer essas distorções nos seus relacionamentos.

Da5id dá-se conta de Hiro por ali e num sinal com os olhos faz saber que esta não é uma boa altura.   Normalmente tão subtis gestos perdem-se no caudal de ruído do sistema mas Da5id além de possuir um computador pessoal de topo de gama teve Juanita a participar no design do seu avatar, e assim a mensagem chega tão explícita como um tiro disparado para o tecto.

Hiro volta-se e vai bamboleando em torno do grande bar circular numa órbita lenta.   A maior parte dos sessenta e quatro tamboretes estão ocupados com malta de um nível rasteiro da indústria amontoando-se aos pares ou em grupos de três e fazendo o que melhor sabem – rumores e intriguice.

“Assim fui com o realizador a essa conferência de enredos.   Ele tem aquela casa na praia...”

“Incrível?”

“Não me provoques.”

“Foi o que ouvi.   Debi esteve lá numa festa quando aquilo pertencia ao Frank e a Mitzi.”

“Bem, de qualquer maneira, temos essa cena logo ao princípio onde o personagem principal acorda num contentor do lixo.   A ideia é mostrar – vês – como o gajo está desencorajado.”

“Toda essa louca energia.”

“Exactamente.”

“Fabuloso.”

“Gosto da ideia.   Bem ele pretende substitui-la com outra em que o gajo se encontra no deserto com uma bazooka e vai rebentando todos os carros velhos numa sucata abandonada...”

“Estás a brincar!”

“Portanto estávamos ali sentados na porra do pátio sobre a praia e o gajo a andar e a fingir que empunhava a merda da bazooka – Whoom! Whoom! Whoom!   Está mesmo apanhado pela ideia.   Quer dizer, este é um tipo que quer à força meter uma bazooka num filme.   Assim estou a pensar em falar com ele para saber mais acerca disso.”

“Uma boa cena.   Tens razão.   Uma bazooka não é o mesmo que um contentor do lixo.”

Hiro pausa o suficiente para abarcar isto, depois continua a andar.   Volta a murmurar – ‘Bigboard’ – evocando o tal mapa mágico e verifica a sua própria localização antes de ler o nome daquele argumentista ali perto.   Mais tarde poderá encetar uma pesquisa por toda a indústria de publicações para ver em que guião este gajo está a trabalhar e daí obter o nome desse realizador-mistério com um fetichismo por bazookas.   Uma vez que toda esta conversa lhe chega via computador pessoal tira uma cópia para cassete áudio daquilo tudo.   Posteriormente irá processar aquele material para disfarçar as vozes e enviá-lo para a Biblioteca com hiperligações e em entradas cruzadas de índices, a surgir sob o nome do realizador.   Uma centena de argumentistas, concorrentes  ávidos, irão importar esta conversa e ouvi-la uma e outra vez até terem aquilo na mona.   Pagarão a Hiro por tal privilégio.   E dentro de poucas semanas argumentos com bazookas vão inundar o escritório do realizador.   Whoom!

O Quadrante Rock é quase luminoso demais para que consigamos olhar.   Os avatars das estrelas de rock possuem penteados que as estrelas de rock reais apenas em sonhos ousam ter.   Hiro relança por aí o olhar num ápice só para ver se algum dos seus amigos está presente mas aquilo são essencialmente parasitas ou artistas de ontem.   A maior parte dos que Hiro conhece são as ‘próximas estrelas’ ou a isso candidatos.

É mais fácil olharmos para o Quadrante das Estrelas de Cinema.   Os artistas gramam de vir aqui pois no Black Sun aparecem sempre tão belos como nos filmes.   E ao invés de um bar ou clube na Realidade podem estar aqui sem que fisicamente deixem a sua mansão ou suite de hotel, cabina de esqui ou cabina do jacto privado ou onde quer que estejam.   Podem-se ostentar todos, visitar os amigos, sem qualquer exposição a raptores, paparazzies, impingidores de guiões, assassinos, ex-cônjuges, angariadores de autógrafos ou tratadores de processos, fãs psicopatas, propostas de casamento ou colunistas da má-língua.

Ele levanta-se do tamborete e retoma a vagarosa órbita perscrutando o Quadrante Nipónico.   Como habitualmente, uma porrada de gajos em fatos.   Alguns a palrar com ‘gringos’ da indústria.   E uma enorme parte do quadrante no canto traseiro, repara, encontra-se isolada por uma partição temporária.

De novo o ‘Bigboard’.   Hiro identifica quais as mesas que se encontram atrás da partição e principia a ler os nomes.   O único que reconhece imediatamente é um americano: L. Bob Rife, o dono do monopólio da TV por cabo.  Um dos tubarões da indústria embora raramente seja visto.   Parece estar ali com toda uma ‘jangada’, uma multidão de grandes ‘bosses’ nipónicos de volta daquelas mesas baixas.   Hiro mete o computador  a memorizar esses nomes todos de modo a que mais tarde os verifique junto às bases de dados da C.I.C. e descubra quem são.   Aquilo tem todo o aspecto de um grande e importante encontro.

“Agente secreto Hiro!   Como é que estás?”

Hiro volta-se.   Juanita está mesmo atrás dele, destacando-se no seu avatar a preto-e-branco mas mesmo assim com bom aspecto.   “Como é que vais?” – pergunta ela.

“Bem.   Tu como é que vais?”

“Porreira.   Espero que não te importes de falar comigo desta forma, com este avatar bera estilo um fax-da-vida real.”

“Juanita, prefiro olhar antes para um fax de ti do que para muitas outras em carne e osso.”

“Obrigadinha, seu bastardo manhoso.   Há um bom tempo já que não conversamos!” – comenta ela como se houvesse algo de notável nisso.

Anda qualquer coisa no ar.

“Só espero é que tu não te envolvas por aí com essa coisa do ‘Snow Crash’ – diz ela – o Da5id não me quis ouvir.”

“E eu o que sou, algum modelo de auto-inibição?   Eu sou exactamente o género de gajo que poderei envolver-me com isso.”

“Conheço-te melhor que isso, bem sabes.   És impulsivo.   Mas também és esperto.   Tens todos esses reflexos de um lutador de espadas.”

“E o que é que tal tem a ver com o abuso de drogas?.”

“Quer dizer que consegues ver as coisas más a vir, e afastá-las, deflecti-las.   É um instinto, não uma coisa aprendida.   Logo que te viraste e me viste isso transpareceu imediatamente na tua cara como ‘o que é que se passa?’, e ‘que raio, em que é que anda metida a Juanita?’”

“Pensei que não falasses com gente no Metaverso.”

“Só o faço se quero chegar a alguém numa urgência – explica ela – e contigo falaria sempre.”

“Porquê eu?”

“Tu sabes.   Por causa de nós.   Lembras-te?   Por causa do nosso relacionamento – quando eu andava a escrever esta coisa – eu e tu éramos as duas únicas pessoas que alguma vez tiveram uma autêntica e honesta conversa a sério, aqui no Metaverso.”

“Continuas a ser a mesma excêntrica e mística que sempre foste” – diz ele sorrindo como que para tornar a frase numa operação de charme.

“Nem consegues imaginar como estou mesmo tornada numa mística e excêntrica, oh Hiro.”

“Então queres-me contar até onde é que vai esse misticismo e excentricidade?”

Ela mira-o cautelosamente.   Precisamente do mesmo jeito que o fez quando ele apareceu no escritório dela há anos atrás.

A mente dele especula porque estará ela sempre assim tão alerta na sua presença.   Na faculdade ele costumava pensar que ela teria medo do seu intelecto mas ele verificou anos a fio que essa era a menor das preocupações dela.   Na Black Sun Systems imaginou que seria apenas o típico estado de alerta feminino – Juanita com receio de que ele a transformasse em mais uma presa para a cama.   Mas também isso estava muito fora de questão.

Nesta altura tardia do campeonato da sua carreira romântica ele está suficientemente maduro para avançar com nova teoria:   ela está a ser cuidadosa porque grama dele.   Gosta dele a despeito dela própria.   Ele é precisamente daquele tipo de escolhas românticas tentadoras completamente erradas e que uma garota esperta como Juanita devia ser ensinada a evitar.

Definitivamente é isso.   Há mais qualquer coisa a acrescentar quando nos tornamos mais velhos.

De forma a responder à pergunta dele, ela prossegue: “Há um associado meu que gostaria que te encontrasses com ele.   Um cavalheiro e investigador, chama-se Lagos.   É um gajo fascinante para conversarmos.”

“Teu namorado?”

Em vez da esperada batida de pestanas imediata ela detém-se a pensar na pergunta.   “Precisamente ao contrário hoje, o meu comportamento, do dos dias no Black Sun.   Não ando por aí a pinar com todos os machos com quem trabalho.   E mesmo que assim fosse o Lagos estava fora de questão.”

“Não é o teu tipo?”

“Não, está muito longe disso.”

“Qual é o teu tipo então?”

“Velhos, ricos, louros sem imaginação e com carreiras sólidas.”

Esta quase lhe passava ao lado, mas então apanha-lhe o sentido.

“Bem, posso sempre pintar o cabelo.   E eventualmente tornar-me-ei velho.”

Ela agora ri-se.   É uma rajada de escape, um soltar de tensão.

“Acredita-me Hiro que sou a última pessoa neste momento com quem quererias estar envolvido.”

“É algo que tenha a ver com essa tua coisa da igreja?” – pergunta ele.   Juanita tem empatado o remanescente do seu dinheiro para fundar um ramo próprio, dela, da igreja católica.   Considera-se a ela própria uma missionária perante os ateístas inteligentes do mundo.

“Não tenhas esse ar condescendente – pede ela – essa é precisamente a atitude que combato.   A religião não é uma coisa para tontos.”

“Desculpa.   Não é justo isto, estás a ver, tu consegues ler qualquer expressão que eu faça, na minha cara, enquanto eu a ti só te consigo topar através da porra deste blizzard.”

“Definitivamente que tem a ver com religião – diz ela – mas tudo isto é muito complicado e o teu background, as tuas bases nesta área são tão deficientes que nem sei por onde começar.”

“Hey!   Eu costumava ir à igreja todas as semanas, no liceu.   Até cantava no coro.”

“Eu sei.   É precisamente esse o problema.   Noventa e nove por cento de tudo o que se passa na maior parte das igrejas cristãs não tem mesmo nada a ver com a verdadeira religião.   Mais cedo ou mais tarde as pessoas inteligentes dão-se conta disso e concluem que tudo, os cem por cento, não passam de treta, e é por isso que na mente das pessoas o ateísmo aparece ligado ao ser-se inteligente.”

“Então nada disso que eu aprendi na igreja tem nada a ver com o que tu estás a falar?”

Juanita pensa por um instante, mirando-o bem.   Depois, puxa do bolso um hipercartão: “Toma, leva isto.”

Conforme Hiro lho tira da mão o hipercartão passa de uma coisa tremida, esbatida e a duas dimensões, a uma autêntica peça de escritório, um cartão quase real de rica textura e acabamento, em cor creme.   Impresso ao longo da face em tinta preta brilhante existe um par de palavras

 

B A B E L

(Infocalipse)

 

 

9

Por segundos o mundo parece parar e a luz ir-se abaixo.   O Black Sun perde aquela animação fluida e começa a mover-se de uma forma difusa e aos soluços.   O computador de Hiro claramente que acaba de levar um abanão em grande.   Todos os seus circuitos estão ocupados a processar, transferir, um volumoso bolo de informação – o conteúdo desse hipercartão -  e não têm tempo para redesenhar a imagem do The Black Sun em todo o seu esplendor e aquela fidelidade de cortar a respiração.

“Ganda merda! – clama ele quando o Black Sun reganha a qualidade de animação – Que diabo estará no cartão?   Deves ter aqui metade da Biblioteca!”

“E um bibliotecário como anexo – diz Juanita – um assistente para te auxiliar em todas as pesquisas através disso.   E uma série de videotapes sobre L. Bob Rife, que é o que ocupa a maior parte dos bytes.”

“Bem, vou tentar dar uma vista de olhos.” – diz ele ambiguamente.

“Faz isso.   Ao contrário do Da5id és suficientemente esperto para tirares daí algum proveito.   E entretanto mantém-te ao largo do Raven.   E ao largo do Snow Crash, okay?”

“Quem é que é esse Raven?” – pergunta ele.    Mas Juanita está já a caminho da porta de saída.   Todos aqueles modernos avatars se voltam para observá-la conforme passa por eles, as estrelas de cinema a deitarem-lhe um olhar dardejante enquanto os hackers parecem fazer beicinho e miram-na reverentemente.

Hiro orbita de regresso ao Quadrante Hacker.   Da5id está para ali como que a baralhar hipercartões sobre a mesa – estatísticas de negócios sobre o Black Sun, clips de vídeo e áudio, bocados de software, rascunhos de números de telefone.

“Há um pequeno ‘blip’ do sistema operativo que se me repercute aqui nas entranhas todas as santas vezes que entras por essa porta – diz-lhe Da5id – Tenho sempre esta premonição de que o Black Sun vai mergulhar direitinho num ‘crash’.”

“Deve ser do Bigboard – responde-lhe Hiro – aquilo por enquanto ainda tem umas rotinas que tropeçam nalgumas das falhas existentes na memória básica.”

“Ah, é isso.   Por favor, peço-te, manda isso fora” – diz-lhe Da5id.

“O quê, o Bigboard?”

“Yeah!   Em dada altura foi completamente radic mas agora, pá, é como trabalhar com um machado de pedra num reactor de fusão nuclear.”

“Obrigado.”

“Vou-te dar as dicas todas de que precises se quiseres fazer a optimização disso para algo um nadinha menos perigoso – oferece Da5id – Não estava a impugnar as tuas habilidades.   Só digo que tens que te ambientar aos novos tempos.”

“É difícil que nem uma porra – diz Hiro – Já não há lugar para hackers por conta própria.   Tens que ter toda uma grande companhia por trás.”

“Sei bem disso.   E também entendo que não consigas manter-te a trabalhar para uma dessas grandes corporações.   É por isso que te estou a dizer que te ofereço o material que precisas.   Para mim, Hiro, és sempre uma parte do Black Sun, mesmo desde a altura em que seguimos rumos diferentes.

É típico do Da5id, de novo a falar com o coração num bypass à cachola.   Não fosse Da5id um hacker que Hiro bem podia desesperar até ele alguma vez ter cabeça para fazer qualquer coisa.

“Vamos falar de um outro assunto – sugere Hiro – estava com alucinações ou tu e a Juanita estão outra vez numa de se entenderem?”

Da5id lança-lhe um sorriso indulgente.   Ele tem sido deveras simpático para com Hiro desde a ‘Grande Conversa’ vários anos antes, à volta de cervejas e ostras, como entre um par de companheiros-de-armas de há muito.   Só lá para os três quartos da ‘Conversa’ é que aquilo fez luz no espírito de Hiro.   Que ele estava de facto, ali, a ser despedido neste preciso momento.   Desde a ‘Conversa’ tem-se sabido que Da5id tem providenciado ocasionalmente a Hiro pedaços úteis de ‘informs’ e alguns rumores.

“À pesca de alguma coisa com interesse?” – interroga Da5id, perspicaz.   Como muitos carolas, Da5id até que é habitualmente desprovido de grande manha, mas em momentos como este ele chega-se a imaginar a própria reincarnação de Maquiavel.

“Tenho algo a dizer-te – confessa-lhe Hiro – Muito do material que me deste nunca o enviei para a Biblioteca.”

“Porque não, que diabo?   Dou-te o que há de melhor em dicas.   Pensei que estivesses a fazer alguma massa com isso.”

“Não aguentava uma dessas, pá – responde-lhe Hiro – aputalhar assim bocados das minhas conversas privadas.   Porque é que pensas que estou falido?”

Há mais outra coisa que ele não refere que é o facto de ele sempre se ter considerado como um par de Da5id e simplesmente não suporta a ideia de apanhar as migalhas e restos de Da5id como um cão encolhido debaixo da sua mesa.

“Fiquei satisfeito em ver a Juanita vir aqui, mesmo em preto-e-branco – continua Da5id – Ela não usar o Black Sun é como o Alexander Graham Bell recusar-se a usar o telefone.”

“E porque é que ela veio aqui esta noite?”

“Qualquer coisa que a anda a chatear – adianta Da5id – queria saber se eu tinha reparado em certa gente na Street.”

“Alguém em particular?”

“Estava preocupada com um tipo bem grande e de cabelo comprido e preto – diz Da5id – um tipo itinerante a distribuir  qualquer coisa chamada – topa-me lá esta – Snow Crash.”

“E ela já tentou na Biblioteca?”

“Yeah!   Em princípio penso que sim.”

“E tu já viste esse gajo?”

“Oh, sim.   Não é difícil de dar com ele – diz Da5id – Olha, está mesmo ali do lado de fora da porta.   Deu-me isto aqui.”

Da5id vasculha sobre a mesa, pega num dos hipercartões e mostra-o a Hiro.

 

 

 

SNOW CRASH

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“Da5id – diz Hiro – não acredito que tenhas aceite um hipercartão de alguém a preto-e-branco.”

Da5id ri-se.   “Isto já não é o que era nos velhos tempos, meu amigo.   Tenho para aqui no sistema uma tal panóplia de medicina anti-viral que nada passa.   Já levei com tanta merda contaminada de todos os hackers que para aqui vêm que isto é já como trabalhar numa enfermaria de epidemias.   Portanto não estou com receio do que venha a bordo desse hipercartão.”

“Bem, nesse caso, estou curioso” – desafiou Hiro.

“Yeah.   Eu também” – ri-se Da5id.

“E se calhar até é qualquer coisa deveras desapontadora.”

“Provavelmente um animercial – concorda Da5id – Achas que devo abri-lo?”

“Yeah.   Força nisso.   Não é todos os dias que te é dada uma nova droga para experimentares” – diz Hiro.

“Bem, até podes experimentar uma por dia caso queiras – diz Da5id – mas não é todos os dias que encontras uma que não te possa causar danos.”   Pega no hipercartão e rasga-o em dois.

Por um segundo nada se passa.   “Cá estou à espera...” – diz Da5id.

Um avatar materializa-se sobre a mesa em frente de Da5id começando a princípio numa forma fantasmagórica e transparente e gradualmente vai-se tornando sólido e tridimensional.   É na verdade um efeito banal.   Hiro e Da5id já se estão a rir.

O avatar é uma Brandy, nuazinha, completamente em pelo.   Nem parece as Brandys normais, é mais como aquelas imitações baratas da Brandy feitas em Taiwan.   Claramente que é apenas um ‘daemon’, está ali programada como um avatar-autómato.   Nas mãos segura um par de tubos com o tamanho de rolos de toalhas de papel.

Da5id recosta-se na cadeira gozando com a cena.   Há qualquer coisa de hilaridade fácil nisto tudo.

A Brandy inclina-se para a frente atraindo Da5id.    Da5id chega-se à face dela mostrando um largo esgar.   Ela encosta então ao seu ouvido aqueles lábios grosseiros e carregados de um vermelho rubi, e murmura algo que Hiro não consegue escutar.

Quando ela se volta a endireitar e afasta de Da5id a cara dele mudou.   Parece pasmado, os olhos inexpressivos.   Talvez Da5id pareça isso mesmo.   Ou talvez o Snow Crash tenha baratinado de qualquer forma o seu avatar que este tenha deixado de reproduzir devidamente os verdadeiros traços faciais de Da5id.   Mas continua a olhar em frente abstractamente, os olhos imóveis nas órbitas.

A Brandy sustém o par de rolos em frente da cara imóvel de Da5id e afasta-os um do outro.   Aquilo afinal tem uma banda, como um pergaminho que se vai desenrolando defronte da face de Da5id, estendendo-se como um écran espalmado, a duas dimensões, perante os olhos dele.   O rosto imobilizado de Da5id adquire uma tonalidade azulada conforme reflecte a luz que emana dessa faixa.

Hiro contorna a mesa para ver melhor.   Consegue uma visão rápida daquela espécie de papiro desenrolado antes que a Brandy de supetão o torna a fechar sonoramente.   Era como uma parede tremeluzente de luz viva, um écran plano mas flexível de TV.   Só que não mostrava nada de nada.   Só estática.   ‘White noise’ – ruído branco.   Como ‘snow’ (neve).   Uma TV a mostrar chuva.

E num repente aquilo foi-se, sem deixar qualquer rasto.   Alguns aplausos esparsos e sarcásticos soltam-se de umas poucas de mesas do Quadrante Hacker.

Da5id está de volta ao estado normal com um sorriso estampado, meio forçado e meio embaraçado.

“O que é que se passou? – diz Hiro – só consegui ver um pouco de ‘snow’ mesmo no fim.”

“Viste tudo então – diz Da5id – uma matriz arranjada de pixels brancos e pretos com uma alta resolução porreira.   Apenas umas centenas de milhares de uns e zeros que me deram a ver.”

“Então, por outras palavras, alguém acabou de expor o teu nervo óptico a, deixa ver, aí a uns cem mil bytes de informação” – conclui Hiro.

“Ruído, é mais como isso.”

“Bem, toda a informação é como ruído até que consigas quebrar-lhe o código” – diz Hiro.

“Porque é que alguém me iria mostrar informação em código binário?   Eu não sou nenhum computador.   Não consigo ler um bitmap[8].”

“Relax, Da5id.   Só estou a picar-te” – diz Hiro.

“Sabes o que é que foi?   Sabes como é que é isso, hackers sempre a tentarem que eu veja amostras do seu trabalho?”

“Yeah!”

“Algum hacker arranjou este estratagema para me mostrar o material dele.   E tudo funcionou fixe até ao momento em que a Brandy estendeu aquele pergaminho só que o código devia estar com ‘bugs’, marado, e aquela cena entupiu, ‘crashou’, teve aquele ‘snow crash’ na altura errada e assim em vez de ver a imagem pretendida tudo o que vi foi apenas ‘snow’, essa chuva no écran.

“Então porque é que ele chamou à coisa ‘snow crash’?”

“Humor tétrico.   Sabia previamente que o código estava lixado.”

“E o que é que essa Brandy te sussurrou ao ouvido?”

“Qualquer língua que não reconheci – diz Da5id – Uma série de ‘babble’[9], blá-blá-blá, um palrar sem nexo.”

‘Babble’.   Babel.

“E depois disso ficaste assim a modos como pedrado.”

Da5id parece ressentido.   “Não estava pedrado.   Achei foi toda a experiência demasiado fantástica, imagino só que estive assim como ausente por um segundo.”

Hiro lança-lhe um olhar extremamente desconfiado.   Da5id nota-o e levanta-se.   “Queres ir ver o que é que os teus concorrentes no sector Nipónico estão a desencantar?”

“Concorrentes?”

“Então não eras tu que desenhavas avatars para a malta do rock, para as estrelas?”

“E ainda desenho.”

“Okay, o Sushi K está cá esta noite.”

“Oh, sei.   Aquele penteado do tamanho de uma galáxia!”

“Até podes ver daqui todos esses raios a soltarem-se – continua Da5id apontando para o quadrante seguinte – mas quero ver a cena completa.”

Parece estarmos a assistir a um nascer do sol ali no meio do Quadrante Rock Star.   Acima das monas daquela mole de avatars Hiro consegue vislumbrar uma girândola de feixes laranja irradiando para fora a partir de um ponto no centro daquela multidão.   Vê-se a coisa a mexer, a revolutear e ondular de um para outro lado e todo o universo parece movimentar-se com ela.   Na Street a radiância imensa do penteado ‘sol nascente’ de Sushi K seria automaticamente suprimida pelas regulamentações sobre altura e envergadura.   Mas o Da5id permite a livre expressão nos territórios do Black Sun e assim aqueles raios alaranjados prolongam-se por aí fora até aos limites de propriedade do edifício.

“Pergunto-me se já alguém lhe terá dito que os americanos não irão muito à bola com música ‘rap’ cantarolada por alguém japonês” – diz Hiro, conforme vão vagueando por ali.

“Talvez pudesses tu dizer-lho – sugere Da5id – e cobra-lhe pelo serviço.   Ele está em L. A. precisamente agora, como sabes.”

“Provavelmente está num hotel cheio de lambe-botas a dizerem-lhe que o gajo vai ser uma ganda ‘strela.   O que ele precisa é de ser exposto à verdadeira biomassa.”

Conseguem injectar-se numa das torrentes humanas daquele tráfego compacto esgueirando-se e abrindo uma recurvada passagem por entre uma fissura naquela turba toda.

“Biomassa?” – interroga Da5id.

“Um corpo de matéria viva.   É um termo ecológico.   Se tomares um hectare de floresta equatorial, um quilómetro cúbico de oceano ou todo um quarteirão da zona de Compton, por exemplo, e expelires tudo o que não é matéria viva – a sujidade e a água – ficas é com a biomassa.”

Da5id, o eterno carola: “Não entendo” – a voz dele parece agora engraçada, esganiçada, nota-se ‘ruído branco’ a interferir no seu canal de áudio.

“É uma expressão da indústria – explica Hiro – A indústria alimenta-se da biomassa humana da América.   Como uma baleia retirando krill das águas do mar.”

Hiro abre caminho por entre um par de homens de negócios nipónicos.   Um enverga um uniforme azul mas o outro é um desses ‘neo-tradicionais’ e veste um quimono escuro.   E como Hiro anda também com duas espadas – a katana, mais comprida, sobre a anca esquerda, e a outra, para uma mão só, a mais curta wakizashi, enfiada diagonalmente pelo cinturão.   Ele e Hiro trocam olhares esquivos ao armamento um do outro.   Depois Hiro interessa-se noutra direcção e finge nem reparar nele, enquanto o neo-tradicional se imobiliza solidamente excepto os cantos da boca que descaem.   Hiro já viu antes este tipo de ritual e sabe que pouco falta para se envolver numa refrega.

Mas num repente aquelas pessoas todas destroçam do caminho para fora.   Há qualquer coisa grande e inexorável que corta e avança pelo meio da multidão chutando avatars para a esquerda e para a direita à balda.   Só uma coisa tem a habilidade para tratar gente deste jeito ali dentro do Black Sun e isso é um ‘daemon’ porteiro/segurança.

Conforme se aproxima Hiro repara que há uma cunha voadora completa deles por ali, gorilas de ‘smoking’ – autênticos gorilas representados.   E parece estarem apontados para Hiro.

Ele bem que tenta recuar mas logo choca com um obstáculo.   Até parece que finalmente o ‘Bigboard’ lhe arranjou uma partida das grandes.   Mete-se a caminho para fora do bar.   “Da5id – pede Hiro – chama-os pá, vou deixar de usar isso.”

Toda a gente ali nas proximidades olha mas por cima do ombro de Hiro, as faces iluminadas por um carrossel de luzes coloridas.

Hiro volta-se para olhar na direcção de Da5id.   Só que Da5id já lá não está.

Em vez de Da5id existe é uma nuvem agitada, como um ‘karma’ mal digitalizado.   Tão brilhante, rápido e indistinto que quase fere a vista olhar para ele.   Relampeja para cá e para lá entre o colorido e o preto-e-branco e em cores vai girando por todos os tons do espectro como estando atingida por holofotes diferentes de alta potência, desses montados em discos.   E não se limita a ficar no seu espaço próximo.   Linhas de pixels tão finas como cabelos soltam-se dali e disparam para um dos lados ceifando caminho através do espaço do Black Sun em direcção e através de uma das paredes.   Não é tanto um corpo organizado visto ser mais uma nuvem centrífuga de linhas e polígonos cujo centro não estabiliza, despedindo bocados vivos de estilhaços do seu corpo por toda a sala, interferindo com os avatars pessoais, piscando e desaparecendo.

Os gorilas não se importam nem vacilam, enfiam aqueles seus compridos dedos peludos até ao miolo da nuvem em desintegração e filam-no de qualquer maneira passando por Hiro com o seu saque em direcção à saída.   Hiro olha para aquela disformidade e vê que se assemelha muito à cara de Da5id como se observada através de um monte de vidro estilhaçado.   Uma visão momentânea e logo o avatar desaparece pela porta da frente, chutado na noite com tal pontapé de mestre que o faz elevar por sobre a Street num longo e liso arco que se some no horizonte.   Hiro ainda olha outra vez para a coxia para ver a mesa de Da5id deserta, rodeada por hackers embasbacados.   Alguns deles estão chocados, outros tentam sufocar o sorriso.

Da5id Meier, supremo senhor dos hackers, pai fundador do protocolo do Metaverso, criador e proprietário do mundialmente famoso Black Sun, sofreu um ‘crash’ de sistema.   Acaba de ser expulso do próprio bar por um dos seus daemons.

10

A segunda ou terceira coisa a meter na cachimónia quando se põem a marrar para isso de serem Korreios é a técnica de chinar um par de algemas.   Elas não são idealizadas como sistemas de retenção a longo termo, o contrário precisamente de milhões de franchises ‘Em Cana’.   E um status prolongado dos surfistas como grupo étnico oprimido significa que por esta altura todos eles são em maior ou menor grau uns artistas no escapanço.

Comecemos pelo princípio.   Y.T. tem uma cabazada de coisinhas ali penduradas pelo uniforme.   O macacão tem para aí uma centena de bolsos, uns grandes e espalmados para coisas a entregar, e outros pequenos e fininhos para ferramenta, bolsos cozidos às mangas, coxas e pernas.   O equipamento e ferramentaria que se enfiam para estes bolsinhos multifaceteados tendem a ser pequenos, hábeis e leves: canetas, marcadores, canetas-lanterna, canetas-canivete, gazuas, leitores de códigos de barras, foguetes luminosos, chaves de fendas, Liquid Knuckles (Falanges Líquidas -  um spray paralisante), atordoantes vários e sticks – pauzinhos - luminosos.   Uma calculadora em posição invertida e que funciona igualmente como taxímetro e cronómetro está presa então de cabeça para baixo à coxa direita.

Na outra coxa existe um telemóvel.   Quando o gerente está já ao cimo das escadas a trancar a porta começa ele a retinir.   Y.T. atende com a mão livre.   É a mãe dela.

“Olá mamã.   Bem, e tu?   Estou na casa da Tracy.   Sim, viemos até ao Metaverso.   Estamos por aqui às voltas nestas arcadas na Street.   É mesmo de dar pulos.   Sim, usei um avatar giro.   Ná, a mãe da Tracy disse que me levava a casa, mais tarde.   Devemos parar no ‘Joyride on Victory’ um bocadinho, okay?   Okay, está bem, dorme sossegada mamã.   Eu vou.   Gosto de ti, também.   Até logo.”

Soca o botão iluminado de acesso rápido que liquida a conversa com a mamã e em menos de meio segundo lhe devolve um sinal de marcação.   ‘Roadkill’ (o Carcaça da Estrada) pede ela ao aparelho.

O telefone ‘lembra-se’ e disca o número deste ‘Carcaça’.

Sons de trânsito entre o som do ar que sifla rápido pelo micro do portátil de ‘Roadkill’ que segue a uma velocidade aterradora.   A juntar a esse fundo há o soar de inúmeros  pneus a rolarem sobre o pavimento e que é quebrado pela percussão ocasional em qualquer buraco.   Parece o som típico do pavimento esboroante no Boulevard Ventura.

“Ôi, Y.T. – diz Roadkill – estás numa boa?”

“Estás porreiro, tu?”

“A surfar pela ‘Tura.   Estás numa boa?”

“A curtir numa ‘Em Cana’.”

“Chiça!   Quem te enfiou aí?”

“MetaGuardas.   Pregaram-me ao portão da ‘White Columns’ com uma dessas pistolas-bisnaga.”

“Whuá!   Altamente!   Sais quando?”

“Em breve.   Podes fazer um giro por aqui, dás-me uma mãozinha?”

“O que é que queres dizer?”

Homens.   “Tu sabes pá, dá-me uma mãozinha.   És o meu namorado – reclama ela a falar muito pausada e nitidamente – se eu sou filada é suposto vires e auxiliares a dar a fuga.”   Não é suposto todos saberem isto?   Será que os pais já não ensinam aos putos mais nada?

“Bem, humm, onde é que isso fica?”

“No ‘Buy ‘n’ Fly’ número 501.762.”

“Eu estou p’ráqui a caminho de Bernie numa de super-ultra...”

Como aconteceu em San Bernardino.   Uma entrega de super-ultra-alta prioridade.   Como aí, estás sem sorte nenhuma.

“Okay, obrigadinha na mesma.”

“Desculpa-me.”

“Surfar em segurança” – lança Y.T., a sua tradicional despedida sarcástica.

“A vida continua” – remata Roadkill.   O barulho do trânsito esvai-se.

Pateta do caraças.   No próximo encontro até vai ter que rastejar.   Mas há entretanto outra pessoa que lhe deve uma.   O único problema é que o gajo pode ser um tipo muit’aéreo.   Vamos tentar.

“Estou?” – responde ele no telemóvel.   Ouve-se a respiração pesada e em fundo o choro de duas sirenes à disputa.

“Hiro Protagonist?”

“Yeah, quem é?”

“Y.T.   Onde é que estás?”

“No parqueamento de um Safeway, em Oahu” – responde ele.   E está a dizer a verdade pois ela ouve lá por trás da voz dele os carrinhos de supermercado a executarem, chocalhando, as suas barulhentas copulações anais.

“Estou a modos que ocupado por agora Whitey, mas diz lá o que é que precisas de mim?”

“É Y.T. – insiste ela – e podias era ajudar-me a dar a fuga aqui do ‘Em Cana’” – ela fornece-lhe os detalhes.

“Há quanto tempo o gajo te deixou aí?”

“Dez minutos.”

“Okay, o manual-das-três-anilhas para as franchises ‘Em Cana’ estipula que é suposto o gerente ir verificar o detido meia hora após a admissão.”

“Como é que sabes isto tudo?” – diz ela acusadoramente.

“Bem, usa a tua imaginação.   Logo que o gerente faça o giro da meia-hora, aguenta mais cinco minutos e avanças.   Vou tentar ajudar-te, okay?.”

“‘Tá nice!”

 

À meia-hora em ponto ela ouve a porta das traseiras a ser destrancada.   As luzes arrebitam.   Só os óculos Knight Visions impedem que fique com os olhos dolorosamente magoados.   O gerente trambolha por um par de degraus, olha para ela, olha mesmo para ela uma porção excessiva de tempo.   O gerente claramente que está tentado.   Aquele olhar anterior, momentâneo, sobre a carne dela, ricocheteou-lhe pelo cérebro na passada meia-hora.   Vai esfanicando os miolos com vastos dilemas cosmológicos.   Y.T. só espera que ele não tente nada porque os efeitos da dentata podem ser imprevisíveis.

“Decide o que é que queres na porra dessa cabecinha” – desafia ela.

A coisa funciona.   Esta fresca erupção de choque cultural abana este ‘tadjique bem para fora dos seus puzzles éticos.   Lança a Y.T. um olhar desaprovador – afinal de tudo forçou-o a sentir-se atraído por ela, levou-o a uma tusa, pôs-lhe a carola a girar – não era preciso prenderem-na, era? – e assim feitas as contas sente-se lixado com ela.   Como se tivesse direito a isso.

Será este o género que inventou a vacina da pólio?

Volta-se e torna a subir os degraus, extingue a luz e tranca a porta.

Ela controla o tempo e acerta o alarme do relógio para daí a cinco minutos – a única norte-americana que sabe mesmo como é que se acerta o alarme do seu relógio de pulso digital.   Tira o kit de pequenas lâminas de um dos bolsinhos apertados existentes na manga.   Extrai igualmente um dos sticks luminosos e aquilo acende-se conforme o parte dando uma luz que lhe permite ver na boa.   Encontra uma pecinha, uma mola fina em aço, lisa, fá-la deslizar para os recônditos de uma das algemas e faz força sobre a patilha de uma mola no interior.   A algema, a funcionar antes só num sentido, como uma bracelete que só se pudesse tornar mais apertada, abre-se toda e solta-se desse abraço ao cano da água.

Ela podia tirar a outra argola do pulso mas decide que até grama daquilo e toca a pôr também a algema solta junto à outra formando uma dupla bracelete.   É mesmo o tipo de coisa que a mamã dela fazia nos tempos em que foi punk.

A porta de aço está trancada mas as normas de segurança dos ‘Buy ‘n’ Fly’ ditam a existência de uma saída de emergência na cave, em caso de incêndio.   Aqui está uma janela de cave com as respectivas barras da praxe e um alarme de incêndio, vermelho, bem grande e multilíngue, fixado a ela.   O encarnado até parece preto naquele clarão verde do stick luminoso.   Ela lê as instruções em inglês, volta atrás mentalmente uma ou duas vezes e aguarda pelo alarme do relógio.   Deixa passar o tempo tentando ler as instruções em todas as outras línguas, interrogando-se sobre qual é o quê.   Para Y.T. tudo aquilo parece Taxilinga.

A janela está quase tão suja para se conseguir descortinar através dela, mas ela percebe qualquer coisa preta que passa em frente a caminhar.   Hiro.

Dez segundos depois o relógio dispara.   Ela empurra a saída de emergência.   A campainha do alarme de incêndio faz-se ouvir.   Aquelas barras são mais problemáticas do que supunha – ainda bem que não é um fogo a sério – mas acaba por abri-las.   Atira a prancha para fora, para o parque de estacionamento, e encafua o seu corpinho através da abertura justamente quando já ouve a porta das traseiras a ser destrancada.   Por alturas em que o três-anilhas encontra finalmente o inestimável interruptor da luz já vai ela numa viragem apertada para o parque fronteiro e que se tornou num autêntico festival desses ‘djiques dos táxis.

Dir-se-ia que estão aqui todos os tadjiques da Califórnia do Sul guiando os seus táxis bojudos, escafiados, recheados de gado extravagante nos assentos de trás, tresandando a incenso e ambientadores ‘Airwick’ que despedem lampejos em néon.  Montaram qualquer coisa – uma bateria de oito tubos como um gigantesco cachimbo de água sobre a bagageira de um dos táxis, e ali estão eles a engolfar a plenos pulmões aquelas montanhas com a altura de um homem de fumos sufocantes.

E estão fixos em Hiro Protagonist que por sua vez  os olha a todos eles.   Todos ali no parque de estacionamento parecem completamente aturdidos.

Deve ter feito a sua aproximação a partir das traseiras sem imaginar que aquilo ali à frente estivesse repleto de ‘djiques.   O que quer que tivesse idealizado não vai ser bem assim, o plano está lixado.

Aí vem o gerente a correr saído da parte de trás do ‘Buy ‘n’ Fly’, bradando o alerta num Taxilinga terrificante.   Vem disparado que nem um projéctil ao traseiro de Y.T.

Mas os ‘djiques à beira daquela enorme bateria de cachimbos não se importam com a Y.T.   A fixação deles é em Hiro para onde se viram como um míssil já bloqueado sobre um alvo.   Cuidadosamente sustêm agora aquelas boquilhas enfeitadas em prata num monte colocado sobre o pescoço desse mega-fumeiro.   Depois, cá estão a começarem-se a mover para ele, buscando qualquer coisa no interior das dobras na roupa, nos bolsos de dentro dos casacões.

Y.T. vê-se distraída por um agudo e sibilante ruído.   Os olhos voltam-se para Hiro e repara que ele acaba de desembainhar uma enorme espada recurva de quase um metro e de que ela não se havia ainda dado conta.   De súbito ele põe-se agachado, como de cócoras.   A lâmina da espada brilha quase dolorosamente sob aquela luminosidade assassina dos holofotes de segurança do ‘Buy ‘n’ Fly’.”

Tão querido!

Seria de alguma imprecisão e desmérito dizer-se que os gajos da fumarada foram apanhados desprevenidos.   Não estão tão amedrontados como confusos.   Quase sem dúvida alguma que na sua maior parte encontram-se armados.   Então porque é que está este gajo a tentar chateá-los com uma espada?

E aí ela recorda-se.   Uma das múltiplas profissões constantes no cartão de visita de Hiro é o maior lutador de espadas do mundo.   Será que vai conseguir mesmo haver-se com todo este clã de ‘djiques armados?

A manápula do gerente fecha-se sobre a parte superior do braço dela – como se isto fosse capaz de travá-la.   Com a mão livre procura tacteando sobre o corpo, pelo inúmeros bolsos, e agora dá-lhe o remédio – uma sprayada breve de ‘Liquid Knuckles’, o verdadeiro murro líquido este paralisante.   O gajo solta um grunhido distante, abafado, a cabeça descaindo para trás, a manápula que se abre e liberta-lhe o braço, e lá vai ele, deu-lhe a macacoa, tomba de costas desamparado espalhando-se contra um dos táxis, as mãos enclavinhadas agora a tentarem enfiar-se pelos próprios olhos.

Só um ‘seg.’   Não há ninguém neste mesmo táxi.   Mas ela consegue topar uma tira entrançada de quase 60 centímetros com chaves dependuradas, suspensa da ignição.

Faz voar os skates pela janela de trás e mergulha ela a seguir – ela é tão pequena que abrir a porta é opcional – e esgueira-se até ao assento do condutor, afunda-se naquele ninho de berloques em madeira e purificadores de ar, arranha com o motor e descola.   Marcha à ré.   Em direcção ao parque das traseiras.

O carro encontrava-se apontado para fora, mesmo ao estilo ‘taxeiro’, pronto para uma saída rápida, o que seria óptimo se ela estivesse só por sua conta – mas há que pensar em Hiro.   O rádio guincha nesta altura, erupções vivas, sonantes, de Taxilinga.   Ela dá a volta toda por trás em redor do Buy ‘n’ Fly.   Curiosamente aquilo ali está tranquilo e vazio.

Engata uma marcha à frente e dispara agora pelo mesmo caminho.   Os ‘djiques ainda nem tempo tiveram para reagir e esperavam era vê-la surgir pelo outro lado.   Numa chiadeira de travagem imobiliza-se junto a Hiro que teve já a presença de espírito suficiente para devolver a espada à bainha.   Voa através da janela do pendura.   Ela deixa de lhe prestar atenção.   Há coisas mais importantes a sintonizar, e verifica é se não vai ser abalroada ao sair para a estrada.

Não, não foi abalroada embora uma viatura tenha tido que contorná-la sobre os gemidos dos pneumáticos.   Ela aponta a carripana pela auto-estrada, quer partir que nem um tiro.   E aquilo limita-se a responder como um táxi velho que é.

O único problema agora é que uma meia-dúzia de outros decrépitos calhambeques-táxis vêm aí atrás à cata deles.

Há qualquer coisa a pressionar contra a coxa esquerda de Y.T. e que a obriga a olhar para baixo.   Um revólver verdadeiramente remarcável, bem volumoso, pendura-se de um saco de rede preso ao painel lateral da porta.

Ela tem que achar um sítio seguro para se enfiarem.   Se conseguisse encontrar um ‘franchisulado’ da Nova Sicília isso já servia – a Máfia deve-lhe uma atenção.   Ou da Nova África do Sul, que ela odeia.   Mas os Novos Sul-Africanos odeiam ainda mais os ‘djiques.

Esquece isto;   Hiro é preto ou pelo menos preto em parte.   Não o posso meter na Nova África do Sul.   E como Y.T. é uma ‘caucas’ tão pouco podem ir para a Metazania.

Mr. Lee Greater Hong Kong – A Hong Kong Maior de Mr. Lee, sugere Hiro – meio quilómetro à frente, à direita.”

“Bela ideia, mas não te vão deixar entrar com as tuas espadas, ou vão?”

“Vão – diz ele – porque sou cidadão daí.”

E ela vê então a tabuleta, o placard destaca-se pois é raro.   Não se vêm muitos destes.   É um painel em verde e azul, tranquilizante e calmo, num guetto de franchises ferido por tanta luminosidade.   Pode-se ler:

 

A HONG KONG MAIOR DE MR. LEE

 

Um estrondo explosivo e a carola dela martela no encosto para a cabeça ali do assento.   Um dos táxis perseguidores acaba de lhes dar uma violenta trombada por trás.

E é a bater os 120 que ela entra com os rodados a protestar pelo estacionamento da ‘Mr. Lee’.   O sistema de segurança nem tempo tem para ler os ‘visas’ dela e baixar os STD (Severe Tire Damage) – os rebentadores de pneus – e pronto, é mesmo Estragos Severos nas Rodas, em toda a extensão!, os radiais carecas acabam de ficar lá atrás nos espigões.   Aquilo são faíscas por todo o lado a espirrarem das quatro jantes nuas até que com um berro metálico a carripana se reduz assim à imobilidade sobre aquela grelha da frontaria que é ao mesmo tempo canteiro de absorção de dióxido de carbono e solo impermeável para estacionamento.

Ela e Hiro descem do veículo.

Hiro troça abertamente, pregado pelo feixe cruzado de uma dúzia de rubros feixes laser que o vasculham à uma em todas as direcções.   O sistema de segurança por robot da ‘Hong Kong’ está a investigá-lo.   A ela também.   E ela atreve-se a seguir aqueles lasers traçando rabiscos por sobre o seu peito.

“Bem-vindo à Hong Kong Maior de Mr. Lee, Mr. Protagonist – ouve-se do sistema de segurança, através do altifalante amplificado – e bem-vinda, a sua convidada, Ms. Y.T.”

Os outros táxis detiveram-se em formação ao longo do ressalto do passeio.

Alguns tinham até ultrapassado a entrada para a franchise  e tiveram que recuar cerca de um quarteirão.   Há agora uma barragem de pancadas de portas a fecharem-se com força.   Uns poucos até nem se importam, deixaram os motores a funcionar, portas escancaradas.   Três dos ‘djiques detêm-se sobre o passeio a olhar para os restos de pneus ali empalados nos espigões: largas línguas de neoprene enlaçadas em aço, e uns cabelos de fibra de vidro, como madeixas despenteadas.   Um dos tipos tem o revólver na mão a apontar para baixo, directamente para o passeio.

A correr, aproximam-se destes aqui outros quatro ‘djiques.   Y.T. conta mais dois revólveres e uma caçadeira de punheta.   Mais alguns gajos destes e estão prontos a formar governo.

Cuidadosamente os tipos passam por sobre os espigões e alcançam o luxuriante canteiro da ‘Hong Kong’.   Conforme o fazem logo os lasers voltam à vida.   Os tadjiques num segundo vêm-se todos envoltos num vermelho granulado.

Então qualquer coisa diferente acontece.   Acendem-se luzes.   O sistema de segurança pretende uma melhor iluminação sobre estes tipos.

Os franchisulados da ‘Hong Kong’ são famosos pelos seus relvados – e quem é que já ouviu falar de canteiros para estacionarmos em cima? – e famosos pelas suas antenas.   Parecem daquelas instalações de pesquisa da NASA todas cheias de antenas.   Algumas são ligações a satélite, apontadas para o céu.   Mas algumas delas, antenas pequeninas, frágeis, estão viradas para ali para o solo, para a zona relvada.

Y.T. não percebe bem disto, mas estas pequenas antenas são transmissores/receptores de radar operando na banda de 1 milímetro.   Como qualquer outro radar são boas na detecção de objectos metálicos.   Mas ao contrário dos radares dos centros de controle de tráfego aéreo conseguem catar ínfimos detalhes.   A apanha de um sistema pode ser tão apurada como o seu comprimento de onda.   Visto o comprimento de onda do radar girar à volta do 1 milímetro consegue ver o enchimento dos teus dentes, as ilhós nos teus ténis ‘Converse’, os botões das tuas Levi’s.   Até te calcula os trocos que tens nos bolsos.

Ver armas não é problema para este sistema.   Esta coisa  até diz se estão carregadas e com que tipo de munição.   Uma importante função, pois as armas são ilegais na ‘Hong Kong Maior de Mr. Lee’.

11

Não é de bom tom manter-se por ali à volta e gozar estupidamente à pala do ‘crash’ que atingiu o computador de Da5id.   Uma parte dos hackers mais jovens faz precisamente isso como forma de mostrar aos outros todos que eles é que são os entendidos e sabichões.   Hiro encolhe os ombros e sai dali de volta ao Quadrante Rock.   Ainda quer ver o penteado do Sushi K.

Só que vê o caminho impedido pelo mesmo tipo nipónico, o neo-tradicional.   O gajo das espadas.   Está de frente para Hiro, à distância de duas espadas e não mostra intenções de se desviar.   Hiro faz as coisas como alguém bem educado.   Inclina-se p’rá frente pela cintura e torna a endireitar-se.

O homem de negócios procede com menos polidez.   Olha para Hiro e mede-o de alto a baixo cuidadosamente e só então se dobra por sua vez, ou mais ou menos isso.

“Essas – diz o tipo de negócios – são extremamente bonitas.”

“Obrigado, senhor.   Por favor, sinta-se à vontade para conversarmos em Nipónico, se preferir.”

“Isso é o que o teu avatar usa, não é?   Não andas com essas armas na Realidade” – diz o homem de negócios.   Em inglês.

“Desculpe o fazer-me difícil, mas de facto ando mesmo com estas armas na Realidade” – insiste Hiro.

“Tal e qual como estas?”

“Exactamente.”

“São armas bastante antigas, então” – replica o tipo de negócios.

“Sim, acredito que são.”

“Como é que aconteceu ficar na posse de uma herança familiar nipónica tão importante?” – interroga o homem de negócios.

Hiro até pode ver o texto que se subentende aqui – e usas essas espadas para quê?   Cortar melancias?

“Agora são uma herança da minha família – responde Hiro – o meu pai ganhou-as.”

“Ganhou-as?   Como, ao jogo?”

“Em combate particular.   Foi uma luta entre o meu pai e um oficial nipónico.   A história é assaz complicada.”

“Desculpe-me se interpretei mal a sua história – continua o homem de negócios – mas tinha a impressão de que não fora permitido aos homens da sua raça lutar durante essa guerra.”

“É correcta a sua impressão – diz Hiro – o meu pai era condutor de camiões.”

“E então como é que foi isso de entrar num combate corpo-a-corpo com um oficial nipónico?”

“O incidente teve lugar no exterior de um campo de prisioneiros de guerra – diz Hiro – O meu pai e outro prisioneiro tentaram a fuga.   Foram perseguidos por um número de soldados nipónicos e pelo oficial que era o dono destas espadas.”

“É muito difícil engolir a sua história – diz o homem de negócios – porque o seu pai não poderia ter sobrevivido a tal fuga o suficiente que permitisse a sua passagem ao filho.   O Japão é uma nação insular.   Não havia sítio para onde pudesse escapar.”

“Isto aconteceu já numa fase muito adiantada da guerra – diz Hiro – e o campo era mesmo nos arredores de Nagasáki.”

O homem de negócios como que sufoca, torna-se avermelhado, quase perde as estribeiras.   A sua mão esquerda estende-se para agarrar na bainha da espada.   Hiro olha em redor.   Subitamente encontram-se no meio de um círculo aberto de gente aí com uns dez metros de largura.

“Acha então que foi de uma forma honrada que tomou posse dessas espadas?” – diz o homem de negócios.

“Se não o achasse, há muito que as teria devolvido” – argumenta Hiro.

“Então decerto não irá obstar a perdê-las da mesma maneira?” – insiste o tipo de negócios japonês.

“Nem você se oporá a perder as suas” – diz Hiro.

O homem de negócios estica o braço direito por sobre o corpo até agarrar no punho da espada mesmo por baixo da espera, e desembainha-a, fá-la saltar para a frente e assim ela aponta agora para Hiro, e coloca a mão esquerda também no punho logo abaixo da direita.

E Hiro faz o mesmo.

Ambos flectem os joelhos abaixando-se e mantém-se nessa posição agachada enquanto o torso permanece espetado para cima, depois voltam a endireitar-se, e já erguidos deslocam  os pés para a atitude própria – pés paralelos, ambos apontando a direito bem para a frente, o pé direito adiantado em relação ao esquerdo.

O homem de negócios vira-se para fora para adquirir um pouco de zanshin.   É difícil traduzir este conceito, é como tentar traduzir o americano ‘fuckface’ (cara lixada) para nipónico, mas pode-se pensar em algo como ‘intensidade emocional’ se quisermos usar o jargão futebolístico americano.   Investe directamente sobre Hiro emitindo um grito à custa da máxima capacidade dos pulmões.   O movimento na verdade consiste numa extremamente rápida mudança dos pés de forma a que permaneça sempre em equilíbrio.   No último momento leva a espada acima da cabeça e fá-la saltar para baixo na direcção de Hiro.   Hiro ergue a sua própria bem ao alto e roda-a para uma posição lateral, inclinada já, com o punho bem lá no cimo e à esquerda da própria cara, a lâmina como que descai para a direita formando um telhado inclinado e protector sobre ele.

O golpe do homem de negócios ressalta e escorre neste telhado como chuva, e então Hiro desliza para o lado para que o outro prossiga no movimento e aproveita para atirar a espada sobre o ombro desprotegido do outro.   O japonês é que se move demasiado rápido e o ‘timing’ - a oportunidade - esvai-se, a espada atinge ao lado e um pouco mais atrás do adversário.   Ambos rodopiam e voltam a fixar o outro, ajeitam-se e aprontam-se, recolocando-se em guarda.

‘Intensidade emocional’ não consegue canalizar metade do sentido disso, claro.   É o tipo de tradução grosseira e desapontadora que fará os corpos desmembrados dos guerreiros samurais rebolarem no túmulo.   A palavra zanshin transporta todo um lastro de outra sofisticação que é preciso ser-se nipónico para entender.

E Hiro francamente pensa que a maior parte desse sentido é treta pseudo-mística do mesmo calibre da que o seu treinador de futebol de antigamente, do liceu, costumava usar, ao incitar a malta a jogar: a 110 por cento – dizia ele.

O homem de negócios desfere outro ataque.   Este vai completamente a direito: movimento de aproximação rápido e um golpe desfechado em direcção à ‘gaiola das costelas’ de Hiro.   Hiro desvia-o.

Agora já Hiro conhece alguma coisa sobre este homem de negócios, nomeadamente que como muitos dos lutadores de espadas nipónicos, tudo o que sabe é kendo.

Kendo está assim para a autêntica luta de espadas samurai como a esgrima está para o verdadeiro combate de heróicos espadachins: uma tentativa de tornar um conflito desorganizado, caótico, violento e brutal, num jogo fixe, atractivo.   Como na esgrima, é suposto atacar-se só certas partes do corpo – as que estão protegidas por uma armadura.   Como na esgrima, não podes despedir um pontapé nas rótulas do oponente  ou partir-lhe uma cadeira pela mona abaixo.   E o júri é completamente subjectivo.   No kendo podes conseguir acertar em cheio no teu adversário e mesmo assim não conseguires o devido crédito pelo teu golpe, porque os árbitros acham que não possuis o montante correcto de zanshin.

Hiro não tem zanshin nenhum.   Apenas quer pôr um ponto final a isto.   Na próxima vez que o homem de negócios solta o seu guincho de rebentar tímpanos e avança para Hiro cortando o ar e agitando a lâmina, Hiro desvia a investida, gira, e num golpe decepa  ambas as pernas do outro logo acima dos joelhos.

O homem de negócios colapsa sobre o chão.

É preciso ter uma boa prática para levares o teu avatar a deslocar-se pelo Metaverso como uma pessoa real.   Quando o teu avatar acaba de perder as duas pernas toda essa perícia vai por água abaixo.

“Boa aterragem! – diz Hiro – Olham’esta!”   - Como um chicote a lâmina vem pelo lado cortando ambos os braços do homem de negócios e ouve-se o chocalhar da espada pelo soalho.

É melhor acenderes o velho fogareiro, Jemina!   Lenha!” – continua Hiro, a tornear mais uma vez a espada, e decepa agora o lombo do gajo japonês ao meio, mesmo acima do umbigo.   Depois debruça-se de forma a poder olhar directamente sobre a face do outro:   “Ninguém te informou – diz ele, deixando o dialecto – que eu era um hacker, um pirata?”

E aí pirateia[10] de vez a carola do tipo com um só golpe da espada.   Depois de tombar sobre o solo a cabeça faz ainda meia-volta e imobiliza-se olhando directamente para cima para o tecto.   Hiro recua então um par de passos enquanto murmura – “Cofre!”

Um ganda cofre de quase um metro de lado materializa-se mesmo por sob o tecto, tomba e despenha-se directamente na cabeça do homem de negócios.   O impacto atira ambos, cofre e cabeça, através do chão do The Black Sun deixando um buraco quadrado no soalho, expondo por aí o sistema de túneis subterrâneo.   O resto do corpo desmembrado jaz ainda espalhado pelo soalho.

Neste mesmo momento algures, um homem de negócios nipónico num bom hotel de Londres ou num escritório em Tóquio, ou ainda na cabina de primeira classe do LATH (o Los Angeles / Tóquio Hipersónico), está sentado defronte do seu computador, corado e suando em bica, e a ver o quadro que surgiu no écran – o Quadro de Honra do Black Sun – embora de facto já tenha sido mandada abaixo a sua conexão tanto ao Black Sun como ao Metaverso após ter-lhe sido remetido para o écran esta figura rectangular bidimensional.  ‘Os dez melhores gajos com espadas de todos os tempos’   surgem no topo com as respectivas fotos.   Logo por baixo, a lista rolante, longa, números e nomes, começando no 11º.   Ele pode deslizar pelo rol abaixo se quiser descobrir a sua posição ou o écran ajuda-o nisso, informando-o que está colocado em 863º no total das 890 pessoas que já participaram num combate de espadas dentro do The Black Sun.   O ‘Número Um’, nome e fotografia sobressaindo na cabeça da lista, pertence a Hiroaki Protagonist.

12

A Unidade Vigilante Semi-Autónoma # A-367 produzida pela Ng Security Industries vive num agradável Metaverso a preto e branco onde bifes ‘T-bone’ crescem das árvores balançando-se dos ramos baixos ao alcance da cabeça e ‘frisbees’ sanguinolentos cruzam ao acaso através do ar fresco e cristalino só à espera que os queiras apanhar.

Tem uma pequena área dele.   À volta corre uma vedação.   Ele sabe que não lhe é permitido ultrapassá-la.   Até aqui, na verdade, nunca o tentou fazer, pois sabe que não o deixam.   E também nem vai para o pátio a menos que seja preciso.   Lá fora faz calor.   Tem um serviço importante – proteger aquele pátio.   Às vezes há gente a entrar e a sair dali.   A maior parte das vezes são boas pessoas e ele não as perturba.   Ele não sabe porque é que são boa gente.   Apenas o sabe.   E às vezes há gente má e ele tem que fazer coisas más para os pôr a andar.   Isto é correcto e é assim mesmo que é.

No mundo para lá desta área há outros pátios com outros cachorrinhos tal como ele.   Não são cães maus.   São todos amigos dele.   Fica longe o bobi vizinho mais próximo dele, mais longe do que ele consegue ver dali.   Mas consegue ouvir às vezes esse cachorrinho ladrar quando alguém mau se aproxima do espaço dele.   E consegue também escutar outros cãezinhos da vizinhança, toda uma matilha que se alonga na distância em todas as direcções.   Ele pertence a um grande grupo de cãezinhos bons.

Ele e os outros cachorrinhos bons ladram sempre que alguém estranho entra no seu pátio ou basta até que se aproximem.   O intruso não os ouve mas todos os outros cãezinhos do grupo conseguem escutá-lo.   E se vivem nas proximidades tornam-se excitados.   Acordam e ficam prontos a desencadear coisas terríveis sobre o estranho se este tentar entrar no espaço deles.

Quando um cachorrinho próximo ladra para um intruso, imagens, sons e cheiros afluem à sua mente, juntamente com os latidos.   Subitamente ele passa a saber como é que é o tipo estranho.   A que é que cheira.   O ruído que faz.   E então se esse estranho alguma vez se aproximar do seu sítio ele irá reconhecê-lo.   Ele irá ajudar a difundir o ladrar aos outros cãezinhos bons de forma a que todo o grupo possa estar a postos para se opor a este intruso.

Esta noite a Unidade Vigilante Semi-Autónoma # A-367 encontra-se a ladrar.   Não está apenas a passar a outros o ladrar de algum do grupo.   Ladra porque se sente bastante excitado com o que se passa aqui mesmo no seu pátio.

Primeiro, chegaram duas pessoas.   Isto tornou-o excitado porque vieram muito depressa.   Os corações deles batem acelerados, suam e cheiram como estando com medo.   Já olhou para estas duas pessoas para ver se transportavam coisas más.   A mais pequena tem algumas coisas um pouco beras mas sem serem realmente más.   O grande transporta umas que são más a valer.   De alguma maneira porém ele sabe que o grande é um tipo ‘okay’, ‘está limpo’, pois pertence a este espaço.   Não é um estranho.   Vive aqui.   E a mais pequena é convidada dele.

Ainda assim sente que há qualquer coisa excitante a decorrer.   Começa a ladrar.   As pessoas no pátio não ouvem este seu ladrar.   Mas lá longe, todos os outros cãezinhos lindos do grupo escutam-no, e quando isso acontece todos eles vêm também essas duas pessoas boas assustadas e conseguem escutá-las e cheirá-las .

Entretanto há mais gente a chegar ao seu pátio.   Todos estão excitados, consegue escutar a batida dos seus corações.   A saliva enche-lhe a boca ao farejar o sangue quente e salgado bombeado através das artérias deles.   Estão exaltados e furiosos estes, e só um pouco assustados.   Não vivem aqui.   São intrusos.   Ele não gosta muito de estranhos.

Olha para eles e vê que transportam três revólveres, um .38 e dois .357 magnums; que o .38 está carregado com balas de ponta furada, expansivas, uma das .357 tem balas Teflon e está já engatilhada; e a caçadeira de punheta está carregada com chumbo grosso e tem pronto um cartucho na câmara e mais quatro munições no carregador.

As coisas que os estranhos transportam são más.   Coisas assustadoras.   Ele fica excitado.   Fica zangado e furioso.   Fica até um pouco assustado mas ele gosta de ficar assustado, para ele torna-se na mesma coisa que ficar excitado.   Na verdade ele tem apenas duas emoções: adormecido ou em ultra-adrenalina.

O intruso mau que tem a caçadeira está a erguer a arma!

É uma coisa declaradamente terrível.   Um punhado de estranhos maus exaltados está a invadir o seu pátio com coisas malévolas, vieram para magoar os visitantes bons.

Quase que não tem tempo para ladrar um alerta aos outros cachorrinhos bons antes de se lançar ao ataque a partir da sua casota, propulsionado num jacto aquecido ao rubro-branco em pura emoção indomada.

 

Na sua visão periférica Y.T. apercebe-se de um breve ‘flash’; ouve uns ruídos metálicos.   Olha nessa direcção para reparar que a origem da luz é o género de uma portinhola de casota de cachorro construída num dos lados da franchise ‘Hong Kong’.   A portinhola do cão terá levado uma marretada no passado muito recente por alguma coisa que saiu disparada para o parque com a velocidade e determinação de um obus de morteiro.

Conforme tudo isto é gravado na mente de Y.T. começa ela a ouvir os gritos dos ‘djiques.   Não é um gritar de fúria nem de susto.   Ainda ninguém teve tempo de ficar sequer assustado.   É o gritar de alguém que acaba de sentir um balde de água gelada entornar-se sobre a cabeça.

E a gritaria está ainda a entranhar-se, a cabeça dela estava ainda a orientar-se nessa direcção para olhar para os ‘djiques quando a porta da casinhota emite novo relâmpago de luz.   Os olhos dela captam a perturbação momentânea.   Ela pensa ter visto qualquer coisa, uma sombra grande e arredondada, recortada à luz nesse instante volátil em que a porta foi agora impulsionada para o interior.   Mas quando a vista se foca finalmente ela nada vê excepto a porta ainda oscilante mas igual a sempre.   Essas foram as únicas impressões deixadas na mente dela exceptuando um outro pormenor: um rasto de faíscas que bailara sobre o pátio desde a porta dessa casota de cachorro até aos ‘djiques e na volta durante esta ocorrência de um segundo, como se um foguete espacial tivesse roçado por aquelas bandas.

O pessoal diz que os Tipo-Ratos correm sobre quatro rodas.   Talvez as garras nas suas pernas-robot produzissem essas faíscas conforme se fincavam na grelha relvada para maior tracção.   Os ‘djiques estão todos em movimento.   Alguns acabam de ser agora mesmo atropelados, derrubados contra o canteiro, e encontram-se ainda a ressaltar e a rebolar.   Outros, estão a meio da queda.   Estão desarmados.   Estão a tactear, à procura de agarrar com a outra mão, a mão que sustinha a arma, ainda a gritar, embora agora as suas vozes estejam afectadas com uma certa dose de medo.

Um deles ficou com as calças rasgadas da cintura até lá abaixo ao fim da canela, todo um pedaço de tecido que vem atrás e se arrasta pelo chão como se tivesse tido o bolso rebuscado por alguma coisa com pressa demais para estar a retirar pela abertura o que queria.   Talvez este gajo guardasse uma navalha na algibeira.

Em nenhum sítio há sangue.   Os Tipo-Ratos são muito precisos ao que vão.   Mesmo assim os ‘djiques estão ainda de mãos juntas e a berrar.   Talvez seja verdade o que se diz, que os Tipo-Ratos te dão primeiro uma descarga eléctrica para atordoar, para largares o que eles querem.

“Cuidado – ouve-se entretanto ela própria a gritar – eles têm armas.”

Hiro volta-se em aberto sorriso para ela.   Os dentes dele muito brancos e alinhados.   Tem um esgar marcante, um esgar de carnívoro satisfeito – “Não, não têm.   Armas, são ilegais na ‘Hong Kong’, lembras-te?”

“Eles tinham armas, mesmo há um segundo atrás” – insiste Y.T. esbugalhando os olhos e abanando a cabeça.

“O Tipo-Rato é que as tem agora” – explica Hiro.

Os ‘djiques decidem todos que é melhor irem-se embora.   Correm para o exterior e entram para os táxis desandando dali com os pneus em protesto.

Y.T. leva o táxi lá para fora - embora aquilo esteja apenas sobre janttes - para além do dispositivo STD e até à rua, onde com todo um chianço o consegue largar paralelamente ao passeio.   Regressa à franchise ‘Hong Kong’, uma nébula de frescura aromática arrasta-se atrás dela como a cauda de um cometa.   Curiosamente, até ela se mete a pensar como é que seria enrolar-se ali no banco de trás do carro por um pedaço com Hiro Protagonist.   Bem bom, provavelmente.   Mas ela teria primeiro que tirar a dentata e este não era o sítio indicado.    Para mais, alguém suficientemente decente para a ter ajudado a fugir do ‘Em Cana’ talvez tivesse algum tipo de escrúpulos em bombar em cima de gajinhas com quinze anos.

“Foi bonito da tua parte – diz ele apontando com a cabeça para o táxi estacionado – Também vais pagar-lhes uns pneus novos?”

“Não, e tu vais?”

“De momento estou com certos problemas de liquidez.”

Ela ali está, especada, em pé no meio da grelha relvada da ‘Hong Kong’.   Os dois a olharem-se mutuamente de alto a baixo, atentamente.

“Tinha chamado o meu namorado.   Mas desmarcou-se” – explica ela.

“Outro thrasher – outro estafeta sobre rodas?”

“É mesmo.”

“Cometes o mesmo erro que eu já fiz antes” – diz ele.

“Qual foi?”

“Misturar trabalho com prazer.   Sair com um colega.   Torna-se uma confusão.”

“Yeah.   Entendo o que dizes” – Ela nem está muito certa sobre o que é ser-se colega.

“Estava a pensar que podíamos ser sócios” – diz ela.

Ela esperava que ele se risse para ela.   Mas em vez disso ele sorri e concorda assentando levemente com a cabeça – “Ocorreu-me o mesmo.   Mas teria que pensar como é que isso vai ser.”

Ela está aturdida por ele na verdade encarar o facto.   Mas põe então sob controle tal linha efusiva e pensa: ‘ele está a ser apenas evasivo, o que quer dizer que provavelmente até esteja a mentir.   Isto vai acabar com ele a tentar levá-la para a cama’.

“Tenho que ir – diz ela – Tenho que chegar a casa.”

Agora vamos ver quão rapidamente é que ele perde o interesse no tal conceito de associação.   E ela volta-lhe costas.

Subitamente vêm-se empalados mais uma vez pelos focos luminosos robotizados da ‘Hong Kong’.

Y.T. sente uma dor aguda de contusão na zona das costelas, como se alguém lhe desse um soco.   Mas não foi Hiro.   O tipo é um ‘freak’ imprevisível que anda com aquelas espadas mas ela consegue cheirar à distância molestadores de miúdas.

“Oh!” – queixa-se ela, torcendo-se para fugir ao impacto.   Olha para baixo a tempo de ver um pequeno e pesado objecto a ressaltar pelo chão junto aos pés deles.   Lá fora na rua ouve-se o guinchar de pneus de uma carripana táxi a fugir dali como do diabo.   Um ‘djique ainda debruçado da janela traseira a agitar o punho para eles.   Deve ter-lhe atirado uma pedra, a ela.   Só que não é uma pedra.   Esta coisa pesada aos pés dela, a coisa que fez ricochete nas costelas de Y.T., é uma granada de mão.   Por um segundo ela olha, reconhece aquilo, um ícone bem típico dos ‘cartoons’ tornado ali real.

E então parece que os seus pés são atropelados, levados de debaixo dela, demasiado rápido para magoar.   Precisamente quando está a reorientar-se perante isto há um estrondo dolorosamente alto já na outra parte do parque.   E só então tudo se detém finalmente, o bastante para ser visto e percebido.

O Tipo-Rato parou.   Coisa que nunca fazem.   É parte do seu mistério nunca os conseguires ver, movimentam-se depressa demais.   Ninguém sabe como é que eles são.

Ninguém excepto Y.T. e Hiro, agora.

É maior do que ela imaginava.   O corpo, do tamanho de um ‘Rottweiler’, segmentado em placas duras e sobrepostas como as de um rinoceronte.   As pernas são compridas reviradas para cima nas pontas, para transmitirem potência como as de uma chita.   Deve ser a cauda que faz o pessoal referir-se-lhes como Tipo-Ratos pois é a única coisa parecida com um rato – incrivelmente longa e flexível.   Mas assemelha-se à cauda de um rato com a carne carcomida por ácidos, pois consiste de uma série de segmentos, centenas deles, todos bem encaixados que nem vértebras.

“Jesus H. Cristo[11]!” – diz Hiro.   Por tal exclamação fica ela a saber que também ele não tinha ainda visto nenhum.

Neste momento a cauda está enrolada e empilhada por cima do corpo do Tipo-Rato como uma corda que tenha caído de uma árvore.   Partes dela estão ainda a tentar mover-se enquanto outras parecem mortas e inertes.   As patas agitam-se uma a uma, espasmodicamente, sem se mexerem em sintonia.   Toda aquela coisa parece terrivelmente errada, como uma tomada de imagem de um avião que tenha perdido a cauda e a tentar manobrar para a aterragem.   Mesmo alguém que não seja um engenheiro pode ver que aquilo vai tudo torto e retorcido.

A cauda contorce-se e chicoteia por ali como uma serpente, desenrola-se e eleva-se por sobre o corpo do Tipo-Rato, põe-se fora do alcance das patas.   As próprias patas continuam com problemas.   Ele não se consegue pôr de pé.

“Y.T. – diz Hiro – Não!”

Mas ela insiste.   Pé ante pé aproxima-se do Tipo-Rato.

“Caso não saibas, isso é perigoso – diz Hiro, seguindo-a alguns passos atrás – Dizem que têm componentes biológicos.”

“Componentes biológicos?”

“Partes de animais.   Portanto pode tornar-se imprevisível.”

Ela gosta de animais.   Continua a andar.

Consegue vê-lo melhor agora.   Não é só armadura e força.   Uma parte dele na verdade parece até frágil.   Possui umas coisas salientes, curtas, no género de asas, projectando-se do corpo: uma grande a sair de cada ombro e uma fila delas, mais pequenas, ao longo de todo o comprimento da espinha, como um estegossáurio.   Os seus Knight Visions dizem-lhe que estas coisas estão suficientemente quentes que dava para cozinhar pizzas em cima.   E conforme se aproxima elas parecem desdobrar-se e crescer.

São como flores a desabrochar num filme educativo, estendendo-se, desdobrando-se, revelando toda uma fina e complicada estrutura interna que havia estado enrodilhada lá dentro.   Cada uma destas saliências asadas divide-se por sua vez em cópias miniaturas dela própria, e cada uma destas por seu turno em réplicas ainda mais pequenas e por aí fora.   As mais pequenas não passam de ténues pedaços como folha de alumínio, tão minúsculas que à distância assumem contornos difusos.

E aquilo continua a aquecer.   As pequenas asas estão agora quase ao rubro.   Y.T. faz os óculos deslizarem para cima para a testa e com as duas mãos envolve a face numa copa de protecção contra todas aquelas luzes envolventes, e está certa de que consegue ver aquelas palhetas a principiarem a radiar um ténue clarão acastanhado, como as resistências de um fogão eléctrico acabado de ligar.

A relva por debaixo do Tipo-Rato começa a fumegar.

“Tem cuidado.   Supostamente eles têm isótopos no interior, dos terríveis” – adverte Hiro, atrás dela.   Ele chegou-se agora um pouco mais perto mas mesmo assim guardando uma certa distância.

“O que é um isótopo?”

“Uma substância radioactiva que produz calor.   É a fonte de energia dele.”

“Como é que se desliga isto?”

“Não se desliga.   Continuará a dar calor até derreter.”

Y.T. está agora apenas a alguns pés de distância do Tipo-Rato e pode sentir já o calor nas suas próprias bochechas.   As asas daquilo desdobraram-se o máximo possível.   Nas suas bases estão já com uma coloração amarelo-laranja brilhante atenuando-se para um vermelho e castanho na direcção das extremidades que estão ainda escuras.   O fumo acre da relva a arder obscurece alguns dos pormenores.

Pensa ela: as pontas das asas parecem-se com alguma coisa que eu já vi.   Como aquelas lâminas estreitas de metal ao longo do exterior dos ar-condicionados de janela, aquelas palhetas onde temos a mania de escrever o nome, de passar-lhes com o dedo em cima na poeira acumulada.   Ou o radiador de um carro.   A ventoinha manda ar para o radiador, para arrefecer o motor.

“Ele tem radiadores! – diz ela – O Tipo-Rato tem radiadores de arrefecimento” – Ela a sintetizar informação no próprio instante.

Mas aquilo não está a arrefecer, continua é a ficar cada vez mais quente.

Y.T. para os seus biscates tem que surfar através do trânsito.   É o seu nicho económico – bater, defrontar o trânsito.   E ela sabe que um carro não tem o motor a ferver quando vai lançado por uma auto-estrada desimpedida.   O motor ferve é quando se fica parado no meio do tráfego pois quando a viatura se imobiliza não há ar suficiente a voar sobre o radiador.

É o que está a acontecer agora com o Tipo-Rato.   Tem que se manter em movimento, forçar a passagem do ar sobre os seus radiadores ou então arriscar-se a sobreaquecer e derreter-se.

“Fixe – diz ela – só me pergunto se isto vai estoirar, ou o quê?”

O corpo converge num focinho aguçado.   Na ponta revira-se bruscamente para baixo e existe aí uma cobertura em vidro preto, liso e bem afilado como os pára-brisas de um caça a jacto.    Se o Tipo-Rato tiver olhos será daqui que eles espreitam para o exterior.

Abaixo disso, onde devia existir a queixada, encontram-se os restos de qualquer tipo de engenho mecânico que foi severamente atingido pela explosão da granada.

A cobertura nesse vidro negro – ou máscara facial, ou aquilo que lhe quisermos chamar – exibe um feio buraco rebentado por ali adentro.   É suficientemente grande para que Y.T., se entendesse, enfiasse por ali a mão.   Do outro lado dessa abertura tudo é escuro e ela não enxerga bem especialmente aqui tão próxima desse clarão laranja que se liberta das aletas/radiadores.   Mesmo assim consegue observar uma coisa encarnada que verte para o exterior.   Não é corante nenhum.   O Tipo-Rato está ferido e a sangrar.

“Esta coisa é real, está viva – grita ela – Corre sangue nas veias dele.”   E mais uma vez racionaliza:   isto é ‘intel[12].   Isto é boa informação.   Posso fazer dinheiro disto com o meu sócio, o meu parceiro Hiro.

E depois pensa ela: ‘a pobre criatura está aqui a arder viva.’

“Não, não faças isso.   Não toques nisso Y.T.” – diz Hiro.

Mas ela vai mesmo até lá.   Volta a baixar a viseira para proteger a face daquele calor.   As pernas do Tipo-Rato pararam os seus movimentos espasmódicos como se estivessem à espera dela.

Ela inclina-se para baixo e agarra nas patas da frente.   Reagem inteiriçando os músculos impulsionadores contra o puxão das mãos dela.   É tal e qual como pegarmos nas patas dianteiras de um cão e pedir-lhe que dance.   Esta coisa está viva.   Reage a ela.   Ela sabe.

Olha para cima para Hiro só para se certificar que ele está a seguir isto tudo.   E está.

“Chiça! – diz ela – Estico o pescoçinho e digo que quero ser tua parceira e dizes-me que queres pensar nisso?   Qual é o teu problema, pá, achas que não sou suficientemente boa para trabalhar contigo, é?”

Inclina-se para trás começando a rebocar o Tipo-Rato às arrecuas através do relvado.   É incrivelmente leve.   Não admira que consiga andar tão depressa.   Ela até conseguiria pegar nele – mas isso era se lhe apetecesse ser assada viva.

Conforme o arrasta sempre a recuar em direcção à portinhola aquilo vai deixando um rasto negro de fumo sobre o parque.   E ela vê bem o vapor que se desprende também do seu macacão, do suor entranhado e de material que se evapora do próprio tecido.

Ela é suficientemente pequena para caber agora por aquela porta da casota – aí está outra coisa que ela consegue fazer e Hiro não.   Habitualmente estas coisas costumam estar trancadas, pois que ela antes já tentou traquiná-las por aí.   Mas esta encontra-se aberta.

Deste lado de dentro a franchise brilha de brancura e os soalhos são polidos a robot.   A poucos metros da porta-do-cão está o que se parece com uma máquina de lavar, preta.   É a casota do Tipo-Rato, onde ele se acoita no escuro fresco, na sua privacidadezeca, à espera de uma missão para executar.   Encontra-se ligada à franchise por um grosso cabo que sai da parede.   Precisamente neste momento a porta da casinhota mantém-se aberta o que é outra coisa que ela nunca antes observara.   E há vapor que se solta de lá de dentro e vai saindo em rolos.

Nem é vapor.   Aquilo é frio.   Como quando abres a porta do teu congelador num dia húmido.

Ela lá vai empurrando o Tipo-Rato até ao abrigo.   Um género de líquido frio sai em spray das paredes e como que rebenta em vapor mesmo antes de alcançar o corpo do Tipo-Rato, e o vapor sopra já em fúria pela frente da casinhota com tanta força que a faz cair de rabo.

A longa cauda, esticada e saindo pela abertura da casota, atravessa o chão e sai ainda pela portinhola para o pátio.   Ela pega em parte daquilo, as arestas aguçadas daquelas vértebras aparadas mecanicamente picam-lhe as luvas.

Subitamente a cauda retesa-se, volta à vida, vibra por um segundo.   Ela retira logo as mãos.   A cauda retrai-se agora, dispara para o interior da casota como um elástico que é largado.   Tão rápido o movimento que nem a viu mexer-se.   A porta da casota corre a fechar-se.   E já um robot de limpeza, um ‘Hoover com miolos’ zumbe saindo de outra porta para retirar do chão os longos rastos de sangue.

Por cima dela, pendurado no hall e virado para a entrada principal, está um poster emoldurado com uma grinalda de botões de jasmim num castanho torrado que o envolve.   Consiste de uma foto do sorridente e radioso Mr. Lee com a sua habitual declaração logo abaixo

 

Bem-vindo!

É um prazer dar as boas vindas a todos os distintos amigos em visita à ‘Hong Kong’.   Quer em séria actividade negocial ou num adorável cruzeiro, sintam-se completamente em casa neste humilde território.   Se qualquer dos aspectos da vossa estadia não for manifestamente harmonioso agradecia plenamente que me notificassem pois em tudo diligenciarei para conquistar a vossa satisfação.

Na ‘Hong Kong Maior’ temos um orgulho extremo no extravagante crescimento da nossa pequena nação.   Aqueles que viram a nossa ilha como um petisco ao gosto da China Vermelha acabaram por ficar atónitos.  Verificaram tantas daquelas - auto-intituladas - grandes potências, da velha guarda, a quedarem-se abatidas, face aos nossos avanços notáveis e enérgico desenvolvimento, que é pois uma linguagem franca, quando falamos de conquista pessoal em alta-tecnologia e melhorias em prol de todas as gentes.   O potencial de todas as raças étnicas e antropologias fundidos sob o lema dos Três Princípios a perseguir

Informação, Informação, Informação!

Totalmente livre comercialização!

Estrita ecologia!

tem sido ímpar na história deste nosso combate económico.

Quem desdenhará subscrever-se sob o espírito deste lema?   Se ainda não adquiriu a sua cidadania da ‘Hong Kong’ faça agora mesmo o pedido para o seu passaporte!   Durante este mês cordialmente negligenciamos a habitual taxa de HK $100.   Preencha um cupão (em baixo) agora mesmo.   Caso os cupões estejam esgotados queira ligar pela linha verde 1-800-HONG KONG para dar entrada à sua inscrição através da ajuda dos nossos operadores/assistentes.

A ‘Hong Kong Maior de Mr. Lee’ é uma entidade privada, completamente extraterritorial, soberana e quase-nacional, não reconhecida por qualquer outra nacionalidade e de forma alguma afiliada com a antiga Colónia da Coroa de Hong Kong, parte integrante da República Popular da China.   A República Popular da China não admite ou aceita qualquer responsabilidade por Mr. Lee, pelo governo da Hong Kong Maior ou bem entendido por qualquer dos seus cidadãos, ou por quaisquer violadores da lei local, danos pessoais ou de propriedade ocorrendo nos territórios, edifícios, municipalidades, instituições ou propriedade imobiliária pertença, ocupada ou reclamada pela Hong Kong Maior de Mr. Lee.

Junte-se a nós instantaneamente!

O seu parceiro de negócios.

Mr. Lee

 

De volta à frescura da sua casota a Unidade Vigilante Semi-Autónoma # A-367 encontra-se a uivar.

Lá fora no pátio fazia imenso calor e ele sentia-se mal.   Sempre que está lá fora no parque ele fica com calor, a menos que se mantenha a correr.   Quando o feriram e teve que ficar estendido um bom bocado, sentiu mais calor do que alguma vez experimentara.

De momento já não sente qualquer temperatura.   Mas ainda está ferido.   Ele uiva o seu uivar de ferido.   Está a dizer a todos os cachorrinhos vizinhos que precisa de ajuda.   Eles sentem-se tristes e perturbados e repetem o seu uivo, e vão-no passando a todo o resto dos cãezinhos.

Em breve já está ele a escutar a aproximação do carro do veterinário.   O bom do veterinário vai chegar e pô-lo a sentir-se melhor.

Principia outra vez a ladrar.   Está a contar a todos os outros cachorrinhos como é que os estranhos maus vieram e o feriram.   E como estava quente, ali no jardim, quando teve que ficar estendido.   E como a menina boa o ajudou e o levou de volta à frescura da sua casa.

 

Mesmo em frente da franchise da ‘Hong Kong’  Y.T. repara num Town Car[13] preto que já aí está há algum tempo.   Nem precisa de lhe ver as chapas de matrícula para saber que pertence à Máfia.   Só a Máfia anda com carros como aquele.   Tem as janelas com vidros fumados mas ela sabe que há alguém no interior com os olhos nela.   Como é que eles fazem isto?   Vês esses Town Cars por todo o lado mas nunca os vês a movimentarem-se nem a chegar a nenhum sítio - ela nem está bem segura que aquilo tennha algum motor.

“Okay.   Desculpa – pede Hiro – Continuo com os meus próprios esquemas mas fazemos uma sociedade para qualquer ‘inform’ que consigas esgaravatar.   Cinquenta por cento para cada.”

“D’acordo” – concorda ela trepando para a prancha.

“Liga-me sempre que quiseres.   Tens o meu cartão.”

“Hei!   Isso lembra-me uma coisa.   O teu cartão diz que tu estás nos três ‘M’s do software.”

“Yeah.   Música, ‘Movies’ (filmes) - e Microcódigo (programação).”

“Ouviste falar no Vitaly Chernobyl e nos Meltdowns (derretimento nuclear)?”

“Não.   É um conjunto?”

“Yeah.   A maior banda.   Oh meu rapazinho caseiro, devias ver isso, vai ser a próxima coisa em grande.”

Ela mete-se na via e atrela-se logo a um Audi com placas de matrícula de Blooming Greens.   Deverá levá-la até casa.   A mamã provavelmente na cama, a fingir que dorme, a preocupar-se.

A meio quarteirão da entrada para os Blooming Greens ela desatraca do Audi e desliza até um McDonalds.   Dirige-se à casa de banho das senhoras.   Existe um tecto falso.   Põe-se em pé sobre a sanita da terceira cabina e empurra uma das placas do tecto, fá-la resvalar para o lado.   Logo tomba uma manga em algodão num delicado padrão floral.   Puxa aquilo e vem todo o conjunto atrás, a blusa e a saia plissada, mais uma combinação da Vicky’s, os sapatinhos em couro, lacinho e brincos, mesmo a porra de uma bolsinha.   Despe aquele macacão da RadiKS, dobra-o, empurra-o para o tecto e volta a colocar a placa no respectivo lugar.   E veste então o conjunto de roupa.

Agora está tal e qual como esta manhã, quando estava com a mamã ao pequeno almoço.

Carrega a prancha de skate pela rua abaixo até aos Blooming Greens, onde é permitido transportá-las mas não usá-las sobre o cimento do passeio.   Exibe num repente o passaporte no posto de fronteira, caminha uns quinhentos metros por aí abaixo até aos recém-acabados passeios e de lá trepa até casa onde ainda está acesa a luz da entrada.

A mamã encontra-se sentada em frente ao computador pessoal dela, no estúdio, como habitual.   A mamã trabalha para os Feds, os Federais.   Não se faz muito dinheiro nos Feds mas tem que se dar no duro, mostrar lealdade.

Y.T. entra e olha para a mãe, afundada na cadeira, mãos cobrindo a cara como se estivesse vogando, os pés – só em meias – elevados.   Ela calça a porcaria dessas meias feias e baratuchas dos Feds, parecem um pano de esfregar, e quando ela anda as coxas roçam uma na outra por sob a saia fazendo mesmo um ruído de raspar.   Sobre a mesa está um saco Ziploc para uso intensivo com água que há um par de horas antes devia ser gelo.   Y.T. repara no braço esquerdo da mamã.   Ela tem a manga enrolada expondo logo acima do cotovelo uma marca de contusão recente.   É onde lhe meteram a braçadeira ao medir a tensão - o teste semanal de polígrafo, o detector de mentiras dos Feds.

“És tu?” – a mamã berra não imaginando que a Y.T. está ali mesmo no estúdio.

Y.T. recua até à cozinha para que não assuste assim a mãe – “Sim, mamã – responde agora – como é que correu o dia?”

“Cansada” – diz a mamã.   É o que sempre diz.

Y.T. caça uma cerveja do frigorífico e põe a correr a água quente para um banho.   A água emite como que um rugido contínuo que a faz relaxar como aquele gerador de ‘ruído branco’ na mesa de cabeceira da mamã.

13

No chão do Black Sun permanece ainda o corpo cortado em segmentos do homem de negócios nipónico.   Surpreendentemente – ele parecia tão real quando estava ainda todo numa só peça – não há sangue ou carne espalhada, ou órgãos visíveis através dos novos cortes seccionados, infligidos pela espada de Hiro através do seu corpo.   Não passa de um finíssimo invólucro de epiderme, um boneco insuflável incrivelmente complexo.   Só que o ar não se vaza dele, não colapsa, e podemos espreitar pela abertura de um desses cortes à espada e em vez de ossos e carne tudo o que vemos é apenas o avesso desta pele.

Isso dá cabo da metáfora.   O avatar não se comporta agora como um cadáver real.   Faz relembrar aos sócios/clientes do Black Sun que habitam num mundo de fantasia.   E o pessoal odeia que lhe lembrem isto.

Quando Hiro escreveu os algoritmos de luta de espadas do Black Sun – código que seria mais tarde repescado e adoptado por todo o Metaverso – descobriu que não existia nenhuma forma boa para tratar do post-mortem, das consequências fatais.   Não é suposto os avatars morrerem.   Nem é suposto serem feitos em pedaços.   Os criadores do Metaverso não foram o suficientemente mórbidos para preverem uma procura para este tipo de coisas.   Só que o ponto fulcral de uma luta de espadas é retalhar, matar alguém.   Portanto Hiro teve que compor qualquer coisa de forma a que o Metaverso com o tempo não ficasse juncado de lixo com esses inertes e desmembrados avatars que nunca se decompunham.

Assim, a primeira coisa que ocorre quando alguém perde um combate de espadas é o seu computador ser desligado da rede global que é o Metaverso.   É completamente descartado do sistema.   É a simulação mais parecida à morte que o Metaverso pode dar mas tudo o que faz é causar ao utilizador uma dose de aborrecimento.

Posteriormente o utilizador verifica que durante uns minutos não consegue restabelecer ligação ao Metaverso, voltar a estar em linha, registar a sua reentrada.   Isto porque o seu desmembrado avatar jaz ainda no Metaverso e uma das regras é que o teu avatar não pode existir em dois lugares ao mesmo tempo.   Portanto o utilizador não pode regressar ao sistema até que o seu avatar tenha sido eliminado.

A eliminação desses avatars todos pirateados é levada a cabo pelos Daemons do Cemitério, uma nova faceta do Metaverso que Hiro teve de inventar.   São como pessoas pequeninas, flexíveis, envoltas em negro como ninjas – nem os olhos se lhes consegue ver.   Calmas e eficientes.   Mesmo com Hiro ainda a afastar-se do corpo retalhado do seu ex-oponente, já eles emergem de invisíveis alçapões no chão do The Black Sun, trepando desde o ‘mundo inferior’, convergindo sobre o derrubado homem de negócios.   Dentro de segundos têm as diversas partes do corpo encafuadas em sacos pretos.   Depois tornam a descer através dos seus secretos alçapões e desaparecem pelos túneis ocultos que se escondem sob o chão do The Black Sun.   Um par de sócios curiosos tentam segui-los, experimentam enfiar os dedos e forçar a abertura dos alçapões mas os dedos dos seus avatars não tocam em mais nada a não ser aquela lisura em preto baço.   O sistema de túneis só está acessível aos Daemons do Cemitério.

E incidentalmente, também a Hiro.   Mas ele raramente o usa.

Os Daemons do Cemitério irão carregar o avatar até à Pira, uma fogueira subterrânea eterna que arde debaixo do centro do The Black Sun, e tratarão de o incinerar.   Logo que as chamas consumam o avatar ele desaparecerá do Metaverso e então o seu dono estará apto a voltar a ligar-se como habitual, criando um novo avatar para comandá-lo por aí.   Mas espera-se que seja mais cuidadoso da próxima vez.

 

Hiro olha para o círculo de avatars que aplaudem, assobiam e o felicitam e nota que parecem esbater-se.   Todo o Black Sun aliás parece agora como se estivesse a ser projectado sobre algo translúcido, fosco.   Do outro lado dessa cortina difusa há luzes brilhantes que a atravessam, esmagam a imagem, até que esta desaparece completamente.

Faz deslizar os óculos para a testa e vê-se ali parado em pé no meio do parque de estacionamento do U-Stor-It empunhando a katana desembainhada.   O sol acabou de se pôr.   Umas duas dúzias de pessoas  estão para ali especadas à sua volta, à distância, escudando-se por detrás de carros estacionados, à espera do seu próximo gesto.   A maior parte está mesmo assustada, uns poucos contudo gozam com a excitação daquilo tudo.

Vitaly Chernobyl está também de pé junto à porta aberta do 6 por 9 deles.   O seu cabelo, ali retro-iluminado, ostenta um penteado - uma petrificação autêntica à custa de claras de ovo e outras proteínas.   Estas substâncias refractam a luz e devolvem finíssimos fragmentos espectrais, micro-bombas de miríades de arco-íris.

Agora mesmo a imagem miniatura do The Black Sun emerge do computador de Hiro mas acaba projectada sobre o traseiro de Vitaly.   Ele saltita instável ora sobre um pé ora sobre o outro, como se permanecer sobre os dois ao mesmo tempo fosse algo demasiado complicado com que lidar nesta altura do dia – ainda tão cedo! – e não se tivesse ainda decidido qual deles usar.

“Estás-te a pôr à frente” – diz Hiro.

“É hora de abalar” – diz Vitaly.

“Dizes-me a mim que é altura de ir?   Há mais de uma hora que estou à espera que acordes.”

Conforme Hiro se aproxima, Vitaly observa inseguro a espada.   Estão secos e vermelhos os olhos de Vitaly e no lábio inferior ostenta um cancróide do tamanho de uma tangerina.

“Venceste a tua luta de espadas?”

“Claro que venci a porra do combate de espadas – diz Hiro – sou o maior lutador de espadas do mundo.”

“E foste tu que escreveste o software.”

“Yeah.   Também é isso” – diz Hiro.

 

Depois de Vitaly Chernobyl e os Meltdowns terem chegado a Long Beach num desses cargueiros ex-soviéticos assaltados e cheios de refugiados, deambularam através da Califórnia do Sul à procura de terreiros em betão armado que fossem tão vastos e desimpedidos como os que deixaram para trás em Kiev.   Não era saudade o que tinham.   Precisavam era de uma envolvência como essa de forma a poderem aplicar a sua arte.

O Rio L. A. era um sítio óbvio, naturalmente, cheio de passagens superiores à maneira.  Tudo o que tiveram que fazer foi seguir os surfistas em skates até aos lugarejos secretos que há muito haviam desencantado.   Os ‘thrashers’ – esses ambulantes sobre skates – e as comunidades de ‘rock fuzz-grunge atómico’ acabavam por sobreviver afinal no mesmo ambiente.  É para aí portanto que Vitaly e Hiro se dirigem agora.

Vitaly é dono de uma ‘combi’ VW – uma Vanagon mesmo antiga, daquelas cujo tecto se abria para se tornar numa improvisada mini-tenda de campismo.   Costumava viver aí, o veículo estacionado na rua ou nalguma das várias franchises da Snooze ‘n’ Cruise (Soneque & Viaje) até que se encontrou com Hiro Protagonist.   Agora a propriedade da Vanagon é objecto de disputa pois Vitaly deve mais dinheiro a Hiro do que ela vale tecnicamente.   Assim, acabam por partilhá-la.

Levam a Vanagon à volta do U-Stor-It até ao lado oposto, fazendo soar a buzina e piscando os faróis de modo a enxotar uma centena de putos que pululam ali pela zona de carga.   Isto não é nenhum recreio criançada!

Enveredam por um corredor amplo pedindo insistentes desculpas por cada centímetro avançado conforme progridem por entre pequenos acampamentos maias, altares budistas e escumalha branca pedrada com Vertigo, Apple Pie, Fuzzy Buzzy, Narthex, Mustard e coisas afins.   O chão precisa de uma vassourada: seringas usadas, frasquinhos de crack, colheres chamuscadas, tubos de cachimbo.

Há também muitos frasquinhos, tubinhos do tamanho de um polegar, em plástico transparente e com uma tampa encarnada numa das pontas.   Podiam ser frascos de crack mas as tampas ainda lá estão e esses carochos não iriam ter a trabalheira de voltar a pôr as tampinhas num tubo vazio.   Deve ser qualquer coisa nova de que Hiro ainda não ouviu falar, como a ‘embalagem de esferovite para hamburguers da McDonalds’ só que aqui tratar-se-á de um contentor universal para drogas.

Avançam para lá de uma porta corta-fogos para outra secção do U-Stor-It que é precisamente ao mesmo estilo da anterior – tudo se parece com tudo na América, não há mudanças agora.   O terceiro armário à direita pertence a Vitaly, um dos menores de 1,5 por 3 metros e que aqui é usado para os seus verdadeiros fins: armazenagem.

Vitaly chega-se à porta e começa a tentar lembrar-se da combinação do cadeado o que envolve uma certa dose de adivinhação aleatória.   Finalmente o cadeado larga um estalido e salta abrindo-se.   Vitaly chuta a tranca para o lado e faz girá-la, escancara a porta que ao abrir-se traça uma varridela no chão ao limpar um semicírculo daquela parafernália de drogas.   A maior parte do 1,5 por 3 está ocupada por um par de carrinhos de mão nivelados sobre quatro rodas, em cima dos quais se empilham até ao topo altifalantes e amplificadores.

Hiro e Vitaly fazem-nos rolar até à zona de carga e metem o recheio a bordo da Vanagon e voltam para guardar aquelas paletes rodadas no 1,5 por 3.   Tecnicamente aquilo até é propriedade ali da comunidade em geral mas ninguém vai nessa.

A caminhada até ao local do concerto é longa, mais longa ainda porque Vitaly, rejeitando a visão tecnocêntrica de L.A. sobre o universo e na qual ‘Velocidade é Deus’, prefere manter-se à superfície das coisas e conduzir a uns 50 à hora.   O trânsito até que não é intenso.   Assim Hiro aproveita para ligar o computador à tomada do isqueiro do carro e enfia os óculos, apontado ao Metaverso.

Não está aqui ligado à rede pelo cabo de fibra óptica e assim toda a sua comunicação com o mundo exterior é efectuada via ondas de rádio que tornam as coisas muito mais lentas e menos estáveis.   Ir assim ao The Black Sun não seria prático – teria um aspecto e som terríveis e os outros sócios vê-lo-iam como se fosse alguém numa aparência a preto e branco.   Mas não há problema algum em se ligar ao seu próprio escritório no Metaverso pois essa parte é gerada nas próprias entranhas do seu computador que descansa ali sobre o colo.   Para isso nem precisa de qualquer comunicação com o mundo exterior.

Materializa-se directamente no escritório, na sua casinha nice situada ali naquele bairro antigo de hackers encostado à Street.   Muito ao estilo nipónico:   tapetes tatami cobrem o chão.   A secretária é uma enorme prancha de mogno rudemente aparada.   Um painel em frente dele abre-se ao deslizar e revela um jardim, completo com um lago e regato cantarolante, onde rebrilham aqueles tons de aço da cabeça de algumas trutas em saltos ocasionais para a apanha de mais uma mosca.   Tecnicamente falando o laguinho dali era para estar cheio de carpas mas Hiro é suficientemente americano para comparar as carpas a intragáveis dinossáurios que se limitariam a ficar pelos fundos a papar lodo.

Há qualquer coisa nova aqui: um globo do tamanho de uma toranja grande, uma imitação perfeitamente detalhada do planeta Terra ali à distância de um braço, suspenso no espaço defronte dos seus olhos.   Hiro já tinha ouvido falar nisto mas nunca o vira.   Uma peça de software da C.I.C. chamada simplesmente ‘Terra’.   É o interface de utilizador que a C.I.C. emprega para rastear todo o mais ínfimo pedacinho de informação espacial que lhe pertence – todos os mapas, informação meteorológica, planos arquitecturais e material de vigilância por satélite.

Há anos já que Hiro vem sonhando com isto, que se prosperasse a sério no negócio da intel talvez dispusesse de massa suficiente para subscrever ‘A Terra’ e ter esta coisa no seu escritório.   Subitamente agora, isto surge aqui, grátis.   A única explicação que consegue encontrar é que terá sido Juanita a oferecer-lho.

Mas comecemos pelo princípio.   O cartão Babel / Infocalipse permanece ainda no bolso do seu avatar.   Retira-o da algibeira.   Um daqueles painéis em papel de arroz que constituem as paredes do escritório abre-se correndo para o lado.   Consegue-se ver uma sala tenuamente iluminada mesmo em frente e que não existia antes.   Aparentemente Juanita veio ali e efectuou também acrescentos em grande à casa.   Um homem vem na direcção do escritório.

O daemon Bibliotecário aparenta ser um tipo afável, cinquentão, cabelo grisalho, de barba, com uns olhos brilhantes azuis, e traz enfiado um pull-over sem mangas e de decote em ‘V’ sobre uma camisa de trabalho, e uma gravata em lã de malha larga com aspecto de tweed.   O nó da gravata parece lasso e nota-se que tem as mangas da camisa enroladas.   Embora não passe de um módulo de software ele tem razão para transparecer contentamento.   Pode-se deslocar através de pilhas quase infinitas de informação na Biblioteca com a agilidade de uma aranha dançando por uma vasta teia de referências cruzadas, hiperligações.   O Bibliotecário é a única peça de software da C.I.C. que custa até mais do que a própria ‘Terra’;   a única coisa que verdadeiramente não consegue fazer é pensar.

“Sim?   Senhor...” – diz o Bibliotecário.   Parece ansioso por começar sem ser contudo desagradavelmente petulante; mãos enclavinhadas atrás das costas, inclina-se ligeiramente para a frente pivoteando sobre os calcanhares e arqueia expectantemente as sobrancelhas sobre aqueles seus meios-óculos.

“Babel é uma cidade na Babilónia, certo?”

“Babel era uma cidade lendária – diz o Bibliotecário.   Babel é um termo bíblico para a Babilónia.   A palavra é semítica.   Bab significa portão e El quer dizer Deus.   BabEl é então o Portão de Deus.   Terá também algo de onomatopaico, como  imitando alguém que fale numa língua incompreensível, num balbuciar, um blá-blá-blá.   A Bíblia está cheia deste tipo de graçolas linguísticas.”

“Eles construíram uma torre em direcção ao céu, e Deus veio e mandou-a ao piso.”

“Há nisto tudo uma antologia de concepções erradas.   Deus nada terá feito à tal torre em si.  ‘... e o Senhor disse – Parem; eles são um só povo e com uma só língua; e isto será apenas o começo do que se preparam para fazer; e nada mais do que se proponham fazer será agora impossível para eles se continuam.   Desçamos e confundamos a sua linguagem de tal modo que não entendam mais a fala uns dos outros -  Assim o Senhor espalhou-os a todos daí por toda a face da Terra deixando eles de construir a cidade e a torre.   Daí em diante o nome tornou-se Babel pois foi aí que o Senhor confundiu a linguagem de todos sobre a Terra’.   – Gen. 11: 6-9, Edição Geral Revista.”

“Então a torre não foi destruída... Entrou-se apenas num hiato...”

“Correcto.   Não foi derrubada.”

“Trata-se então de um bogus!

“Bogus?”

“Provavelmente falso, algo vago, fictício.  Juanita acredita que nada é declaradamente verdadeiro ou falso na Bíblia.   Pois se fosse comprovadamente falso, então a Bíblia é uma mentira.   E se fosse comprovadamente verdadeiro, então a existência de Deus era provada e deixava de haver espaço para a fé!   A história de Babel é declaradamente falsa pois se eles construíram uma torre para o céu e Deus não a derrubou então ainda estaria por aí, ou pelo menos algum vestígio visível.

“Assumir que ela, a torre, era muito alta é apenas basearmo-nos em mais uma ideia obsoleta:   a torre é descrita literalmente como ‘o seu cimo com os céus’.   Foi durante séculos interpretado como querendo dizer que o topo era tão alto que chegava ao céu, mas durante o último século, ao escavarem-se e descobrirem-se vários dos zigurates babilónicos, viu-se que tinham inscritos nos seus topos diagramas astrológicos - imagens dos céus.”  

“Oh!   Okay, portanto a história autêntica será a de uma torre construída com motivos, diagramas celestes, gravados no topo.   Bem mais plausível que uma torre a chegar ao céu.”

“Mais que plausível – relembra-lhe o Bibliotecário – tais estruturas foram na verdade encontradas.”

“De qualquer forma, estás-me a dizer que quando Deus, irado, desceu, atingiu os homens, a torre não foi atingida directamente.   Mas eles tiveram que deixar de construir a torre devido a um desastre informacional  - não podiam mais falar uns com os outros.”

“E a propósito, desastre é até um termo astrológico que significa ‘má estrela’... – faz notar o Bibliotecário – Oh, lamento, mas por vezes devido à minha estrutura interna pareço um tonto com estes saltos de lógica.”

“Está tudo bem, a sério – diz Hiro – até és um módulo porreiro de equipamento.   Quem é que te compôs?”

“A maior parte escrevi-me até a mim próprio – diz o Bibliotecário – isto é, tenho a habilidade inata para aprender a partir da experiência.   Mas esta habilidade foi-me codificada originalmente pelo meu criador.”

“Quem é que te escreveu?   Pode ser que eu o conheça – diz Hiro – conheço uma quantidade de hackers.”

“Não fui escrito, codificado por ninguém que fosse por si só um hacker profissional, mas sim por um investigador na Biblioteca do Congresso que aprendeu sozinho a codificar – explica o Bibliotecário – Devotou-se de todo ao problema comum que é o de ter vasculhar através de pilhas de detalhes irrelevantes de modo a encontrar preciosidades significantes de informação.   O nome dele é Dr. Emanuel Lagos.”

“Já ouvi esse nome – diz Hiro – Então ele foi um género de meta-bibliotecário.   Engraçado, pensei que ele fosse um desses antigos espectros da CIA que gravitam com a CIC.”

“Ele nunca trabalhou com a CIA.”

“Okay.   Vamos avançar com o serviço.   Procura-me toda a informação gratuita que haja por aí na Biblioteca que contenha algo sobre L. Bob Rife e dispõe-na por ordem cronológica.   O ênfase aqui é em ser gratuita.”

“Compreendo, senhor – televisões e jornais.   Um momento, senhor” – pede o Bibliotecário.   Vira-se e sai praticamente deslizando com aqueles pés calçados em seda.   Hiro volta a sua atenção para a ‘Terra’.

O nível de detalhe é fantástico.   A resolução, a clareza, o aspecto daquilo revela a Hiro ou a quem quer que seja que perceba de computadores que este módulo de software é mesmo uma merda das pesadas.   Não é só continentes e oceanos.   É exactamente como a Terra parece vista de um ponto em órbita geo-síncrona directamente sobre L.A., completa com sistemas meteorológicos – vastas galáxias em girândola de nuvens a pairar logo acima da superfície do globo lançando sombras cinzentas sobre os oceanos – e as calotes polares geladas, diluindo-se e fragmentando-se ao descerem para o mar.   Metade do globo está iluminada pela luz do sol, a outra parte envolta em trevas.   O terminator – essa linha separadora entre dia e noite – acabou de passar sobre L. A. Rasteja agora para oeste, por sobre o Pacífico.

Tudo avança como em câmara lenta.   Hiro consegue ver as nuvens a mudar de forma se olhar para elas o tempo suficiente.   Na costa leste a noite parece ser límpida.   Algo prende a sua atenção movendo-se rapidamente acima da superfície do globo.   Até pensa que deve ser uma mosquinha.   Mas não há mosquinhas ali no Metaverso.   Tenta focalizar-se naquilo.   O computador sente esta mudança de ênfase através dos lasers de baixa intensidade que vão ricocheteando nas suas córneas e subitamente Hiro até sufoca.   Sente-se mergulhar na imagem, despenhar-se até lá abaixo em direcção ao globo como um astronauta em passeio no espaço que tenha tombado da sua trajectória orbital.   Quando reganha controle da situação vê-se agora como apenas a escassas centenas de quilómetros acima da Terra, olhando para baixo para um sólido banco de nuvens e consegue ver a tal ‘mosca’ deslizando ainda por sob a posição dele.   É um satélite de baixa altitude da CIC indo de norte para sul numa órbita polar.

“A sua informação, senhor” – alerta o Bibliotecário.

Hiro sobressalta-se e lança um breve olhar para o alto.   A Terra desaparece na parte de baixo para fora do seu campo de visão e de novo surge o Bibliotecário, à espera de pé em frente à secretária, segurando um hipercartão.   Como qualquer Bibliotecário na Realidade este daemon consegue andar por aí sem que se lhe ouçam os passos.

“És capaz de fazer um pouco mais de barulho ao andar?   Assusto-me facilmente” – diz Hiro.

“De acordo, senhor.   As minhas desculpas.”

Hiro estende o braço para o cartão.   O Bibliotecário dá meio passo à frente e inclina-se para ele.   Desta vez ouviu-se o suave ruído dos pés sobre o tapete tatami e Hiro consegue até distinguir o ‘ruído branco’, aleatório, do roçagar das calças sobre as pernas.

Hiro pega no hipercartão e lê-o.   A parte da frente aparece rotulada

 

 

Resultados da consulta à Biblioteca sobre:

Rife, Lawrence Robert, 1948-

 

 

Vira o cartão.   As costas estão divididas por várias dúzias de pequenos ícones do tamanho de uma unha.   Alguns exibem miniaturas de primeiras páginas de jornais.   Muitos outros a cores, rectângulos resplandecentes – são mini écrans de TV acedendo-se por eles a imagens vídeo, em movimento.

“Isto é impossível – espanta-se Hiro – Estou aqui numa carrinha VW, okay?   Só estou em linha por ligação celular.   Era impossível teres-me transferido todo esse material vídeo para aqui para o meu sistema com tanta rapidez.”

“Não foi preciso transferir nada – diz o Bibliotecário – Todos os vídeos existentes sobre L. Bob Rife haviam sido compilados pelo Dr. Lagos e colocados no material Babel / Infocalipse já a bordo do seu sistema.”

“Oh!”

14

Hiro fixa-se na imagem miniatura de TV do canto superior esquerdo do cartão.   Automaticamente dá-se um zoom - a imagem é ampliada para ele até se tornar do tamanho de um écran televisivo para aí de uns 30 centímetros e de baixa definição, colocado à distância de um braço.   Então a imagem começa a correr.   É uma tomada bastante rasca em filme de 8 milímetros, de um jogo de futebol americano num liceu, nos anos sessenta.   Não existe banda sonora.

“Que jogo é este?”

O Bibliotecário informa-o.   “Odessa, Texas, 1965.   L. Bob Rife à defesa, com o número oito, nos de uniforme escuro.”

“Isso são mais pormenores do que eu preciso.   É possível condensares mais, algumas destas coisas?”

“Não, mas posso fazer uma listagem resumida do conteúdo.   O conjunto compreende onze jogos de futebol, no liceu.   Rife esteve até como suplente da equipa estadual do Texas, no seu último ano do liceu.   Daí seguiu para Rice através de uma bolsa de estudos e meteu-se igualmente na equipa de futebol, pelo que temos mais catorze vídeos dos jogos na faculdade.   Rife formou-se na área de Comunicações.”

“Bastante lógico, se considerarmos no que se tornou.”

“De seguida andou como repórter desportivo de televisão, pela praça de Houston, daí as cinquenta horas de cenas que temos deste período – a maior parte, claro, foi só para arquivo.   Após dois anos disto, Rife entrou na área dos negócios pela mão do seu tio-avô, um financeiro com raízes no sector do petróleo.   A pilha deste material contém algumas histórias surgidas nos jornais a esse respeito, as quais, conforme noto após a leitura, estão todas textualmente relacionadas – implicando que todas vieram da mesma fonte.”

“De ‘press releases’ – circulares empresariais distribuídas à imprensa.”

“Então, durante cinco anos, não há qualquer história.”

“Estava ele a preparar alguma.”

“Começamos depois a ver mais histórias – principalmente nas secções de religião de jornais de Houston, pormenorizando as contribuições de Rife para diversas organizações.”

“Isto para mim pareceu-me afinal um sumário.   Pensei que não fosses capaz de resumir.”

“Na verdade não consigo.   Limitei-me a citar um sumário feito recentemente pelo Dr. Lagos a Juanita Marquez, na minha presença, quando estiveram a rever a mesma informação.”

“Continua.”

“Rife contribuiu com 500 dólares para a Igreja Highlands do Baptismo pelo Fogo, Reverendo Wayne Bedford como ministro principal; 2.500 dólares para a Liga da Juventude Pentecostal de Bayside, Reverendo Wayne Bedford, presidente; 150.000 dólares para a Igreja Pentecostal da Nova Trindade, Reverendo Wayne Bedford, fundador e patriarca; 2,3 milhões para o Colégio Bíblico Rife, reverendo Wayne Bedford, presidente e secretário do Departamento de Teologia; 20 milhões para o Departamento de Arqueologia do Colégio Bíblico Rife, mais 45 milhões para o Departamento de Astronomia e 100 milhões para o Departamento de Ciências de Computação.”

“E estas doações ocorreram antes da hiperinflacção?”

“Sim, senhor.   Foram – como se diz na expressão – dinheiro a sério.”

“Esse gajo, o Wayne Bedford, é o mesmo Reverendo Wayne que dirige as ‘Reverend Wayne’s Pearly Gates’ – os Portões de Pérola do Reverendo Wayne?”

“Ele mesmo.”

“Estás-me a dizer então que Rife é dono da ‘Reverend Wayne’s etcetera e tal?”

“Ele possui a maioria das acções na ‘Pearlgate Associates’ que é a multinacional que dirige a cadeia das ‘Reverend Wayne’s Pearly Gates’.”

“Okay, vamos continuar a vasculhar através disto” – diz Hiro.

Hiro mira agora para fora por sobre os óculos só para confirmar que Vitaly ainda não está sequer próximo do concerto.   Depois volta a mergulhar na pesquisa e continua nos vídeos e nas histórias da imprensa que Lagos compilara.

Durante esses mesmos anos em que Rife efectuou as suas contribuições para o Reverendo Wayne, vai-se mostrando com uma frequência crescente nas secções de negócios, primeiro nos jornais locais e mais tarde no The Wall Street Journal e no The New York Times.   Há uma enorme agitação em publicidade – obviamente acções de RP – Relações Públicas – após os nipónicos terem tentado usar a rede do seu ‘antigo rapaz’ para pô-lo fora da jogada no mercado de telecomunicações aí no Japão.  E ele expõe então o caso perante o povo americano despendendo 10 milhões do seu próprio capital, uma campanha para convencer os americanos que os nipónicos eram uns conspiradores e enganosos.   Uma capa vitoriosa no The Economist marca o seu triunfo quando os nipónicos finalmente vão ao tapete e o deixam assenhorear-se do mercado de fibras ópticas tanto no seu país como, por extensão, em todo o sudeste asiático.

Então por fim começam a desfilar as peças vídeo sobre o seu estilo de vida.   L. Bob Rife fez saber ao seu publicista que pretendia mostrar um lado mais humano.   Temos um programa jornalístico sobre personalidades que efectua aquilo que é mais uma peça de encomenda, de enaltecimento, após este comprar um novo iate aos excedentes do governo dos EUA.

L. Bob Rife, na linha dos monopolistas do século XIX, é visto reunido com o seu decorador na cabina do capitão.   Já parece bonita tal como está considerando que Rife adquiriu este navio à marinha, mas para ele não está suficientemente ao estilo texano.   Quer o interior daquilo todo desmantelado e reconstruído.   A seguir, imagens que mostram Rife a esgueirar o seu corpo taurino pelas estreitas passagens e escadas íngremes do interior do barco – sempre o mesmo aspecto chato  e monótono em cinzento aço da Marinha, o qual – garante ele ao entrevistador – vai ser eliminado consideravelmente.

“ ‘cê sabe, há uma história de que quando Rockefeller comprou para si um iate, arranjou um bem pequeno, aí como um desses ‘20 metros’ ou coisa parecida.   Pequeno, pelos standards de hoje.   E quando alguém lhe perguntou, porque é que foi ele e adquiriu ele mesmo um tal botezinho daqueles, um insignificante iate, ele apenas olhou para o gajo e disse – ‘o que é que pensas que sou, algum Vanderbilt?’    Hôuuu!   Bem, de qualquer forma, bem vindo a bordo do meu iate.”

L. Bob Rife conta isto enquanto se mantém de pé numa enorme plataforma elevadora a céu aberto juntamente com o repórter e toda a equipa de câmaras.   O ascensor está a subir.   Em fundo encontra-se o oceano Pacífico.   Conforme Rife conclui a última parte da frase subitamente o elevador alcança o cimo e a câmara gira em redor e de repente vemo-nos a olhar ao longo do convés do porta-aviões Enterprise, pertença antigamente da Marinha dos E.U. e agora o iate pessoal de L. Bob Rife que em furioso leilão bateu as ofertas quer do Sistema de Defesa do General Jim quer da Segurança Global do Almirante Bob.

L. Bob Rife prossegue, admirando aquele vasto espaço plano do ‘deck’ de voo do porta-aviões, comparando-o a certas regiões do Texas.   Sugere até que seria divertido cobrir uma parte daquilo com terra e criar algum gado por ali.

Outra peça, esta tirada para uma rede de TV de negócios, aparentemente filmada algum tempo depois:   de novo o Enterprise onde a cabina do capitão foi já massivamente remodelada.   L. Bob Rife, ‘o senhor Banda Larga’ das telecomunicações, sentado atrás da secretária enquanto o seu bigode é tratado com cera.   Não no sentido típico em que as mulheres têm as pernas tratadas a cera para depilação.   Estão é a cuidar-lhe da macieza e curvatura do encaracolado daquele bigode.   Quem executa aquilo é uma mulher asiática pequenina, que procede com tal delicadeza que nem interfere com o que ele vai dizendo e que versa essencialmente sobre os esforços para ampliar a sua rede de TV por cabo em toda a Coreia e até à China, e na sua ligação ao enorme tronco principal em fibra óptica que corre através da Sibéria e sobre os Urais.

“Yeah, sabes, o trabalho de um monopolista nunca está totalmente acabado.   Não existe essa coisa de ‘monopólio perfeito’.   Como se nunca se conseguisse ter aquele último décimo de um por cento.”

“Mas não está o governo da Coreia ainda um bocado forte?   Deve ter alguns problemas por lá, com as regulamentações?”

L Bob Rife ri-se.   “ ‘cê sabe uma coisa, observar os legisladores governamentais a tentarem manter-se a par com o ritmo do mundo é o meu desporto preferido.   Lembra-se quando caíram em cima da ‘mamã Bell’?”

“Vagamente” – a repórter é uma mulher nos seus vinte e tal.

“Mas sabe o que é que isso era, correcto?”

“O monopólio das comunicações por voz.”

“Correcto.   Estavam no mesmo negócio que eu.   No negócio da Informação.   Fazer circular conversas por aí por esses fininhos fios em cobre, uma de cada vez.   Quando o governo lhes salta em cima com regulamentações é numa altura em que eu começara já com as franchises de TV por cabo em trinta estados.   Hôuuu!   Acredita nisto?   É como se tivessem descoberto uma forma para regulamentar os cavalos na altura da introdução do Ford Modelo T e dos aeroplanos.”

“Mas um sistema de TV por cabo não é o mesmo que um sistema telefónico.”

“Nesse estágio ainda não era pois tratava-se apenas de um sistema local.   Mas uma vez que tenhas sistemas locais espalhados por todo o mundo tudo o que tens a fazer é ligá-los todos e tornam-se numa rede global.   Tão grande como o sistema telefónico.   Excepto que este agora transporta informação dez mil vezes mais rápido.   Imagens, som, dados, é só escolher.”

 

Uma insípida peça de ‘Public Relations’ – meia hora de anúncio de TV sem outro propósito que não seja o de deixar L. Bob Rife pronunciar o seu ponto de vista sobre um assunto específico.   Parece que um número de programadores de Rife, o pessoal que fez os seus sistemas funcionar, juntaram-se para formar um sindicato – nunca antes se ouviu disto para hackers – e meteram um processo judicial contra Rife alegando que ele havia colocado as suas residências sob vigilância áudio e vídeo através de ‘bugs[14]’ – receptores dissimulados.   De facto, colocara-os a todos eles sob vigilância 24 horas por dia, e vexou e ameaçou alguns programadores que levavam – o que ele dizia ser – ‘opções de estilo de vida inaceitáveis’.   Por exemplo, quando uma das suas programadoras e o marido se meteram uma noite numa de sexo oral, na própria moradia e quarto deles, na manhã seguinte lá estava ela a ser convocada ao escritório de Rife onde ele lhe chamou vaca e sodomita e a mandou logo levar as suas coisas da secretária de trabalho.   A má publicidade deste caso perturbou Rife de tal modo que se sentiu na necessidade de esbanjar alguns milhões em mais alguma ‘R.P.’ – Relações Públicas.

“Trabalho em Informação – diz ele para aquele sabujo e sapudo pseudo jornalista que o ‘entrevista’ nesta peça.   Encontra-se sentado no seu escritório em Houston parecendo ainda mais manhoso que o habitual  – Toda a televisão difundida para os consumidores em todo o mundo passa através de mim.   A maior parte da informação transmitida para e da base de dados da CIC passa pelas minhas redes.   O Metaverso, a Street inteirinha,  existe por virtude de uma rede da qual sou proprietário e que controlo.

“Mas isso significa, se é que está a seguir por um bocadinho que seja o meu raciocínio, que quando tenho um programador a trabalhar sob as minhas ordens e que trabalha com essa informação toda, manuseia de facto um poder enorme.   A informação vai para o seu cérebro.   Permanece aí.   Viaja com ele quando à noite regressa a casa.   Acaba por se imiscuir nos seus sonhos, por amor de Deus.   Fala à sua mulher sobre ela.   E valha-nos o Senhor, ele não tem qualquer direito a essa informação.   Se eu estivesse à frente de uma fábrica de automóveis não iria deixar os trabalhadores levar os carros para casa ou tomarem emprestadas as ferramentas.   Mas isso é o que faço todos os dias às cinco da tarde, por todo o mundo, quando os meus hackers regressam a casa após o trabalho.

“Quando nos tempos de antigamente era costume pendurarem-se pelo pescoço os ladrões de gado, a última coisa que faziam era molhar as calças.   Esse era o sinal derradeiro, está a ver, de que haviam perdido controle sobre os seus próprios corpos, que estavam a morrer.   Vê, a primeira função de qualquer organização é controlar os seus esfíncteres.   Nós nem isso estamos a fazer.   Portanto estamos a trabalhar no sentido de refinarmos as nossas técnicas de gestão de modo a conseguirmos controlar essa informação – não importa qual seja – existente nos nossos discos rígidos ou mesmo a bordo da cabeça dos nossos programadores.   Agora, não posso revelar mais nada pois tenho que me precaver da concorrência.   Mas espero fervorosamente que dentro de cinco ou dez anos este tipo de coisa já nem seja um assunto.”

 

Um episódio de meia hora de um programa de actualidades científicas, este sobre o novo e controverso assunto da infoastronomia, a busca de sinais de rádio oriundos de outros sistemas solares.   L. Bob Rife tem um interesse pessoal no tema; conforme diversos governos nacionais leiloam as suas possessões, foi comprando uma série de rádio-observatórios e ligou-os a todos em rede usando a sua fantástica teia de fibra óptica de forma a tornar tudo aquilo numa única antena gigante de dimensões planetárias.   Vasculha agora os céus vinte e quatro horas por dia em busca de ondas de rádio que tenham qualquer significado – ondas de rádio transportando informação de outras civilizações.   “E porquê – pergunta o entrevistador, uma celebridade, professor no M.I.T. - porque é que um simples ‘homem dos petróleos’ estará interessado nessa tão elevada e abstracta pesquisa?”

“É que, este planeta, já eu o tenho completamente enredado!”

Rife debita esta frase com um risinho incrivelmente sardónico e gozão, e no tom exagerado de um cow-boy que suspeita do pescoço esticado de algum inspector Ianque a espiolhá-lo.

 

Outro retalho noticioso, este filmado aparentemente alguns anos mais tarde.   Cá estamos de novo no Enterprise mas desta feita a atmosfera é mais uma vez diferente.

O ‘deck’ superior está transformado num autêntico campo de refugiados a céu aberto.   Encontra-se enxameado de bangladeshes que L. Bob Rife repescou da baía de Bengala após o seu país ter sido lateralmente varrido para o oceano  na sequência de uma série de inundações em massa causadas pela desflorestação mais a montante, na Índia, numa verdadeira ‘hydrological warfare’ – guerra hidrológica.   A câmara alarga agora o ângulo de forma a abarcar para lá dos bordos do convés de voo e mais abaixo, e vemos ali os princípios, os primeiros tempos mesmo, da  ‘Raft’ – a Jangada: uma relativamente pequena colecção ainda, de poucas centenas de barcos aglomerados ao Enterprise, almejando uma boleia grátis até à América.

Rife caminha entre aquela gente distribuindo bandas desenhadas bíblicas e beijos à criançada.   Amontoam-se à volta dele em rasgados sorrisos, juntando as palmas das mãos, inclinando-se.   Rife dobra-se por sua vez muito desajeitadamente mas não há gracejo algum na sua face.   Aquilo é mesmo a sério.

“Mr. Rife, qual é a sua opinião sobre as pessoas que afirmam que o senhor está apenas a fazer isto como um truque publicitário de auto-enaltecimento?” – o entrevistador encontra-se agora numa de fingir ser o ‘polícia mau’ da cena.

“Merda, se eu desperdiçasse tempo para ter uma opinião sobre tudo e mais alguma coisa, nunca teria nenhum trabalho feito – responde L. Bob Rife – Deveria era perguntar a esta gente aqui o que é que eles pensam.”

“Está-me a dizer que este programa de assistência a refugiados não tem nada a ver com a sua imagem pública?”

“Nada.   Ve...”

Há alternância de planos de edição e passam agora para o jornalista, pontificando ali perante a câmara.   Pelo que parece a Hiro, Rife está à beira de despejar um sermão mas eles cortam-lhe a palavra.

Mas uma das verdadeiras glórias da Biblioteca é que há muitas cenas extras.   Lá porque um pedaço de vídeo nunca tenha sido editado para emissão num programa não significa que seja desprovido de valor como ‘informação’.

A CIC há muito que deitou mão às bibliotecas de videogramas das redes de TV.   Todas essas cenas extras não emitidas – milhões de horas de reportagem – não foram na verdade ainda remetidas para a Biblioteca em formato digital.   Mas podes mandar uma requisição e a CIC vai à procura desse vídeo para ti lá por aquelas estantes todas e põe-no a passar, envia-to.

Lagos já o fez.   E as fitas aqui estão, compiladas.

“Nada.   Veja.   A Jangada é um acontecimento mediático.   Mas num sentido geral, muito mais profundo do que aquele que possa imaginar.”

“Oh!.”

“É criada pelos ‘media’ na medida em que sem os ‘media’ as pessoas não saberiam que estava aqui, que existia, os Refugas não viriam a correr para agarrarem-se a ela da maneira que o fazem.   E ao mesmo tempo sustém esses mesmos ‘media’.   Cria uma série de novos fluxos de Informação – filmes, notícias... você sabe.”

“Portanto cria o seu próprio facto noticioso para fazer dinheiro a partir do fluxo de informação que isso gera?” – diz o jornalista tentando desesperadamente acompanhar aquilo.   O seu tom de voz denota que isto está a ser tudo uma perda de videotape.   A sua atitude de fadiga sugere que esta não é a primeira vez em que vê Rife a enveredar por essa tangente bizarra.

“Parcialmente.   Mas essa é apenas uma explicação bem grosseira.   Na realidade a coisa vai um pouco mais fundo do que isso.   Já ouviu provavelmente a expressão de que ‘a indústria alimenta-se de biomassa, como uma baleia apanha krill do oceano’.”

“Já ouvi a expressão, já.”

“É uma das minhas divisas.   A frase é minha.   Uma expressão como esta é como um vírus, sabe – é um pedaço de informação, dados – que se vai transmitindo de pessoa para pessoa.   Bem, a função da ‘Raft’ – da Jangada – é a de trazer mais biomassa.   Para renovar a América.   Muitos dos países são estáticos, tudo o que precisam de fazer é manterem-se a produzir bebés.   Mas a América é como esta enorme e antiga máquina ronceira que se arrasta pela paisagem apanhando e devorando todos os que estejam à vista e que atrás deixa todo um rasto de lixo de mais de uma milha de largura.   Sempre a precisar de mais ‘alimentação’.   Já alguma vez leu a história sobre o labirinto e o minotauro?”

“Certamente.   Isso foi em Creta, correcto?” – o jornalista limita-se a responder com sarcasmo.   Não acredita que esteja a gramar com isto, quer voar de regresso a L. A. , ontem mesmo de preferência.

“Yeah.   Todos os anos os gregos tinham que arranjar e entregar relutantemente algumas virgens a Creta como tributo.   Aí o rei punha-as no labirinto e o minotauro devorava-as.   Costumava ler essa história em criança e perguntava-me que diabo eram esses gajos em Creta que todos os demais estavam com tanto receio deles que acabavam por entregar-lhes tão docilmente as suas crianças para serem tragadas, ano após ano.   Devem ter sido uns miseráveis de uns filhos da puta.”

“Mas agora tenho uma perspectiva diferente disso.   A América deve parecer a esses pobres bichos aí por fora como Creta na altura era para os pobres patetas dos gregos.   Excepto que não há qualquer coerção envolvida aqui.   Essa gente aí fora dá os seus filhos de livre vontade.   Enviam-nos aos milhões para o labirinto para serem devorados.   A indústria alimenta-se deles e cospe de volta imagens, devolve por sua vez filmes e programas de TV através das minhas redes, imagens de prosperidade e de coisas exóticas para lá dos seus mais loucos sonhos, para toda essa gente, e dá-lhes qualquer coisa com que sonharem, algo a que podem aspirar.   E essa é a função da Jangada.   É apenas um grande e velho cargueiro de krill.”

Finalmente o jornalista desiste de ser jornalista e começa apenas a cascar abertamente em L. Bob Rife.   Já teve o seu quinhão que baste deste gajo - “É lamentável.   Não posso acreditar que pense nas pessoas desta forma.”

“Merda pá, desce à terra daí desses píncaros do teu cavalo.   Ninguém é comido de facto.   É só discurso figurado.   Vêm para cá, arranjam empregos decentes, encontram Cristo, compram um grelhador Weber, e vivem felizes para sempre.   O que é que há de errado com isso?”

Rife começa a ficar lixado.   Põe-se para ali a berrar.   Atrás dele os bangladeshes detectam essa vibração emocional e são eles próprios agora a ficar transtornados.   Subitamente um deles, um homem incrivelmente ossudo, fino e alto, de bigode longo e descaído, corre para a frente da câmara e começa aos gritos: “a ma la ge zen ba dam gal nun aka aria su su na na da...”   O som alastra dele para os que lhe estão próximos espalhando-se como uma vaga pelo convés de voo.

“Corta! – ordena o jornalista voltando-se para a câmara – Corta isso.   A Brigada Babble ataca de novo, é só blá-blá-blá.”

O fundo sonoro consiste agora num milhar de pessoas a falarem em línguas sob aquele esganiçado gargalhar de comedor de trampa de L. Bob Rife.

“Este é o milagre das línguas – grita Rife por sobre aquele tumulto – Consigo perceber qualquer palavra que esta gente está a dizer.   E tu mano, consegues?”

 

“Ôi!   Sai fora disso pá!”

Hiro desvia o olhar daquele cartão virtual para o alto.   Não está mais ninguém no seu escritório além do Bibliotecário.

A imagem desfoca-se e desliza para cima e para fora do seu campo de visão.   Hiro vê-se agora a olhar através do pára-brisas da VW Vanagon.   Alguém acabou de lhe tirar os óculos da cara – não foi Vitaly.

“Estou aqui fora, Caixa d’Óculos!

Hiro olha pela janela.   É Y.T. dependurada dali do lado da carrinha por uma das mãos e segurando os óculos dele na outra.

“Passas tempo demais com estes óculos – diz ela – Tenta um pouco de Realidade, homem!”

“Para onde vamos – diz Hiro – vamos apanhar com mais Realidade do que aquela que aguento.”

 

Conforme Hiro e Vitaly se aproximam do vasto viaduto e da zona onde irá decorrer o concerto desta noite a qualidade sólida e ferrosa da Vanagon atrai as MagnaPoons – os discos magnéticos dos surfistas - como uma armadilha ‘Twinkie’ apanha baratas.   E se eles adivinhassem que o próprio Vitaly Chernobyl vinha a bordo ficariam malucos, fariam ir abaixo o motor da carrinha.   Mas de momento limitam-se a atrelarem-se a tudo o que pareça dirigir-se para o concerto.

E quando estão já perto do viaduto é mesmo uma causa perdida qualquer tentativa de condução, tão numerosos e densos são agora aqueles andarilhos, os thrashers por ali presentes.   É como calçar botas para a neve e tentar andar por uma sala pejada de cachorrinhos.   Têm quase que cheirar o caminho, fazer soar a buzina, piscar os faróis.

Alcançam finalmente a plataforma do semi-reboque que constitui o palco para o espectáculo nocturno.   Logo a seguir existe outro semi-reboque repleto de amplificadores e outro equipamento de som.   Os condutores dos camiões, uma minoria oprimida de dois, apenas, recolheram à cabina do camião de som fumando umas cigarradas e a olhar com enfado para o enxame de andarilhos, seus ajuramentados inimigos na ‘pirâmide alimentar’ das auto-estradas.   Não será voluntariamente que sairão dali até às cinco da manhã, quando o caminho já estiver desimpedido.

Um par dos outros Meltdowns encontra-se ali em volta a fumar uns cigarros, segurando-os entre dois dedos à maneira eslava, como dardos.   Esmagam-nos depois sobre o cimento com os seus sapatos baratuchos em vinil, correm para a Vanagon e começam a descarregar o equipamento de som.   Vitaly enfia uns óculos, liga-se ele agora a um dos computadores no camião de som e principia a afinar o sistema.   Existe ali já colocado em memória um modelo em 3D de toda a área do viaduto.   E ele tem que descobrir como sincronizar os diversos atrasos sonoros derivados das distâncias entre si dos diferentes cachos de altifalantes, para maximizar o número daqueles ecos terríveis entrechocando-se.

15

Os ‘Trauma Força Bruta’ são a banda de aquecimento e começaram a rolar cerca das nove da noite.   Toda uma pilha de altifalantes em segunda mão e ligados ao primeiro cabo de corrente entrou em curto circuito, os seus fios a enviar faíscas para o ar, a levantar um arco de caos por entre o aglomerado de pessoal dos skates.   A secção de electrónica no camião de som isola o circuito defeituoso e desliga-o antes que alguma coisa ou alguém se lixe.   Os Trauma Força Bruta tocam um género de reggae rápido grandemente influenciado pelas ideias antitecnológicas dos Meltdowns.   Estes gajos devem provavelmente tocar durante uma hora, depois deverá ser mais um par de horas para nos entretermos com Vitaly Chernobyl e os Meltdowns.   E se Sushi K marcar presença, será bem-vindo para surgir ali ao microfone como estrela convidada.

No entretanto desses acontecimentos todos Hiro retira-se daquele delírio no centro da multidão e começa a orbitar para trás e para diante ao longo das suas franjas.   Y.T. encontra-se algures nas redondezas mas está fora de questão tentar localizá-la por aí.   De qualquer forma ela ficaria embaraçada ao ser vista ali com um ‘velhadas’ como Hiro.

Agora que o concerto arrancou e prossegue as coisas aguentam-se por si.   Não há muito mais que Hiro possa fazer.   Por outro lado as coisas interessantes acontecem é nas fronteiras – transições – não no meio onde tudo é monótono.   Talvez haja qualquer coisa a acontecer ao longo da periferia da multidão, lá mais para trás onde as luzes se amortecem à sombra do viaduto.

A multidão naquelas franjas parece mesmo típica do lado obscuro de um viaduto de L. A. a meio da noite.   Há ali todo um abarracado com um ‘hard-core’ - os puros e duros dos desempregados do terceiro mundo, mais uma miríade de esquizofrénicos primeiro-mundistas que já há muito reduziram a mioleira a cinzas no radiante forno das suas próprias fantasias.   Uma porrada deles emerge de contentores de despejo tombados e de caixas de refrigeradores, para estarem ali em bicos de pés na periferia da multidão e espreitam aquela luz e ruído.   Alguns parecem ensonados e estupefactos, e outros – gajos latinos e encorpados – têm um ar de se divertirem com aquilo tudo, passando cigarros para a frente e para trás, abanando a cabeça sem quererem acreditar.

A zona do concerto é terreno dos Crips.   Os Crips é que queriam providenciar a segurança do recinto mas Hiro, um estudante de Altamont, decidiu tomar o risco de dar-lhes a volta e em vez deles contratou os serviços dos Enforcers.

Assim em todas as dezenas de metros deparamos com um gajo grande numa postura erecta envergando um blusão em verde-ácido com a palavra ENFORCER bem marcada, escrita ao comprido nas costas.   Demasiado conspícuos, que é como eles gostam de se mostrar.   Aquilo é tudo colorido por electropigmentos e assim se houver problemas estes tipos conseguem tornar a roupa completamente preta ao activarem um interruptor na lapela.   E para ficarem à prova de bala só têm que correr aquele zip à frente e fechar o blusão.   A noite hoje está morna e a maior parte deles mantém os uniformes abertos oferecendo-se à frescura da brisa.   Alguns limitam-se a deslizar por ali mas muitos conservam-se atentos, olhos sobre a multidão e não no palco.

Vendo todos estes ‘soldados’ Hiro procura o ‘general’ e cedo o descobre:  um gajo preto, pequenino mas firme, do tipo de um levanta pesos minorca.  Veste um blusão como os outros mas por baixo tem uma camada adicional desse material à prova de bala e encaixado aí existe todo um belo sortido de equipamento de comunicações e sistemas minúsculos mas artilhados para mandar gente ao piso.   Farta-se para ali de fazer jogging, correr para a frente e para trás, rodando a cabeça de um lado para o outro, soltando murmúrios breves para o conjunto de fones e micro que traz à cabeça, como um treinador de futebol nas linhas laterais.

Hiro repara num homem alto, nos seus trinta e muitos, barbicha  distinta à chibo e que vem num fato cinzento escuro como carvão, verdadeiramente bonito.   A trinta metros consegue ver o reluzir de diamantes no seu alfinete de gravata.   Sabe que se se aproximar mais pode ler a palavra Crips traçada em safiras azuis incrustadas por entre esses diamantes.   E ele encontra-se ali com o seu próprio aparato de segurança, meia dúzia de tipos igualmente de fato.   Mesmo que não tenham sido convocados não se iriam coibir de enviar uma delegação simbólica apenas para marcar presença.

 

Há aqui algo fora de sequência e que tem andado a mordiscar as margens da mente de Hiro nos últimos dez minutos: a luz laser tem um tipo muito particular de intensidade granular, uma pureza molecular reflectindo as suas origens.   Os teus olhos conseguem topar isto, sabem por qualquer forma que não é uma coisa natural.   Sobressai em qualquer sítio mas ali particularmente, sob um poeirento viaduto e a meio da noite.   Hiro continua a apanhar com aqueles relâmpagos na sua visão periférica e a mirar em redor tentando traçar-lhes a origem.   É óbvio para ele mas ninguém mais parece reparar.

Alguém, algures neste viaduto, entretém-se a fazer reflectir um feixe laser sobre a face de Hiro.

Aquilo chateia.   Sem se tornar demasiado óbvio altera ligeiramente o curso, vagueia até um ponto lá para onde sopra o vento e o fumo de um tambor em aço onde arde lixo.   Permanece aí no meio desse penacho de fumo diluído que na prática já não se vê mas pode-se ainda cheirar.   Na próxima vez que o laser dardeja sobre a cara, ressalta de um milhão de pequeníssimas partículas de cinza e revela-se como pura linha geométrica no espaço, apontando a direito, lá atrás, para a sua fonte.

É um ‘gárgula’, parado naquela meia luz junto a uma das barracas.   Só em caso de dúvida, de que não fosse suficientemente conspícuo, ainda anda de fato.   Hiro começa a caminhar na direcção dele.

Os gárgulas representam o lado embaraçoso da Central Intelligence Corporation.   Em vez de usarem os habituais computadores portáteis – os laptops, de colo – ‘vestem’ os computadores directamente sobre o corpo, espalhados em módulos separados que se penduram à cintura, às costas, ou encaixam no conjunto fones-micro.   Funcionam como sistemas para vigilância humana gravando tudo o que acontece à volta deles.   Nada tem um aspecto mais estúpido; estas ‘fatiotas’ são o equivalente nos dias de hoje ao estojo das réguas de cálculo ou à bolsinha à cintura para a calculadora, marcando o seu utilizador como pertencendo a uma classe que está ao mesmo tempo acima e muito abaixo da sociedade humana.   Para Hiro são uma benesse porque encorpam o pior estereótipo de um colaborador da CIC.   E fazem convergir sobre eles toda a atenção.

A contrapartida para este ostracismo auto-imposto é que podes andar no Metaverso o tempo todo, e apanhar informação o tempo todo.   Os costados da CIC não conseguem arcar com estes gajos porque enviam à sua base de dados quantidades esmagadoras de informação inútil numa tentativa de que alguma coisa seja eventualmente aproveitável.   É como assentar as matrículas de todos os carros com que nos cruzamos diariamente na ida matinal para o emprego só para o caso de que algum deles venha a estar envolvido num acidente de bate e foge.   Mesmo a base de dados da CIC tem um limite máximo para lixo.   Portanto, usualmente, estes gárgulas habituais vêm-se corridos da CIC em pouco tempo.

Este gajo ainda não foi posto fora.   E a julgar pela qualidade do seu equipamento – o qual é bastante caro – já há algum tempo que está no negócio.   Deve, portanto, ser dos bons.

A ser assim, o que é que ele fará à volta aqui do sítio?

“Hiro Protagonist – o gárgula chama conforme Hiro, finalmente, se abeira dele na escuridão junto a uma das cabanas – Colaborador da CIC há onze meses, especializado em questões da indústria, ex-hacker, guarda de segurança, estafeta de pizzas, promotor de concertos” – praticamente murmura aquilo como uma ladainha, uma reza, não querendo que Hiro gaste tempo em apresentações e a recitar uma lista de factos já conhecidos.

O laser que continuava a atingir Hiro na vista foi desligado no computador deste gajo por comando de um circuito periférico situado acima dos olhos, a meio da testa.   Era um scanner de retinas de longo alcance.   Se te voltares para o tipo, de olhos abertos, o laser ao disparar penetra pela tua íris – o mais delicado dos esfíncteres – e varre, lê a tua retina.   Os resultados são enviados para a CIC que tem uma base de dados com várias dezenas de milhões de retinas já analisadas.   Dentro de poucos segundos, se já estiveres nesse arquivo, o dono aqui da maquinaria fica a saber quem tu és.   Se ainda não estás na base de dados, bom, agora passas a estar.

Claro, o utilizador tem que ter privilégios de acesso.   E uma vez que apanhe a tua identidade tem que ter ainda outro tipo de privilégios de acesso mais elevados para saber outra informação pessoal sobre ti.   Este gajo, aparentemente, tem uma quantidade de privilégios de acesso.   Um bom pedaço a mais do que Hiro.

“O nome é Lagos” – apresenta-se o gárgula.

Então é este o gajo.   Hiro considera perguntar-lhe que diabo faz ele aqui.   Gostaria de levá-lo a tomar uma bebida, falar com ele sobre como foi efectuada a codificação do Bibliotecário.   Mas sente-se lixado.   Lagos está a usar para ele de uns modos rudes – bem, gárgulas são rudes, por natureza.

“Estás aqui por causa dessa coisa do Raven?   Ou é só na sequência da dica que te deram sobre o rock-fuzz-grunge e nisso em que andas metido nos últimos humm... trinta e seis dias aproximadamente” – pergunta Lagos.

Não tem piada nenhuma falar-se com um gárgula.   Nunca terminam uma frase.   Andam perdidos, imersos num universo desenhado a lasers, varrendo retinas em todas as direcções, reverificando nas bases de dados existentes o que vão captando sobre todos num raio de um quilómetro, cruzando informação, e observam mesmo tudo, em luz visível, infravermelhos, radar na banda de um milímetro, e ultra-sons, tudo ao mesmo tempo.   Pensas que estão a falar contigo mas na verdade estão é debruçados sobre os registos de crédito de algum estranho no outro lado da sala, ou a identificar a marca e modelo dos aviões que nos sobrevoam.   Pelo que sabe, Lagos pode estar para ali a tirar medidas à pissa de Hiro, mesmo através das calças, enquanto finge manter uma conversa.

“És o tipo que tem estado a trabalhar com a Juanita, correcto?” – pergunta Hiro.

“Ou ela é que está a trabalhar comigo, ou qualquer coisa assim.”

“Ela disse que queria que eu me encontrasse consigo.”

Durante alguns segundos Lagos queda-se imóvel.   Está a esgaravatar em mais informação.   A Hiro só apetece é despejar-lhe um balde de água gelada em cima.

“Faz sentido – diz ele – Estás bem familiarizado com o Metaverso como todos.   Hacker por conta própria – está perfeito.”

“Perfeito para quê?   Hoje mais ninguém quer hackers por conta própria.”

“Os hackers das linhas de montagem das grandes corporações estão ali como tontos ávidos para serem infectados.   Vão cair aos milhares, tal como o exército de Senaquerib perante as muralhas de Jerusalém” – diz Lagos.

“Infecção?   Senaquerib?”

“E tu também te consegues defender na Realidade, isso é bom se alguma vez tiveres que te bater contra o Raven.   Lembra-te, as suas lâminas são tão aguçadas como uma molécula.   Trespassam um colete à prova de bala como se fosse lingerie.”

“Raven?”

“Provavelmente irás vê-lo esta noite.   Não te envolvas com ele.”

“Okay – diz Hiro – vou ver se o topo.”

“Não foi o que eu disse – insiste Lagos – Disse foi para não te meteres com ele.”

“Porque não?”

“É um mundo perigoso este – diz Lagos – E a cada instante mais perigoso.   Portanto não queremos alterar o equilíbrio do terror.   Pensa como foi a Guerra Fria.”

“Yep!”   Hiro só quer é pôr-se a andar e não mais voltar a pôr a vista em cima deste gajo, mas não vai rematar a conversação.

“Tu és um hacker.   Significa também que tens profundas estruturas com que te preocupares.”

“Estruturas profundas?”

“As matrizes neurolinguísticas inculcadas no teu cérebro.   Lembras-te da primeira vez que aprendeste código binário?”

“Certamente.”

“Estavas a formar novas ligações no teu cérebro.   Estruturas profundas enterradas.   Os teus nervos faziam crescer novas conexões conforme lhes davas uso, os axónios a separarem-se e a infiltrarem-se, a abrir caminho por entre as células gliais em divisão; o teu bioware – o equipamento biológico – auto-modifica-se, o software tornou-se parte do hardware.   Portanto agora és vulnerável – todos os hackers estão vulneráveis a um nam-shub.   Temos que tomar conta uns dos outros.”

“O que é um nam-shub?   Porque é que eu lhe sou vulnerável?”

“Apenas não olhes para nenhuma imagem bitmap – digital.   Alguém te tentou mostrar ultimamente algum bitmap tosco?   Por exemplo, no Metaverso?”

Interessante.   “Não a mim pessoalmente, mas agora que mencionou isso, há essa Brandy que se aproximou do meu amigo...”

“Uma prostituta do culto de Asherah.   A tentar espalhar a doença.   Que é sinónimo do mal.   Soa melodramático?   Não propriamente.   Sabes, para os da Mesopotâmia, não havia qualquer conceito independente do mal.   Apenas havia doença e saúde fraca.   O mal era um sinónimo para doença.   Então o que é que isso te diz?”

Hiro desanda, da mesma forma que desanda de gente psicopata na via pública que o persiga pela rua abaixo.

“Diz-te que o mal é um vírus! – grita Lagos atrás dele – Não deixes que o nam-shub penetre no teu sistema operativo!”

A Juanita anda a trabalhar com este alien?

 

Os Trauma Força Bruta tocam ao longo de uma hora bem sólida passando de uma canção a outra sem qualquer racha ou fissura nessa parede de ruído.   É tudo parte da estética.   Quando a música pára é porque a sua actuação está terminada.   Pela primeira vez Hiro ouve aquela exaltação vinda da turba.   Uma explosão de barulho em tons altos, agudos, que sente na cabeça e lhe faz retinir os tímpanos.

Mas há igualmente um ribombar cavo como alguém que cadenciadamente martele um tambor de baixos e por um minuto até pensa que pode ser um camião arrastando-se pelo viaduto por cima deles.   Só que é demasiado regular para ser isso e não se desvanece.

Aquilo está é ali por trás dele.   Outro pessoal já reparou e está agora a voltar-se para o som, a dar o fora com urgência ali do caminho.   Hiro afasta-se para o lado e vira-se para ver o que aquilo é.

Grande e preto, para começar.   Não se percebe como é que um calmeirão como este se consegue empoleirar em cima de uma motocicleta mesmo que seja uma enorme e gorgolejante Harley como esta.

Correcção.   É uma Harley com qualquer tipo de sidecar pegado – um lustroso e negro projéctil pendurado do lado direito e assente na sua própria roda.   Mas não se encontra ninguém sentado nesse sidecar.

Não se percebe como é que um gajo é assim tão encorpado sem ser gordo.   Mas ele de modo algum é gordo, até veste umas roupas justas e elásticas – como couro, mas sem ser bem couro, aquilo – e que deixam entrever ossos e músculos mas nada mais.

Conduz tão devagar a Harley que certamente cairia não fosse o sidecar.   Ocasionalmente espevita-a para a frente com um leve torção dos dedos na mão da embraiagem.

Talvez uma das razões que lhe dá esse aspecto de tão grande – para lá do facto de ser realmente grande – seja o facto em si de parecer totalmente desprovido de pescoço.   A cabeça em cima começa logo por ser larga e apenas vai alargando mais até se fundir com os ombros.   Ao princípio Hiro até pensava que estivesse a ver algum novo capacete avant-garde, mas quando o homem rola por ali ultrapassando-o, essa grande placa move-se e esvoaça, e Hiro repara que aquilo é apenas o cabelo dele, uma crina espessa de cabelo negro atirado para trás dos ombros e que lhe descai pelas costas quase até à cintura.

Ainda espantado a olhar para isto, verifica que o homem rodou a cabeça para trás para olhar para ele.   Ou então para olhar mais ou menos na direcção dele em geral.   De qualquer maneira é impossível dizer ao certo para onde, por causa daqueles óculos que ele traz, uma carapaça convexa e lisa sobre os olhos, interrompida só por uma estreita fenda horizontal.

Ele está a olhar para Hiro.   Envia-lhe o mesmo sorriso tipo ‘vai-te lixar’ que já ostentara antes, esta noite, quando Hiro se encontrava ali à entrada do The Black Sun.   Este é o gajo que deu o cartão de Snow Crash a Da5id.

A tatuagem na sua testa consiste em três palavras escritas em letra de imprensa: DEFICIENTE CONTROLE DE IMPULSOS.

Hiro assusta-se e até manda um pulo no ar.   É Vitaly Chernobyl e os Meltdowns que se lançam no seu número de abertura ‘Queimadura por Radiação’.   É todo um tornado, principalmente de ruídos agudos e distorção, quase como se tivesse o corpo atirado através de uma parede de anzóis de pesca.

Nestes dias muitos dos estados são franchisulados ou Segurbúrbios demasiado exíguos para ter qualquer coisa como uma cadeia ou mesmo um sistema judicial.   Assim quando alguém comete algo mesmo mau tentam encontrar punições expeditas e lixadas como flagelação, confiscação de propriedade, humilhação pública ou, no caso de pessoas que demonstrem um elevado potencial de perigosidade para andarem por aí a magoar os outros, aplica-se uma tatuagem de aviso sobre uma parte proeminente do corpo.  Deficiente controle de impulsos.   Aparentemente este gajo foi a um desses locais e perdeu as estribeiras de um modo realmente bera.

Por um instante uma rede em vermelho brilhante aparece desenhada contra o lado da face de Raven.   Contrai-se rapidamente, todas as arestas convergindo para o interior centrando-se na pupila direita.   Raven sacode a cabeça, vira-se para olhar para a origem da luz laser mas esta foi-se.   Lagos já conseguiu a sua análise de retina.

É por isso que Lagos está aqui.   Não está interessado em Hiro ou em Vitaly Chernobyl.   Está é interessado em Raven.   E de uma forma ou de outra Lagos sabia que ele ia estar aqui.   E agora mesmo Lagos está algures nas redondezas gravando o gajo em videotape, pesquisando com radar o conteúdo das suas algibeiras, registando o pulso e respiração.

Hiro pega no seu telemóvel.   “Y.T.” – diz ele, e o aparelho marca o número de Y.T.

Toca por um longo bocado até que ela atende.   É quase impossível escutar qualquer coisa por sobre o som do concerto.

“Que porra é que queres?”

“Y.T., desculpa-me isto.   Mas passa-se qualquer coisa.   Uma oportunidade em grande.   Estou de olho num calmeirão motard chamado Raven.”

“O problema com vocês hackers é que nunca param de trabalhar.”

“É essa a vida de um hacker” – diz Hiro.

“Irei estar igualmente de olho nesse tal gajo, o Raven – diz ela – em qualquer altura quando estiver a trabalhar.” – e depois desliga.

16

Raven efectua um par de passagens largas e preguiçosas ao longo do perímetro da multidão seguindo muito lentamente e olhando em todas as direcções.   Ele está irritantemente calmo e sem pressas.   Então corta mais para o exterior entrando na zona de trevas, distanciando-se da multidão.   Dá mais umas espreitadelas em redor verificando ali o perímetro daquele abarracado.   E finalmente embica a enorme Harley para uma trajectória que o traz de volta e o leva até ao tipo importante dos Crips.   O tipo com o alfinete de gravata em safira mais o seu grupinho de segurança pessoal.

Hiro começa a singrar através daquela mole humana na mesma direcção procurando não se tornar demasiado notado.   Isto tem o aspecto de se vir a tornar interessante.

Com a aproximação de Raven os guarda-costas convergem sobre o Crip chefe formando um largo anel protector à sua volta.   Conforme ele chega mais perto todos dão um ou dois passos à retaguarda como se o homem estivesse rodeado por um campo de forças invisível.   O da mota finalmente imobiliza-se e condescende em pôr os pés em terra.   Mexe nalguns dos interruptores nos punhos do guiador antes de se afastar da Harley.   Então antecipando-se ao que se segue, pára, pés afastados e mãos erguidas.

Um Crip de cada lado, aproximam-se dele.   Não estão particularmente felizes com esta missão específica, continuam a deitar olhares esquivos à motocicleta.   O Crip chefe continua a incitá-los verbalmente para que prossigam e enxotando-os com as mãos na direcção de Raven.   Cada um deles tem um bastão, um detector de metais, daqueles portáteis.   Fazem girar os bastões em torno do corpo dele e nada encontram, nem a mais ínfima partícula de metal, nem mesmo moedas nos bolsos.   O homem está cem por cento orgânico.   Se mais não houver, o alerta de Lagos sobre uma tal faca de Raven parece tornar-se numa treta.

Estes dois Crips marcham rapidamente de volta para o grupo principal.   Raven começa a segui-los.   Mas o Crip líder dá um passo atrás e levanta ambas as mãos num movimento de ‘parar’.   Raven detém-se, aguarda aí, o sorriso trocista de regresso ao rosto.

O cabeça dos Crips gira nos calcanhares e faz um gesto para trás na direcção do seu BMW preto.   A porta de trás do BMW abre-se e um homem desce, um tipo mais novo e mais pequeno, preto, com óculos de aros redondos, vestindo jeans e uns ténis grandes e brancos, e com típico equipamento estudantil.

O ‘estudante’  caminha calmamente na direcção de Raven extraindo qualquer coisa do bolso.   É um aparelho de mão mas demasiado volumoso para ser uma calculadora.   Tem um teclado no topo e uma espécie de pequena janela numa das extremidades a qual o estudante mantém apontada para Raven.   Por cima do teclado há um visor LED – de díodos – e sob isso tudo temos uma lâmpada vermelha que se mantém a piscar.   O estudante traz colocado um par de auscultadores ligados à tomada existente no rabo daquele aparelho.

Agora, para começar, o estudante aponta a abertura para o chão, depois para o céu, e a seguir para Raven, mantendo o olho sobre a lâmpada vermelha intermitente e o visor LED.   Aquilo faz-nos sentir nalgum tipo de ritual religioso, aceitando o input – os feixes digitais – do espírito dos céus, e depois do espírito da terra, e depois daquele anjo negro ‘motard’.

Então começa ele a caminhar devagar para mais perto de Raven, um passo de cada vez.   Hiro consegue ver a luz encarnada a brilhar intermitentemente sem seguir qualquer padrão ou ritmo em especial.

O estudante chega-se a menos de um metro de Raven e principia então a orbitar em redor dele um par de vezes, mantendo sempre a janelinha do aparelho apontada para o centro.   Ao terminar, num repente recua e vira-a para a mota.   Quando o aparelho fica apontado para a motorizada a luz vermelha pisca agora muito mais rapidamente.

O estudante dirige-se até ao líder Crip retirando os fones da cabeça e troca com ele uma conversa rápida.   O Crip embora esteja a escutá-lo vai mantendo os olhos sobre Raven, anuindo com a cabeça umas poucas de vezes, e finalmente dá uma palmada amigável nos ombros do estudante enviando-o de volta ao BMW.

Aquilo era um contador Geiger.

 

Raven caminha até este Crip importante.   Apertam as mãos, um aperto de mãos standard, à europeia, sem qualquer variante engraçada.   Nem é sequer um autêntico encontro de amizade.   O Crip terá os olhos talvez um pouco abertos em excesso, Hiro até consegue reparar nos sulcos sobre os olhos, tudo na sua postura e face parece dizer ‘tirem-me daqui d’ao pé deste marciano’.

Raven regressa à sua montada radioactiva, solta alguns esticadores e pega numa mala executiva metálica.   Entrega-a ao Crip chefe e voltam a apertar as mãos.   Aí ele dá meia volta e devagar e calmamente regressa à mota, monta e brrum-puff-puff-poff-põe-se-n’alheta.

Hiro bem que gostaria de prolongar a estadia por ali à volta e observar mais alguma coisa mas ficou com a sensação de que Lagos tinha o acontecimento devidamente coberto.   E por outro lado ele tem outros assuntos a tratar.   Duas limusines lutam por abrir caminho entre aquela turba em direcção ao palco.

 

As limusines param e uns tipos nipónicos desembarcam.   Embrulhados em roupagem escura não fantasiosa, ficam por ali de uma maneira bizarra no seio daquela festa/tumulto como um punhado de unhas partidas em suspensão numa forma de gelatina colorida.   Finalmente Hiro arma-se em forte o suficiente para avançar e ir espreitar a uma das janelas, tentar descobrir se quem está ali é quem ele pensa ser.

Não consegue ver através do vidro fumado.   Debruça-se para encostar bem a cara à janela e tentando dar mesmo nas vistas.

Ainda sem qualquer resposta.   Finalmente, bate à vidraça.   Silêncio.   Olha para aquela comitiva que já saíra das viaturas.   Estão todos a observá-lo.   Mas quando olhou para eles desviam a atenção, como se de repente é que se lembrassem de puxar dos cigarros ou de coçar a sobrancelha.

Há uma única fonte de luz dentro da limusine suficientemente brilhante para ser visível através dos vidros fumados e que é sem sombra de dúvida o distinto rectângulo insuflado de um écran de televisão.

Que diabo.   Isto é a América.   Hiro é meio americano e não há nenhuma razão para levar toda esta boa educação a um extremo doentio.   Agarra a porta, escancara-a, e olha para o banco traseiro da limusine.

Aí está Sushi K sentado, enfeixado entre um par de outros nipónicos jovens, programadores na sua equipa de gestão de imagem.   O seu penteado encontra-se desactivado, portanto aquilo agora parece apenas uma cabeleira afro cor de laranja.   Já traz meio vestida a fatiota de palco contando aparentemente entrar em actuação hoje à noite.   Dá assim a impressão de ter considerado altamente e aceite a oferta de Hiro.

Encontra-se entretido a assistir a um bem conhecido programa de televisão chamado ‘Olho Espião’ – o tal Spy Eye.   É produzido pela CIC e adjudicado através de um dos maiores estúdios.   É TV da vida real: a CIC escolhe um dos seus agentes envolvidos numa operação de campo, violenta, uma situação verdadeiramente de ‘capa e espada’, e equipam-no com o arnês habitual de um gárgula, e assim tudo o que ele vê e ouve é transmitido para a sua base em Langley.   O material captado é depois editado em programas semanais de uma hora.

Hiro nunca vê aquilo.   Agora que trabalha para a CIC acha isso deveras aborrecido.   Mas tem apanhado alguns rumores sobre o programa e sabe que hoje exibem o penúltimo episódio de um ciclo de cinco.   A CIC conseguiu contrabandear um gajo para dentro da ‘Jangada’ onde está a tentar penetrar um dos muitos grupos sádicos e inflamados existentes a bordo – a associação de Bruce Lee.

Hiro introduz-se na limusine e deita um olhar à TV mesmo a tempo de ver o próprio Bruce Lee – observado do ponto de vista de um infortunado espião-gárgula, progredindo-se ao longo de um qualquer corredor húmido e frio num desses navios fantasmas da Jangada.   A condensação pinga da lâmina daquela espada de samurai empunhada por Bruce Lee.

“Os homens do Bruce Lee encurralaram o espião no interior de um velho navio-fábrica coreano situado no ‘Core’ – no núcleo da Jangada – diz um dos homens de mão de Sushi K numa explicação rápida ciciada – andam à procura dele agora.”

E de súbito Bruce Lee vê-se apanhado sob o feixe de um brilhante holofote que faz brilhar aquele esgar de diamante  - a sua imagem de marca – como o braço de uma galáxia.   No meio do écran um par de cabelos cruzados – o retículo de uma mira telescópica – move-se para vir fixar-se centrado sobre a testa de Bruce Lee.

Aparentemente o espião terá decidido abrir caminho à má fila para escapar dessa confusão e sacou algum sistema de armas poderoso desse arsenal da CIC para se haver agora com a caveira do Bruce Lee.   Mas aí, há qualquer coisa indistinta a surgir de um dos lados, uma misteriosa forma escura que tapa a nossa visão de Bruce Lee.   A mira está agora centrada em... – em quê, exactamente?...

Bem, teremos que aguardar até à próxima semana para descobrirmos.   Hiro senta-se no banco oposto de frente para Sushi K e para os programadores, ao lado do aparelho de TV, e assim tem ele agora uma ‘visão de TV’, de entrevistador, do homem.

“Sou o Hiro Protagonist.   Pelo que vejo, recebeste a minha mensagem.”

Fabul!” – grita Sushi K usando a abreviatura nipónica para ‘fabuloso’, o omnipresente adjectivo de Hollywood.

E ele prossegue – “Hiro-san, estou profundamente em dívida para consigo, por esta única chance de uma vez na vida, para exibir as minhas obras perante tal audiência” – toda a frase é dita em nipónico excepto a parte ‘chance de uma vez na vida’.

“Humildemente devo pedir desculpa por montar tudo isto de uma forma tão à pressa e quase à sorte” – diz Hiro.

“Magoa-me profundamente que sinta a necessidade de se desculpar quando me deu esta oportunidade, que qualquer rapper nipónico tudo daria por ela, a de actuar com as minhas humildes criações perante estes jovens dos gangs, dos guettos de L. A.

“Eu fico profundamente embaraçado por revelar que estes fãs não são propriamente malta dos guettos como poderei descuidadamente tê-lo levado a acreditar.   São ‘thrashers’ na maioria, esses andarilhos surfistas dos skates que gostam tanto de música rap como de heavy metal.”

“Ah.   Então também está fixe” – diz Sushi K.   Mas o seu tom de voz indica que no fundo não será tão fixe assim.

“Mas há aqui representantes dos Crips[15] – continua Hiro, raciocinando muito, muito rápido, mesmo pelos seus standards habituais – e se a tua actuação for bem recebida como estou praticamente seguro que será, eles tratarão de passar a mensagem através de toda a comunidade deles.”

Sushi K faz descer a vidraça.   O nível de decibéis quintuplica num instante.   Fixa o olhar sobre aquela multidão, cinco mil potenciais fatias de mercado, gente jovem plena de fantasias na mente.   Não escutam nunca nenhuma música que não seja perfeita, quer se trate de som digital optimizado em estúdio debitado pelos seus leitores de CD, ou fuzz-grunge afinado em palco, dos melhores do ramo - no fundo os agrupamentos que vieram para L. A. para criarem nome para si próprios e conseguiram sobreviver ao ambiente de combate gladiatorial dos clubes.

A face de Sushi K ilumina-se numa combinação de alegria e terror.   Agora é que na verdade tem que avançar mesmo para ali e actuar.   Perante uma fervilhante biomassa.

Hiro vai à frente desimpedindo-lhe o caminho.   É relativamente fácil.   E depois balda-se dali, está feita a sua parte.   Não há razão para ficar a perder tempo com esta coisa miudinha do Sushi K enquanto Raven anda por aí representando uma possível fonte de rendimento muito maior.   Portanto deambula de novo de retorno à periferia.

“Ôi, tu aí, oh bacano das espadas.”

Hiro volta-se para ver um Enforcer encasacado a verde movimentando-se na sua direcção.   É o pequeno e robusto, o que anda com o conjunto fones e micro à cabeça, o gajo encarregue da segurança do recinto.

“Squeaky” – apresenta-se, estendendo a mão.

“Hiro – diz Hiro, sacudindo-a e passando-lhe o seu cartão de visita.   Não há qualquer razão para ser acanhado com estes gajos – O que é que posso fazer por si Squeaky?”

Squeaky lê o cartão.   Aparenta um tipo de cortesia exagerado que é do tipo de alguém militar.   É calmo, maduro, como um modelo de treinador de futebol do liceu – “É você que está encarregue disto?”

“Na medida em que alguém pode estar” – retorque Hiro.

“Mr. Protagonist, recebemos há poucos minutos uma chamada de uma amiga sua chamada Y.T.”

“Qual é o problema?   Ela está bem?”

“Oh, sim, senhor, ela está perfeitamente bem.   Mas lembra-se daquele ‘bug’ – aquele bicharoco electrónico com quem esteve a falar antes?”

Hiro nunca tinha ouvido o termo ‘bug’ aplicado desta forma mas calcula que Squeaky estará a referir-se ao gárgula, a Lagos.

“Yeah.”

“Bem, há uma situação envolvendo esse cavalheiro e que Y.T. assim a modos que nos deu uma deixa.   Pensamos que talvez gostasse de dar uma espreitadela.”

“O que é que se passa?”

“Humm, porque é que não vem comigo.   Sabe, há certas coisas que é mais fácil mostrar do que estar a explicar verbalmente.”

E é quando Squeaky se volta que tem início a primeira canção rap interpretada por Sushi K.   A voz dele soa algo embargada e tensa.

 

I’m Sushi K and I’m here to say

Sou Sushi K e aqui’stou pra dizer

I like to rap in a different way

Dum modo diferente gosto de ser rapper

Look out Number One in every city

O ‘Número Um’ busco em cada cidade

Sushi K rap has all most pretty

O rap de Sushi K é de primeira qualidade

My special talking of remarkable words

A minha fala ímpar de palavras notáveis

Is not stereotyped bucktooth nerd

Não são estereótipos de dentuças intragáveis

My hair is big as a galaxy

O meu cabelo com as galáxias concorre

‘Cause I attain greater technology

P’que agarro tecnologia da maior

 

Hiro segue Squeaky distanciando-se da multidão, entrando na zona fracamente iluminada que confina com o abarracamento.   Por cima deles na encosta para o viaduto consegue distinguir com dificuldade as formas fosforescentes, os Enforcers de casacão verde orbitando algum estranho atractor.

“Cuidado com os pés – adverte Squeaky ao começarem a trepar ali pelo declive da barreira – Está escorregadio nalguns sítios.”

 

I like to rap about sweetened romance

Gosto de rappar sobre a adocicada paixão

My fond ambition is of your pants

As tuas calcinhas são a minha profunda ambição

So here is of special remarkable way

Portanto aqui está em modo porreiro

Of this fellow raps named Sushi K

Sushi K do rap, vosso companheiro

The Nipponese talking phenomenon

Fenómeno da comunicação japonesa

Like samurai sword his sharpened tongue

Como espada samurai tem a língua tesa

Who raps the East Asia and the Pacific

Que rappeia p’la Ásia do Leste e Pacífico

Prosperity Sphere, to be specific

Esfera da Prosperidade, para ser-se específico

 

É uma típica encosta inclinada cheia de poeira e cascalho que parece pronta a desabar por ali abaixo às primeiras chuvadas.   Cactos, salva e ervas enrodilhadas ponteiam aqui e ali, tudo aquilo parecendo uma confusão e meio morto pela poluição atmosférica.

Torna-se difícil ver qualquer coisa claramente pois Sushi K está lá em baixo aos saltos no palco e os brilhantes raios laranja do seu penteado solar varrem para cima e para baixo todo o declive a uma velocidade que parece supersónica, despejando aquela luz granulosa e esfarelada sobre ervas e pedras, a mergulhar o cenário numa sucessão de imagens paradas de alto contraste, descoloridas e misteriosas.

 

Samariman on subway listen

Samaritanos dos túneis, a atenção que dão

For Sushi K like nuclear fission

A Sushi K, é como nuclear fissão

Fire-breathing lizard Gojiro

O lagarto Gojiro, o que respira fogo

He me always big-time hero

Meu herói, ele se tornou logo

His mutant rap burn down whole block

O seu rap mutante incinera quarteirões

Start investing now Sushi K stock

Ganha com Sushi K, compra das suas acções

It on Nikkei stock exchange

Na Nikkei bolsa de valores elas crescem

Waxes; other rappers wane

Enquanto d’ outros rappers desvanecem

Best investment, make my day

O melhor investimento, o dia m’ alegra

Corporation Sushi K

Corporação Sushi K é a regra

 

Squeaky vai a direito embicado ao cimo da colina seguindo ao lado de uns rastos frescos de moto marcados profundamente ali naquele solo solto e amarelento.   Consiste de um sulco fundo com um outro mais estreito e que lhe corre paralelamente a um par de pés à direita.

Os sulcos tornam-se ainda mais enterrados conforme se aproximam do topo.   Mais fundos e escuros.   Aquilo agora vai-se parecendo cada vez menos com o rasto de uma motocicleta em terra solta e mais com um rego de drenagem para qualquer sinistro efluente negro.

 

Coming to America now

Vindos para a América agorinha

Rappers trying to start a row

Rappers tentam começar uma linha

Say ‘Stay in Japan, please, listen!

Digo ‘Por favor ouçam, fiquem no Japão

We can’t handle competition!’

Não aguentamos com tal competição’

U.S. rappers booing and hissin’

Rappers americanos bufam em histerismo

Ask for rap protectionism

Clamam para o rap proteccionismo

They afraid of Sushi K

Com medo de Sushi K agora

‘Cause their audience go away

P’que o público deles pode dar o fora

He got chill financial backin’

Suporte financeiro, muito guito

Give those U.S. rappers a smackin’

Aos rappers americanos manda um manguito

Sushi K concert machine

Sushi K e a sua máquina de concertos

Fast efficient super clean

Rápidos, eficientes, limpos e abertos

Run like clockwork in a watch

Certinho como no coração d’um relógio tens fé

Kick old rappers in the crotch

Nos tomates dos velhos rappers atiras um pontapé

 

 Um dos Enforcers no topo anda com uma lanterna.   Ao mover-se fá-la incidir na vertical contra o solo, varrendo-o e iluminando-o como uma lâmpada de busca.   Por um instante a luz reflecte-se do sulco da motorizada e Hiro apercebe-se de que o rego se tornou num verdadeiro regato vermelho brilhante de sangue oxigenado.

 

He learns English total immersion

Ele aprende inglês em total imersão

English / Japanese be mergin

Inglês e japonês a caminhar p’rá junção

Into super combination

Em toda uma super combinação

So can have fans in every nation

P’ra que haja fãs em qualquer nação

Hong Kong they speak English, too

Em Hong Kong também se fala inglês

Yearn of rappers just like you

São ansiosos por rappers tal como tu és

Anglophones who live down under

Anglófonos lá dos antípodas sul a tripar

Sooner later start to wonder

Cedo ou tarde começam a perguntar

When they get they own rap star

Quando têm a sua strela brilhante

Tired of rappers from afar

Fartos de rappers vindos de tão distante

 

Lagos está ali no solo escarrapachado sobre os trilhos da mota.   Aberto à faca que nem um salmão.   Um único corte acerado artisticamente executado que começa no seu ânus e corre por aí acima pelas entranhas e ao longo da linha média do esterno, e mais ainda, até alcançar a ponta do queixo.   Não é apenas um arranhão superficial.   Parece mergulhar até à espinha em alguns lugares.   As correias em nylon preto do arnês e que prendiam o sistema de computador ao corpo estão perfeitamente cortadas nos sítios em que cruzavam a linha média e metade do equipamento jaz caído também ali pelo meio do chão.

 

So I will get big radio traffic

Vou na rádio agarrar ganda tráfico

When you look at demographic

Se olhares p’ró aspecto demográfico

Sushi K research statistic

Sushi K no indicador estatístico

Make big future look ballistic

Vê o seu futuro em arranque balístico

Speed of Sushi K growth stock

O aumentar das acções de Sushi K é bacano

Put U.S. rappers into shock

Mete em choque o mundo rapper americano

 

17

Jason Breckinridge traz vestido um blazer cor de argila.   É a cor da Sicília.   Jason Breckinridge nunca esteve na Sicília.   Pode ser que consiga lá ir qualquer dia, como prémio.   De modo a conseguir tal cruzeiro grátis até à Sicília, Jason tem que acumular 10.000 desses tais pontos ‘Goombata’.   Neste concurso ele parte logo de uma posição favorável.   Ao abrir a sua própria franchise da Nova Sicília sai à partida automaticamente com 3.333 pontos registados em seu nome no ‘Banco de Pontuação Goombata’.   Juntemos a isto um Bónus de Cidadania – utilizável uma única vez – de 500 pontos, e o balanço da coisa começa a ser risonho.   O número total vai sendo acumulado no grande computador situado em Brooklyn.

Jason cresceu nos subúrbios do lado ocidental de Chicago, uma das mais densamente franchisadas regiões do país.   Frequentou a Faculdade de Economia da Universidade de Illinois arrancando uma GPA – média de pontos de graduação – de 2,9567 em 5, e elaborou uma tese sénior de graduação intitulada ‘A Interacção das Dimensões Etnográficas, Financeiras e Paramilitares da Competição em Certos Mercados’.   Este foi um ‘caso de estudo’ que incidiu sobre a disputa territorial entre franchises da Nova Sicília e da Narcolômbia no seu antigo bairro em Aurora.

Enrique Cortazar geria a franchise da Narcolômbia em franco naufrágio e sobre a qual Jason baseara o seu argumento.   Jason entrevistou-o algumas vezes ao telefone, brevemente, sem nunca se ter encontrado com Mr. Cortazar face a face.

E Mr. Cortazar celebrou a graduação de Jason com uma bomba incendiária na carrinha Omni Horizon dos Breckinridges, estacionada num parque, culminando o feito com o disparo de onze carregadores de munições de armas automáticas ao longo da fachada da casa.

Felizmente que Mr. Caruso, que geria o conjunto local dos franchisulados da Nova Sicília e que já andava na eminência de arrear as calças a Enrique Cortazar para uma sova, antecipadamente apanhou rumores sobre estes ataques.   Provavelmente interceptando sinais de informação electrónica da frota de telefones celulares e rádios CB pertencentes a Mr. Cortazar, tudo com uma pobre segurança de rede.   Conseguiu assim avisar a tempo a família de Jason e quando todas essas balas voaram pela casa adentro no meio da noite, estavam eles a divertir-se com um champanhe complementar numa ‘Estalagem Velha Sicília’ cinco milhas à frente na Auto-Estrada 96.

Naturalmente quando a Faculdade E – a de Economia – leva a cabo a sua feira de empregos de fim do ano lectivo, Jason fez questão em dar um giro pelo stand da Nova Sicília para agradecer a Mr. Caruso a atenção em tê-los salvo a todos, a ele e à família, daquela morte certa.

“Hei!   Jasie boy!   Isto foi como que um favorzeco entre vizinhos, ‘tá?” – diz Mr. Caruso dando-lhe uma palmada sonora entre as omoplatas e praticamente espremendo-lhe aqueles deltóides quase do tamanho de meloas.   Jason já não dava nos esteróides em tanta quantidade como quando tinha quinze anos mas mesmo assim mantinha-se em grande forma.

Mr. Caruso era de Nova Iorque.   E na Feira de Empregos tinha um dos stands mais populares.   Estava ali num grande espaço de exposição, na ‘União’.   O hall fora desenhado como uma imaginária estrutura viária.   Duas ‘auto-estradas’ dividiam-no em quadrantes e todas as franchises de companhias e nacionalidades tinham os seus pavilhões ao longo das auto-estradas.   Segurbúrbios e outras firmas tinham stands meio escondidos por entre as ‘ruas’ suburbanas no interior dos quadrantes.   O stand da Nova Sicília de Mr. Caruso ficava mesmo no cruzamento das duas auto-estradas.

Dúzias de finalistas graduados pela Faculdade E encarreiravam aí aguardando a entrevista mas Mr. Caruso reparou em Jason no meio da linha e foi lá directamente pescá-lo da fila agarrando-o pelos deltóides.   Todos os outros graduados da Faculdade E a olharem invejosamente para Jason.   E isto fez Jason sentir-se na maior, realmente especial.   Foi o sentimento com que ficou sobre a Nova Sicília: atenção personalizada.

“Bem, estava cá à espera de ser entrevistado, aqui e na ‘Hong Kong Maior de Mr. Lee’ porque estou mesmo interessado em alta-tecno” – diz Jason em resposta à inquirição paternal feita por Mr. Caruso.

Mr. Caruso arreia-lhe depois uma valente espremidela verbal.   A sua voz dizia que se sentia dolorosamente surpreso mas que não ficaria propriamente a considerá-lo menos por isso, de qualquer modo – “Hong Kong?   Porque é que iria um puto branco e esperto como tu meter-se na porra de uma operação dos ‘Japs’?”

“Bem, tecnicamente eles não são Japs – a abreviatura para japoneses, explica Jason – a ‘Hong Kong’ tem uma predominância cantonesa...”

“São todos japs – insistia Mr. Caruso – e sabes porque é que digo isso?   Não por ser um racista lixado, porque o não sou.   Porque para eles – para toda essa gente, sabes, os japs, nós todos somos os ‘diabos estrangeiros’.   É o que nos chamam.   ‘Diabos estrangeiros’.   O que é que achas disto?”

Jason limitou-se a rir apreciativamente.

“Depois de tudo o que de bom fizemos por eles.   Mas aqui na América, Jasie boy, somos todos ‘diabos estrangeiros’ né verdade?   Todos viemos de algum lugar, ‘cepto a porra dos’índios.   Mas não vais a nenhuma entrevista lá na Nação Lakota, pois não?”

“Não, sir, Mr. Caruso” – diz Jason.

“Um raciocínio bom.   Concordo com isso.   Mas estou a desviar-me da questão principal que é a de que uma vez que todos nós possuímos a nossa própria identidade étnica e cultural, específicas, únicas, temos que arranjar um emprego com uma organização que seja o garante, que respeite de forma única e procure preservar essas identidades específicas, forjando-as numa unidade funcional, percebes?”

“Sim, vejo o seu ponto, Mr. Caruso” – diz Jason.

Por esta altura Mr. Caruso já o arrastou uma certa distância e deambula com ele por uma dessas metafóricas ‘Auto-Estradas d’Oportunidades’.   “E agora, consegues pensar nalguma dessas organizações de negócios que vão de encontro à porra dess’objectivo, Jasie boy?”

“Bem...”

“Não a porra da ‘Hong Kong’.   Essa é para malta branca que quer ser ‘jap’ mas não pode, sabias disso?   Não queres ser um jap, queres pá?”

“Haa, haa.   Não, sir, Mr. Caruso.”

“Sabes q’ é q’ ouvi?” – Mr. Caruso liberta-o, voltou-se entretanto e pôs-se junto dele, peito a peito, o charuto riscando o ar numa tangente ao ouvido de Jason como uma flecha incandescente, conforme gesticulava.   Esta era a parte confidencial do bate-papo, como uma curta anedota entre dois homens.   “No Japão, se lixas um esquema, com’ é?   Aparam-t’um dos dedos.   Como no talho.   Chop.   Tal e qual.   Deus sabe que é assim.   Não me acreditas?”

“Sim, acredito em si.   Mas isso não é com todo o Japão, sir.   Só com os da Yakuza.   A Máfia Japonesa.”

Mr. Caruso mandou a cabeça para trás e ria-se, pôs o braço de novo à volta dos ombros de Jason.   “Sabes q’ eu gramo de ti, Jason, a sério – diz ele – A Máfia Japonesa.   Diz-me lá uma coisa, Jason, já ouviste alguma vez alguém descrever a nossa coisa como a ‘Yakuza Siciliana’?   Huh?”

E Jason ria-se – “Não, sir.”

“E sabes porq’é q’isso acontece?   Sabes?” – Mr. Caruso chegou à parte séria e significativa do seu sermão.

“Porquê q’é assim, sir?”

Mr. Caruso fê-lo girar à volta de modo a que ambos estavam agora a olhar ao longo da ‘auto-estrada’ para a alta efígie do Uncle Enzo erguendo-se sobre o cruzamento como a Estátua da Liberdade.

“ ‘que há só uma, filho.   Apenas uma.   E tu podes ser parte dela.”

“Mas há tanta concorrência...”

“O quê?   Ouve-me isto!   Graduaste-te com três pontos de média!   Tu é que vais dar pontapés nos traseiros dos outros, mandar, filho!”

Mr. Caruso, como qualquer outra franchise, tinha acesso à TurfNet – a ‘rede de territórios’, um serviço de múltiplas listagens que a Nova Sicília usava para entre outras coisas se manter a par daquilo a que se chama ‘zonas de oportunidades’.   Volta a trazer Jason até ao stand, passando mesmo rente àqueles pobres coitados ainda ali à espera em fila – Jason a gramar mesmo daquilo à brava – e trata de fazer a ligação à tal rede.    Tudo o que Jason tinha que fazer era escolher uma região.

“Tenho um tio que é dono de um ‘compra e venda’ de automóveis no sul da Califórnia – diz Jason – e como sei que é uma área em rápida expansão, e...”

“Plena de ‘zonas de oportunidades’!” – completava Mr. Caruso martelando teatralmente pelo teclado fora.   Fez rodar o monitor para mostrar a Jason um mapa da área de L. A. incendiado a borrões vermelhos nas zonas que representavam sectores ainda não reclamados.   “Faz a tua escolha Jasie boy!”

 

Agora Jason Breckinridge é o gerente da Nova Sicília # 5328, no Valley de L.A.   Todas as manhãs põe o blazer jeitoso dessa cor de terracota e conduz o seu Oldsmobile até ao trabalho.   Resmas de jovens empresários prefeririam estar ao volante de BMWs ou Acuras, mas a organização da qual Jason é agora parte integrante premeia os valores da tradição e da família e não vai muito com essas espampanantes importações do estrangeiro.   “Se um carro americano é suficientemente bom para Uncle Enzo...”

O blazer de Jason ostenta o logotipo da Máfia bordado sobre o bolso do peito.   Um ‘G’ foi adicionado ao logotipo, significando Gambino, que é a divisão que trata das contas ali na Bacia de L. A.   E depois há ainda o nome dele escrito por baixo: ‘Jason (O Musculador) Breckinridge’.   Essa é a alcunha que ele e Mr. Caruso escolheram há um ano atrás naquela Feira de Empregos, em Illinois.

Todos têm que ter uma alcunha, é uma tradição e nota de orgulho, e gostam é que escolhas um nome que diga algo sobre ti.

Como gerente de um dos escritórios locais o trabalho de Jason é o de repartir as diversas tarefas pelos vários adjudicatários na zona.   Todas as manhãs estaciona em frente o seu Oldsmobile e entra no escritório de uma forma esquiva, rapidamente, através do umbral blindado, numa tentativa de iludir os eventuais snipers – os franco-atiradores - Narcolombianos.   Isto não evita que eles de vez em quando tentem os seus ocasionais disparos à balda contra o enorme placard do ‘Uncle Enzo’ que se eleva ali sobre a franchise, mas estes anúncios aguentam uma boa porra destes abusos antes de começarem a parecer esburacados.

Uma vez seguro no interior Jason liga-se e identifica-se na TurfNet.   Uma lista de tarefas para o dia emerge e corre automaticamente pelo écran.   Tudo o que Jason tem a fazer é encontrar os concessionários, os tarefeiros para se encarregarem de cada um dos trabalhos antes do regresso a casa à noite, ou então ser ele próprio a tratar do assunto.   De uma ou outra maneira têm que ser feitos.   A grande maioria dos trabalhos são simples entregas que ele concede aos Korreios para realizar.   E depois há aquelas séries de cobranças de devedores delinquentes e de franchises que dependem da Nova Sicília nos seus esquemas de segurança.   Se se trata de um primeiro aviso Jason gosta de aparecer ele em pessoa, para marcar posição, para salientar que a sua organização tem mesmo uma faceta pessoal e de ‘tête a tête’ no tratamento das questões e empregando toda uma microgestão no que diz respeito a assuntos de débitos.   Se é uma segunda ou terceira vez que se emite o ‘aviso’, em geral celebra um contrato com os Deadbeaters International – (a Anticalotes Internacional) - uma agência de cobranças de elevado impacto com cujo trabalho ele tem ficado sempre satisfeito.   E depois há ainda o ocasional Código H.   Jason odeia lidar com esses Códigos H, vê-os como sintomas de ruptura de um sistema de mútua confiança que faz a sociedade funcionar.   Mas estes usualmente são geridos directamente a nível regional, e tudo o que resta a Jason efectuar é a gestão desses rescaldos e o endireitar das coisas.

Esta manhã Jason parece particularmente airoso, o Oldsmobile recém lavado e polido.   Antes de entrar recolhe até um par de invólucros de hamburguers ali do estacionamento – que se lixem os snipers.   Ouviu dizer que o Tio Enzo está hoje na região e nunca se sabe quando é que ele aparece com a sua frota de limusines e carros de guerra numa franchise vizinha e irrompe até mesmo por aí para um aperto de mão a todos, à soldadesca.   Sim, Jason vai quedar-se por cá a trabalhar noite adentro, ter as coisas em andamento, até receber informação de que o avião de Uncle Enzo está já devidamente fora da área.

Liga-se então à TurfNet.   Uma lista de tarefas desliza como habitualmente, não uma lista muito extensa.   A actividade interfranchise está hoje reduzida conforme todos os gerentes locais se ocupam a preparar, polir e a inspeccionar as coisas na expectativa de uma chegada de Uncle Enzo.   Mas um dos trabalhos desponta ali em letras vermelhas – uma tarefa prioritária.

Os trabalhos prioritários são um pouco raros.   Um sintoma de uma má moral e de derrapagem geral.   Cada um dos trabalhos deverá ser um trabalho prioritário.   Mas vezes demais há qualquer coisa que, absolutamente, não pode ser atrasada ou lixada.   Um gerente local como Jason não pode classificar um trabalho como prioritário, a ordem tem que vir de um escalão superior.

Habitualmente quando se trata de trabalho prioritário é porque temos um Código H.   Mas Jason nota com alívio que esta é uma simples entrega.   Alguns documentos vão ter que ser levados em mão deste escritório até à Nova Sicília # 4649 que fica a sul da baixa.

Para sul.   Compton.   Uma zona de guerra, há muito uma praça forte de Narcolombianos e de pistoleiros Rastafaris.

Compton.   Que diabo, porque é que um escritório em Compton precisa de  uma cópia pessoal autenticada dos seus registos financeiros?   Deviam era ocupar o seu tempo todo a executar Códigos H sobre a concorrência ali na região.

Com efeito existe um grupo extremamente activo da Juventude Máfia num dos quarteirões de Compton que acaba de conseguir correr com todos os Narcolombianos e tornar a zona num bairro da Sentinela Máfia.   As velhotas voltam a poder andar pelas ruas.   As crianças esperam pelos autocarros escolares e jogam à macaca pelos passeios que até há pouco se encontravam manchados de sangue.   É um exemplo óptimo.   Se pode ser feito neste quarteirão pode ser conseguido em toda a parte.

E com efeito Uncle Enzo lá estará para felicitá-los a todos pessoalmente.

Esta tarde.

E a # 4649 irá ser o seu quartel-general temporário.

As implicações são tremendas.

Foi dado a Jason um trabalho prioritário, para entregar os seus registos precisamente à franchise onde Uncle Enzo vai estar a tomar esta tarde o seu  cafézinho expresso!

Uncle Enzo está interessado nele.

Mr. Caruso alegava ter ligações lá no topo, mas quem diria que chegassem tão alto?

Jason senta-se na sua cadeira giratória em cores a condizer, um tom terroso, considerando a possibilidade bem real de em poucos dias estar a dirigir toda uma região – ou ainda melhor.

Uma coisa é certa – esta não é uma entrega para ser confiada a qualquer Korreio, a um punk sobre skates.   Jason vai ele próprio trotar no Oldsmobile até Compton entregar a coisa.

18

Está lá uma hora mais cedo sobre o previsto.   Estava a apontar aquilo para meia hora de avanço mas uma vez que começa a levar com aquela atmosfera de Compton – ouvira histórias sobre o sítio, claro, mas meu Deus – põe-se a guiar que nem um maníaco.   Franchises baratas e emporcalhadas, e todas tendem a adoptar aqueles mesmos logos com uma porrada de amarelo brilhante e horrível, e assim a Alameda Street destaca-se bem à frente dele como um pingo de urina radioactiva ejectada para sul daquele centro morto de L.A.   Jason coloca-se mas é ao meio da via sem ligar a linhas contínuas e a luzes vermelhas e põe prego a fundo.

Muitas das franchises estão assim marcadas nesse amarelo e são operações que decorrem no-lado-errado-da-via, como a Uptown, Narcolômbia, Cayman Plus, Metazania e a Em Cana.   Mas sobressaindo deste pântano como ilhas sólidas estão os franchisulados da Nova Sicília – testas de ponte do esforço da Máfia em defrontar a força esmagadora da Narcolômbia.

Montes de porcarias que nem as Em Cana seriam capazes de comprar, tendem a ser adquiridas por essa malta de visão económica apertada, os novos ‘três-anilhas’, gestores que acabam de estoirar um milhão de ienes para uma licença na Narcolômbia e que precisam é de comprar algum terreno, qualquer terreno em que possam meter uma vedação à volta e torná-lo extraterritorial.   Estes franchisulados locais enviam a maior parte da massa para Medellín, em taxas de franchising, e com pouco mais ficam para cobrir as despesas correntes.

Alguns deles tentam defraudar o esquema, surripiar umas poucas de notas para o bolso quando pensam que a câmara de segurança não está a observar, e correm para o outro lado da rua até ao mais próximo franchisulado da ‘Cayman Plus’ ou dos ‘Alpes’ que pululam nestas áreas como moscas sobre uma carcaça morta na estrada.   Mas esta gente muito rápido aprende que na Narcolômbia quase tudo é uma ofensa capital e não se pode falar na existência de um sistema judicial, apenas ‘esquadrões de justiça’ volantes que têm o direito de irromper pelo teu franchisulado a qualquer hora do dia ou da noite e ‘faxar’ os teus registos para aquele infame e picuínhas computador em Medellín.   Nada é mais estúpido do que porem-te à frente de um pelotão de fuzilamento ali contra a parede traseira do negócio que construíste com as tuas próprias mãos.

Uncle Enzo calcula que com o ênfase da Máfia em relação à lealdade e aos valores familiares tradicionais, podem angariar uma quantidade destes empresários antes que se tornem cidadãos narcolombianos.

E isso explica os cartazes que Jason vai vendo com crescente frequência ao rodar Compton adentro.   A face sorridente de Uncle Enzo parece olhar-nos de cada esquina.   Tipicamente surge com o seu braço à volta dos ombros de um miúdo negro, novinho, com aspecto de estar bem tratado, e por cima há sempre um slogan – ‘A Máfia – Na Família Tu Tens Um Amigo!’   E ‘Relax – Está A Entrar Numa Zona Sob Protecção da Sentinela Máfia!’  E ‘Uncle Enzo Perdoa e Esquece’.

Esta última em geral acompanha uma foto de Uncle Enzo com o braço ao redor dos ombros de um jovem qualquer, como estando a dar uma reprimenda firme de tio para sobrinho.   É uma alusão ao facto de que, ao contrário, tanto colombianos como jamaicanos resolvem as coisas a matar tudo e todos.

‘ASSIM NÃO, JOSÉ!’   Neste aqui Uncle Enzo ergue uma mão para travar um escumalha hispânico que empunha uma Uzi; atrás dele vê-se uma falange pan-étnica de miudagem e avózinhas segurando resolutamente em tacos de baseball e frigideiras.

Oh, claro, os narcolombianos mantêm ainda o negócio das folhas de coca mas agora que os laboratórios da Nippon Pharmaceuticals têm aquelas enormes instalações de cocaína-sintética em Mexicali quase concluídas, isso deixará de ser um factor.

A Máfia aposta que qualquer jovem esperto metendo-se no negócio nos tempos que correm prestará atenção a estes cartazes e pensará duas vezes.   Porquê acabar sufocado nas próprias entranhas à mostra, nas traseiras de um qualquer ‘Buy ‘n’ Fly’ quando em vez disso podes envergar um fixe blazer terracota e tornares-te parte de uma jovial família?   Especialmente agora que eles têm ‘capos’ negros, hispânicos e asiáticos, que respeitarão a tua identidade cultural?   A longo prazo Jason ver-se-á valorizado na ‘Mob’ – a Máfia.

O seu Oldsmobile preto torna-se na porra de uma mouche num local como este.   É a pior coisa que ele já viu, Compton.   Leprosos a assar cães em espetos sobre banheiras de querosene inflamado.   Sem abrigo a empurrarem carrinhos de mão repletos de montes - empapados e ainda a escorrer - de notas de milhão e de bilião de dólares que andaram a ancinhar nos esgotos dos colectores da chuva.

Carcaças atropeladas – carcaças enormes – carcaças tão grandes que aquilo só pode ser de seres humanos, juncam o solo em amontoados redondos ao longo de um quarteirão.   Barreiras de estrada a arder nas principais avenidas.   Neste local não há qualquer franchise.

O Oldsmobile continua a abrir.   Jason nem consegue pensar no que aquilo é até que verifica que há gente a disparar sobre ele.   Foi uma boa coisa ter deixado o seu tio dar-lhe aquela recomendação para tornar o carro totalmente blindado!   Quando descobre isso é que na verdade se excita.   Isto é que é, homem!   Ele aqui a guiar com este seu Olds’ e os bastardos a dispararem sobre ele, e não há preocupações!

Já na zona da franchise, todas as ruas encontram-se bloqueadas por carros de guerra da Máfia num círculo de três quarteirões em redor.   Há homens emboscados no alto de ruínas calcinadas, armados com enormes espingardas de quase dois metros e metidos em blusões pretos com Máfia escrito nas costas, letras fosforescentes com 5 polegadas de altura.

Então é isto homem, a merda a sério.

Chegando-se ao posto de controle repara que o seu Olds’ está escarranchado sobre uma mina claymore – de sopro dirigido - anti-pessoal e portátil.   Se ele for o gajo errado aquilo fica transformado num donuts de aço.   Mas ele não é o gajo errado.   Ele até é o gajo que querem ali.   Com um trabalho prioritário, uma pilha de documentos no assento ao lado, bem embrulhados e arranjados.

Faz baixar a janela e um guarda da Máfia de escalão superior prega-lhe com o scanner de retina.   Nada dessa treta de ver cartões de identidade.   Num microssegundo ficam a saber quem ele é.   Recosta-se contra o apoio para a cabeça e roda o retrovisor, agora pode ver-se bem de frente, para verificar o cabelo.   Não está mau.

“Oh amigo – diz o guarda – não te tenho aqui na lista.”

“Estou, sim – diz Jason – numa entrega prioritária.   Tenho os papéis mesmo aqui.”

E dá uma cópia em papel da ordem de trabalho da TurfNet ao guarda que olha para ela, grunhe e dirige-se ao seu carro de guerra que se encontra ricamente enfeitado de antenas.

Uma muito, muito longa espera.

Aproxima-se um homem a pé caminhando através daquela imensa área aberta entre a franchise da Máfia e ali o perímetro.   Esse parque de estacionamento vazio é uma selva de tijolos carbonizados e cabos eléctricos retorcidos mas este cavalheiro caminha por ali como Cristo sobre o Mar da Galileia.   O seu fato é de um preto perfeito.   Assim como o cabelo.   Não traz quaisquer guardas com ele.   O perímetro de segurança é suficientemente bom.

Jason repara que todos os guardas ali no posto continuam de pé mas um pouco mais direitos, ajustando as gravatas, alisando os punhos das mangas.   Jason quer sair do seu Oldsmobile beliscado pelas balas de forma a mostrar o devido respeito a quem quer que seja este gajo mas não consegue abrir a porta, há aqui mesmo um guarda enorme encostado, a usar o tejadilho como espelho.

E, demasiado rápido até, o homem está ali.

“É este?” – diz a um dos guardas.

O guarda mira Jason por um par de segundos como se nem quisesse acreditar nisto, e olha então para o tipo importante em fato preto anuindo com a cabeça.

O homem de fato preto devolve o assentimento, estica também os punhos um pouco e observa em redor por alguns momentos de cenho franzido, verificando os snipers lá em cima nos telhados, olhando para todos os sítios menos para Jason.   E então dá mais um passo à frente.   Um dos seus olhos é de vidro e não aponta na mesma direcção do outro.   Jason pensa que ele está a olhar para qualquer outro sítio.   Mas ele olha é para Jason com o seu olho bom.   Ou talvez não esteja.   Jason não consegue discernir qual dos olhos é o verdadeiro.   Estremece e retesa-se como um cãozinho metido num potente congelador.

“Jason Breckinridge” – diz o homem.

O Musculador” – Jason relembra-lhe a alcunha.

“Calado.   Até ao fim desta conversa não diz mais nada.   Quando lhe disser o que fez de errado, nem diga que lamenta porque sei que está desde já a lamentá-lo.   E quando for a guiar daqui para fora vivo, nem m’agradeça por estar vivo.   Nem sequer se despeça de mim.”

Jason faz que sim com a cabeça.

“Nem sequer quero que acene que sim, basta isso para me chatear.   Limite-se a ficar quieto e boca calada.   Okay, aqui vai – Nós demos-lhe esta manhã um trabalho prioritário.   Tremendamente fácil.   Tudo o que tinha a fazer era ler a porra da folha explicativa.   Mas você nem sequer a leu.   Resolveu tomar a coisa em mãos para efectuar você próprio a porra da entrega.   O que a folha anexa dizia explicitamente para não fazer.”

Os olhos de Jason piscam na direcção daquele monte de documentos sobre o assento.

“Isso é caca – diz o homem – não queremos para nada a porra desses documentos.   Nem sequer nos importamos consigo ou com a porra dessa sua franchise perdida no meio de nenhures.   Tudo o que queríamos era a Korreio.   A folhinha de trabalho dizia que esta entrega era suposto ser executada por uma Korreio específica que actua na sua área, de nome Y.T.   Uncle Enzo, acontece que ele nutre uma simpatia pela Y.T.   Pretende encontrar-se com ela.   Agora, por você ter estragado o esquema, Uncle Enzo não pode ver o seu desejo cumprido.   Oh, que consequência terrível.   Que embaraço.   Que porra incrível, é o que é.   É tarde demais para salvar a tua franchise, Jason ‘O Musculador’, mas poderá não ser demasiado tarde para impedir as ratazanas do esgoto de te comerem os mamilos ao jantar.”

19

“Isto não foi feito com uma espada” – diz Hiro.   Está para além do ponto de se sentir atónito, ali imóvel a fixar o cadáver de Lagos.   Todas as emoções virão provavelmente depois em catadupa, quando chegar a casa e tentar dormir.   Por agora, a parte pensante do seu cérebro parece dissociada do corpo como se tivesse acabado de ingerir uma grande quantidade de drogas e mantém-se tão frio como Squeaky.

“Oh, sim?   Como é que pode afirmar isso?” – diz Squeaky.

“As espadas dão golpes rápidos, curtos, e que atravessam completamente.   Como o decepar de um braço, ou cortar-se a cabeça.   Uma pessoa morta à espada não tem este aspecto.”

“A sério?   Já matou uma porção de gente à espada, Mr. Protagonist?”

“Sim.   No Metaverso.”

E por um longo momento continuam ali a admirarem aquilo.

“Isto não se parece com um movimento em velocidade.   Tem antes o aspecto de um gesto de força” – diz Squeaky.

“Raven é bastante forte.”

“Lá isso é verdade.”

“Mas não penso que transportasse qualquer arma.   Os Crips haviam-no revistado antes e ele estava limpo.”

“Bem, entretanto terá arranjado uma emprestada – diz Squeaky – Este ‘bug’ andava por aqui pela zona toda, como sabe.   Estávamos de olho nele pois tínhamos receio que ele fosse chatear o Raven.   Manteve-se a andar por aí à procura de um sítio vantajoso.”

“Está carregado com equipamento de vigilância – diz Hiro – Quanto mais alto trepasse no terreno melhor trabalhava.”

“E assim acabou por vir dar aqui a esta encosta.   E aparentemente o criminoso sabia onde é que ele se encontrava.”

“A poeira – diz Hiro – observe os lasers.”

Lá em baixo Sushi K faz umas piruetas espasmódicas conforme uma garrafa de cerveja ressalta da sua testa.   Um feixe de lasers varre pela encosta, visível claramente na fina poeira carregada pelo vento.

“Este gajo – este ‘bug’ – estava a usar lasers.   Logo que chegou cá acima...”

“Eles traíram-lhe a posição” – diz Squeaky.

“E então Raven veio atrás dele.”

“Bem, não estamos a dizer que é ele – diz Squeaky – Mas preciso de saber se esta personagem – indica com um movimento de cabeça o cadáver – poderá ter feito algo que tenha levado Raven a sentir-se ameaçado.”

“O que é isto, terapia de grupo?   Quem é que quer saber se Raven se sente ameaçado?”

“Eu” – diz Squeaky categoricamente.

“Lagos era apenas um gárgula.   Um grande ‘aspirador’ de Informação.   Não penso que andasse em ‘wet operations’ – operações de eliminação – e se o fizesse não seria neste preparo.”

“Então porque é que pensa que Raven se sentiria tão agitado?”

“Imagino que não gostasse de estar sob vigilância” – diz Hiro.

“Yeah – diz Squeaky – É disso que se deve lembrar.”

Squeaky coloca agora uma mão sobre o ouvido, o melhor a fazer para conseguir escutar as vozes que lhe chegam pelo conjunto transmissor que traz à cabeça.

“A Y.T. viu isto a acontecer?” – diz Hiro.

“Não – murmura Squeaky uns segundos depois – Mas viu-o a abandonar a cena.   Ela está a segui-lo.”

“Porquê quererá ela fazer isto!?”

“Imagino que você lhe tenha pedido, ou coisa do género.”

“Não pensei que saísse daqui a persegui-lo.”

“Bem, ela não sabe que ele assassinou este gajo – diz Squeaky – limitou-se a telefonar ao avistá-lo, ele dirige-se na sua Harley para Chinatown.”   E começa a trepar o resto da encosta.   Um par de viaturas dos Enforcers encontram-se estacionadas na berma da auto-estrada lá em cima, à espera.

Hiro continua a acompanhá-lo.   As pernas estão incrivelmente em forma derivado da luta de espadas e consegue apanhar Squeaky na altura em que este chega ao carro.   Quando o condutor destranca os fechos eléctricos das portas Hiro enfia-se para o banco de trás ao mesmo tempo que Squeaky trepa para o da frente.   Com um olhar cansado Squeaky volta-se para ele.

“Sei comportar-me” – diz Hiro.

“Só uma coisa...”

“Já sei.   Não me meter com a porra do Raven.”

“É isso mesmo.”

Squeaky prolonga aquele olhar por mais um segundo e torna-se a virar para a frente, dá sinal ao condutor para arrancar.   Impacientemente rasga uns três metros da tira de papel debitada pela impressora embutida ali no painel fronteiro e começa a vasculhar por ela abaixo.

Hiro consegue perceber múltiplas imagens - nessa longa faixa impressa – são daquele Crip mais importante, o tipo com a barbicha de chibo com quem antes Raven estivera a negociar.   Ali na printagem ele surge rotulado como ‘T-Bone Murphy’.

Há também uma imagem de Raven.   É uma foto dele em movimento, não uma dessas das fichas de polícia.   De uma qualidade terrível.   Foi conseguida através de qualquer instrumento óptico de amplificação de luz que desvanece a cor e faz tudo parecer incrivelmente granuloso e de baixo contraste.   E é como se tivesse sofrido um processamento de imagem, de forma a torná-la mais distinta, o que também lhe deu mais grão.   A placa de matrícula é uma mancha chata e difusa esmagada pelo clarão da lâmpada traseira.   A inclinação é grande, a roda do sidecar erguida alguns centímetros do chão.   Mas o condutor não tem qualquer pescoço visível; a cabeça, ou antes, o borrão escuro que aí está, apenas alarga mais e mais até se fundir aos ombros.   Definitivamente é Raven.

“Como é que tem aí fotos desse T-Bone Murphy?” – diz Hiro.

“Ele está a persegui-lo” – diz Squeaky.

“Quem é que anda a perseguir quem?”

“Bem, a sua amiga Y.T. não é nenhum Edward R. Murrow.   Mas tanto quanto podemos dizer dos relatos dela, eles foram avistados na mesma área a tentarem matar-se um ao outro” – diz Squeaky.   Fala naqueles tons distantes e lentos de alguém a receber actualizações em directo pelos auscultadores.

“Eles estavam a fazer os dois, antes, um negócio qualquer” – diz Hiro.

“Portanto não estou muito surpreso que estejam agora a tentarem-se matar.”

 

Uma vez chegados a uma certa parte da cidade, seguir aquele espectáculo do T-Bone e do Raven tornou-se numa questão simples, um jogo de ir-ligando-as-ambulâncias.

Em cada par de quarteirões há um cacho de agentes e médicos, luzes a faiscar, rádios tossindo.   Tudo o que têm a fazer é seguirem de um para o seguinte.

No primeiro, há um Crip morto jazendo sobre o pavimento.   Uma mancha de sangue de dois metros de largo escorre do corpo diagonalmente pela rua até ao escoadouro pluvial.   O pessoal da ambulância permanece em redor fumando e tomando café em copos descartáveis à espera que os Enforcers terminem com as medições e fotografias, para que possam carregar o cadáver para a morgue.   Não há tubos IV[16] por ali estendidos, nem os habituais pedaços de tralha médica espalhados pelo local, estojos de primeiros socorros abertos; nem sequer tentaram.

Prosseguem volteando mais um par de esquinas até à constelação seguinte de luzes relampejantes.   Aqui a tripulação da ambulância está a insuflar uma protecção envolvendo a perna de um MetaGuarda.

“Atropelado pela mota” – diz Squeaky, abanando a cabeça com o tradicional desdém Enforcer pelos seus patéticos ‘primos’ juniores, os MetaGuardas.

Finalmente ele liga o som do seu rádio ao painel da viatura de modo a que todos possam escutar.

O rasto do motociclista arrefeceu agora e dá ideia de que a maior parte da bófia local está a tratar desses problemas de rescaldo.   Mas um cidadão acaba de telefonar a queixar-se de um homem numa moto e várias outras pessoas que andam a despedaçar uma plantação de lúpulo no quarteirão deles.

“A três quarteirões daqui” – diz Squeaky para o condutor.

“Lúpulo?” – diz Hiro.

“Conheço o lugar.   Uma microcervejeira local – diz Squeaky – Cultivam o seu próprio lúpulo.   Contratam para isso alguns jardineiros urbanos – camponeses chineses que tratam do trabalho javardo p’ra eles.”

 

Quando chegam, são até os primeiros da autoridade ali no local, é óbvio porque é que Raven decidiu deixar-se caçar num campo de lúpulo – uma cobertura porreira.   O lúpulo consiste em pesadas e florescentes trepadeiras que crescem em ripas agrupadas ao longo de estacas de bamboo.   As ripas atingem os dois metros e meio de altura e não se vê nada através daquilo.

Descem todos do carro.

“T-Bone?” – berra Squeaky.

Ouve alguém a gritar em inglês do meio da plantação - “Por aqui!” – mas não está a responder ao Squeaky.

Avançam para o interior do campo de lúpulo.   Cuidadosamente.   Há por ali um aroma envolvente, um odor resinoso não muito diferente do da marijuana, o cheiro distinto que emana de uma cerveja cara.   Squeaky faz sinal a Hiro para que se mantenha atrás dele.

Noutras circunstâncias Hiro faria isso.   Ele é meio japonês e sob certas circunstâncias totalmente acatador da autoridade.

Esta não é uma dessas circunstâncias.   Se Raven se chegar a algum ponto próximo de Hiro, Hiro vai mas é ‘falar’ com ele com a sua katana.   E se a coisa chegar a isso, Hiro não quer Squeaky por perto pois pode pô-lo sem algum membro com o recuo em arco da espada.

“Ôi, T-Bone – grita Squeaky – É os Enforcers, e estamos lixados contigo!   Trata de saíres daí, homem, foda-se.   Vamos para casa!”

T-Bone, ou Hiro assume que seja T-Bone, responde apenas disparando uma curta rajada de pistola-metralhadora.   O clarão na boca do cano ilumina as trepadeiras de lúpulo como uma lâmpada estroboscópica.   Hiro manda-se de ombro ao chão e deixa-se enterrar na terra solta e naquela folhagem mole por alguns segundos.

“Foda-se!” – ouve-se T-Bone dizer.   É um ‘foda-se’ desapontado mas com um sentido carregado de esmagadora frustração e não de um medo leve.

Hiro ergue-se só um pouco, mantendo contudo uma posição bem agachada, e olha em redor.   Squeaky e o outro Enforcer estão algures fora do alcance da vista.

Hiro abre caminho através dos conjuntos de entrançados de ripas para um dos carreiros mais próximos da acção.

O outro Enforcer – o condutor – encontra-se na mesma correnteza a que ele chegou, a cerca de dez metros, as costas voltadas para Hiro.   Deita um olhar breve sobre o ombro na direcção de Hiro, depois torna a olhar para a frente e vê mais alguém – Hiro é que não pode mesmo ver quem será, o Enforcer encontra-se no caminho.

“Que porra” – diz o Enforcer.

Então saltita um pouco, como se assustado, e algo acontece às costas do seu blusão.

“Quem é?” – diz Hiro.

O Enforcer não diz nada.   Está a tentar voltar-se para cá mas qualquer coisa impede-o.   Qualquer coisa que agita as trepadeiras à sua volta.

O Enforcer estremece dando repelões para o lado, pé ante pé.   “Tenho que sair daqui” – diz, falando alto, para ninguém em particular.   E mete-se num trote afastando-se a correr de ao pé de Hiro.   A outra pessoa que se encontrava no carreiro já desapareceu entretanto.   O Enforcer corre num estranho jeito, erecto e rígido, com os braços caídos ao longo do corpo.   Nota-se que o blusão verde brilhante não lhe assenta correctamente.

Hiro corre atrás dele.   O Enforcer continua no seu trote em direcção ao fim do caminho onde as luzes da rua estão visíveis.

O Enforcer sai da plantação um par de segundos à sua frente e quando Hiro alcança o passeio está ele no meio da estrada iluminado em grande parte pela relampejante luz azul emanada de um gigantesco écran de vídeo que se ergue ali.

E ele a girar, a girar com aqueles cambaleantes passinhos estranhos, não conseguindo muito bem o equilíbrio.   Continua a dizer ‘Aaaah, aaaaaah’ numa voz baixa e calma que gorgoleja assim a modos como se precisasse urgentemente de clarear a garganta.

E conforme o Enforcer revoluteia é que Hiro se apercebe de que ele foi empalado numa lança de bamboo aí com uns dois metros e meio.    Metade a sair da frente, a outra metade das costas.   A metade traseira, escurecida com sangue e uns grúmulos fecais negros, mas a metade dianteira mantém-se num amarelo esverdeado limpo.

O Enforcer só consegue ver a metade à frente e as suas mãos parecem brincar para cima e para baixo ao longo da haste como a confirmar o que os olhos vêm.   Depois a metade de trás bate com estardalhaço num dos carros estacionados mandando em spray um curto arco de salsicharia humana sobre a beleza encerada e polida da tampa da bagageira.   O alarme da viatura dispara.   O Enforcer volta-se ao ouvir o som para ver o que aquilo é.   Quando Hiro o vê pela última vez corre ele pelo centro daquela artéria vibrante em néon, apontado ao centro de Chinatown, lugubremente desgarrando uma canção terrível e aleatória que se amalgama com aquele balir do alarme do carro.   É neste momento que Hiro sente que algo no mundo se rompeu e que ele está ali suspenso em equilíbrio à beira do rasgão desse abismo, olhando para um local onde preferia não estar.   Perdido na biomassa.

Hiro desembainha a katana.

“Squeaky! – berra Hiro – Ele está a mandar com lanças!   O gajo é bom nisso para o caraças!   O seu condutor foi atingido!”

“Já percebi!” – berra Squeaky.

Hiro retorna até ao carreiro mais próximo.   Detecta um som para a sua direita e usa a katana para desbastar caminho para esse outro carreiro.   Não é um bom local para se estar neste momento mas é mais seguro do que ficar na rua sob a luz plutónica do écran de vídeo.

Mais abaixo nessa álea está um homem.   Hiro reconhece-o pela forma estranha da sua cabeça que se vai alargando até aos ombros.   Numa das mãos segura uma estaca de bamboo cortada de fresco ao suporte das ripas.

Raven golpeia um dos extremos da estaca com a sua outra mão e um pedaço tomba.   Qualquer coisa viu-se faiscar nessa mão, a lâmina de uma faca, aparentemente.   Acabou de aparar o topo da estaca num ângulo agudo fazendo daquilo uma lança.

E é com fluidez que a atira.   O movimento é calmo e belo.   A lança desaparece porque é um ponto que vem mesmo a direito sobre Hiro.

Hiro nem tem tempo para adoptar a posição adequada, mas está tudo bem uma vez que ele estava já nessa atitude.   É que sempre que tem a katana nas mãos adopta-a automaticamente, de outro modo teme que venha a perder o equilíbrio e sem querer desbastar uma das suas próprias extremidades.   Pés paralelos e apontados a direito bem para a frente, o pé direito adiantado em relação ao esquerdo, katana mantida baixa ao nível das virilhas como uma extensão do falo.   Hiro levanta-lhe a ponta e manda uma pancada à lança com o lado da lâmina desviando-a à justa o suficiente;   a lança entra em lenta torção lateral, a ponta falhando Hiro mesmo a rasar e entranha-se por uma das trepadeiras à direita dele.   A parte de trás ainda oscila e fica pendurada à esquerda, rasgando uma série de plantas até se imobilizar.

É pesada e vinha em grande velocidade.

Raven desapareceu.

Anotação mental: quer Raven tencionasse ou não isoladamente dar cabo de um punhado de Crips ou Enforcers esta noite nem se preocupou em arranjar uma arma de fogo.

Outra rajada de arma automática soa a algumas filas de distância.

Hiro já anda por aqui há um bom pedaço matutando sobre o que se acaba de passar.   Corta através do renque seguinte de plantas apontado à direcção dos clarões da arma de fogo, a boca a vociferar rápido – “Não dispare para aqui T-Bone, estou do seu lado pá!”

“O cabrão mandou-me uma estaca ao peito, pá!” – queixa-se T-Bone.

Quando se enverga blindagem, ser-se atingido por uma lança deixou de ser um problema grande.

“Talvez seja melhor largá-lo” – diz Hiro.   Acaba por ter de abrir caminho através de uma série de filas para alcançar T-Bone, desde que T-Bone se mantenha a falar Hiro pode dar com ele.

“Eu sou um Crip.   Nós nunca esquecemos nada – diz T-Bone – É você?”

“Não – diz Hiro – Ainda não estou aí.”

Uma muito breve rajada de arma, rapidamente interrompida.   Subitamente ninguém se encontra a falar.   Hiro abre caminho para a linha seguinte e quase pisa a mão de T-Bone a qual foi amputada pelo pulso.   O dedo ainda enfiado na guarda do gatilho de uma MAC-11.

O resto de T-Bone está duas filas mais à frente.   Hiro pára e observa através das trepadeiras.

Raven é um dos maiores homens que Hiro já viu fora de qualquer evento desportivo profissional.   T-Bone ali a distanciar-se dele mais adiante no carreiro.   Raven a mover-se em passadas largas e confiantes, a alcançar T-Bone e como uma mola a impulsionar uma mão para o corpo de T-Bone.   Hiro nem precisa de ver a faca para saber que ela lá está.   Parece que T-Bone se vai safar desta com nada mais que uma mão estropiada e algum trabalho de ‘reabil’, porque não se pode apunhalar uma pessoa até à morte desta forma, não se ela usar um colete blindado.

T-Bone grita.

Ele saltita para cima e para baixo na mão de Raven.   A faca penetrou toda através do material à prova de bala e agora Raven está a tentar desentranhar T-Bone da mesma maneira que fizera a Lagos.   Mas a sua faca – o que raio que ela seja – não consegue cortar através do tecido dessa forma.   É suficientemente aguçada para penetrar – o que devia ser impossível – mas não é o suficiente para retalhar.

Raven retira-a, deixa-se cair sobre um joelho e com a mão que empunha a faca atira-se num movimento rotativo em longas elipses entre as coxas de T-Bone.   Depois salta sobre o corpo em colapso de T-Bone e foge.

Hiro fica com a sensação de que T-Bone é um homem morto e portanto põe-se é a perseguir Raven.   A sua intenção não é caçar o homem mas antes a de manter uma imagem muito precisa de onde ele se encontra.

Tem que passar mais uma série de carreiros.   Rapidamente perde Raven de vista.   Considera fugir tão rápido quanto possa na direcção contrária.   Escuta então o roncar longo, de fazer até estremecer os pulmões, de um motor de motocicleta.   Hiro corre até à saída mais próxima para a rua.   É a esperança de conseguir dar-lhe uma olhada.

E consegue, rápida porém, não muito melhor c’o caraças do que a imagem  impressa no carro da bófia.   Raven volta-se para observar Hiro ao mesmo tempo que se lança para fora dali.   Está mesmo debaixo de um candeeiro público e então Hiro consegue uma visão clara da sua face pela primeira vez.   É asiático.   Possui um bigode afilado que descai dos lados ultrapassando-lhe o queixo.

Há outro Crip que sai a correr pela rua meio segundo depois de Hiro e conforme Raven se põe a mexer.   Abranda um momento para abarcar a situação e carrega então sobre a mota como um defesa no baseball.   E ao fazer isto solta um grito, um grito de guerra.

Squeaky emerge praticamente na mesma altura que o Crip e começa a perseguir ambos rua abaixo.

Raven parece desaperceber-se do Crip que corre atrás de si mas em retrospectiva torna-se aparente que ele estava a controlar a sua aproximação pelo retrovisor da motocicleta.   Logo que o Crip está ao alcance a mão de Raven larga por um momento o manípulo acelerador e chicoteia para trás como quem deita fora um pedaço de lixo.   O punho atinge o Crip no centro da face como um presunto congelado disparado por um canhão.   Agora é a cabeça do Crip que salta para trás, os pés a erguerem-se do chão, é quase uma cambalhota à retaguarda, caindo sobre o pavimento primeiro com a parte de trás do pescoço e ao mesmo tempo os braços a baterem ruidosamente de chapão sobre a estrada.   Parece um pouco como uma queda controlada mas a ser isso será mais um reflexo que outra coisa.

Squeaky desacelera, volta-se e ajoelha-se junto ao Crip caído, ignorando Raven.

Hiro fica a observar aquele enorme e radioactivo senhor das drogas, assassino e atirador de lanças, a conduzir a motocicleta em direcção a Chinatown.   Que é o mesmo que levá-la até à China, no que concerne à ideia de persegui-lo.

Corre até ao Crip que continua como que crucificado ali no meio da rua.   A metade inferior do rosto do Crip, bem, torna-se um pouco difícil distinguir aquilo.   Os olhos estão meio abertos e parece relativamente tranquilo.   Fala pausadamente – ‘é a porra de um índio ou qualquer coisa assim’.

Uma ideia interessante.   Mas Hiro ainda pensa que ele seja asiático.

“Que porra pensavas que andavas a fazer, seu palerma?” – diz Squeaky.   Parece tão lixado que Hiro afasta-se dele.

“Aquele cabrão aldrabou-nos – a mala incendiou-se” – resmunga o Crip através do maxilar esmigalhado.

“E então porque é que não desistiram da coisa?   Estão loucos, a meterem-se assim desta forma com o Raven?”

“Ele aldrabou-nos.   Ninguém nos faz isso e continua vivo.”

“Bem, Raven acabou de fazê-lo” – diz Squeaky.   Finalmente está um pouco mais calmo.   Roda nos calcanhares olhando para Hiro.

“T-Bone e o seu condutor, não é provável que sobrevivam – diz Hiro – e este gajo é melhor não se mexer, pode ter uma fractura do pescoço.”

“Está com sorte é eu não lhe fracturar a porra do pescoço” – diz Squeaky.

O pessoal da ambulância chega o suficientemente rápido para encaixar um colar cervical insuflável em torno do pescoço do Crip antes que este fique com demasiada vontade para se pôr de pé.   Em poucos minutos carregam-no dali para fora.

Hiro regressa ao campo de lúpulo e encontra T-Bone.   Está morto, caído numa posição ajoelhada contra uma das estruturas de ripas.   A ferida de apunhalamento através da roupa à prova de bala provavelmente terá sido fatal mas Raven não ficou satisfeito com isso.   Mandou-se às partes inferiores, retalhou para cima e para baixo no interior das coxas de T-Bone que estão agora ali abertas até ao osso.   Ao fazer isso infligiu tremendos rasgões longitudinais em ambas as artérias femurais de T-Bone e toda a sua reserva de sangue esvaiu-se dele.   Foi como cortar o fundo a um copo descartável.

20

Os Enforcers transformaram o quarteirão inteiro num quartel policial móvel com carros, veículos celulares e ligações por satélite em camiões-plataforma.   E há uns bacanos estilizados nas suas batas brancas a percorrerem para cima e para baixo por entre o campo de lúpulo com contadores Geiger.   Squeaky a vaguear por ali à volta com o seu conjunto transmissor à cabeça, olhando para o ar, absorto, a manter conversa com gente que não está ali.   Surge uma camioneta de reboque trazendo o BMW preto de T-Bone atrelado a ela.

“Ôi, pá” – Hiro volta-se e repara.   É Y.T.   Acabou de chegar vinda de uma loja ‘Hunan’ do outro lado da rua.   Entrega a Hiro uma caixinha branca e um par de pauzinhos chineses – “Galinha com especiarias e molho de soja, sem MSG (monoglutamato de sódio).   Sabes comer com os pauzinhos?”

Hiro encolhe os ombros sacudindo tamanho insulto.

“Pedi dose dupla – continua Y.T. – porque imagino q’esta noite conseguimos boa ‘inform’.”

“Tens consciência do que é que se passou aqui?”

“Não, isto é, obviamente alguém ficou ferido.”

“Mas não foste testemunha ocular.”

“Não, não consegui acompanhá-los.”

“Isso é bom” – diz Hiro.

“O que é que aconteceu?”

Hiro abana a cabeça.   A galinha condimentada brilha em tons escuros sob as luzes; nunca na sua vida se sentira tão pouco esfomeado como agora.   “Se soubesse, não te teria envolvido nisto.   Pensei ser apenas um trabalho de vigilância.”

“Que é que aconteceu?”

“Nem quero explicar.   Olha.   Mantém-te distanciada do Raven, okay?”

“Certo” – diz ela.   Ela profere aquilo no tom de voz esganiçado que usa quando está a mentir e quer ter a certeza que estamos cientes disso.

Squeaky escancara a porta traseira do BMW e olha para o assento de trás.   Hiro chega-se mais um pouco e apanha uns traços de odor desagradável a restos de fumo.   É o cheiro a plástico queimado.

A mala executiva em alumínio que antes Raven entregara a T-Bone está ali pousada no meio do assento.   Tem todo o aspecto de ter sido atirada para dentro do fogo.   Manchas de negro de fumo espraiam-se para fora à volta dos fechos e o punho plástico encontra-se parcialmente derretido.   O couro macio que reveste o banco do BMW exibe também marcas de queimaduras.   Não admira que T-Bone se sentisse lixado.

Squeaky enfia um par de luvas em látex.   Tira a mala cá para fora e apoia-a sobre a tampa da bagageira, e com um pequeno formão rebenta com os fechos.

O que quer que aquilo seja é complicado e de um design sofisticado.   A metade superior da mala apresenta várias filas daqueles tubinhos com tampas encarnadas que Hiro já encontrara no U-Stor-It.   Existem cinco filas aí com uns vinte tubos cada.

A metade inferior da pasta parece ser qualquer género - em miniatura - de um terminal de computador, desses arcaicos.   A maior parte do espaço é ocupada pelo teclado.   Há um pequeno écran – um visor de cristais líquidos – que pode conter provavelmente umas cinco linhas de texto de cada vez.   Há também um objecto estilo caneta ligado à mala por um cabo, talvez com um metro depois de desenrolado.   Parece que poderá ser uma caneta-electrónica de computador ou um scanner de códigos de barras.

Sobre o teclado existe uma lente em ângulo tal que se encontra apontada para quem quer que esteja a usar as teclas.   E aquilo tem ainda outras características cujo propósito não será tão óbvio: uma ranhura, que pode ser o local de inserção para cartões de crédito ou de identidade, e um encaixe cilíndrico com o tamanho aproximado de um daqueles tubinhos.

Esta é a reconstrução que Hiro faz de como a coisa se terá parecido.   Quando Hiro a vê, aquilo está tudo derretido em conjunto.   Calculando a partir da disposição das marcas de fumo no exterior da mala – sugerem como tendo-se ejectado através da ranhura entre o topo e a base – a origem das chamas estaria era no interior e não cá fora.

Squeaky abaixa-se e retira um dos tubos do seu suporte e segurando nele levanta-o e coloca-o contra as luzes brilhantes de Chinatown.   Havia sido transparente mas está agora manchado por acção do calor e do fumo.   Visto de alguma distância parece-se com um simples frasquinho mas aproximando-se para poder observá-lo de mais perto Hiro consegue ver pelo menos meia dúzia de finos compartimentos individuais lá dentro, cada um deles ligado aos outros por tubinhos capilares.   Num dos topos daquilo temos uma tampinha encarnada.   A tampa possui uma janela preta rectangular e conforme Squeaky roda aquilo Hiro pode observar o brilho vermelho escuro de um mostrador LED desligado no seu interior, como quando se olha para o visor de uma calculadora desligada.   E por baixo disto existe uma pequena perfuração.   Não é um simples orifício esburacado ali.   À superfície é largo, estreitando rapidamente até uma quase invisível abertura como um furo de agulha – tal como a boca de um trompete.

Os compartimentos no interior do tubinho estão todos parcialmente cheios com líquidos.   Alguns deles são transparentes e outros são de um castanho escurecido.   Os acastanhados deverão ser orgânicos, de qualquer género, transformados agora pelo calor numa canja.   Os transparentes podem ser qualquer coisa.

“E tinha ele que ir até ao bar para tomar uma bebida – resmunga Squeaky – um palerma.”

“Quem?”

“T-Bone.   Vê, T-Bone era assim como que o dono registado desta unidade.   A mala.   E logo que se afastou mais que três metros – fooosh! – ela auto-destruiu-se.”

“Porquê?”

Squeaky olha para Hiro como se ele fosse estúpido.   “Bem, não é que eu trabalhe para a Central Intelligence ou parecido.   Mas posso calcular que quem quer que seja que produza esta droga – chamam-lhe Countdown (Contagem Decrescente), Red Cap (Tampa Vermelha) ou Snow Crash – tem uma séria preocupação no tocante a segredos comerciais.   Portanto se o traficante abandonar a mala ou a perder, ou tentar transferir a propriedade para outro alguém – fooosh!

“E pensa que os Crips irão continuar a dar caça ao Raven?”

“Não em Chinatown.   Merda – diz Squeaky, a sentir-se em retrospectiva outra vez lixado – Não acredito, esse gajo.   Eu podia tê-lo morto.”

“Raven?”

“Não.   Aquele Crip.   Perseguir o Raven.   Está com sorte em Raven o ter apanhado primeiro e não eu.”

“Você estava a perseguir o Crip?”

“Yeah, eu estava a perseguir o Crip.   O quê, pensava que eu estava a tentar apanhar o Raven?”

“Género d’isso, yeah.   Quer dizer, ele é que o mau da fita, certo?”

“Precisamente.   Portanto eu estaria atrás do Raven se fosse polícia e o meu trabalho fosse apanhar gajos maus.   Só que eu sou um Enforcer e é meu dever reforçar a ordem.   Assim estou a fazer tudo o que posso – e como eu qualquer outro Enforcer nesta cidade – para proteger o Raven.   E se você tem quaisquer ideias para, por si próprio, ir e tentar encontrar o Raven e buscar vingança por esse seu colega que ele ‘desligou’, bem pode esquecer isso.”

“ ‘Desligar’?   Que colega?” – interrompe Y.T.   Ela não viu o que aconteceu a Lagos.

Hiro está mortificado pela ideia – “É por isso que andava toda a gente a dizer-me para não me meter com o Raven?   Estavam com medo que eu fosse atacá-lo?”

Squeaky fixa o olhar sobre as espadas – “Você tem os meios.”

“Porque quererá alguém proteger o Raven?”

Squeaky sorri como se acabássemos de atravessar a fronteira para um reino de faz de conta.   “Ele é uma Soberania.”

“Então declarem-lhe guerra.”

“Não é boa ideia declarar guerra a uma potência nuclear.”

“Huuh?”

“Cristo! – diz Squeaky, abanando a cabeça – Se tivesse ideia de quão pouco você estava inteirado desta merda nunca o teria deixado entrar no meu carro.   Pensei que fosse algum gajo das wet operations, operacional a sério, da CIC.   Está-me a contar que não conhecia a história de Raven?”

“Sim, é isso que lhe estou a dizer.”

“Okay.   Vou-lhe relatar isto de modo a que não vá andar por aí fora a causar mais problemas.   Raven anda com uma ogiva de torpedo que palmou de um antigo ‘sub’ nuclear soviético.   Um torpedo do tipo destinado a pôr fora de acção todo um grupo de combate do nível de porta-aviões com um único disparo.   Um torpedo nuclear.   Viu aquele sidecar de aspecto engraçado que Raven tem na sua Harley?   Bem, aquilo é uma bomba de hidrogénio, homem.   Armada e pronta a estoirar.   O gatilho ligado a ele, ‘léctrodos de EEG embebidos no crânio.   Se Raven morre, a bomba detona.   Portanto quando Raven chega a esta cidade fazemos tudo ao nosso alcance para que o homem se sinta bem-vindo.”

Hiro acaba de se engasgar.   Y.T. tem que responder em vez dele – “Okay – diz ela – falando pelo meu parceiro e por mim, vamos mantermo-nos longe dele.”

21

Y.T. reconhece que se arrisca a passar toda a tarde como uma escoriazita naquela rampa.   A correnteza para surfistas está até porreira ali pela Harbor Freeway que a leva da baixa para Compton, mas as rampas de acesso a este bairro são tão pouco usadas que ervas e arbustos com quase um metro emergem do esburacado asfalto.   E não é à custa das suas próprias pernas que ela está a pensar viajar esse resto até Compton.   Quer é atrelar-se a qualquer coisa grande e rápida.

Nem pode usar o seu truque habitual – pedir uma pizza para o seu destino e atrelar-se então ao gajo das entregas quando ele passa rugindo – porque nenhuma das cadeias de pizza efectua entregas neste bairro, em Compton.   Terá pois que parar mesmo ali na rampa de acesso e aguardar horas e horas por uma viagem.   Uma caganita ali na rampa.

Ela nem pretendia de forma nenhuma efectuar esta entrega.   Mas o tipo da franchise queria mesmo que ela o fizesse.   Insistentemente.   O montante em dinheiro que lhe ofereceu é tão elevado que se torna estúpido.   A embalagem deve estar cheia com qualquer potente tipo de nova droga.

Só que isso nem é tão fantástico comparado com o que se segue.   Está ela a rolar pela Harbor Freeway ‘arpoada’ a um semi-reboque dirigindo-se para sul e a aproximar-se da tal rampa de saída em que já conta apanhar uma seca.   Quatrocentos metros antes do acesso um Oldsmobile preto picotado por balas vai a ultrapassá-la, o pisca da direita a faiscar.   Vai sair ali.   É bom demais para ser verdade.   Atrela-se ao Oldsmobile.

Ao deslizar rampa abaixo atrás deste flatulento sedan tenta ver quem é o condutor através de uma mirada ao retrovisor dele.   É ele próprio, o homem da franchise, o que lhe pagou um montante totalmente estúpido de dinheiro para fazer este trabalho.

Por esta altura está ela com mais medo dele do que de Compton.   Deve ser um ‘psycho’, um psicopata.   Estar apaixonado por ela.   É tudo um enredo amoroso de um ‘psycho’ retorcido.

Só que é um pouco tarde demais.   Continua ali com ele, com o olhar procurando qualquer saída destas ardentes e apodrecidas redondezas.   Aproximam-se de uma barreira de estrada da Máfia, grande e terrífica.   O tipo dispara com o acelerador, de cabeça para a morte.   Em frente ela consegue distinguir a franchise de destino.   E então no último segundo ele chicoteia o carro para um pião e depois a chiar derrapa de lado até se imobilizar.

Não podia ter sido maior o auxílio.   Ela desatrela-se ao ter recebido dele este derradeiro pontapé de energia e navega através do ponto de controle numa velocidade segura e sã.   Os guardas conservam as armas apontadas para o céu, pivoteiam a cabeça para lhe olharem para o traseiro conforme ela rola por ali passando por eles.

 

A franchise da Nova Sicília em Compton é uma cena terrífica.   Um ‘jamboree’ da Juventude Máfia.   Estes jovens são ainda mais burros que aqueles do Segurbúrbio pan-mórmon de Deseret.   Os rapazes usam entediantes fatos pretos.   As miúdas incrustadas sem qualquer sinal de feminilidade.   As raparigas nem podem pertencer propriamente à Juventude Máfia.   Têm que estar no ‘Raparigas Auxiliares’ e servem macarrão em bandejas de prata.   Raparigas será até uma palavra demasiado fina para estes organismos, elevada demais até na escala evolucionária.   Nem chegam a ser miúdas.

Ela rolava muito rápido e assim ferra uma patada na prancha lateralmente, a fazê-la girar, finca os pés, inclina-se, derrapa até parar.   Levanta uma onda de poeira e pedrinhas que embacia os sapatos brilhantes de vários ‘Juventude Máfia’ ali amontoados em frente a mordiscar nicos de italo-doces e a brincar aos crescidos.   O pó condensa-se ainda sobre as alvas meias rendilhadas daquela proto-criançada dos da Juventude Máfia.   Ela como que cai da prancha, parecendo reganhar o equilíbrio no último momento.   Calca a borda do skate com um dos pés fazendo-o saltar no ar a mais de um metro, rodopiando rapidamente em torno do seu eixo maior até se vir encaixar na sovaqueira dela onde o segura agora com força debaixo do braço.   Os bastõezinhos nas ‘inteli-rodas’ retraíram-se já e assim os rodados pouco maiores estão agora do que as jantes.   Rebate o disco ‘MagnaPoon’ no encaixe apropriado na parte inferior da prancha de modo que o equipamento está ele todo num único cómodo volume.

“Y.T. – diz ela – Jovem, rápida, fêmea.   Onde raio é que está Enzo?”

Os rapazes decidem todos portarem-se como gente ‘madura’ perante Y.T.   Os machos desta idade preocupam-se é com beliscar a roupa interior uns dos outros e beber à fartazana até entrarem em coma.   Mas à volta de uma fêmea fazem as coisas de uma forma ‘madura’.   É hilariante.   Um deles chega-se à frente ligeiramente, interpondo-se entre Y.T. e a mais próxima daquelas proto-criançolas.    “Bem-vinda à Nova Sicília – diz ele – posso ajudar-te nalguma coisa?”

Y.T. lança um suspiro fundo.   Ela, uma pessoa de negócios totalmente independente e esta gente aqui a tentar perscrutá-la.   “Entrega para um Enzo?   Sabem, nem posso esperar p’ra me pôr a andar daqui para fora deste bairro.”

“Agora é um bairro calmo – diz o da ‘Ju-Má’ – Devias gramar isto por alguns minutos que talvez aprendesses algumas maneiras.”

“Deviam tentar surfar pela ‘Ventura’ na hora de ponta.   Talvez aprendessem a conhecer o que são os vossos limites.”

O ‘Ju-Má’ a modos que ri como quem diz ‘okay, se é assim que queres as coisas’.   Faz um gesto em direcção à porta.   “O homem com quem queres falar está ali dentro.   Se ele quer ou não falar contigo, não tenho a certeza.”

“Ele pediu que eu viesse, porra” – diz Y.T.

“Ele atravessou o país para estar com a gente – diz o gajo – e parece bastante feliz aqui connosco.”

Todos os outros ‘Ju-Má’s murmuram e anuem com a cabeça em aprovação.

“Então porque é que ficam do lado de fora?” – pergunta Y.T., indo para dentro.

No interior da franchise as coisas estão francamente relaxadas.   Uncle Enzo está ali com o mesmo aspecto com que surge nas fotos, excepto que é maior do que Y.T. esperava.   Está sentado a uma secretária jogando às cartas com mais alguns outros gajos em traje de funeral.   Fuma um charuto ao mesmo tempo que vai bebericando um café expresso.   Aparentemente não consegue estímulo suficiente.

Há ali todo um sistema portátil de suporte ao Uncle Enzo.   Uma máquina de café expresso, de viagem, foi montada sobre outra secretária.   Ao lado dela está pousado um armário cujas portas se abrem para revelar um grande saco de papel metalizado de Café Torrado Italiano – Descafeinado (por Processo de Água), e uma caixa de charutos havanos.    Há ainda um gárgula a um dos cantos ligado a um computador lap-top ‘maior-que-o-habitual’, como se a murmurar sozinho.

Y.T. ergue o braço e deixa a prancha deslizar até à mão.   Larga-a com um baque sobre uma secretária vazia e aproxima-se do Uncle Enzo desapertando o embrulho da encomenda do seu ombro.

“Gino, por favor” – chama Uncle Enzo acenando com a cabeça para a encomenda.   Gino chega-se à frente para levar dela o tal embrulho.

“Preciso da sua assinatura nisso” – diz Y.T.   Por alguma razão não se refere a ele como ‘amigo’ ou ‘pá’.

A atenção dela momentaneamente distraída por Gino.   Subitamente Uncle Enzo chega-se ali bem próximo, toma-lhe a mão direita na sua mão esquerda.   As luvas de Korreio dela têm uma abertura nas costas da mão com tamanho suficiente para os lábios dele.   Planta um beijo na mão de Y.T.   É quente e húmido.   Não babado e grosseiro, não anti-séptico, nem seco.   Interessante.   Este gajo tem a confiança do lado dele.   Cristo, ele é suave.   Belos lábios.   Tipo de lábios musculados e firmes, não gelatinosos e gorduchos como os de alguém com quinze anos.

Uncle Enzo transporta ainda um ténue olor a tabaco amadurecido e  com laivos citrinos.   Para um desfrutar intenso desse aroma, implicará ficar-se mesmo encostado a ele.   Mas como uma torre ele porém mantém-se agora ali a uma respeitável distância, com um faiscar para ela no olhar através daqueles olhos enrugados de velhote.

Parece bem porreiro.

“Nem te posso dizer o quanto tenho andado a fazer para me encontrar contigo Y.T.” – diz ele.

“Ôi!” – diz ela.   A voz soa mais esganiçada do que ela pretendia que fosse.   Portanto acrescenta – “Já agora, que merda é que está no saco para ser assim tão valioso?”

“Absolutamente nada – diz Uncle Enzo.   O seu sorriso não é precisamente complacente.   Antes embaraçado, como se isso fosse devido ao ‘tortuoso caminho para se encontrar com alguém’ – Tem tudo a ver com a imagética, engenharia de imagem” – diz ele estendendo a mão em redor com indiferença – “Não há muitas maneiras para um homem como eu se encontrar com uma jovem rapariga, que não desencadeie imagens incorrectas nos ‘media’.   É estúpido.   Mas nós prestamos atenção a estas coisas.”

“Portanto, porque é que se queria encontrar comigo, era sobre quê?   Uma entrega para eu realizar?”

Todos os gajos na sala se riem.

O som assusta Y.T. um pouco, relembrando-lhe que está ali como que a actuar perante uma multidão.   Por um momento os olhos desviam-se-lhe de Enzo.

Uncle Enzo repara nisto.   O sorriso dele torna-se infinitesimamente um pouco mais fino e ela por um instante hesita.   Nesse instante todos os outros gajos na sala põem-se em pé e dirigem-se para a saída.

“Podes não me acreditar – diz ele – mas queria simplesmente agradecer-te por aquela entrega da pizza que efectuaste há algumas semanas.”

“Porque é que não iria acreditar em si?” – pergunta ela.   Ela está espantada a ouvir tais coisas boas, doces, a saírem da sua boca.

Assim como Uncle Enzo – “Estou certo que tu entre todos podias ter a resposta para uma razão.”

“Então – diz ela – tem passado um dia bom com todos esses da Juventude Máfia?”

Uncle Enzo atira-lhe um olhar que diz mesmo ‘vê lá miúda’.   Um segundo depois de ela ficar assustada está ela a começar-se a rir porque aquilo é uma fita, está ele só a encavacá-la.   Ele sorri cúmplice indicando que está okay, para ela rir-se também.

Y.T. nem se consegue lembrar de quando é que esteve assim tão envolvida numa conversa.   Porque é que não podem ser todos como o Uncle Enzo?

“Deixa-me ver – diz Uncle Enzo olhando para o tecto, vasculhando os seus bancos de memória – sei umas poucas de coisas de ti.   Que tens quinze anos, vives num Segurbúrbio no Valley com a tua mãe.”

“Também sei algumas coisas sobre si” – atreve-se Y.T.

Uncle Enzo ri-se – “Nem perto disso, não tantas como tu pensas, garanto-te.   Diz-me lá, o que é que a tua mãe pensa da tua carreira?”

É fixe da parte dele usar o termo ‘carreira’.   “Ela não está totalmente a par disso – ou não quer saber.”

“Provavelmente estás equivocada – diz Uncle Enzo.   Ele diz aquilo de uma forma suficientemente amigável, não tentando desiludi-la ou coisa do género – Poderias ficar chocada, sobre até onde está ela bem informada.   Esta é a minha experiência, de qualquer modo.   O que é que faz a tua mãe profissionalmente?”

“Trabalha para os Feds.”

Uncle Enzo acha aquilo imensamente divertido.   “E a filha dela a entregar pizzas para a Nova Sicília.   O que é que ela faz para os Feds?”

“Qualquer coisa da qual ela nem me pode falar, para o caso de eu palrar.   Tem que fazer uma quantidade de testes no polígrafo.”

Uncle Enzo parece compreender isto muito bem.   “É, uma quantidade de empregos com os Feds é assim que funcionam.”

Faz-se um silêncio oportuno.

“Aquilo a modos que me baratina toda” – diz Y.T.

“O facto de ela trabalhar para os Feds?”

“Os testes com polígrafo.   Colocam uma coisa à volta do braço dela, para medirem a tensão arterial.”

“Um esfigmomanómetro” – diz Uncle Enzo de forma saliente.

“Deixa-lhe uma marca no braço.   Por alguma razão esse tipo de coisa perturba-me.”

“Está claro que tem que chatear-te.”

“E a casa está com ‘bugs’ – sob escuta.   Portanto quando estou em casa, não importa a fazer o quê, há alguém que provavelmente estará a ouvir.”

“Bem, e eu terei em parte a ver com isso, provavelmente.”

Ambos riem.

“Vou-te fazer uma pergunta que sempre quis fazer a um Korreio – diz Uncle Enzo – Vejo-vos sempre pelas janelas da minha limusine.   De facto quando um Korreio se atrela a nós digo sempre ao Peter, o meu condutor, para não vos atrapalhar.   A minha pergunta é, vocês estão cobertos da cabeça à ponta dos pés com almofadas de protecção.   Então porque é que não usam capacete?”

“O uniforme tem um ‘airbag’ cervical que dispara automaticamente caso se caia da prancha e com isso até se pode saltitar sobre a cabeça.   Por outro lado os capacetes são bizarros.   Dizem que não afectam a audição mas na realidade afectam.”

“E usas os teus ouvidos um bom pedaço nas tuas andanças?”

“Sim, definitivamente.”

Uncle Enzo concorda com a cabeça.   “É o que eu suspeitava.   Sentíamo-nos da mesma forma, a malta da minha unidade, no Vietname.”

“Ouvi que esteve no Vietname mas...” – ela trava, pressentindo perigo.

“Pensaste que fosse promoção da minha parte.   Não, estive mesmo lá.   Podia ter ficado de fora se quisesse.   Mas fui como voluntário.”

“Ofereceu-se para ir para o Vietname?”

Uncle Enzo ria-se.   “Sim, foi o que fiz.   O único rapaz da minha família a fazê-lo.”

“Porquê?”

“Pensei que seria mais seguro do que Brooklyn.”

Y.T. ri-se.

“Uma má piada – diz ele – Ofereci-me porque o meu pai não queria que fosse.   E eu queria chateá-lo.”

“A sério?”

“Precisamente.   Passei anos e anos a descobrir maneira de chateá-lo.   Encontros com miúdas negras.   Deixei crescer o cabelo.   Fumei marijuana.   Mas a pedra de toque, o feito último – ainda melhor que ter posto um ‘piercing’ na orelha – foi ter-me oferecido como voluntário para o Vietname.   Mas eu tinha que tomar medidas extremas, mesmo nessa altura.”

Os olhos de Y.T. viajam para cá e para lá entre os lóbulos dos ouvidos de Uncle Enzo, vincados e coriáceos.   No esquerdo consegue-se à justa perceber um pequenino diamante incrustado.

“O que é que entende por ‘medidas extremas’?”

“Todos sabiam quem eu era.   A palavra corria, como imaginas.   Se eu me tivesse voluntariado para a tropa regular teria acabado numa secretaria a preencher impressos – talvez até em Fort Hamilton, ali mesmo em Bensonhurst.   Para evitar isso ofereci-me para as forças especiais e fiz todos os possíveis para que me colocassem numa unidade na frente – ele ri-se – e funcionou.   De qualquer modo, estou para aqui a dispersar-me do assunto, como um velhote.   Estava a tentar salientar isso dos capacetes.”

“Oh, claro.”

“O nosso trabalho era irmos pela selva e orquestrar problemas para alguns homenzinhos esquivos que carregavam armas maiores do que eles.   Gajos escondidos.   E também ali nós dependíamos dos nossos ouvidos – tal como tu.   E sabes que mais?   Nunca púnhamos os capacetes.”

“A mesma razão?”

“Exactamente.   Mesmo que não cobrisse as orelhas realmente perturbava em qualquer coisa o nosso sentido de audição.   Ainda hoje penso que devo a minha vida ao facto de andar de cabeça descoberta.”

“Isso é mesmo fixe.   Realmente interessante.”

“Talvez penses que por esta altura já deviam ter ultrapassado esse problema.”

“Yeah – concorda Y.T. – há algumas coisas que nunca mudam, suponho.”

Uncle Enzo atira para trás a cabeça conforme ri estremecendo todo.   Usualmente Y.T. acha este tipo de coisa aborrecida mas Uncle Enzo parece mesmo estar ali a passar um bom pedaço com ela e não a achincalhá-la.

Y.T. queria perguntar-lhe como é que conseguiu progredir daquela rebelião extrema até gerir a colmeia familiar.   Não o faz.   Mas Uncle Enzo sente que aquele é o próximo tema natural de conversa.

“Por vezes interrogo-me quem é que poderá suceder-me – diz ele – Oh, estamos cheios de gente excelente da próxima geração.   Mas depois disso – bem, não sei.   Creio que todos os mais velhos sentem como se o mundo esteja a caminhar para um final.”

“Vocês têm milhões desses tipos da Juventude Máfia” – diz Y.T.

“Todos destinados a andar com blazzers e a mexer em papelada aí pela zona suburbana.   Tu não os respeitas assim muito, Y.T., porque és jovem e arrogante.   Mas eu não os respeito também, mas porque sou velho e sabido.

Isto é uma coisa bem chocante, ser dita pelo Uncle Enzo, mas Y.T. não se sente chocada.   Apenas parece uma apreciação razoável vinda do seu razoável amigo Uncle Enzo.

“Nenhum deles alguma vez se ofereceria para ir pôr os butes naquela carreira de tiro da selva só para chatear o seu velhote.   Falta-lhes uma certa fibra.   São uns chochos e uns derrotados.”

“É triste” – diz Y.T.   Sente-se melhor ter dito aquilo do que atirá-los ainda mais para a lama, que era a primeira intenção dela.

“Bem – diz Uncle Enzo.   É o ‘bem’ que principia o fim de uma conversa – Estava para te enviar algumas rosas mas tu na verdade não estarias interessada nisso, estavas?”

“Oh, não me importaria” – diz ela, soando a si própria pateticamente fraca.

“Há uma coisa melhor, uma vez que somos camaradas d’armas – diz ele.   Desaperta  a sua gravata e colarinho, procura dentro da camisa, e retira uma corrente em aço incrivelmente barata, com  um par de chapinhas de prata gravadas, penduradas dela.   “São as minhas antigas ‘chapas de cão’ – da tropa” – diz ele.   “Ando com elas há anos, só por andar.   Seria engraçado se as pusesses.”

Ela, a tentar manter os joelhos firmes, coloca as chapinhas.   Ficam-lhe ali pendentes sobre o macacão.

“É melhor pô-las no interior” – diz Uncle Enzo.

E ela deixa-as cair naquele recôndito secreto entre os seios.   Ainda trazem, elas, o calor de Uncle Enzo.

“Obrigada.”

“É só por brincadeira – diz ele – mas se alguma vez estiveres com problemas e mostrares as chapinhas a quem quer que te esteja a importunar, então é possível que as coisas mudem muito rapidamente.”

“Obrigada, Uncle Enzo.”

“Cuida de ti.   Sê boazinha para a tua mãe.   Ela gosta de ti.”

22

Logo que sai do franchisulado da Nova Sicília está um gajo à espera.   Ele sorri, não sem ironia, e executa apenas o início do acto de se curvar, só mais para chamar a atenção dela.   É bastante ridículo mas após estar por um bocado com Uncle Enzo ela ficou mesmo metida naquilo.   Portanto não se ri na cara dele nem nada parecido, limita-se a olhar noutra direcção e a ignorá-lo.

“Y.T.   Tenho um trabalho para ti” – diz ele.

“Estou ocupada – diz ela – outras entregas para fazer.”

“Mentes com quantos dentes – diz ele, desafiador – Vist’aquele gárgula ali dentro?   Está ligado ao computador da RadiKS ao mesmo tempo que estamos p’ráqui a falar.   Portanto todos sabemos – como facto adquirido – que não tens nenhum serviço para fazer.”

“Bem, na verdade não posso arranjar tarefas através de um cliente – diz Y.T. – Somos despachados a partir da central.   Tem que pedir através do número 1-800...”

“Jeeesus, minha nossa, mas que porra de cabeça d’alho achas que sou?” – diz o gajo.

Y.T. pára de andar e volta-se, finalmente olha para o gajo.   É alto, elegante.   Fato preto, cabelo preto.   E tem um olho de vidro algo saliente.

“O que é que lhe aconteceu à vista?” – diz ela.

“Picador de gelo, Baiona, 1985 – diz ele – mais alguma pergunta?”

“Desculpe homem, só por perguntar.”

“Voltemos ao trabalho.   Como ainda não tenho a minha cabeça totalmente enfiada pelo rabo acima, como podes verificar, estou ciente que todos os Korreios são enviados pela central a partir de pedidos do 1-800.   Agora, nós não gostamos desses números, dessas linhas 1-800 e tal, e despachos centrais, etc.   É uma coisa só entre nós.   Gostamos de coisas pessoa-a-pessoa, à moda antiga.   Como no aniversário da minha mãezinha, não pego no telefone e disco 1-800-LIGA-À-MAMÃ.   Vou lá em pessoa e dou-lhe um beijo na bochecha, okay?   Agora, neste caso, queremos-te a ti em particular.”

“Porquê assim?”

“Porque trata-se que adoramos lidar com miudinhas difíceis que fazem a porra de muitas perguntas.   Portanto o nosso gárgula já se conectou ele próprio ao computador que a RadiKS utiliza para enviar os Korreios.”

O homem do olho de vidro volta-se, girando também a cabeça à volta, como um mocho, e faz com ela um aceno na direcção do gárgula.   Um segundo depois o telefone pessoal de Y.T. toca.

“Foda-se, atend’isso!” – diz ele.

“O quê?” – diz ela para o telefone.

Uma voz computorizada diz-lhe que é suposto ela efectuar uma recolha no Griffith Park e ir entregar a encomenda numa franchise da Reverend Wayne’s Pearly Gates, em Van Nuys.

“Se vocês querem algo entregue do ponto A para o ponto B porque é que não vão vocês mesmo levá-lo de carro? – pergunta Y.T. – Porem-no num desses vossos Lincolns pretos – ‘Town Cars’ – e ter a coisa feita?”

“Porque neste caso a ‘qualquer coisa’ não nos pertence exactamente e o pessoal no ponto A e no ponto B, bem, não estamos necessariamente nas melhores relações, mutuamente falando.”

“Vocês querem-me pôr a afanar alguma coisa” – diz Y.T.

O homem com o olho de vidro está dorido, ferido – “Não, não, não.   Miúda, escuta.   Nós somos a porra da Máfia.   Se nós queremos roubar algo, nós já sabemos como fazer isso, okay?   Não precisamos de uma miúda de quinze anos para nos ajudar a roubar nada.   O que estamos a fazer aqui é uma operação encoberta.”

“Uma coisa de espiões.”   Inform.

“Yeah.   Uma coisa de espiões – diz o homem, o seu tom de voz sugerindo que está a tentar divertir alguém – e a única maneira de pôr esta operação a funcionar é se tivermos um Korreio que possa cooperar connosco só um bocadinho.”

“Então todo aquele entretém com o Uncle Enzo não passou de uma montagem – diz Y.T. – estavam só a tentar ficarem todos amiguinhos de uma Korreio.”

“Oh, oh, ouçam-me isto – diz o tipo do olho de vidro, genuinamente divertido – Yeah, como se tivéssemos galgado isto tudo só para impressionar alguém de quinze anos.   Olha miúda, há milhões de Korreios lá fora a quem podíamos dar umas ‘luvas’ para fazer isto.   Vamos alinhar contigo, de novo, porque tens já uma relação pessoal com a nossa actividade.”

“Bem, o que é que vocês querem que eu faça?”

“Exactamente o que farias normalmente neste ponto – diz o homem – vais ao Griffith Park e efectuas a recolha.”

“É isso?”

“Yeah.   E depois procedes à entrega.   Mas faz-nos um favor e tomas a estrada I-5, okay?”

“Não é a melhor via para isso...”

“Mas faz assim, de qualquer forma.”

“Okay.”

“Agora vamos, iremos escoltar-te deste buraco infernal para fora.”

 

Às vezes, se o vento soprar da maneira correcta e alcançarmos a bolsa de ar por trás de um galopante camião, daqueles ‘dezoito rodados’, nem sequer tens que te agarrar a ele.   O vácuo, como um poderoso aspirador, suga-te para a frente.   Podes aguentar-te aí o dia todo.   Mas se te distrais e lixas esse equilíbrio, subitamente podes ver-te ali sozinho e sem impulso no meio da faixa da esquerda de uma auto-estrada, um comboio de semi-reboques mesmo já em cima de ti.   Tão mau como isso é se te deixares entregue a essa poderosa sucção, puxar-te-á direitinho por baixo dos guarda-lamas e num ápice és roupa para aqueles eixos e ninguém se dará conta disso sequer.   É o que chamamos de  disco MagnaPoon ‘Hoover’!   Isto relembra a Y.T. como tem sido o seu modo de vida desde aquela noite fatídica da aventura com a pizza de Hiro Protagonist.

O seu disco magnético mágico não falha conforme ela fisga o seu caminho pela auto-estrada de San Diego acima.   Consegue sempre um sólido engate mesmo da mais baratucha ‘econocaixa’ fabricada na China, por mais leve e cheia de lixo plástico-alumínio que seja.   O pessoal também não a chateia.   Ela já estabeleceu o seu próprio espaço sobre o pavimento.

Agora perspectiva ela uma torrente de trabalho.   Terá até que ‘concessionar’ algum dele  ao Roadkill – o ‘Carcacinha’ dela.   E por vezes, só para efectuar ajustes importantes de negócio, terão que se registar nalgum motel algures – que é exactamente o que as pessoas no negócio a sério fazem.   Ultimamente Y.T. tem tentado ensinar a Roadkill como lhe dar uma massagem.   Mas Roadkill nunca consegue passar das espáduas dela antes de perder o controle e começar a comportar-se como um ‘Mister Macho’.   O que de qualquer forma é assim a modos que doce e terno.   E contenta-te, levas aquilo que consegues apanhar.

Esta não é, pela longa distância, a mais directa via para Griffith Park – mas é isto que a Máfia quer que ela faça: tomar a 405, o caminho todo até ao Valley, e aproximar-se então vinda dessa direcção que é a direcção da qual ela normalmente surgiria.   Eles são tão paranóicos.   Tão profissionais.

O LAX – o aeroporto internacional de Los Angeles – passa à esquerda dela.   À direita consegue um relance do U-Stor-It onde o lacaiozinho do seu parceiro estará provavelmente d’óculos ligados ao computador.   Ela move-se sinuosamente por entre os fluxos daquele complexo tráfego em redor do aeroporto Hughes, que é agora um posto avançado e privado da ‘Hong Kong Maior de Mr. Lee’.   Continuando, passa pelo aeroporto de Santa Mónica, que acaba de ser adquirido pela Segurança Global do Almirante Bob.   Corta depois através do meio da Fedlândia onde a sua mãe vai diariamente trabalhar.

A Fedlândia costumava ser o local do Hospital V.A. e de um punhado de outros edifícios federais.   Agora encontra-se condensada numa ‘pastilha’ em forma de rim que abraça ali a 405.   Tem uma barreira a toda a volta, uma vedação periférica formada por correntes encadeadas, concertinas de arame farpado, pilhas de pedregulhos e barreiras separadoras que vão de um edifício ao seguinte.   Todos os prédios na Fedlândia são grandes e feios.   Seres humanos amontoam-se ali de volta das bases das colunas envergando fatos em lã da cor de granito ensopado.   Surgem ossudos e em tons escuros ali por baixo da brancura majestosa dos edifícios.

No lado mais longínquo da barreira, da Fedlândia para a direita, ela consegue descortinar a UCLA – a Universidade da Califórnia e Los Angeles – que é agora dirigida conjuntamente pelos japoneses e pela ‘Hong Kong Maior de Mr. Lee’ e por algumas grandes corporações americanas.

As pessoas dizem que depois disso mas à esquerda, em Pacific Palisades, existe um enorme edifício sobranceiro ao oceano onde a Central Intelligence Corporation tem a sua sede da costa ocidental.   Brevemente – podia ser já amanhã – ela ainda irá até lá e descobrirá esse prédio, talvez passar só por ele e acenar.   Ela agora tem já um lote apreciável de bom material para contar a Hiro.   Belíssima ‘intel’ acerca de Uncle Enzo.   O pessoal poderá pagar milhões por aquilo.

Mas no seu coração ela está já a sentir os espasmos da consciência.   Sabe que com a Máfia não há lugar a isso de beijá-los e dar com a língua nos dentes de seguida.   Não porque tenha receio deles.   Mas porque confiam nela.   Foram fixes para ela.   E quem sabe, isto pode dar em qualquer coisa mais.   Uma carreira melhor do que poderia obter com a CIC.

Não há muitos veículos a escolher a rampa de saída para a Fedlândia.   A sua mãe fá-lo todas as manhãs tal como um monte de outros Feds.   Mas todos os Feds vão trabalhar cedinho e ficam até tarde.   É uma coisa de lealdade que bule com eles.   Os Feds têm um fetichismo por lealdade – uma vez que não ganhas nenhuma pipa de massa ou se adquire um respeito por aí além, tens que provar que tens um envolvimento pessoal e que não te importas com todos esses adereços.

Um reparo: Y.T. tem-se mantido atrelada ao mesmo táxi todo o caminho desde o LAX e que transporta um árabe no banco de trás.   A sua túnica saindo pela janela aberta esvoaça ao vento.   O ar-condicionado não funciona, um táxizeco de L.A. não faz dinheiro suficiente para comprar produto refrigerante – Freon – no mercado clandestino.   Isto é típico: só os Feds é que fariam um visitante apanhar um daqueles sebentos táxis ‘desar-condicionados’.

E é mais que óbvio, o táxi envereda pela rampa assinalada com ‘United States’.   Y.T. desengaja-se do atrelanço e chapa o disco magnético contra um camião de entregas apontado ao Valley.

No topo do maciço edifício federal um punhado de Feds com walkie-talkies e óculos escuros e blusões com FEDS escrito escondem-se apontando longas lentes aos pára-brisas dos veículos que se aproximam pelo Wilshire Boulevard.   Se fosse de noite provavelmente ela iria ver um scanner laser a passar sobre a chapa de matrícula do táxi em código de barras ao ele guinar para a saída de acesso aos EUA

A mamã de Y.T. já lhe contou tudo sobre estes gajos.   São do EBGOC – Executive Branch General Operation Command (Secção Executiva do Comando de Operações Gerais).   O FBI, Mashalls Federais, Serviço Secreto e Forças Especiais, todos eles clamam ter ainda uma identidade própria, específica, como o Exército, Marinha e Força Aérea costumavam fazer, mas estão todos sob o comando do EBGOC, todos fazem as mesmas coisas e são todos mais ou menos intercambiáveis.   Fora da Fedlândia todos os conhecem simplesmente como FEDS.   O EBGOC reclama o direito de poder ir a qualquer lugar, em qualquer altura, dentro das fronteiras originais dos Estados Unidos da América, sem qualquer mandato ou mesmo uma boa desculpa.   Mas realmente só aqui é que se sentem à vontade, em casa, na Fedlândia, espiolhando através do cano de uma teleobjectiva, de um microfone-caçadeira ou de uma espingarda de sniper.   E o mais comprido melhor.

Na rua por baixo deles o táxi com o árabe no banco traseiro abranda para velocidade inferior à da luz e ciranda no seu caminho por ali às curvas naquele percurso em slalom de barreiras separadoras com ninhos de metralhadoras calibre .50 estrategicamente situados aqui e ali.   Vem imobilizar-se perante um sistema STD – os ‘rebenta pneus’- e entra na plataforma de ligação esparramada sobre um poço aberto onde a rapaziada do EBGOC permanece com cães e poderosos holofotes para espreitarem pelas saias daquilo acima à procura de bombas ou agentes NBCI (NBQI: nucleares-biológicos-químicos-informacionais) colocados no chassis.   Entretanto o condutor sai e abre capota e bagageira para que mais Feds venham e inspeccionem.   Outro Fed debruça-se para a janela próxima do árabe e interroga-o a fundo através dela.

Dizem que em D.C. (Washington) todos os museus e monumentos terão sido concessionados a outros e transformados em parque turístico o que gera agora cerca de 10 por cento das receitas governamentais.   Os Feds podiam eles próprios tratar das concessões  daquilo e provavelmente arrecadarem uma maior receita mas essa não é a questão.   A coisa é mais filosófica.   Um regresso às coisas básicas.   O governo deve governar.   Não está na indústria do entretenimento, ou está?   Deixe-se o entretenimento aos bizarros da indústria, gente que se destaca no sapateado.   Os Feds não são dessa estirpe.   Feds são gente a sério.   Gente do topo, cabeçudos poli sci – da ciência política.   Presidentes de concelhos de estudantes.   Secretários de clubes de debate.   O tipo de pessoa que tem a coragem de vestir um escuro fato de lã e ter um colarinho bem abotoado mesmo quando a temperatura é de estufa, já na casa dos quarenta graus, e a humidade é suficientemente densa para fazer despenhar um ‘jumbo’ 747.   O tipo de gente que se sente mais em casa a espreitar resguardado do lado oculto de um espelho de observação.

23

Às vezes para provar a sua masculinidade, rapazes à volta da idade de Y.T. metem-se a caminho do extremo oriental de Hollywood Hill, até Griffith Park, tomam uma das ruas à escolha e simplesmente metem-se por ela até ao fim.   Fazer essa jornada através daí e sair incólume é um pouco como contar disparos de um campo de batalha em High Plains.   Simplesmente como se chegares ali tão perto do perigo te fizesse a ti mais homem.

Por norma, tudo o que eles conseguem ver são as ruas de entrada.   Se guiares até Griffith Park para alguma animação da maior, e vires um sinal de SEM SAÍDA, aí sabes que é tempo de pôr o Accord do papá em marcha atrás e muita rápido daí para fora em marcha à ré até casa o motor a esgalhar a passar no conta-rotações o fim do tacómetro.

Naturalmente, assim que Y.T. entra no parque seguindo a estrada que lhe foi dito para seguir, depara com um desses SEM SAÍDA.

Y.T. não é a primeira Korreio a efectuar um trabalho destes e assim já ela ouviu sobre o local para onde se dirige.   É um estreito canhão natural acessível apenas através desta mesma estrada, e lá ao fundo, na base, habita um novo ‘gang’.   Todos lhes chamam os ‘Falabalas’ porque é como parecem falar uns com os outros.   Têm a sua própria linguagem e aquilo soa como um balbuciar.

Mas agora, mais importante, é não pensar como isto é estúpido.   Fazer uma decisão correcta está em ordem de prioridade lá em baixo na escala juntamente com a preocupação de ter niacina – Vitamina B – suficiente ou escrever uma carta de agradecimento à avó pelos lindos brincos de pérola.   A única coisa importante agora é não voltar atrás.

Uma fiada de ninhos de metralhadora marca a fronteira do território Falabala.   Aquilo para Y.T. parece dimensionado para uma matança excessiva.   Mas pronto, ela também nunca esteve em conflito com a Máfia.   Ela leva as coisas com calma, avança em direcção à barreira aí a uns quinze quilómetros à hora.

É por aqui que se fosse caso disso ela entraria em descontrole e ficaria toda assustada.   Empunha agora destacadamente um documento ‘faxado’ a cores da RadiKS exibindo o seu logo cibernético – parece uma raiz – proclamando que ela está aqui realmente para recolher uma importante encomenda, a sério!   Isto com estes gajos não vai funcionar.

Mas funciona.   Uma enorme e saliente serpentina de fita farpada é afastada do seu caminho, tal e qual, e ela desliza por ali adentro sem abrandar.   E é quando percebe que vai tudo correr bem.   Esta gente está aqui como estão todos os outros, a tentar manter um negócio a girar.

Ela nem tem que penetrar mais para o interior desse ‘canyon’ natural a bordo dos skates.   Graças a Deus.   Efectua algumas voltas em redor até um género de solo plano numa clareira ali rodeada pelas árvores e encontra-se no que mais parece ser como um asilo para loucos a céu aberto.   Ou um festival Moonie ou qualquer coisa assim.

Estão por aí umas duas dúzias de pessoas.   Nenhuma delas parece cuidar do respectivo aspecto.   Todos a vestirem restos remendados do que antes haviam sido roupas bem decentes.   Meia dúzia deles estão de joelhos com as mãos postas, enclavinhadas fortemente uma na outra, murmurando para entidades invisíveis.

Na tampa da bagageira de um carro de sucata montaram um velho terminal de computador, lixo, aquilo é um écran de monitor apagado com uma racha que parece uma teia de aranha, como se alguém tivesse atirado uma caneca de café contra o vidro.   Um homem gordo de suspensórios vermelhos tombados balançando-lhe aos joelhos, faz correr as mãos para cima e para baixo ao longo dos teclados batendo ao calhas sobre as teclas e falando alto numa incompreensível algaraviada.   Um par de outros mantém-se por trás dele espreitando-lhe sobre o ombro e à volta do corpo, e algumas vezes querem eles próprios encornar até ali, mas ele enxota-os de lá para fora.

Há também uma multidão de gente a bater com as mãos e acompanham as palmas oscilando o corpo, cantando ‘O Caminhante Feliz’.   Eles estão mesmo metidos naquilo.   Y.T. não vê um embevecimento infantil daqueles no rosto de alguém desde a primeira vez que deixou Roadkill tirar-lhe as roupas.   Mas este é um tipo diferente de embevecimento infantil que não parece muito de acordo  com um punhado de gente com trinta e tal anos e cabelo porco.

E finalmente há esse gajo que Y.T. alcunha como o Alto Sacerdote.   Veste uma bata de laboratório que já terá sido branca, ostentando o logotipo de uma companhia qualquer da área da baía.   Está para ali a dormitar na caixa de uma carrinha station que não passa de sucata, mas quando Y.T. entra na zona pula e corre para ela de uma maneira que ela não classifica senão como seja um pouco ameaçadora.   Mas comparado com esses outros ele até parece como um simples demente-psicopata residente dos bosques, saudável e arranjado.

“Estás aqui para levares uma mala, certo?”

“Estou aqui para levar algo.   Não sei o que seja” – diz ela.

Ele dirige-se a um dos veículos de sucata, destranca o capot e retira uma pasta em alumínio.   Parece-se exactamente com a outra que Squeaky tirou do BMW na noite passada.   “Aqui está a tua entrega” – diz avançando para ela com passadas largas.   Ela por sua vez recua dele instintivamente.

“Entendo, eu entendo – diz ele – que seja um bicharoco assustador.”

Ele pousa a mala no solo, colocou-lhe o pé em cima e manda-lhe um empurrão.   A pasta desliza pelo pavimento até Y.T. ressaltando nalguma pedrita ocasional.   “Não há grande pressa nesta entrega – diz ele – não gostavas de ficar um pouco para uma bebida?   Temos Kool-Aid.”

“Gostaria – diz Y.T. – mas a minha diabetes tem andado mesmo mal.”

“Bem, então podes ficar apenas, e ser uma hóspede aqui da nossa comunidade.   Temos uma série de coisas maravilhosas para te contar.   Coisas que podem na verdade mudar a tua vida.”

“Não têm nada disso em papel?   Qualquer coisa que dê para levar comigo?”

“Xiii, lamento mas não temos.   Porque é que não ficas?   Pareces mesmo uma pessoa bem fixe.”

“Desculpa pá, mas deves-me estar a confundir com alguma bimba – diz Y.T. – Obrigada pela mala.   ‘tou a dar o fora.”

Y.T. começa a arranhar com um pé pelo pavimento a ganhar velocidade tão rápido quanto possível.   No caminho de saída cruza-se com uma mulher jovem com a cabeça rapada, vestida nos restos sujos e esfarrapados de um conjunto ‘Channel’.   Conforme Y.T. passa por ela a outra ri-se de um modo vazio, estica a mão acenando.   “Olá – diz ela – ba ma zu na la amu pa go lu ne me a ba du.”

“Yô!” – diz Y.T.

 

Um par de minutos mais tarde vai ela arpoando o seu caminho I-5 acima apontada à Valley-lândia.   Está um pouco destrambelhada, o timing a fugir, mas agarra uma calma.   Uma frase continua a bailar-lhe na cabeça – ‘O Caminhante Feliz’.   Isto está a torná-la louca.

Um borrão preto e grande mantém-se perto ali na via.   Seria um alvo tentador, tão grande e ferroso, se fosse um bocadinho mais rápido.   Mas ela pode fazer um tempo melhor do que esta barcaça mesmo quando está sem pressas.   A janela do lado do condutor do carro preto abre-se agora.   É o gajo.   Jason.   Enfia toda a cabeçorra para fora da janela para olhar para trás para ela, guiando às cegas.   O vento a oitenta à hora não lhe desmancha o cabelo firmemente fixado com gel e aparado à navalha.

Ele sorri.   Há um olhar implorante que emana dele, a mesma expressão que Roadkill consegue fazer.   E sugestivamente aponta para o painel dos quartos-traseiros da viatura.

Que diabo.   A última vez que se atrelou a este gajo ele levou-a directamente para onde ela ia.   Y.T. solta-se do Acura a que se encontra atrelada pelos últimos oitocentos metros e volta agora o disco magnético para o gordo Olds do Jason.   E Jason leva-a dali da auto-estrada para o Victory Boulevard, em direcção a Van Nuys, o que está correcto.

Mas após uns três quilómetros ele torce violentamente o volante para a direita e chia através do parque de estacionamento de um centro comercial fantasma, o que não bate certo.   Não há nada lá estacionado agora a não ser um desses camiões de dezoito rodas - o motor ainda a ronronar – e com SALDUCCI BROS. MOVING & STORAGE pintado nos lados.

“Vamos – diz Jason saindo do seu Oldsmobile – não queres perder tempo.”

“Vai-te lixar, palerma” – diz ela enrolando o cabo do disco e olhando para trás para o ‘boulevard’ à cata de algum tráfego promissor apontado a oeste.   O que quer que seja que este gajo tenha em mente é provavelmente de uma forma não profissional.

“Minha jovem senhora – diz outra voz de mais idade e de mais cativante tom – está fixe se não gramar de Jason.   Mas o seu amigo Uncle Enzo precisa do seu auxílio.”

Abriu-se uma porta na parte de trás do semi-reboque.   Um homem de fato preto aguarda aí.   Atrás dele o interior do ‘semi’ está profusamente iluminado.   A luz de halogéneo reflecte-se da lisura daquele penteado do homem.

Mesmo com esta contraluz ela consegue ver que é o homem do olho de vidro.

“O que é que queres?” – diz ela.

“O que eu quero – diz ele mirando-a de alto a baixo – e o que eu preciso, são coisas diferentes.   Agora mesmo estou a trabalhar, veja, o que quer dizer que o que eu quero não é importante.   O que eu preciso é que se meta aqui neste camião mais a sua prancha e aquela mala.”

Depois acrescenta:   “Achas que consegues perceber?” – ele pergunta aquilo quase retoricamente, como se presumisse que a resposta fosse não.

“É a sério” – diz Jason, como se Y.T. estivesse pendurada da sua opinião.

“Bem, aí está” - diz o homem do olho de vidro.

Y.T., é suposto ela estar a caminho de uma franchise da Reverend Wayne’s Pearly Gates.   Se ela lixar esta entrega quer dizer que estará a trair Deus, que pode existir ou não existir, e em qualquer caso é capaz de perdoar.   A Máfia, definitivamente que existe, e adere a um mais alto patamar de obediência.

Entrega o material que traz com ela – a prancha e pasta de alumínio – ao homem com o olho de vidro, e iça-se para a traseira do ‘semi’ ignorando a mão que ele lhe oferece.   Ele recua rápido mas mantém ali a mão para a qual olha a ver se há algo de errado com ela.   Ao tempo que os pés dela abandonam o solo o camião está já a mover-se.   E na altura em que a porta é corrida para baixo a fechar-se atrás dela já eles se meteram pelo ‘boulevard’.

“Só preciso de realizar uns testes a esta tua entrega” – diz o homem do olho de vidro.

“Já alguma vez pensou em apresentar-se?” – diz Y.T.

“Ná – diz ele – o pessoal esquece sempre os nomes.   Podes lembrar-te de mim precisamente como ‘aquele tipo’, p’cebes?”

Y.T. não está propriamente a escutar.   Observa é o interior do camião.

O atrelado deste transporte consiste interiormente de uma única sala comprida e estreita.   Y.T. acaba de trepar a bordo pela sua única entrada.   Neste lado de cá daquele espaço um par de gajos da Máfia andam a cirandar como sempre fazem.   A maior parte da sala encontra-se preenchida por electrónica.   Enormes aparelhos electrónicos.

“Vamos só executar algum trabalho de computador, p’cebes” – diz ele passando a pasta precisamente a um tipo dos computadores.   Y.T. sabe que ele é um ‘tipo dos computadores’ por causa do cabelo comprido que ele tem - apanhado num rabo de cavalo - vestir jeans e parecer gentil.

“Hey!   Se alguma coisa acontece a isso ‘tou lixada e bem lixada” – diz Y.T.   Está a tentar soar a forte e corajosa, mas é um feito inútil nestas circunstâncias.

O homem do olho de vidro está como que chocado.   “O que é que pensas que eu sou, algum tipo incrivelmente estúpido de cabeça d’alho chocho? – diz ele – Merda, era só o que eu precisava, a tentar explicar ao Uncle Enzo como é que consegui que esta pequenina coelhinha fosse alvejada nas rótulas.”

“É um procedimento não-intrusivo” – diz o gajo do computador numa voz plácida e líquida.

O tipo do computador faz rodar a mala às voltas na sua mão umas poucas de vezes apenas para tomar a sensação daquilo.   Depois fá-la deslizar para um grande cilindro aberto no topo e que repousa sobre uma mesa.   As paredes do cilindro terão uma espessura de uns cinco centímetros.   Nuvens geladas parecem nascer daquela coisa.   Gases misteriosos continuamente a deslizarem para fora como colheradas de leite despejadas sobre água turbulenta.   Os gases mergulham sobre a mesa e derramam-se para o chão onde fazem como que uma pequena carpete de nevoeiro que flui e floresce em torno dos sapatos deles.   Quando o gajo do computador a coloca no lugar recolhe abruptamente a mão daquele frio.

E enfia depois um par de óculos de computador.

E é tudo o que há a fazer por agora.   Apenas ali sentado, por alguns minutos.   Y.T. não é uma pessoa de computadores mas sabe que algures por trás dos armários e portas nas traseiras deste camião, haverá um grande computador a fazer uma série de coisas neste preciso momento.

“É como um scanner, um TAC – diz o homem do olho de vidro usando o mesmo tom de voz tranquilo como um locutor desportivo reportando um torneio de golfe – só que lê aquilo tudo, percebes” – diz ele rodando as mãos impacientemente em círculos que parecem tudo abarcar.

“Quanto é que custa?”

“Não sei.”

“Como é que se chama?”

“Na verdade ainda nem tem um nome.”

“Bem, quem é o fabricante?”

“Nós é que construímos esta maldita coisa – diz o homem do olho de vidro – apenas nas duas últimas semanas.”

“E é para quê?”

“Já estás a fazer muitas perguntas.   Olha.   És uma criança esperta.   Quer dizer, uma miúda dos diabos.   Um achado.   Mas não fiques a pensar que és demasiado importante, nesta etapa.”

Nesta etapa.   Hummm.

24

Hiro encontra-se no seu 6 por 9 metros do U-Stor-It.   A passar um pouco de tempo na Realidade, como por sugestão da sua parceira.   A porta mantém-se aberta de maneira que a brisa oceânica e os fumos de exaustão dos jactos podem entrar à farta por ali adentro.   Todo o mobiliário – os futons (aqueles colchões japoneses no chão), a mesa em palete de carga, a mobília de blocos de cinza prensada - tudo foi empurrado para as paredes.   Na mão ele segura uma coisa com quase um metro, é uma pesada peça, uma barra de construção civil com fita a envolver uma das extremidades de forma a constituir um punho.   A barra assemelha-se a uma katana mas é muito mais pesada.   Ele chama-lhe a katana de imitação.

Descalço, está na atitude de kendo.   Ele devia envergar uns volumosos ‘colottes’ até ao fim das pernas e uma pesada túnica índigo que é o uniforme tradicional, mas em vez disso limita-se a uns shorts interiores.      O suor escorre-lhe costas abaixo - suavemente musculadas as costas dele, em tom café-com-leite - e entranha-se, explora a clivagem existente ao fundo delas.   Bolhas do tamanho de uvas verdes começam a formar-se no joanete do pé esquerdo.   Hiro tem coração e pulmões bem desenvolvidos e foi abençoado com reflexos rápidos, fora do comum, mas não é intrinsecamente forte do estilo que o pai era.   Mesmo que fosse intrinsecamente forte, manusear aquela imitação de katana seria bem difícil.

Está inundado de adrenalina, nervos estimulados, e a mente desordenada com a ansiedade, a correr livremente fluindo por um oceano generalizado de terror.   Movimenta-se para trás e para diante ao longo do eixo de nove metros daquele espaço.   De tempos a tempos acelera, ergue bem a katana fingida acima da cabeça até que fique a apontar para trás e então trá-la abaixo bruscamente, sacudindo os pulsos no último instante para que se detenha ali a meio da trajectória.   E é então que diz – ‘O próximo!’.

Teoricamente.   De facto aquela katana de treino é difícil de parar uma vez posta em movimento.   Mas é um bom exercício.   Os seus antebraços parecem-se com feixes de cabos de aço.   Quase.   Bem, parecerão quase isso, em breve, de qualquer modo.

Os nipónicos não alinham nessa coisa sem sentido sobre levar o golpe até ao fim.   Se atingires um homem no topo da cabeça com uma katana e não fizeres qualquer esforço para travar a lâmina ela divide-lhe o crânio ao meio e provavelmente fica ali encravada ao nível das clavículas ou na sua pélvis e estarás então no meio de um campo de batalha medieval com um pé no rosto do teu ex-oponente a tentar desencaixar o aço e já aí vem o melhor amigo do gajo a correr para ti com um certo laivo de vingança a brilhar-lhe no olhar.   Assim o plano é o de levar a lâmina a uma paragem total logo a seguir ao impacto, rebentar-lhe talvez a caçarola dos miolos até três ou cinco centímetros de fundura e depois chicotear o aço dali para fora e procurar outro samurai.   Daí, o ‘Próximo!’.

Tem-se posto a matutar sobre o que aconteceu mais cedo esta noite com o Raven, o que facilmente lhe tirou o sono, e aí está porque é que se encontra para aqui a treinar com esta katana fingida às três da manhã.

Sabe que estava totalmente desprevenido.   A lança apenas avançava para ele.   Com a lâmina desferiu-lhe uma sapatada.   E aconteceu atingi-la na altura própria e ela não lhe acertou.   Mas fê-lo praticamente ‘desligado’, sem consciência.

Talvez seja assim que os grandes guerreiros o fazem.   Indiferentemente, sem arruinar a mente com as consequências.

Talvez esteja ele próprio a lisonjear-se.

 

Nos últimos minutos tem-se vindo a escutar mais alto o som de um helicóptero.   Embora Hiro resida ali encostado ao aeroporto isto é fora do habitual.   Não é suposto eles voarem mesmo próximo ao LAX pois isso levanta questões prementes de segurança.

E não pára de se intensificar até que se torna mesmo muito alto e nesta altura o helicóptero está a pairar uns pés acima do parque de estacionamento mesmo em frente ao 6 por 9 de Hiro e Vitaly.   É um heli a jacto bonito, de uma companhia, em verde escuro, e traz os respectivos dísticos.   Hiro suspeita que com melhor iluminação será capaz de discernir ali o logo de uma das corporações do ramo da defesa, mais provavelmente do ‘Sistema de Defesa do General Jim’.

Um homem branco de face pálida e com uma testa-e-careca bem alta distingue-se a saltar para fora do heli  demonstrando ser um pouco mais atlético que o seu rosto e aspecto geral deixariam supor, e corre através da placa de estacionamento apontado na direcção de Hiro.   Este é o tipo de gajo de que Hiro se recorda dos tempos em que o pai estava na tropa – não aqueles veteranos cheios de cartilagens, lendários e dos filmes, apenas aquele género de gajos da tropa regular de trinta e cinco anos em uniformes inchados.   É um major.   O nome costurado no BDU (Battle Dress Uniforme)  - o uniforme camuflado de combate - é Clem.

“Hiro Protagonist?”

“O próprio.”

“A Juanita enviou-me para o vir buscar.   Ela disse que você reconheceria o nome.”

“Sim, reconheço.   Mas na verdade não trabalho para a Juanita.”

“Ela diz que agora trabalha.”

“Bem, isso é porreiro – diz Hiro – Portanto, calculo que seja mais ou menos urgente?”

“Penso que seja uma boa conclusão” – diz o major Clem.

“Posso gastar só uns minutos?   Tenho estado a treinar e preciso de ir aí ao lado.”

O major Clem olha para a porta ao lado.   O logotipo seguinte ali na rua exibe ‘The Rest Stop’ – Paragem & Descanso.

“A situação está razoavelmente estática.   Pode demorar cinco minutos” – diz o major Clem.

Hiro tem conta corrente no ‘The Rest Stop’.   Para residir ali no U-Stor-It praticamente tens que ter uma conta aberta.   Assim ele ultrapassa o escritório na frente de loja onde alguém do atendimento aguarda junto à registadora.   Empurra o seu cartão de membro por uma ranhura e um écran de computador activa-se com três escolhas:

M
         F

TRATAMENTOS (UNISEXO)

Hiro empurra o botão ‘M’.   Aí o écran passa a um menu de quatro opções.

·        AS NOSSAS INSTALAÇÕES LIMITADAS, ESPECIAIS – RESTRITAS MAS HIGIÉNICAS

·        INSTALAÇÕES STANDARD – TAL COMO EM CASA, ATÉ TALVEZ UM POUCO MELHOR

·        INSTALAÇÕES DE PRIMEIRA – GRACIOSO LOCAL PARA O CLIENTE DISTINTO

·        LAVATÓRIO ‘GRANDE ROYALE’

Tem que descartar um bem treinado reflexo para evitar que accione automaticamente o ‘Instalações limitadas especiais’, que é o que ele e todos os outros residentes ali do U-Stor-It sempre usam.   É quase impossível usar essa opção e não entrar em contacto com os fluidos corporais de mais alguém.   Não é uma perspectiva agradável.   Não de todo graciosa.   Em vez disso – que porra, se Juanita vai contratá-lo, não é? – martela o botão para Lavatório ‘Grande Royale’.

Nunca aqui esteve antes.   É como qualquer coisa no andar cimeiro de um alto casino de luxo em Atlantic City onde metem adultos semi-retardados de South Philly[17] após se terem espalhado no mega-jackpot.

Tem tudo o que um estupidificado jogador patológico pode identificar como luxo: aplicações em casquinha de ouro, quantidades desse pseudomármore feito em moldes por injecção, cortinas em veludo e um mordomo.

Nenhum dos residentes do U-Stor-It alguma vez utilizou o Lavatório ‘Grande Royale’.   A única razão para existir ali é que acontece o lugar estar mesmo do outro lado da rua em relação ao LAX.   Qualquer CEO - (Chief Executive Officer) Administrador Executivo Principal – vindo de Singapura que queira tomar um duche e dar uma boa cagada nas calmas com todos os efeitos sonoros sem ter que levar com o ruído e cheiro dos outros viajantes a fazer o mesmo, pode vir aqui e meter a despesa no cartão de viagem da companhia.

O mordomo é um centro-americano de uns trinta anos cujos olhos têm uma aparência um pouco engraçada como se tivessem estado fechados num bom número das  últimas horas.   Está a atirar para cima do próprio braço algumas toalhas assombrosamente grossas quando Hiro irrompe por ali.

“Tenho q’entrar e sair em dez minutos” – diz Hiro.

“Quer fazer a barba?” – diz o mordomo.   Dá umas palmadas sugestivamente nas suas próprias bochechas, incapaz de situar o grupo étnico de Hiro.

“Gostaria.   Não há tempo.”

Descasca os seus shorts desportivos, atira as espadas para cima de um sofá em veludo amarrotado e mete-se naquele anfiteatro marmoreado da cabina do chuveiro.   A água quente atinge-o logo vinda de todas as direcções.   Na parede há um manípulo redondo regulador para que possas escolher a tua temperatura favorita.

Posteriormente, ele bem que gostava de aliviar a tripa e ler algumas daquelas revistas lustrosas e grandes que nem listas telefónicas ali ao lado da cagadeira ‘high-tech’, mas tem que abalar.   Seca-se com uma toalha fresca do tamanho de uma tenda de circo, saca algumas calças soltas de uma correnteza delas aí à disposição e mais uma T-Shirt, atira alguns kongbuks de gorjeta ao mordomo e abala dali para fora com as espadas à cinta.

 

É um voo curto, principalmente porque o piloto militar se satisfaz em sacrificar o conforto em prol da velocidade.   O heli descola num ângulo reduzido e mantém-se a voar baixo de modo a que não seja sugado por algum jacto ‘jumbo’, e logo que o piloto adquire espaço de manobra imprime um torção à cauda e baixa o nariz do aparelho. Depois deixa que o rotor os puxe devidamente para cima e para diante através da baía em direcção àquela enorme massa esparsamente iluminada de Hollywood Hills.

Mas eles detêm-se antes de atingir os H. Hills, terminam o voo no terraço de um hospital.   Faz parte da cadeia de hospitais ‘Misericórdia’ o que tecnicamente faz daquilo espaço aéreo do Vaticano.   Pronto, isto é como se tivesse ‘Juanita’ escrito por ali, por todos os cantos.

“Serviço de Neurologia – diz o major Clem, debitando esta torrente de palavras como uma ordem – Quinto andar, ala leste, quarto 564.”

 

O homem na cama de hospital é Da5id.

Extremamente fortes e largas correias de couro foram estendidas através da cabeceira e pés da cama.   Algemas de couro revestidas em fofa pele de carneiro estão presas às tiras.   E são essas braçadeiras que foram apertadas à volta dos pulsos e pernas de Da5id.   Ele tinha vestido um robe de hospital que na maior parte está para ali tombado.

A pior coisa é os seus olhos nem sempre apontarem na mesma direcção.   Encontra-se ligado a um aparelho de ECG – electrocardiograma – que vai traçando o seu ritmo cardíaco e embora Hiro não seja um médico consegue ver que aquilo não tem um padrão regular.   Bate demasiado rápido, depois acaba por não bater de todo, então soa um alarme e de seguida volta de novo a pulsar.

Está completamente inexpressivo, os olhos sem estarem fixos em nada.   Ao princípio Hiro pensa que o corpo dele esteja em descanso e relaxado.   Mas visto de mais perto apercebe-se que Da5id está tenso e a tremer, a pele luzidia com a transpiração.

“Introduzimos-lhe um pacemaker temporário” – diz uma mulher.

Hiro volta-se.   É uma freira que aparenta também ser uma cirurgiã.

“Há quanto tempo está assim em convulsões?”

“A sua ex-mulher chamou-nos, disse que estava preocupada.”

“Juanita.”

“Sim.   Quando os paramédicos chegaram estava ele caído da cadeira, lá em casa, e em convulsões no chão.   Pode ver aqui nas costelas uma marca onde pensamos que o computador dele ao cair da mesa o atingiu.   Portanto para o protegermos de danos ulteriores fixámo-lo a quatro pontos.   Mas na última meia hora tem estado assim, como se todo o corpo estivesse em fibrilação.   Se se mantiver na mesma retiraremos as correias.

“Ele estava a usar os óculos de computador?”

“Não sei.   Mas posso verificar isso.”

“Mas pensa que isto terá acontecido enquanto ele estava d’óculos no computador?”

“Realmente não sei, sir.   Tudo o que sabemos é que arranjou uma arritmia cardíaca tão má que tivemos que lhe implantar esse pacemaker temporário mesmo ali no chão do escritório.   E demos-lhe medicação contra ataques cardíacos que não fez efeito.   Pusémo-lo depois a  tranquilizantes para acalmá-lo o que funcionou ligeiramente.   Já lhe metemos a cabeça numa série de maquinaria de imagem para ver qual seria o problema.   A junta médica está ainda a analisar isso.

“Bem, vou dar uma olhada à casa dele” – diz Hiro.

A médica encolhe os ombros.

“Informem-me quando sair desta situação” – diz Hiro.

A isto a médica não responde.   Pela primeira vez Hiro sente que a condição de Da5id possa não ser temporária.

Conforme Hiro caminha para fora em direcção ao corredor, Da5id põe-se a falar – “e ne em ma ni a gi a gi ni um ma ma dam e ne em am na ki ga a gi a gi...”

Hiro volta-se e olha.   Da5id está agora frouxo nas correias, parece relaxado, meio a dormir.   Olha para Hiro por entre umas pálpebras semicerradas.   “e ne em dam gal nun na a gi agi e ne em u um un abzu ka a gi a agi...”

A voz de Da5id é profunda e plácida sem qualquer traço de tensão.   As sílabas rolam da sua língua como uma balbúrdia.   Conforme Hiro segue pelo corredor consegue ouvir Da5id falando ininterruptamente.

“i ge en i ge en nu ge en nu ge en us sa tur ra lu ra ze em men…”

 

Hiro regressa ao heli.   Cruzam pelo meio de Beachwood Canyon apontados a direito ao dístico de Hollywood.

A casa de Da5id encontra-se transfigurada pela luz.   Situa-se no final da sua própria álea no topo de uma colina.   A rua foi bloqueada por um veículo estilo jeep que mais parece uma rã achatada e pertencente à ‘General Jim’, uma saturada luz vermelha e azul varrendo e pulsando em redor emana dele.   Um outro helicóptero evolui sobre a casa como que suportado numa turbilhonante coluna de radiância.

Soldados escamoteiam-se e avançam por ali acima e abaixo pela propriedade carregando holofotes de busca portáteis.

“Tomámos a precaução de tornar o perímetro seguro” – diz o major Clem.

Nas franjas de toda esta luz Hiro pode distinguir aquelas cores de morte orgânica que reveste as encostas da colina.   Os soldados como que tentam empurrar essa cor com as suas potentes lâmpadas, incendiá-la dali para fora.

Ele quase que se envolve nela, prestes a tornar-se um único pixel lamacento se avistado da janela de algum avião de passageiros.   Mergulhado na biomassa.

O ‘lap-top’ de Da5id jaz sobre o pavimento junto da mesa em que ele gostava de trabalhar.   Encontra-se rodeado de desperdícios médicos.   No meio disto tudo Hiro acha os óculos de computador de Da5id que terão caído quando ele tombou ao chão ou foram arrastados depois pelos paramédicos.

Hiro pega nos óculos.   Ao levantá-los em direcção aos olhos é que vê a imagem: uma parede de estática a preto-e-branco.   O computador de Da5id entrou em ‘snow crash’.

Fecha os olhos e larga aqueles óculos.   Não podes ser atingido por olhares para um bitmap.   Ou podes?

 

A moradia é um género de castelo modernista com uma alta torre numa das extremidades.   Da5id e Hiro juntamente com o resto dos hackers costumavam ir lá para cima com uma grade de cervejas e um hibachi – o fogareiro a carvão - e passavam a noite inteira a devorar camarão ‘tigre’, bocas de caranguejo e ostras, tudo regado com as tais cervejas.   Agora aquilo está deserto, claro, resta o hibachi, enferrujado, e quase enterrado no grisalho daquelas cinzas como uma relíquia arqueológica.   Hiro já se atirou a uma das cervejas de Da5id que sacara do frigorífico e senta-se agora aqui por uns instantes naquele que costumava ser o seu lugar favorito, sorvendo calmamente a cerveja como antes fazia, ‘lendo’, deduzindo histórias daquelas luzes que dali se avistam.

Os antigos bairros centrais estão atolados, comprimidos, naquela eterna e difusa atmosfera orgânica.   Noutras cidades respiras contaminantes industriais mas em L.A. respiras é aminoácidos.   Esse véu difuso é anelado e rendilhado em fios brilhantes como as linhas quentes da resistência de uma torradeira.

Lá pela embocadura de Beachwood Canyon distingue-se que a luz por aí se vai destacando e definindo em estrelas, aros, letras brilhantes.   Correntes de corpúsculos vermelhos e brancos deslocam-se ao longo das auto-estradas entregues à lógica confusa de luzes de tráfego inteligentes.   Mais longe, dispersos ao longo da marginal da baía, um milhão de logos vívidos espalham-se em sólidos arcos como pontos geométricos aglomerando-se em curvas.   Para ambos os lados dos guettos de franchises o ‘loglo’ desvanece-se ao longo de uns poucos de níveis de anéis de mais baixo desenvolvimento até se diluir em toda uma ténue envolvência espevitada só aqui e ali pelo clarão de algum holofote de segurança num pátio das traseiras de alguém.

Franchises e vírus funcionam segundo os mesmos princípios: o que é bem sucedido num caso pode ser bem sucedido no outro.   Apenas tens que achar um plano de negócio suficientemente virulento, condensá-lo num livrinho-de-três-argolas, o manual, o seu ADN, fotocopiá-lo e plantá-lo no fértil alinhamento de uma bem movimentada auto-estrada, de preferência com faixa que tenha uma curva para a esquerda.   Então o crescimento irá expandir-se até aquilo atingir os limites da propriedade.

Nos tempos de antigamente vagueavas até ao ‘Café da Mamã’ para uma trinca para o bucho e uma caneca de cafézeco e sentias-te mesmo em casa.   Isso funcionava mesmo porreiramente se nunca deixasses o teu lugarejo ou cidade.   Mas se fosses por aí até à cidade seguinte, todos levantariam os olhos e fixar-se-iam em ti ao cruzares a porta de entrada, e o ‘Prato Azul Especial’ deles seria qualquer coisa que não eras capaz de reconhecer.   E se viajasses mesmo muito, em nenhum local te irias sentir como em casa.

Mas quando um homem de negócios de Nova Jérsei vai até Dubuque sabe que pode apostar numa ida ao McDonalds que ninguém fica a olhar para ele.   Pode pedir algo sem sequer ver o menu, e a comida terá sempre o mesmo paladar.   McDonalds é ‘o lar’, condensado num livrinho de três anilhas fotocopiado.   ‘Sem surpresas’ é a palavra de ordem do guetto de franchises, com o selo de  ‘Bom Serviço Doméstico’ subliminarmente marcado em cada símbolo e logo que enforma as curvas e redes de luz que marginam a baía.

As gentes da América, que vivem no mais surpreendente e terrível país do mundo, encontram conforto nesse slogan.   Seguem o ‘loglo’ até às suas periferias onde o seu crescimento se entranha por vales e ‘canyons’ e onde depois podes encontrar a terra dos refugiados.   Escapam assim à verdadeira América, a América das bombas atómicas, da especulação barata, hip-hop, teoria do caos, sapatos com betão, manipuladores de serpentes, assassinos compulsivos, passeios no espaço, saltos em búfalos, atiradores a partir de carros em movimento, mísseis de cruzeiro, Marchas Sherman, engarrafamentos,  gangs de motociclistas e bungee jumping.   Arrumam paralelamente as suas ‘caixas-bimbas’ nos padrões viários dos Segurbúrbios, todos idênticos, desenhados a computador, e eles próprios segregam-se em simétricas tocas emerdadas revestidas sinteticamente, com chão de vinil e madeiramento sem condizer, sem passeios, por essas vastas quintas de casas a perderem-se na vastidão do ‘loglo’, um meio de cultura para uma cultura média.

Os únicos deixados na cidade são os sem abrigo alimentando-se de restos; imigrantes atirados como estilhaços pela destruição das potências asiáticas; jovens vagabundos; o ‘clero’ tecnomediático da ‘Hong Kong Maior de Mr. Lee’.   E a gente jovem inteligente, como Da5id e Hiro, que aceitam o risco de viver na cidade porque gramam de estímulo e sabem que podem lidar com isso.

25

Y.T. ao certo não sabe dizer onde estão.   Fica claro que foram apanhados no meio de um engarrafamento de trânsito   Não era possível prever isto nem coisa parecida.

“Y.T. agora tem que se pôr a caminho” – anuncia ela.

Por um ‘seg.’ não há reacção.   Depois o gajo hacker volta a sentar-se na sua cadeira e mesmo através dos óculos de computador olha para a parede como se fosse aquilo uma bela vista, ignorando a computação em 3D.   “Okay” – diz ele.

Rápido como um manguço o homem do olho de vidro avança que nem um dardo e saca a pasta de alumínio do cilindro criogénico, atira-a para Y.T.   Entretanto um dos deambulantes gajos da Máfia está já a abrir a porta do camião oferecendo-lhes uma visão panorâmica porreira sobre aquele congestionamento no ‘boulevard’.

“Uma outra coisa” – diz o homem do olho de vidro, e enfia um envelope num dos bolsos daquela multitude deles que Y.T. possui.

“O que é isso?” – diz Y.T.

E ele levanta ambas as mãos em atitude auto-protectora.   “Não te preocupes, uma pequena coisinha.   Agora põe t’andar.”

Ele esboça um movimento para o gajo que segura a prancha dela.   O tipo aparenta estar mesmo razoavelmente alerta pois logo lança os skates.   Aterram num ângulo esquisito sobre o chão ali entre eles.   Mas os bastõezinhos inteligentes há muito que ‘viram’ o solo aproximar-se, calcularam todos os ângulos e estenderam-se e flectiram-se já como pernas e pés de um jogador de basket voltando à terra saído de um mergulho monstro.   A prancha aterra sobre os seus pés-rodados inclinando-se ora para um ora para o outro lado, reganha o equilíbrio,  e depois embica até à Y.T. parando mesmo junto dela.

Monta na prancha, impulsiona com o pé umas poucas de vezes e voa através da porta traseira do ‘semi’ para aterrar sobre o capot de um Pontiac que vinha logo atrás e muito perto.   O seu pára-brisas torna-se num escorrega porreiro para deslizar dali e ela consegue ter já a direcção devidamente revertida, para a frente, na altura em que atinge o pavimento.   O dono do Pontiac bem buzina, protesta no que se acha com razão, mas não há maneira de a caçar ali pois o tráfego está totalmente parado.   Milhas em redor Y.T. é a única coisa capaz de movimento.   Que é em primeiro lugar a razão para toda essa existência dos Korreios.

 

A ‘Portões de Pérola do Reverendo Wayne’ # 1106 é relativamente grande.   O seu baixo número de série implica uma avançada idade.   Foi construída há muito quando a terra era barata e os talhões grandes.   O parque de estacionamento está meio lotado.   Habitualmente tudo o que vês numa ‘Reverend Wayne’s’ são velhas carripanas com expressões excêntricas em espanhol traçadas a verniz d’unhas sobre os pára-choques traseiros – as montadas de evangélicos centro-americanos que vieram para norte em busca de trabalho decente e para escapar ao estilo incansavelmente católico da sua terra natal.   Neste parque há também um lote de ‘caixas bimbas’ daquelas mesmo simples, as nossas velhas habituais ‘caixas bimbas’ com placas de matrícula de todos aqueles subúrbios.

Neste troço do ‘boulevard’ o tráfego movimenta-se um pouco melhor, e assim Y.T. chega ao parque de estacionamento com um impulso razoavelmente bom e dá uma ou duas órbitas à volta da franchise para dissipar velocidade.   É difícil resistir a um parque de estacionamento de piso suave quando se vai rápido, e olhando para a coisa por um ponto de vista ligeiramente menos juvenil, é boa ideia tomar uma panorâmica geral, familiarizarmo-nos com o ambiente.   Y.T. apercebe-se de que este parque está ligado ao de uma franchise ‘Chop Shop’ imediatamente a seguir – ‘Transformamos qualquer veículo em CASH em minutos’, é o lema destes – e por sua vez têm o parque deles a fazer ligação com o de um centro comercial vizinho.   Um ‘thrasher’ dedicado poderia provavelmente navegar de L.A. até Nova Iorque limitando-se a deslizar de um parqueamento para o seguinte.

Este local de estacionamento produz nalgumas áreas uns ruídos com estalidos ou de algo a raspar.   Olhando para baixo vê que na parte de trás da franchise junto ao contentor do lixo o asfalto tem por ali espalhados pequenos tubos de vidro como aquele que Squeaky estava a observar na noite passada.   Estão ali espalhados como beatas de cigarro atrás de um balcão.   Quando as solas daqueles pezinhos das rodas passam sobre os tubos fazem-nos disparar dali de baixo raspando pelo  pavimento.

Há gente alinhada do lado de fora da porta à espera de entrar.   E a  atrevida Y.T. salta aquela linha toda e avança para o interior.

 

A sala da frente da Reverend Wayne’s Pearly Gates é idêntica, claro, à de todas as outras.   Uma fila de cadeiras em vinil, almofadadas, onde os fiéis podem aguardar que o seu número seja chamado, uma planta num vaso em cada extremo, e uma mesa por onde se dispersam algumas publicações primevas.   Um cantinho com brinquedos onde os miúdos podem matar o tempo recriando batalhas cósmicas imaginárias com todo aquele plástico feito em moldes injectados.   Um balcão em madeira fingida a tentar parecer algo de uma antiga igreja.   Atrás dele temos uma rechonchuda moça de liceu.   O cabelo é de um louro aguado que levou com um belo penteado de permanente, a sombra dos olhos apresenta laivos metálicos em azul, e o makeup vermelho surge numa camada homogénea cobrindo-lhe as suas grandes e gelatinosas bochechas.  Veste um género de robe de coro, fininho, atirado por sobre a T-Shirt.

Quando Y.T. entra está ela mesmo a meio de uma transacção.   Repara logo em Y.T. mas nenhum manual de ‘três-anilhas’ em parte alguma do mundo te permite abrandar ou interromper o decorrer de uma transacção.

Frustrada, Y.T. suspira e cruza os braços para denotar impaciência.   Em qualquer outro estabelecimento comercial já ela teria levantado ali um inferno, contornado o balcão, entrado por ali adentro como se fosse a proprietária.   Mas, maldição, isto é uma igreja.

Ao longo da parte da frente do balcão existe uma série de suportes ostentando papelada religiosa grátis para quem quiser tirar, ‘pede-se uma doação’.   Várias posições nessa grelha de suporte estão ocupadas com o famoso best-seller do Reverendo Wayne – ‘COMO A AMÉRICA FOI SALVA DO COMUNISMO: ELVIS ASSASSINOU JFK’.

Ela aproveita para tirar o envelope que o homem do olho de vidro lhe havia enfiado no bolso.   Não é espesso nem macio o suficiente que lhe indique conter uma porção de massa, infelizmente.

Lá dentro tem uma meia dúzia de retratos.   Todos eles mostram o Uncle Enzo.   Encontra-se num vasto e plano pátio fronteiro em formato de ferradura de uma enorme moradia, maior do que qualquer casa que Y.T. já viu alguma vez com os seus dois olhos.   Ele sobre um skateboard.    Ou caindo de um skateboard.   Ou deslizando devagar, braços totalmente abertos para os lados, perseguido por tipos nervosos da sua segurança pessoal.

Um pedaço de papel envolve as fotos.   Traz escrito: ‘Y.T. – Obrigado pela tua ajuda.   Como podes ver por estas fotografias tentei treinar para este encontro mas ainda vai levar um certo tempo de prática.   Teu amigo, Uncle Enzo’.

Y.T. volta a embrulhar as fotos tal como estavam e torna a pô-las no bolso, reprime um sorriso e regressa aos assuntos de trabalho.

A rapariga de robe está ainda a prosseguir com o seu atendimento ali atrás do balcão.   Quem está a ser atendida é uma encorpada mulher falando espanhol e de vestido laranja.

A rapariga digita qualquer coisa no computador.   A cliente bate com o seu cartão Visa sobre a madeira fingida do tampo do balcão.   Aquilo soa como um tiro de espingarda.   A moça levanta o cartão usando as suas unhas de quase três centímetros, operação complicada e ao calhas, que faz Y.T. pensar em insectos a abrir caminho para fora das cascas dos seus ovos.   E então ela celebra o sacramento, correndo o cartão ao longo da devida ranhura electromagnética.   Efectuado com um cuidadoso e modulado varrimento feito pelo braço, como se estivesse a rasgar um véu, entregando depois a folhinha respectiva e a murmurar que precisa da assinatura e de um número de telefone diurno.   Ela até pode estar para ali a palrar em latim, mas está okay, uma vez que a cliente está familiarizada com a liturgia e assina e escreve um número nisso mesmo antes de as palavras estarem todas ditas.

Então fica tudo agora aos cuidados da ‘Palavra vinda do Alto’.   Mas os computadores e as comunicações são terrivelmente boas nos dias que correm e usualmente não leva mais que um par de segundos efectuar uma operação de verificação a um cartão de crédito.   A pequena máquina emite uns ‘beeps’ a dar o seu código de aprovação, acordes celestes são entoados a partir de uns pequenos altifalantes e um par de vastas portas em cor pérola nas traseiras da sala giram majestosamente ao abrirem-se.

“Obrigada pela sua doação” – diz a moça, embrulhando as palavras todas juntas como numa única sílaba.

A cliente caminha pesadamente em direcção à dupla porta atraída pelas notas musicais hipnóticas de um órgão.   O interior da capela encontra-se fantasticamente colorido, iluminado por aplicações fluorescentes incrustadas no tecto e, parcialmente, por enormes caixas de luzes coloridas que simulam janelas de vitrais.   A maior destas, com a forma de um arco gótico inchado, está implantada na parede traseira acima do altar e exibe uma trindade esplendorosa: Jesus, Elvis e o Reverendo Wayne.   Jesus ficou com a posição cimeira.   A devota não deu ainda meia dúzia de passos no local e deixa-se cair já com um baque sobre os joelhos no centro da coxia e começa a falar em línguas: “ar ia ari ar isa ve na a mir ia i as, ve na a mir ia a sar ia...”

“Só um seg.” – diz a rapariga olhando para Y.T. um pouco nervosamente.   Contorna ali o canto e aguarda no meio da área dos brinquedos ficando inadvertidamente com a bainha do robe presa a um módulo de batalha dos Guerreiros Ninja da Jangada, e bate depois à porta dos lavabos.

“Ocupado!” – diz uma voz de homem do outro lado da porta.

“Chegou a Korreio” – diz a moça.

“Já estou a sair” – diz o homem, mais calmamente.

E realmente aí está ele cá fora.   Y.T. não detectou qualquer tempo de espera, zip a correr a fechar a braguilha ou lavagem de mãos.   Ele veste um fato preto com cabeção, e de passagem enfia um levezinho robe preto conforme emerge na área dos brinquedos esmagando pequenas figuras de imitação e caças a jacto debaixo dos seus sapatos pretos.   O cabelo é preto e bem alisado pela brilhantina, com fiapos isolados em cinzento, e traz postos uns óculos bifocais de aros metálicos com um subtil tom acastanhado.   Nota-se que tem uns poros bem dilatados.

E por alturas em que se chega suficientemente próximo para que Y.T. se possa aperceber de todos estes pormenores, ela pode igualmente cheirá-lo.   Cheira a Old Spice, mais um forte odor a vómito, no seu hálito.   Mas não é vómito de bebedeira.

“Dá-me isso” – diz ele, e arranca-lhe da mão a pasta de alumínio.   Y.T. nunca permite que o pessoal lhe faça uma destas.

“Tem que assinar isto para levá-la” – diz ela.   Mas ela sabe que já é tarde demais.   Se não consegues que assinem antes, estás lixado.   Ficas sem autoridade para tal, sem modo de pressão.   Não passas de um fedelho em cima de um skateboard.

Aí está porque é que Y.T. nunca permite que o pessoal lhe arranque as entregas da mão.   Mas este gajo é um ‘ministro’ – um pastor – por amor de Deus.   Ela apenas não estava a contar com isto.   Ele sacou-lhe mesmo aquilo da mão – e agora corre com a pasta de regresso ao seu escritório.

“Eu posso assinar” – diz a rapariga.   Tem um ar assustado.   Mais do que isso, parece doente.

“Tem que ser ele pessoalmente – diz Y.T. – Reverendo Dale T. Thorpe.”

Agora está ela a sentir-se chocada e a começar a ficar lixada.   Portanto acaba por segui-lo mesmo até ao escritório.

“Não pode entrar aí” – diz a moça, mas diz aquilo sonhadora e tristemente, como se toda esta cena estivesse já meio esquecida.   Y.T. abre a porta.   O reverendo Dale T. Thorpe encontra-se sentado à secretária.   A pasta de alumínio  aberta à sua frente.   Cheia com o mesmo pedaço complicado de aparelhagem que ela já vira na noite anterior depois daquela coisa do Raven.   O reverendo Dale T. Thorpe parece estar atrelado pelo pescoço a este sistema.

Não, na verdade ele enverga é qualquer coisa numa corrente em redor do pescoço.   Conservava-a por baixo das vestes da mesma forma que Y.T. traz as ‘chapinhas-de-cão’ do Uncle Enzo.   Ele extraiu-a agora e introdu-la numa fenda dentro da pasta de alumínio.   Aquilo parece ser um cartão de identificação laminado com um código de barras anexo.

E agora puxa ele o cartão para fora deixando-o suspenso ali na sua frente.   Y.T. não consegue dizer se ele terá dado por ela.   Ele a digitar ao teclado, batendo com dois dedos, falhando letras, voltando ao mesmo.

Depois ouve-se o som de motores e servo-mecanismos a girar rápido e a estremecerem dentro da mala de alumínio.   O reverendo Dale T. Thorpe já libertou um dos pequenos tubos do seu lugar na tampa da pasta e inseriu-o num encaixe junto ao teclado.   Lentamente aquilo está a ser puxado para dentro da máquina.

De seguida o tubo salta cá para fora de novo.   Da tampinha encarnada em plástico emana uma luz granulosa vermelha.   Há pequenos LEDs inseridos nela e são eles que compõem números, em contagem decrescente de segundos: 5, 4, 3, 2, 1...

O reverendo Dale T. Thorpe segura agora no tubinho encostado à sua narina esquerda.   Quando o contador LED chega a zero aquilo assobia, como ar a esvair-se pelo pipo de um pneu.   Ao mesmo tempo ele inala profundamente sugando aquilo tudo para dentro dos seus pulmões.   No fim, como um especialista, lança o tubinho para o cesto do lixo.

“Reverendo? – diz a moça.   Y.T. gira nos calcanhares e vê-a caminhar para o escritório – Podia, se faz favor, preparar agora a minha?”

O reverendo Dale T. Thorpe não responde.   Recostou-se para trás na sua cadeira giratória em couro, de olhos pedrados, fixos num retrato emoldurado a néon de Elvis nos seus tempos da tropa a empunhar uma espingarda.

26

Quando acorda já o dia vai a meio e ele encontra-se ali todo seco pelo sol, pássaros esvoaçando em círculos lá por cima a tentarem decidir se ele está morto ou vivo.   Hiro desce do telhado do torreão e mandando os cuidados às urtigas emborca três copos de água da torneira de L.A.   Pega nalgum bacon que retirou do frigorífico de Da5id e atira-o para dentro do microondas.   A maior parte do pessoal da ‘General Jim’ deixou já o local e há apenas uma guarda reduzida de soldados lá em baixo na estrada.   Hiro tranca todas as portas que dão para a encosta pois não consegue deixar de pensar em Raven.   Depois, senta-se à mesa da cozinha e mete-se d’óculos de computador.

O Black Sun está principalmente cheio com asiáticos incluindo uma quantidade de gente da indústria filmográfica de Bombaim deslumbrando-se reciprocamente, alisando aqueles bigodes negros, tentando imaginar que tipo de filme de acção hiperviolento estará em cena em Persépolis no ano que vem.   É de noite, aí.   Hiro é um dos poucos americanos naquele aglomerado.

Ao longo da parede traseira do bar existe uma fiada de salas privadas desde pequenos ‘tête-a-tête’ até grandes espaços de conferência onde um punhado de avatars se pode juntar e fazer uma reunião.   Num dos mais pequenos Juanita aguarda por Hiro.   O avatar dela parece-se mesmo com a Juanita.   É uma representação honesta sem qualquer esforço feito para escamotear as primeiras sugestões de rugas aos cantos dos seus grandes olhos negros.   O seu cabelo brilhante tem uma resolução tão boa que Hiro consegue distinguir fios individuais de cabelos onde a luz se refracta em ínfimos arco-íris.

“Estou em casa de Da5id.   E tu, onde é que estás?” – diz Hiro.

“Num avião – portanto a sessão pode ir abaixo” – diz Juanita.

“Estás a vir para cá?”

“Na verdade, a caminho de Oregon.”

“Portland?”

“Astória.”

“Mas por que raio hás-de ir a Astória, Oregon, numa altura como esta?”

Juanita inspira profundamente e depois solta a coisa de uma forma tremida: “Se te contasse, entrávamos numa discussão.”

“O que é que há de novo sobre Da5id?” – diz Hiro.

“Na mesma.”

“Algum diagnóstico?”

Juanita suspira, parece cansada – “Não vai haver qualquer diagnóstico – diz ela – Aquilo é um problema de software, não de hardware.”

“Huuh?”

“Já reuniram os suspeitos do costume.   Fizeram TACs – Tomografia Axial Computorizada, RNMs – Ressonância Nuclear Magnética, TEPs – Tomografia por Emissão de Positrões.   Está tudo bem.   Não há nada de errado com o cérebro dele – com o seu hardware.”

“Então o que acontece é que está a correr o programa errado?”

“O software dele foi corrompido.   Da5id na noite passada teve foi um snow crash dentro da sua cabeça.”

“Estás a querer-me dizer que aquilo é um problema psicológico?”

“Aquilo como que ultrapassa essas categorias estabelecidas – diz Juanita – pois trata-se de um novo fenómeno.   Na verdade, será até algo muito antigo.”

“E esta coisa ocorre espontaneamente ou como é que é?”

“Conta-me lá – diz ela – Estiveste aí a noite passada.   O que é que aconteceu depois de eu me ir embora?”

“Ele tinha esse hipercartão Snow Crash que recebeu do Raven junto à entrada do Black Sun.”

“Merda.   O bastardo.”

“Quem é bastardo?   Raven ou Da5id?”

“Da5id.   Eu tentei preveni-lo.”

“Ele acabou por utilizá-lo – Hiro entra numa explicação sobre aquela Brandy com o rolo de papiro mágico – e foi depois que ele teve esse problema de computador e viu-se atirado dali para fora.”

“Ouvi sobre essa parte – diz ela – foi por isso que chamei os paramédicos.”

“Não vejo qualquer conexão entre o facto de o computador de Da5id ter um ‘crash’ e tu chamares uma ambulância.”

“O rolo de papiro da Brandy não mostrava apenas estática ao acaso.   Estava a debitar uma enorme quantidade de informação digital, em forma binária.   Essa informação digital estava a ir direitinha ao nervo óptico de Da5id.   Que, incidentalmente, é parte do próprio cérebro – se olhares para a pupila de alguém consegues ver-lhe um terminal do seu cérebro.”

“Da5id não é nenhum computador.   Não consegue ler código binário.”

“Ele é um hacker.   Profissionalmente manuseia e envolve-se com código binário.   Essa habilidade foi-lhe já inculcada nas estruturas profundas do cérebro.   Portanto tornou-se susceptível a essa forma de informação.   Assim como tu estás, rapazinho.”

“De que tipo de informação é que estamos a falar?”

“Más notícias.   Um metavírus – diz Juanita – É a bomba atómica da guerra informacional, um vírus que leva qualquer sistema a infectar-se a ele próprio com novos vírus.”

“E foi isso que pôs Da5id doente?”

“Sim.”

“E eu próprio porque é que não fiquei?”

“Estavas demasiado longe.   Os teus olhos não tinham uma boa resolução do bitmap.   Tinha que estar mesmo em frente à tua cara.”

“Vou pensar nesta coisa – diz Hiro – Mas tenho outra pergunta.   Raven distribui também outra droga – na Realidade – chamada entre outras coisas de Snow Crash.   O que é isso?”

“Não é uma droga – diz Juanita – Fazem-na assemelhar-se a uma droga e dar a sensação de uma droga de forma a que as pessoas queiram tomá-la.   É ‘temperada’ com cocaína e diverso outro material.”

“Se não é uma droga o que é que isso é?”

“Soro sanguíneo processado quimicamente, extraído de gente que foi já infectada com o metavírus – diz Juanita – Ou seja, é apenas outra forma de espalhar a infecção.”

“E quem é que está a espalhá-la?”

“A igreja privativa de L. Bob Rife.   Todas essas pessoas estão infectadas.”

Hiro deixa tombar a cabeça entre as mãos.   Não está precisamente a pensar sobre isto.   Deixa que aquilo lhe ricocheteie por ali à volta dentro do crânio e que pare.   “Espera aí um minuto, Juanita.   Vê lá se te decides acertar ideias.   Essa coisa do Snow Crash – isso é um vírus, uma droga, ou uma religião?”

Juanita encolhe os ombros – “Qual é a diferença?”

 

Com Juanita a falar assim desta maneira não se tornam mais fáceis as coisas para Hiro, para que se consiga fincar devidamente nesta conversa.   “Como é que podes dizer uma coisa dessas?   Tu própria és uma pessoa religiosa.”

“Não metas todas as religiões no mesmo saco.”

“Desculpa-me.”

“Toda a gente tem religiões.   É como se tivéssemos receptores para religião embutidos nas nossas células cerebrais, ou algo assim, e vamo-nos aferrolhar a tudo o que possa preencher-nos esse nicho.   Agora vê, a religião costumava ser essencialmente viral – um pedaço de informação que se replicava dentro da mente humana, saltando de uma pessoa para outra.   É essa a forma como costumava ser, e infelizmente, a forma para que se está a encaminhar agora mesmo.

“Mas foram feitos diversos esforços no sentido de nos retirar das mãos da religião primitiva, irracional.   O primeiro foi executado por alguém chamado Enki há cerca de quatro mil anos atrás.   O segundo foi realizado pelos letrados hebreus no século oitavo antes de Cristo, expulsos da sua terra pela invasão de Sargão II, mas no fim de contas isso redundou num legalismo esvaziado.   Outra tentativa foi levada a cabo por Jesus – e esta seria tomada por influências virais dentro de cinquenta dias após a sua morte.   O vírus foi suprimido pela igreja católica mas encontramo-nos agora no meio de uma grande epidemia que se iniciou no Kansas em 1900 e que desde então tem vindo a ganhar força.”

“Acreditas em Deus ou não?” – diz Hiro.   Vamos lá começar pelo princípio.

“Definitivamente.”

“Acreditas em Jesus?”

“Sim.   Mas não na ressurreição física, corporal, de Jesus.”

“Como é que podes ser cristã sem acreditares nisso?”

“Eu diria antes – diz Juanita – como é que consegues ser um cristão a acreditares nessas coisas.   Quem quer que seja que se entregue ao trabalho de estudar os evangelhos pode verificar que a ressurreição do corpo é um mito que foi colado à história real diversos anos depois dessas histórias reais terem sido escritas.   É tudo assim num estilo muito ‘National Enquirer’esco, não achas?”

 

Para lá disso Juanita não tem muito a contar.   Ela não quer entrar em detalhes por agora, pelo que diz.   Ela não quer prejudicar o raciocínio de Hiro ‘nesta altura’.

“Será que isso implica que irá existir alguma outra altura?   É um relacionamento para durar?” – diz Hiro.

“Queres encontrar as pessoas que infectaram Da5id?”

“Sim.   Diabo, Juanita, mesmo que não fosse pelo facto de ele ser meu amigo, quero encontrá-las antes que me infectem a mim.”

“Dá uma vista de olhos ao material sobre Babel, Hiro, e depois visita-me, se eu voltar de Astória.”

“Se voltares?   O que é que estás a fazer lá?”

“Pesquisa.”

Ela tem assumido uma fachada completamente profissional ao longo de toda esta conversa, soltando informação, dizendo o rumo a seguir.   Mas ela está cansada e ansiosa, e Hiro fica com a sensação de que ela está profundamente com receio.

“Boa sorte” – diz ele.   Ele estava já preparado para entrar numa de charme com ela durante este encontro, começando onde tinham ficado na noite anterior.   Mas algo coisa mudou entretanto no pensamento de Juanita.   Namoriscar é agora a última coisa na mente dela.

Juanita está para fazer qualquer coisa perigosa no Oregon.   Não quer que Hiro saiba o que é para que ele não se preocupe.

“Há algum bom material no conjunto Babel sobre alguém de nome Inanna” – diz ela.

“Quem é Inanna?”

“Uma deusa suméria.   Estou a modos que apaixonada por ela.   De qualquer forma não poderás entender o que é que eu estou para fazer até compreenderes Inanna.”

“Bem, boa sorte – diz Hiro – Dá um olá por mim à Inanna.”

“Obrigada.”

“Quando voltares quero passar algum tempo contigo.”

“O sentimento é mútuo – diz ela – Mas temos primeiro que sair desta.”

“Oh.   Não imaginei que eu estivesse nalguma coisa.”

“Não sejas parvo.   Nós todos estamos metidos nisto.”

Hiro deixa-a, saindo para o Black Sun.

Há um gajo a vadiar por ali em torno do Quadrante Hacker que realmente dá nas vistas.   O seu avatar não parece muito porreiro.   E está com algum problema em controlá-lo.   Parece que temos ali um gajo que terá metido os óculos para o Metaverso pela primeira vez e ainda não sabe como se movimentar.   Constantemente a chocar contra as mesas e, quando gira para se voltar, roda várias vezes não sabendo como parar.

Hiro caminha em direcção a ele pois a face parece-lhe levemente familiar.   Quando finalmente o gajo se detém o suficiente para que Hiro possa claramente detalhá-lo, identifica o avatar.   É um daqueles Clint.   Quase sempre vistos em companhia de uma das Brandy.

O Clint reconhece Hiro e a sua face surpreendida mostra-se por um segundo, e é então substituída pela sua severidade habitual, lábios rígidos, aparência tosca.   Ergue as mãos unidas em frente dele e Hiro vê que segura um rolo de papiro, tal e qual como a Brandy fizera.

Hiro busca a katana mas o rolo está já ali perante o seu rosto, abrindo-se para revelar um clarão azul do bitmap que contém.   Ele desliza lateralmente, avança para um dos  costados do Clint levantando a katana acima da cabeça e lança a katana a pique decepando os braços ao Clint.

Conforme o rolo tomba acaba por se abrir ainda mais.   Hiro não se atreve agora a olhar para aquilo.   O Clint voltou-se já e desajeitadamente está a tentar fugir do Black Sun, ricocheteando de mesa em mesa como uma bola de flippers.

Se Hiro pudesse matar o gajo – cortar-lhe a cabeça – então o seu avatar permaneceria no Black Sun, podia ser carregado pelos Daemons do Cemitério.   Hiro podia então fazer qualquer ‘pirataria[18] de investigação e talvez descobrisse quem ele é e de onde é que vem.

Mas umas dúzias de hackers estão para ali indolentemente à volta do bar a observar tudo isto, e se eles se chegam ali e olham para o rolo de papiro acabarão todos como o Da5id.

Hiro abaixa-se desviando o olhar do rolo e abre um desses alçapões escondidos que conduzem lá abaixo ao sistema de túneis.   Para começar, foi ele precisamente quem codificou aqueles túneis integrando-os no Black Sun.   É ali em todo o bar a única pessoa que os pode utilizar.   Com uma mão varre o rolo para dentro do túnel e encerra depois o alçapão.

Hiro consegue ver o Clint a caminho da saída, procurando manter o seu avatar apontado para passar por aquela porta.   Hiro corre atrás dele.   Se este gajo chega à Street, desaparece, transforma-se num daqueles muitos fantasmas translúcidos.   Com um avanço de quinze metros por entre uma multidão de outros fantasmas translúcidos, não há chance alguma.   Como habitualmente lá está a turba de pretendentes amontoados na Street ali à entrada.   Hiro dali de dentro consegue topar aquele sortido habitual incluindo alguns a preto-e-branco.   E um desses a preto-e-branco é Y.T.   Ela está para ali ociosamente à espera que Hiro saia.”

“Y.T.! – grita ele – persegue aquele gajo sem braços!”

Hiro sai pela porta apenas uns segundos depois do Clint.   Tanto o Clint como Y.T. já se foram.

Regressa ao interior do Black Sun, puxa um dos alçapões e penetra lá para baixo para o sistema de túneis, o reino dos Daemons do Cemitério.   Um deles recolheu já o pergaminho e afasta-se em direcção ao centro para mandá-lo para o fogo.

“Oh, amigo – diz Hiro – bate aí a curva para a direita no próximo túnel e larga essa coisa no meu escritório, okay?   Mas faz-me um favor e enrola isso primeiro.”

Segue o Daemon do Cemitério ao longo do túnel por sob a Street até que estão já sob o bairro onde Hiro e os outros hackers têm as suas moradias.   Hiro aqui ordena ao Daemon do Cemitério para depositar o papiro agora enrolado no seu atelier, situado na cave – o espaço que Hiro usa para executar as suas ‘piratarias’.   De seguida, escadas acima, Hiro prossegue até ao escritório propriamente dito.

27

O seu telefone de voz está a tocar.   Hiro atende.

“Pá – diz Y.T. – Estava a começar a pensar que nunca mais saías daí.”

“Onde é que estás?” – diz Hiro.

“Na Realidade ou no Metaverso?”

“Em ambos.”

“No Metaverso, num trem do monocarril apontado para longe.   Acabei de passar a Porta 35.”

“Já?   Deve ser um ‘expresso’”

“Bom raciocínio.   Aquele Clint a quem cortaste os braços vai duas carruagens à minha frente.   Não creio que saiba que estou a segui-lo.”

“Onde é que tu estás na Realidade?”

“Num terminal público do outro lado da rua de uma ‘Reverendo Wayne’s’” – diz ela.

“Oh, sim?   É interessante.”

“Vim apenas fazer aí uma entrega.”

“Que tipo de entrega?”

“Uma pasta de alumínio.”

E apanha dela a história completa ou o que ele pensa ser a história completa – não há na verdade maneira de saber.

“Estás segura de que aquele balbuciar que as pessoas faziam no parque era o mesmo tipo de balbuciar que a mulher dizia ali na ‘Reverend Wayne’s’?”

“Estou certa disso – diz ela – conheço uma data de pessoas que vão a isso, ou os pais vão e levam-nas com eles, estás a ver”

“Aos Portões de Pérola do Reverendo Wayne?”

“Yeah.   E todos eles fazem isso do falar línguas.   Portanto já o ouvi antes.”

“Converso contigo depois, pá – diz Hiro – Tenho agora alguma pesquisa séria a fazer.”

“Até depois.”

O cartão Babel / Infocalipse repousa ali no meio da secretária.   Hiro pega-lhe e o Bibliotecário surge.

Hiro está para perguntar ao Bibliotecário se ele sabe que Lagos está morto.   Mas é uma questão despropositada.   O Bibliotecário sabe-a mas não tem a informação.   Se quisesse ver essa informação na Biblioteca em poucos momentos podia descobri-la.   Mas na verdade ele não irá reter essa informação.   Não tem uma memória independente.   A Biblioteca é a sua memória e de cada vez ele usa pequenas partes dela.

“O que é que me podes dizer sobre o falar em línguas?” – diz Hiro.

“O termo técnico é ‘glossolália’,” – diz o Bibliotecário.

“Termo técnico?   Porquê aborrecermo-nos em arranjar um termo técnico para um ritual religioso?”

O Bibliotecário arqueia as sobrancelhas – “Oh, há uma enorme quantidade de literatura técnica sobre o tema.   Trata-se de um fenómeno neurológico que é meramente explorado em rituais religiosos.”

“É uma coisa cristã, certo?”

“Os cristãos pentecostais pensam isso mas iludem-se a eles próprios.   Os gregos pagãos faziam-no – Platão chamava a isso theomania.   Os cultos orientais do império romano faziam-no.   Esquimós da Baía de Hudson, chamãs Chukchi, lapões, os Yakuts, pigmeus Semang, cultos do norte do Bornéu, sacerdotes do Gana falando thri.   O culto zulo Amandiki e a seita religiosa chinesa de Shang-t-hui.   Médiuns espíritas de Tonga e o culto brasileiro Umbanda.   As pessoas das tribos Tungus, na Sibéria, dizem que quando o chamãn entra no seu transe e se põe a bramir sílabas incoerentes, que aprende a linguagem toda da Natureza.”

“A linguagem da Natureza.”

“Sim, sir.   O povo Sukuma de África diz que essa linguagem é kinaturu, a língua dos antepassados de todos os mágicos que se pensa terem descendido de uma tribo específica.”

“E o que causa isso?”

“Se pusermos de parte as explicações místicas, então parece que a glossolália provém de estruturas implantadas bem fundo no interior do cérebro, comuns a toda a gente.”

“Com que é que se parece?   Como é que ficam as pessoas?”

“C. W. Shumway analisou o Revivalismo em Los Angeles em 1906 e notou seis sintomas básicos: perda completa de controle; o domínio por parte da emoção, conduzindo à histeria; ausência de pensamento ou vontade; funcionamento automático dos órgãos da fala; amnésia; e manifestações físicas esporádicas, ocasionais, tais como sacudidelas e contorções.   Eusébio observou fenómenos similares por volta do ano 300 afirmando que o falso profeta começa por uma supressão deliberada do pensamento consciente e termina num delírio sobre o qual não tem controle.

“Qual é a justificação cristã para isto?   Existe alguma coisa na Bíblia que suporte isto?”

“Pentecostes”

“Já antes mencionaste essa palavra – o que é isso?”

“Vem da palavra grega pentekostos, significando quinquagésimo.   Refere-se ao quinquagésimo dia após a crucificação.”

“Juanita acabou de me dizer que o cristianismo foi tomado por influências virais quando tinha apenas cinquenta dias de idade.   Terá sido sobre isto que ela estava a falar.   De que é que se trata?”

‘Todos ficaram repletos do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.   Acontece que em Jerusalém moravam judeus devotos de todas as nações sob os céus.   Quando ouviram o barulho, todos se reuniram e ficaram confusos, pois cada um ouvia-os [os discípulos] a falar na sua própria língua.   Espantados e surpreendidos, diziam: “Esses homens que estão a falar não são todos galileus?   Como é que cada um de nós os ouve na nossa língua materna?   Entre nós há partos, medas e elamitas; gente da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e da região da Líbia vizinha de Cirene; alguns de nós viemos de Roma, outros são judeus ou pagãos convertidos; também há cretenses e árabes.   E cada um de nós na nossa própria língua os ouve anunciar as maravilhas de Deus!”   Todos estavam admirados e perplexos e cada um perguntava ao outro: “o que quer dizer isto?” - Actos 2:4-12’

“Maldição, se eu sei – diz Hiro – Isto soa como Babel ao contrário.”

“Sim, sir.   Muitos cristãos pentecostais acreditam que o dom das línguas foi-lhes conferido a eles para que pudessem ir espalhar a sua religião a outros povos sem terem que, na verdade, aprender a linguagem deles.   A palavra para isso é xenoglóssia.”

“É isso que Rife alegava naquela peça em vídeo no cimo do Enterprise.   Dizia que conseguia compreender o que aqueles bangladeshes estavam a dizer.”

“Sim, sir.”

“E isso resulta mesmo?”

“No século dezasseis, São Luís Bertrand alegadamente usou o dom das línguas para converter algo entre trinta mil e trezentos mil índios sul-americanos ao cristianismo” – diz o Bibliotecário.

“Wow!   Espalhou-se através dessa população mais rapidamente que varíola.”

 

“O que é que os judeus pensaram desta coisa no Pentecostes? – diz Hiro – Eles é que governavam ainda o país, certo?”

“Os romanos é que governavam o país – diz o Bibliotecário – mas havia um número de autoridades religiosas dos judeus.   Nesse tempo existiam três grupos de judeus: os fariseus, os saduceus e os essénios.”

“Lembro-me dos fariseus, no Jesus Christ, Superstar.   Eram aqueles com umas vozes severas que estavam sempre a vexarem o Cristo.”

“Eles vexavam-no – diz o Bibliotecário – porque eles eram muito estritos religiosamente.   Colavam-se a uma forte versão legalística da religião.   Para eles a Lei era tudo.   Claramente, Jesus era uma ameaça para eles porque ele estava a propor, de facto, um corte com a Lei.”

“Ele queria uma renegociação do contrato com Deus.”

“Isto soa como uma analogia, ramo em que não sou lá muito bom... mas mesmo que tal seja tomado literalmente, é verdade.”

“Quem eram os dois outros grupos?”

“Os saduceus eram materialistas.”

“Quer dizer o quê?   Conduziam BMWs?”

“Não.   Materialistas num sentido filosófico.   Todas as filosofias ou são monistas ou dualistas.   As monistas acreditam que o mundo material é o único mundo – daí, materialistas.   As dualistas acreditam num universo binário, que existe um mundo espiritual em adição ao mundo material.”

“Bem, como gajo dos computadores, eu tenho que acreditar num universo binário.”

O Bibliotecário ergue as sobrancelhas – “Como é que isso se encaixa aqui?”

“Desculpa-me.   Era uma piada.   Uma má graçola.   Vê, os computadores usam código binário para representar informação.   Portanto eu estava a gracejar, que tinha que acreditar no universo binário, que eu tinha que ser um dualista.”

“Que divertido – diz o Bibliotecário, sem soar muito a divertido – A sua piada não estará porém desprovida de genuíno mérito.”

“Como é q’é isso?   Na verdade estava só a brincar.”

“Os computadores baseiam-se no um e no zero para representar todas as coisas.   Esta distinção entre alguma coisa e nada – esta separação pivot entre ser e não ser – é mesmo fundamental e está na base de muitos mitos da Criação.”

Hiro sente a face ficar-lhe levemente mais quente, sente que está a ficar incomodado.   Suspeita que o Bibliotecário possa estar a pregar-lhe uma partida e a fazê-lo de tonto.   Mas ele sabe que o Bibliotecário, conquanto convincentemente representado possa ser, é apenas uma peça de software e não pode na verdade fazer tais coisas.

“Mesmo a palavra inglesa science (ciência) deriva de uma raiz indo-europeia significando to cut (cortar) ou separate (separar).   A mesma raiz conduz à palavra shit (merda) que significa, claro, separar a carne vivente do desperdício não-vivo.   A mesma raiz deu-nos scythe, scissors e schism (gadanha, tesoura e cisma), as quais têm conexões óbvias ao conceito de separação.”

“E sobre sword (espada) o que há?”

“É de uma raiz com diversos significados.   Um desses significados é também to cut ou to pierce (cortar ou perfurar).   Um deles é post (poste) ou rod (vara).   E o outro é, simplesmente, to speak (falar).”

“Vamo-nos manter no tema inicial” – diz Hiro.

“Óptimo.   Posso regressar a esta bifurcação, a este potencial garfo da conversa numa altura posterior, caso o deseje.”

“Por esta altura não quero é ficar eu para aqui todo engarfado e espetado.   Conta-me sobre o terceiro grupo, os essénios.”

“Viviam comunalmente e acreditavam que a limpeza física e espiritual estavam intimamente ligadas.   Andavam constantemente a banhar-se, punham-se nus ao sol, purgavam-se com enemas – clisteres – e iam até limites extremos para se assegurarem de que a sua comida era pura e não-contaminada.   Tinham até a sua própria versão dos Evangelhos na qual Jesus curava as pessoas possuídas, não com milagres, mas por lhes retirar parasitas como a ténia para fora do corpo.   Estes parasitas são considerados como sendo sinónimos de demónios.”

“Isso soa-me como um género de hippies.”

“A comparação já foi feita antes, mas peca de muitas formas.   Os essénios eram estritamente religiosos e nunca teriam tomado drogas.”

“Então para eles não havia diferença entre uma infecção por um parasita como a ténia, e a possessão demoníaca?”

“Correcto.”

“Interessante.   Pergunto-me, o que é que eles teriam pensado sobre vírus de computador?”

“A especulação não está no meu âmbito.”

“Falando sobre eles, Lagos estava a balbuciar-me algo sobre vírus e infecção, e nalguma coisa chamada um nam-shub.   O que é que isso significa?”

Nam-shub é uma palavra do sumério.”

“Sumério?”

“Sim, sir.   Usado na Mesopotâmia até aproximadamente 2000 antes de Cristo.   A mais antiga de todas as linguagens escritas.”

“Oh.   Portanto todas as outras linguagens são descendentes dela?”

Por um momento os olhos do Bibliotecário viram-se para o alto como se ele estivesse a pensar em alguma coisa.   Esta é uma indicação visual a informar Hiro de que ele momentaneamente está a efectuar um raid à Biblioteca.

“Na verdade, não – diz o Bibliotecário – Nenhumas línguas quaisquer que sejam descendem do sumério.   É uma língua aglutinativa, quer dizer que é uma colecção de morfemas ou sílabas que são agrupadas em palavras – muito raro.”

“Estás-me a dizer – afirma Hiro, lembrando-se de Da5id no hospital – que se eu pudesse escutar alguém a falar sumério aquilo soaria a uma longa cadeia de curtas sílabas alinhadas todas juntas?”

“Sim, sir.”

“Soaria isso a algo parecido com a glossolália?”

“Deixo ao seu critério, pergunte a alguém real” – diz o Bibliotecário.

“E parece-se com alguma língua moderna?”

“Não existe nenhum relacionamento genético provável entre o sumério e qualquer outra língua que surgiu posteriormente.”

“É estranho.   A minha história da Mesopotâmia encontra-se já enferrujada – diz Hiro – O que é que aconteceu aos sumérios?   Genocídio?”

“Não, sir.   Eles foram conquistados, mas não há de per si qualquer evidência de genocídio.”

“Qualquer um acaba por ser conquistado mais cedo ou mais tarde – diz Hiro – Mas as suas línguas não se extinguem assim.   Porque é que o sumério desapareceu?”

“Uma vez que eu sou apenas um pedaço de código, estaria como que a caminhar sobre gelo muito fino, a especular” – diz o Bibliotecário.

“Okay, há alguém que compreenda sumério?”

“Sim, a qualquer momento parece que, por alto, haverá uma dezena de pessoas no mundo capazes de lê-lo.”

“Onde é que elas trabalham?”

“Um em Israel.   Um no Museu Britânico.   Um no Iraque.   Um na Universidade de Chicago.   Um na Universidade da Pensilvânia.   E cinco no Colégio Bíblico Rife, em Houston, Texas.”

“Bela distribuição.   E terá alguma destas pessoas descoberto o que é que a palavra ‘nam-shub’ significa em sumério?”

“Sim.   Um nam-shub é um dito com força mágica.   O mais próximo equivalente em inglês será ‘encanto’, mas isto acarreta um número de conotações incorrectas.”

“E os sumérios acreditavam na magia?”

O Bibliotecário sacode minuciosamente a cabeça.   “Este é o género de pergunta aparentemente precisa mas que é de facto muito profunda, e em que pedaços de software, tal como eu, são notoriamente desajeitados a lidar com isso.   Permita-me citar - de Kramer, Samuel Noah e Maier, John R. - Mitos de Enki, O Deus Habilidoso.   Nova Iorque, Oxford: Oxford University Press, 1989: ‘Religião, magia e medicina encontram-se tão integralmente entrelaçadas na Mesopotâmia que separá-las é uma tarefa frustrante e talvez fútil... [Os encantos sumérios] demonstram uma ligação íntima entre o religioso, o mágico e o estético, tão completa, que qualquer tentativa para isolar uma das outras irá distorcer o conjunto’.   Existe mais material aqui que poderá auxiliar a explicar o tema.”

“Aqui onde?”

“Na próxima sala” – diz o Bibliotecário gesticulando para a parede.   Caminha até lá e faz correr uma das divisórias em papel de arroz para fora do caminho.

Uma fala com força mágica.   Hoje em dia as pessoas não acreditam neste tipo de coisas.   Excepto o Metaverso, que é onde a magia é possível.   O Metaverso é uma estrutura de ficção feita de código.   E código é apenas uma forma de fala, de linguagem – a forma que os computadores entendem.   O Metaverso no seu todo podia ser considerado como um único e enorme nam-shub, executando-se a ele próprio sobre a rede de fibra-óptica de L. Bob Rife.

Toca o telefone de voz.   “Só um segundo” – diz Hiro.

“Leve o tempo que quiser” – diz o Bibliotecário, sem adicionar a observação óbvia de que pode aguentar ali um milhão de anos se tiver que ser.

“Sou eu outra vez – diz Y.T. – ainda estou no trem.   O ‘Decepado’ desembarcou na Porta Expresso 127.”

“Humm.   Isso é nos antípodas da Baixa.   Quer dizer, é o mais afastado da Baixa onde podes ir.”

“É mesmo?”

“Yeah.   Um-dois-sete é dois elevado à sétima menos um...”

“Poupa-me a isso, acredito na tua palavra nisso.   Fica definitivamente perdido no meio de coisa nenhuma” – diz ela.

“Não desembarcaste também para segui-lo?”

“Estás a brincar?   Essa distância toda?   São dez mil milhas até ao edifício mais próximo, Hiro.”

Ela tem razão.   O Metaverso foi construído com espaço suficiente para se expandir.   Quase todo o desenvolvimento foi realizado dentro da área de duas ou três Portas Expresso – até quinhentos quilómetros da Baixa, aproximadamente.   A porta 127 fica a vinte mil milhas de distância.

“O que é que há aí?”

“Um cubo negro exactamente com vinte milhas de lado.”

“Totalmente preto?”

“Yeah.”

“Como é que consegues medir um cubo preto assim tão grande?”

“Ao viajar ia olhando para as estrelas, okay?   Subitamente, não conseguia mais ver nenhuma delas do lado direito do comboio.   Comecei a contar as Portas Locais.   Contei dezasseis delas.   Chegámos à Porta Expresso 127 e o ‘Decepado’ desembarca e dirige-se a essa coisa negra.   Contei depois mais dezasseis Portas Locais e então as estrelas voltaram a surgir.   Portanto peguei nesses trinta e dois quilómetros e multipliquei por zero vírgula seis o que me deu vinte milhas, parvalhão.”

“ ‘Tá porreiro – diz Hiro – Ess’é boa inform.”

“Quem é que pensas que possui um cubo preto com vinte milhas de lado?”

“Avançando em pura e irracional intuição, imagino L. Bob Rife.   Supostamente ele tem um enorme naco de propriedade imobiliária perdida no meio de nenhures e onde mantém todas as entranhas do Metaverso.   Alguns de nós costumávamos esborracharmo-nos ocasionalmente contra isso quando andávamos por aí em corridas de motas.”

“Bem, pá, tenho q’ir.”

28

Hiro desliga e dirige-se para a nova divisão.   O Bibliotecário segue atrás dele.

Tem cerca de quinze metros de lado.   O centro daquele espaço encontra-se ocupado por três grandes artefactos, ou antes, três representações tridimensionais de artefactos.   No meio existe uma espessa placa em barro cozido como que a flutuar no espaço, com o tamanho aproximado de uma mesinha de café e cerca de trinta centímetros de espessura.   Hiro suspeita de que seja uma representação ampliada de um objecto mais pequeno.   As superfícies maiores da placa estão inteiramente cobertas com aquela escrita angulosa que Hiro reconhece como cuneiforme.   À volta das arestas existem depressões arredondadas, paralelas, que parecem ter sido feitas pelos dedos ao darem forma à placa.

Para a direita da placa existe um poste de madeira com ramos no topo, um género de árvore estilizada.   À esquerda da placa está um obelisco com dois metros e meio de altura, também coberto de caracteres cuneiformes, com uma figura em baixo relevo cinzelada no cimo.

 

A sala encontra-se preenchida com uma constelação tridimensional de hipercartões, suspensos imponderavelmente no ar.   Tem o aspecto de um quadro de uma fotografia em alta-velocidade de um ‘blizzard’, um tornado gelado, em progresso.   Nalguns lugares os hipercartões estão dispostos em padrões geométricos precisos, como átomos num cristal.   Noutros, há pilhas inteiras deles amontoados todos juntos.   Quantidades deles acumularam-se nos cantos como se Lagos no fim os tivesse jogado para aí.   Hiro descobre que o seu avatar pode caminhar por ali através desses hipercartões sem perturbar a disposição.   Aquilo é de facto a contraparte tridimensional da confusão de uma secretária, todo o lixo deixado ainda onde Lagos o largou.   A nuvem de hipercartões chega a todos os cantos daquele espaço de 15 por 15 e do nível do chão por aí acima até uma altura de dois metros e meio que é praticamente até onde o avatar de Lagos podia alcançar.

“Quantos hipercartões há aqui?”

“Dez mil quatrocentos e sessenta e três” – diz o Bibliotecário.

“Na verdade não tenho tempo para andar através deles todos – diz Hiro – Consegue-me dar uma ideia acerca do que é que Lagos estava a tratar aqui?”

“Bem, posso ler-lhe o nome de todos os cartões se quiser.   Lagos agrupou-os em quatro grandes categorias: Estudos Bíblicos, Estudos Sumérios, Estudos Neurolinguísticos e Informação acumulada sobre L. Bob Rife.”

“Sem chegar a esse tipo de detalhe – o que é que Lagos tinha em mente?   Onde é que ele queria chegar?”

“O que é que eu pareço, um psicólogo? – diz o Bibliotecário – Não consigo responder a esse tipo de perguntas.”

“Deixa-me tentar de outra forma.   Como é que todo este material se interliga, se é que tal acontece, com o tema dos vírus?”

“As relações são complicadas.   Resumi-las iria requerer tanto criatividade como sagacidade.   Como entidade mecânica não possuo nenhuma delas.”

“Qual é a idade deste material?” – diz Hiro apontando para os três artefactos.

“O envelope de barro é sumério.   É do terceiro milénio A. C.   Foi desenterrado da cidade de Eridu no sul do Iraque.   A estela preta ou obelisco é o Código de Hamurábi, que data de cerca de 1.750 A. C.   A estrutura tipo árvore é um totem de um culto Javeísta, da Palestina.   Chama-se uma asherah.   É de cerca de 900 A. C.”

“Chamaste àquela placa um envelope?”

“Sim.   Existe uma placa de barro mais pequena aconchegada no interior.   Era assim como os sumérios produziam documentos ‘à prova de estragos’.”

“Todas estas coisas encontram-se num museu algures, segundo depreendo?”

“A asherah e o Código de Hamurábi encontram-se em museus.   O envelope de barro está na colecção pessoal de L. Bob Rife.”

“L. Bob Rife obviamente que está interessado neste material.”

“O Colégio Bíblico Rife, fundado por ele, tem o mais rico departamento arqueológico do mundo.   Tem estado a levar a cabo escavações em Eridu que era o centro do culto a um deus sumério chamado Enki.”

“Como é que estas coisas se relacionam umas com as outras?”

O Bibliotecário levanta as sobrancelhas – “Desculpe-me?”

“Bem, vamos pelo processo de eliminação.   Sabes porque é que Lagos achou a escrita suméria interessante ao contrário da, digamos, grega ou egípcia?”

“O Egipto foi uma civilização da pedra.   Faziam a sua arte e arquitectura a partir da pedra, e assim aquilo duraria para sempre.   Mas não se pode escrever em pedra.   Então inventaram o papiro e escreviam nele.   Mas o papiro é perecível.   Portanto embora a sua arte e arquitectura tenham sobrevivido, os seus registos escritos – os seus dados, informação – na sua maior parte desapareceram.”

“Então todas essas inscrições hieroglíficas?”

“Como autocolantes usados para enfeitar pára-choques – é o que Lagos lhes chamava.   Discursos políticos corruptos.   Tinham uma infeliz tendência para escrever inscrições a enaltecer as suas próprias vitórias militares, até mesmo antes que as batalhas tivessem lugar.”

“E a Suméria era diferente?”

“A Suméria era uma civilização do barro.   Construíam os seus edifícios dele e escreviam nele também.   As suas estátuas eram em gesso, o qual se dissolve em água.   Portanto os edifícios e estátuas há muito que foram mandados abaixo pela força dos elementos.   Mas as tabletes de barro ou eram cozidas ou eram enterradas em vasos.   Portanto toda a informação, dados, dos sumérios, sobreviveu.   O Egipto deixou-nos uma herança de arte e arquitectura; a herança da Suméria são os seus megabytes.”

“Quantos megabytes?”

“Tantos quantos os que os arqueólogos consigam desenterrar.   Os sumérios escreviam em qualquer coisa.   Quando construíam um edifício punham a sua escrita cuneiforme em cada tijolo.   Quando os edifícios vieram abaixo, estes tijolos continuaram por ali, dispersos pelo deserto.   No Corão, os anjos que são enviados para destruir Sodoma e Gomorra dizem – ‘Fomos enviados contra uma nação malévola, para que sobre ela lancemos uma chuva de pedras de barro gravadas pelo vosso Senhor para a destruição dos pecadores’.   Lagos achou isto interessante – esta promíscua dispersão de informação escrita num meio que dure para sempre.   Falou de pólen levado pelo vento – entendi que isto fosse qualquer tipo de analogia.”

  “Era.   Diz-me – a inscrição neste envelope de barro foi traduzida?”

“Sim.   É um aviso.   Ela diz – ‘Este envelope contém o nam-shub de Enki’.”

“Eu sei o que é um nam-shub.   O que é o nam-shub de Enki?”

O Bibliotecário põe um olhar distante e aclara a sua garganta teatralmente.

 

“Era uma vez, não havia cobras, não havia escorpiões

Não havia hienas, não havia leões,

Não havia cães selvagens, não havia lobos,

Não havia medo nem terror,

O homem não tinha rival.

Era uma vez as terras Shubur e Hamazi,

A Suméria de língua harmoniosa, a grande terra dos divinos me dos principados,

Uri, a grande terra que tem tudo o que é próprio,

A terra Martu, que descansa em segurança,

O universo inteiro, o povo em uníssono,

A Enlil numa língua fizeram preces.

Mas então o senhor-pai, o príncipe-pai, o rei-pai,

Enki, o senhor da abundância, cujas ordens eram confiantes

Senhor da Sabedoria que vigia a terra,

Senhor dos deuses,

Senhor de Eridu, dotado de sabedoria

Nas suas bocas trocou as palavras, instalou a discórdia,

Na fala do homem que havia sido única.

 

Essa é a tradução feita por Kramer.”

“Isso é uma história – diz Hiro – Eu pensava que um nam-shub fosse um encanto.”

“O nam-shub de Enki será tanto uma história como um encanto – diz o Bibliotecário - um conto afinal auto-executável.   Lagos acreditava que na sua forma original, e que a tradução apenas consegue aflorar, ele na verdade realizava o que descreve.”

“Quer dizer, mudava a fala na boca dos homens.”

“Sim” – diz o Bibliotecário.

“Esta é uma história de Babel, não é? – diz Hiro - Todos falavam a mesma língua e então Enki mudou a sua fala e assim não podiam mais entenderem-se uns aos outros.   Esta deve ser a base para o material da torre de Babel existente na Bíblia”

“Esta sala contém um número de cartões estabelecendo essa relação” – diz o Bibliotecário.

“Mencionaste antes que a certa altura toda a gente falava sumério.   E então, depois, mais ninguém o falava.   Desapareceu simplesmente, como os dinossáurios.   E não houve qualquer genocídio, que explicasse como é que isso aconteceu.   O que é consistente com a história da Torre de Babel e o nam-shub de Enki.   Lagos pensava que Babel aconteceu mesmo?”

“Estava seguro disso.   Ele estava mesmo interessado acerca do enorme número de linguagens humanas.   Tinha a sensação de que eram simplesmente em quantidade demasiada”

“Quantas?”

“Dezenas de milhares.   Em muitos lugares do mundo encontras pessoas do mesmo grupo étnico vivendo separadas umas poucas de milhas, em vales similares, sob condições similares, e a falarem línguas que não têm absolutamente nada em comum uma com a outra.   Este tipo de coisa não é uma raridade – é antes uma ubiquidade.   Muitos linguistas têm tentado compreender Babel, a questão porque é que a linguagem humana tende a fragmentar-se em vez de convergir para uma língua comum.”

“Já surgiu alguém com uma resposta para isto?”

“A questão é difícil e profunda  - diz o Bibliotecário – Lagos tinha uma teoria.”

“Sim?”

“Ele acreditava que Babel foi na verdade um evento histórico.   Que aconteceu num tempo e lugar específico coincidindo com o desaparecimento da linguagem suméria.   Que anteriormente a Babel / Infocalipse, as línguas tendiam a convergir.   E que, posteriormente, as línguas têm tido sempre uma tendência inata para divergirem e tornarem-se mutuamente incompreensíveis – que esta tendência está, como ele apresentou a coisa, enrolada que nem uma serpente em torno do tronco cerebral humano (o mesencéfalo).”

“A única coisa que poderia explicar isso é...”

Hiro detém-se, não querendo dizer aquilo.

“Sim?” – diz o Bibliotecário.

“Se ocorreu algum fenómeno que passasse através da população, alterando as suas mentes de uma tal forma que eles não pudessem mais processar linguagem suméria.   Mais ou menos do mesmo modo que um vírus a passar de um computador para outro, estragando cada um dos computadores de forma idêntica.   Enrolando-se à volta do tronco cerebral.”

“Lagos devotou muito tempo e esforço a esta ideia – diz o Bibliotecário – Ele tinha a sensação de que o nam-shub de Enki fosse um vírus neurolinguístico.”

“E que este tal carácter Enki fosse uma personagem real?”

“Possivelmente”

“E que esse Enki inventou este vírus e o espalhou por toda a Suméria usando placas como esta aqui?”

“Sim.   Foi descoberta uma placa contendo uma carta para Enki na qual o autor se queixa sobre isso.”

“Uma carta para um deus?”

“Sim.   É de Sin-Samuh, o Escriba.   Principia por elogiar Enki e salientar a sua devoção a ele.   E então lamenta-se:

 

‘Como um (...?) jovem

Estou de pulso paralisado

 

Como um carro na via com o eixo estilhaçado

Quedo-me imóvel na via

 

No leito da angústia gemendo Não! Oh não!

Solto os meus queixumes

 

O meu corpo antes gracioso estende-se por terra

Pés travados

 

Põe-me (...) para a cova

O meu aspecto mudou

 

À noite já não consigo dormir

A força foi-me destroçada

Enquanto a vida me sugam

 

O dia radioso em trevas se tornou

Para a sepultura deslizei

 

Eu, um escritor, que muitas coisas conheci, num torpe me tornei

A minha mão a escrita parou

A boca, o discurso abandonou.

(...)

 

Após mais descrições das suas angústias, o escriba termina com,

 

Meu deus, é a ti quem temo.

 

Uma carta te escrevi.

De mim tem piedade.

 

O coração do meu deus - dá-mo de volta’.”

 

29

Y.T. está-se a impacientar numa ‘Paragem de Camiões da Mom’s’, na 405, aguardando pela sua boleia.   Nem ela iria nenhuma vez deixar-se ficar por ali, nem morta, numa Mom’s Truck Stop.   Se até um ‘semi’ a atropelasse com todos os seus dezoito rodados em frente de uma Mom’s Truck Stop, ela preferiria arrastar-se pela berma da auto-estrada fora usando nem que fosse os músculos das pálpebras até alcançar uma ‘Snooze ‘n’ Cruise cheia de vadios sedentos de sexo do que ir para uma Mom’s Truck Stop.   Mas por vezes quando és um profissional dão-te um trabalho que não gramas e tens que te manter frio, calmo, e alinhares com isso.

Para os propósitos do trabalho desta noite o homem do olho de vidro já destacou para ela uma ‘pessoa para condução e segurança’ – como ele disse.   Uma quantidade totalmente desconhecida em jogo.   Y.T. não está segura se gosta de participar ao lado de um qualquer gajo misterioso.   Conserva na sua mente esta imagem de que o tipo será como o treinador de luta livre no liceu.   Isso seria grotesco.   De qualquer forma é aqui que é suposto encontrar-se com ele.

Y.T. pede um café e uma fatia de ‘tarte de cereja à moda da casa’.   Leva-os até ao terminal público da ‘Street’ lá atrás, ao canto.   É um género de um cubículo, um casulo em aço inoxidável entalado ali entre uma cabina telefónica com um camionista saudoso do lar debruçado sobre ela, e uma máquina de flippers representando uma tipa com grandes tetas que se acendem cada vez que chutas a bola pelas mágicas trompas falopianas acima.

Ela não é tão boa quanto isso no Metaverso mas sabe orientar-se por aí e tem um endereço.   E encontrar um endereço no Metaverso não deverá ser algo mais difícil do que fazê-lo na Realidade desde que não sejas um gajinho totalmente retardado.

Logo que ela mete pés na Street o pessoal começa a deitar-lhe aqueles olhares.   É o mesmo tipo de olhares que lhe deitam quando com o seu equipamento dinâmico azul e laranja de Korreio caminha através dessa  desolação em estambre do Westlake Corporate Park.   Ela sabe que a gente na Street lhe lança tais olhares hostis porque chegou ali vinda de um terminal público, sem qualidade.   Não passa de alguém sem valor a preto-e-branco.

A parte desenvolvida da Street em redor da Porta Zero forma um cúmulo-nimbos de luminescência para a sua direita.   Oferecendo-lhe as costas ela trepa até ao monocarril.   Gostaria de ir até à cidade, à Baixa, mas é uma parte cara da Street para se visitar e acabaria por estar ali a deitar dinheiro pela ranhura das moedas em cada décimo de milisegundo.

O nome do gajo é Ng.   Na realidade ele está algures na Califórnia do Sul.   Y.T. não está exactamente certa do que é que ele conduz.   Qualquer tipo de furgoneta cheia do que o homem do olho de vidro descreveu como ‘material, material incrível, de que não precisas de saber sobre isso’.   No Metaverso, ele vive fora da cidade, perto da Porta 2, onde as coisas começam realmente a despontar.

 

A casa de Ng no Metaverso é uma ‘villa’ colonial francesa na aldeia de My Tho do período pré-guerra, no delta do Mékong.   Visitá-la é como ir ao Vietname por alturas de 1955 excepto que não tens que estar lá todo suado.   De maneira a ter espaço para a sua criação teve que requerer um lote de terreno do Metaverso um par de milhas afastado da Street.   Não há serviço de monocarril nesta urbanização de rendas baixas e assim o avatar de Y.T. tem que percorrer aquele caminho todo.

Possui um escritório grande com portas envidraçadas ao estilo francês e uma varanda debruçada sobre infindáveis plantações de arroz onde pequenas pessoas vietnamitas labutam.   Claramente este gajo é um perfeito tipo da tecnologia, puro e duro, pois Y.T. consegue contar centenas de pessoas ali nos campos de arroz mais dúzias de outras andando à volta da aldeia, todas elas perfeitamente representadas e todas elas perfazendo diferentes trabalhos.   Ela não é nenhuma carola nisto mas sabe que este gajo está a mandar um bom pedaço de tempo de computador à tarefa de criar uma panorâmica realista àquela vista observada ali da janela do seu escritório.   E o facto de ser o Vietname torna aquilo retorcido e assustador.   Y.T. nem pode esperar por contar ao Roadkill sobre este lugar.   Interroga-se se há bombardeamentos, chuvas de balas vindas do céu e descargas de napalm.   Isso seria o máximo.

Ng ele próprio, ou pelo menos o avatar de Ng, é um homem vietnamita pequeno, muito bem apresentado nos seus cinquentas, cabelo colado à cabeça, vestindo uns cáquis de estilo militar.   No momento em que Y.T. entra no seu escritório está ele na sua cadeira debruçado para diante, os ombros a levarem uma esfrega dada por uma geisha.”

Uma geisha no Vietname?

O avô de Y.T. que esteve lá uns tempos contou-lhe que os nipónicos conquistaram o Vietname durante a guerra e trataram o território com a crueldade que era a sua imagem de marca antes de os termos nuclearizado e terem então descoberto que eram pacifistas.   Os vietnamitas, como muitos outros asiáticos, odiavam os japoneses.   E aparentemente este personagem Ng está na maior com este achado, a ideia de ter uma geisha japonesa aqui à volta a esfregar-lhe as costas.

Mas é uma coisa muito estranha para se fazer, por uma razão: a geisha é apenas uma imagem nos óculos de Ng, e nos de Y.T.   E não consegues obter uma massagem a partir de uma imagem.   Então para quê isto tudo?

Quando Y.T. entra, Ng levanta-se e inclina-se.   Isto é como os maluquinhos ‘hard-core’ da Street – os mais fanáticos - se cumprimentam uns aos outros.   Não gostam de apertos de mão pois na realidade não podes sentir o contacto e isso faz-te lembrar de que no fundo nem estás ali.

“Yeah, olá” – diz Y.T.

Ng torna a sentar-se e a geisha recomeça com as costas.   A secretária de Ng é uma bonita antiguidade francesa com uma bateria de pequenos monitores de televisão dispostos ao longo da vasta traseira do tampo e virados para ele.   Passa a maior parte do tempo a observar os monitores, mesmo enquanto está a conversar.

“Já me contaram um pouco sobre ti” – diz Ng.

“Não deve dar ouvidos a rumores maliciosos” – diz Y.T.

Ng pega num copo da sua secretária e toma uma bebida por ele.   Tem o aspecto de licor de menta gelado.   Gotículas de condensação formam-se à superfície e desprendem-se depois escorregando pelos lados.   A representação é tão perfeita que Y.T. consegue ver o reflexo miniatura das janelas do escritório em cada gota de condensação.   É tudo completamente ostensivo.   Mas que cabeça!

Ele põe-se a olhar para ela com uma cara totalmente desprovida de emoção mas Y.T. imagina que seja uma face de ódio e repelência.   Gastar todo este dinheiro na mais porreiraça casa do Metaverso e apanhar depois com um qualquer em skates chegado até aqui neste aspecto granulado a preto-e-branco...   Deve ser mesmo um pontapé realista nesses metafóricos culhos.

Algures nesta casa há um rádio ligado, a tocar um mix de som langoroso vietnamita e rock velhinho ‘de cadeira de rodas’, ianque.

“És cidadã da Nova Sicília?” – diz Ng.

“Não.   Apenas convivo às vezes com Uncle Enzo e outros graúdos da Máfia.”

“Ah.   Bastante raro.”

Ng não é um homem apressado.   Encontra-se embebido no mesmo ritmo lânguido do delta do Mékong e dá-se por contente em sentar-se ali a controlar os seus aparelhos de TV e disparar uma frase em cada par de minutos.

Outra coisa: ele aparentemente tem o síndroma de Tourette ou qualquer outro padecimento cerebral pois de tempos a tempos sem qualquer razão aparente emite uns ruídos estranhos com a boca.   Possuem aquele som esganiçado que ouves sempre dos vietnamitas quando estão nas salas traseiras das lojas e restaurantes enveredados em disputas familiares na sua língua-mãe, mas tanto quanto Y.T. pode dizer estes ruídos aqui não são palavras reais, apenas efeitos sonoros.

“Faz muitos trabalhos para estes gajos?” – pergunta Y.T.

“Alguns pequenos trabalhos ocasionais de segurança.   Ao contrário de muitas das grandes corporações, a Máfia tem uma forte tradição de tomar conta dos seus próprios esquemas de segurança.   Mas quando qualquer coisa especialmente técnica é necessária para...”

E ele pausa a meio da frase para fazer um incrível som em crescendo através do nariz.

“É essa a sua área?   Segurança?”

Ng varre o olhar pelos aparelhos de TV todos.   Faz estalar os dedos e a geisha escapa-se com rapidez da sala.   Põe as mãos juntas, entrelaçadas, sobre a secretária, e inclina-se para diante.   Olha fixo para Y.T. – “Sim” – diz ele.

Y.T. devolve-lhe o olhar por um bocado esperando que ele prossiga.   Após uns poucos segundos a sua atenção volta a desviar-se para os monitores.

“Executo a maior parte do meu trabalho sob um grande contrato que tenho com Mr. Lee” – manda ele em rajada.

Y.T. aguarda pela continuação desta frase: Não ‘Mr. Lee’, mas ‘A Hong Kong Maior de Mr. Lee’.

Oh, tudo bem.   Se ela pode chutar para ali o nome de Uncle Enzo, também ele pode com o de Mr. Lee.

“A estrutura social de qualquer nação-estado é em última instância determinada pelos seus esquemas de segurança – diz Ng – e Mr. Lee compreende isto.”

Oh, wow!, agora vamos levar as coisas mais a fundo.   Ng subitamente está a conversar tal como os velhadas brancos nos debates eruditos da TV aos quais a mãe de Y.T. assiste obsessivamente.

“Em vez de alugar uma grande força de segurança humana, o que causa impacto sobre o ambiente social – sabes, quantidades de assalariados com o vencimento mínimo por aí à volta empunhando metralhadoras – Mr. Lee prefere usar sistemas não-humanos.”

Sistemas não-humanos.   Y.T. está à beira de lhe perguntar, ‘o que é que sabe dos Tipo-Ratos’.   Mas é descabido ali.   Ele não diria nada.   Isso colocaria o relacionamento deles numa passada errada, Y.T. a perguntar a Ng sobre ‘inform’, intel essa que ele nunca lhe dará e que tornaria toda esta cena ainda mais fantasiosa do que já é agora, e que Y.T. nem consegue imaginar.   Ng avança nova rajada com uma longa série de esganiçados sons, estalidos e bloqueios da glote.

“Puta de merda” – murmura ele.

“Desculpe-me?”

“Nada – diz ele – foi uma ‘caixa-bimba’ que cortou à minha frente.   Nenhuma destas pessoas entende que com este veículo posso passá-los a ferro como um porco pançudo debaixo de um blindado de transporte de tropas.”

“Uma ‘caixa-bimba’ – mas está a conduzir?”

“Sim.   Estou no caminho até aí para te ir buscar, lembras-te?”

“Importa-se?...”

“Não” – ele boceja, como se realmente o fizesse.

Y.T. levanta-se e vai de volta até à parte de trás da secretária dele para espreitar.   Cada um dos pequenos monitores de TV apresenta uma vista diferente a partir da sua furgoneta: pára-brisas, janela esquerda, janela direita, retrovisor.   Um outro tem um mapa electrónico mostrando a sua posição – a vir pela San Bernardino, não muito longe.

“A carrinha funciona sob comando de voz – explica ele – removi o habitual interface de volante e pedais pois achei os comandos verbais mais convenientes.   Aí está porque é que faço por vezes alguns sons esquisitos com a minha voz – estou a controlar os sistemas do veículo.”

Y.T. desliga-se do Metaverso por um momento, para limpar ideias e dar uma mija.   Quando tira os óculos descobre que já criou uma audiência considerável de camionistas e mecânicos, de pé ali em redor da cabina do terminal, num semicírculo, escutando o seu bate-papo com Ng.   Quando se levanta, a atenção deles, naturalmente, desvia-se para o seu traseiro.

Y.T. alcança a casa de banho, termina a sua tarte, e vagueia depois até lá fora para aquele clarão ultravioleta do sol poente, aguardando pelo Ng.

Reconhecer a furgoneta dele é fácil.   É enorme.   Dois metros e meio de altura e ainda mais larga do que alta, o que devia ter feito dela uma viatura do tipo ‘caixa larga’ nos antigos tempos em que havia leis.   A construção daquilo tem um formato de caixote cheio de ângulos.   Parece ter nascido da soldadura de placas de aço espalmadas e esburacadas, desse aço usado em geral para o fabrico de escotilhas de passagem ou degraus de escadotes.   Os pneus são imensos como os de um tractor, com uma superfície mais subtil, e há seis deles: dois eixos atrás e um na frente.   O motor é tão grande que tal como uma nave espacial maligna num filme, Y.T. sente-o estremecer nas suas costelas mesmo antes de o veículo ainda estar à vista;   está para ali a mandar fumos diesel cá para fora através de um par de chaminés vermelhas, atarracadas e verticais, e que do tecto se projectam depois para a retaguarda.   O pára-brisas é um rectângulo espalmado e perfeito em vidro de um metro por dois e meio, fumado, e de tal forma enegrecido que Y.T. não consegue ver os contornos de nada no interior.   O nariz da carrinha está enfeitado com todo o tipo de luzes de alta-potência conhecidas pela ciência, como se este gajo se tivesse mandado a uma franchise da Nova África do Sul num sábado à noite e afanasse todas as luzes de todas as barreiras basculantes encontradas, e há ainda uma grelha construída através de toda a frente, soldada em conjunto a partir de carris retirados algures de qualquer via ferroviária.   Só a grelha provavelmente pesará mais que um carro pequeno.

A porta para o passageiro gira abrindo-se.   Y.T. caminha até aí e trepa para o assento dianteiro.   “Olá – diz ela – precisa de alguém perito é?”

Ng não está ali.

Ou talvez esteja.

Onde devia ficar o assento do condutor existe um género de saco em neoprene do tamanho de uma lata do lixo, suspenso do tecto por uma teia de tiras, cordões de absorção de choque, tubos, fios, cabos de fibra-óptica e linhas hidráulicas.   Está tão atafulhado com tanto material que é difícil distinguir os seus verdadeiros contornos.

No topo deste cesto Y.T. consegue descortinar um remendo de pele com algum cabelo preto à volta dele – o topo da cabeça de um homem careca.   Tudo o mais, das têmporas para baixo, encontra-se embalado numa gigantesca unidade de óculos/máscara/auscultadores/tubos de alimentação, mantida na sua cabeça por tiras inteligentes que constantemente se apertam ou distendem de forma automática para manterem o sistema confortável e devidamente posicionado.

Por baixo disto em cada um dos lados onde em princípio devias esperar ver os braços, grossos feixes de cabos, fibras ópticas e tubos, saídos do chão, trepam por aí aparentemente ligados aos encaixes de ombros de Ng.   Existe um sistema análogo onde era suposto as pernas estarem ligadas e mais equipamento que se junta à zona das virilhas e a vários locais sobre o seu dorso.   A coisa completa encontra-se envolvida numa única peça de um género de macacão-invólucro, uma bolsa maior ainda do que o seu tronco seria, e que permanece constantemente a dilatar-se e a pulsar como se estivesse viva.

“Obrigado, todas as minhas necessidades estão a ser cuidadas” – diz Ng.

Atrás dela a porta bate ao fechar-se.   Ng emite um som como um latido e a carrinha põe-se em marcha para a estrada em frente, apontada de volta à 405.

“Peço desculpa pela minha aparência – diz ao fim de um par de embaraçosos minutos – o meu helicóptero ficou em chamas durante a evacuação de Saigão em 1974 – uma rajada perdida de tracejantes, de forças em terra.”

“Whoa!   Uma chatice.”

“Consegui alcançar um porta-aviões americano que estava ao largo, mas sabes, havia por ali uma boa quantidade de combustível a saltar a toda a volta durante o incêndio.”

“Yeah.   Posso calcular, huh.”

“Por algum tempo experimentei próteses – algumas delas são muito boas.   Mas nada é tão bom como uma cadeira de rodas motorizada.   E então comecei a pensar porque é que as cadeiras de rodas motorizadas têm que ser sempre aquelas coisas patéticas e minúsculas que se esforçam ao trepar qualquer ínfima rampazinha?   Portanto comprei isto – é um camião de combate a incêndios de aeroporto, da Alemanha, e converti-o na minha nova cadeira de rodas motorizada.”

“É muito fixe.”

“A América é uma maravilha porque podes obter tudo numa base de ‘guiares-através-do-sítio’.   Mudança de óleo, bebidas alcoólicas, banco, lavagem do carro, funerais, tudo o que quiseres – é só guiar até lá!   Portanto este veículo é muito melhor que uma patética e pequena cadeira de rodas.   É uma extensão do meu corpo.”

“Quando é que a geisha te esfrega as costas?”

Ng murmura qualquer coisa e aquele género de saco começa como que a pulsar e a ondular à volta do corpo dele.   “Ela, claro, é um daemon.   Em relação à massagem, o meu corpo fica em suspensão num gel electrocontráctil que me massaja quando preciso.   Tenho também uma moça sueca e uma mulher africana, mas esses daemons não estão tão bem desenhados.”

 “E o licor de menta?”

“Por um tubo de alimentação.   Não-alcoólico, ha ha ha.”

“Portanto – diz Y.T. em certo ponto quando acabam de passar pelo LAX e  ela calcula ser já demasiado tarde para se arrepender – qual é o plano?   Temos algum plano?”

Vamos até Long Beach.   À ‘Zona Sacrificada’ da Ilha Terminal.   E compramos algumas drogas – diz Ng – Ou, na verdade, tu é que fazes isso uma vez que eu estou indisposto.”

“É esse o meu trabalho?   Comprar algumas drogas?”

“Comprá-las e lançá-las ao ar.”

“Numa Zona Sacrificada?”

“Sim.   Nós tomamos conta do resto.”

“Quem são esses ‘nós’, oh boss?”

“Há mais algumas, huh, diversas entidades que irão auxiliar-nos.”

“O quê, a parte de trás da camioneta está cheia com mais - gente igual a si?”

“Um género disso – diz Ng – andas perto da verdade.”

“Serão esses como, sistemas não-humanos?”

“Esse é um termo suficientemente abrangente para isso, penso eu.”

Y.T. interpreta aquilo como um grande yes.

“Está cansado?   Quer que eu conduza ou qualquer coisa?”

Ng ri-se de uma forma aguda, parece o som de distantes antiaéreas, e a carrinha  quase foge para fora da estrada.   Y.T. tem a impressão de que ele não se está a rir da piada mas sim dela, Y.T., da pateta que ela é.

30

“Okay, da última vez estávamos a conversar sobre o envelope de barro.   Mas o que é que há sobre esta coisa?   A coisa que se parece com uma árvore?” – diz Hiro, apontando para um dos artefactos.

“Um totem da deusa Asherah” – diz o Bibliotecário com vivacidade.

“Agora estamos a chegar a algum lado – diz Hiro – Lagos disse que a Brandy no The Black Sun era uma prostituta do culto de Asherah.   Então quem é Asherah?”

“Ela era a consorte de El, que é também conhecido como Javé – diz o Bibliotecário – Ela também foi conhecida por outros nomes: Elat era o seu epíteto mais comum.   Os gregos conheciam-na como Dione ou Rhea.   Os canaanitas conheciam-na como Tannit ou Hawwa, que é a mesma coisa que Eva.”

“Eva?”

“A etimologia de ‘tannit’ proposta por Cross é: feminino de ‘tannin’, que significaria ‘o da serpente’.   Além disso, Asherah arcou com um segundo epíteto na Idade do Bronze, ‘dat batni’, também ‘a da serpente’.   Os sumérios conheceram-na como Nintu ou Ninhursag.   O seu símbolo é uma serpente enrolando-se à volta de uma árvore ou vara: o caduceu.”

“Quem é que adorava Asherah?   Uma quantidade de gente pelo que presumo?”

“Todos os que viveram entre a Índia e Espanha, desde o segundo milénio A. C. até  um período já dentro da era cristã.   Com a excepção dos hebreus, que só a adoraram até às reformas religiosas de Ezequias e, depois, de Josiah.”

“Pensava que os hebreus eram monoteístas.   Como é que eles podiam adorar Asherah?”

“Monolatristas.   Eles não negavam a existência de outros deuses.   Mas era suposto apenas adorarem Javé.    Asherah era venerada como a consorte de Javé.”

“Não me lembro de nada sobre Deus ter uma mulher, na Bíblia.”

“Nesse tempo a Bíblia ainda não existia.   O judaísmo era uma colecção solta de cultos Javeístas, cada um com diferentes locais sagrados e práticas.   As histórias sobre o Êxodo ainda não haviam sido formalizadas nas Escrituras.   E as partes posteriores da Bíblia nem tinham ainda ocorrido.”

“Quem é que decidiu expurgar Asherah do judaísmo?”

“A escola deuteronómica – definida, por convenção, como a gente que escreveu o livro do Deuteronómio bem assim como os de Joshua, Juízes, Samuel e Reis.”

“E que tipo de gente eram eles?”

“Nacionalistas.   Monárquicos.   Centralistas.   A guarda avançada dos fariseus.   Por este tempo o rei assírio Sargão II havia conquistado recentemente a Samária – a parte norte de Israel – forçando a uma migração dos hebreus para sul, para Jerusalém.   Jerusalém expandiu-se enormemente e os hebreus principiam a conquistar territórios para oeste, leste e sul.   Foi um tempo de intenso nacionalismo e fervor patriótico.   A escola deuteronómica encorpou essas atitudes nas Escrituras ao rescrever e reorganizar os antigos contos.”

“A rescrevê-los como?”

“Moisés e outros acreditavam que o rio Jordão era a fronteira de Israel, mas os deuteronómicos acreditavam que Israel incluía a Transjordânia, o que justificava a agressão a leste.   Há muitos outros exemplos: a Lei pré-deuteronómica nada dizia sobre um monarca.   A Lei tal como foi escrita pela escola deuteronómica reflectia um sistema monárquico.   A lei pré-deuteronómica debruçava-se na sua maior parte sobre os assuntos sagrados enquanto a principal preocupação da Lei deuteronómica é a educação do rei e do seu povo – por outras palavras, assuntos seculares.   Os deuteronómicos insistiam em centralizar a religião no Templo em Jerusalém destruindo os centros de culto exteriores.   E há ainda outro aspecto que Lagos achou significante.”

“E que é?”

“O Deuteronómio é o único livro do Pentateuco que se refere a uma Torah escrita contendo o desejo divino: ‘E quando ele se sentar no trono do seu reino, deverá escrever ele próprio num livro uma cópia desta lei da qual estão encarregues os sacerdotes Levíticos; e deverá permanecer com ele, e ele deverá lê-la todos os dias da sua vida, para que possa aprender a temer o Senhor seu Deus, mantendo e cumprindo todas as palavras desta lei e destes estatutos;   que deste modo o seu coração não se levante sobre o seu irmão, e não se afaste ele dos mandamentos quer para a direita quer para a esquerda;  para que ele possa continuar por muito tempo no seu reino, ele e os seus filhos, em Israel’.   Deuteronómio 17: 18-20.”

“Portanto os deuteronómicos codificaram a religião.   Puseram-na numa entidade organizada e auto-propagante – diz Hiro – Eu não quero dizer ‘vírus’.   Mas de acordo com o que acabaste de me citar agora mesmo, a Torah é como um vírus.   Usa o cérebro humano como hospedeiro.   O hospedeiro – o humano – faz cópias dele.   E mais humanos chegam à sinagoga e lêem-na.”

“Eu não consigo processar uma analogia.   Mas o que diz é correcto, até tal ponto:   após os deuteronómicos terem reformado o judaísmo, em vez de fazerem sacrifícios os judeus iam à sinagoga e liam o Livro.   Não fossem os deuteronómicos, os monoteístas do mundo estariam ainda a sacrificar animais e a propagar os seus credos através da tradição oral.”

“Partilhando seringas – diz Hiro – Quando estavas a tratar deste material com Lagos, terá alguma vez ele dito qualquer coisa sobre a Bíblia ser um vírus?”

“Ele disse que tinha certas coisas em comum com um vírus, mas que ela era diferente.   Considerava-a um vírus benigno.   Como os usados para vacinações.   Considerava o vírus Asherah como sendo mais maligno, capaz de ser espalhado através da troca de fluidos corporais.”

“Portanto a religião estrita e baseada em livro dos deuteronómicos inoculava os hebreus contra o vírus Asherah.”

“Em combinação com uma monogamia estrita e outras práticas kosher, dieteticamente sagradas, sim – diz o Bibliotecário – As  religiões prévias, da Suméria até ao Deuteronómio, são conhecidas como pré-racionais.   O judaísmo foi a primeira das religiões racionais.   Como tal, na perspectiva de Lagos, era muito menos susceptível a infecção viral porque baseava-se em registos fixos, escritos.   Esta era a razão para a veneração da Torah e o cuidado preciso usado ao fazerem-se novas cópias dela – higiene informacional.”

“E em quê é que nós hoje vivemos?   A era pós-racional?”

“Juanita teceu comentários a esse propósito.”

“Aposto que sim.   Ela está a começar a fazer mais sentido para mim, a Juanita.”

“Oh.”

“Na verdade, nunca antes havia feito muito sentido.”

“Estou a ver.”

“Penso que se conseguir passar tempo suficiente contigo para ver o que vai na cabeça da Juanita, bem, coisas maravilhosas podem acontecer.”

“Tentarei dar uma ajuda.”

“Regressemos ao trabalho – não há tempo para estar agora com uma tusa.   Parece que Asherah foi a portadora de uma infecção viral.   De alguma maneira os deuteronómicos viram isto e exterminaram-na bloqueando todos os vectores pelos quais ela infectava novas vítimas.”

“Com referência a infecções virais – diz o Bibliotecário – se é que posso fazer uma referência-cruzada, uma hiperligação, abrupta e espontânea – algo que estou codificado para efectuar em momentos oportunos – talvez queira examinar o herpes simplex, um vírus que permanece residente no sistema nervoso e nunca mais desaparece.   É capaz de trazer novos genes para os neurónios existentes e geneticamente aplicar-lhes uma reengenharia.   Os modernos terapeutas genéticos usam-no para este propósito.   Lagos pensava que o herpes simplex pudesse ser um descendente moderno e benigno de Asherah.”

“Nem sempre benigno – diz Hiro, lembrando-se de um amigo seu que morrera de complicações relacionadas com a SIDA; nos últimos dias, tinha lesões de herpes desde os lábios até garganta abaixo – Só é benigno porque temos imunidades.”

“Sim, sir.”

“Lagos pensava então que o vírus Asherah alterava de facto o ADN das células cerebrais?”

“Sim.   Esta era a espinha dorsal da sua hipótese, que o vírus era capaz de ele próprio se transmutar de uma cadeia de ADN transmitida biologicamente para um conjunto de comportamentos.”

“Que comportamentos?   Como é que era a adoração a Asherah?   Faziam-se sacrifícios?”

“Não.   Mas há evidência de uma prostituição cultual, tanto masculina como feminina.”

“E isso significa o que eu penso?   Figuras religiosas que se mantinham à volta do templo a foder com o pessoal?”

“Mais ou menos.”

“Bingo.   Magnífica maneira para espalhar um vírus.   Agora, quero saltar para um desvio anterior nesta conversa.”

“Como quiser.   Posso gerir desvios dentro de desvios até uma profundidade de níveis virtualmente infinita.”

“Estabeleceste uma conexão entre Asherah e Eva.”

“Eva – cujo nome bíblico é Hawwa – é claramente a interpretação hebraica de um mito mais antigo.   Hawwa é uma deusa-mãe ofidiana.”

“Ofidiana?”

“Associada a serpentes.   Asherah é igualmente uma deusa-mãe ofidiana.   E ambas estão também associadas com árvores.”

“Eva, como me lembro, é considerada responsável por levar Adão a comer o fruto proibido, da árvore do conhecimento do bem e do mal.   O que quer dizer, não é apenas fruto – é Informação.”

“Se você o diz, sir.”

“Interrogo-me se os vírus estiveram sempre presentes entre nós, ou não.   Há como que uma assunção implícita de que desde sempre estiveram.   Mas pode ser que isso não seja verdade.   Pode ser que tenha havido um período na história em que eles eram não-existentes ou, no mínimo, uma raridade.   E em certa altura, quando o metavírus entrou em cena, o número de diferentes vírus explodiu e as pessoas começaram a adoecer em quantidade.   Isso explicaria o facto de todas as culturas parecerem ter um mito sobre o Paraíso e a Queda do Paraíso.”

“Talvez.”

“Disseste-me que os essénios pensavam que as ténias fossem demónios.   Se eles soubessem o que era um vírus provavelmente teriam pensado a mesma coisa dele.   E Lagos na outra noite disse-me que, de acordo com os sumérios, não havia um conceito de bem e do mal de per se, independente.”

“Correcto.   De acordo com Kramer e Maier, para os sumérios há bons demónios e maus demónios.   ‘Os bons trazem a saúde física e emocional.   Os maus trazem a desorientação e uma variedade de males físicos e emocionais (...)   Mas dificilmente se podem diferenciar estes demónios das doenças que eles personificam... e muitas das doenças soam, aos ouvidos modernos, como devendo ser psicossomáticas’.”

“Isso é o que os médicos disseram sobre Da5id, que a sua doença deve ser psicossomática.”

“Não sei nada sobre o Da5id, exceptuando algumas estatísticas aliás banais.”

“É como se o ‘bem’ e o ‘mal’ fossem inventados pelo autor da lenda de Adão e Eva para explicar porque é que as pessoas ficam doentes – porque é que têm vírus físicos e mentais.   Portanto quando Eva – ou Asherah – levou Adão a comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, ela estava a introduzir no mundo o conceito do ‘bem’ e do ‘mal’ – a introduzir o metavírus, o qual origina os vírus.”

“Pode ser.”

“Então a minha próxima pergunta é: Quem é que escreveu a lenda de Adão e Eva?”

“Essa é fonte de muita discussão académica.”

“O que é que Lagos pensava?   Mais precisamente, o que é que Juanita pensava?”

“A interpretação radical feita por Nicolas Wyatt’s da história de Adão e Eva supõe que ela foi, de facto, escrita como uma alegoria política pelos deuteronómicos.”

“Pensava que eles tinham escrito os livros posteriores, não o Génesis.”

“É verdade.   Mas eles estiveram envolvidos também na compilação e edição dos livros anteriores.   Durante muitos anos foi assumido que o Génesis havia sido escrito numa altura cerca de 900 A.C. ou mesmo antes – bem anterior ao advento dos deuteronómicos.   Mas análises mais recentes do vocabulário e conteúdo sugerem que uma enorme quantidade de trabalho editorial – possivelmente até, trabalho autoral – teve lugar por volta do tempo do Exílio, quando os deuteronómicos é que tinham as rédeas.”

“Portanto podem ter rescrito um anterior mito de Adão e Eva.”

“Parece terem tido ampla oportunidade.   De acordo com a interpretação de Hvidberg e, depois, de Wyatt, Adão no seu jardim é uma parábola ao rei no seu santuário, especificamente ao rei Hosea que governava o reino do norte até que este foi conquistado por Sargão II em 722 A. C..”

“É a tal conquista que mencionaste anteriormente – a que empurrou os deuteronómicos para sul, até Jerusalém.”

“Exactamente.   Agora, o Eden, que pode ser entendido simplesmente como a palavra hebraica para delícia, significa o estado feliz em que o rei vivia anterior à conquista.   A expulsão do Eden para as terras agrestes a leste é uma parábola à deportação em massa dos israelitas para a Assíria seguinte à vitória de Sargão II.   De acordo com esta interpretação, o rei havia-se desviado do trilho da rectidão pelo culto a El, com a sua associada adoração a Asherah – que é associada habitualmente às serpentes  e cujo símbolo é uma árvore.”

“E a associação dele a Asherah levou de algum modo a que fosse conquistado – portanto quando os deuteronómicos chegaram a Jerusalém reformulam a história de Adão e Eva como um aviso aos líderes do reino do sul.”

“Sim.”

“E talvez, porque ninguém lhes desse ouvidos, talvez tenham inventado o conceito do bem e do mal nesse processo, como um engodo.”

“Um engodo?”

“Um termo da indústria.   Então o que é que aconteceu?   Sargão II também tentou conquistar o reino do sul?”

“O seu sucessor, Senaquerib, fê-lo.   O rei Ezequias, que governava no reino do sul, preparou-se febrilmente para o ataque, efectuando grandes melhoramentos às fortificações de Jerusalém, e melhorando o seu abastecimento de água potável.   Ele foi também responsável por uma série de avançadas reformas religiosas que levou a cabo sob a direcção dos deuteronómicos.”

“E como é que isso resultou?”

“As forças de Senaquerib cercaram Jerusalém.   ‘E nessa noite o anjo do Senhor avançou e feriu cento e oitenta e cinco mil no acampamento assírio; e de manhã ao despertar observaram que aquilo estava cheio de cadáveres.   Então Senaquerib rei da Assíria levantou o acampamento e partiu...’ Reis-2 19:35-36”

“Aposto que sim.   Então deixa-me acertar isto:   os deuteronómicos, através de Ezequias, impuseram uma política de higiene informacional em Jerusalém e fizeram algum trabalho de engenharia civil – disseste que trabalharam no abastecimento de água?”

“ ‘Eles pararam todas as nascentes e o riacho que fluía através da terra, dizendo - Porque deverão os reis da Assíria chegar aqui e encontrar tanta água?’ Crónicas-2 32:4.   Então os hebreus escavaram um túnel de quinhentos metros através de rocha sólida para levar essa água para dentro das muralhas da cidade.”

“E assim logo que os soldados de Senaquerib chegaram ao local, todos tombaram mortos vitimados pelo que pode ser apenas entendido como uma extremamente virulenta doença, à qual o povo de Jerusalém estava aparentemente imune.   Humm, interessante – interrogo-me sobre o foi posto na água deles?”

31

Y.T. não vai muito lá para os lados de Long Beach mas quando lá vai tudo fará para evitar a Zona Sacrificada.   São uns estaleiros abandonados do tamanho de uma pequena cidade.   Fica colada à San Pedro Bay onde os mais antigos e degradados Segurbúrbios da baía – uns Segurbúrbios não planeados e com casinhas em sarrafos de asbestos, patrulhados por tipos cambojanos de sobrolho carrancudo e com caçadeiras-punheta –desvanecem-se por aquelas praias beijadas a espuma.   A maior parte dela fica na muito apropriadamente apelidada Ilha Terminal e uma vez que a prancha dela não caminha sobre a água isso significa que ela só lá pode chegar - e sair - pela única estrada de acesso.

Como todas as Zonas Sacrificadas, esta possui uma vedação a toda a volta com sinais metálicos amarelos ligados a ela de tantos em tantos metros.

 

ZONA SACRIFICADA

AVISO.   O Serviço de Parques Nacionais declarou esta área como sendo uma ‘Zona Sacrificada Nacional’.   O Programa de Zonas Sacrificadas foi desenvolvido para gerir parcelas de terra cujo custo de limpeza excede o seu futuro valor económico total.

 

E como em todas as vedações de Zonas Sacrificadas nesta existem buracos e nalguns pontos está parcialmente deitada abaixo.   Gajos jovens rebentados da mona com o uso de hormonas masculinas tanto naturais como artificiais têm que ter um lugar para perfazerem os seus idiotas rituais iniciáticos.   Vêm dos Segurbúrbios de toda aquela vasta área nos seus camiões de tracção às quatro rodas e rasgam por ali sobre aquele terreno aberto, talhando encaracolados sulcos sobre essa cobertura de barro que foi despejada nas partes mesmo beras para evitar que os asbestos, levados pelo vento, sejam lançados num autêntico ‘blizzard’ sobre a Disneilândia.

Y.T. encontra-se bem entusiasmada por saber que estes tipos nunca na sua vida sonharam sequer com um veículo todo-o-terreno como esta cadeira de rodas motorizada de Ng.   É sem perda de velocidade que abandonam a estrada – a viagem torna-se um pouco aos solavancos – e atingem a vedação de rede como se aquilo fosse um mero banco de nevoeiro mandando ao piso com uma secção aí de umas dezenas de metros.

É uma noite clara e assim a Zona Sacrificada reluz, uma imensa carpete de vidro partido e asbestos em farrapos.   A uns trinta metros algumas gaivotas retalham a barriga de um pastor alemão morto, tombado sobre as costas.   Há uma constante ondulação do solo que faz o vidro estilhaçado cintilar e tremeluzir - isto é causado por esparsas e vastas migrações de ratos.

As fundas marcas desenhadas a computador desses gordos pneus embolados dos rapazes suburbanos pintam runas gigantes sobre o barro, são como as figuras misteriosas no Perú sobre as quais a mamã de Y.T. aprendeu num Templo NeoAquariano.   Através das janelas Y.T. consegue escutar o ocasional rebentar de foguetes ou disparos de armas.

Pode também ouvir Ng a fazer novos e ainda mais estranhos sons com a boca.   Há um sistema altifalante embutido na camioneta – uma aparelhagem stereo, embora Ng pareça longe disto agora, e na verdade nos tempos mais próximos, de se pôr aqui a escutar música.   Y.T. sente aquilo a ser ligado, um quase inaudível sopro a sair dos altifalantes.

A viatura começa a arrastar-se para a frente através da Zona.

O inaudível sopro cresce, aglomera-se num baixo zumbido electrónico.   Não é contínuo, ondula para cima e para baixo, conservando-se relativamente grave como Roadkill às voltas com a sua guitarra-eléctrica-baixo.   Ng vai mudando a direcção da camioneta como se andasse à procura de qualquer coisa e Y.T. fica com a impressão de que o tom do zumbido está a crescer.

Definitivamente está a crescer, aumentando no sentido de um guincho.

Ng rosna um comando e o volume reduz-se.   Conduz agora bastante devagar.

“É possível até que nem tenha que comprar nenhum Snow Crash – murmura ele – pode ser que tenhamos encontrado um esconderijo não protegido.”

“O que é este ruído completamente irritante?”

“Sensores bioelectrónicos.   Membranas de células humanas.   Criados in vitro o que quer dizer, em vidro, numa proveta.   Uma face é exposta ao ar exterior, o outro lado está limpo.   Quando uma substância estranha atravessa a membrana celular e penetra no lado limpo, é detectada.   Quantas mais moléculas estranhas penetram mais alto será o tom deste som.”

“Como um contador Geiger?”

“Muito como um contador Geiger para compostos que penetram em células” – diz Ng.

Tais como o quê, esses compostos? Queria Y.T. perguntar.   Mas não o faz.

Ng pára a furgoneta.   Liga algumas luzes – umas luzes muito ténues.   Só para verem como é analítico este gajo – deu-se ao trabalho de instalar estas luzes fracas especiais em adição a todas aquelas outras brilhantes.

Estão a olhar para um género de concavidade mesmo aos pés de um enorme amontoado de bidões e que está atulhada com lixo.   A maior parte do lixo são latas de cerveja vazias.   No meio daquilo, um buraco para o fogo.   Vêm-se muitos rastos de pneus a convergir para aqui.

“Ah, isto está bom – diz Ng – um lugar onde se juntam os tipos jovens para tomar drogas.”

Y.T. rola os seus olhos por esta visão de tubularidade.   Este deve ser o gajo que escreve todos aqueles panfletos anti-droga que metem na escola.   Como se ele não estivesse ali a receber milhões de litros de drogas em cada segundo através de todos aqueles grossos tubos.

“Não vejo quaisquer indícios de armadilhas – diz Ng – Porque é que não sais e vês que tipo de parafernália de drogas há por ali?”

Ela olha para ele como ‘o que é que disse?’

“Há uma máscara contra tóxicos pendurada aí atrás do teu assento” – diz ele.

“O que há ali fora, no tocante a tóxicos?”

“Asbestos descartados pela indústria de construção naval.   Tintas marinhas anti-aderência que estão cheias de metais pesados.   Também usaram PCBs para uma série de coisas.”

“Magnífico.”

“Sinto a tua relutância.   Mas se conseguires uma amostra de Snow Crash deste sítio de chuto de drogas isso evitará o resto da nossa missão.”

“Bem, uma vez que põe as coisas nesse pé – diz Y.T., e agarra na máscara.   É de um número grande, em borracha e tela, e que lhe cobre a totalidade da cabeça e pescoço.   Sente aquilo pesado e desconfortável de início mas quem quer que a desenhou tinha a ideia correcta, todo o peso apoia-se nos sítios devidos.   Há também um par de pesadas luvas que ela logo enfia.   Estão-lhe mesmo demasiado grandes.   Como se o pessoal na fábrica de luvas não soubesse sequer que na verdade uma mulher pudesse usar luvas.

Arrasta-se para fora para cima daquele solo em vidros e asbestos da Zona, esperando que Ng não vá bater a porta, fechá-la e dar o fora, deixá-la ali.

Na verdade até deseja que ele faça isso.   Seria uma aventura fixe.   De qualquer forma avança até ao meio do sítio de ‘toma de drogas’.   Não fica muito surpresa ao deparar com um pequeno ninho de agulhas hipodérmicas descartadas.   E alguns pequenos tubinhos esvaziados.   Pega num par de frasquinhos e lê-lhes os rótulos.

“O que é que achaste?” – diz Ng quando ela regressa à viatura e se desenvencilha da máscara.

“Agulhas.   Principalmente Hiponarxes.   Mas há também um par de Ultra Laminars e alguns Mosquitos vinte-cinco.”

“O que é que quer isso tudo dizer?”

“O Hiponarx podes conseguir em qualquer ‘Buy ‘n’ Fly’, o pessoal chama-lhe pregos ferrugentos, são baratos e sem interesse.   Supostamente, os ‘picos’ para pobres negros diabéticos e drogados.   Ultra Laminars e Mosquitos são futuristas, consegues arranjá-los nesses Segurbúrbios modernaços, não doem assim muito quando espetas, e têm um melhor design.   Está a ver, êmbolos ergonómicos, esquemas de cor ‘hip’ – futuristas.”

“Que droga é que andavam a injectar?.”

“Verifique” – diz Y.T., e segura num dos tubinhos na direcção de Ng.

Ocorre-lhe então que ele não pode propriamente virar a cabeça para olhar.

“Onde é que posso segurá-lo para que você consiga vê-lo?” – diz ela.

Ng entoa uma cançãozita.   Um braço de robot desdobra-se a partir do tecto e de modo súbito arranca-lhe o tubinho da mão, fá-lo descrever um arco posicionando-o defronte de um aparelho, uma câmara-vídeo existente no painel frontal.

O rótulo escrito à máquina colado no frasquinho apenas diz: ‘Testosterona’.

“Ah, ah, alarme falso” – diz Ng.   Subitamente a viatura precipita-se para a frente, principia a encaminhar-se mesmo para o centro da Zona Sacrificada.

“Quer-me contar o que é que se está a passar? – diz Y.T. – Uma vez que sou eu a ter que fazer o trabalho neste esquema?”

“Paredes celulares – diz Ng – O detector encontra qualquer químico que penetra as membranas celulares.   Assim fomos naturalmente encaminhados para uma fonte de testosterona.   Um rebate falso.   Engraçado.   Vês, os nossos bioquímicos levam vidas isoladas, não previram que alguma malta seria mentalmente tão retorcida que chegasse ao ponto de usar hormonas como se fossem qualquer tipo de drogas.   Mas que bizarro.”

Y.T. sorri para si própria.   Na verdade simpatiza com a ideia de viver num mundo onde alguém como Ng pode ainda tratar outro como bizarro.   “De que é que anda à procura?”

“Snow Crash – diz Ng – Em vez disso deparámos com o ‘Anel dos Dezassete’.”

“Snow Crash é a droga que vem em tubinhos – diz Y.T. – sei disso.   O que é o ‘Anel dos Dezassete’?   Um desses novos grupos de rock malucos que os putos hoje em dia ouvem?”

“O Snow Crash penetra as paredes das células cerebrais e aponta logo, aloja-se, nos respectivos núcleos, onde está armazenado o ADN.    Portanto, para os propósitos desta missão, desenvolvemos um detector que nos permitiria encontrar no ar esses compostos capazes de penetrar a parede celular.   Só que não contámos com os montes de frascos vazios de testosterona espalhados aí por todo o sítio.   Todos os esteróides – hormonas artificiais – partilham a mesma estrutura básica, um anel de dezassete átomos que actua como uma chave mágica que lhes permite passar através das paredes celulares.   É por isso que os esteróides são substâncias tão poderosas quando libertadas no corpo humano.   Podem ir bem ao interior da célula, até ao núcleo, e mudar na verdade a maneira como a célula funciona.

“Em suma: o detector é inútil.   Uma abordagem discreta não é praticável.   Portanto voltamos ao plano original.   Comprar algum Snow Crash e atirá-lo ao ar.”

Y.T. não percebe bem esta última parte.   Mas mantém-se calada por um bocado porque na opinião dela Ng tem que prestar mais cuidado à sua condução.

Uma vez que se acham fora daquela parte verdadeiramente arrepiante, muita da Zona Sacrificada acaba por consistir numa vastidão de ervas secas acastanhadas e enormes pedaços de metal abandonado.   Há grandes amontoados de porcaria elevando-se aqui e além – carvão ou escórias ou coque ou minério fundido ou qualquer coisa.

Cada vez que contornam alguma esquina encontram uma pequena plantação de vegetais cuidada por asiáticos ou sul-americanos.   Y.T. fica com a impressão de que Ng quer mesmo atropelá-los mas ele muda sempre de opinião no último instante e guina à volta deles.

Há alguns negros a falar espanhol e a jogarem baseball numa ampla área plana usando como bases as faces redondas de tambores de cinquenta e cinco galões.   Estacionaram meia dúzia de velhas carripanas à volta dos limites do campo e ligaram as luzes para providenciarem a iluminação.   Ali perto há um bar construído numa decrépita casa-volante, marcado por um reclame feito a graffitis: The Sacrifice Zone.

Filas de vagões de mercadorias estão alinhadas num parque de mais que ferrugentos ramais ferroviários e figueiras da Índia despontam entre as travessas.   Uma das carruagens foi transformada numa franchise da Reverend Wayne’s Pearly Gates e evangélicos centro-americanos fazem fila para poderem executar a sua penitência e falar em línguas sob um Elvis em néon.   Na Zona Sacrificada não existem franchises do Templo NeoAquariano.

“A área dos armazéns não é tão suja como o primeiro lugar onde fomos – assegura Ng – e assim o facto de não poderes usar a máscara anti-tóxica não será tão mau.   Podes é cheirar alguns gases de refrigeração, Chill.”

Y.T. efectua uma dupla assimilação deste novo fenómeno: Ng a usar o nome de  rua dado a uma substância proibida.   “Estás a falar em Freon?” – diz ela.

“Sim.   O homem que é o objecto do nosso inquérito é horizontalmente diversificado.   Isto é, negoceia num número de diferentes substâncias.   Mas começou com o Freon.   É o maior vendedor de Chill – atacado/retalhista – da costa ocidental.”

Finalmente Y.T. compreende a coisa.   A furgoneta de Ng tem ar-condicionado.   Não um daqueles merdosos ar-condicionados ‘amigos do ozono’ mas sim com a coisa autêntica, um Frigidaire que é ali um bufador de  um ‘blizzard’ tal, uma tempestade gelada, e feito em bom metal, de alta capacidade, mesmo bom para congelar os ossos.   Deve gastar uma quantidade incrível de Freon.

Para todos os efeitos práticos aquele ar-condicionado é parte do corpo de Ng.   Y.T. a cirandar com o único drogado de Freon em todo o mundo.

“Compra o seu fornecimento de Chill a este gajo?”

“Até agora, sim.   Mas para o futuro tenho já um esquema com outra gente.”

Outra gente.   A Máfia.

 

Aproximam-se da margem da baía.   Dúzias de compridos e finos armazéns de um piso só correm paralelos por ali abaixo até à água.   Neste extremo da zona todos compartilham a mesma estrada de acesso.   Ruas mais pequenas esgueiram-se entre eles até onde costumavam existir os molhes.   Aqui e ali jazem abandonados alguns camiões TIR.

Ng faz a carrinha sair da estrada de acesso para um pequeno recanto que está parcialmente escondido entre uma velha estação eléctrica em tijolo vermelho e uma pilha de contentores marítimos enferrujados.   Manobra-a de forma a ficar apontada para a saída como estando a modos que à espera de ter que sair dali rápido.

“Há dinheiro no compartimento de arrumação à tua frente” – diz Ng.

Y.T. abre o porta-luvas, como qualquer um chamaria àquilo, e encontra um grosso maço de notas de triliões de dólares, gastas e sujas.   Ed Meeses na imagem.

“Jeeesus!, não consegue arranjar nenhumas do Gippers?   Isto é um grande volume.”

“Isto é mais do género do que um Korreio usará para pagamento.”

“Porque nós somos todos a escumalha do sítio, certo?”

“Sem comentários.”

“Quanto é que está aqui, um quatrilião de dólares?”

“Um quatrilião e meio.   Inflação, sabes como é.”

“O que é que devo fazer?”

“O quarto armazém à esquerda – diz Ng – Quando tiveres o tubo, atira-lo ao ar.”

“E depois?”

“Tudo o mais será acautelado.”

Y.T. tem as suas dúvidas sobre isso.   Mas se entrar em problemas, bem, pode sempre sacar e agitar aquelas ‘chapinhas de cão’.

Enquanto Y.T. desce do veículo com o seu skateboard Ng emite novos sons com a boca.   Ela escuta um ruído deslizante e chocalhante a ressoar através da estrutura da furgoneta, maquinaria a regressar à vida, a ser ligada.   Voltando-se para olhar vê que a cobertura de um casulo em aço no tecto da viatura acaba de se abrir.   Por baixo dela está um helicóptero miniatura, ainda todo dobrado.

As lâminas do seu rotor estendem-se automaticamente como uma borboleta a desdobrar-se.   Na parte lateral o nome pintado: Whirlwind Reaper – o ‘Colhe Tempestades’.

32

É claramente óbvio qual é o armazém que andamos aqui à procura.   É o quarto à esquerda.  A estrada, é a que vai até à margem e encontra-se bloqueada por vários contentores marítimos – as grandes caixas em aço que se vêem habitualmente nas traseiras dos camiões de dezoito rodados.   Eles estão dispostos como uma espinha de arenque, desencontrados de tal modo que para passar por eles tens que fazer uma gincana para trás e para a frente uma meia-dúzia de vezes, atravessar esse estreito canal labiríntico entre elevadas paredes de aço.   Uns bacanos com armas estão empoleirados no topo e olham para Y.T. conforme ela guia a sua prancha por esta corrida de obstáculos.   Na altura em que sai dali para terreno aberto já foi profundamente inspeccionada.

Cá temos a ocasional lâmpada suspensa de um fio estendido por ali e até existe um par de gambiarras de luzes de árvore de natal.   Encontram-se ligadas.   Fazem-na sentir-se um pouco mais bem-vinda.   Não consegue ver nada, só luzes, emitindo aqueles halos coloridos por entre uma nuvem generalizada de pó e nevoeiro.   Em frente dela, o acesso à margem encontra-se bloqueado por mais um labirinto de contentores marítimos.   Sobre um deles um dístico em graffiti:

O RIDO DIS:   EXPERIMENTA HOJE UMA ‘CONTAGEM DECRESCENTE’

“O que é o RIDO?” – diz ela, só para quebrar um pouco o gelo.

“O Rei Indisputado dos Destruidores de Ozono – diz uma voz de homem.   Encontra-se na atitude de saltar cá para baixo, a partir dali da zona de carga do armazém à esquerda dela.   Dentro do armazém consegue ver as luzes eléctricas e o clarão de cigarros -  É o que nós chamamos ao Emílio.”

“Oh, correcto – diz Y.T. – O gajo do Freon, do Chill.   Mas eu não estou aqui para comprar Chill.”

“Bem – diz o gajo, um chavalo alto, esguio, nos seus quarentas, magro demais para ter quarenta anos.   Arranca da sua boca a beata de cigarro e atira-a como um dardo.   “O que é que vai ser, então?”

“Quanto é que custa a Snow Crash?”

“Um ponto sete cinco ‘Gippers’” – diz o gajo.

“Pensei que fosse um ponto cinco” – diz Y.T.

O gajo abana a cabeça.   “Inflação, sabes.   Mesmo assim, é uma pechincha.   Que diabo, essa prancha em que estás em cima vale provavelmente uma centena de ‘Gippers’.”

“Nem consegues comprar isto em dólares - diz Y.T. voltando ao ataque – Olha, tudo o que tenho é um-e-meio quatriliões de dólares” – ela puxa do maço para fora do bolso.

O gajo ri-se, abana a cabeça, berra lá para trás para os colegas no interior do armazém – “Vocês pá, temos aqui uma miúda que quer pagar em ‘Meeses’.”

“É melhor livrares-te del’s rápido, q’ridinha – diz uma voz mais afiada e desagradável – ou arranja um carrinho de mão.”

É um tipo ainda mais velho com uma cabeça calva, cabelo encaracolado nos lados e uma pança.   Está de pé na zona de carga.

“Se não vão aceitar, então digam” – diz Y.T.   Toda esta conversa fiada não tem nada a ver com negócio.

“Não é muito habitual termos miúdas a vir aqui – diz o gajo gordo careca e velho.   Y.T. sabe que este tem que ser o próprio RIDO.

“Então vamos dar-te um desconto por seres corajosa.   Vira-te.”

“Vai-te foder” – diz Y.T.   Ela não se vai voltar como este gajo diz.

Todos ao alcance da voz dele se riem.   “Okay, vamos a isto” – diz o RIDO.

O gajo alto e magro vai de volta à zona de carga e carrega para cá uma pasta de alumínio.   Coloca-a em cima de um bidão em aço no meio da estrada de modo que aquilo lhe dá pela cintura.   “Paga primeiro” – diz ele.

Ela entrega-lhe as ‘Meeses’.   Ele examina o maço de notas, faz um sorriso de desdém, e atira aquilo para dentro do armazém com um súbito movimento da mão para a retaguarda.   Todos os gajos no interior se riem ainda mais.

Ele abre a mala revelando o teclado do pequeno computador.   Empurra o seu cartão de identificação pela ranhura e digita nas teclas por um par de segundos.

Retira um tubo da parte superior da pasta e coloca-o no encaixe existente na parte de baixo.   A máquina recolhe-o para o interior, executa qualquer coisa e cospe-o de volta.

Passa o tubo a Y.T.   Os números a vermelho, no topo, em contagem decrescente desde dez.

“Quando chegar a ‘um’ segura-o de encontro ao nariz e começa a inalar” – diz o gajo.

Ela está já a recuar dele.

“Tens algum problema, miudinha?” – diz ele.

“Ainda não” – diz ela.   Então atira ao ar o tubo com quanta força tem.

O troar das lâminas do rotor vem não se sabe de onde.   O Whirlwind Reaper como algo indistinto risca sobre as cabeças deles; todos se abaixam por um instante como se a surpresa lhes derretesse os joelhos.   O tubo não regressa à terra.

“Sua puta do caraças” – diz o gajo esguio.

“Foi um plano bem fixe – diz o RIDO – mas a parte que não estou a topar é porque é que uma gaja gira e esperta iria alinhar numa missão suicida?”

O sol nasce.   Na realidade, cerca de meia dúzia de sóis, todos em volta deles ali no ar de modo que nem há sombras.   Os rostos do tipo esguio e do RIDO parecem espalmados e sem pormenores sob esta iluminação que cega.   Y.T. é a única pessoa que consegue ver o que quer que seja.   Porque os seus Knight Visions já auto-compensaram aquilo.   Os homens retraem-se e descaem sob os feixes de luz.

Y.T. volta-se para olhar o que se passa atrás dela.   Um dos sóis miniatura flutua acima dos contentores marítimos derramando luz por sobre todas aquelas passagens, cegando os atiradores que ali montavam guarda.   A cena surge instantaneamente muito brilhante e muito escura conforme a electrónica dos óculos dela tenta ‘decidir-se’, adaptar-se àquela luminosidade.   Mas pelo meio de toda esta confusão visual ela fica com uma imagem indelevelmente marcada na sua retina: os pistoleiros estão a ir ao piso que nem uma fiada de árvores num furacão e, por um instante apenas, uma linha de coisas angulosas e escuras surge em silhueta por sobre aquele labirinto conforme trepam por aquilo tudo que nem um tsunami cibernético.   Tipo-Ratos.

Trataram já de se desenvencilhar de todo aquele puzzle do labirinto.   Saltaram sobre ele em longas e suaves parábolas.   De caminho alguns deles atiraram-se estrondosamente mesmo para cima dos corpos daqueles homens armados, como defesas da liga de futebol americano sulcando a toda a velocidade por entre os palermas dos fotógrafos nas linhas laterais.   Depois, conforme aterravam na estrada após o labirinto, há uma irrupção momentânea de poeira com frenéticas faúlhas brancas a dançar em volta rente ao solo e enquanto isto acontece Y.T. não ouve, antes sente, um dos Tipo-Ratos num impacto contra o corpo do tipo fininho, ouve os estilhaços das costelas como se fossem uma bola de celofane.   E já está o diabo à solta igualmente ali dentro do armazém, mas os olhos dela tentam seguir a acção, observando os rastos de faíscas-e-poeira de mais Tipo-Ratos a chegarem vindos ao longo da estrada e que no momento seguinte estão ‘aerotransportados’ até ao topo da próxima barreira.

Três segundos se passaram desde que ela mandou o tubo ao ar.   Volta-se para olhar para o interior do armazém.   Mas há alguém ali no cimo dele e que lhe prendeu o olhar por um segundo.   É outro pistoleiro, um atirador, um ‘sniper’ que surge avançando por detrás de uma unidade de ar-condicionado, habituando-se à luminosidade, levantando a arma até ao ombro.   Y.T. estremece conforme um feixe laser vermelho da espingarda dele lhe passa em varrimento sobre os olhos, uma, duas vezes, para se deter sobre a testa.   Atrás dele vê o Whirlwind Reaper, os seus rotores desenhando um disco sob a brilhante luz, um disco que se vai estreitando em fina elipse e se reduz depois numa perfeita linha prateada.   E então ele voa a direito passando pelo sniper.

O heli mete-se em ascensão numa curva apertada em busca de presas adicionais, e há qualquer coisa que cai, se despenha numa trajectória sem impulso, ela pensa até que terá largado alguma bomba.   Mas é a cabeça do atirador, em rápido parafuso, largando uma fina hélix rosa sob aquela luz.   A lâmina do rotor do pequeno heli deve tê-lo apanhado na traseira do pescoço.   Uma parte dela desapaixonadamente observa a cabeça a ressaltar e a girar ali na poeira, a outra parte dela berra a plenos pulmões.

Ela escuta um estalar, o primeiro ruído alto, de facto.   Volta-se para seguir o som olhando na direcção de uma torre com uma cisterna de água no topo e que domina aquela área, providenciando um ponto vantajoso, porreiro para um sniper.

Mas então a sua atenção é solicitada pelo escape branco-azulado e que parece fino que nem um lápis de um pequeno foguetão que se lança para o céu a partir da furgoneta de Ng.   Não faz nada, vai só até uma determinada altura e plana, como se descansando sobre o escape.   Ela não se importa com aquilo, está ela agora a pontapear o chão no seu caminho estrada fora, já montada na prancha, a tentar que haja qualquer coisa interposta entre ela e aquela torre da cisterna.

Há um segundo ruído, outro estalar.   Mesmo ainda antes deste som chegar aos ouvidos dela o foguetão parte horizontalmente que nem um dardo, uma carpa, e efectua um ou dois cortes a corrigir o seu curso e fixa-se no poleiro daquele sniper no cimo do escadote de acesso à cisterna.   Há uma enorme e medonha explosão sem qualquer chama ou luz, como o estrondo alto e insípido que às vezes temos em espectáculos de foguetório.   Por um momento ela consegue ouvir o clamor dos estilhaços a retinir através da ferragem do depósito de água.

Mesmo antes de se atirar ao labiríntico caminho, uma linha de poeira passa que nem um chicote ao lado dela despedindo cascalho e fragmentos de vidro partido para a sua cara.   E aquilo dispara por ali pelo labirinto.   Ouve-o num pingue-pongue, o caminho todo ele a ressaltar das paredes em aço para ir mudando de direcção.   É um Tipo-Rato a abrir-lhe passagem.

Tão querido!

 

“Smooth move, ex-Lax[19] -  Nas calminhas – diz ela trepando de novo para a furgoneta de Ng.   Tem a  garganta como apertada, inchada.   Talvez seja de ter gritado, talvez seja do lixo tóxico, talvez esteja para emudecer – Sabia dos atiradores?” – diz ela.   Se conseguir manter-se a conversar sobre os pormenores da missão talvez possa manter afastado o pensamento do que o Whirlwind Reaper fez.

“Não sabia daquele na torre de água – diz Ng – mas logo que ele disparou um par de tiros visualizámos a trajectória das balas através da gama de ondas de um milímetro e em retrospectiva traçámos-lhes a sua origem.”   Ele fala para a sua furgoneta e o veículo salta do esconderijo, apontado à I-405.

“Parece como sendo óbvio o tipo de sítio para um sniper.”

“Estava numa posição não fortificada, exposto de todos os lados – diz Ng – preferiu trabalhar daquela posição suicida.   O que não é um comportamento típico para ‘dealers’ de drogas.   Tipicamente eles são mais pragmáticos.   Agora, tens mais alguns criticismos a respeito da minha performance?”

“Bem, funcionou?”

“Sim.   O tubo foi inserido numa câmara selada no interior do helicóptero antes que descarregasse o seu conteúdo.   Foi então congelado no momento, em hélio líquido, antes que se pudesse auto-destruir quimicamente.   Temos agora uma amostra de Snow Crash, coisa que ninguém antes foi capaz de conseguir.   Este é o tipo de sucesso sobre o qual reputações como a minha são construídas.”

“E sobre os Tipo-Ratos?”

“O que é que há sobre eles?”

“Voltaram todos para bordo da carrinha?   Ali atrás?” – Y.T. dá um sacão à cabeça para trás.

Ng pausa por um momento.   Y.T. relembra-se de que ele está como sentado no seu escritório no Vietname de 1955 a ver isto tudo pela TV.

“Três deles já voltaram – diz Ng – Três estão no caminho para aqui.   E três foram ainda deixados lá atrás para levarem a cabo medidas adicionais de pacificação.”

“E vai deixá-los para trás?”

“Eles hão-de nos apanhar – diz Ng – Num percurso em linha recta conseguem correr a umas setecentas milhas por hora.”

“É verdade que têm ‘nukes’ - material nuclear, dentro deles?”

“Isótopos radiotérmicos.”

“O que é que acontece se algum deles for rebentado?   Todos à volta, fica tudo mutante?”

“Se algum dia te encontrares na presença de uma força destrutiva tal, suficientemente potente para descapsular aqueles isótopos – diz Ng – bom, a doença por radiação será a menor das tuas preocupações.”

“Eles serão capazes de descobrir o caminho para nos alcançarem?”

“Nunca assististe ao ‘Lassie regressa a casa’ quando eras criança? – pergunta ele – Queria dizer, mais criança do que és agora?”

É assim.   Ela tinha razão.   Os Tipo-Ratos são feitos com partes de cão.

“Isso é cruel” – diz ela.

“Este tipo de sentimentalismo é muito predizível” – diz Ng.

“Tirar um cão para fora do seu corpo – pô-lo todo o tempo dentro de uma casota.”

“Quando o Tipo-Rato, como lhe chamam, está na sua casota, sabes o que é que ele está a fazer?”

“A lamber os tomates eléctricos dele?”

“A apanhar frisbees ao longo da rebentação.   Para sempre.   A comer bifes que crescem das árvores.   Deitarem-se ao lado da lareira numa cabana de caça.   Até hoje ainda não instalei qualquer simulação de lambedelas-de-testículos mas agora que me trouxeste isso à ideia, vou considerá-la.”

“E, como é que é, quando está fora da casota a correr por aí à volta, a executar esses recados para si?”

“Consegues imaginar o quão libertador é para um ‘pit bullterrier’ ser capaz de correr mil e tal quilómetros numa hora?”

Y.T. não responde.   Está demasiado ocupada a tentar pôr a mente dela a carburar todo este conceito.

“O teu erro – diz Ng – é que pensas que todos os organismos assistidos mecanicamente – como eu – são estropiados patéticos.   De facto, somos melhores do que éramos antes.”

“De onde é que conseguiu os pit bulls?”

“Um número incrível deles são abandonados diariamente, em cidades por todo o lado.”

“E vocês desviam cachorrinhos de canis?”

“Salvamos cães abandonados de uma extinção certa e enviamo-los aos montes para o céu dos cães.”

“O meu amigo Roadkill e eu tínhamos um pit bull.   Fido.   Encontrámo-lo numa ruela.   Algum palerma havia-lhe dado um tiro numa pata.   Arranjámos um veterinário para o tratar.   Depois mantivémo-lo neste apartamento vazio no prédio do Roadkill por alguns meses, todos os dias brincávamos com ele, trazíamos-lhe comida.    E então um dia viemos para brincar com o Fido, e ele havia desaparecido.   Alguém tinha forçado a entrada ali e levara-o.   Provavelmente venderam-no a um laboratório de pesquisas.”

“Provavelmente – diz Ng – mas isso não era maneira para se ter um cão.”

“Mas era melhor do que a maneira que ele vivia antes.”

Há uma quebra na conversa enquanto Ng se ocupa ele próprio a conversar com a sua viatura, manobrando-a para a auto-estrada de Long Beach, apontada de volta à cidade.

“Será que eles se lembram das coisas?” – diz Y.T.

“Na medida em que os cães se podem recordar de qualquer coisa – diz Ng – Não temos qualquer maneira de apagar memórias.”

“Portanto pode ser que agora mesmo o Fido seja um Tipo-Rato por aí algures.”

“Eu esperaria que sim, para bem dele” – diz Ng.

 

Numa franchise da Hong Kong Maior de Mr. Lee em Phoenix, no Arizona, a Unidade Vigilante Semi-Autónoma B-782 da Ng Security Industries acorda.

A fábrica que tratou da sua montagem pensa nele como um robot chamado ‘Número B-782’.   Mas ele vê-se a si próprio como um ‘pit bullterrier’ chamado Fido.

Nos velhos tempos Fido era por vezes um pequeno cachorrinho mau.   Mas agora Fido vive numa bonita casinha num patiozinho bonito.   Agora ele tornou-se  um bonito cachorrinho.   Gosta de ficar na sua casa e escutar os outros cachorrinhos lindos a ladrar.   Fido faz parte de um grupo grande.

Esta noite há uma quantidade de ladrar proveniente de um local bem longe.   Quando ouve este ladrar Fido sabe que todo um grupo de bons cachorros está excitado com qualquer coisa.   Uma porção de homens maus está a tentar ferir uma menina boa.   Isto fez os cachorros ficar zangados e excitados.   De modo a proteger a rapariga boa eles estão a ferir alguns dos homens maus.

E é assim que tinha que ser.

Fido não sai da sua casa.   Quando primeiro ouviu o ladrar tornou-se excitado.   Ele gosta de meninas boazinhas e isso fá-lo ficar especialmente agitado – quando homens maus tentam fazer-lhes mal.   Houve uma vez uma menina boa que gostava dele.   Isso foi antes, quando ele vivia num sítio assustador e estava sempre esfomeado e muita gente era má para ele.   Mas a menina boa gostava dele e era boa para ele.   Fido gosta muito dessa boa menina.

Mas aquele ladrar dos outros cachorros diz-lhe que a menina boa está a salvo agora.   E assim, ele volta ao seu sono.

33

“ ‘sculpa-me lá, pá – diz Y.T. entrando na sala Babel / Infocalipse – Jeeesus!   Este lugar parece uma daquelas coisinhas em vidro que abanas e parece que fica a nevar lá dentro.”

“Olá, Y.T.”

“Apanhei mais alguma ‘inform’ para ti, pá.”

“Chuta.”

“Snow Crash é um ‘róide.   Ou antes, é similar a um ‘róide, um esteróide.   Yeah.   É isso.   Penetra pelas tuas membranas celulares tal como um ‘róide.   E então faz qualquer coisa ao núcleo da célula.”

“Tu tinhas razão – diz Hiro para o Bibliotecário – é tal como o herpes.”

“Esse gajo com quem estive a conversar disse que ele lixa-te, intromete-se mesmo no ADN.   Não sei o que é que quer dizer metade desta merda, mas é o que ele disse.”

“Quem é este gajo de que estás a falar?”

“Ng.   Da Ng Security Industries.   Nem te canses a falar com ele, que ele não te dará qualquer ‘inform’ – diz ela descontraidamente.

“Porque é que andas por aí com um gajo como Ng?”

Mob job – ao serviço da Máfia.   Pela primeira vez a Máfia tem uma amostra da droga graças a mim e ao meu amigo Ng.   Até agora, autodestruia-se sempre antes que lhe conseguissem deitar a mão.   Portanto creio que estão a analisá-la ou algo assim.   Talvez a tentarem produzir um antídoto.”

“Ou tentando reproduzi-la.”

“A Máfia não faria isso.”

“Não sejas estúpida – diz Hiro – Claro que o podia fazer.”

Y.T. parece zangada por causa de Hiro.

“Olha – diz ele – Lamento ter que te relembrar isto, mas se ainda tivéssemos leis a Máfia seria uma organização criminosa.”

“Só que não temos leis – diz ela – portanto é apenas mais outra cadeia comercial.”

“Porreiro, tudo o que quero dizer é que pode ser que não estejam a fazer isto para benefício da humanidade.”

“E tu porque é que estás aqui encafuado com este excêntrico daemon? – diz ela apontando para o Bibliotecário – Para o benefício da humanidade?   Ou porque andas atrás de um rabo de saia?   Qualquer que seja o nome dessa tipa”

“Okay, okay, não se fala mais na Máfia – diz Hiro – Tenho trabalho a fazer.”

“Também eu” – Y.T. desaparece bruscamente dali para fora deixando um buraco no Metaverso que é rapidamente preenchido pelo computador de Hiro.

“Penso que ela possa ter um fraco por mim” – explica Hiro.

“Ela parecia relativamente afectuosa” – diz o Bibliotecário.

“Okay – diz Hiro – Voltemos ao trabalho.   De onde é que surge Asherah?”

“Originalmente da mitologia suméria.   A partir daí, ela é também importante nos mitos babilónios, assírios, canaanitas, hebreus e ugaríticos, que são todos eles descendentes dos sumérios.”

“Interessante.   Portanto a língua suméria desapareceu mas os mitos sumérios foram de algum modo transpostos para as novas línguas.”

“Correcto.   O sumério foi utilizado como língua de religião e de erudição por civilizações posteriores, muito na forma como o latim foi usado na Europa durante a Idade Média.   Ninguém o falava como sua língua nativa mas as pessoas educadas conseguiam lê-lo.   Desta forma a religião suméria foi sendo passada.”

“E o que é que fazia Asherah nos mitos sumérios?”

“Os relatos são fragmentários.   Poucas tabletes foram descobertas e estas encontram-se partidas e dispersas.   Pensa-se que L. Bob Rife escavou muitas delas, intactas, mas recusa torná-las públicas.   Os mitos sumérios sobreviventes existem em fragmentos e têm uma qualidade bizarra.   Lagos comparava-os às fantasias de uma criança febril de dois anos.   Partes completas deles simplesmente não podem ser traduzidas – os caracteres são legíveis e bem conhecidos, mas quando postos juntos não dizem nada que deixe uma impressão definida numa mente actual.”

“Como instruções para programar um VCR – um vídeogravador.”

“Há uma enorme quantidade de repetição monótona.   Existe igualmente um montante considerável daquilo que Lagos descrevia como uma ‘propaganda à moda do Rotary Club’ – os escribas louvando as virtudes superiores da sua cidade sobre alguma outra cidade.”

“O que é que faz uma cidade suméria melhor do que outra?   Um zigurate maior?   Uma melhor equipa de futebol?”

“Melhores me.”

“O que é que são os me?”

“Regras ou princípios que controlam a operação de uma sociedade, como um código de leis, mas a um nível mais fundamental.”

“Não estou a apanhar.”

“Essa é a questão.   Os mitos sumérios não são ‘legíveis’ ou ‘desfrutáveis’ no mesmo sentido em que o são os mitos gregos e hebreus.   Eles reflectem uma consciência fundamentalmente diferente da nossa.”

“Suponho que se a nossa cultura fosse baseada na Suméria, os iríamos achar mais interessantes” – diz Hiro.

“Os mitos acadianos surgem depois dos dos sumérios e na sua grande parte  são claramente baseados nos mitos sumérios.   Torna-se claro que os redactores acadianos desbravaram por entre os mitos sumérios, trataram de editar as partes bizarras e incompreensíveis – isto para nós hoje – e alinharam-nas conjuntamente em trabalhos mais extensos tal como o Épico de Gilgamesh.   Os acadianos eram semitas, ‘primos’ dos hebreus.”

“E o que é que os acadianos têm a dizer sobre ela?”

“Ela é uma deusa do erotismo e da fertilidade.   Ela tem também uma faceta destrutiva e vingativa.   Num dos mitos, Kirta, um rei humano, é tornado gravemente enfermo por Asherah.   Apenas El, rei dos deuses, o pode curar.   El concede a certas pessoas o privilégio de se amamentarem nos peitos de Asherah.   El e Asherah, é habitual adoptarem bebés humanos e deixam-nos amamentarem-se em Asherah – num texto, ela é a ‘ama de leite’ para setenta filhos divinos.”

“Espalhando o tal vírus – diz Hiro – Mães com SIDA podem transmitir a doença aos seus bebés por alimentá-los pelo peito.   Mas esta é a versão acadiana, certo?”

“Sim, sir.”

“Eu quero ouvir algum material sumério, mesmo que seja intraduzível.”

“Gostaria de ouvir como é que Asherah pôs Enki doente?”

“Certamente.”

“A maneira como esta história é traduzida depende de como é que ela é interpretada.    Alguns vêem-na como história de uma ‘queda do paraíso’.   Alguns vêem-na como uma batalha entre masculino e feminino ou entre a água e a terra.   Alguns vêem-na como uma alegoria da fertilidade.   Esta leitura é baseada na interpretação de Bendt Alster.”

“Devidamente anotado.”

“Resumindo: Enki e Ninhursag – que é Asherah, embora nesta história ela ostente também outros epítetos – vivem num lugar chamado Dilmun.   Dilmun é puro, limpo e brilhante, não há doença, as pessoas não envelhecem, os animais predadores não caçam.

“Mas não existe água.   Então Ninhursag implora a Enki, que é um género de deus-da-água, para que traga água para Dilmun.   E ele trata disso,  masturbando-se por entre os juncos dos canais e deixando correr o seu sémen dador de vida – a ‘água do coração’, como é chamado.   Ao mesmo tempo, ele pronuncia um nam-shub proibindo a todos de entrarem nesta área – não quer que ninguém chegue perto de seu sémen.”

“Porque não?”

“O mito não diz.”

“Então – diz Hiro – ele deverá ter pensado que era valioso, ou perigoso, ou ambos.”

“Dilmun está agora melhor do que era antes.   Os campos produzem colheitas abundantes e tudo o mais.”

“Desculpa-me, mas como é que funcionava a agricultura suméria?   Usavam bastante a irrigação?”

“Eram inteiramente dependentes dela.”

“Então Enki foi o responsável, de acordo com este mito, por irrigar os campos com a sua ‘água do coração’.”

“Enki era o deus da água, sim.”

“Okay, prossigamos.”

“Mas Ninhursag – Asherah – viola o decreto dele  e pega no sémen de Enki, engravidando-se a ela própria.   Após nove dias de gravidez dá à luz, sem dor, uma filha, Ninmu.   Ninmu caminha pela margem.   Enki avista-a, torna-se inflamado, atravessa o rio e faz sexo com ela.”

“Com a sua própria filha.”

“Sim.   Esta tem uma filha nove dias mais tarde, chamada Ninkurra, e o padrão é repetido.”

“Enki faz sexo com Ninkurra, também?”

“Sim, e ela tem uma filha chamada Uttu.   Agora, por esta altura, Ninhursag aparentemente já reconheceu um modelo no comportamento de Enki e portanto avisa Uttu para que se mantenha na sua casa, prevendo que Enki irá então aproximar-se dela carregado com ofertas e tentando seduzi-la.”

“E ele faz isso?”

“Enki uma vez mais enche os canais com a sua ‘água do coração’, o que faz as coisas crescer.   O jardineiro regozija-se e abraça Enki.”

“Quem é o jardineiro?”

“Apenas uma personagem da história – diz o Bibliotecário – Ele é que abastece Enki com uvas e outras ofertas.   Enki  ele mesmo disfarça-se como sendo o jardineiro e vai até Uttu e consegue seduzi-la.   Mas desta vez Ninhursag consegue obter uma amostra do sémen de Enki das coxas de Uttu.”

“Meu Deus.   Fala-me antes da puta dos diabos da tua sogra.”

“Ninhursag espalha o sémen sobre o solo e isso faz nascer oito plantas.”

“E Enki tem então relações sexuais com as plantas?”

“Não, ele come-as – num certo sentido, ele apreende o segredo delas, ao fazê-lo.”

“Portanto temos aqui o nosso quadro de Adão e Eva.”

“Ninhursag amaldiçoa Enki, dizendo ‘Até que tu estejas morto, não mais voltarei a olhar para ti com o olho da vida’.   Ela então desaparece e Enki fica bastante doente.   Oito dos seus órgãos adoecem, um por cada uma das plantas.   Finalmente, Ninhursag é persuadida a regressar.   Ela dá à luz oito divindades, uma por cada parte doente do corpo de Enki, e Enki é curado.   Estas divindades são o panteão de Dilmun;  i.e., este acto quebra o ciclo de incesto e cria uma nova raça de deuses masculinos e femininos que se podem reproduzir normalmente.”

“Começo a ver o que é que Lagos queria dizer com aquilo de ‘dois-anos-de-idade febris’.”

“Alster interpreta o mito como ‘uma exposição de um problema lógico.   Supondo que originalmente não havia nada a não ser um Criador, como podiam as relações sexuais binárias, ordinárias, ter lugar’?”

“Ah, cá está de novo essa palavra – ‘binárias’.”

“Deve-se lembrar de uma bifurcação inexplorada anteriormente na nossa conversa, e que nos teria trazido ao mesmo sítio por uma via diferente.   Este mito pode ser comparado ao mito sumério da criação no qual o céu e a terra encontram-se unidos, de início, mas o mundo não é na verdade criado até que os dois sejam separados.   Muitos dos mitos da Criação começam com uma ‘unidade paradoxal de todas as coisas, imaginadas quer como caos quer como paraíso’, e o mundo tal como o conhecemos não é trazido realmente à existência até que isso seja alterado.   Devo salientar aqui que o nome original de Enki era En-Kur, o Senhor de Kur.   Kur era o oceano primevo – o Caos – que Enki conquistou.”

“Qualquer hacker se pode identificar com isso.”

“Mas Asherah tem conotações similares.   O seu nome em ugarítico, ‘atiratu yammi’, significa ‘a que domina sobre (o) mar (dragão)’.”

“Okay, então tanto Enki como Asherah eram figuras que tinham, nalgum sentido, derrotado o Caos.   E o teu ponto é que esta derrota do Caos, a separação de um mundo estático, unificado, para um sistema binário, está identificada com a Criação.”

“Correcto.”

“Que mais é que me podes contar sobre Enki?”

“Ele era o en da cidade de Eridu.”

“O que é um en?   É como um rei?

“No género de um sacerdote-rei.   O en era quem tinha a custódia do templo local onde os me – as regras da sociedade – estavam guardados nessas placas de barro.”

“Okay.   Onde é que fica Eridu?”

“No sul do Iraque.   Só recentemente desde há poucos anos atrás é que foi escavada.”

“Pela gente de Rife?”

“Sim.   Como Kramer o afirma, Enki é também o deus da sabedoria – mas esta é uma má tradução.   A sua sabedoria não é a sapiência de um homem velho, mas antes um conhecimento de como fazer as coisas, especialmente as coisas ocultas.   ‘Ele até espantava os outros deuses com soluções chocantes para problemas aparentemente impossíveis’.   Ele é um deus simpático, em grande parte, e que assiste a humanidade.”

“Realmente!”

“Sim.   Os mais importantes mitos sumérios centram-se nele.   Como eu mencionei, ele está associado com a água.   Ele enche os rios e o extenso sistema de canais sumério, com o seu sémen dador de vida.   Diz-se que criou o Tigre com um único e histórico acto de masturbação.   Descreve-se a ele próprio nestes termos: ‘Eu sou o senhor.   Eu sou aquele cuja palavra permanece.   Eu sou eterno’.   Outros descrevem-no assim: ‘Uma palavra tua – e montes e pilhas crescem para o alto com o grão’.   ‘Tu que nos trazes as estrelas do céu, contaste o seu número’.   Ele pronuncia o nome de todas as coisas criadas....”

“ ‘Pronuncia o nome de todas as coisas criadas’?”

“Em muitos mitos da Criação nomear uma coisa é estar a criá-la.   Ele é referido – em vários mitos – como ‘um sábio que estabeleceu os encantos’, o ‘dotado da palavra’, ‘Enki, mestre de todas as ordens correctas’, como Kramer e Maier o dizem, ‘a sua palavra pode trazer a ordem ali onde antes só havia o caos e introduzir a desordem ali onde tinha havido a harmonia’.   Ele dedica uma grande quantidade de esforço a transmitir o seu conhecimento ao filho, o deus Marduk, a divindade dirigente dos babilónios.”

“Portanto os sumérios adoravam Enki, e os babilónios, que vieram depois dos sumérios, adoravam Marduk, o seu filho.”

“Sim, sir.   E sempre que Marduk emperrava, ele pediria a intervenção do seu pai Enki, para ajudá-lo.   Há uma representação de Marduk aqui nesta estela – o Código de Hamurábi.   De acordo com Hamurábi, o código foi-lhe entregue a ele pessoalmente por Marduk.”

Hiro deambula até ao Código de Hamurábi e dá-lhe um olhar de relance.   A escrita cuneiforme a ele não lhe diz nada, mas a ilustração no topo é bem fácil de compreender.   Especialmente a parte do meio:

 

“Porquê, exactamente, está Marduk a entregar a Hamurábi um ‘um’ e um ‘zero’ nesta imagem?” – pergunta Hiro.

“Eles eram emblemas do poder real – diz o Bibliotecário – A sua origem é obscura.”

“Enki terá sido o responsável por esse ‘um’” – diz Hiro.

“O papel mais importante de Enki é como criador e guardião dos me e dos gis-hur, as ‘palavras-chave’ e ‘matrizes’ que governam o universo.”

“Conta-me mais sobre os me.”

“Para citar de novo Kramer e Maier, [Eles acreditavam] numa existência desde os tempos primordiais de uma diversidade fundamental, inalterável e compreensível variedade de poderes e divindades, normas e standards, leis e regulamentos, conhecidos como me, relativos ao cosmos e seus componentes, aos deuses e aos humanos, às cidades e aos países, e aos vários aspectos da vida civilizada.”

“Mais ou menos como a Torah.”

“Sim, mas têm como que um género de força mística ou mágica.   E muitas vezes lida com assuntos banais – não apenas com a religião.”

“Exemplos?”

“Num dos mitos, a deusa Inanna vai a Eridu e convence Enki a entregar-lhe noventa e quatro me e trá-los com ela quando regressa à sua cidade lar, Uruk, onde são felicitados com muita comoção e júbilo.”

“Inanna é essa por quem Juanita está obcecada.”

“Sim, sir.   Ela é saudada como uma salvadora porque ‘ela trouxe a execução perfeita dos me’.”

“Execução?   Como executando um programa de computador?”

“Sim.   Aparentemente eles são como algoritmos para se perfazer certas actividades essenciais à sociedade.   Alguns deles têm a ver com as funções do clero e da realeza.   Alguns explicam como levar a cabo cerimónias religiosas.   Alguns relacionam-se com as artes da guerra e da diplomacia.   Muitos deles são sobre artes e ofícios: música, carpintaria, trabalho de ferreiro, curtição, construção, agricultura, até essas tarefas simples como acender fogos.”

“O sistema operativo da sociedade.”

“Desculpe-me?”

“Quando no princípio ligas um computador, ele é uma colecção inerte de circuitos que não podem fazer nada, na realidade.   Para iniciar a máquina teve que se infundir esses circuitos com uma série de regras que lhes dizem como funcionar.   Como ser um computador.   Isso soa como se esses me servissem como o sistema operativo da sociedade, organizando uma colecção inerte de pessoas num sistema funcional.”

“Como quiser.   Em qualquer caso, Enki era o guardião dos me.”

“Portanto, ele na verdade era um gajo bom.”

“Era o mais amado dos deuses.”

“Ele parece-me mais ou menos como um hacker.   O que torna o seu nam-shub muito difícil de entender.   Se era um gajo tão porreiro, porque é que ele fez essa coisa de Babel?”

“Esta é considerada como sendo um dos mistérios de Enki.   Como já deve ter reparado, o seu comportamento não foi sempre consistente com as normas modernas.”

“Eu não vou nessa.   Não penso que ele na verdade tenha pinado com a irmã, filha, etcetera e tal.   Essa história tem que ser uma metáfora para qualquer outra coisa.   Penso que seja uma metáfora para qualquer tipo de processo informacional recursivo.   É ao que cheira, todo esse mito.   Para esta gente, a água era igual ao sémen.   Faz sentido, porque provavelmente eles não tinham um conceito de água pura – toda ela era castanha, lamacenta, e em todo o caso cheia de vírus.   Mas de um ponto de vista moderno, o sémen é apenas um transportador de informação – tanto de benevolente esperma como de malevolentes vírus.   A água de Enki – o seu sémen, a sua data, dados, o seu me – fluiu por todo o país da Suméria e fê-lo prosperar.”

“Como deve estar a par, a Suméria existiu nessa planície irrigada entre dois grandes rios, o Tigre e o Eufrates.   É daqui que vinha todo esse barro – tiravam-no directamente das margens dos rios.”

“Portanto Enki até os providenciou com o meio para eles canalizarem a informação – o barro.   Eles escreviam em barro húmido e depois secavam-no – livravam-se da água.   Se a água entrasse nele mais tarde a informação seria destruída.   Mas se o cozessem e eliminassem assim toda a água, esterilizavam o sémen de Enki pelo calor, então a placa duraria para sempre, imutável, tal como as palavras da Torah.   Será que pareço um maníaco?”

“Eu não sei – diz o Bibliotecário – mas parece um pouco como o Lagos.”

“Estou emocionado.   A próxima coisa, vais ver, vou é tornar-me num gárgula.”

34

Qualquer peão consegue entrar no Griffith Park sem ser notado.   E Y.T. descobre que apesar das barreiras colocadas a atravessar a estrada, o campo Falabala não está assim tão bem protegido se tiveres essa capacidade off road – de andares ‘fora da estrada’.   Para um ninja nuns skates novinhos em folha com um também novinho em folha par de Knight Visions (hei! tens que investir dinheiro para fazeres mais dinheiro!) não haverá problema.   Vê é se encontras uma margem elevada sobre aquilo e que descaia em rampa até dentro do ‘canyon’, vai caminhando pela aresta cimeira até veres essas fogueiras lá no fundo.   E então inclina-te por esse monte abaixo.   Confia na gravidade.

A meio da descida é que lhe vem à ideia, o seu macacão azul e laranja a esvoaçar como deve de estar, irá mesmo ser um verdadeiro atractor de atenção no meio da noite na zona Falabala.   Então com uma das mãos chega ao colarinho, sente um disco duro cosido ao tecido, pressiona-o entre um dedo e o polegar até fazer um ‘clic’.   O macacão escurece, as cores tremeluzem difusamente através do electropigmento como uma mancha de óleo até ele se tornar preto.

Na primeira visita ela não tinha verificado a fundo o lugar porque esperava nunca mais voltar ali.   Portanto aquela escarpa acaba por se revelar mais alta e inclinada do que Y.T. se lembrava.   Um pouco mais alcantilada, em precipício, ou até mais abissal do que ela contava.   A única coisa que a faz pensar nisso é que ela parece estar a fazer aqui um bocado de actividade de queda-livre.   Uma ida a prumo, das grandes.   É a maior, neste estilo balístico.   ‘Tá fixe, faz tudo parte do serviço, diz para si própria.   As inteli-rodas são boas para isto.   Os troncos das árvores surgem em preto-azulado, destacando-se não muito bem contra um fundo em azul escurecido.   A única outra coisa que ela consegue ver é a luz vermelha em laser do velocímetro digital lá em baixo na frente da prancha dela, mas não está a exibir qualquer informação real.   Os próprios números vibram e confundiram-se já numa granulosa nuvem de luz vermelha conforme o sensor do radar tenta fixar-se nalguma coisa como referência.

Ela desliga o velocímetro.   A correr agora totalmente em negro.   Precipitando o caminho dela em direcção àquele doce plaino do solo do vale como um anjo negro que acaba de ter as linhas de suspensão do seu celestial pára-quedas cortadas pelo Todo Poderoso.   E quando as rodas finalmente encontram o pavimento, aquilo quase que atira com os joelhos dela por aí acima através do queixo.   E termina ela toda aquela transacção gravitacional com quase nenhuma altitude mas em assustadora frente sombria de velocidade.

Anotação mental: Da próxima vez, saltar só da porra de uma ponte.   Assim, não haverá maneira de levares com uma cholla – um pedaço de cacto – invisível, espetada pelo teu nariz acima.

Como que chicoteia em torno de uma esquina, tão inclinada para o lado ela vai que podia lamber a linha separadora amarela, e os Knight Visions dela revelam agora tudo num incêndio de radiação multiespectral.   Em infravermelhos, o acampamento Falabala é uma aurora turbilhonante de nevoeiro rosado pontuado pelas quente-brancas erupções das fogueiras.   Tudo isso assenta sobre o azulado ténue do pavimento, o que significa naquele esquema de coisas em falsas cores que este se encontra frio.   Atrás de tudo está a dentilhada linha de horizonte daquela tecnologia de barreiras, fantástica e improvisada, em que os Falabalas são uns ases.   Uma barreira ali que acaba de ser completamente desdenhada, humilhada e vigarizada por Y.T. que, como caída do céu que nem um caça furtivo Stealth com um complexo de inferioridade, aterra no meio do campo.

Uma vez que estejas verdadeiramente dentro do acampamento as pessoas não se importam contigo.   Um par de pessoas vêem-na, observam-na a rolar por ali, mas não ficam todas ouriçadas com isso.   Provavelmente têm uma quantidade de Korreios que vêm até aqui.   Uma  quantidade de Korreios meio-tontos, ingénuos, bebedores de Kool-Aid.   E esta gente não está suficientemente informada para que distinga Y.T. de toda essa leva.   Mas isso está porreiro, por agora ela consegue passar, conquanto eles não se ponham a ver os pormenores da sua nova prancha.

As fogueiras providenciam uma quantidade suficiente da nossa simples, velha e habitual luz visível, que dá para mostrar a sordidez do que é que seja isto tudo: um punhado de dementes rapazes escuteiros, um jamboree sem quaisquer medalhas de mérito ou higiene.   Com a visão IV – infravermelhos – sobreposta à da luz visível, consegue também ver uns rostos vagos, em vermelho espectral, despontando nas sombras onde os seus olhos não-assistidos apenas veriam trevas.   Estes novos Knight Visions custaram-lhe uma boa maquia daquele dinheiro do seu servicinho à ‘Mob’ – à Máfia – aquela corridinha com a droga.   Precisamente o tipo de coisa que a mamã teria em mente quando insistia para que Y.T. arranjasse um emprego em part-time.

Algum do pessoal que estava aqui da última vez já se foi e há alguns novos que ela não reconhece.   Há um par de pessoas vestindo na verdade ‘camisas de forças’ de fita isoladora resistente.   Um toque de moda reservado àqueles que estão totalmente fora de controle, rebolando-se e esparramando-se por ali à volta, no chão.   E há uns poucos mais que andam a retorcerem-se todos, mas não muito mal, e um ou dois que estão simplesmente confusos, como os simples e velhos vadios que podes ver em qualquer Snooze ‘n’ Cruise.

“Hei!   Olhem! – diz alguém – É a nossa amiga, a Korreio.   Bem-vinda, amiga!”

Ela tem já o Liquid Knuckles – aquele ‘soco líquido’ – destapado, a postos, e já lhe deu o ‘Agitar bem antes de usar’.   À volta dos pulsos tem aquelas braçadeiras metálicas de alta-voltagem, último grito da moda, para o caso de alguém tentar agarrá-la por aí.   E enfiado manga acima, um taco atordoante.   Só os mais rotundos e antiquados broncos é que andam com armas de fogo.   As armas de fogo levam algum tempo a produzir efeito (tens que esperar que a vítima sangre até à morte), mas paradoxalmente acabam por matar gente por aí à fartazana.   Mas não há ninguém que te chateie depois de lhes teres dado com um cacete atordoante.   Pelo menos é o que diz o anúncio.

Portanto, não é que ela se sinta propriamente vulnerável ou qualquer coisa assim.   Mas ela gostaria ainda de encontrar o seu objectivo.   Mantém-se então em ‘velocidade orbital de escape’ até que se depara com a mulher que lhe parecera amigável – a moça careca naquele conjunto Channel esfarrapado – e aponta direitinha a ela.

 

“Vamos p’rá’li man, p’ra o meio do mato – diz Y.T. – Queria conversar contigo sobre o que é que vai no que resta do teu cérebro.”

A mulher sorri, luta com os próprios pés com aquela desajeitada bonomia de uma pessoa retardada bem disposta.   “Gosto de conversar sobre isso – diz ela – porque acredito nesta coisa.”

Y.T. em vez de parar para um pedaço de conversa agarra é na mulher pela mão e principia a conduzi-la monte acima para aquelas arvorezinhas enfezadas afastadas da via.   Não vê quaisquer faces rosadas na banda dos infravermelhos p’ráqui à espreita, deve-se estar seguro.   Mas há um par mesmo atrás dela, deambulando apenas por ali prazenteiramente, sem olharem directamente para ela, como se tivessem só decidido que era altura para irem esticar as pernas para o bosque a meio da noite.   Um deles é o Alto Sacerdote.

A mulher está provavelmente a meio da casa dos vinte, e é de um tipo alto e esguio, gira mas sem ser bela, provavelmente era uma avançada enérgica mas de baixa pontuação na sua equipa de basquete do liceu.   Y.T. fá-la sentar-se numa rocha na zona escura.

“Tens alguma ideia de onde estás?” – diz Y.T.

“No parque – diz a mulher – com os amigos.   Estamos a ajudar a espalhar a Palavra.”

“Como é que chegaste aqui?”

“Do Enterprise.   É onde vamos para aprender coisas.”

“Queres dizer o quê, a Jangada?   A Jangada do Enterprise?   É daí, pá, que vocês todos vêm?”

“Eu não sei de onde é que nós vimos – diz a mulher – Às vezes é difícil recordar as coisas.   Mas isso não é importante.”

“Onde é que vocês estavam antes?   Tu não nasceste na Jangada, pois não?”

“Eu era uma programadora de sistemas para a ‘3verse Systems’, em Mountain View, Califórnia – diz a mulher, subitamente atirando com um encadeado de normal e perfeitamente soante inglês.

“Então, como é que foste parar à Jangada?”

“Eu não sei.   A minha antiga vida parou.   A minha nova vida começou.   Agora estou aqui.”   De volta a esta fala de bebé.”

“Qual é a última coisa de que te lembras antes de a tua antiga vida se ter interrompido?”

“Estava a trabalhar até tarde.   O meu computador estava com problemas.”

“É isso?   A última coisa normal que te aconteceu?”

“O meu sistema ‘crashou’ – diz ela – Só via estática.   E então fiquei bastante doente.   Fui para o hospital.   E aí no hospital, encontrei um homem que me explicou tudo.   Explicou-me que me tinham lavado o sangue.   Que agora eu pertencia à Palavra.   E subitamente aquilo tudo fazia sentido.   E então decidi ir à Jangada.”

“Tu é que decidiste ou alguém decidiu por ti?”

“Eu queria mesmo ir.   É onde vamos.”

“Quem mais é que estava contigo na Jangada?”

“Mais gente como eu.”

“Como tu, como?”

“Todos programadores.   Como eu.   Que tinham visto a Palavra.”

“Viram-na nos computadores deles?”

“Sim.   Ou por vezes na TV.”

“O que é que vocês faziam na Jangada?”

A mulher enrola uma das mangas daquela camiseta esfarrapada para expor um braço picado pelas agulhas.

“Vocês tomavam drogas?”

“Não.   Nós dávamos sangue.”

“Eles sugavam-vos o sangue?”

“Sim.   Às vezes fazíamos um pouco de codificação.   Mas só alguns de nós.”

“Há quanto tempo é que tu estás aqui?”

“Não sei.   Mudaram-nos para aqui quando as nossas veias já não davam mais.   Apenas executamos coisas para ajudar a espalhar a Palavra – arrastar material por aí, fazer barricadas.   Mas na verdade não passamos muito tempo a trabalhar.   Na maior parte do tempo entoamos canções, rezamos, e falamos a outras pessoas sobre a Palavra.”

“Queres sair daqui?   Posso pôr-te fora daqui.”

“Não – diz a mulher – Nunca fui tão feliz como agora.”

“Como é que podes dizer uma coisa destas?   Eras uma hacker das maiores.   Agora estás aqui como uma estúpida, se é que posso falar francamente.”

“Está okay, que isso não me magoa os sentimentos.   Eu na verdade não era feliz enquanto fui uma hacker.   Nunca pensei na importância das coisas.   Deus.   Céu.   As coisas do espírito.   É difícil pensar nessas coisas, na América.   Limitas-te a pô-las de parte.   Mas elas são na verdade as coisas importantes – não o programar computadores ou o fazer dinheiro.   Agora, é em tudo isso que eu penso.”

Y.T. tem mantido um olho sobre o Alto Sacerdote e o seu amigalhaço.   Têm continuado a aproximar-se, um passo de cada vez.   Estão agora tão próximos que Y.T. consegue cheirar o que foi o jantar deles.   A mulher põe a sua mão sobre a almofada de protecção do ombro de Y.T.

“Quero que fiques aqui comigo.   Não queres vir até ali abaixo tomar alguns refrescos?   Deves estar com sede?”

“Tenho q’abrir” – diz Y.T. levantando-se.

“Na verdade terei que objectar a isso – diz o Alto Sacerdote, chegando-se à frente.   Não diz aquilo de forma zangada.   Tenta parecer agora como o pai de Y.T. – Não é na verdade a melhor decisão para ti.”

“O que é que te achas, um modelo a seguir?”

“Está okay.   Não tens que concordar.   Mas vamos descer e sentarmo-nos à fogueira e conversar sobre isso.”

“Vamos mas é já desaparecer daqui muita rápido antes que Y.T. entre na porra dum ‘modo autodefesa’” – diz Y.T.

Todos os três Falabalas recuam afastando-se dela.   Muito cooperativos nisto.   O Alto Sacerdote mantém as mãos ao alto, aplacando-a – “Lamento, se te fizemos sentir ameaçada” – diz ele.

“Vocês, pá, aparecem mesmo de um modo um pouco bizarro” – diz Y.T. mudando os seus óculos de novo para infravermelhos.

Em infravermelhos ela consegue ver que o terceiro Falabala, aquele que veio até aqui juntamente com o Alto Sacerdote, segura uma pequena coisa numa das mãos e que isso está anormalmente quente.

Ela espeta-o com a sua caneta-lanterna focando-lhe a parte superior do corpo num estreito feixe amarelo.   A maior parte dele está emporcalhada e numa coloração castanho acinzentada, e reflecte pouca luz.   Mas há qualquer coisa brilhante num vermelho luzidio, como uma vareta de rubi.

É uma seringa hipodérmica.   Está cheia com um fluido vermelho.   Em infravermelho isso mostra que está quente.   É sangue fresco.

E ela nem apreende bem aquilo – porque é que estes gajos hão-de andar por ali à volta com uma seringa cheia de sangue fresco.   Mas ela já viu que chegue.

O ‘Liquid Knuckles’ dispara-se da lata numa longa e apertada torrente verde-néon e quando atinge o homem da seringa na cara ele manda a cabeça para trás como se tivesse levado uma marretada através da ponte do nariz, tomba à retaguarda sem dar um som.   Então ela oferece ao Alto Sacerdote um tiro daquilo, só como boa medida.   A mulher limita-se a ficar ali, como que completamente horrorizada.

 

Y.T. atira-se por ali acima para fora daquele canhão rochoso, sai tão rápido que ao voar para o interior do fluxo de trânsito vai quase tão rápido quanto ele.   Logo que consegue um ‘arpoamento’ sólido num camião tanque nocturno, desses cor-de-alface, mete-se a telefonar para a mamã.

“Mamã, ouve.   Não, mamã, nunca te importes com esse som de rugido grave ao fundo.   Sim, estou a andar com o meu skate, no trânsito.   Mas escuta-me só um segundo, mamã...”

Ela tem que desligar, esta velha cabra.   É impossível conversar com ela.   Tenta então efectuar uma ligação com Hiro pelo canal electrónico de voz.   Demora um par de minutos até se concretizar.

“Hello!   Hello!   Hello!” – está ela a berrar.   Ouve então o tocar de uma buzina de carro.   A vir dali do telemóvel.

“Hello?”

“É Y.T..”

“Como é que estás?” – Este gajo parece sempre um pouco relaxado em demasia nos relacionamentos pessoais dele.    Na verdade ela não quer conversar sobre como é que ela vai andando.    Ouve mais outro som de buzinadela, em fundo, por trás da voz de Hiro.

“Onde raio é que tu estás, Hiro?”

“A caminhar por uma rua em L.A.”

“Como é que podes estar d’óculos, ligado, se vais a andar por uma rua abaixo?” – Então a terrível realidade assaltou-a – “Oh, meu Deus, não te tornaste num gárgula, não?”

“Bem – diz Hiro.   Ele fica hesitante, embaraçado, como se não lhe tivesse ainda ocorrido, a ele, que era isto mesmo o que ele estava a fazer – Não é exactamente como ser um gárgula.   Lembras-te quando me deste uma seca por gastar todo o meu dinheiro em material de computador?”

“Yeah.”

“Bem, é que decidi que ainda não estava a gastar o suficiente.   Portanto arranjei uma máquina, desses volumes de meter à cintura.   As mais pequenas, até agora.   Cá vou eu rua abaixo com esta coisa atada à minha pança.   É realmente fixe.”

“Tu és um gárgula!.”

“Sim, mas não é como ter toda aquela tralha a chocalhar pendurada do corpo todo...”

“Tu és um gárgula.   Escuta.   Falei com uma dessas dos ‘Falabarato’, desses Falabalas armazenistas.”

“Yeah?”

“Ela diz que costumava ser uma hacker.   Viu qualquer coisa estranha no computador.   Depois por uns tempos ficou doente, juntou-se a este culto, e acabou por ir ter à Jangada.”

“A Jangada.   Continua.”

“Ao Enterprise.   Tiravam-lhes sangue, Hiro.   ‘Sugavam-no’ dos corpos deles.   Infectam as pessoas injectando-as com o sangue destes hackers que ficaram doentes.   E quando as veias destes estão já todas trilhadas como as de um drogado, largam-nos, metem-nos a trabalhar no continente a dirigir esta operação de venda por atacado.”

“Isto é bom, – diz ele – bom material de inform.”

“Ela diz ter visto essa coisa, estática no écran do computador, e que isso pô-la doente.   Sabes alguma coisa sobre isso?”

“Yeah.   É verdade isso.”

“É verdade?”

“Yeah.   Mas não tens que te preocupar com isso.   Só afecta os hackers.”

Por um minuto ela está tão lixada que nem consegue falar.   “A minha mãe é uma programadora para os Feds.   És um palerma.   Porque é que não me avisaste?”

Uma meia hora depois ela está lá.   Nem se incomoda desta vez a trocar de roupa, a pôr o seu disfarce de bem comportadinha WASP (White Anglo-Saxonic Protestant[20]), limita-se a irromper pela casa naquele preto básico e bera.   Deixa cair a prancha sobre o soalho, ao entrar.   De uma das prateleiras pega num dos bibelots estranhos da mamã – é um troféu em cristal pesado, bem, na verdade aquilo até é plástico transparente, que há um par de anos atrás ela arranjou por bajular o seu boss nos Feds e ter passado todos os testes de polígrafo – e penetra agora no estúdio.

Encontra-se aí, a mamã.   Como habitualmente.   A trabalhar no seu computador.   Mas neste momento não está a olhar para o écran, está é a vasculhar nuns apontamentos que repousam ali no seu colo.

Conforme a mamã ergue os olhos para ela, está Y.T. já a lançar o braço, a atirar com o troféu em cristal.   Aquilo passa mesmo sobre o ombro da mamã, ricocheteia pela mesa do computador e voa a direito através do vidro do écran.   Resultados catastróficos.   Y.T. sempre lhe apeteceu fazer isso.   Pausa a admirar a linda obra, só por alguns segundos, enquanto a mamã descarrega todo aquele espectro de sobrenatural emoção.   O que é que estás a fazer com esse uniforme?   Não te disse para não andares com a tua skateboard numa rua a sério?   Não é suposto estares para aqui a atirares com coisas dentro de casa.   Aquele é o meu prémio, meu!   Porque é que rebentaste com o computador?   É propriedade do governo isso.   Bem, afinal, o que é que se está a passar aqui?

Y.T. pode predizer que isto ainda se vai manter assim por um par de minutos, portanto vai até à cozinha, enxagua alguma água pela cara, pega num copo de sumo, e deixa que a mamã siga na sua peugada e esbraceje, esvoaçando por ali a ventilar-lhe as almofadas dos ombros.

Finalmente a mamã acalma, derrotada pela estratégia de silêncio de Y.T.

“Acabei de salvar a porra da tua vida, mamã – diz Y.T. – Ao menos podias-me oferecer um Oreo (um biscoitinho de chocolate).”

“De que raio é que estás para aí a falar?”

“Isto é como, digamos, vocês, pessoal de uma certa idade - se se preocupassem num esforço para estarem a par com o tipo de acontecimentos básicos, dos dias de hoje, então a vossa criançada não teria que empregar estas medidas drásticas.”

35

A Terra materializa-se rolando majestosamente em frente à sua face.   Hiro estica-se para agarrá-la.   Fá-la girar de modo a poder olhar para a zona de Oregon.   Ordena para que se livre das nuvens, o que aquilo logo executa, dando-lhe uma visão cristalina das montanhas e linha de costa.

Agora mesmo, cerca de trezentas milhas ao largo da costa de Oregon, nota-se um género de furúnculo granuloso que cresceu ali naquela face aquática.   Ulceração não será um termo suficientemente forte para descrevê-lo.   Está agora a um par de centenas de milhas ao sul de Astória e a mover-se para sul.   O que explica porque é que Juanita foi para Astória há dois dias atrás; queria chegar perto da Jangada.   O porquê, quem quiser que adivinhe.

Hiro levanta os olhos para se focar na Terra e com a insistência origina um ‘zooming’, uma ampliação à área em causa.   Conforme se torna mais próximo, o conjunto de imagens para o qual olha passa daquelas fotos de longa distância debitadas pelos satélites geossíncronos para aquele material melhor canalizado para o computador da CIC a partir de toda uma frota de ‘passarocos’-espiões, os satélites de órbita baixa.   A vista para a qual ele está agora a olhar é um mosaico de imagens tiradas há não mais do que algumas horas atrás.

Tem várias milhas de envergadura, aquilo.   A sua forma muda constantemente mas na altura em que estas fotos foram obtidas tinha qualquer coisa da forma de um rim inchado; isto é, estaria a tentar assumir-se como um ‘V’ apontado a sul como um bando de gansos, mas há tanto ‘ruído’ no sistema, é tão amorfo e desorganizado, que um ‘rim’ é o mais próximo que consegue chegar.

Ao centro, um par de enormes vasos: o Enterprise e um petroleiro, amarrados um ao outro, lado a lado.    Estes dois mostrengos estão emparedados por diversos outros navios grandes, uma colecção de navios contentores e outros cargueiros.   ‘The Core’ - o ‘Núcleo’ da Jangada.

Tudo o resto é relativamente pequeno.   Há o ocasional iate desviado ou o arrastão de pesca abatido ao serviço.   Mas a maior parte dos barcos na Jangada são apenas isso mesmo: barcos.   Pequenas embarcações de recreio, sampanas, juncos, dhows, dingues, jangadas de salvação, barcos-casa, estruturas fabricadas - construídas a partir de tambores de óleo cheios de ar e placas de esferovite.   Uns bons cinquenta por cento dela nem é verdadeiro material marítimo, só um emaranhado distorcido de cordas, cabos, pranchas, redes, e outros destroços amarrados conjuntamente sobre o que seja que se mantenha à tona e estivesse à mão.

E L. Bob Rife domina no meio de tudo isto.   Hiro ao certo não sabe o que estará ele a fazer, e não sabe também como é que Juanita aparece aqui ligada.   Mas é tempo de ir até lá e descobrir o que se passa.

 

Scott Lagerquist mantém-se ali aguardando bem à beira do Centro de Ciclomotores Mark Norman (24 horas/7 dias), quando o homem das espadas se torna visível, vindo a calcorrear pelo passeio.   Um peão é uma visão peculiar ali em L. A., consideravelmente ainda mais peculiar que um homem com espadas.   Mas é alguém bem-vindo.   Quem quer que venha a guiar até um revendedor de motas tem já um automóvel, por norma, portanto é difícil conseguir com eles uma venda daquelas em grande.   Um pedestre, isso deve ser canja.

“Scott Wilson Lagerquist! – grita o gajo ainda a quinze metros e a  aproximar-se – Como é que vais?”

“Porreiro!” – diz Scott.   Um pouco desprevenido, se calhar.   Não se consegue lembrar do nome deste gajo, o que é um problema.   Onde é que já viu este gajo antes?

“É bom vê-lo por aqui! – diz Scott, apressando-se para ele, chocalhando-lhe a mão.   Já não o vejo desde, huh...?”

“O Pinky está cá hoje?” – diz o gajo.

“Pinky?”

“Yeah.   Mark.   O Mark Norman.   Pinky era a alcunha dele lá na faculdade.   Calculo que ele provavelmente não goste de ser tratado assim, agora que está à frente de, o quê? meia dúzia de postos de venda, três McDonalds, e um Holiday Inn, humm?”

“Não sabia que Mr. Norman também se tivesse metido no ‘fast food’.”

“Yeah.   Tem três franchises na zona de Long Beach.   É ele o dono através de uma parceria limitada, na verdade.   Está cá hoje?”

“Não, ele está de férias.”

“Oh, yeah.   Na Córsega.   No Ajaccio Hyatt.   Quarto 543.   Está bem.   Esqueci-me completamente disso.”

“Bem, passou por aqui só para mandar um ‘olá’, ou...”

“Ná.   Ia comprar uma mota.”

“Oh.   E que tipo de motocicleta é que tinha em vista?”

“Uma das novas Yamahas?   Com a nova geração de inteli-rodas?”

Scott expõe um esgar intrépido, procura exibir a sua melhor face perante o facto que se apresta a revelar: “Sei precisamente qual é a que diz.   Mas lamento informá-lo de que na verdade, hoje, não temos nenhuma em stock.”

“Não têm?”

“Não, não temos.   É modelo novo, acabado de sair.   Ninguém as tem ainda.”

“Tem a certeza?   Porque vocês encomendaram uma.”

“Encomendámos?”

“Yeah.   Há um mês atrás – subitamente o gajo alonga o pescoço, olha por cima dos ombros de Scott para a extensão do ‘boulevard’ – Bem, fala-se no diabo.   Aí vem.”

Um semi-reboque da Yamaha embica para a entrada destinada aos camiões com um novo carregamento de motas na retaguarda.

“Está nesse camião – diz o gajo – Se me emprestar aí um dos seus cartões, posso escrevinhar rapidamente o número de identificação do veículo para que o possa mandar já tirar do camião para mim.”

“Foi alguma encomenda especial feita por Mr. Norman?”

“Ele alegava que aquilo era uma encomenda mais como modelo para amostra, está a ver.   Mas é como se já tivesse o meu nome nela.”

“Sim, sir.   Entendo perfeitamente.”

 

Mais do que certo, a mota sai do camião tal como o tipo a descrevera – de acordo com o esquema de cores (preta) e número de identificação do veículo.   É uma bela mota.   Atrai uma multidão que fica por ali pelo parque de estacionamento – os outros vendedores até pousam os seus copos de café e tiram os pés de cima das secretárias para virem cá fora dar uma olhadela.   Parece um torpedo preto, terrestre.   Tracção às duas rodas, natur’mente!   As rodas são tão avançadas que até nem são rodas – são como gigantescas versões em grande dimensão daquelas inteli-rodas que as skateboards de alta velocidade utilizam, bastonetes telescópicos independentes com espessas placas de tracção nos topos.   Descaído à frente, no cone de nariz da motocicleta, está o equipamento sensor que vai monitorizando as condições da estrada e que decide onde colocar cada bastonete conforme vai avançando, quanto há que estendê-lo, e quanto há que rodar o blocozinho de apoio dele para conseguir máxima tracção.   É tudo controlado por uma bios – Built-In Operating System (o Sistema Operativo Incorporado), um computador de bordo com um écran de painel plano embutido no topo do tanque de combustível.

Dizem que este ‘bebé’ pode fazer duzentos à hora sobre cascalho.   A bios conecta-se automaticamente à rede meteorológica da CIC e assim consegue saber quando é que se está para entrar em zona com ‘precipit’ – uma molha.   A cobertura aerodinâmica é totalmente flexível, calcula a sua própria forma mais eficiente para as correntes condições de velocidade e vento e altera as suas curvaturas em concordância, embrulha-se à tua volta como uma ginasta ninfomaníaca.

Scott calcula que este gajo irá facilitar com essa coisa da factura de venda sendo um amigo e confidente de Mr. Norman.   E não é coisa fácil para um vendedor de sangue na guelra passar um contrato de venda de uma besta sexy como esta, para uma factura de venda.   Hesita por um minuto.   Imagina o que vai acontecer, da sua parte, se isto tudo for qualquer espécie de engano.

O gajo está a observá-lo intensamente, parece sentir o seu nervosismo, quase como se pudesse ouvir o coração de Scott a bater.   E então no último momento a coisa alivia-se, ele torna-se magnânimo – Scott adora estes tipos gastadores – decide atirar algumas centenas de kongbucks acima do valor da factura para que Scott possa retirar uma magra comissão com o negócio.   Basicamente, uma gorjeta.

Depois – a cereja no topo do bolo – o gajo parece que fica maluco na Loja da Mota.   Totalmente chanfrado.   Compra um conjunto completo.   De tudo.   O topo de gama.   Um fato de cobertura todo em preto que envolve tudo das pontas dos pés ao pescoço num tecido ‘respirável’, à prova de bala, com placas de armogel em todos os locais devidos e airbags à volta do pescoço.   Mesmo os fanáticos por segurança não se lembrarão de um capacete ao vestirem um destes ‘pequerruchos’.

E assim, uma vez tendo descoberto como é que vai encaixar naquilo tudo as espadas, por fora daquele macacão, mete-se ao caminho.

“Tenho que dizer isto – diz Scott ao gajo abancado na sua nova mota, pondo as espadas ajustadas, incrivelmente fazendo para ali algo completamente não-autorizado à bios – você parece-me mesmo um sacana do caraças.”

“Obrigado, calculo que sim – torce o acelerador uma vez e Scott sente, mas não ouve, a potência do motor.   Esta coisinha é tão eficiente que nem perde poder a fazer ruído – Diz olá à tua nova sobrinha, novinha em folha!” – diz o gajo, que liberta então a embraiagem.   Os bastonetes dos rodados flectem, ajuntam-se, e a mota dispara para diante para fora do parque, como saltando sobre as suas garras eléctricas.   Risca a direito através do parque de estacionamento da vizinha franchise do Templo NeoAquariano e daí passa para a estrada.   Cerca de meio segundo depois o gajo das espadas não passa de um ponto no horizonte.   Depois, já ele desapareceu.

Apontado a norte.

36

Até um homem chegar aos vinte e cinco, pensa ainda, demasiadas vezes, que sob certas condições seria capaz de ser o pior sacana do mundo.   Se eu fosse para um mosteiro de artes marciais na China e estudasse mesmo a fundo durante dez anos.   Se a minha família tivesse sido liquidada por traficantes de droga colombianos e eu quisesse entregar-me à vingança.   Se eu tivesse uma doença fatal, com apenas um ano de vida pela frente, e me devotasse a limpar o crime das ruas.   Se me quisesse pôr mesmo à margem da sociedade a devotar a vida a ser realmente mau.

Hiro também costumava sentir-se assim, mas foi então que ocorreu este cruzar de caminhos com o Raven.   De certa forma isto foi libertador.   Não teve mais que se preocupar em tentar ser o pior sacana do mundo.   O lugar está já preenchido.   O acto de coroação, a única coisa que realmente coloca a verdadeira nata a nível planetária do reino da filha-da-putice totalmente fora do seu alcance, claro, é a bomba de hidrogénio.   Se não fosse a bomba de hidrogénio, um homem ainda podia ter esperança.   Encontrar talvez o ‘calcanhar de Aquiles’ de Raven.   Ir pela calada, sacar rápido da arma, atiçar uma provocação, atacar em estocada rápida.   Mas o guarda-chuva nuclear de Raven a modos que mantém o título mundial fora de alcance.

O que está okay.   Às vezes está tudo bem em ser-se apenas mauzinho.   Conheceres as tuas limitações.   Funcionares com o que tens.

Uma vez posto a caminho na auto-estrada, apontado às montanhas, ‘met’óculos’ ligado ao seu escritório.   A Terra ainda lá está, com a ampliação fixa por sobre a Jangada.   Hiro contempla aquilo sobreposto em tons fantasmagóricos à visão que tem da auto-estrada, conforme vai conduzindo em direcção ao Oregon a duzentos e trinta à hora.

À distância, aquilo até parece maior do que na verdade é.   Ao chegar-se mais próximo ele pode ver que essa ilusão é causada por um envolvimento auto-fabricado por aquilo mesmo, uma nódoa/nuvem de dejectos e poluição aérea, desvanecendo-se pelo oceano e na atmosfera.

Orbita o Pacífico no sentido do relógio.   Quando ligam as caldeiras, no Enterprise, consegue-se controlar a sua direcção um poucochinho, mas uma navegação a sério é uma impossibilidade prática com toda a outra merda atrelada ali.   Tem que seguir principalmente para onde o vento e o efeito de Coriolis a levam.   Um par de anos atrás estava a passar pelas Filipinas, Vietname, China, Sibéria, recolhendo os ‘Refugas’.

Correu então pela cadeia das ilhas Aleutas e pela península-cabo do Alasca, e está agora para roçar pela pequena cidade de Port Sherman, Oregon, próximo da fronteira com a Califórnia.  

Conforme a Jangada se movimenta através do Pacífico, correndo principalmente à custa das correntes oceânicas, perde ocasionalmente grandes nacos de si própria.   Às vezes estes fragmentos acabam por dar à costa nalgum lugar como Santa Bárbara, ainda todos amarrados, transportando uma carga de esqueletos e ossos carcomidos.

Quando chegar à Califórnia entrará numa nova fase do seu ciclo de vida.   Aí, largará muito do seu improvisado e estendido volume, quando umas poucas de centenas de milhares de Refugas cortarem eles próprios as amarras e remarem para terra.   Os únicos Refugas a chegarem até este ponto são, por norma, aqueles que foram em primeiro lugar o suficientemente ágeis para conseguirem chegar à Jangada, hábeis o bastante para sobreviverem à lenta e agonizante passagem através das águas árcticas, e suficientemente fortes para não serem mortos por qualquer um dos outros Refugas.   Gajos porreiros, todos eles.   Precisamente o tipo de gente que gostarias de ver a surgir pela tua praia privativa em grupos de alguns milhares.

Reduzida depois a alguns navios dos grandes a ele colados, um pouco mais manobrável, o Enterprise irá girar através do Pacífico Sul em direcção à Indonésia, onde inflectirá de novo para norte, e começará o próximo ciclo de migração.

Formigas em exércitos cruzam rios poderosos trepando umas por cima das outras e amontoam-se em cachos numa pequena bola que flutua.   Muitas delas caem e afundam-se e naturalmente as formigas no fundo dessa bola afogam-se.   As que são o suficientemente rápidas e vigorosas para se manterem a amarinhar o seu caminho à força de garras, em direcção ao topo, conseguem sobreviver.   Uma quantidade delas faz assim a travessia, e é por isso que não consegues travar exércitos de formigas pondo-te a dinamitar pontes.   É como os Refugas, vêm através do Pacífico embora sejam demasiado pobres para fazer uma reserva num autêntico navio ou comprar um barco de alto-mar.   Cada cinco anos uma nova vaga deles vem dar à costa ocidental quando as correntes oceânicas trazem de volta o Enterprise.

Durante o último par de meses, donos de propriedades na frente de praia da Califórnia têm alugado malta da segurança, montado holofotes e vedações anti-pessoais ao longo da linha de maré, e instalado baterias de metralhadoras nos seus iates.   Todos subscreveram já o boletim da CIC actualizável ao longo das 24 horas – o Raft Report / Boletim da Jangada – e recebem os últimos ‘flashes’ noticiosos, vindos direitinhos do satélite, informando sobre quando o último lote de uns vinte e cinco mil Eurasiáticos esfomeados se acaba de desprender do Enterprise e começa a mergulhar a sua miríade de remos no Pacífico, como patitas de formiga.

 

“Está na hora de fazermos mais pesquisa – diz ele ao Bibliotecário – Mas isto vai ter que ser totalmente verbal pois vou aqui agora mesmo pela I-5 acima numa velocidade incrível e tenho que me manter alerta em relação a autocaravanas que seguem devagar e veículos afins.”

“Terei isso em mente – diz a voz do Bibliotecário aos seus auscultadores – Preste atenção a um camião articulado, todo dobrado, a sul de Santa Clarita.   E há um buracão na faixa da esquerda perto da saída para Tulure.”

“Obrigado.   Bem, de qualquer modo, quem eram esses deuses?   O Lagos tinha alguma opinião sobre isso?”

“Lagos acreditava que eles poderão ter sido mágicos – isto é, seres humanos normais com poderes especiais – ou poderão ter sido - aliens - extraterrestres.”

“Uá, uá!   Calma aí.   Vamos antes a uma coisa de cada vez.   O que é que Lagos queria dizer quando falou sobre ‘seres humanos normais com poderes especiais’?”

“Assuma-se que o nam-shub de Enki funcionava realmente como um vírus.   Assuma-se que alguém chamado Enki o tenha inventado.   Então Enki terá tido qualquer tipo de poder linguístico que está para lá do nosso conceito de normal.”

“E como iria tal poder funcionar?   Qual é o mecanismo?”

“Só lhe posso dar umas referências precoces, delineadas por Lagos.”

“Okay.   Passa-me algumas.”

“A crença no poder mágico da linguagem não é fora do comum tanto na literatura mística como na académica.   Os cabalistas – místicos judeus de Espanha e da Palestina – acreditavam que uma percepção interior e um poder sobrenaturais podiam ser obtidos a partir de uma combinação apropriada das letras do Nome Divino.   Por exemplo, Abu Ahron, um dos primeiros cabalistas e que emigrou de Bagdad para Itália, era referido como executando milagres através do poder dos Nomes Sagrados.”

“De que tipo de poder é que nós estamos para aqui a falar?”

“A maior parte dos cabalistas eram teóricos que estavam interessados apenas na meditação pura.   Mas existiam os assim chamados ‘cabalistas práticos’ que tentavam aplicar o poder da Cabala na vida quotidiana.”

“Noutras palavras, feiticeiros.”

“Sim.   Estes cabalistas práticos usavam um chamado ‘alfabeto arcangélico’ derivado dos alfabetos teúrgicos gregos e aramaicos do primeiro século, que lembrava a escrita cuneiforme.   Os cabalistas referiam-se a este alfabeto como ‘a escrita de olhos’ pois as letras eram compostas de linhas e de pequenos círculos que lembravam olhos.”

“Uns e zeros.”

“Alguns cabalistas faziam a divisão das letras do alfabeto conforme o local onde eram produzidas no interior da boca.”

“Okay.   Então, como podemos pensar disso, estavam a estabelecer uma ligação entre a letra impressa na página e as conexões neurais que tinham que ser invocadas de forma a pronunciá-la.”

“Sim.   Pela análise à dicção de várias palavras, foram capazes de mostrar o que pensaram ser conclusões profundas sobre o seu verdadeiro, e intrínseco, propósito e significância.”

“Okay.   Se tu o dizes.”

“No domínio académico a literatura não é assim tão fantasista.   Mas uma boa dose de esforço tem sido devotada para explicar Babel.   Não o acontecimento de Babel – que muita gente considera ser um mito – mas o facto de as línguas tenderem a divergir.   Um número de teorias linguísticas têm sido desenvolvidas num esforço de ligar em conjunto todas as línguas.”

“Teorias que Lagos tentou aplicar à sua hipótese dos vírus.”

“Sim.   Há duas escolas: relativistas e universalistas.   Como George Steiner resume, os relativistas tendem a acreditar que a língua não é o veículo do pensamento mas o seu meio determinante.   É a estrutura para a cognição.   As nossas percepções de todas as coisas são organizadas pelo fluxo de sensações passando por sobre essa estrutura.   Daí, o estudo da evolução da linguagem é o estudo da evolução da própria mente humana.”

“Okay, posso ver o sentido disso.   E sobre os universalistas?”

“Em contraste com os relativistas, que acreditam que as línguas não precisam de ter nada em comum umas com as outras, os universalistas acreditam que se pudermos analisar o suficiente as diversas línguas, poderemos descobrir que todas elas têm certos traços comuns.   Assim analisam as línguas procurando tais traços.”

“E encontraram algum?”

“Não.   Parece haver sempre uma excepção para cada regra.”

“O que vem rebentar com o universalismo.”

“Não necessariamente.   Eles explicam este problema dizendo que os traços partilhados estão demasiado enterrados para que possam ser analisáveis.”

“O que é inconclusivo.”

“O ponto deles é que a determinado nível a linguagem tem que ocorrer dentro do cérebro humano.   Uma vez que todos os cérebros humanos são mais ou menos idênticos...”

“O hardware é o mesmo.   O software não.”

“Está a utilizar um certo tipo de metáfora que não consigo compreender.”

Hiro passa que nem uma chicotada zurzindo por uma enorme roulotte ‘Airstream’ que vai a sacolejar de lado a lado no perigoso vento que sopra por aquele vale abaixo.

“Bem, o cérebro de alguém que fala francês começa da mesma maneira que o cérebro de um falante em inglês.   Conforme vão crescendo, vão ficando programados com diferente software – aprendem línguas diferentes.”

“Sim.   Por isso, de acordo com os universalistas, o francês e o inglês – ou quaisquer outras línguas – deverão partilhar certos traços que têm as suas raízes nas ‘estruturas profundas’ do cérebro humano.   De acordo com a teoria ‘Chomskyana’, as estruturas profundas são componentes inatos do cérebro que lhe permitem perfazer certos tipos formais de operações sobre séries de símbolos.   Ou, como Steiner parafraseando Emmon Bach: Estas profundas estruturas conduzem eventualmente à modelagem efectiva do córtex com a sua imensamente ramificada, e contudo, ao mesmo tempo também, ‘programada’ teia de canais electroquímicos e neurofisiológicos.”

“Mas estas estruturas profundas são tão fundas assim que não as conseguimos ver?”

“Os universalistas situam os nodos activos da vida linguística – as estruturas profundas – tão fundas que desafiam a observação e descrição.   Ou para usar a analogia de Steiner: ‘tentem retirar a criatura das profundidades marinhas e ela desintegrar-se-á ou mudará a sua forma grotescamente’.”

“Aí está outra vez essa serpente.   Portanto em qual das teorias Lagos acreditava?   A relativista ou a universalista?”

“Ele não parecia pensar como se houvesse uma diferença tão grande.   No fim, ambas têm o seu quê de místico.   Lagos acreditava que ambas as escolas de pensamento tinham chegado essencialmente ao mesmo local mas por diferentes linhas de raciocínio.”

“Mas a mim parece-me existir uma diferença chave – diz Hiro – Os universalistas pensam que nós somos determinados pela estrutura pré-configurada dos nossos cérebros – os caminhos no córtex.   Os relativistas não acreditam que tenhamos quaisquer limites.”

“Lagos modificou a teoria Chomskyana estrita supondo que aprender uma língua é como ‘soprar código’ para dentro de ‘PROMs’ – uma analogia que eu não consigo interpretar.”

“A analogia é clara.   As PROMs são ‘chips’ (circuitos electrónicos), as chamadas ‘Programmable Read-Only Memory – Memórias Programáveis Só de Leitura – diz Hiro – Quando vêm da fábrica não trazem qualquer conteúdo.   Uma, e uma única vez, podes colocar informação nesses chips e depois congelá-la – a informação.   O software torna-se como se houvesse sido ‘congelado’, fixo, embutido, feito pertença daquele chip – transmutando-se em hardware.   Após teres ‘soprado’ o código – a programação – para as PROMs, podes lê-las, mas nunca mais podes voltar a escrever nelas.   Portanto Lagos estava a tentar dizer que o cérebro de um recém-nascido humano não tem uma estrutura – da forma como os relativistas a definem – e que conforme a criança aprende uma linguagem o cérebro em desenvolvimento vai-se estruturando de acordo, a língua vai sendo ‘soprada’ para dentro do hardware e torna-se parte permanente da profunda estrutura cerebral – tal como definido pelos universalistas.”

“Sim.   Era esta a interpretação dele.”

“Okay.   Portanto quando ele falava acerca de Enki ser uma pessoa real com poderes mágicos, o que ele queria dizer é que Enki de qualquer forma compreendeu a ligação entre linguagem e cérebro e sabia como manipulá-la.   Da mesma maneira que um hacker, conhecendo os segredos de um sistema de computador, pode escrever código para controlá-lo – nam-shubs digitais.”

“Lagos dizia que Enki possuía a habilidade de ascender ao universo da linguagem e observá-lo perante os seus próprios olhos.   Quase ao estilo de como os humanos hoje vão até ao Metaverso.   Isso conferia-lhe o poder de criar nam-shubs.   E os nam-shubs tinham o poder de alterar o funcionamento do cérebro e do corpo.”

“Porque é que já não há ninguém a fazer este tipo de coisas nos dias de hoje?   Porque é que não existem quaisquer nam-shubs em inglês?”

“Nem todas as línguas são o mesmo, como salienta Steiner.   Algumas línguas são melhores na metáfora do que outras.   O hebreu, aramaico, grego e chinês prestam-se ao jogo de palavras e conseguiram alcançar uma melhor e duradoura amarração à realidade: ‘a Palestina teve Qiryat Sefer, a ‘Cidade das Letras’ e a Síria tinha Biblos – a ‘Cidade dos Livros’.   Em contraste, outras civilizações parecem ‘sem discurso’ ou no mínimo, como pode ter sido o caso no Egipto, não inteiramente conscientes dos poderes criativos e transformadores da linguagem’.   Lagos acreditava que o sumério fora uma língua extraordinariamente poderosa – pelo menos terá sido, na Suméria, há cinco mil anos atrás.”

“Uma língua que se prestou ao hacking neurolinguístico de Enki.”

“Os antigos linguistas, assim como os cabalistas, acreditavam numa língua fictícia chamada a língua do Éden, a língua de Adão.   Permitiria que todos os homens se entendessem uns aos outros, comunicassem sem mal-entendidos.   Era a língua do Logos, do momento em que Deus criou o mundo ao pronunciar uma palavra.   Na fala do Éden, nomear uma coisa era o mesmo que criá-la.   Para citar de novo Steiner, ‘o nosso discurso interpõe-se entre a apreensão que fazemos e a verdade como uma vidraça empoeirada ou um espelho deformado.   A língua do Éden era como que um vidro impecável; uma luz de compreensão total perpassava através dele.   Portanto Babel foi uma Segunda Queda’.   E Isaac, o Cego, um antigo cabalista, dizia que - isto citando a tradução de Gershom Scholem - ‘a fala dos homens está ligada à fala divina e todas as línguas, quer sejam celestiais ou humanas, emanam de uma origem: o Nome Divino’.   Os cabalistas práticos, os feiticeiros, ostentavam o título de Ba’al Shem, significando ‘mestre do nome divino’.”

“A ‘linguagem máquina’ do mundo” – diz Hiro.

“Isto é outra analogia?”

“Os computadores ‘falam’ linguagem máquina – diz Hiro – É escrita em uns e zeros – código binário.   Ao nível mais básico todos os computadores são programados com séries de uns e zeros.   Quando programas em linguagem máquina estás a controlar o computador ao nível do seu próprio tronco cerebral, a raiz da sua existência.   É a língua do Éden.   Mas é muito difícil trabalhar em linguagem máquina porque em pouco tempo ficas amalucado com aquilo, trabalhar a esse minucioso nível.   Então toda uma Babel de linguagens de computador foi criada para os programadores: FORTRAN, BASIC, COBOL, LISP, Pascal, C, PROLOG, FORTH.   Conversas com o computador nalguma destas linguagens e, uma peça de software chamada compilador, converte-a para linguagem máquina.   Mas nunca és capaz de dizer exactamente o que é que o compilador está a fazer.   Nem sempre aquilo sai da maneira que pretendes.   Como num vidro fosco ou num espelho distorcido.   Um hacker bem avançado chega a perceber o verdadeiro trabalho interno da máquina – vê através da linguagem com que trabalha e consegue um vislumbre do funcionamento secreto do código binário – torna-se num Ba’al Shem disto.”

“Lagos acreditava que as lendas sobre a língua do Éden fossem versões exageradas de acontecimentos reais – diz o Bibliotecário – Estas lendas reflectiriam uma nostalgia por um tempo em que as pessoas falavam sumério, uma língua que era superior a todas as outras que surgiriam posteriormente.”

“Seria o sumério assim tão bom?”

“Não há nada em concreto, tanto quanto os linguistas de hoje possam afirmar – diz o Bibliotecário -  Como antes mencionei, para nós é na maior parte impossível apreender o seu sentido.   Lagos suspeitava que as palavras funcionassem diferentemente nesses dias.   Se a língua materna de alguém influencia a estrutura física do cérebro em desenvolvimento, então é justo dizer-se que os sumérios – que falavam uma língua radicalmente diferente de qualquer coisa hoje existente – teriam cérebros fundamentalmente diferentes dos nossos.   Lagos acreditava que, por esta razão, o sumério era uma língua idealmente apropriada à criação e propagação de vírus.   Que um vírus, uma vez libertado na Suméria, iria espalhar-se rápida e virulentamente, até que tivesse infectado a todos.”

“Talvez Enki também soubesse isso – diz Hiro – Talvez o nam-shub de Enki não tivesse sido uma coisa má.   Talvez Babel fosse a melhor coisa que alguma vez nos aconteceu.”

37

A mãe de Y.T. trabalha na Fedlândia.   Acabou de estacionar o pequeno carro no seu pequeno lugar numerado pelo qual os Feds exigem que pague cerca de dez por cento do seu salário (e se não gostar, que venha de táxi ou a pé) e de trepar vários níveis de uma hélix em concreto reforçado e com uma iluminação que cega e na qual muitos dos melhores lugares - próximos da superfície – estão reservados para outra gente que não ela, mas vazios.   Caminha sempre pelo centro da rampa por entre filas de carros estacionados, para que os gajos da EBGOC não pensem que ela ande a ocultar-se, a esquivar, a fingir-se doente ou a fumar.

Alcançada a entrada subterrânea para o seu edifício já tirou dos bolsos todos os objectos metálicos e removeu a mais pequena das jóias que envergava, deita tudo numa suja bacia plástica, e caminhou através do detector.   Exibiu o seu crachá.   Assinou o nome e anotou a hora em formato digital.   Foi submetida a uma revista por uma das tipas do EBGOC.   Aborrecido, mas é melhor que uma inspecção às cavidades.   Eles têm o direito de te efectuar uma busca aos orifícios se quiserem.   Uma vez levou todos os dias com uma inspecção-de-cavidades ao longo de um mês, logo a seguir a ter falado numa das reuniões e sugerido que a supervisora dela pudesse estar numa via errada no âmbito de um grande projecto de programação.   Aquilo foi punitivo, repetitivo, ela sabia que o era, mas ela sempre quis dar algo ao seu país, e sempre que trabalhas para os Feds limitas-te a aceitar o facto de que irá haver sempre qualquer politiquice.   E que, como uma pessoa num baixo-estatuto, tu é que vais ter que arcar com o fardo.   Posteriormente, trepando a escada do GS - General Service (Serviços Governamentais), não tens que suportar tanta merda.   Nem lhe passa pela cabeça uma quezília com a sua supervisora.   A supervisora dela, Marietta, não tem um nível GS especialmente estelar, mas ela tem acesso.   Ela tem ligações.   Marietta conhece gente que conhece gente.   Marietta já participou em cocktails que foram igualmente participados por algumas pessoas que, bem, até os olhos se te esbugalhavam.

Passou já pela revista, colarinhos desfraldados.   Voltou a meter as coisas de metal de novo nos bolsos.   E trepou a meia dúzia de lanços de escadas até ao seu piso.   Os elevadores aqui ainda funcionam, mas algumas pessoas muito altamente colocadas na Fedlândia fizeram com que constasse – nada oficial, mas eles têm meios para debitar essas coisas cá para fora – que é um dever poupar-se energia.   E os Feds são realmente sérios no que toca ao dever.   Dever, lealdade, responsabilidade.   O colagénio que nos aglutina nestes Estados Unidos da América.   Portanto os vãos de escada estão todos cheios com esta lã ensopada em suor e o roçagar do couro.   Se tomares o elevador ninguém na verdade dirá nada mas isso será notado.   Notado e escrito e tido em conta.   As pessoas olharão para ti, um olhar de alto a baixo, como que a dizerem, ‘o que é que aconteceu, uma luxação da anca?’.   Tomando as escadas não há problemas.   Os Feds não fumam.   Feds em geral não comem em demasia.   O plano de saúde é muito específico, contém incentivos grandes, experimenta ficar com demasiado peso ou a arfar, ninguém diz nada sobre isso – o que seria rude – mas sentes uma pressão a sério, um senso de estares ali deslocado ao caminhares através daquele mar de secretárias, olhos a erguerem-se para te seguirem, calculando o peso dos teus alforges, olhares a dardejarem para um lado e para o outro trocados entre secretárias, como se por consenso os teus colegas dissessem a si próprios ‘pergunto-me em quanto é que ele/ou ela  estará a fazer aumentar os prémios do nosso plano de saúde’.

Assim a mamã de Y.T. vai-se roçando pelas escadas acima nos leves sapatinhos pretos e foi já para o seu escritório, que na realidade é uma sala grande com ‘estações de trabalho’ em computador distribuídas por ali como numa grelha.   Costumava haver umas partições, umas divisórias, mas os tipos do EBGOC não gostavam disso, afirmavam ‘como é que isso vai ser se tiver que acontecer uma evacuação?’.   Todas essas divisórias iriam impedir o livre fluxo do pânico desvairado.   Portanto, acabaram-se as partições.   Só ‘estações de trabalho’ e cadeiras.   Nem mesmo quaisquer ‘desktops’ – os computadores de secretária individuais com impressora.   Desktops encorajam o uso de papel, o que é arcaico e reflecte um inadequado espírito de equipa.   O que há de tão especial com o teu trabalho que tenhas que o pôr num pedaço de papel que só tu é que vês?   Que tenhas que guardá-lo fechado no interior de uma secretária?   Quando trabalhas para os Feds, tudo o que fazes é propriedade dos Estados Unidos da América.   Fazes assim o teu trabalho ao computador.   O computador conserva uma cópia de tudo, de modo a que mesmo que fiques doente ou algo no género, está tudo ali onde os teus colegas e supervisores possam ter-lhe acesso.   Se quiseres rabiscar algumas notas pessoais ou gatafunhos telefónicos, és perfeitamente livre de o fazeres em casa, no teu tempo livre.

E há a questão da interpermutabilidade.   Os trabalhadores dos Feds tal como o pessoal militar, são pensados em termos de coisas intercambiáveis.   O que acontece no caso de a tua estação de trabalho se avariar?   Vais ficar ali sentado a torcer os polegares até que fique arranjada?   Não-sinhora!   Vais é transferir-te para uma estação de trabalho que esteja livre e metes-te a aí trabalhar.    E não tens essa flexibilidade se tiveres meia tonelada de coisas pessoais enfiadas dentro de uma secretária ou no seu tampo espalhadas à volta de um ‘desktop’.

Portanto não existe papel num escritório Fed.   Todas as estações de trabalho são idênticas.   Chegas de manhã, escolhes uma ao acaso, sentas-te e pões-te a trabalhar.   Podias tentar uma preferência por uma determinada estação, procurares sentar-te aí todos os dias, mas isso seria notado.   Geralmente escolhes a estação de trabalho desocupada que esteja mais próximo da porta.   Dessa forma, quem quer que chegue mais cedo senta-se mais perto, e quem chegue mais tarde fica lá mais para trás, e para o resto do dia é óbvio num único relance quem se esforça por estar à hora neste escritório e quem está – como eles sussurram uns para os outros nas casas de banho – a ter problemas.

Não que isso seja algum grande segredo, quem chega primeiro.   Quando te ligas numa estação de trabalho, pela manhã, não é como se o computador central deixasse passar o facto sem notar.   O computador central repara precisamente em tudo.   Dá conta de cada tecla que premiste no teclado ao longo de todo o dia, a que altura isso aconteceu – até ao microssegundo – se foi a tecla correcta ou errada, quantos enganos cometes e quando é que os fazes.   É apenas exigido que estejas na tua estação de trabalho das oito às cinco com um intervalo de meia hora para almoço e dois de dez minutos para o café, mas se te cinges a esse horário isso será mesmo reparado, e aí está porque é que a mamã de Y.T. desliza ali para a primeira estação de trabalho desocupada e liga-se ao sistema pela sua máquina às sete menos um quarto.   Meia dúzia de outras pessoas estão já presentes, registaram-se em estações de trabalho mais perto da entrada, mas não está mau.   Pode perspectivar  uma carreira razoavelmente estável se conseguir manter este nível de performance.

Os Feds operam ainda na ‘flatlândia’, apenas – na ‘terra espalmada’.   Nada desse material para 3D, nada de óculos ou sequer som stereo.   Os computadores são todos daqueles elementos básicos, écrans planos e a duas dimensões.   Aparecem janelas sobre a área de trabalho em écran com pequenos documentos de texto no interior.   Tudo parte do programa de austeridade – a colher grandes benefícios, em breve.

Ela regista-se no sistema e verifica se tem correio electrónico.   Nenhuma correspondência pessoal, apenas um par de notificações distribuídas em massa a partir da Marietta.

 

Novos Regulamentos de Receptáculos Colectivos para Papel Higiénico

Foi-me pedido que distribuísse os novos regulamentos referentes aos locais de colocação de receptáculos comuns de escritório.   O mesmo anexo é um novo sub-capítulo do Manual de Procedimentos do EBGOC substituindo o antigo capítulo intitulado

Mapa Físico/Califórnia/Los Angeles /Edifícios / Áreas de Escritório /Regulamentos de Disposição Física/ Contribuições de Funcionários/Actividades de Grupo.

O antigo sub-capítulo era uma proibição plena quanto ao uso de espaço ou tempo de escritório para quaisquer actividades em ‘comum’ de qualquer tipo, quer sejam permanentes (e.g. armazenamento de café) ou de uma única vez (e.g. festas de aniversário).

Esta proibição ainda se aplica, mas uma única e isolada excepção é agora aberta para qualquer escritório que pretenda perseguir uma estratégia de papel higiénico em conjunto.

À laia de introdução permitam-me fazer algumas considerações gerais sobre o assunto.   O problema da distribuição de papel higiénico aos trabalhadores coloca desafios inerentes a qualquer sistema de gestão de escritórios devido à imprevisibilidade inerente quanto ao seu uso – nem todos os procedimentos de uso destas instalações implicam a utilização de papel higiénico e, quando é usado, o montante necessário (número de quadrados) pode variar entre amplos valores de pessoa para pessoa e, numa dada pessoa, entre uma transacção e a seguinte.   E isto até sem ter em linha de conta o ocasional uso de papel para propósitos imprevisíveis/criativos tais como aplicar/remover cosméticos e controle de salpicos de bebidas, etc.   Por esta razão, em vez de tentar distribuir papel em pequenas doses referentes a ‘uma transacção’ (como o que é feito por exemplo com os toalhetes impregnados), que poderia ser uma pura perda nalguns casos e limitador noutros, tem sido uma tradição empacotar este produto em grandes unidades de distribuição cujo tamanho em muito excede o montante máximo de quadrados que um indivíduo possa concebivelmente usar numa única transacção (salvo force majeure).   Isto reduz a um mínimo o número de transacções nas quais a unidade de distribuição fica vazia (o rolo chegar ao fim) durante a transacção, uma situação que pode conduzir a stress emocional o empregado afectado.   Contudo isto coloca o gestor perante alguns desafios derivados do volume da unidade de distribuição ser grande e precisar de ser repetidamente usada por um número de diferentes indivíduos para não ser desperdiçada.

Desde a implementação da Fase XVII do Programa de Austeridade, tem sido permitido aos empregados trazerem de casa o seu próprio papel higiénico.   Esta abordagem é de certa forma grosseira e redundante na medida em que cada trabalhador traz o seu próprio rolo.

Alguns escritórios têm tentado resolver este desafio ao instituírem receptáculos comuns para papel higiénico.

Sem querer generalizar totalmente, pode ser afirmado que um procedimento inerente e irredutível em qualquer implementação destes receptáculos para papel higiénico a nível de escritório num ambiente (i.e. como um prédio) nos quais os postos de ‘facilidades’ estejam distribuídos  segundo uma base de ‘per andar’ (i.e. em que vários escritórios compartilham uma mesma instalação), é que locais de aprovisionamento devem ser estabelecidos dentro dos limites de cada escritório para o albergar temporário destas unidades de distribuição (i.e. rolos) de papel.   Isto deriva do facto de que os BTDU (Bathroom Tissue Distribution Units / UDPH – Unidades Distribuidoras de Papel Higiénico) – rolos – ficarem estacionados, enquanto inactivos, fora da visão do escritório de controle (i.e. – o escritório que colectivamente comprou a UDPH) – isto é, se as BTDU forem por exemplo guardadas num ‘hall’ ou corredor, ou mesmo dentro das instalações nas quais são na realidade usados, serão sujeitos à pilhagem e ‘encolhimento’ conforme pessoas não autorizadas os usem quer como parte de um esforço consciente para se abarbatarem, ou por uma incompreensão, i.e. acreditando que as UDPH são providenciadas livres de quaisquer encargos por parte da agência operadora (neste caso o governo dos Estados Unidos), ou como resultado de uma necessidade tratando-se de um entornar de bebida que se infiltre por equipamento electrónico sensível e cujo controle não permita por conseguinte qualquer retardo.   Este facto levou certos escritórios (que não devem ser citados – vocês pá sabem quem vocês são) a estabelecer depósitos improvisados de UDPH que também servem como locais de receptáculo para toda uma série de contribuições.

Usualmente estes depósitos têm a forma de uma mesa perto da porta mais próxima às ‘facilidades’, sobre a qual as UDPH são empilhadas ou de outra forma expostas, com uma bacia ou qualquer outro receptáculo no qual os participantes possam colocar as suas contribuições, e tipicamente com um símbolo ou qualquer outro sistema que chame a atenção (tal como um animal empalhado ou cartoon) pedindo doações.   Um rápido olhar pelos regulamentos correntes mostrará que a colocação de tal expositor/depósito viola o manual de procedimentos.   Contudo, no interesse da higiene e moral do empregado e da elevação de espírito de grupo, os meus superiores concordaram em efectuar uma excepção única nos regulamentos a este propósito.

Como com qualquer parte do manual de procedimentos, recente ou antiga, é da sua responsabilidade estar adequadamente familiarizado com este material.   O tempo estimado para a leitura deste documento é de 15.62 minutos (e não pensem que não vamos verificar).   É favor tomarem nota dos pontos principais neste documento, como se seguem:

Os depósitos/expositores UDPH são agora permitidos numa base experimental devendo esta nova política ser reapreciada ao fim de seis meses.

Estes devem ser operados numa base de voluntariado, e do tipo receptáculo comum, tal como vem descrito no sub-capítulo sobre receptáculos comuns de funcionários. (Nota: isto significa manter livros e efectuar o lançamento de todas as transacções financeiras).

As UDPH devem ser trazidas pelos empregados (e não através da sala de encomendas postais) e são sujeitas a todas as regulamentações habituais sobre inspecção-e-apreensão.

São proibidas as UDPH aromatizadas uma vez que podem causar reacções alérgicas, espirros, etc., em algumas pessoas.

As doações em dinheiro para o receptáculo, tal como acontece com todas as transacções monetárias dentro do governo dos E.U., devem usar a moeda oficial dos E.U. – não podem ser em ienes ou kongbucks!

Naturalmente, isto pode conduzir a um problema de volume, caso as pessoas tentem usar o recipiente de doações como local de vazadouro para os maços de velhas notas de bilião e de trilião de dólares.   O pessoal da ‘Edifícios e Áreas’ está preocupado acerca de problemas de descartagem de lixo e o potencial risco de incêndio que poderá advir de enormes pilhas de biliões e triliões começarem a amontoar-se.   Assim sendo, um ponto chave da nova regulamentação é que o recipiente de doação deva ser despejado todos os dias – e mais amiúde se uma situação excessiva de amontoamento é vista a desenvolver-se.

Nesta sequência, o pessoal da ‘E e A’ gostaria também que eu salientasse que, muitos de vós, tendo um excesso de moeda dos E.U., para se desfazer dela têm tentado matar dois coelhos de uma só cajadada usando os antigos biliões como papel higiénico.   Embora seja criativa, esta abordagem tem dois contras:

1) Isso entope a tubagem, e

2) Constitui uma ‘defacement’[21] – desconfiguração de moeda dos E.U., o que configura um crime federal.

Não faça isso

Em vez disso, adira ao grupo de receptáculo comum de papel do seu escritório.

É fácil, é higiénico, e é legal.

Tenham um bom agrupamento!

Marietta.

 

A mamã de Y.T. faz avançar para cima no écran o documento do novo memo, verifica as horas, e principia a lê-lo.   O tempo previsto para leitura é de 15 minutos e 62 centésimos.   Mais tarde, quando Marietta efectuar a sua ronda pelas estatísticas de fim do dia, sentada no seu escritório privado até às 9:00 da noite, ela irá ver o nome de cada empregado e pegado a ele o montante em tempo gasto na leitura deste memo, e a reacção dela, baseada no tempo despendido, será qualquer coisa como isto:

 

Menos que 10 min.

Altura para uma avaliação do empregado e possível aconselhamento de atitude.

 

10 – 14 min.

Manter um olho sobre este empregado ; poderá estar a desenvolver uma atitude desmazelada.

 

14 – 15.61 min.

O empregado é um trabalhador eficiente, pode por vezes perder detalhes importantes.

 

Exactamente 15.62 min.

Um ‘chico-esperto’.   Precisa de um aconselhamento de atitude.

 

15.63 – 16 min.

Um engraxador.   Não é de confiar neste.

 

16 – 18 min.

O empregado é um trabalhador metódico, mas por vezes pode encalhar nalgum detalhe menor.

 

Mais que 18 min.

Verificar a fita da câmara de segurança, ver precisamente em que é que este empregado andou metido (e.g. possível intervalo não autorizado nos lavabos).

 

 

A mamã de Y.T. decide despender entre catorze e quinze minutos na leitura do memorando.   É melhor para os trabalhadores mais jovens gastarem um tempo mais dilatado para mostrarem que são cuidadosos e não com excesso de autoconfiança.   Para trabalhadores mais velhos é melhor irem um pouco mais rápido, para demonstrar um potencial de boa gestão.   Ela já vai para os quarenta.   Vasculha ao longo do memo, tocando na tecla de ‘Page Down’ (Página Abaixo) a intervalos razoavelmente regulares, ocasionalmente voltando à página atrás a fingir reler qualquer passagem anterior.   O computador irá reparar nisto tudo.   E aprova isso de releitura.   É uma coisa mínima, mas ao longo de uma década ou coisa parecida, todo esse material na verdade redundará numa amostragem/sumário dos teus hábitos de trabalho.

Arredado isto do caminho ela mete-se ao trabalho.   Ela é uma programadora de aplicações para os Feds.   Nos dias de antigamente poderia ganhar a vida a escrever programas de computador.   Actualmente, ela escreve fragmentos de programas de computador.   Estes programas são delineados por Marietta e pelos superiores de Marietta em reuniões maciças ao longo de uma semana inteira no andar de topo.   Uma vez que tenham o ‘design’ definido, começam a dividir o problema em segmentos cada vez mais pequenos adjudicando-os aos gestores de grupo, que os repartem ainda mais, e entregam assim pequenos bocadinhos do trabalho a programadores individuais.   De modo a evitar que o trabalho executado pelos codificadores individuais colida tudo tem que ser feito de acordo com um conjunto de regras e regulamentos ainda maior e mais fluido que o manual de procedimentos do governo.

Assim a primeira coisa que a mamã de Y.T. faz, tendo lido o novo sub-capítulo sobre receptáculos comuns para papel higiénico, é registar-se num sub-sistema do sistema do computador principal que trata do projecto de programação específica em que se encontra a trabalhar.

Ela não sabe o que é o projecto – isso é classificado – ou como é que se chama.   É apenas o projecto dela.   Partilha-o com algumas centenas de outros programadores que não sabe exactamente quem são.   E cada novo dia, quando ela se liga àquilo, há uma pilha de memos à sua espera, contendo novas regulamentações e alterações às regras que todos eles têm que seguir ao escreverem o código para o projecto.

Estas regulamentações fazem o assunto do papel higiénico parecer tão simples e elegante como os ‘Dez Mandamentos’.

Portanto ela gasta o tempo até às onze da manhã a ler, reler, e a compreender as novas alterações no Projecto.   E há muitas destas alterações pois estamos numa Segunda-feira de manhã e Marietta e os seus superiores passaram todo o fim de semana encerrados no último andar, numa autêntica refrega de gatos acerca do Projecto, mudando tudo.

Começa ela então a retroceder sobre todo o código, a programação previamente escrita para o Projecto, e a fazer uma lista de todo o material que terá de ser rescrito de forma a torná-lo compatível com as novas especificações.   Basicamente ela vai ter que rescrever todo o seu material desde o início.   Pela terceira vez em muitos meses.

Mas, hei!, isto é um emprego.

Cerca das onze e meia, ela olha para cima, atónita, para ver que uma meia dúzia de pessoas estão ali paradas à volta da sua estação de trabalho.   Aí está Marietta.   E uma inquiridora.   E alguns Feds masculinos.   E Leon, o homem do polígrafo.

“Eu acabei de fazer a minha, foi feita na Quinta-feira” – diz ela.

“É tempo para outra – diz Marietta – Vamos lá, pôr o ‘show’ a rolar.”

“Mãos cá fora, onde as possa ver” – diz a inquiridora.

38

A mamã de Y.T. permanece em pé, mãos para os lados, e começa a caminhar.   Vai a direito para fora do escritório.   Nenhuma das outras pessoas olha para cima.   Nem é suposto fazerem-no.   Insensíveis às dificuldades dos colegas.   Faz o teste parecer ainda pior e discriminado, quando, de facto, o polígrafo é precisamente uma parte de todo este modo de vida Fed.   À retaguarda consegue ouvir o som das passadas da inquiridora, a caminhar dois passos atrás dela, mantendo os olhos fixos sobre aquelas mãos para que não possam fazer nada, como levá-la a abocanhar um Valium ou qualquer coisa no género que pudesse adulterar o exame.

Pára defronte da porta da casa de banho.   A inquiridora passa em frente dela, mantém a porta aberta e ela entra, seguida pela inquiridora.

A última cabina à esquerda é de um tamanho maior, suficientemente grande para duas pessoas.   A mamã de Y.T. penetra na cabina e no seu encalço traz a inquiridora que fecha e tranca a porta.   A mamã de Y.T. manda abaixo as calcinhas, alça a saia agachando-se sobre uma tina, e mija.   A inquiridora atenta vigia cada gota que entra para a tina, pega depois naquilo esvaziando o conteúdo para um tubo de ensaio que tem já o nome dela no rótulo e a data de hoje.

De novo, cá fora no ‘lobby’, seguida outra vez pela inquiridora.   É permitido usar-se os elevadores no caminho para a sala do polígrafo para que não estejas a deitar os bofes e completamente a transpirar quando lá chegares.

Costumava ser apenas um simples escritório com uma cadeira e alguns instrumentos sobre uma mesa.   Arranjaram então o novo e fantástico sistema para o polígrafo.   Agora é como estares a entrar para qualquer tipo de ‘scanner’ médico de alta tecnologia.   A sala está totalmente reconstruída, sem vestígio da sua função original, a janela tapada, tudo num aspecto suave, bege, e cheirando como um hospital.   Existe apenas uma cadeira, ao centro.   A mamã de Y.T. avança e senta-se, coloca os braços sobre os braços da cadeira, aninha os topos dos dedos e palmas das mãos nas pequenas depressões que parecem aguardá-los.   Uma mão de neoprene da braçadeira para a tensão arterial tacteia às cegas encontra o braço dela e agarra-o.   Entretanto as luzes da sala estão já a diminuir, a porta a fechar-se, e aí está ela sozinha.

A coroa de espinhos baixa sobre a sua cabeça, ela sente agora as picadas dos eléctrodos através do escalpe, sente o ar fresco a fluir pelos ombros abaixo desde o aparelho com os circuitos supercondutores de interferência quântica que serve de radar para o interior do seu cérebro.   Algures do outro lado da parede, ela sabe, meia dúzia dos do pessoal técnico estão ali sentados numa sala de controle, olhando para uma ampliação em écran gigante das suas pupilas.

Sente então uma picada ardente no antebraço e sabe que está a ser injectada com qualquer coisa.   O que significa que não é um exame de polígrafo normal.   Hoje veio aqui para algo especial.   A sensação de queimadura espalha-se a todo o corpo, o coração martela, os olhos ficam encharcados.   Acaba de levar com uma de cafeína para pô-la ‘hiper’, torná-la faladora.

Demasiado, para que consiga hoje fazer algum trabalho.   Às vezes estas coisas prolongam-se por doze horas.

“Como é que se chama?” – diz uma voz.   É uma voz forçadamente calma e escorreita.   Gerada por computador.   Dessa forma, tudo o que diga para ela é imparcial, desprovido de qualquer conteúdo emotivo, ela não terá qualquer maneira de apanhar alguma dica de como é que se está a sair no interrogatório.

A cafeína, e as outras coisas com que a injectam, baralham-lhe também o seu sentido do tempo.

Ela odeia estas coisas, mas acontecem a qualquer um de tempos a tempos, e quando vais trabalhar para os Feds, assinas naquela linha pontilhada e concedes permissão para isto.   Num certo sentido, é uma marca de orgulho e honra.   Quem quer que trabalhe para os Feds tem o seu coração nisto.   Se não o tiverem, virá tudo cá para fora, ao de cima, limpinho e transparente como o dia, quando chegar a vez deles se sentarem nesta cadeira.

As perguntas continuam e continuam.   Principalmente perguntas sem nexo.   ‘Já alguma vez esteve na Escócia?   O pão branco é mais caro que o pão de trigo?’   Isto é só para pô-la calma, ter todos os sistemas a funcionar docemente.   Todo o material captado durante a primeira hora de interrogatório é para descartar pois isso está sempre tudo perdido no meio do ‘ruído’ do sistema.

Consegue sentir-se a relaxar naquilo.   Diz-se que após alguns polígrafos aprendes a relaxar, aquela coisa vai sendo mais rápida.   A cadeira agarra-a ao lugar, a cafeína impede-a de tombar na sonolência, a privação sensorial clarifica-lhe a mente.

“Qual é a alcunha da sua filha?”

“Y.T.”

“Como é que se refere à sua filha?”

“Eu chamo-a pela alcunha.   Y.T.   Ela faz questão nisso.”

“Y.T.  tem algum emprego?”

“Sim.   Ela trabalha como Korreio.   Trabalha para a RadiKS.”

“Quanto é que Y.T. ganha como Korreio?”

“Não sei.   Uns tostões aqui e ali.”

“Com que frequência é que ela adquire novo equipamento para o trabalho que faz?”

“Não estou ciente.   Na verdade não tenho andado a par disso.”

“A Y.T. fez alguma coisa de estranho ultimamente?”

“Isso depende do que é que está a falar - ela sabe que está a tornar-se equívoca – Ela está constantemente a fazer coisas que algumas pessoas poderiam rotular como fora do comum.”

A frase não sai muito boa, parece como uma aceitação dessa não conformidade.

“Creio que o que estou a dizer é que ela está sempre a fazer coisas fora do comum.”

“A Y.T. partiu alguma coisa dentro de casa, recentemente?”

“Sim.”   Ela desiste.   Os Feds sabem isto já, a casa dela está sob escuta e observação.   É um milagre que não haja um curto-circuito na rede eléctrica com todo o equipamento extra atrelado a ela.   “Ela quebrou-me o computador.”

“Ela deu alguma explicação, o porquê de ter partido o computador?”

“Sim.   Um género disso.   Quer dizer, se uma coisa sem senso valer como explicação.”

“Qual é que foi a explicação dela?”

“Ela estava com medo – isto é tão ridículo – ela estava com medo de que eu pudesse apanhar um vírus a partir dele.”

“E a Y.T. estava também receosa de apanhar este vírus?”

“Não.   Ela disse que só os programadores é que estavam atreitos a isso.”

Porque é que eles estão a fazer-lhe todas estas perguntas?   Eles têm já tudo isto em fita.

“Acreditou na explicação de Y.T. para ter partido o computador?”

Aí está.

É disso que eles andam atrás.

Querem saber a única coisa que não conseguem espiolhar directamente – o que é que vai na cabeça dela.   Querem saber se acredita na história de Y.T. sobre o vírus.

E ela sabe que está a cometer um erro a pensar precisamente nestes pensamentos.   Porque aqueles super arrefecidos tentáculos dessa ‘lula’[22] dos SQUIDs (Super conducting Quantum-Interference Devices) à volta da cabeça dela estão à cata disso.   Eles não podem dizer o que é que ela está a pensar mas podem mostrar que alguma coisa se está a passar no cérebro dela, que está a usar agora partes do cérebro que não usou quando lhe estavam a pôr apenas aquelas perguntas de controle, sem sentido.

Por outras palavras, eles podem ver que ela está a analisar a situação, a tentar contornar a coisa.   E ela não estaria a fazer isso a menos que quisesse ocultar algo.

“O que é que vocês querem saber? – diz ela – Porque é que não se limitam a vir-me perguntar isso directamente?   Vamos falar sobre isto cara-a-cara.   Sentarmo-nos todos juntos numa sala como pessoas crescidas e falar sobre isto.”

Ela sente outra afilada agulha no braço, sente entorpecimento e aquela frieza espalhar-se-lhe por todo o corpo num intervalo de poucos segundos conforme a droga se mistura com a sua corrente sanguínea.   Está a tornar-se difícil seguir a conversa.

“Como é que se chama?” – diz a voz.

39

A ‘AlCan’ – a Auto-Estrada do Alasca – é o maior guetto de franchises do mundo, uma cidade unidimensional com duas mil milhas de comprimento e uns trinta e tal metros de largo, e a crescer à razão de cento e cinquenta quilómetros cada ano ou tão rapidamente quanto a populaça consiga guiar até ali ao extremo daquela vastidão e estacionar as suas autocaravanas no próximo espaço disponível.   É a única forma, esta, para o pessoal que queira deixar a América e que não tenha acesso a um avião ou navio.

Toda ela é em duas faixas, pavimentada mas não muito bem pavimentada, e atravancada com casas móveis, furgonetas familiares, camionetas abertas com um género de tenda de campismo montada na caixa.   Começa algures no meio da Colúmbia Britânica – no Canadá - no cruzamento de Prince George, onde um número de vias tributárias desaguam e se juntam de modo a constituir uma única auto-estrada em direcção ao norte.   A sul dali, os tributários como que dispersam num delta de estradas alimentadoras que cruzam a fronteira canadiano-americana numa dúzia ou mais de locais espalhados por uns oitocentos quilómetros, desde os fiordes da Colúmbia Britânica até aos vastos campos de trigo, em faixas, do Montana Central.    Daí aquilo interliga-se ao sistema rodoviário americano que serve como água para as nascentes deste rio migratório.   Este território em tal vassourada de oitocentos quilómetros, é preenchido com potenciais exploradores árcticos em grandes casas com rodas optimisticamente rumando em direcção ao norte, e mais do que uns poucos, rejeitados, que abandonaram as suas autocaravanas na terra setentrional e apanharam já uma boleia de volta ao sul.   Pesadonas autocaravanas e veículos de quatro rodas com carga alta e desequilibrada tornam-se assim numa autêntica gincana em andamento para Hiro na sua motocicleta preta.

Todos estes caucasianos musculosos com armas!   Arranja, junta um número suficiente deles, em busca dessa América na qual eles sempre acreditaram que iam crescer, e aglomera todos como arroz muito cozido, empapado, a formar grúmulos, em pequenas unidades integrais e gomosas.   Com as suas poderosas ferramentas, geradores portáteis, armas, veículos de tracção às quatro rodas e computadores pessoais, são uns ‘chapéus-de-castor’ enganados à custa do cristalino ‘meth’ (anfetaminas), engenheiros maníacos sem um diagrama a triturarem através da vastidão,  construindo coisas e abandonando-as, alterando o curso de rios poderosos e depois continuando a andar porque o lugar não é bem aquilo que era antes.

Os subprodutos do estilo de vida são rios poluídos, efeito de estufa, abuso sobre as esposas, tele-evangelistas, assassinos em série.   Mas enquanto tiveres aquele veículo ‘de tracção às quatro’ e te puderes manter na direcção norte, consegues aguentar com isso, estares em movimento o suficientemente rápido para ficar sempre um passo à frente do teu próprio caudal de lixo.   Em vinte anos, dez milhões de pessoas brancas irão convergir para o polo norte e estacionar aí as suas autocaravanas.   O calor de baixa intensidade de todo esse lixo produzido pelo termodinamicamente intenso estilo de vida irá tornar aquela cristalina paisagem gelada em algo flácido e traiçoeiro.   Acabará por derreter um buraco por ali abaixo através da calote polar e todo aquele metal irá afundar-se até às profundezas arrastando com ele a biomassa.

Mediante uma taxa, podes entrar a guiar por uma franchise da Snooze ‘n’ Cruise e umbilicares aí a tua autocaravana.   As palavras mágicas são ‘Temos pull-thrus’ (entrar e passar) - quer dizer que entras a rodar pela franchise, ligas-te, dormes, desligas-te, e voltas a guiar, a sair dali para fora sem sequer teres que meter o teu ‘zeppelin’ terrestre em marcha-atrás.

Antes, costumavam dizer que aquilo era uma zona de campismo e tentaram dar à franchise um design com um motivo rústico, mas os clientes continuavam a desmanchar para lenha aquelas traves e pranchas das tabuletas e os madeiros das mesas de piquenique.   Actualmente os reclames são em bolhas de policarbonato, eléctricos, os símbolos de identificação da firma todos a atirar para o arredondado, polidos, suaves, da mesma forma que um urinol o é, para evitar a acumulação de porcaria em fissuras.   Porque no fim de contas não há realmente isso de campismo quando não tens uma casa para onde voltares.

Já há dezasseis horas fora da Califórnia, Hiro enfia por uma Snooze ‘n’ Cruise na encosta oriental das Cascades, na parte norte do Oregon.   Está a várias centenas de milhas ao norte de onde a Jangada se encontra, e do lado contrário das montanhas.   Mas há um gajo por aqui que ele pretende entrevistar.

Há três parques de estacionamento.   Um fora de vista por uma rua empoeirada e esburacada abaixo, onde se destacam sinais avisadores de ‘Perigo de Derrocada’.   Um outro, um pouco mais perto, com uns tipos cabeludos hirsutos deambulando pelas suas orlas, discos prateados faiscando e detonando na noite sob a lua cheia ao virarem para os céus os fundos das suas latas de cerveja.   E um mesmo em frente da Towne Hall – o Centro Local - com recepcionistas, e estes, de armas dependuradas.   Neste parque, para estacionares precisas de pagar.   Hiro decide fazê-lo.   Deixa aqui a sua mota apontada à saída, mete a bios em modo de ‘desligado a quente’ – em suspensão apenas – de forma a que possa fazer a ligação também a quente, um re-arranque rápido, depois, se for caso disso, e atira alguns kongbucks a um dos recepcionistas.   Vira depois a cabeça para trás e para diante como um cão de caça, farejando o ar tranquilo, tentando achar a ‘Glade’ – a ‘Clareira’.

Há uma área ali a trinta metros sob aquela luz do luar onde algumas pessoas foram suficientemente atrevidas para erguerem uma tenda; habitualmente estes são aqueles com a maior parte das armas ou que têm menos a perder.   Hiro avança nessa direcção e quase logo consegue topar a cobertura em abóbada estendida sobre a clareira.

Todos os demais chamam àquilo o ‘Body Lot’ – o Parque para Corpos.   Simplesmente é um espaço livre naquele terreno, antigamente coberto de capim, e agora recoberto por carradas sucessivas de camiões de areia, a qual se vai misturando com detritos, vidro partido, e lixo humano.   Por cima foi estendida uma cobertura para proteger da chuva, e do chão levantam-se como que uns capuzes com a forma de enormes cogumelos, espaçados alguns metros, exalando ar quente sobre o frio das noites.   É relativamente barato pernoitar na ‘Clareira’.   É uma inovação que foi criada por alguns em franchises mais a sul e que se tem espalhado para norte seguindo com a sua clientela.

Cerca de meia dúzia deles estão por ali espalhados à volta e por baixo de um desses ventiladores de ar quente, embrulhados contra o ar gelado nos seus cobertores da tropa.   Um par deles mantém uma pequena fogueira e entretém-se a jogar às cartas à luz do fogo.   Hiro ignora-os, começa a deambular por ali à volta através dos restantes.

“Chuck Wrightson – diz ele – Sr. Presidente, está aí?”

À segunda vez que o diz uma pilha de lã para a sua esquerda começa a contorcer-se, a agitar-se.   Uma cabeça espreita dali.   Hiro volta-se e avança para ele, mantém as mãos erguidas para provar que está desarmado.

“Quem é? – diz ele.   Está miseravelmente terrificado – Raven?”

“Não é Raven – diz Hiro – Não se preocupe.   É o Chuck Wrightson?   Antigo presidente da TROKK – Temporary Republic of Kenai and Kodiak?”

“Yeah.   O que é que quer?   Não tenho dinheiro.”

“Só para conversar.   Trabalho para a CIC e o meu trabalho é colher ‘inteligência’ – informação.”

“Preciso da porra de uma bebida” – diz Chuck Wrightson.

A ‘Towne Hall’ é um enorme edifício insuflável no meio da Snooze ‘n’ Cruise.   É uma Las Vegas perdida: loja de conveniência, salão de videojogos, lavandaria-automática, bar, loja de bebidas, ‘feira da ladra’, casa de putas.   Parecem ser sempre geridas por aquela pequena percentagem da população humana que é capaz de se manter em festança até às cinco da matina noite sim noite sim e que não tem qualquer outra ocupação.

Muitas das Towne Halls têm algumas ‘franchises dentro de franchises’.   Hiro topa uma Kelley’s Tap (A Torneira da Kelley) o que será o melhor recanto para emborcar que é provável depararmos numa Snooze ‘n’ Cruise, e conduz Chuck Wrightson para aí.   Chuck traz vestidas várias camadas de roupa que terão sido de diferentes cores.   Agora estão todas no mesmo tom da sua pele, como cáqui.

Todos os locais comerciais numa Towne Hall, incluindo este bar, parecem-se com qualquer coisa que se poderia encontrar num navio prisão – tudo pregado ao chão e extremamente iluminado vinte e quatro horas por dia, todo o pessoal selado dentro de grossas barreiras de vidro que foi amarelecendo e ficando escuro.   A segurança nesta Towne Hall é providenciada pelos Enforcers, portanto há aqui uma quantidade de tipos viciados em esteróides, em conjuntos de roupa preta de armogel, cruzando por aquela arcádia para cima e para baixo aos dois e três, violando sistematicamente os direitos humanos das gentes.

Hiro e Chuck agarram o mais parecido que há com uma mesa do canto.   Hiro aproximando-se de um dos criados, e subrepticiamente, pede um jarro de ‘Pub Special’  - cerveja – e pede que seja misturada meio-meio com cerveja sem álcool.   Assim, Chuck deverá manter-se acordado um pouco mais do que seria doutra forma.

Não é preciso muito para que ele se abra.   É como um desses velhos gajos de uma desgraçada administração presidencial, obrigado a resignar por escândalo, e que devota o resto da sua vida em busca de gente disposta a ouvi-lo.

“Yeah, fui presidente da TROKK durante dois anos.   E ainda me considero como presidente do governo no exílio.”

Hiro tenta evitar que os olhos se revirem.    Chuck parece reparar.

“Okay, okay, isso não era grande coisa.   Mas em dada altura a TROKK estava a ser um país florescente.   Há uma quantidade de pessoas que gostariam de ver algo parecido acontecer de novo.   Quer dizer, a única coisa que nos correu dali para fora – a única maneira com que esses maníacos conseguiram arrebatar o poder – foi apenas, redondamente, você sabe... – ele parece não ter palavras para aquilo – Como é que se podia esperar uma coisa dessas?”

“Como é que correram convosco?   Houve alguma guerra civil?”

“Houvera alguma agitação, anteriormente.   E existiam partes remotas de Kodiak sobre as quais nunca chegámos a ter um controle firme do poder.   Mas, de per se, nunca houve qualquer guerra civil.   Veja, os americanos gostavam do nosso governo.   Os americanos tinham as armas todas, o equipamento, a infra-estrutura.   Os ‘Ortos’ eram apenas um punhado de gajos cabeludos deambulando pelos bosques.”

“Ortos?”

“Ortodoxos russos.   De início eram uma minoria insignificante.   Principalmente índios – está a ver, tlingits e aleutas, que haviam sido convertidos pelos russos há centenas de anos atrás.   Mas quando as coisas endoideceram, lá na Rússia, precipitaram-se para o lado de cá através da Linha Internacional de Mudança de Data em todos os tipos de diferentes embarcações.”

“E eles não queriam uma democracia constitucional?”

“Não.   De forma alguma.”

“O que é que pretendiam?   Um czar?”

“Não.   Esses gajos do czar – os tradicionalistas – permaneceram na Rússia.   Os Ortos que vieram para a TROKK eram totalmente uns rejeitados.   Haviam sido corridos pela corrente dominante da igreja ortodoxa russa.”

“Porquê?”

Yeréticos.   É como os russos dizem ‘heréticos’.    Os Ortos que vieram para a TROKK eram uma nova seita – todos Pentecostais.   Estavam ligados da algum modo à Reverend Wayne’s Pearly Gates.   Tínhamos missionários a virem do Texas a toda a hora estuporada para se encontrarem com eles.   Estavam sempre a falarem em línguas.   A corrente principal dos ortodoxos russos consideravam que isso fosse obra do diabo.”

“Portanto, quanta desta gente dos ortodoxos russos pentecostais é que veio para a TROKK?”

“Jeeesus!   Com os diabos, um carregamento deles.   Pelo menos cinquenta mil.”

“E quantos americanos é que se encontravam na TROKK?”

“Perto de uns cem mil.”

“Então, mais precisamente, como é que os Ortos conseguiram apoderar-se do sítio?”

“Bem, uma das manhãs acordámos e havia uma ‘Airstream’, uma roullote, estacionada no meio da Praça Governamental, lá na Nova Washington, mesmo no meio de todas aquelas autocaravanas onde tínhamos instalado o governo.   Os Ortos tinham-na rebocado para ali durante a noite e depois haviam-lhe tirado as rodas para que não pudesse ser removida.   Imaginámos que fosse uma acção de protesto.   Dissemos-lhes para que se  metessem dali para fora.   Recusaram e emitiram uma proclamação.   Em russo.   Quando conseguimos traduzir aquela porcaria, viu-se que era uma ordem para que fizéssemos as malas e partíssemos, e entregássemos o poder aos Ortos.

“Bem, isso era ridículo.   Portanto fomos até à Airstream para pôr aquilo dali para fora, e Gurov lá estava à nossa espera com aquele esgar bera estampado no rosto.”

“Gurov?”

“Yeah.   Um dos ‘Refugas’ que nos chegaram através da Linha de Mudança de Data, vindo da União Soviética.   Ex-general do KGB tornado fanático religioso.   Era um género de ministro da defesa do governo que os Ortos estabeleceram.   Então Gurov abre a porta lateral da Airstream e deixa-nos ter um cheirinho do que há lá dentro.”

“O que é que estava no interior?”

“Bem, quase tudo aquilo era uma molhada de equipamento, está a ver, gerador portátil, cablagem eléctrica, painel de controle e por aí adiante.   Mas no centro dessa roullote-atrelado havia esse grande cone preto pousado no chão.   Quase do formato de um cone de sorvete, excepto que tinha cerca de metro e meio e era liso e preto.   E perguntei que raio é que é essa coisa.   E o Gurov responde-me que aquela coisa é uma bomba de hidrogénio – dez megatoneladas – que limpámos de um míssil balístico.   Uma rebenta cidades.   Mais perguntas?

“Portanto vocês capitularam?”

“Não podíamos fazer muito mais.”

“Sabem de que forma é que os Ortos conseguiram ficar na posse de uma bomba de hidrogénio?”

Chuck Wrightson sabe-o claramente.   Absorve para os pulmões o mais profundo hausto daquela noite, deixa expirar depois o ar, abana a cabeça, o olhar perdido na distância acima do ombro de Hiro.   Toma um par de longos e avantajados tragos do seu copo de cerveja.

“Havia um submarino soviético com mísseis nucleares.   O comandante chamava-se Ovchinnikov.   Era um crente religioso, mas não era um fanático como esses Ortos.   Quer dizer, se ele fosse um fanático não lhe teriam entregue o comando de um submarino de mísseis nucleares, certo?”

“Supostamente.”

“Tinha que ser psicologicamente estável.   O que quer que isso signifique.   De qualquer modo, depois das coisas terem descambado, na Rússia, ele viu-se na posse desta perigosíssima arma.   Acabou por decidir que iria desembarcar toda a tripulação e afundar depois o navio com aquilo tudo pelas Fossas Marianas abaixo.   Enterrar para sempre todas aquelas armas.

“Mas ele foi de alguma forma persuadido a usar este submarino para auxiliar um punhado de Ortos a fugir para o Alasca.   Eles, e uma quantidade de outros ‘Refugas’, tinham começado a debandar para a costa de Bering.   E as condições nalguns desses campos de Refugas eram mesmo desesperadas.   Parece que não era possível criar nada que se coma, ali naquelas paragens, está a ver.   Esta gente está a morrer aos milhares.   Limitavam-se a ficar ali pelas praias, esfomeados até morrerem, à espera que surgisse algum navio.

“Então Ovchinnikov deixou-se ser persuadido a usar o seu submarino – que era bastante grande e bastante rápido – para evacuar alguns destes pobres Refugas para a TROKK.

“Mas naturalmente, estava paranóico com a ideia de permitir por aí a bordo todo um grupo em número desconhecido.   Estes comandantes de ‘sub-nukes’ são mesmo uns tarados por segurança, pelas razões óbvias.   Montaram portanto um sistema bastante estrito.   Todos os Refugas que estavam para entrar a bordo tinham que passar por detectores de metais, tinham que ser inspeccionados.   E depois eram postos sob guarda armada toda a viagem até ao Alasca.

“Bem, esses Ortos rígidos tinham o tal gajo chamado Raven...”

“Estou familiarizado com o fulano.”

“Bem, Raven entrou nesse submarino nuclear.”

“Oh, minha Nossa!”

“Ele havia chegado às costas siberianas, por algum modo – provavelmente atravessou surfando na porra do seu caiaque.”

“Surfou?”

“É como os aleutas andam entre as ilhas.”

“Raven é das Aleutas?”

“Yeah.   Um matador de baleias, aleuta.   Sabe o que é um aleuta?”

“Sim.   O meu pai conheceu um no Japão” – diz Hiro.   Um monte de histórias do campo prisional do papá começa a revolutear na memória de Hiro, a vir ao de cima desde aquelas profundezas mais profundas do seu armazenamento mental.

“Os aleutas o que fazem é remar até ao largo nos seus caiaques e apanhar uma boleia de uma vaga.   Está a ver, podem ultrapassar um navio a vapor.”

“Não sabia disso.”

“De algum modo Raven entrou num desses campos de Refugas e fez-se passar por um desses homens de uma tribo siberiana.   Não se consegue distinguir alguns desses siberianos dos nossos índios.   Os Ortos, aparentemente, tinham alguns dos seus confederados nestes campos os quais guindaram Raven pela linha de comando acima, e foi assim que ele conseguiu tomar lugar no submarino.”

“Mas você disse-me que havia um detector de metal?”

“Isso não ajudou.   Ele usa facas de vidro.   Apara-as a partir de vidro laminado.   É a mais afiada lâmina do universo, como sabe.”

“Nem sequer isso sabia.”

“Yeah.   A aresta cortante tem apenas uma molécula de espessura.   Os médicos usam-nas para cirurgia ocular – podem cortar-te a córnea sem deixar qualquer cicatriz.   Há índios que vivem disso, ganham a vida a fabricá-las, está a ver.   A aparar bisturis oculares.”

“Bem, todos os dias aprendemos uma coisa nova.   Esse tipo de lâmina deve ser suficientemente  afiado para conseguir trespassar tecido à prova de bala, presumo” – diz Hiro.

Chuck Wrightson encolhe os ombros – “Perdi a conta ao número de pessoas que Raven abafou e que vestiam material à prova de bala.”

Hiro diz – “Pensava que ele andasse com qualquer género de faca laser de alta-tecno ou coisa assim.”

“Pense bem.   Faca de vidro.   Tinha uma a bordo do submarino.   Ou conseguiu passar às escondidas uma lá para dentro ou encontrou um pedaço de vidro no submarino e esculpiu-o ele próprio.”

“E?”

Chuck volta a pôr aquele olhar distante fixo lá longe a mil metros e toma outro gole de cerveja.   “Num ‘sub’, como sabe, não há sítio para as coisas escorrerem.   Os sobreviventes alegam que o sangue chegava aos joelhos por todo o submarino.   Raven deu mesmo cabo de toda a gente.   Todos excepto uma ‘tripulação esqueleto’ – mínima – e alguns outros Refugas que conseguiram barricar-se em pequenos compartimentos dispersos pela embarcação.   Os sobreviventes contam – diz Chuck, tomando outro trago – que aquilo é que foi uma noite.”

“E forçou-os depois a conduzirem o submarino até às mãos dos Ortos.”

“Ao seu ponto de ancoragem, junto a Kodiak – diz Chuck – Os Ortos estavam todos a postos.   Já tinham junto uma tripulação de gajos ex-militares da marinha que haviam trabalhado em ‘subs’ nucleares no passado – ‘Raios X’, é como lhes chamam – e eles vieram e tomaram conta do submarino.   Quanto a nós, não tínhamos qualquer ideia que tudo isto tivesse ocorrido.   Até que uma das ogivas faz a sua aparição no nosso maldito pátio da frente.”

Chuck lança um olhar para cima, por sobre a cabeça de Hiro, reparando em alguém.   Hiro sente no ombro uma leve palmada – “Desculpe-me, sir? – diz um homem – Desculpe-me, só por um segundo?”

40

Hiro volta-se.   É um gajo branco, enorme e porcino, com um cabelo ruivo ondulado, puxado para trás, e de barba.   Um boné de baseball encarrapitado no cimo da cabeça, recuado, expondo assim as seguintes palavras tatuadas através da testa em maiúsculas:

 

VARIAÇÕES DE HUMOR

INSENSÍVEL RACIALMENTE

 

Hiro está a olhar para tudo isso através do horizonte curvilíneo constituído pela pança do homem revestida a flanela.

“O que é?”

“Bem, sir, lamento incomodá-lo a meio da sua conversa com este cavalheiro aqui.   Mas eu e os meus amigos estávamos só a interrogarmo-nos.   Se és um negro cu-preto papa-melancias preguiçoso e indolente ou um subserviente pequeno chinoca infectado com V.D.s (doenças venéreas)?.”

O tipo leva a mão acima e pegando na pala do boné fá-lo baixar sobre a testa.   Hiro vê agora a bandeira dos Confederados estampada na frente e com palavras bordadas – ‘Nova África do Sul – Franchisulado # 153’.

Hiro manda-se de um pulo para cima da mesa, a dar já cento e oitenta graus, desliza à retaguarda sobre o seu traseiro recuando na direcção de Chuck, tenta interpor a mesa entre si e o Novo Sul-Africano.

Chuck desapareceu já dali convenientemente, e Hiro termina assim o movimento com as suas costas confortavelmente contra a parede olhando para fora por cima do tampo.

Ao mesmo tempo, mais ou menos uma dúzia de outros tipos levantaram-se já das respectivas mesas, alinhando-se atrás do gajo inicial, uma falange de sorrisos irónicos tisnados pelo sol da malta das bandeirolas dos Confederados e patilhas.

“Vejamos – diz Hiro – é algum tipo de pergunta com rasteira?”

Há uma quantidade de Towne Halls numa quantidade de franchises Snooze ‘n’ Cruise onde tens que entregar as tuas armas à entrada.   Esta não é uma delas.

Hiro não tem a certeza se isto é bom ou não.   Sem armas, os Novos Sul-Africanos o máximo que conseguiriam era dar-lhe um enxoval de porrada.   Com armas, Hiro pode contra-atacar mas a parada é mais elevada.   Hiro está todo ‘à prova de bala’ até ao pescanhoço mas isso apenas quer dizer que os Novos Sul-Africanos vão-se todos abalançar logo a um disparo à cabeça.   E eles que se orgulham em ser bons atiradores.   É algo de fetiche que bule com eles nisto da pontaria.

“Não há uma franchise de N. A. S. ali mais à frente?” – diz Hiro.

“Yeah – diz o homem da ponta, que tem um comprido e extenso corpo, e pernas curtas e atarracadas - É o céu, aquilo.   A sério que é.   N’ há lugar na terra como uma Nova África do Sul.”

“Bem, então se não se importa com a minha pergunta – diz Hiro – se é tão porreira assim, porque é que vocês não fazem meia-volta para o vosso covil e se mantêm por aí?”

“Há um problema com a Nova África do Sul – diz o gajo – não quero parecer como um não-patriota, mas é verdade.”

“E qual é esse problema?” – diz Hiro.

“Não há pretos, chinocas ou judas por lá para lhes darmos uma carga de porrada.”

“Ah.   Isso é um problema – diz Hiro – Obrigado.”

“Pelo quê?”

“Ao anunciarem as vossas intenções dando-me o direito de fazer isto.”

E então Hiro decepa-lhe a cabeça.

Que mais pode ele fazer?   No mínimo estão ali doze deles.   E fizeram questão de bloquear a única saída.   Acabaram de anunciar as suas intenções.   E presumivelmente todos eles estão armados.   Além disso este tipo de situação irá acontecer-lhe todos os dez segundos uma vez que esteja a bordo da Jangada.

O Novo Sul-Africano não faz ideia do que aí vem, mas começa a reagir conforme Hiro gira já a katana ao encontro do seu pescoço pelo que está em voo à retaguarda quando a decapitação ocorre.   Isso é bom porque quase metade da sua reserva de sangue jorra para o alto pelo topo do pescoço.   Dois jactos gémeos, um de cada carótida.   Hiro não chega a levar com nenhuma gota.

No Metaverso a lâmina limita-se a trespassar, se a rodares com rapidez suficiente.   Aqui, na Realidade, Hiro estava a contar com um embate poderoso quando a sua lâmina atingisse o pescoço do Novo Sul-Africano - tal como quando bates numa bola de baseball em mau ângulo - mas quase não sente nada.   Apenas atravessa o outro e quase que gira em volta para se ir enterrar na parede.   Deve ter tido a chance de atingir uma fenda entre vértebras.   O treino de Hiro volta à superfície de forma estranha.   Ele esquecera-se de travar o movimento, de ser ele próprio a parar a lâmina, e isso é estar em baixo de forma.

Mesmo que estivesse à espera daquilo fica embasbacado por um momento.   Esse tipo de coisas não acontece com avatars.   Limitam-se a tombar.   Por um tempo surpreendentemente longo, ele ali fica, apenas a olhar para o corpo do gajo.   No entretanto a nuvem de sangue aerotransportado como que busca o nível máximo de altura.   Pingando do tecto suspenso, salpicando, escorrendo de prateleiras atrás do balcão.   Um bêbadozeco lamuriento que está por aí abancado a mamar um cálice duplo de vodka, estremece e arrepia-se mirando com admiração o cálice, aquele turbilhão galáctico onde triliões de células vermelhas vêm morrer em etanol.

Hiro troca longos olhares com os Novos Sul-Africanos ao mesmo tempo que toda a gente ali no bar tenta chegar a um consenso sobre o que irá acontecer a seguir.   Deverão rir?   Tirar uma foto?   Dar o fora?   Chamar uma ambulância?

Ele tenta tornear caminho em direcção à saída correndo entre as mesas ocupadas.   É rude mas os outros clientes raspam-se para trás, alguns rápidos o bastante para agarrarem e porem as cervejas a salvo fora do seu caminho, e ninguém lhe causa engulhos.   Aquela visão da katana nua inspira cada um a remeter-se praticamente a um nível nipónico de boas maneiras.   Um par de Novos Sul-Africanos está a bloquear a saída de Hiro mas não porque queiram travar alguém.   Acontece apenas estarem ali quando entraram em choque.   Hiro decide – num reflexo – não os matar.

E Hiro está cá fora, na lívida avenida principal da Towne Hall, um túnel de tremeluzente e pulsante ‘loglo’ através do qual criaturas em negro apressam-se como esperma escurecido trepando pelos conhecidos falópios, nas mãos enclavinhando coisas de ângulos salientes.   São os Enforcers.   Fazem o normal MetaGuarda parecer-se como o ‘Ranger Rick’.

Tempo de gárgula.   Hiro liga tudo, nos diversos espectros: infravermelhos, banda de milímetro – do radar, processamento de som ambiente.   Os infravermelhos não são de grande auxílio nestas circunstâncias, mas o radar consegue captar as armas todas, vê-las sobressair das mãos dos Enforcers, identifica-as – marca, modelo, tipo de munição.   Todas prontas para rajada.

Mas os Enforcers e os Novos Sul-Africanos não precisam de ver ‘em radar’ para observarem a espada de Hiro cheia de sangue e de fluido espinal a escorrerem pela lâmina abaixo.

A música de Vitaly Chernobyl e dos Meltdowns rebenta através dos roufenhos altifalantes a toda a volta dele.   É o primeiro ‘single’ deles a atingir a tabela de ‘tops’, intitula-se ‘O Meu Coração é um Buraco Fumegante’.   O processador de som ambiente acaba por reduzi-lo a um nível mais razoável, aplaina aquela distorção bera saída dos altifalantes deixando ouvir assim o seu companheiro de quarto a cantar mais claramente.   O que torna tudo isto particularmente surrealista.   Serve apenas para mostrar como está fora do seu elemento.   Não pertence aqui a este sítio.   Perdido na biomassa.   Se houvesse alguma justiça, podia saltar para aqueles altifalantes e seguir todos aqueles fios como uma sílfide digital, seguir pela rede de volta a L.A., onde é o lugar dele, aí, no topo do mundo, de onde tudo provém, pagar um copo ao Vitaly, rastejar para o seu futon.

Desequilibrado tropeça para diante conforme qualquer coisa terrível lhe acontece às costas.   Sente-se como se tivesse sido massajado por uma centena de martelos de cabeça arredondada.   No mesmo instante uma luz amarela e pontilhada sobrepõe-se à do loglo.   Um mostrador em vermelho berrante brilha-lhe nos óculos informando-o de que no espectro de um milímetro – do radar – foi notada uma torrente de balas vindas na sua direcção e ‘gostaria de saber, sir, de onde é que surgem?’.

Hiro acaba de ser alvejado nas costas com uma rajada de metralhadora.   Todas as balas deram-lhe uma sapatada ao vestuário e acabaram por tombar no chão, mas no entretanto racharam-lhe metade das costelas naquele lado do corpo e machucaram alguns órgãos internos.   Ele vira-se, e tal provoca-lhe dor.

O Enforcer desistiu das balas e sacou bruscamente de outra arma.   É assim que se pode ler ali nos óculos de Hiro: PACIFIC ENFORCEMENT HARDWARE, INC. MODEL SX-29 (Aparelho Paralisante de Projecção) – Uma ‘arma bisnaga de goma’.   Que é o que eles deviam logo ter usado em primeiro lugar.

Não podes andar por aí às voltas com uma espada como uma ameaça vã.   Não deves desembainhá-la, ou mantê-la empunhada, a menos que tenhas intenção de matar alguém:   Hiro corre para o Enforcer erguendo a katana para atacar.   A faixa prateada da katana refulge por sobre a multidão.   Atrai os Enforcers e repele todos os demais, e assim conforme Hiro corre em direcção ao centro da Towne Hall não tem ninguém à sua frente mas há ali muitas criaturas em negro brilhante atrás dele.

Desliga agora toda aquela tecno-merda mostrada nos óculos.   Tudo o que faz é confundi-lo mais; fica para ali como que a ler as estatísticas da sua própria morte a acontecerem-lhe.   Muito pós-moderno.   Altura de imergir na Realidade como toda a gente à sua volta.

Nem mesmo os Enforcers se atreverão a disparar as suas grandes armas no meio de uma multidão a menos que seja à queima-roupa, ou que estejam muita-mal-dispostos.   Alguns daqueles disparos da ‘bisnaga-goma’ passam-lhe ao lado, já com tanta diluição que não são mais que um aborrecimento, e borrifam os que por ali estão envolvendo-os nuns véus pegajosos extremamente ténues.

Algures entre a arcádia de videojogos em 3D e a montra de exposição daquelas escavacadas e acabadas prostitutas os olhos de Hiro parecem clarear e observar um milagre: a saída daquele domo insuflável onde as portas deixam exalar uma brisa de hálito de cerveja sintética e de fluidos corporais atomizados para o fresco ar nocturno.

Más coisas e boas coisas estão a acontecer em rápida sucessão.   A próxima das más é quando uma grade em aço tomba para bloquear as portas.

Que diabo, isto é um edifício insuflável.   Hiro liga o radar só por um momento e as paredes parecem desvanecer-se e tornarem-se invisíveis; está agora a ver através delas, a olhar para a floresta de aço no exterior delas.   Não é preciso muito para localizar o parque de estacionamento onde deixou a sua mota, supostamente sob protecção de alguns empregados armados.

Hiro finge ir na direcção do bordel, depois corta directamente até uma secção à vista da parede.   O tecido do edifício é forte mas a sua katana retalha um rasgão de quase dois metros através dele com um único movimento deslizante, e ele está cá fora, cuspido do buraco num jacto de ar fétido.

Depois disso – após Hiro chegar à sua motocicleta, e os Novos Sul-Africanos tomarem as suas ‘pick ups’ todo-o-terreno, e os Enforcers alcançarem as suas viaturas pretas e luzidias de Enforcers, e se lançarem todos em chiadeira para a auto-estrada, depois, é apenas uma cena de perseguição.

41

Y.T. já esteve em alguns sítios invulgares durante a sua carreira.   Sobre a zona do peito ostenta as visas em placas laminadas para umas três dúzias de países.   E para lá desses países reais já fez levantamentos e/ou entregas em ‘retiros de férias’ tão charmosos como a Zona Sacrificada da Ilha Terminal e o acampamento em Griffith Park.   Mas o mais estranho de todos os trabalhos é este agora: alguém quer que vá fazer uma entrega de qualquer coisa nos Estados Unidos da América.   É o que vem ali escarrapachado na folha de serviço.

Nem é tanto uma entrega de algo, é apenas um envelope daquele tamanho standard.

“Tem a certeza que não quer antes enviar pelo serviço postal?” – pergunta ela ao gajo quando vai buscar aquilo.   É num desses medonhos parques de escritórios que encontramos nos ‘búrbios.   Como um Segurbúrbio para negócios sem importância que têm escritórios e telefones e pessoal mas na verdade não parecem fazer nada.

Claro que é uma pergunta sarcástica.   Os correios normais não funcionam em mais nenhum sítio a não ser na Fedlândia.   Todas as caixas de correio foram arrancadas e usadas para decorar apartamentos de tarados nostálgicos.   Mas é também um tipo de piada pois o destinatário é, de facto, um edifício no meio da Fedlândia.   Portanto a piada é: se quer tratar algo com os Feds porque é que não usa a porra do sistema postal deles.   Não receia de que ao tratar com algo tão incrivelmente fixe como um Korreio manche a sua reputação perante os olhos deles?

“Bem, huh, o serviço postal não vem até aqui, vem?” – diz o gajo.

Não vale a pena descrever o escritório.   Não vale a pena permitires até que o escritório fique registado na retina e ocupe espaço de memória valioso no cérebro.   Lâmpadas fluorescentes e divisórias com carpetes a elas coladas.   Eu prefiro a minha carpete no chão, obrigada.   Cores a condizer.   Merda ergonómica.   Gajinhas com baton.   Cheiro a Xerox – fotocopiadoras.   Tudo novinho em folha, pelo que vê.

O envelope de tamanho legal repousa na secretária do gajo.   Não vale também a pena descrever o gajo.   Traços de uma pronúncia sulista, ou texana.   A margem inferior do envelope está paralela à aresta da secretária, a meio centímetro de distância, e perfeitamente centrado entre os lados esquerdo e direito.   Como se tivesse chegado ali um médico e o tivesse depositado com pinças.   Está endereçado a: Sala 968 A, Mail Stop MS-1569835, Edifício LA-6, United States of America.

“Não quer indicar aqui um endereço de remetente?” – diz ela.

“Não é necessário.”

“Se não conseguir entregá-lo não há maneira de eu o conseguir devolver, todos estes lugares parecem-me idênticos.”

“Não é importante – diz ele – Quando é que pensa lá chegar?”

“Máx. duas horas.”

“Porquê tanto?”

“Alfândegas, man.   Os Feds ainda não as modernizaram como toda a gente já o fez” – É a razão porque a maior parte dos Korreios tudo farão para evitar uma entrega na Fedlândia.   Mas hoje é um dia calmo, Y.T. ainda não foi convocada para fazer qualquer missão secreta para a Máfia, e pode ser que apanhe a mamã no seu intervalo para almoço.

“E o seu nome é?”

“Nós não damos o nome.”

“Preciso saber quem vai efectuar a entrega.”

“Porquê?   Você disse que não era importante.”

O gajo fica mesmo enervado.   “Okay – diz ele – Esquece isso.   Efectua a entrega, por favor.”

Okay, que assim seja, diz ela mentalmente.   Também mentalmente diz uma série de outras coisas.   O homem é um pervertido óbvio.   Tão aberto, descarado: ‘e o seu nome é?’   Agarra uma calma, homem.

Os nomes não importam.   Todos sabem que os Korreios são partes permutáveis.   Acontece apenas alguns serem um bom bocado mais rápidos e melhores.

E ela desliza de skates para fora do escritório.   Tudo muito anónimo por ali.   Em nenhum lado se vêm logos, símbolos corporativos.   Enquanto aguarda pelo elevador faz uma chamada para a RadiKS a tentar saber como, por quem, foi iniciado este pedido.

A resposta chega minutos depois rola ela já para o exterior daquele parque de escritórios atrelada a um Mercedes porreiraço.   O pedido é da RARE – Rife Advanced Research Enterprises / Empreendimentos de Pesquisa Avançada Rife.   Um desses conglomerados da ‘alta-tecno’.   Provavelmente a tentar conseguir um contrato governamental.   A tentar provavelmente vender esfigmomanómetros aos Feds ou qualquer coisa assim.

Oh, bem, ela apenas entrega aquilo.   Fica com a impressão de que este Mercedes está com um ganda lastro – a ir mesmo muito devagar portanto ela vai atrelar-se a outra coisa – e ela atrela-se mesmo a outra coisa – um camião de entregas a sair dali.   A julgar pela maneira como segue, elevado na suspensão, deve ir vazio, deve portanto seguir relativamente rápido.

Dez segundos depois, previsivelmente, o Mercedes dispara pela faixa da esquerda e ela agarra-se é a ele e segue na boa e veloz por um par de milhas.

Chegar à Fedlândia é que é do caraças.   A maior parte dos Federolas conduz pequenos carros só quase plástico-e-alumínio que são difíceis para se atrelar.   Mas no final ela acaba por aferroar-se a um que parece uma pastilha de ‘Smarties’ com janelas grudadas e motor de três cilindros, e que a leva até à fronteira dos Estados Unidos.

Quanto mais pequeno vai ficando este país o mais paranóico se tornam.   Actualmente o pessoal das alfândegas está mesmo impossível.   Ela tem que assinar um documento de dez páginas e eles obrigam-na mesmo a ler aquilo.   Dizem-lhe que tem que levar no mínimo uma meia hora para o ler.

“Mas já o li há duas semanas.”

“Pode ter havido alterações – diz o guarda – Portanto terá que lê-lo novamente.”

Basicamente, aquilo certificará que Y.T. não é uma terrorista, comunista (o que quer que isso queira dizer), homossexual, profanadora de símbolos nacionais, negociante de pornografia, parasita da segurança social, insensível racial, portadora de qualquer doença infecciosa, ou advogar alguma ideologia tendente a impugnar os valores familiares tradicionais.   A maior parte dele são apenas as definições dos termos usados na primeira página.

Assim Y.T. senta-se numa saleta por meia hora a fazer o ‘trabalho doméstico’ – a verificar o seu material, a trocar as pilhas dos aparelhos pequenos, limpar as unhas, a colocar o skateboard a perfazer as tarefas de auto-manutenção.   E depois, assina a porra daquela documentação e devolve-a ao gajo.   E aí está ela na Fedlândia.

Não é difícil dar com o lugar.   Um edifício típico dos Feds – um milhão de degraus.   Como se estivesse construído no topo de uma montanha de degraus.   Colunas.   Uma quantidade maior de gajos neste prédio do que o usual.   Gajos entroncados, cabelo alisado.   Deve ser algum género de prédio da bófia.   O guarda na porta da frente é mesmo um polícia, quer dar-lhe uma big seca por ela levar a prancha até ali dentro.   Como se tivessem um sítio seguro na entrada para ali, para guardar os skateboards.

É mesmo difícil lidar com este gajo da bófia.   Mas está tudo okay, pelo menos para Y.T.

“Aqui está o envelope – diz ela – pode levá-lo você mesmo ao nono andar no seu intervalo para o café.   É mau é que tenha que trepar essas escadas.”

“Olhe – diz ele, totalmente exasperado – Isto é o EBGOC.   Isto é como seja a sede.   A Central do EBGOC.   Percebeu?   Tudo o que se passa numa milha em redor está a ser gravado em vídeo.   Ninguém cospe para o chão com este prédio à vista.   Nem dizem palavrões.   Ninguém vai roubar a sua prancha.”

“É pior até.   Vão roubá-la.   Depois irão dizer que não a roubaram, que a confiscaram.   Eu topo-vos bem, Feds, estão sempre a confiscar merdas.”

O gajo suspira.   Os olhos desfocam-se-lhe e ele cala-se por um minuto.   Y.T. pode calcular que esteja a receber qualquer mensagem por aquele auricular encaixado no ouvido, o símbolo do autêntico Fed.

“Entre – diz ele – Mas tem q’assinar.”

“Naturalmente” – diz Y.T.

O bófia entrega-lhe uma folha de anotação de entradas que no caso é um computador portátil com uma caneta electrónica.   Ela escreve ‘Y.T.’ sobre o écran, o que é convertido num ‘bitmap’ – imagem digital – que leva automaticamente estampada a hora actual, e é enviado ao grande computador da Central Fed.   Ela sabe que tal como está não pode passar pelo detector de metais, a menos que a ponham nuazinha em pelo, e assim pula antes sobre a mesa do guarda – o que é que ele vai fazer, disparar sobre ela? – e encaminha-se para o interior do edifício, a prancha debaixo do braço.

“Hei!” – diz ele, enfraquecido com isto.

“O que é que se passa, têm para aqui quantidades de agentes da EBGOC a serem violados e estrangulados por tipas Korreios?” – diz ela martelando ferozmente o botão do elevador.

O elevador demora uma eternidade.   Ela perde a paciência e limita-se a subir as escadas como todos os Feds.   O gajo tem razão, isto é mesmo a ‘Central da Bófia’ aqui no nono andar.   Qualquer um desses arrepiantes gajos em óculos de sol e cabelo escorregadio que já viste estão todos aqui, todos com aquelas pequenas espirais de fios da cor da pele a descaírem-lhes dos ouvidos.   Há até algumas fêmeas Feds.   Parecem ainda mais assustadoras que os tipos.   As coisas que uma mulher é capaz de fazer ao cabelo para se dar um ar de profissional – Jeeesus!   Porque não meter apenas um capacete de motociclista?    Ao menos sempre o podias tirar.

Excepto que nenhum destes Feds macho ou fêmea está aqui com óculos de sol.   Parecem nus sem eles.   Bem podiam andar por aí também sem calças.   Ver estes Feds sem esses óculos espelhados é como atrevermo-nos por um vestiário dos rapazes.   Com bastante facilidade encontra a saleta 968 A.   A maior parte do espaço é toda uma área comum, um mar de secretárias.   Na verdade todas as saletas numeradas estão dispostas na periferia disso e têm portas de vidro fosco.   Cada um daqueles temíveis tipos parece ter uma secretária só para si, alguns deles preguiçam próximo delas, o resto deles está para ali num ‘jogging’ de sala ou em improvisadas conferências junto das secretárias de outros tipos terríveis.

As suas camisas brancas são dolorosamente resplandecentes.   Não há tantos coldres de sovaco como ela esperaria ver: todos os Feds portadores de armas devem estar fora provavelmente no que costumava ser Alabama ou Chicago, tentando confiscar de volta pedaços de território dos Estados Unidos do que será agora um qualquer ‘Buy ‘n’ Fly’ ou um vazadouro de lixo-tóxico.

Ela avança até à saleta 968 A.   É um escritório.   Quatro tipos Feds estão aqui, da mesma estirpe dos outros excepto que a maior parte deles é um nico mais velha, nos seus quarentas e cinquentas.

“Tenho uma entrega para esta sala” – diz Y.T.

“Você é que é a Y.T.?” – diz o Fed principal, o que está sentado atrás da secretária.

“Não é suposto saber o meu nome – diz Y.T. – Como é que sabe o meu nome?”

“Reconheci-a – diz o Fed chefe – Eu conheço a tua mãe.”

Y.T. não acredita nele.   Mas estes Feds têm todos os meios para descobrirem as coisas.

“Tem alguns familiares no Afeganistão?” – diz ela.

Os gajos olham todos para a frente e para trás uns para os outros, como, percebeste a miúda?   Mas não é uma frase cuja intenção seja para ser entendida.   Na verdade Y.T. tem toda uma série de aparelhagem de reconhecimento de voz espalhada pelo seu macacão e na prancha.   Quando ela diz ‘Tem alguns familiares no Afeganistão’ isso é como uma frase chave, transmite a todo o equipamento de espiolhice dela uma ordem de prontidão, para ajeitar-se, auto-verificação e espevitar os seus ouvidos electrónicos.

“Quer ou não este envelope?” – diz ela.

“Fico com ele” – diz o Fed, pondo-se de pé e esticando uma das mãos.

Y.T. caminha até ao meio da sala e estende-lhe o envelope.   Mas em vez de o apanhar ele precipita-se no último instante e agarra-lhe o antebraço.

Ela vê uma algema aberta na outra mão dele.   Ele estende-a e sonoramente fecha-a sobre o pulso dela até apertar e trancá-la num estalido sobre o punho do macacão.

“Lamento fazer isto Y.T. mas tenho que colocar-te sob detenção” – está ele a dizer.

“Que porra é que estão a fazer?” – está Y.T. a dizer.   Ela mantém o outro braço livre afastado da secretária de modo a que ele não consiga algemar-lhe os dois pulsos conjuntamente, mas um dos outros Feds agarra-a pelo pulso liberto de modo que ela está agora distendida que nem uma corda esticada entre os dois enormes Feds.

“Vocês estão mortos pá” – diz ela.

Todos os gajos se riam, como se adorassem ver uma gajinha com alguma genica.

“Vocês estão mortos pá” – diz ela uma segunda vez.

Esta é a frase chave que todo o seu equipamento espera ouvir.   Quando a diz da segunda vez, todo o material de autodefesa retorna à vida o que significa entre outras coisas, alguns milhares de volts de energia eléctrica em rádiofrequência a fluírem subitamente pelo exterior dos punhos dela.

O Fed chefe atrás da secretária e que a agarra solta um grunhido vindo das funduras do estômago.   Voa para trás recuando dela, todo o seu lado direito agitando-se em espasmos, tropeça por cima da própria cadeira e estatela-se de costas contra a parede, e choca com a cabeça contra o peitoril em mármore da janela.   O palerma que está a pegar no outro braço dela estica-se por ali como se estivesse sobre alguma montada invisível, atingindo sem querer na face um dos outros gajos e mandando um pouco da descarga à cabeça desse tipo.   Ambos atingem o solo como um saco de gatos assanhados.

Só ainda se mantém de fora da festa um dos gajos que está já a querer puxar algo de dentro do casaco.   Ela dá um passo na sua direcção, faz girar o braço e o extremo da braçadeira livre das algemas atinge-o no pescoço.   Só uma carícia mas é como se fosse uma pancada bem arreada, de duas mãos no cabo, de um machado eléctrico satânico.   Aquela fantástica descarga percorre-lhe a espinha toda de alto a baixo e subitamente está ele esparramado sobre um par de velhas e merdosas cadeiras de madeira, a pistola a rodopiar sobre o solo como um pião num jogo de putos.

Ela imprime uma flexão particular ao pulso e o bastão atordoante escorrega-lhe pelo interior da manga aterrando na mão.   A algema balouçando suspensa da outra mão dará desse lado um tratamento similar.   Tira ainda cá para fora a lata de ‘Liquid Knuckles’, faz saltar a abertura e regula a saída do spray para um ângulo largo.

Um temível Fed é amável o suficiente para proporcionar a abertura da porta para o escritório.   Vem ele a entrar para a saleta com a arma já empunhada, apoiado por mais meia dúzia de outros gajos da área comum de escritórios que se amontoam aqui, e ela deixa-os apenas é levar com o Liquid Knuckles.   Whooosh!, aquilo parece mata-baratas.   O som dos corpos a tombarem no chão é como um troar grave de um solo de tambor.   Ela verifica que a prancha não tem qualquer problema em rolar sobre os corpos ali de borco, e então está cá fora, no espaço comum do escritório.   Estes gajos convergem sobre ela de tudo quanto é sítio, um número incrível deles, e ela mantém-se a pressionar aquele botão apontado direitinho para diante, com um pé a escavacar o chão, a ganhar velocidade.   O Liquid Knuckles actua como uma cunha química voadora, ela vai surfando dali para fora sobre toda uma carpete de corpos.   Alguns dos Feds são suficientemente ágeis para avançarem que nem dardos por detrás a tentarem apanhá-la pelas costas, mas está atenta, ela, com o cacete atordoante, o que torna logo o sistema nervoso deles em espiras de arame farpado ardente por alguns minutos mas não é suposto ter quaisquer outros danos.

Ela vai já a três quartos do caminho para fora do escritório quando se lhe acaba o Liquid Knuckles.   Mas a coisa ainda funciona por mais um segundo ou dois, pois o pessoal está com receio daquilo, continuam a atirar-se para longe da trajectória dela mesmo que já não esteja nada a sair da lata.   Um par deles então é que repara nisso e comete o erro de tentar agarrá-la pelos pulsos.   A um, ela apanha-o com o bastão paralisante, o outro leva com a braçadeira electrificada.   Depois bumba através da porta e está ela cá fora no vão das escadas deixando atrás de si umas quatro dúzias de baixas.   O que lhes foi muito bem aplicado, nem sequer tentaram detê-la de uma forma cavalheiresca.

Para um homem a pé, as escadas são um impedimento.   Mas para as inteli-rodas aquilo quase não passa de uma rampa com ângulo a quarenta e cinco graus.   É um pouco agitado, especialmente quando está quase a chegar ao segundo andar e vai demasiado rápido, mas é de caras praticável.

Golpe de sorte: um dos guardas do primeiro andar acaba de abrir a porta para as escadas atraído sem dúvida pela sinfonia de besouros e de campainhas de alarme que começam a misturar-se numa barreira sólida de som histérico.   Ela passa que nem um foguete pelo gajo, ele ainda mete um braço esticado numa tentativa de travá-la, quase que a abraça pela cintura neste processo e a atira fora de equilíbrio, mas esta é uma prancha extremamente permissível, inteligente o bastante para abrandar, aguardar por ela um pouco, quando como agora o centro de massa se atrasa em relação ao sítio devido.

E logo a prancha volta a encaixar-se debaixo dela, ela já radicalmente inclinada sulcando em direcção ao ‘lobby’ dos elevadores, apontada bem ao centro do pórtico detector de metais através do qual refulge a brilhante luz exterior da liberdade.

O seu velho amigalhaço daquele bófia já se pôs sobre os pés e reage bem rápido mete-se atravessado no pórtico detector feito águia d’asas abertas.   Y.T. comporta-se como se fosse mesmo a direito para ele, e manda depois um safanão lateral à prancha no último instante, prime um dos interruptores com a biqueira, recolhe as pernas debaixo dela e salta no ar.   Passa a voar rasante sobre a mesinha dele enquanto a prancha continuou a rolar esgueirando-se por baixo e um segundo depois aterra ela sobre o skate, oscila uma vez e volta a reequilibrar-se.   Chegou ao ‘lobby’, em direcção às portas.

É um prédio antigo.   A maior parte das portas é de metal.   Mas há igualmente um par de portas giratórias, apenas enormes placas de vidro.   Os primeiros andarilhos dos skates costumavam de tempos a tempos surfar inadvertidamente contra superfícies de vidro o que era uma chatice.   Tornou-se uma chatice grande quando toda aquela coisa dos Korreios principiou e os ‘thrashers’ – os andarilhos - principiaram a gastar um pouco mais de tempo ao tentarem ir demasiado rápido em ambientes de tipo escritório onde as divisórias de vidro são consideradas quase o conceito norma.   É a razão pela qual numa skateboard cara, como esta de facto o é, podes encontrar como uma característica de segurança extra - e ali adicionada - o Projector de Onda de Choque Configurado em Cone Estreito, da RadiKS.   Aquilo para funcionar basta-lhe uma muito curta solicitação prévia, o que é bom, mas só o podes usar uma vez (a energia advém de uma carga explosiva), e terás então que levar a prancha à loja para que substituam a tal carga.

É uma coisa de emergência.   Estritamente um ‘botão de pânico’.   Mas é fixe.   Y.T. certifica-se de que está mesmo apontada às portas giratórias em vidro e então acciona o respectivo interruptor com a biqueira do pé.

É – meu Deus – como se esticasses uma cobertura por sobre um estádio para fazer dele um gigantesco tambor, um tãn-tãn dos grandes, e lhe despenhasses um ‘747’ em cima.   Consegue sentir os seus órgãos internos a moverem-se alguns centímetros.    O coração troca de posição com o fígado.   As  plantas dos pés estão entorpecidas e com formigueiro.   E nem estava ela sequer no caminho da onda de choque.

O vidro de segurança das portas giratórias não apenas se estilhaça e tomba para o chão como ela imaginaria que fosse.   É arrancado, soprado dos seus encaixes.   Jorra do edifício para fora, pelos degraus da frontaria abaixo.   Um instante depois está ela na esteira daquilo.   A ridícula cascata de degraus em mármore branco na parte fronteira do prédio só lhe oferece mais tempo de rampa.   Na altura em que chega ao passeio conseguiu já uma boa velocidade, suficiente para ir dali a deslizar todo o caminho até ao México.

Conforme roda através da larga avenida, fazendo pontaria ao posto alfandegário a meio quilómetro dali e sobre o qual ela terá que saltar, algo lhe diz para olhar para cima.

Porque no fim de contas o prédio do qual acaba de fugir ergue-se ali como uma torre por cima dela, muitos dos andares repletos daqueles maldosos Feds, e todos os alarmes a soar.   A maior parte das janelas não podem ser abertas, tudo o que eles podem fazer é olhar cá para fora.   Mas há pessoal no telhado.   A maior parte daquele terraço é uma floresta de antenas.   Se fosse uma floresta estes gajos seriam daqueles pequenos e terríveis gnomos que habitam nas árvores.   Estão prontos para agir, têm os óculos de sol postos, têm armas, estão todos a olhar para ela.

Mas apenas um deles faz pontaria.   E a coisa que aponta para ela é enorme.   O cano do tamanho de um taco de baseball.   Pode ver o clarão da boca da arma a soltar-se dela envolto num súbito ‘donuts’ de fumo branco.   Não vem apontado mesmo a ela, aquilo está dirigido para a sua frente.

O projéctil atordoante aterra sobre a rua efectivamente mesmo à frente, ressalta no ar e detona a uma altitude de seis metros.    

O próximo quarto de segundo:   não há qualquer relâmpago brilhante a cegá-la e assim ela pode na verdade seguir a onda de choque a expandir-se para o exterior numa esfera perfeita, dura e palpável como uma bola de gelo.   Onde a esfera contacta com a rua provoca uma frente de onda circular pondo o cascalho a saltitar, varrendo embalagens velhas da McDonalds que há muito estão já espalmadas e lisas, e convencendo toda aquela poeira, fina que nem farinha, a abandonar todas as ínfimas fissuras do pavimento, e tudo isso varre assim a rua em direcção a ela como microscópicos tornados.   Por cima do pavimento a onda de choque sustém-se no ar correndo para si à velocidade do som, uma lente aérea que tudo espalma e se refracta do outro lado.   E ela está a atravessar aquilo.

42

Na altura em que Hiro transpõe a passagem pelo alto do desfiladeiro na sua motocicleta às cinco da manhã, a cidade de Port Sherman, Oregon,  estende-se subitamente defronte dele: um clarão de loglo amarelo enformado num vasto vale torcido em ‘U’ que foi escavado da rocha há muito tempo atrás por enorme língua de gelo num tremendo acto de cunilingus geológico.

Nas orlas vislumbra-se apenas uma ligeira poalha dourada onde se vai aí fundir a uma floresta de chuvas,  mas que se vai tornando mais densa e forte conforme nos aproximamos do porto – um entalhe comprido e estreito, tipo fiorde, cortado naquela linha recta da costa do Oregon, uma trincheira profunda e fria de águas escuras apontando a direito ao Japão.

Hiro está de volta à orla costeira.   Fá-lo sentir-se bem após a caminhada nocturna por entre as zonas rurais.   Muitos matrecos e muitos ‘mounties’ - a polícia montada canadiana. 

Mesmo à distância de quinze quilómetros e a mil e quinhentos metros do alto, não é uma visão agradável.   Mais longe do bairro central Hiro consegue perceber alguns pontinhos a vermelho, que sempre serão um pouco melhores que os amarelos.   Desejava poder ver algo em verde, azul ou púrpura, mas parece não existirem por ali quaisquer bairros nessas cores mais de acordo com a sua apreciação de gourmet.

Mas isto não é propriamente uma missão de apetites.

Afasta-se com a mota cerca de meio quilómetro da estrada e senta-se numa rocha plana em espaço aberto – à prova de emboscadas, mais ou menos – e mete-se d’óculos para o Metaverso.

“Bibliotecário?”

“Sim, sir?”

“Inanna.”

“Uma figura da mitologia suméria.   Culturas posteriores conheceram-na como Ishtar, ou Ester.”

“Deusa boa ou deusa má?”

“Boa.   Uma deusa amada.”

“Ela tinha algum relacionamento com Enki ou Asherah?”

“Principalmente com Enki.   Ela e Enki estiveram em alturas diferentes com bom e com mau entendimento.   Inanna era conhecida como a rainha de todos os grandes me.”

“Pensei que os me fossem pertença de Enki.”

“Eram.   Mas Inanna foi até ao Abzu – a fortaleza marinha na cidade de Eridu onde Enki guardava os me – e conseguiu que Enki lhe entregasse todos os me.   Foi assim que os me foram largados na civilização.”

“Fortaleza marinha, huh?”

“Sim, sir.”

“Como é que Enki se sentiu, com isto?”

“Ele deu-os a ela de livre vontade, aparentemente porque estava embriagado, desvairado pelos atributos físicos de Inanna.   Quando ficou sóbrio, tentou ainda persegui-la e tomá-los de volta, mas ela foi mais esperta.”

“Tornemos isto em semiótica – murmura Hiro – A Jangada é a fortaleza aquática de L. Bob Rife.   É onde ele armazena todo o seu material.   Todos os seus me.   Juanita foi até Astória, que era o ponto mais próximo a que se podia chegar da Jangada um par de dias atrás.   Penso que ela está numa de fazer de Inanna.”

“Noutro mito popular sumério – diz o Bibliotecário – Inanna desce ao mundo inferior.”

“Prossegue” – pede Hiro.

“Reúne conjuntamente todos os seus me e entra na terra do não-retorno.”

“Magnífico.”

“Passa através do mundo inferior e chega ao templo que é dirigido por Ereshkigal, a deusa da morte.   Ela viaja sob disfarces só que esses disfarces são facilmente penetrados pela visão total de Ereshkigal.   Mas Ereshkigal deixa que ela faça a sua entrada no templo.   Conforme Inanna aí entra, as suas vestes, jóias e os me, de tudo se vê despojada, e ela é trazida completamente nua perante Ereshkigal e os sete juizes deste mundo dos mortos.   Os juizes ‘fixaram os seus olhos nela, os olhos da morte; pela palavra deles, a palavra que tortura o espírito, Inanna foi transformada num cadáver, um pedaço de carne a apodrecer, e suspensa de um gancho na parede’. – Kramer.

“Maravilhoso.   Porque raio teria ela enveredado por tal coisa?”

“Como Diana Wolkstein afirma, ‘Inanna desistira... largava tudo o que tinha conseguido em vida até ser despojada nua, nada restando a não ser o seu desejo de renascer... pela sua jornada ao mundo inferior, ela apreendeu os poderes e os mistérios da morte e da ressurreição’.”

“Oh.   Portanto calculo que haja algo mais na história.”

“O mensageiro de Inanna aguarda três dias e quando vê que ela não conseguiu regressar do mundo inferior, vai até aos deuses pedindo o seu auxílio.   Nenhum dos deuses tem vontade de ajudar, à excepção de Enki.”

“Portanto o nosso amigalhaço, Enki, o deus hacker, tem que lhe chutar o rabiosque para fora do inferno.”

“Enki cria duas pessoas e envia-as ao mundo inferior para resgatarem Inanna.   Através da sua magia Inanna é trazida de volta à vida.   Ela regressa do mundo inferior seguida por uma legião dos mortos.”

“Juanita foi para a Jangada há três dias atrás – diz Hiro – É tempo de  hacking – Vamos à nossa pirataria!

 

A Terra está ainda onde ele a deixou, com zoom num local de modo a expor uma vista ampliada da Jangada.   À luz do bate-papo da noite anterior com Chuck Wrightson não é difícil encontrar o pedação de jangada que foi abarbatado já pelos Ortos quando o Enterprise roçou ali pela TROKK há algumas semanas atrás.   Há um par de cargueiros soviéticos de grande calado amarrados juntos, mais um enxame de pequenas embarcações à volta deles.   A maior parte da Jangada é daquele castanho morto e orgânico mas esta secção é toda em fibra de vidro branca: barcos de recreio afanados dos seus confortáveis retiros na TROKK.   Milhares deles.

Agora a Jangada está ao largo de Port Sherman, portanto – calcula  Hiro - é aí onde os altos sacerdotes de Asherah estão a residir.   Dentro de poucos dias estarão eles em Eureka, depois São Francisco, depois L.A. – existirá assim uma ligação flutuante a terra, conectando as operações dos Ortos a bordo da Jangada com o mais chegado ponto disponível no continente...

Desvia a atenção da Jangada e sobre o oceano rasa até Port Sherman para fazer aí um pouco de reconhecimento.

Ao longo da marginal divisa-se uma forma em crescente, de tamanho considerável, de hotéis baratos com os seus reclames amarelos.   Hiro vasculha através deles em busca de nomes russos.

É fácil.   Existe um Spectrum 2000 mesmo a meio da marginal.   Como o nome implica, cada um destes hotéis tem uma gama completa no que respeita a quartos, desde o armário a moedas para humanos logo no ‘lobby’, e por aí acima até às suites de luxo, lá no topo.   E toda uma variedade de quartos foi alugada por um grupo de gente com nomes terminados em –off e –ovsky e outros que tais de total ascendência eslávica.  

Os soldados de infantaria dormem no lobby, deitados direitos e apertados nesses armários a moeda junto às suas AK-47, e os sacerdotes e generais vivem em quartos porreiros mais acima; Hiro pausa, interrogando-se, o que poderá fazer um sacerdote russo ortodoxo pentecostal com um desses conjuntos Magic Fingers – ‘Dedos Mágicos’.

A suite mesmo no topo está arrendada por um cavalheiro que dá pelo nome de Gurov.   O senhor KGB, ele mesmo.   Demasiada desconfiança a bordo, pelos vistos, para residir presentemente na Jangada.

Como é que chegou ele de bordo da Jangada até ali a Port Sherman?   Se tal envolver o cruzar de uns trezentos quilómetros do Pacífico norte, deverá ser com uma embarcação de tamanho decente.

Existe uma meia dúzia de marinas em Port Sherman.   Neste momento muitas delas encontram-se atafulhadas com pequenas embarcações castanhas.   Faz lembrar um estado de pós-tufão onde algumas centenas de quilómetros quadrados de oceano foram varridos, limpos de sampanas, que se vieram amontoar de encontro ao primeiro lugar sólido.   Excepto que isto está só ligeiramente um pouco mais organizado que tal situação.

Os Refugas estão já a vir a terra.   Se forem suficientemente espertos e agressivos saberão provavelmente que a partir dali podem caminhar a pé até à Califórnia.

Isso explica porque é que os molhes estão pejados com aquela escória de pequenos barcos degradados.   Mas um dos cais parece-se ainda com uma marina privada.   Estão ali cerca de uma dúzia de embarcações  num branco impecável, alinhadas ordenadamente nos seus portalós, sem a barafunda da canalha.   E é tão boa a resolução da imagem que Hiro consegue ver até o cais pontilhado com aqueles pequenos donuts: provavelmente anéis de sacos de areia.   Será a única maneira de manteres privado o teu ancoradouro privativo quando a Jangada andar a pairar ao largo.

Matrículas, bandeiras e outros mimos de identificação, são difíceis de descortinar.   O satélite tem uma dificuldade enorme em captar material desse.   Hiro verifica se a CIC terá algum correspondente em Port Sherman.   Têm que ter pois a Jangada está aqui e a CIC espera realizar um grande negócio a vender informação sobre a Jangada a todos esses tipos ansiosos que habitam o litoral desde Skagway até à Tierra del Fuego.

Verdade.   Há um punhado de gente nesta cidade a fazer o envio da última intel sobre Port Sherman.   E um deles é apenas um parceiro com uma câmara de vídeo que vai rodando por aí a captar imagens de tudo.

Hiro revê este material em fast-forward – a passar em movimento rápido para diante.   Uma boa parte foi filmada a partir da janela de hotel do correspondente: horas e horas de reportagem da desfilada daquela porcaria de pequenas embarcações castanhas a tratar de abrir caminho até ao porto, amarrando-se à periferia da mini-Jangada que se está a formar em frente a Port Sherman.

Mas é semi-organizado isto, na medida em que uns aparentemente auto-nomeados cabos do mar se atarefam à volta numa lancha rápida, armas apontadas ao pessoal, berrando através de um megafone.   E isso explica porque é que - não importa quão emaranhada se torne aaquela confusão no porto - há sempre um canal aberto pelo meio do fiorde abaixo com saída até ao mar.   E o términus dessa faixa limpa é aquele agradável cais  com os barcos grandes.

Estão aí essas duas grandes embarcações.   Uma, é um avantajado navio pesqueiro onde esvoaça uma bandeira ostentando o emblema dos Ortos que é apenas uma cruz e uma labareda.   Faz parte obviamente da pilhagem à TROKK; o nome no costado é Kodiak Queen (Rainha Kodiak) e os Ortos ainda não se importaram em alterá-lo.   O outro barco grande é um pequeno navio de cruzeiro feito para transportar confortavelmente gente rica para agradáveis paragens.   Exibe uma bandeira verde e aparenta estar ligado à Hong Kong Maior de Mr. Lee.

Hiro executa um pouco mais de bisbilhotice pelas ruas de Port Sherman e descobre que até há um franchisulado, mesmo de bom tamanho, da Hong Kong Maior de Mr. Lee.   Ao estilo típico da ‘Hong Kong’, é mais como que um spray de pequenos edifícios e salas dispersos por toda a cidade.   Mas um spray denso.   Suficientemente denso, que a Hong Kong tem aqui vários empregados a tempo inteiro, incluindo um procônsul.   Hiro faz surgir a imagem do gajo para que o possa reconhecer mais tarde: um cavalheiro chino-americano nos seus cinquentas e de aspecto mal-humorado.   Não se trata portanto de um franchisulado automatizado e sem pessoal humano como normalmente vês no Lower 48.

43

Quando acordou ali da primeira vez estava ainda com o seu macacão da RadiKS, mumificada em fita isoladora, espojada pelo chão de uma imunda e velha furgoneta Ford em desabrida pelo meio de sítio nenhum.   Isto não a pôs lá com muito boa disposição.   O projéctil atordoante deixou-a com uma hemorragia nasal persistente e uma eterna dor de cabeça latejante, e cada vez que a carrinha atingia qualquer buracão na estrada a cabeça ressaltava sobre o aço enrugado do chão da viatura.

Ao princípio ela sentia-se apenas lixada.   Depois começou a ter breves momentos de medo – queria voltar para casa.   Após oito horas na traseira do veículo não havia qualquer dúvida na sua mente de que queria ir para casa.   A única coisa que a impedia de se ir abaixo era a curiosidade.   Tanto quanto podia dizer a partir da sua situação assumidamente desvantajosa, isto não se parecia com uma operação dos Feds.

A carrinha abandonara a auto-estrada e envereda por uma estrada de ligação que vai ter a uma placa de estacionamento onde acabam por parar.   Abrem-se as portas traseiras e um par de mulheres sobe a bordo.   Através das portas abertas Y.T. pode ver o reclame – com a forma de um arco gótico – de uma Reverend Wayne’s Pearly Gates.

“Oh, pobre miudinha” – disse uma das mulheres.   A outra mulher limita-se a estremecer horrorizada com o estado dela.   Uma delas põe-se-lhe a embalar a cabeça, a alisar-lhe o cabelo, deixando-a bebericar um pouco de Kool-Aid de um copo descartável enquanto a outra com ternura e devagar lhe vai arrancando as tiras de fita isoladora.

Quando acordara nas traseiras da carrinha já os sapatos haviam sido removidos e ninguém lhe ofereceu outro par.   E tudo havia sido retirado do seu macacão.   Todo aquele equipamento porreiro foi um ar que lhe deu, desaparecera.   Mas eles não tinham ido ver por debaixo do uniforme.   Ainda tinha as ‘chapinhas de cão’.   E uma outra coisa, uma coisa entre as suas pernas, chamada uma dentata.   E não havia forma de terem descoberto isso.

Sempre calculou que as ‘chapas de cão’ fossem, provavelmente, ao fim e ao cabo, uma coisa de imitação - Uncle Enzo não andará por aí a dar a torto e a direito as suas relíquias de guerra a miuditas de quinze anos.   Mas poderão ter ainda efeito sobre alguém.

As duas mulheres chamam-se Marla e Bonnie.   Estão a toda a hora com ela.   Não estão apenas com ela mas tocam-lhe.   Uma quantidade de abraços, apertam-na, seguram-lhe na mão, despenteiam-lhe o cabelo.   Da primeira vez que vai à casa de banho, Bonnie acompanha-a, abre-lhe a porta da cabina e fica ali ao lado dela.   Y.T. pensa que Bonnie tema que ela possa desmaiar nos lavabos ou algo assim.   Mas da próxima vez que ela tem que ir dar uma mija Marla vai com ela.   Não tem afinal qualquer privacidade.

O único problema é que ela não consegue negar que de certo modo até gosta disto tudo.   A viagem na carrinha é que a magoou.   Magoou-a mesmo.   Nunca se sentira tão perdida na sua vida.   E agora está descalça, indefesa, num sítio desconhecido, e elas estão ali a dar-lhe o que precisa.

Após ter tido alguns minutos para se refrescar – o que quer que isso signifique – dentro da Reverend Wayne’s Pearly Gates, ela, Marla e Bonnie, trepam para uma camioneta alongada e sem janelas.   O chão está atapetado mas não existem quaisquer assentos no interior pelo que vai toda a gente sentada no chão.   A camioneta encontrava-se já atravancada quando abriram as portas de trás.   Umas vinte pessoas enlatadas que nem sardinhas, todas plenas de energia, jovens radiantes.   Parecia impossível, Y.T. encolhe-se recuando daquilo, direitinha de volta aos braços de Marla e Bonnie.   Mas um acolhedor rugido ergue-se do pessoal da carrinha, o branco dos dentes a brilhar naquela penumbra, e começam a espezinhar-se a abrir espaço para elas.

Passa a maior parte dos dois dias seguintes comprimida ali na viatura entre Bonnie e Marla, de mãos dadas com elas, constantemente, que até nem conseguia coçar o nariz sem primeiro pedir.   Fartaram-se de entoar canções alegres até o cérebro dela estar quase feito em tapioca.   E ocupavam-se com uns jogos tolos.

Umas duas vezes por hora alguém na camioneta dava-lhe para começar naquele blá-blá-blá, tal e qual os Falabalas.   Tal e qual a gente das Reverend Wayne’s Pearly Gates.   E logo esse balbuciar começava a espalhar-se a toda a furgoneta como uma doença contagiosa, e em breve toda a gente estava a fazê-lo.   Todos, excepto Y.T.   Parece que ela não conseguia apanhar-lhe o jeito.   Parecia mesmo embaraçosamente estúpido para ela que não conseguisse.   Então limitou-se a imitar.

Três vezes ao dia, tinham uma oportunidade para comer e eliminar.   Acontecia sempre em segurbúrbios.   Y.T. conseguia detectar conforme deixavam a estrada interestadual, encontrando caminho por entre tortuosas vias às curvas, em construção, praças, becos, voltas em círculo.   Uma porta de garagem que sobe electricamente, a camioneta a entrar, e a porta a fechar-se de novo atrás dela.   Entravam numa casa suburbana excepto que estava despida de qualquer mobília e de outro toque familiar, e sentavam-na no chão, em quartos vazios – um para rapazes outro para raparigas – e comiam bolos e biscoitos.   Isto acontecia invariavelmente num quarto totalmente vazio de uma habitação, mas havia sempre um décor diferente: num local, papel de parede com um floreado campestre e um ténue cheiro a Glade rançosa.   Noutro, papel de parede azulado mostrando uns jogadores de hóquei, jogadores de futebol, jogadores de basquete.   Noutro, só as paredes todas em branco com velhas marcas de lápis de carvão nelas riscadas.   Sentando-se nestes quartos vazios, Y.T. começava a estudar todos aqueles arranhões deixados pela antiga mobília sobre o soalho, as mossas no revestimento sintético das paredes, e meditava sobre aquilo como uma arqueologista, interrogando-se sobre aquelas famílias que há muito deixaram o local e que haviam vivido aí.   Mas mais para o fim da viagem já não prestava atenção nenhuma a essas coisas.

Na carrinha nada mais conseguia ouvir a não ser as canções, os cânticos, e não conseguia ver nada senão todas aquelas faces aglutinadas dos seus companheiros.   Quando paravam para meter combustível faziam-no em paragens para camiões gigantes em sítios desolados e remotos, indo até às mais distantes ilhas de bombas de gasolina de modo a que não houvesse ninguém próximo deles.   E nunca paravam de andar.   Os condutores iam sendo substituídos continuamente.

Finalmente, chegaram a uma costa.   Y.T. conseguia cheirar isso.   Queimaram alguns minutos à espera, motor ligado, e depois a viatura sacolejou sobre um tipo qualquer de grelha, trepou algumas rampas e deteve-se, o travão de mão foi accionado.   O condutor saiu e pela primeira vez deixavam-nos ali sozinhos no veículo.   Y.T. estava contente em aquela viagem ter chegado ao fim.

E foi então que tudo começou a roncar numa vibração como o ruído de um motor mas muito maior.   Não sentiu qualquer movimento até alguns minutos mais tarde quando compreendeu que tudo se encontrava a ondular calmamente.   A furgoneta havia sido estacionada num navio, um navio que estava agora de saída para o mar.

 

É um autêntico navio oceânico.   Um barco velho, escafiado e ferrugento, que não custará decerto mais que cinco mil paus numa sucata naval.   Mas leva carros, e navega água adentro, e aguenta-se à tona.

O navio é tal e qual a viatura, excepto que é maior, com mais gente a bordo.   Mas comem da mesma coisa, entoam as mesmas canções e dormem igualmente o mínimo.   Por agora Y.T. sente aquilo perversamente reconfortante.   Sabe que está ali com uma quantidade de gente como ela e que está a salvo.   Já sabe a rotina.   Sabe qual é o seu lugar.

E então, por fim, chegam à Jangada.   Ninguém dissera a Y.T. que era este o destino deles, mas agora isto tornou-se óbvio.   Ela devia estar assustada.   Mas eles não iriam decerto para a Jangada se aquilo fosse tão mau como dizem.

Quando se começa a ver a Jangada, ela meio que conta que eles lhe saltem em cima para cobri-la de novo com fita isoladora.   Mas logo vê que tal não é necessário.   Ela não tem causado sarilhos.   Acabou por ser aceite aqui, confiam nela.   Confere-lhe de certa forma uma sensação de orgulho.

E ela não irá causar chatices na Jangada porque tudo o que ela pode conseguir é fugir da parte deles para a Jangada de per se, como um todo.   Tal e qual.   A verdadeira Jangada.   A Jangada de uma centena de filmes de Hong Kong da ‘série B’ e livros de banda desenhada nipónicos bem sanguinolentos.   Não é preciso grande imaginação para pensar no que acontece a rapariguinhas louras americanas de quinze anos perdidas aí pela Jangada, e esta gente sabe-o bem.

Às vezes ela preocupa-se com a mãe e então o seu coração ganha força, e ela pensa que tudo isto provavelmente até será bom para ela.   Abaná-la um pouco.   Que é o que ela precisa.   Depois de o pai ter saído de casa, ela voltou-se e encolheu-se sobre si própria, como um desses pássaros origami - em papel dobrado – entregue às labareddas.

Na periferia há como que um género de nuvem exterior de pequenos barcos a rodear a Jangada à distância de algumas milhas.   Quase todas aquelas embarcações são barcos de pesca.   Alguns transportam homens armados mas que não se metem com este ferry.   E o ferry vai girando através de toda esta zona envolvente, a efectuar uma larga curva e apontando finalmente a uma secção branca num dos flancos da Jangada.   Literalmente branca.   Todos os barcos nesta secção são limpos e novos.   Há um par de grandes navios ferrugentos com caracteres russos nos costados, e o ferry avança até se colocar ao lado de um deles, cabos são atirados, e preenchidos depois com redes, portalós, teias de pneus velhos e descartados.

Esta cena da Jangada não parece mesmo nada um bom território para skates.   Interroga-se ela se mais alguém do outro pessoal a bordo deste ferry será surfista.   Não lhe parece.   Realmente, não são nada do seu estilo de gente.   Ela tem sido sempre um cãozito rafeiro e sujo das auto-estradas e não como um destes tipos felizes e cantarolantes.   Talvez a Jangada seja o lugar indicado para ela.

Levam-na lá para baixo para um dos barcos russos e dão-lhe a pior tarefa de sempre: cortar peixe.   Ela não quer um trabalho, não pediu nenhum.   Mas é o que lhe dão.   Ainda ninguém, em abono da verdade, falou com ela, ninguém se preocupou em explicar-lhe nada, e isso põe-na relutante em perguntar.   Acaba de ser despejada contra uma maciça onda de choque cultural pois a maior parte da gente a bordo deste navio são velhos e gordos e russos e não falam inglês.

Durante dois dias ela passa um pedaço de tempo a dormir em serviço, a ser constantemente espicaçada para acordar por aquelas damas russas pesadonas que trabalham neste lugar.   E vai também dando ao dente.   Algum do peixe que vem para este sítio tem um ar bem rançoso mas há uma boa quantidade de salmão.   A única maneira como ela sabe isto é por comer sushi no centro comercial – o salmão é aquele de cor laranja-avermelhada.   Então trata de arranjar ela própria ali um sushi, atira-se a mastigar alguma carne de salmão fresco, o que é bom.   Ajuda a clarear-lhe a mona.

Uma vez passado o choque disto tudo e adaptada à rotina, começa a olhar para o que se passa à volta dela, a observar ali as outras matronas cortadoras de peixe, e compreende que isto é como a vida será afinal para uns 99 por cento da gente no mundo.   Agora estás aqui neste sítio.   Há outra gente a toda a volta, mas não te entendem e tu não os entendes a eles, mas o pessoal mesmo assim executa um pouco daquele balbuciar desconexo sem significado.   De forma a permanecer vivo tens que ocupar o dia todo, todos os dias, a fazer um trabalho estúpido sem sentido.   E a única forma para saíres daqui é ires-te embora, largares amarras, apanhares uma lancha rápida – uma ‘voadora’ – e zarpares para o mundo cruel lá fora onde serás devorado, engolido, para te dissolveres e não mais se ouvir falar de ti.

Ela não é propriamente habilidosa para cortar peixe.   Aquelas enormes moças russas encorpadas – de andar pesadão, babuskas de caras angulosas e que continuam a aborrecê-la – mantêm-se a pairar ali à volta dela, a vê-la cortar, com um olhar tal na cara como se não acreditassem na inapta que ela é.   Depois tentam mostrar-lhe como fazer as coisas correctamente mas ainda assim ela não se desenvencilha bem.   É duro aquilo, põe-lhe as mãos frias e enrijecidas o tempo todo.

Após dois frustrantes dias dão-lhe um novo trabalho, mais a jusante na linha de produção: tornam-na empregada de cafeteria.   Como uma daquelas sopeiras na sala de refeições do liceu.   Trabalha na copa de um dos grandes barcos russos arrastando os panelões de guisado de peixe acabado de cozinhar até à bicha do buffet, despejando-o às conchas para terrinas, servindo-o ao balcão a uma interminável fila consistindo em fanáticos religiosos, fanáticos religiosos e mais fanáticos religiosos.   Excepto que desta vez aqui parece haver um bom bocado mais de asiáticos e dificilmente se encontrarem americanos.

Têm também por cá uma nova espécie: gente com uma antena a sair-lhes da cabeça.   As antenas parecem essas dos walkie-talkies da bófia – chicotes curtos e rudes em borracha preta.   Saem por detrás da orelha.   A primeira vez que topa com uma destas pessoas, calcula que deva ser algum tipo de novo modelo de Walkman, e quer perguntar ao gajo onde é que o arranjou, o que é que está a ouvir.   Mas é um gajo esquisito, mais esquisito que todos os outros, com um olhar permanentemente fixo a um quilómetro além e um caso sério de balbuciar, e ele acaba por lhe causar arrepios de tal forma que ela lhe dá com uma ganda dose extra de guisado na cara e o apressa fila abaixo.

De tempos a tempos acaba por reconhecer alguma das pessoas que com ela estiveram na carrinha.   Só que eles parece não a reconhecerem.   O olhar deles é como se passasse a direito através dela.   Olhos vítreos.   Como se tivessem levado com uma lavagem ao cérebro.

Como se Y.T. tivesse levado uma lavagem ao cérebro.

Ela não pode acreditar que lhe tenha levado tanto tempo a descortinar o que lhe estiveram a fazer.   E isso só a faz sentir-se mais lixada.

44

Na Realidade, Port Sherman é um burgo surpreendentemente pequenino, realmente são apenas alguns quarteirões quadrados.   Até a Jangada aparecer por aí tinha uma população permanente de alguns poucos milhares de pessoas.   Actualmente a população deve estar a caminho dos cinquenta mil.   Hiro tem que abrandar agora um bocadinho pois no entretanto os Refugas dormem todos ali pelas ruas, um autêntico entrave ao trânsito.

Está okay, e é o que lhe salva a vida afinal.   Pois subitamente quase logo a seguir à entrada em Port Sherman as rodas da motocicleta bloqueiam – os bastonetes petrificam, tornam-se rígidos, e a condução segue toda aos solavancos.   Segundos mais tarde a mota queda-se morta de vez, completamente, imóvel mesmo, não passa de um pedaço inerte de metal.   Nem sequer o motor arranca.   Dirige o olhar para baixo para o écran plano no topo do depósito de combustível a pretender ver o status report – um relato da situação - mas aquilo não pára de mostrar ‘snow’..   A bios ‘crashou’.   Asherah tomou conta da sua mota.

Abandona-a portanto no meio da rua e principia a caminhar em direcção à marginal.   Atrás dele pode ouvir os Refugas a acordar, lutando por desenrodilharem-se dos cobertores e sacos cama, convergindo sobre a motocicleta tombada a procurar cada um ser o primeiro a reclamá-la.

No peito repercute-se como que um matraquear profundo e por um minuto vem-lhe à lembrança a mota de Raven em L.A. e como foi isso de a sentir primeiro e só depois realmente é que a ouviu de verdade.   Mas não há motas por aqui à volta.   O som vem do alto.   Trata-se de um heli, um besouro voador.

Hiro consegue perceber dali o odor das algas marinhas a apodrecerem na praia, tão próximo está agora.   Ao virar de uma esquina depara-se já na avenida marginal, a olhar de frente para a fachada do Spectrum 2000.   Do lado de lá da rua está a água.   O heli avança por sobre o fiorde seguindo ao longo dele do alto mar para o interior. É um helicóptero pequeno e ágil daqueles com muito vidro.   Hiro pode ver as cruzes pintadas por todo ele onde antes estavam as estrelas vermelhas.   Surge brilhante e deslumbrante naquela luz fresca da manhã nascente pois vai derramando uma esteira estrelada em azul e branco conforme larga foguetes de magnésio espaçados poucos segundos, que vão tombando na água cá em baixo, continuam a arder, e deixam um rasto astral a marcar todo o comprimento do porto.   Não estão ali para enfeitar.   Aquilo é destinado é a confundir mísseis antiaéreos guiados pelo calor.

De onde está consegue ver o terraço do hotel porque encontra-se a olhar para ele ali, a direito, em plena linha recta.   Mas ganha a sensação de que Gurov estará aí à espera no topo do edifício mais alto de Port Sherman, aguardando esta evacuação tão matutina que o guindará até ao céu em porcelana para o conduzir lá à Jangada.

Pergunta: porque é que está ele a ser evacuado?   E porque é que estão eles preocupados com mísseis orientados pelo calor?   Hiro imagina então, tardiamente, que merda da grossa está p’rá aí a rebentar.

Se ainda tivesse a mota, podia pôr-se com ela a trepar pelas escadas de incêndio do hotel e ver o que é que se estava a passar.   Mas ele já não tem a mota.

Um estrondo cavo ecoa do telhado de um prédio à sua direita.   É um prédio antigo, uma das primeiras estruturas criadas pelos pioneiros de há cem anos.   Os joelhos de Hiro dobram-se, a boca abre-se e os ombros involuntariamente descaem, ele a olhar para de onde veio o som.   Algo capta-lhe a atenção da vista, uma coisa pequena e escura dardejando para o ar que nem um pardal disparado do cimo daquele prédio.   Mas quando está a uma centena de metros elevado sobre a água o pardaleco parece pegar fogo.   Tosse uma grande nuvem de espesso fumo amarelo, transforma-se numa bola de fogo branco que salta para diante.   Continua a acelerar cada vez mais rápido e mais rápido, rasgando em direcção ao centro do porto, até devorar todo aquele caminho helicóptero adentro, enfia-se pelo pára-brisas e sai-lhe na retaguarda.   O heli está já numa nuvem de chamas a derramar pedaços escuros de metal bom para sucata, como uma fénix desfazendo-se da concha.   Aparentemente Hiro não é o único gajo na cidade que odeia Gurov.   Gurov agora terá que descer as escadas e arranjar mas é um barco.

O ‘lobby’ do Spectrum 2000 é uma base militar cheia de barbudos com armas.   Estão ainda a juntar todo o dispositivo de defesa; mais soldados a rastejarem para fora daqueles armários a moedas, a envergar os casacões, pegando nas armas.   Um gajo trigueiro, provavelmente um sargento tártaro excedentário do Exército Vermelho, corre por ali pelo lobby num uniforme dos ‘marines’ soviéticos a gritar para o pessoal, empurrando-os para um lado e para o outro.

Gurov pode ser um tipo sagrado mas não é capaz de caminhar sobre as águas.   Tem que se chegar ali à avenida marginal, andar ao longo de dois quarteirões até ao portão que lhe dá entrada àquele molhe ainda em segurança, e entrar a bordo do Kodiak Queen que está ali à sua espera, fumo negro a começar a tossicar das suas chaminés cá para fora, luzes a serem acesas.   Mesmo a seguir ao Kodiak Queen, nesse pilar, encontra-se o Kowloon, que é o navio da grande Hong Kong Maior de Mr. Lee.

Hiro vira costas ao Spectrum 2000 e principia a correr para cima e para baixo daquelas ruas na frente marítima, verificando os diversos logotipos até deparar com o que pretende: o da Hong Kong Maior de Mr. Lee.

Não o querem deixar entrar.   Exibe rápido o passaporte e as portas abrem-se.   O guarda é chinês mas fala um pouco de inglês.   Isto é um aquilatar de como estão alteradas as coisas em Port Sherman: têm um guarda à porta.   Usualmente a Hong Kong Maior de Mr. Lee é um país franqueado a querer sempre granjear novos cidadãos, mesmo que sejam os mais pobres dos Refugas.

“Lamento – diz o guarda numa voz de cana rachada e desprovida de sinceridade – Não sabia” – ele aponta para o passaporte de Hiro.

O franchisulado é literalmente uma lufada de ar fresco.   Não tem nada daquela ambiência terceiro mundista, não cheira nada a urina.   O que quer dizer que deverá ser a sede local ou quase isso, pois a maior parte das propriedades imobiliárias da ‘Hong Kong’ aqui em Port Sherman consistirá provavelmente em nada mais do que um pistoleiro encafuado numa cabina telefónica num ‘lobby’.   Mas este lugar é espaçoso, limpo e bonito.   Algumas centenas de Refugas olham abertamente para ele através das janelas, mantidos afastados não pela mera placa de vidro mas pela eloquente promessa contida em três casotas de Tipo-Ratos alinhadas contra uma das paredes.   Pela aparência daquilo, duas delas foram lá metidas recentemente.   Vale sempre a pena investir em segurança quando a Jangada está aí a vir.

Hiro prossegue até ao balcão.   Um homem fala ao telefone em cantonês o que quer dizer que de facto está é para ali a gritar.   Hiro reconhece-o como sendo o tal procônsul em Port Sherman.   Ele está profundamente envolvido neste curto bate-papo mas reparou já nas espadas de Hiro, observa-o agora cuidadosamente.

“Estamos bastante ocupados” – diz o homem, desligando.

“Agora estão um bom bocado mais ocupados – diz Hiro – Gostaria de arrendar o vosso barco, o Kowloon.”

“É bastante caro” – diz o homem.

“Acabei de mandar fora uma mota topo de gama, novinha em folha, deixei-a ali no meio da rua só por não estar na disposição de a empurrar meio quarteirão até à garagem – diz Hiro – Estou a funcionar com um tal orçamento para despesas que lhe rebentaria a cabeça.”

“Encontra-se avariado.”

“Aprecio a sua boa educação ao não querer dar-me um rotundo não – diz Hiro – só que acontece eu saber que ele está, de facto, sem avarias, e devo portanto considerar a sua recusa como um não.”

“Não está disponível – diz o homem – Há mais alguém que vai usá-lo.”

“Ainda não deixou o molhe – diz Hiro – podia portanto cancelar essa requisição, usando uma dessas desculpas que acabou de me dar, que eu então até pagarei um valor superior.”

“Isso não podemos fazer” – diz o homem.

“Então vou é ali fora até à rua informar os Refugas que o Kowloon está de partida para L.A. dentro de precisamente uma hora, e que têm espaço suficiente para levarem vinte Refugas com eles, os primeiros a chegar, primeiros a serem servidos” – diz Hiro.

“Não” – diz o homem.

“Vou-lhes dizer para o contactarem a si pessoalmente.”

“Onde é que quer ir com o Kowloon?” – diz o homem.

“À Jangada.”

“Oh, bom, porque é que não me disse então – diz o homem – É para onde vai o nosso outro passageiro.”

“Tem mais alguém que quer ir até à Jangada?”

“Foi o que eu disse.   O seu passaporte, por favor.”

Hiro entrega-lho.   O homem empurra-o para uma ranhura.   O nome de Hiro, os seus dados pessoais e fotos tipo passe são transferidos digitalmente para a bios do franchisulado, e com umas poucas de teclas premidas o homem persuade a máquina a cuspir cá para fora um cartão de identificação laminado e com foto.

“Com isto pode ir até ao molhe – diz o gajo – É válido por seis horas.   Você, faça lá os seus arranjos com o outro passageiro.   Depois disso não o quero voltar a ver.”

“E se eu vier a precisar de mais serviços consulares?”

“Posso sempre ir dizer à gente aí fora – diz o homem – que está aqui um preto com espadas a violar refugiados chineses.”

“Humm.   Isso não é precisamente o melhor atendimento que tenha recebido numa Hong Kong Maior de Mr. Lee.”

“Esta não é uma situação normal – diz o homem – Olhe pela janela seu pateta.”

Pouco mudou aparentemente lá na marginal.   Os Ortos organizaram  o seu esquema de defesa no ‘lobby’ do Spectrum 2000: a mobília revirada e tombada, ergueram-se barricadas.   No interior do próprio hotel, presume Hiro, uma actividade furiosa deve estar a ocorrer.

Não é ainda bem claro contra quem é que os Ortos se estão a defender.   Ao passar pela área da marginal Hiro não consegue ver muito: só mais Refugas chineses com roupas largas.   Só que há alguns deles com um ar muito mais alerta que outros.   Têm um carácter completamente diferente.   A maior parte dos chineses têm os olhos fixos na vasa defronte dos pés mas estão com a cabeça ‘aérea’ em qualquer coisa distante.   Mas alguns deles andam para ali para a frente e para trás, a olhar a toda a volta, bem atentos, e muitos destes acontece serem tipos jovens envergando coletes volumosos.   E um corte de cabelo que é de um universo estilístico completamente diferente do que aquele exibido pelos outros.   Uma evidência de gel fixante.

A entrada para esse cais de gente rica está protegida com sacos de areia, arame farpado, e guardada.   Hiro aproxima-se lentamente, mãos bem à vista, e mostra o seu passe ao chefe da guarda que é a única pessoa branca que até agora viu ali em Port Sherman.

E isso dá-lhe passagem ao portão de acesso.   Basta isso.   Como no franchisulado da ‘Hong Kong’ isto parece vazio, calmo, e não tresanda.   Sente-se o sobe e desce suave ao sabor da maré de uma forma tal que Hiro acha aquilo relaxante.   Não passa afinal aquele pontão de uma correnteza de jangadas, plataformas de pranchas construídas sobre pedações de esferovite flutuante, e que se não estivesse guardado muito provavelmente acabaria por ser rebocado e anexo à Jangada.   Ao contrário de uma marina normal não está afinal tão tranquila e desolada, esta, aqui em baixo.   Em geral as pessoas atracam as suas embarcações, fecham-nas e vão-se embora.   Aqui, há pelo menos uma pessoa que fica em cada barco, a tomar café, mantendo armas bem à vista, a observarem Hiro muito intensamente conforme vem ele avançando ao longo do pontão.   De tantos em tantos segundos o pontão parece trovejar com patadas e dois ou mais russos cruzam a correr passando por Hiro, vão em direcção ao Kodiak Queen.   São todos homens jovens, tipo marinheiros/soldados e mergulham ali em direcção ao Kodiak Queen como se fosse o último barco a deixar o Inferno, a receberem os berros dos oficiais, a correr cada um para os seus postos, atendendo freneticamente às suas tarefas de marinheiro.

No Kowloon as coisas encontram-se um pouco mais calmas.   Também está guardado mas a maior parte daquela gente parece serem criados e empregados, envergando uniformes de cor viva com botões metálicos e luvas brancas.   Os uniformes foram idealizados para serem usados dentro de portas, em agradáveis salas de jantar climatizadas.

Alguns dos membros da tripulação são vistos de um sítio para o outro, o seu cabelo negro escorrido para trás, embrulhados em impermeáveis escuros que os protegem do frio e dos borrifos.   Hiro só consegue ver um homem a bordo do Kowloon com ar de ser um passageiro: um esguio e alto caucasiano num fato preto e a andar às voltas ao mesmo tempo que conversa através de um telemóvel.   Provavelmente um amalucado da indústria a querer ir num cruzeiro de um só dia para ver os Refugas lá na Jangada enquanto vai ali abancado na sala de refeições a desfrutar de um jantar digno de um gourmet.  

Hiro encontra-se sensivelmente a meio do molhe quando parece rebentar o inferno lá atrás na margem defronte do Spectrum 2000.   Tudo começa com umas séries longas de rajadas de metralhadora pesada que não terão provocado grandes estragos mas conseguem esvaziar a rua num ápice.   Noventa e nove por cento dos Refugas evaporaram-se dali.   Os outros, os tipos jovens em que Hiro reparara, sacam de umas interessantes armas ‘alta-tecno’ para fora dos seus casacões e desaparecem pelas ombreiras e no interior dos prédios.   Hiro acelera um nadinha o passo, a caminhar às arrecuas para o extremo do molhe tentando interpor algumas das embarcações maiores entre si e a acção, não vá ele apanhar com alguns disparos perdidos.

Uma aragem fresca levanta-se das águas e corre o pontão.   Passando pelo Kowloon traz até aqui o aroma de bacon a fritar e de café acabado de preparar e Hiro nada mais pode fazer a não ser meditar no facto de que a sua última refeição foi meia cerveja baratucha numa Kelley’s Tap no interior de uma Snooze ‘n’ Cruise.

A cena defronte do Spectrum 2000 evoluiu entretanto para um rugido generalizado e incrivelmente alto de ruído branco, indistinto, conforme toda a gente dentro e no exterior do hotel dispara as respectivas armas para trás e para diante cruzando fogo de um lado para o outro da rua.

Algo lhe toca no ombro.   Hiro volta-se para sacudir aquilo mas vê que está e a olhar para uma empregada chinesa baixotinha e que chegou ali pontão abaixo vinda do Kowloon.   Depois de ter conseguido a sua atenção ela volta a recolher as mãos, põe-nas a recato onde estavam originalmente, isto é, como protecção sobre os próprios ouvidos.

“É Hiro Protagonist?” – vocifera ela, praticamente inaudível sobre o ridículo barulho da troca de fogo.

Hiro anui e ela replica assentando igualmente, dá uns passos afastando-se dele e agita com a cabeça na direcção do Kowloon.   Com as mãos assim a recobrirem os ouvidos desta forma aquilo quase parece qualquer tipo de dança folclórica.

Hiro segue-a pelo pontão.   Talvez o vão deixar, ao fim e ao cabo, alugar o Kowloon.   Ela precede-o na direcção do portaló.

Conforme vai ele avançando deita o olhar a um dos ‘decks’ superiores onde está um par de membros da tripulação nos seus impermeáveis escuros.   Um deles está debruçado contra uma amurada a observar o tiroteio através de binóculos.   Um outro, mais velho, inclina-se para ele a inspeccionar-lhe as costas, e dá-lhe uma palmada, um par de vezes, entre as espáduas.

O gajo deixa cair os binóculos para ver quem é que lhe está a bater assim nas costas.   Os olhos dele não são chineses.   O tipo mais velho diz-lhe qualquer coisa e faz um gesto apontando para a garganta.   E também este não é tão pouco um chinês.

O gajo dos binóculos faz que sim com a cabeça e estende uma mão para premir um interruptor na lapela.   Da próxima vez que se volta uma palavra surge escrita sobre as costas em electropigmento verde-néon – Máfia.

O gajo mais velho dá meia volta; o seu blusão exibe a mesma coisa.

Hiro vira-se a meio do portaló.   Há uns vinte membros da tripulação completamente à vista ali em redor.   Subitamente os seus impermeáveis pretos todos eles mostram a palavra Máfia.   Subitamente, todos eles estão armados.

45

“Estava a pensar pôr-me em contacto com a Hong Kong Maior de Mr. Lee e meter uma queixa sobre o procônsul deles aqui em Port Sherman – diz Hiro a brincar – Foi muito pouco cooperante esta manhã quando insisti em alugar este barco retirando-o a vocês.”

Hiro está sentado na sala de jantar de primeira classe do Kowloon.   Do outro lado da toalha de mesa em linho branco está o homem que anteriormente Hiro rotulara já como ‘um excêntrico da indústria em férias’.   Ele está impecavelmente vestido num fato preto e possui um olho de vidro.   Não teve a preocupação em se apresentar, como se esperasse que Hiro soubesse já quem ele é.

O homem não parece entusiasmar-se com a história de Hiro.   Pelo contrário, parece antes meio desorientado – “E então?”

“Não vejo qualquer razão, agora, para apresentar queixa” – diz Hiro.

“Porque não?”

“Bem, porque compreendo agora a relutância dele em não vos pôr fora.”

“Como foi isso?   Você tem dinheiro, não tem?”

“Sim, mas...”

“Oh! – diz o homem do olho de vidro, e permite-se até um sorriso forçado – Porque nós somos a Máfia, é o que ias a dizer.”

“Yeah” – diz Hiro, sentindo a face quente.   Não há nada como tornares-te um palerma completo.   Nada no mundo se compara a seres uma besta assim, não-sinhora-não!

Lá fora o tiroteio é apenas um rugido atenuado.   Esta sala de jantar encontra-se isolada do ruído, água, vento e chumbo quente voador, por uma dupla camada de vidro notavelmente grosso, estando o espaço entre as duas placas vítreas preenchido por qualquer coisa clara e gelatinosa.   O troar não parece tão regular como estava antes.

“Malditas baterias metralhadoras – diz o homem – Odeio aquilo.   Talvez um balázio em mil atinja de verdade algo que valha a pena mandar abaixo.   E dão-me cabo dos ouvidos.   Queres café ou alguma coisa?”

“Seria óptimo.”

“Temos um grande buffet que está aí a vir.   Bacon, ovos, fruta fresca, que nem vais acreditar.”

O gajo que Hiro antes viu lá em cima no convés, o que estava a dar palmadas nas costas do ‘Homem-dos-Binóculos’, enfia a cabeça na sala.

“Desculpe-me, boss, mas estamos a entrar, ao que parece, na terceira fase do nosso plano.   Imaginei apenas que gostasse de saber.”

“Obrigado, Lívio.   Informa-me quando os ‘Ivans’ se dirigirem para o molhe – o tipo beberica o café e repara que Hiro parece confundido – Vê, temos um plano, plano esse que se encontra dividido em diferentes fases.”

“Yeah, percebi isso.”

“A primeira fase foi a imobilização.   Riscámos dos céus o helicóptero deles.   Depois tivemos a Fase Dois, que foi levá-los a pensar que íamos tentar abatê-los no hotel.   Penso que essa fase funcionou maravilhosamente.”

“Também eu.”

“Obrigado.   Outra parte importante desta fase foi conseguir que pusesses o rabo aqui, o que também foi feito.”

“Eu sou parte deste plano?”

O homem do olho de vidro sorri descaradamente – “Se não fosses parte do plano, estarias agora morto.”

“Portanto sabiam que eu estava a vir para Port Sherman?”

“Conheces aquela gajinha Y.T.?   A que tens utilizado para nos espiar?”

“Yeah.   Não vale a pena negar isso.”

“Bem, nós temo-la usado para te espiar.”

“Porquê?   Mas por que raio se hão-de importar comigo?”

“Essa será uma coisa tangente à nossa conversa principal, que é sobre todas as fases do plano.”

“Okay.   Terminámos então com a Fase Dois.”

“Agora, na Fase Três, a que está em curso, permitimos que eles pensem que estão a efectuar uma fuga incrível e heróica, a correrem rua abaixo em direcção ao molhe.”

“Fase Quatro!” – grita Lívio, o lugar tenente.

Scusi” – diz o homem do olho de vidro, precipitando a sua cadeira para trás, dobrando o guardanapo que põe sobre a mesa.   Levanta-se e sai da sala de jantar.   Hiro segue-o até lá acima ao convés.

Umas duas dúzias de russos procuram forçar caminho através do portão para alcançarem o molhe.   Só uns poucos conseguem passar  de cada vez e acabam por formar assim um cordão, disperso por uns cinquenta metros, todos a correr em direcção à segurança oferecida pelo Kodiak Queen.   Mas há cerca de uma dúzia deles que conseguem manter-se juntos num cacho: um grupo de soldados formando um escudo humano em torno de um grupelho mais pequeno de homens no centro.

“ ‘Chefões’ ” – diz o homem do olho de vidro, assentindo filosoficamente com a cabeça.

Correm ao estilo de caranguejos todos eles, molhe abaixo, agachados tanto quanto podem, disparando ocasionalmente como cobertura algumas rajadas de fogo de metralhadora pesada, lá para trás, na direcção de Port Sherman.

O homem do olho de vidro continua ali, inclinado contra uma brisa fresca e súbita que se levantou.   Com um sorriso sardónico a surgir agora volta-se para Hiro – “Olha-me para isto” – diz ele, ao mesmo tempo que prime o interruptor numa pequena caixa preta que segura na mão.

A explosão é como uma única batida de tambor vinda ao mesmo tempo de todas as direcções.   Hiro pode senti-la a sair da água, a estremecer-lhe sob os pés.   Não há qualquer chama imensa ou nuvem de fumo, mas surge como que um género de efeito de duplo geiser a irromper por sob o Kodiak Queen, a disparar para o alto jactos de água branca e em vapor, como asas a desdobrarem-se.   E tais asas colapsam depois subitamente num aguaceiro tremendo e então o Kodiak Queen parece estar de forma chocante muito baixo em relação à água.   E a ficar cada vez mais em baixo.

Todos aqueles homens que corriam pelo pontão sustêm os seus passos.

“Agora” – murmura o Homem-dos-Binóculos para a sua lapela.

Há mais algumas explosões menores ao longo do molhe.   Todo ele se deforma e contorce-se como uma cobra na água.   Um segmento em particular, o segmento com os tais ‘chefões’ em cima, não pára de abanar e oscilar violentamente, fumo a elevar-se de ambos os extremos.   As explosões isolaram-no do resto do pontão.

Todos os seus ocupantes caem na mesma direcção conforme ele se torce lateralmente e começa a mover-se puxado do seu lugar.   Hiro consegue notar o cabo de reboque a erguer-se da água ao retesar-se, prolongando-se por uns sessenta metros até um pequeno barco aberto com um grande motor em cima e que o leva agora para fora do porto.

Estão ainda uma dúzia de guarda-costas sobre este segmento.   Um deles avalia a situação, aponta a sua AK-47 por cima das águas para o barco que os reboca - e fica sem miolos.   Há um sniper no convés superior do Kowloon.

Todos os outros guarda-costas lançam as armas à água.

“É tempo para a Fase Cinco – diz o homem do olho de vidro – Um pequeno almoço gande como a porra.”

Por alturas em que ele e Hiro se voltaram a sentar na sala de jantar já o Kowloon soltou amarras e se afastou do cais apontado à saída do fiorde, seguindo um curso paralelo ao do pequeno barco que reboca o segmento.   Conforme vão comendo podem olhar pela janela através de umas poucas centenas de metros de água desimpedida e ver a tal parte do pontão ali a par com eles.   Todos os chefões e guarda-costas de rabo no chão a tentar manter tão baixo quanto possível os respectivos centros de gravidade pois a plataforma salta perigosamente.

“Quando nos afastarmos mais de terra as ondas tornam-se maiores – diz o homem do olho de vidro – Odeio esta merda.   Tudo o que quero é aguentar o mata-bicho no estômago tempo suficiente para atapetá-lo com algum almoço.”

“Amén” – diz Lívio, amontoando alguns ovos mexidos no seu prato.

“Vão recolher aqueles gajos dali? – diz Hiro – ou deixá-los ficar por lá durante um pedaço?”

“Que sa fodam.   Deixá-los gelar o cu.   Assim quando os trouxermos para bordo deste barco já estarão próprios para isto.   Não vão tentar dar muita luta.   Hei, até pode ser que nos contem algo.”

Parecem razoavelmente esfomeados.   Por um bocado todos afocinham no pequeno almoço.   Após uns momentos o homem do olho de vidro quebra o gelo ao anunciar que a comida está magnífica, e todos concordam.   Hiro calcula que está fixe falar agora.

“Perguntava-me porque é que vocês, pá, estarão interessados em mim” – Hiro entende que isto é sempre uma boa coisa para se saber, quando se trata da Máfia.

“Estamos todos na mesma molhada bacana, na mesma gang” – diz o homem do olho de vidro.

“E que gang é essa?”

“A gang do Lagos.”

“Huh?”

“Bem, não é na verdade o grupo dele.   Mas ele é o gajo que conseguiu reuni-lo.   O núcleo à volta do qual se formou.”

“Como, e porquê, e do quê é que estão vocês a falar?”

“Okay – ele empurra o prato a alguma distância, dobra o guardanapo, poisa-o sobre a mesa – Lagos tinha todas estas ideias.   Ideias sobre tudo e mais alguma coisa.”

“Isso eu reparei.”

“Tinha montões de coisas lá por todo o seu sítio, sobre todos os diferentes tópicos.   Pilhas de material onde ia aglomerando conhecimento sobre coisas vindas de toda a parte da porra do mapa, e ia combinando tudo aquilo.   Tinha coisas destas escamoteadas aqui e acolá pelo Metaverso, esperando que a informação se tornasse útil.”

“E mais do que uma delas, é?” – diz Hiro.

“Supostamente.   Bem, há alguns anos atrás, Lagos aproximou-se de L. Bob Rife.”

“Ele fez isso?.”

“Yeah.   Vê, Rife tem um milhão de programadores a trabalharem para ele.   Estava paranóico com o receio de que lhe estivessem a roubar os seus dados.”

“Sei que ele tinha as casas deles sob escuta e por aí fora.”

“A razão porque sabes disso é porque encontraste a informação nessa pilha de artigos deixados pelo Lagos.   E a razão porque Lagos se preocupou com tal é porque se encontrava a fazer uma pesquisa de mercado.   À procura de alguém que lhe pudesse pagar uma grana valente por material que ele descobrira, desenterrara, e que está nesse tal amontoado Babel / Infocalipse.”

“Ele precisava – diz Hiro – que L. Bob Rife pudesse dar uso a certos vírus.”

“Certo.   Vê, não compreendo toda esta merda.   Mas creio que ele descobriu um vírus antigo ou qualquer coisa que era dirigida contra pensadores de elite.”

“Contra o ‘clero’ tecnológico – diz Hiro – Os infocratas.   E isso já limpara a infocracia toda na Suméria.”

“Seja o que for.”

“É de loucos – diz Hiro – É como descobrires que os teus empregados te andam a roubar esferográficas, e levas os gajos lá para fora para os abateres.   Não é capaz de utilizá-lo sem que ele destrua as mentes de todos os seus programadores.”

“Na sua forma original – diz o homem do olho de vidro – Mas a questão é que Lagos pretendia desenvolver pesquisas sobre isso.”

“Uma pesquisa de guerra informacional.”

“Bingo.   Quis isolar a coisa e modificá-la de modo a que pudesse ser usada para controlar as mentes dos programadores mas sem lhes dar cabo dos miolos irremediavelmente.”

“E isso funcionou?”

“Quem sabe?   Rife roubou a ideia de Lagos.   Apanhou-a e levou-a.   E depois disso Lagos ficou sem saber o que é que Rife fizera com aquilo.   Mas poucos anos depois começou a ficar preocupado com uma série de coisas que começa a ver.”

“Como o crescimento explosivo da Reverend Wayne’s Pearly Gates.”

“E essa russalhada que falava em línguas.   E o facto de Rife estar com as escavações nesta antiga cidade de...”

“Eridu.”

“Yeah.   E mais a coisa da radioastronomia.   Lagos tinha uma quantidade de coisas com que se estava a preocupar.   Começou então a aproximar-se de alguma gente.   Veio até nós.   Aproximou-se também daquela moça com que costumavas sair...”

“Juanita.”

“Yeah.   Uma rapariga gira.   E aproximou-se de Mr. Lee.   Podes pois dizer que há um leque de algumas pessoas diferentes a trabalharem neste pequeno projecto.”

46

“Onde é que eles se meteram?” – diz Hiro.

Está toda a gente a olhar à procura da parte de pontão flutuante, como se todos ao mesmo tempo tivessem reparado que aquilo já não ali estava.   Finalmente avistam-no a uns quinhentos metros atrás, à deriva na água.   Os chefões e guarda-costas estão agora de pé, a olharem na mesma direcção.   A lancha rápida mantém-se em círculos à volta para tentar uma recuperação daquilo.

“Devem ter topado um meio de soltar o cabo de reboque” – diz Hiro.

“Não é provável – diz o homem do olho de vidro – O cabo estava ligado ao fundo.   Por baixo de água.   E é um cabo de aço, não havia maneira de o cortarem.”

Hiro repara num outro pequeno barco balouçando sobre a água, a cerca de meia distância entre os russos e o barco rápido que os estava a rebocar.   Não é tão óbvio assim pois é diminuto, está ao nível da água e em cores naturais apagadas, sem contraste.   É um caiaque para um só homem.   Transporta um homem de longos cabelos.

“Merda – diz Lívio – De onde raio é que surgiu ele?”

O tipo do caiaque detém-se por uns momentos a olhar para trás, a interpretar as ondas, e então subitamente volta a endireitar-se e começa a remar com fúria, acelerando, lançando sucessivos olhares à retaguarda intervalados por vários golpes de remo.   Vem aí uma vaga das grandes, e precisamente quando está ela a enrolar-se por sob o caiaque ele iguala as suas velocidades.   O caiaque mantém-se no topo da onda e dispara para diante como um míssil, cavalgando aquela saliência arredondada, num repente está a avançar ao dobro da velocidade de tudo o mais que está à vista sobre aquelas águas.

Perfurando a onda com um dos extremos do remo, o homem do caiaque executa algumas bruscas mudanças no seu curso.   Imobiliza então o remo de través no caiaque, estica-se para apanhar qualquer coisa no interior e ergue um pequeno objecto escuro, um tubo de cerca de um metro e vinte de comprido o qual coloca por sobre um ombro.

Ele e a lancha rápida cruzam-se um pelo outro em grande velocidade, em sentidos opostos, separados por um intervalo de apenas cinco metros.   E logo depois a lancha explode.

O Kowloon com a velocidade que levava ultrapassa já o palco de toda esta acção em alguns milhares de metros.   Está agora a virar de bordo numa curva que é o mais apertada possível capaz de ser efectuada por uma embarcação deste tamanho, a tentar concluir uma volta de ‘cento-e-oitenta’ para que possa voltar lá atrás tratar do caso com os russos e, mais problematicamente, com o Raven.

Raven encontra-se nesta altura a remar, ao encontro dos seus comparsas.

“Mas que palerma – diz Lívio – O que é que ele vai fazer, rebocá-los daqui até à Jangada atrás da porra do caiaque?”

“Isto faz-me arrepios – diz o homem do olho de vidro – Certifica-te que temos alguns gajos lá em cima no convés com Stingers.   Eles devem ter aí um heli a chegar ou coisa assim.”

“O radar não mostra quaisquer outros navios – diz um dos soldados, acabado de chegar vindo da ponte – Somos só nós e eles.   E também não há sequer helis à vista.”

“Sabe que Raven anda com uma carga ‘nuke’, certo?” – diz Hiro.

“Pelo que ouvi.   Mas aquele caiaque não é suficientemente grande para isso.   É diminuto.   Nem acredito como se pode sair para o mar numa coisa dessas.”

Uma montanha começa a crescer saindo do mar.   Uma bolha de água negra que continua a subir e a alargar-se.   Bem para trás daquela jangada rasteira despontou uma torre em preto emergindo verticalmente para fora das águas, um par de aletas sobressai do seu topo.   E a torre continua a elevar-se cada vez mais alta, as pequenas asas mais distantes da superfície da água, ao mesmo tempo que tanto à frente como atrás a tal montanha continua a subir e a tomar forma.   Estrelas vermelhas e alguns algarismos.   Mas não é preciso ninguém ler aqueles números para ver que é um submarino.   Um submarino portador de mísseis nucleares.

E então aquilo pára.   Tão chegado aos russos na sua pequena jangada que Gurov e amigos praticamente podem saltar-lhe para cima.   Raven rema na direcção deles cortando como uma faca de vidro através das vagas.

“Não me fodam! – diz o homem do olho de vidro.   Está absolutamente estupefacto – Foda-se, foda-se, foda-se.   Uncle Enzo vai ficar lixado.”

“Não se podia ter adivinhado – diz Lívio – Vamos disparar-lhes em cima?”

Antes que o homem do olho de vidro possa tomar uma decisão da política a seguir, a peça de convés do ‘sub’ nuclear abre fogo.   O primeiro projéctil não passa a mais de alguns metros deles.

“Okay, temos uma situação em rápida evolução.   Hiro, tu vens comigo.”

A tripulação do Kowloon avaliou já devidamente a situação e colocou as apostas do lado do submarino atómico.   Correm para um lado e para o outro ao longo das amuradas largando para a água grandes cápsulas em fibra de vidro.   As cápsulas abrem-se revelando uns embrulhos em laranja vivo que desabrocham em jangadas salva-vidas.

Uma vez tendo os atiradores a bordo do ‘sub’ nuclear descoberto como hão-de atingir o Kowloon, a situação começa até a evoluir mais rapidamente.

O Kowloon não se decide se há-de afundar-se, incendiar-se ou simplesmente desintegrar-se, pelo que acaba por fazer as três coisas ao mesmo tempo.   Por esta altura já a maior parte do pessoal que estava a bordo se mandou para uma jangada de salvação.   Todos eles ali à tona da água para cima e para baixo, a envolverem-se em fatos salva-vidas e a observarem o ‘sub’ nuclear.

No submarino, Raven é a última pessoa a encaminhar-se para o seu interior.   Gasta um ou dois minutos a remover algum equipamento do caiaque: alguns artigos em sacos e uma lança de dois metros e meio e com uma ponta com a forma de uma folha, translúcida.   Antes de desaparecer pela escotilha volta-se na direcção dos destroços do Kowloon e ergue o arpão sobre a cabeça, um gesto simultaneamente de triunfo e promessa ameaçadora.   E de seguida desaparece.   Dois minutos mais tarde e também o submarino se foi.

“Esse gajo dá-me arrepios” – diz o homem do olho de vidro.

47

Logo que para ela se começa a tornar claro que todos estes gajos são uns tarados completos, principia a reparar noutros pormenores em relação a eles.   Por exemplo, em todo aquele tempo, ainda ninguém a olhou a direito nos olhos.   Especialmente os homens.   Não há nada de sexo com estes gajos, tão reprimido o tornaram dentro deles.   Em relação às gordas babuskas ainda se entende que não reparem nelas.   Mas ela é uma gajita americana de quinze anos e está habituada a apanhar com uma olhadela ocasional.   Aqui não.

Até que um dia ergue os olhos do enorme recipiente de onde serve o peixe e repara que está a olhar para o peito de um gajo.   E ao seguir o tronco dele por aí acima até ao pescoço e do pescoço dele acima até ao rosto, vê uns olhos negros devolvendo-lhe o olhar, ali por sobre o topo do balcão.

Tem qualquer coisa escrita pela testa: DEFICIENTE CONTROLE DE IMPULSOS, o que é assim a modos que assustador.   Sexy, também.   Empresta-lhe uma certa dose de romance que nenhuma das outras pessoas aqui possui.   Ela antes contava que a Jangada fosse tenebrosa, perigosa, e em vez disso acaba por ser como trabalhar onde a mãe dela trabalha.   Este gajo é a primeira pessoa que vê aqui pelo sítio que na verdade parece pertencer à Jangada.

E ele tem também o olhar baixo.   Um estilo incrivelmente exuberante.   Embora tenha um longo e fino bigode que não lhe faz muito pelo rosto.   Não ajuda afinal a salientar-lhe bem as características.

“Levas esta parte da porcaria?    Uma cabeça de peixe ou duas?” – diz ela balouçando a concha pitorescamente.   Ela está sempre a dizer disparates destes para o pessoal, pois afinal nenhum deles consegue entender o que ela vai dizendo.

“Levo o que quer que seja que estás a dar” – diz o gajo.   Em inglês, com um género de pronúncia vivaz.

“Não estou a dar nada – diz ela – mas se quiseres ficar por aí a olhar e a engonhar, está fixe.”

E ele ali fica a engonhar por um bocado.   Tempo suficiente para que a gente mais atrás na fila se comece a pôr em bicos de pés para ver qual é o problema.   Mas quando vêem que o problema é este indivíduo específico voltam a baixar-se, ao normal, mesmo muita rápido, a amochar, como que se retraem e mesclam nessa amálgama de lã tresandando a peixe.

“O que é que há hoje para sobremesa? – pergunta o gajo – Alguma coisa doce para mim?”

“Não acreditamos em sobremesas – diz Y.T. – É a porra de um pecado, lembras-te?”

“Depende da tua orientação cultural.”

“Oh, yeah?   E para que cultura é que estás orientado?”

“Eu sou um aleuta.”

“Oh.   Nunca ouvi falar.”

“Pois, porque temos sido lixados – diz o enorme e temível aleuta – muito mais que qualquer outro povo na história.”

“Lamento ouvir isso – diz Y.T. – Então, huh, queres que sirva algum peixe, ou vais ficar p’ra aí esfomeado?”

O enorme aleuta fixa nela o olhar por um bocado.   Inclina então a cabeça de lado e diz – “Anda lá.   Vamos mas é dar o fora daqui, com o caraças.”

“O quê, e pirar-me deste trabalho fixe?”

Ele exibe um esgar trocista – “Posso-te arranjar um emprego melhor.”

“Neste novo trabalho, posso manter as minhas roupas não é?”

“Vamos lá.   Vamos embora, já” – diz ele, aqueles olhos incendiados para ela.   Ela a tentar ignorar uma súbita sensação tensa de calor a despontar-lhe entre as pernas.

Começa a segui-lo ao longo da fila da cafeteria em direcção à abertura por onde poderá sair para a zona de refeições.   A cabra da babuska chefe já aí vem, chegada lá de trás, pesadona, a guinchar para ela numa qualquer língua ininteligível.

Y.T. volta-se para olhar.   Ela sente então um par de enormes mãos a deslizarem pelos seus costados, subindo-lhe até aos sovacos, e coloca os braços de lado tentando evitar aquilo.   Mas não adianta, as mãos vão mesmo para cima e continuam a erguer-se e a levantarem-se mais ainda no ar, a trazê-la com elas.   O enorme tipo alça-a mesmo por cima do balcão como se ela fosse uma criança de três anos e deposita-a depois a seu lado.

Y.T. volta-se para trás para ver a babuska chefe mas ela está aí congelada numa mistura de surpresa, temor e ultraje sexual.   Mas por fim o temor vence, a babuska evita os olhos dela, vira-se e vai substituir Y.T. na gamela de distribuição número nove.

“Obrigada pela boleia – diz Y.T., a voz dela excitada e tremente, de modo ridículo – huh, não querias comer nada?”

“De qualquer modo, estava a pensar sairmos” – diz ele.

“Sairmos?   Para onde é que se sai, na Jangada?”

“Vamos, eu mostro-te.”

 

Ele condu-la ao longo de passagens estreitas e por inclinadas escadas em aço até chegarem cá fora ao convés.   Está-se quase na penumbra e a torre de controle do Enterprise assume-se difusamente a negro contra um céu em cinzento carregado cada vez a ficar mais sombrio e pesado – e a tornar-se tão rapidamente escuro que parece até mais  escuro agora do que estará à meia-noite.   Mas por ora nenhuma das luzes está ainda acesa e tudo o que há é o negro do aço e o tom ardósia daquele céu.

Ela segue-o ao longo do convés do barco até à popa.   Daqui a vertical até à água é de uns nove metros, e eles estão a olhar mais além através dessa próspera vizinhança do pessoal russo apresentada num branco limpo, separada da confusão sombria e esquálida da Jangada per se por um largo canal patrulhado por malta de vestes negras exibindo armas.

Não há qualquer escadaria ou escadas de cordame aqui, mas suspensa da amurada existe uma grossa corda.   A besta daquele aleuta apanha um pedação da corda e fá-la passar em movimento rápido sob um braço e por uma das pernas.   Atira depois um dos braços à volta da cintura de Y.T., e agarrando-a assim no enganchamento do seu braço, inclina-se para trás e deixa-se tombar do navio.

Ela recusa-se terminantemente a gritar.   Sente a corda a travar o corpo dele, o braço dele a apertá-la tão fortemente que por um momento ela sufoca, e então lá está ela ali pendurada, suspensa do gancho formado pelo membro dele.

Tem os braços postos de lado, ela, desafiadora.   Mas diabo para aquilo, inclina-se para ele e envolve os braços em torno do pescoço dele, cabeça contra o ombro dele, e agarra-se bem.

Ele agora leva-os em rappel a deslizar pela corda e em breve estão na Jangada, na sua versão russa, próspera e higiénica.

“Bem, afinal qual é o teu nome?” – diz ela.

“Dmitri Ravinoff – diz ele – Mais conhecido como Raven.”

Oh, merda.

 

As ligações entre barcos são uma confusão e imprevisíveis.   Para se ir do ponto A ao ponto B tens que deambular por ali às voltas.   Mas Raven sabe para onde vai.   De vez em quando estende o braço para apanhar a mão dela, mas não a arrasta a reboque embora ela seja um bocado mais lenta do que ele.   Farta-se de olhar para trás para ela, aquele sorriso sardónico como ‘podia magoar-te mas não o vou fazer’.

Chegam a um local onde o bairro russo se liga aí ao resto da Jangada por meio de uma larga prancha de acesso guardada por uns chavalos com UZIs.   Raven ignora-os pega de novo na mão de Y.T. e segue a direito com ela  através da ponte.   Y.T. nem tem tempo para pensar nas implicações disto antes que a verdade a atinja, olha em redor para ver todos aqueles asiáticos esqueléticos olhando extasiados para ela como se fosse uma refeição de cinco pratos e alcança então aquilo tudo: estou na Jangada.   Mesmo na Jangada.

“Estes são vietnamitas de Hong Kong – diz Raven – Começaram no Vietname e vieram para Hong Kong como boat people depois dessa guerra lá – portanto têm vivido em sampanas há um par de gerações até agora.   Não estejas assustada, isto não é perigoso para ti.”

“Não imagino se conseguirei encontrar o caminho de volta até cá.”

“Relax – diz ele – Nunca deixei perder nenhuma namorada.”

“Já alguma vez tiveste alguma namorada?”

Raven lança a cabeça para trás e ri-se – “Uma quantidade delas, nos velhos tempos.   Não muitas, nos últimos anos.”

“Oh, yeah.   Nos velhos tempos?   Foi nessa altura que arranjaste essa tatuagem?”

“Yeah.   Sou um alcoólico.   Costumava meter-me sempre em sarilhos.   Ando sóbrio há oito anos.”

“Então como é que todos andavam com medo de ti?”

Raven volta-se para ela, sorri abertamente, encolhe os ombros – “Oh, porque sou um incrível matador, a sangue-frio, implacável e eficiente, estás a ver.”

Y.T. ri-se.   E Raven faz o mesmo.

“O que é que fazes?” – pergunta Y.T.

“Sou um arpoador” – diz ele.

“Como no Moby Dick?” – Y.T. gosta da ideia.   Leu o livro na escola.   Muitos dos da sua turma, mesmo os sabichões, confiavam que o livro fosse totalmente verídico.   Mas ela gostou de tudo aquilo sobre  arpoamentos.

“Ná.   Comparados comigo esses mobidiquezecos eram uns toscos.”

“Que tipo de coisas é que arpoas?”

“É só escolheres.”

A partir dali ela vai só olhando para ele.   Ou para objectos inanimados.   Porque de outra forma ela não verá mais nada a não ser milhares de olhos escuros a fixarem-se também nela.   Deste modo, é uma mudança radical, em vez de ser uma sopeira perante aqueles reprimidos todos.

Parte da razão para isso é por ela ser tão diferente.   A outra parte, é por não haver qualquer privacidade na Jangada, ao seguires o teu caminho vagueias por ali a saltitar de um barco para outro.   Mas cada um dos barcos é a casa para algumas três dúzias de pessoas e assim é como andares a passar constantemente através das salas de estar do pessoal.   E das suas casas de banho.   E dos seus quartos.   Naturalmente que têm que olhar para ti.

Passam sonoramente uma plataforma improvisada construída sobre bidões de combustível.   Um par de gajos vietnamitas estão ali em discussão ou a regatear sobre qualquer coisa, parece ser uma posta de peixe.   O que está virado para eles vê-os chegar.   Os olhos dele tremeluzem passando Y.T. sem se fixarem nela, é em Raven que param, e esbugalham-se então.   Ele recua.   O gajo com quem está a  conversar, o que está ali de costas para eles, volta-se e literalmente dá um pulo no ar, soltando um ronco contido.   Ambos põem-se bem a milhas do caminho de Raven.

E então é que toma consciência de algo importante: esta gente não está a olhar para ela.   Nem sequer lhe concedem um segundo olhar.   Todos eles olham é para Raven.   E não é apenas um caso de observação de celebridades ou qualquer coisa assim.   Todos estes chavalos da Jangada, estes rapazolas do mar fortes e temíveis, estão ali cagados de medo deste gajo.

E ela num caso com ele.

E isto está apenas no início.

Subitamente, ao caminharem através de outra sala de estar vietnamita, Y.T. entrega-se a um flash-back – regressa em pensamento à mais dolorosa conversa que alguma vez teve, e que terá sido há um ano atrás quando a mãe tentou aconselhá-la sobre o que fazer se um rapaz fosse atrevido com ela.   Yeah, mamã, certo.   Vou ter isso em mente.   Yeah.   Decerto que me vou lembrar disso.   Y.T. sabia que o conselho não valia a pena e isto vai mostrar que ela tinha razão.

48

Estão quatro homens na jangada salva-vidas: Hiro Protagonist, correspondente por conta própria da Central Intelligence Corporation, cuja prática costumava estar limitada às assim denominadas ‘dry operations’[23] querendo dizer que andava apenas por aí a absorver informação para posteriormente a ‘cuspir’ para a Biblioteca, a base de dados da CIC, sem no fundo chegar a fazer nada.   Mas agora a sua prática acaba de se tornar formidavelmente ‘wet’ – molhada.   Hiro está armado com as duas espadas e uma pistola semi-automática de nove milímetros conhecida coloquialmente como uma ‘nove’ - com dois carregadores de onze balas cada.

Vic, apelido não especificado.   Se ainda houvesse uma coisa como o tal IRS – um imposto sobre rendimentos, então todos os anos quando Vic fosse preencher o seu formulário modelo 1040, iria pôr como ocupação ‘sniper’ – franco atirador.   Num estilo clássico à sniper, Vic é reticente, discreto.   Está armado com uma espingarda longa e de grosso calibre com um volumoso mecanismo montado no topo onde poderia ser encontrada uma mira telescópica se Vic não pertencesse à nata da sua profissão.   A natureza exacta de tal aparelho não é óbvia mas Hiro presume ser um sistema sensor sofisticadamente acurado com uma finíssima mira sobreposta no seu centro.   Seguramente poder-se-á presumir que Vic transporte escondidas  adicionalmente algumas pequenas armas.

Eliot Chung.   Eliot costumava ser o comandante de um barco chamado Kowloon.   Neste momento encontra-se entre um emprego e o próximo.   Eliot cresceu em Watts, e quando fala inglês parece um gajo negro.   Geneticamente falando, ele é inteiramente chinês.   É fluente tanto em inglês de pretos como de brancos, bem como em cantonês, Taxilinga, e fala alguma coisa de vietnamita, espanhol e mandarim.   Eliot está armado com um revólver Magnum .44 que levara para bordo do Kowloon ‘apenas para os halibutes’, i.e. – isto é, usava-o para executar halibutes antes que os passageiros os içassem para bordo.   Os halibutes atingem grande tamanho e conseguem mexer-se com tal violência que facilmente podem matar a pessoa que os fisga; assim sendo é mais prudente enfiar-lhes um número de balázios na mona antes de os trazer para bordo.   Esta é a única razão porque Eliot anda com uma arma; outras necessidades defensivas do Kowloon eram cuidadas por membros da tripulação que eram especialistas nesse tipo de coisas.

‘Fisheye’ – o Olho de Peixe.   Este é o tipo com o olho de vidro.   Ele irá apenas identificar-se por essa alcunha.   Está armado com uma grande e gorda mala preta.

A mala tem o aspecto de possuir uma constituição maciça, com rodinhas incorporadas, e pode pesar qualquer coisa entre cento e cinquenta quilos ou uma tonelada, é o que Hiro descobre quando tenta movê-la.   O seu peso transforma o normalmente liso chão da jangada salva-vidas num cone enrugado.   A mala possui um apêndice que chama a  atenção: um cabo flexível com a grossura de três polegadas, ou mangueira, ou algo assim, com alguns metros de comprido, que emerge de um dos cantos, corre ao longo do chão inclinado do salva vidas, passa sobre a borda e continua água adentro.   No fim deste misterioso tentáculo encontra-se um pedação de metal do tamanho de um cesto de papéis, mas tão ricamente esculpido em tantas saliências fininhas e estrias que acaba por parecer reunir uma área de superfície do tamanho de Delaware.   Hiro apenas viu aquela coisa fora de água por alguns breves e caóticos instantes, quando aquilo foi transferido para bordo da jangada salva-vidas.   Nessa altura estava incandescente num vermelho rubro.   Desde então tem-se mantido oculto abaixo da superfície e num tom cinzento claro, impossível de ver distintamente pois a água à sua volta está para ali agitada num ferver a sério, constante e sem fim.   Bolhas de vapor do tamanho de um punho formam-se pelo meio da sua rede em emaranhado fractal de estrias aquecidas e subindo vêm esmurrar sem cessar a superfície oceânica todo o santo dia e noite.   A jangada, sem motor, açoitando ali pelo Pacífico norte, emite uma larga pluma de vapor em expansão, como o que é largado de um ‘cavalo de ferro’ chocalhando a toda a brida ao galgar sobre a Divisória Continental. – a grande cordilheira que divide a América do Norte de alto a baixo.

Nem Hiro nem Eliot falam, ou se referem sequer, ao facto por agora óbvio que o Fisheye está ali a viajar com uma pequena e auto-confinada fonte de energia nuclear – quase de certeza isótopos radiotérmicos do género dos que accionam os Tipo-Ratos.   Enquanto Fisheye evitar tocar nesse facto será deselegante da parte deles trazer o assunto à baila.

Todos os participantes estão envolvidos em fatos almofadados e de um laranja vivo que lhes cobrem integralmente o corpo.   São versões para o Pacífico norte dos coletes salva-vidas.   Volumosos e mal-jeitosos mas Eliot Chung gosta de dizer que nestas águas boreais a única coisa que um colete salva-vidas faz é manter-te o cadáver a flutuar.

O salva-vidas é como uma jangada insuflável com cerca de três metros de comprimento e sem estar equipada com motor.   Tem uma calote em género de tenda à prova de água em que eles podem correr um zip a toda a volta tornando-a numa cápsula estanque de modo a que a água permaneça no exterior mesmo nas mais violentas condições atmosféricas.

Ao longo de uns dois dias, um tremendo vento gelado proveniente das montanhas tem vindo a afastá-los do Oregon em direcção ao mar alto.   Eliot explica, animadamente, que este salva-vidas foi inventado nos antigos tempos em que existiam marinhas e guardas costeiras que acorreriam em auxílio para salvar viajantes em dificuldades.   Tudo o que se tinha a fazer era flutuar e ser-se cor de laranja.   Fisheye possui um walkie-talkie mas é um aparelho de curto alcance.   E há o computador de Hiro que é capaz de se conectar à rede, mas nesse aspecto aqui está tal e qual como um telefone celular – não funciona no meio de sítio nenhum.

Quando o tempo está extremamente chuvoso eles sentam-se por debaixo daquela cobertura.   Quando está menos chuva, sentam-se por cima dela.   Todos eles encontram formas de passar o tempo.

Hiro, entretém-se por ali às voltas com o seu computador, naturalmente.   Estar à deriva no Pacífico num salva-vidas é uma perfeita localização para um hacker.

Vic lê e relê uma novela de bolso toda encharcada que tinha numa algibeira do seu impermeável ‘Mafia’ na altura em que o Kowloon se sumiu numa explosão debaixo dos pés deles.   Estes dias de espera são para ele muito mais fáceis.   Como sniper profissional sabe bem como matar  tempo.

Eliot vai olhando para as coisas pelos seus binóculos, haja embora pouco para que se olhar.   Passa um bom pedaço de tempo a tratar da jangada salva-vidas, inquietando-se com ela do mesmo modo que o fazem os capitães dos respectivos barcos.   E dedica-se um bom bocado à pesca.   Têm uma quantidade de comida armazenada no salva-vidas mas o ocasional halibute fresco e o salmão caem sempre bem.

Fisheye fisgou o que aparenta ser um manual de instruções de dentro daquela pesada mala preta.   É um livrinho desses com capas de três argolas, com páginas de texto impresso numa laser.   A capa do manual é uma daquelas baratas sem qualquer marca especial, adquirida numa papelaria.   Nesse aspecto é algo familiar para Hiro: aquilo traz todos os sinais de um produto ‘alta-tecno’ ainda em fase de desenvolvimento.   Todos os equipamentos tecnológicos requerem documentação de algum género mas tal material apenas pode ser escrito pelos técnicos que fazem o desenvolvimento do próprio produto e eles abominam absolutamente esta parte, deixam sempre a questão dox – documentos/xerox – para o último minuto.   Pegam então num processador de texto e digitam algum material, passam-no para a impressora laser, enviam a secretária do departamento à rua comprar uma capa económica, e está feito.   Mas a leitura disto só ocupa Fisheye um bocadinho.   O resto do tempo passa-o com o olhar fixo no horizonte como se estivesse à espera que a Sicília saltasse ali à vista.   O que não acontece.   Ele está desanimado com o falhanço da sua missão e gasta uma quantidade de tempo ali a resmungar baixinho, procurando uma forma de ainda salvar aquilo.

“Se não se importa que lhe pergunte – diz Hiro – afinal qual era a sua missão?”

Fisheye pensa na resposta um pouco – “Bem, isso depende da forma como vires a coisa.   Nominalmente, o meu objectivo é recuperar uma miúda de quinze anos das mãos desses palermas.   Portanto a minha táctica era apanhar como reféns um punhado dos chefões deles e negociar depois uma troca.”

“Quem era essa pequena de quinze anos?”

Fisheye encolhe os ombros – “Tu conhece-la.   É Y.T.”

“E era esse todo o seu objectivo?”

“A coisa mais importante, Hiro, é que tens que entender a maneira de proceder da Máfia.   E o procedimento da Máfia é que perseguimos objectivos vastos sob o manto de relacionamentos pessoais.   Assim, por exemplo, quando eras um gajo das pizzas não fazias a entrega de pizzas com mais rapidez porque então conseguias assim mais dinheiro ou porque isso fosse qualquer tipo de política da porra.   Fazias isso dessa forma pois estavas a levar a cabo, a aplicar, um entendimento pessoal entre Uncle Enzo e cada cliente.   Esta é a maneira como evitamos cair na armadilha da ideologia auto-perpetuante.   A ideologia é um vírus.   Portanto ter essa miúda de volta é mais do que apenas ter essa miúda de volta.   É a manifestação concreta de um objectivo político abstracto, estratégico.   E nós gostamos do concreto – correcto, Vic?”

Vic permite-se um sorriso escarninho sensato e um riso gargalhado mais profundo.

“Qual é o vosso objectivo político estratégico nesta situação?” – diz Hiro.

“Não é o meu departamento isso – diz Fisheye – Mas penso que Uncle Enzo sente-se mesmo lixado com o L. Bob Rife.”

 

Hiro entretém-se a vaguear pela Flatlândia – a duas dimensões – usando o seu computador.   Faz a coisa assim em parte para economizar as baterias do computador: desenhar um escritório tridimensional ocupa uma série de processadores a funcionarem a tempo inteiro, enquanto a elaboração de uma ‘desktop’ bidimensional – um ambiente de trabalho –  requer uma capacidade mínima de energia.

Mas a sua razão principal para se manter em ambiente Flatlândia é que Hiro Protagonist, o último dos hackers em freelance, está agora a trabalhar mesmo em hacking.   E quando hackers se põem mesmo nessa de hacking, não se envolvem, não se preocupam, com esse mundo superficial de Metaversos e avatars.   Descem bem abaixo do nível da superfície e mergulham no ‘mundo inferior’ do código e do emaranhado de nam-shubs que o suportam, onde tudo o que vês no Metaverso - não importa quão emuladores da vida, belos e tridimensionais sejam - se reduzem aqui a um simples ficheiro de texto: uma série de letras numa página electrónica.   É um retrocesso aos dias em que as pessoas programavam computadores através de primitivos teletipos e cartões perfurados IBM.

Desde então foram sendo desenvolvidas ferramentas de programação simpáticas e ‘amigas do utilizador’.   É possível agora programar-se um computador, estando tu sentado à tua secretária no Metaverso e manualmente ir ligando pequenas unidades pré-programadas como quem monta um brinquedo da Tinkertoys.   Mas um hacker a sério nunca irá usar técnicas dessas da mesma forma que um mestre de mecânica automóvel não se contentará em arranjar um veículo esgueirando-se para trás do volante a olhar para aquelas luzinhas idiotas no painel de instrumentos.

Hiro não sabe o que está a fazer, para o que é que se está a preparar.   Mesmo assim, está okay.   A maior parte da programação é uma questão de ir deixando alicerces, construir estruturas de palavras que parece até não terem qualquer conexão particular à tarefa em curso.

Uma coisa ele sabe: o Metaverso tornou-se agora num lugar onde se pode ser morto.   Ou, no mínimo, teres o teu cérebro esfarelado a tal ponto que se poderá bem considerar como estando morto.   Temos assim uma mudança radical na natureza deste lugar.   As Armas chegaram ao Paraíso.

Vê agora como o panorama se prestou perfeitamente a isso.   O local fora criado de forma demasiado vulnerável.   Calculara-se que a pior coisa que poderia acontecer era um vírus ser transferido para o teu computador e forçar-te a tirar óculos, e a voltares a ligar o teu sistema.   Talvez destruindo um pedaço pequeno de dados se tivesses sido suficientemente estúpido para não teres instalado qualquer medicina.   E é assim que se tem o Metaverso completamente à mercê, todo aberto e indefeso, como os aeroportos antes dos dias dos detectores de metais e de explosivos, como as escolas básicas nos tempos anteriores aos maníacos com espingardas de assalto.   Qualquer um pode entrar e fazer tudo o que lhe der na gana.   Aqui não há bófia.   Não te podes defender, não podes dar caça aos maus.   Vai levar um bom bocado de trabalho para mudar este estado de coisas – uma reconstrução fundamental de todo o Metaverso, a levar a cabo mundialmente, a nível de uma corporação.

No entanto, deverá haver um papel para indivíduos que conhecem o seu caminho por esses sítios.   Alguns hacks – golpes e engenho – podem fazer toda a diferença nesta situação.   Um hacker em freelance pode conseguir realizar uma merda em grande antes mesmo que as enormes fábricas de software se direccionem para tratar do problema.

 

O vírus que investiu pelo cérebro de Da5id adentro era uma corrente de informação binária que lhe surgiu a brilhar perante o rosto na forma de um bitmap – uma série de pixels brancos e pretos em que o branco representava o zero e o preto representava o um.   Colocaram esse bitmap nos desenhos dos tais  pergaminhos e deram esses rolos de pergaminhos a avatars que foram pelo Metaverso em busca de vítimas.

O avatar Clint que tentou infectar Hiro dentro do Black Sun escapou-se mas deixara para trás o seu rolo de papiro – ele não calculou em ficar com os braços aparados – e Hiro largou o pergaminho depois no sistema de túneis subterrâneo, lugar dos Daemons do Cemitério.   Posteriormente, Hiro fez com que um desses Daemons carregasse o tal rolo até ao seu atelier de trabalho.   E tudo o que está no interior dessa casa – virtual – de Hiro, está por definição armazenado no interior do seu próprio computador.   Nem tem sequer que se ligar à rede global para lhe ter acesso.

Não é fácil trabalhares com uma peça de informação que pode dar cabo de ti.   Mas está okay.   Na Realidade, o pessoal trabalha com substâncias perigosas a toda a hora – isótopos radioactivos e químicos tóxicos.   Apenas temos que usar as ferramentas certas: braços manipuladores remotos, luvas, viseiras, vidro chumbado.   E em termos de Flatlândia – nesta terra espalmada, ambiente de trabalho a duas dimensões – quando vês que precisas de uma ferramenta, o que fazes é sentares-te e escreve-la.   Portanto Hiro principia por escrever alguns programas simples que lhe permitem manipular o conteúdo do rolo sem sequer chegar a vê-lo.

O papiro, tal como qualquer outra coisa visível no Metaverso, é uma peça de software.   Contém algum código que descreve como é o seu aspecto, para que o teu computador possa saber como desenhá-lo, e ainda, algumas rotinas que governam a forma como se enrola e desenrola.   E contém, nalgum sítio dentro dele, uns recursos – um pedaço de dados – a versão digital do vírus Snow Crash.

Uma vez que o vírus tenha sido extraído e isolado, é bastante fácil para Hiro escrever um novo programa chamado SnowScan.   SnowScan é uma peça de medicina.   Isto é, é um código que protege o sistema de Hiro – quer o seu equipamento informático quer, como Lagos decerto lhe chamaria, o seu bioware, o seu próprio organismo vivo – do vírus Snow Crash digital.   Uma vez instalado por Hiro no seu sistema, irá constantemente vasculhar toda a informação que chegar vinda do exterior, à procura de data – uma correnteza de dados, de caracteres que igualem -  que seja idêntica ao conteúdo do papiro.   Caso detecte tal informação ela é bloqueada.

Há outro trabalho a realizar na Flatlândia.   Hiro é bom nessa coisa de avatars e portanto trata de escrever ele próprio um avatar invisível – só por causa de que, no novo e mais perigoso Metaverso dos dias de hoje, poderá vir a revelar-se útil.   Isto é coisa fácil de se fazer na sua versão fatela mas surpreendentemente truculento para sair uma coisa bem feita.   Quase qualquer um pode escrever um avatar que não se pareça com nada, mas isso conduzirá a uma série de problemas quando for usado.   Alguma propriedade imobiliária no Metaverso – incluindo o Black Sun – quer saber quão grande é o teu avatar para que possa calcular se estás em colisão com outro avatar ou algum obstáculo.   Se lhe devolveres uma resposta de ‘zero’ – fazes o teu avatar infinitamente pequeno – ou vais ‘crashar’ / rebentar com esse módulo de propriedade imobiliária, ou então pô-lo a pensar que algo está completamente errado.   Estarás invisível mas onde quer que vás no Metaverso vais deixar uma esteira de destruição e confusão com um quilómetro de largura.

Noutros locais os avatars invisíveis são ilegais.   Se o teu avatar é transparente e não reflectir assim qualquer luz que seja – o tipo mais fácil de se escrever – ele será instantaneamente reconhecido como um avatar ilegal e os alarmes soam.   Terá que ser escrito de tal modo que as outras pessoas não o vejam mas que o software de propriedade imobiliária não saiba que ele é invisível.

Há cerca de uma centena de truquezinhos como este que Hiro não conheceria se não tivesse estado a programar avatars para gente como Vitaly Chernobyl nos últimos dois anos.   Para se escrever de raiz um avatar invisível realmente bom isso levará um certo pedação de tempo mas em poucas horas conseguiu ter um montado, ao reciclar pedacitos aqui e acolá de antigos projectos deixados por aí no seu computador.   Que é afinal como os hackers habitualmente fazem as coisas.

E enquanto vai fazendo isso tropeça num directório mesmo antigo com um módulo de software de transporte lá dentro.   Isto é um legado daqueles dias mesmo dos primórdios do Metaverso, anteriores à existência do monocarril, quando a única forma que tinhas para te deslocares era caminhares ou escreveres tu mesmo um módulo de ware / código, que simulasse um veículo.

Nesses primeiros dias, quando o Metaverso não passava de uma indistinta e nua esfera negra, isso era tarefa trivial.   Posteriormente, quando a Street disparou e o pessoal principiou a construir propriedade imobiliária, a coisa tornou-se mais complicada.   Na Street, podes passar através de avatars de outras pessoas.   Mas não podes atravessar paredes.   Não podes entrar em propriedade privada.   E não podes passar através de outros veículos, ou através de construções permanentes pertencentes à Street como as Portas e os pilares que suportam a linha de monocarril.   Se tentares chocar com qualquer uma destas coisas, não morres ou és chutado para fora do Metaverso;   o que se passa é que és remetido a uma paragem completa, como um boneco de desenhos animados a correr de chapa contra uma parede de cimento.

Por outras palavras, uma vez que o Metaverso se começou a encher de obstáculos com os quais poderás chocar, a questão de viajares através dele a alta velocidade tornou-se subitamente mais interessante.   A manobrabilidade torna-se um dos assuntos importantes.   O tamanho torna-se um dos assuntos importantes.   Hiro e Da5id e o resto começam a largar as ideias daqueles enormes e bizarros veículos que haviam privilegiado num primeiro tempo – moradias vitorianas assentes sobre lagartas de tanques, paquetes oceânicos rolantes, esferas cristalinas de um quilómetro de diâmetro, carruagens de fogo puxadas por dragões – favorecendo antes por agora pequenos veículos manobráveis.   Motocicletas, basicamente.

Um veículo do Metaverso pode ser tão veloz e lesto como um quark.   Não há física com que nos preocuparmos, não temos constrangimentos no respeitante à aceleração, a resistência do ar não existe; os pneus nunca guincham e os travões não bloqueiam.   A única coisa em que não se pode fazer nada é quanto ao tempo de reacção do utilizador.   Assim, quando estavam a correr com a última versão de software de motocicleta, a acelerar em ‘rally’ e desvairados através da Baixa à velocidade de Mach 1, não se preocupavam quanto à capacidade do motor.   Preocupavam-se era com o interface de utilizador, os controles que permitiriam ao corredor transferir as suas reacções à máquina, para virar, acelerar ou travar, quase tão depressa quanto o pensamento.   Porque quando estás ali envolvido num grupo de corredores de mota a abrir por entre uma zona com uma multidão àquela velocidade e vais contra qualquer coisa e subitamente desaceleras para uma velocidade de zero autêntico, podes esquecer a ideia de voltar a apanhá-los.   Um só erro e perdeste.

Hiro tinha uma boa motocicleta mesmo porreiraça.   Provavelmente ele poderia ter tido a melhor mota da Street, simplesmente porque os seus reflexos são sublimes.   Mas ele estava mais preocupado com a luta de espadas do que com a condução de motas.

Abre agora a mais recente versão do seu software de motocicleta e volta a familiarizar-se com os controles.   Ascende da Flatlândia ao Metaverso tridimensional e pratica um pouco a conduzir a sua mota à volta do pátio da casa.   Para lá dos limites do seu quintal não há nada a não ser toda aquela escuridão pois não se encontra ligado à rede.   É uma sensação desoladora, de se estar perdido, como estar-se à deriva numa jangada salva-vidas no oceano Pacífico.

49

Às vezes avistam barcos à distância.   Um par destes até se aproxima para lhes deitar uma olhadela mas nenhum deles parece estar nessa disposição de os safar.   Haverá poucos altruístas na vizinhança da Jangada  e deve ser evidente que eles ali não terão muito que possa ser pilhado.

De tempos a tempos vêem um ou outro velho navio pesqueiro de mar alto, entre os quinze e os trinta metros, com cerca de meia dúzia de pequenos barcos rápidos em cacho à sua volta.

Quando Eliot os informa que estes são barcos piratas, Vic e Fisheye arrebitam as orelhas.   Vic desembrulha a sua espingarda da colecção de sacos Hefty que usa para a proteger dos borrifos salgados, e destaca dela a volumosa aparelhagem de visão e mira de modo a poder ser utilizada como óculo.   Hiro não consegue ver qualquer razão para isto, para retirar o visor da arma para tal efeito, a não ser o facto de que se não o fizeres a coisa parecerá como se fores desenhar um ponto de mira no que quer que estejas a fixar.

Sempre que um vaso pirata surge à vista todos eles à vez ficam de vigia através do óculo, usando-o em todos os diferentes modos de sensor disponíveis: espectro visível, infravermelhos, etc. e tal.   Eliot passou já tempo suficiente feito à volta do ‘Rim’ – o anel do Pacífico - que as cores dos diversos grupos de piratas, para ele, se tornaram uma familiaridade, de tal forma que ao examiná-las ao longe através do óculo consegue logo dizer quem é quem:   Clint Eastwood e o seu bando seguem paralelos a eles por alguns minutos num dos dias, estudando-os, e os Sete Magníficos até enviam um dos pequenos barcos para uma avaliação mais próxima, espreitando algum potencial saque.

Hiro quase almeja que os Sete os levem como prisioneiros, pois são os que têm o navio pirata com melhor aspecto: um antigo iate de luxo com tubos lançadores de mísseis Exocet montados sobre a coberta de proa.

Mas este reconhecimento não leva a nada.   Os piratas, iletrados no tocante a termodinâmica, não entendem as implicações daquele eterno penacho de vapor saindo por debaixo da jangada salva-vidas.

Uma manhã um grande e velho arrastão materializa-se bastante próximo deles, como que coagulando ali vindo do nada conforme o nevoeiro se levanta.   Há já algum tempo que Hiro andava a escutar o ruído dos seus motores mas não imaginou que estivesse tão perto.

“Quem é que são eles?” – diz Fisheye, apertando um copo daquele café liofilizado que tanto despreza.   Está para ali envolto num cobertor espacial, daqueles metalizados, e parcialmente aconchegado por sob a cobertura à prova de água do salva-vidas, apenas o rosto e as mãos à mostra.

Eliot percorre-os com o óculo.   Ele não é um tipo muito comunicativo mas torna-se bem claro que não fica muito feliz com o que vê – “É o Bruce Lee” – diz ele.

“O que é que isso significa?” – diz Fisheye.

“Bem, vejam-lhe lá o pavilhão” – diz Eliot.

O navio está suficientemente perto para que todos consigam ver a bandeira razoavelmente bem.   É um pavilhão vermelho com um punho prateado ao centro, um par de matracas cruzadas por baixo, e as iniciais B e L uma de um lado outra do outro.

“O que há sobre eles?” – diz Fisheye.

“Bem, o gajo que se intitula Bruce Lee e que é como o líder?   Tem uma fatiota com um pavilhão daqueles nas costas.”

“E então?”

“Então é que aquilo não é precisamente bordado ou pintado, mas é na realidade feito com escalpes.   Como uma peça de retalhos.”

“O que é que disse?” – diz Hiro.

“Existe um boato, apenas um boato, pá, que ele andou pelo meio dos barcos dos ‘Refus’  à procura de gente com o cabelo ruivo ou prateado de modo a poder recolher os escalpes de que precisava.”

Hiro está ainda a absorver aquilo quando Fisheye toma uma decisão inesperada – “Quero conversar com esse tal personagem, esse Bruce Lee – diz ele – Está-me a interessar.”

“Por que raio é que há-de querer falar com a porra desse psicopata?” – diz Eliot.

“Yeah – diz Hiro – Não viu aquela série no Eye Spy - Olho Espião?   É um maníaco.”

Fisheye eleva as mãos como para dizer que a resposta está, como na teologia católica, para além de qualquer compreensão dos mortais – “Esta é a minha decisão” – diz ele.

“Que porra é que pensa que é?” – diz Eliot.

“O presidente do raio deste barco – diz Fisheye – Eu, pela presente, nomeio-me a mim próprio.   Há mais outro?”

Yup – diz Vic, a primeira vez que falou nas últimas quarenta e oito horas.”

“Todos os que estão a favor digam aye” – diz Fisheye.

Aye” – diz Vic, soltando aquilo em florida eloquência.

“Ganho eu – diz Fisheye – Então como é que fazemos para conseguir que esses gajos do Bruce Lee venham até aqui para falar connosco?”

“Porque é que haviam eles de querer – diz Eliot – Não temos nada que eles pretendam, excepto se for para poontang[24] – o mete-e-tira.”

“Está a dizer que estes gajos são homo?” – diz Fisheye, a face enrugando-se.

“Merda, pá – diz Eliot – nem piscou os olhos quando lhe contei aquilo sobre os escalpes.”

“Eu sabia que não gramava de nenhum dos desta escória dos barcos” – diz Fisheye.

“Se fizer alguma diferença para si, eles não são gay no sentido que habitualmente imaginamos – explica Eliot – Eles são hetero mas só é que são piratas.   Vão atrás de tudo o que seja quente e côncavo.”

Fisheye toma uma decisão abrupta – “Okay, vocês os dois pá, Hiro e Eliot, vocês são chineses.   Tirem as roupas.”

“O quê?”

“Façam isso.   Eu sou o presidente, recordam-se?   Querem que o Vic trate disso por vós?”

Eliot e Hiro não podem deixar de olhar para Vic que se mantém ali sentado como um galo no poleiro.   Há qualquer coisa que inspira temor naquela sua atitude de fruição extrema.

“Fazem isso ou eu mato-vos c’o caraças” – diz Fisheye, terminando com o assunto.

Eliot e Hiro, oscilando de uma forma bera sobre o instável chão da jangada, desapertam os seus fatos de salvação e saltam deles cá para fora.   A seguir retiram o resto das suas roupas expondo ao ar a pele macia e nua pela primeira vez em vários dias.

O arrastão chega-se mesmo ali ao lado deles agora a não mais que seis metros e corta então os motores.   Estão lindamente equipados: meia dúzia de Zodiacs com motores novos fora-de-borda, um lançador de mísseis tipo Exocet, dois radares, e uma metralhadora pesada de calibre .50 em cada extremidade do barco, correntemente desprovidas de atirador.   Um par de barquitos é rebocado atrás do arrastão como se fossem dingues e cada um destes possui igualmente uma metralhadora pesada.   E há ainda um iate motorizado de uns dez metros que os segue, mas desloca-se à custa do seu próprio motor.

Há umas duas dúzias de gajos no grupo de piratas de Bruce Lee, e eles estão agora alinhados ao longo da amurada da traineira sorrindo sarcasticamente, assobiando, uivando que nem lobos, e agitando troianos  desenrolados no ar.

“Não se preocupem pá, não vou deixar q’os gajos vos fodam” – diz Fisheye com um esgar.

“O que é que vai fazer – diz Eliot – ler-lhes uma encíclica papal?”

“Estou seguro que eles irão ouvir a voz da razão” – diz Fisheye.

“Esses gajos não se assustam com a Máfia, se é isso que tem em mente” – diz Eliot.

“Isso é só porque não nos conhecem devidamente.”

Surge o líder, finalmente, é ele mesmo, o Bruce Lee, um gajo quarentão com um colete em Kevlar, um colete de munições esticado sobre esse outro, uma bandoleira em diagonal, espada samurai – Hiro havia de gostar de se atirar a ele – matracas, e a sua bandeira, aquele  conjunto de retalhos em escalpes humanos.

Manda-lhes rápido e amplo sorriso sarcástico, um olhar a Hiro e Eliot, e atira-lhes um altamente sugestivo gesto, polegares decididamente erguidos, e percorre então empertigado todo o comprimento do navio de um lado ao outro e volta uma vez, trocando highfives - palmadas mão com mão - com os seus hommens, todos alegres.   Farta-se de escolher ao acaso um ou outro dos piratas e faz um gesto para o troiano do homem.   O pirata leva o seu preservativo aos lábios e põe-se a insuflá-lo, tornando-o num balão escorregadio e listrado.   Bruce Lee então inspecciona aquilo certificando-se que não apresenta fugas.   Sem dúvida que o homem dirige um navio estanque.

Hiro não consegue deixar de olhar para aqueles escalpes nas costas de Bruce Lee.   Os piratas reparam no seu interesse e fazem-lhe caretas, apontando para os escalpes, assentando com a cabeça, olhando para ele com olhos trocistas, esbugalhados.   As cores parecem ser demasiado uniformes – sem mudança naquele ruivo de uma para outra.   Hiro conclui que Bruce Lee, contrariamente à sua reputação, terá ido por aí fora à cata de escalpes de qualquer das velhas cores habituais, descoloriu-os e tingiu-os depois.   Mas que ineficaz.

Finalmente, Bruce Lee retoma o seu caminho até meia nau e atira-lhes novo esgar amplo.   Tem mesmo aquele sorriso sardónico imenso, ofuscante, e ele sabe-o; talvez sejam esses diamantes Krazy Glued, de um quilate, nos seus dentes da frente.

“Barcocheio – diz ele – Talvez vocês, eu, trocar, huh?   Hahaha!”

Todos na jangada salva-vidas, excepto Vic, sorriem, apenas um sorrisinho frágil.

“Onde vocêvão?   Key West?   Hahaha!”

Bruce Lee examina por um instante Hiro e Eliot e faz rodar o seu dedo indicador para dizer que eles devem girar, dar uma volta completa, e mostrar a outra extremidade do assunto.   O que eles fazem.

Quanto es?   - diz Bruce Lee, e todos os piratas se elevam numa barulheira.   Bruce Lee mais que todos.   Hiro sente o seu esfíncter anal contrair-se, ficar do tamanho de um poro.

“Ele está a perguntar quanto é que custamos – diz Eliot – É uma piada, estão a ver, pois sabem que podem vir logo aqui e apanhar as nossas peidas de graça.”

“Oh, hilariante! – diz Fisheye.   Enquanto Hiro e Eliot se encontram literalmente de rabos paralisados, ele está ainda para ali envolto sob o dossel da jangada, aquele bastardo.

“ ‘poon-míssil, assim? – diz Bruce Lee apontando para um dos mísseis anti-navios no convés – Bugs?   Motorolas?”

Poon-míssil é um míssil anti-navios Harpoon, realmente caro – diz Eliot – um bug é um microchip.   Motorola é uma das marcas como Ford ou Chevrolet.   Bruce Lee negoceia bem em electrónica – estão a ver, o típico pirata asiático armalhão.”

“Ele vai-nos dar um míssil Harpoon por vocês, pá?” – diz Fisheye.

“Não!   Seu burro, está só a ser sarcástico” – diz Eliot.

“Diz-lhe que queremos um barco com motor fora de borda” – diz Fisheye.

“Queremos um zode – um Zodiac - motoreco e depositatestado” – diz Eliot.

Subitamente Bruce Lee torna-se totalmente sério e na verdade considera aquilo – “Cláusula ver antes, mostramininos, hãn?   Medida calibre e aperto.”

“Ele irá considerar isso se puder vir inspeccionar primeiro a mercadoria – diz Eliot – Querem verificar quão fechadinhos estamos e se somos capazes de suprimir o reflexo de aperto.   Isso são tudo termos da indústria de bordel na Jangada.”

“Minininhos ser como ‘dozes’ para mim, hahaha.”

“Os nossos rapazolas parecem-se como se tivéssemos uns cus calibre 12 mm – diz Eliot – i.e. quer dizer que estamos todos escafiados e sem valor.”

Fisheye fala por mote próprio: “Não, não, quatro-dez[25], completamente!”

Todo o convés do navio pirata ri-se contidamente, em excitação.

“Nem pensar” – diz Bruce Lee.

“Estes minininhos – diz Fisheye – ainda trazem as cerejas lá no sítio.”

Todo o convés irrompe num brutal e gritado riso.   Um dos piratas abana-se todo para se equilibrar sobre a amurada, rodopia um dos punhos no ar e berra: “ba ka na zu ma lay ga no ma la ria ma na po no a abzu...”   - E nessa altura todos os outros piratas pararam o riso, adoptam um ar sério nos rostos e juntam-se-lhe, soltando os seus discursos daquele balbuciar, chocalhando o ar com um ulular rouco profundo.

Os pés de Hiro fogem de debaixo dele conforme a jangada se move subitamente; consegue ver Eliot a tombar ao seu lado.   Olha para o barco de Bruce Lee e involuntariamente estremece ao ver o que lhe parece uma onda negra encrespar-se na amurada, varrendo por sobre a fila de piratas aí de pé.   Começando na popa do arrastão e progredindo no seu caminho para a vante.   Mas isto não passa de um qualquer tipo de ilusão óptica.

No fundo nem se trata de nenhuma onda.   Subitamente eles encontram-se já a uns quinze metros de distância do arrastão, e não a seis.   Conforme fenece o riso pela amurada Hiro apercebe-se de um novo som: um ruído grave de uma coisa que zumbe girando rápido, proveniente da direcção de Fisheye e da atmosfera em torno deles, um barulho de algo sibilante e de rompimento, como o som no momento imediatamente antes à queda de um raio, como o som de lençóis a serem rasgados ao meio.

Olhando para trás para o arrastão de Bruce Lee, vê que aquele fenómeno tipo vaga sombria era uma onda de sangue, como se alguém desse ali uma mangueirada ao convés com alguma aorta gigante estropiada.   Mas não provinha do exterior aquilo.   A erupção vinha dos corpos dos piratas, um de cada vez, a coisa a mover-se da popa à proa.   O ‘deck’ do navio de Bruce Lee encontra-se já numa absoluta quietude e paralisia exceptuando o sangue e órgãos internos gelatinosos escorrendo pelo aço ferrugento abaixo e chapinhando suavemente ao cair à água.

Fisheye está apoiado agora nos joelhos e desenvencilhou-se já da calote e do cobertor espacial que o cobrira até este momento.   Numa das mãos empunha um aparelho comprido com uns cinco centímetros de diâmetro, e que é a origem daquele ruído em zumbido.   É um feixe circular de tubos paralelos cada um com a grossura de um lápis e sessenta centímetros de comprimento, como uma metralhadora rotativa Gatling em miniatura.   Gira tão veloz que é difícil distinguir os tubos individualmente; quando em operação aquilo torna-se de facto fantasma e transparente devido a esta rápida rotação, uma nuvem translúcida e resplandecente sobressaindo do braço de Fisheye.

O aparelho encontra-se conectado a um molho com a grossura de um punho de tubos negros e cabos que serpenteiam em direcção àquela mala grande que está ali aberta sobre o chão da jangada.   A mala possui incorporado um écran - um monitor a cores - com gráficos fornecendo informação sobre o status deste sistema de armas: quantas munições tem ainda, e a situação dos diversos sub-sistemas.

Hiro tem tempo de lançar um olhar breve a isso antes de todas as munições a bordo do navio de Bruce Lee começarem a deflagrar.

“Vês, bem te disse que eles haviam de escutar a voz da Razão” – diz Fisheye desligando a arma rotativa.

Hiro vê agora uma placa com o nome daquilo, afixada sobre o painel de controle

 

REASON[26]

Versão 1.0B7

Tipo Gatling 3 mm hipervelocidade – Railgun (Arma de sistema eléctrico linear acelerador de projécteis)

Ng Security Industries, Inc.

Versão de pré-lançamento – Não é para uso operacional

Não testar em zona habitada

ULTIMA RATIO REGUM

 

 

“A porra do recuo atirou-nos a meio caminho para a China” – diz Fisheye apreciativamente.

“Você é que fez isto?   O que é que se passou?” – diz Eliot.

“Sim, fui eu.   Com a ‘Razão’.   Vejam, dispara estas pequenininhas lascas metálicas.   Vão muitíssimo rápido – mais energia que a bala de uma espingarda.   Urânio empobrecido.”

Os canos giratórios abrandaram agora para um estado que é quase de paragem completa.   Parece haver ali umas duas dúzias daqueles canos.

“Pensava que odiasse metralhadoras” – diz-lhe Hiro.

“Odeio ainda mais esta maldita jangada.   Vamos mas é ver se conseguimos arranjar algo que marche.   Qualquer coisa que tenha um motor.”

Devido aos incêndios e pequenas explosões que eclodem no barco pirata de Bruce Lee, ainda lhes leva um minuto a aperceberem-se de que algumas pessoas estão ainda vivas aí, e ainda a disparar sobre eles.   Quando Fisheye disso toma consciência volta a premir o gatilho, os canos zunem de novo em rotação tornando-se como num cilindro transparente, e mais uma vez temos a principiar aquele ruído sibilante e de algo que se rasga.   Conforme ondula a arma para a frente e para trás, regando todo o alvo com aquela chuveirada hipersónica de urânio empobrecido, toda a embarcação de Bruce Lee parece faiscar e resplandecer, como se a Tinkerbell do Peter Pan estivesse a esvoaçar por ali para trás e para a frente de um lado ao outro, borrifando um pozinho de fadas nuclear sobre aquilo tudo.

O iate mais pequeno de Bruce Lee comete o erro de vir dar um giro por lá, para cheirar o que se passa.   Fisheye vira agora a coisa na direcção dele por um momento e a sua alta e protuberante ponte começa a escorregar para a água.

Na traineira, os maiores elementos estruturais principiam a perder a integridade.   Do interior soltam-se uns ruídos enormes de estalos e de coisas a retorcerem-se, conforme enormes peças metálicas dão de si e a superestrutura lentamente vai abatendo para dentro do casco como um souflé retardado.   Quando Fisheye repara nisso deixa de disparar.

“Corte isso tudo, boss” – diz Vic.

“Estou comovido” – exulta Fisheye.

“Podíamos ter usado esse arrastão, palerma” – diz Eliot, vingativamente agarrando de novo nas calças.

“Eu não quis mandá-lo pelos ares.   Calculo que aquelas pequenas balas atravessaram tudo e mais alguma coisa.”

“Belo raciocínio, Fisheye” – diz Hiro.

“Bom, lamento ter desencadeado uma pequena acção para salvarmos o rabo.   Vamos lá a ver se apanhamos um dos barcos pequenos deles antes que todos se incendeiem.”

 

Remam na direcção do decapitado iate.   Por alturas em que o alcançam, o arrastão de Bruce Lee não passa de um casco em aço vazio, adernado, com chamas e fogo a escapulirem-se dele, e temperado por uma ou outra explosão.

A porção que resta do iate tem muitos, muitos pequeninos buraquinhos nela feitos, e brilha com todos aqueles fragmentos explodidos de fibra de vidro: um milhão de pequeníssimas fibras de vidro com cerca de um milímetro de comprimento.   O comandante e alguns membros da tripulação, ou antes, aquele guisado em que se tornaram quando a ponte foi tocada pela Razão, deslizaram até à água juntamente com o resto dos destroços não deixando atrás qualquer evidência de ali terem estado a não ser um par de rastos compridos e paralelos desaparecendo em direcção à água.   Mas ficou ali um rapaz filipino lá em baixo na cozinha -  uma cozinha que está bem lá no fundo - ileso e só levemente ciente do que aconteceu.

Uma quantidade de cabos eléctricos foram cortados ao meio.   Eliot desencanta uma caixa de ferramentas lá em baixo e passa as doze horas seguintes a remendar as coisas de forma a que o motor possa ser ligado e o iate consiga ser conduzido.

Hiro, que tem um conhecimento rudimentar sobre equipamento eléctrico, funciona como um assistente e conselheiro auxiliar mas é mais um  ‘empatas’.

“Ouviste a forma como os piratas falavam antes do Fisheye abrir fogo sobre os gajos?” – pergunta Hiro a Eliot enquanto se encontram a trabalhar.

“Estás a dizer, aquilo em pidgin, em dialecto-calão?”

“Não.   Mesmo no fim.   Aquele balbuciar.”

“Yeah.   É uma coisa da Jangada.”

“É?”

“Yeah.   Um dos gajos começa e o resto acompanha logo.   Penso que é apenas uma mania.”

“Mas aquilo é comum lá na Jangada?”

“Yeah.   Todos eles falam línguas diferentes como sabes, todos aqueles diferentes grupos étnicos.   É como aquela porra da Torre de Babel.   Penso que quando eles fazem aquele som – se põem naquele balbuciar, no blá-blá-blá uns para os outros – estarão apenas a imitar o que lhes soam todos os outros grupos.”

O puto filipino começa a cozinhar-lhes alguma comida.   Vic e Fisheye sentam-se na cabina principal lá em baixo, a comer e a folhear algumas revistas chinesas, admirando fotografias de miúdas asiáticas e olhando ocasionalmente para cartas náuticas.   Quando Eliot consegue restaurar o sistema eléctrico e pô-lo a funcionar, Hiro liga o computador pessoal à corrente para recarregar as baterias.

Na altura em que o iate fica outra vez operacional e a navegar está de novo escuro lá fora.   A sudoeste uma coluna de luz flutuante parece brincar para trás e para diante contra aquela camada de nuvens baixas em suspensão.

“Aquilo para ali é a Jangada?” – diz Fisheye apontando na direcção da luz conforme todos convergiram para aquele improvisado centro de controle de Eliot.

“É – diz Eliot – acendem aquilo à noite para que os barcos de pesca possam encontrar o seu rumo de volta até lá.”

“A que distância é que pensas que está?” – diz Fisheye.

Eliot encolhe ombros – “Vinte milhas.”

“E a que distância estamos de terra?”

“Não tenho qualquer ideia.   O comandante do Bruce Lee provavelmente saberia mas foi feito em puré juntamente com todos os outros.”

“Tens razão – diz Fisheye – Devia ter escolhido na arma o modo ‘chicotada’ ou o modo ‘cortar’!”

“A Jangada habitualmente fica no mínimo a uns cento e cinquenta quilómetros da costa – diz Hiro – para reduzir o perigo de encalhes.”

“Como é que estamos de combustível?”

“Estive a inspeccionar o depósito com uma vareta – diz Eliot – e aquilo não parece estar muito católico, para dizer a verdade.”

“O que é que isso quer dizer?”

“Nem sempre é fácil ler assim o nível do depósito quando se está em mar alto – diz Eliot – e também não sei a eficiência destes motores.   Mas se estivermos realmente a oitenta ou cem milhas da costa pode ser que não consigamos alcançá-la.”

“Portanto vamos para a Jangada – diz Fisheye – Vamos para a Jangada e persuadimos alguém que será no seu melhor interesse dispensar-nos algum combustível.   Depois, de regresso ao continente.”

Ninguém na verdade acredita que a coisa se vai passar assim, e menos ainda Fisheye. “E – continua ele – enquanto aí estivermos, na Jangada, depois de conseguirmos o combustível e antes de irmos para casa, qualquer coisa mais poderá também passar-se, como sabem.   A vida é imprevisível.”

“Se tem qualquer coisa em mente, porque é que não a chuta já cá para fora?” – diz Hiro.

“Okay.   Decisão de estratégia.   A táctica de reféns falhou.   Portanto vamos para uma extracção.”

“Extracção de quê?”

“Da Y.T.”

“Eu alinho nisso – diz Hiro – mas tenho outra pessoa que pretendo igualmente retirar já que estamos nessa de extracção.”

“Quem é?”

“Juanita.   Então, foi você até que disse que era uma moça porreira.”

“Se está lá na Jangada talvez ela não seja assim tão boa” – diz Fisheye.

“De qualquer modo quero tirá-la de lá.   Estamos juntos nisto, correcto?   Fazemos todos parte da gang do Lagos.”

“Bruce Lee tem lá alguma malta” – diz Eliot.

“Correcção.   Tinha.”

“Mas o que quero dizer é que vão ficar chateados.”

“Tu pensas que vão ficar lixados.   Eu calculo é que vão ficar aterrorizados para o caraças – diz Fisheye – Agora limita-te a conduzir esse barco, Eliot.   Vamos lá, já estou enjoado da porra de toda esta água.”

50

Raven precede Y.T. dirigindo-se para um barco de fundo chato e com uma cobertura em toldo.   É um tipo qualquer de embarcação fluvial transformada num estabelecimento comercial vietnamita / americano / tailandês / chinês, e é ao mesmo tempo um estilo de bar/restaurante/casa de putas/antro de jogo.   Possui algumas salas grandes onde quantidades de pessoas vão-se desinibindo por aí e uma série de pequeníssimos quartos de paredes chapeadas, lá em baixo, e onde só Deus sabe que tipo de actividades se passam.

A sala principal está congestionada por um regabofe da escumalha.   O fumo faz as vias brônquicas dela encarquilharem-se que nem nós disformes.   O local encontra-se equipado com um despedaçante sistema de som digno do terceiro-mundo: pura distorção a atingir os trezentos decibéis e que ecoa das paredes em aço pintado.   Um aparelho de televisão que está como que soldado a uma das paredes vai mostrando uns desenhos animados estrangeiros, mas aquilo está num esquema de duas cores apenas, de magenta desbotado e verde limão, e nos quais um vampiresco lobo mau - quase um Wile E. Coyote com raiva - acaba por ser viciosamente executado de formas ainda mais violentas do que aquelas que até a Warner Bros. pudesse imaginar.   São uns desenhos animados amordaçados.   A banda sonora ou está ela própria inaudível ou fica esmagada sob aquela melodia estridente que vai saindo dos altifalantes.   Um punhado de dançarinas eróticas vai entretanto evoluindo numa das extremidades da sala.

A divisão encontra-se lotada de uma forma impossível, eles nunca conseguirão um lugar para se sentarem.   Mas logo a seguir a Raven entrar na sala meia dúzia de gajos a um canto levantam-se subitamente como uma mola, e dispersam dali de uma das mesas, pescando quase como que em resultado de uma ideia tardia os seus cigarros e cervejas.   Raven empurra Y.T. através da sala levando-a à sua frente como se fosse ela uma figura de proa no seu caiaque, e onde quer que vão as pessoas disparam para fora da trajectória dela empurradas por aquele quase palpável campo de força pessoal que emana de Raven.

Raven inclina-se para olhar para baixo da mesa, ergue do chão uma das cadeiras e espreita-lhe a parte inferior – nunca se é cuidadoso demais com essas ‘cadeiras-bomba’ – volta a pousá-la, encosta-a bem ao canto onde se juntam duas paredes de aço e só então é que se senta.   Gesticula a Y.T. para fazer o mesmo e ela assim faz, as costas voltadas para a acção que decorre na sala.   Daqui ela consegue ver a face de Raven iluminada praticamente por aquelas estocadas ocasionais de luz filtradas pela multidão, desferidas a partir da bola espelhada suspensa sobre as dançarinas eróticas e também pela luminosidade difusa generalizada em magenta e verde que se escoa do aparelho de TV, de vez em quando espicaçada por um relâmpago quando o lobo mau dos cartoons comete o erro de devorar mais uma bomba de hidrogénio ou tem o azar de ser esguichado com um lança-chamas.

Um criado surge imediatamente ali.   Raven começa a berrar para ela através da mesa.   Ela não consegue ouvi-lo mas talvez ele lhe esteja a perguntar o que é que ela quer comer.

“Um cheeseburguer!” – grita-lhe ela em resposta.

Raven ri-se, sacode a cabeça – “Vês algumas vacas por aqui à volta?”

“Qualquer coisa excepto peixe!” – grita ela.

Raven conversa um pedaço com o empregado numa qualquer variante de Taxilinga.

“Mandei vir lulas para ti – berra ele – É um molusco.”

Magnífico.   Raven, o último dos autênticos cavalheiros.

Há uma conversa gritada que perdura a maior parte de uma hora.   É Raven é quem mais preenche aquela gritaria.   Y.T. limita-se a ouvir, sorri e assenta com a cabeça.   Espera mesmo que ele não esteja para ali a dizer coisas como ‘gosto mesmo é de sexo abusivo, à força, com toda a violência’.

Ela nem pensa que ele no fim de contas esteja a falar sobre isso.   Está para ali é a papaguear sobre política.   Escuta uma fragmentada história sobre os aleutas, uma frase aqui e acolá quando Raven não está a meter lulas à boca e a música não está nos pontos mais altos: “Os russos foderam-nos completamente... a varíola atingia uma taxa de mortalidade de noventa por cento... trabalhavam como escravos na indústria deles de caça às focas...   a tolice de Seward... os cabrões dos nipónicos levaram o meu pai em quarenta e dois, puseram-no num campo de POW – prisoners of war – durante...”

“E depois os americanos vieram-nos foder com bombas atómicas.   Acreditas nesta merda? – diz Raven.   Há uma acalmia na música; subitamente ela entende frases completas – Os nipónicos dizem que são o único povo da história alguma vez bombardeado nuclearmente, ‘nuked’.   Mas todas as potências nucleares têm um grupo aborígene cujo território atomizaram para testar as suas armas.   Na América, ‘nuclearizaram’ os aleutas.   Em Amchitka.   O meu pai – diz Raven orgulhosamente – foi duas vezes ‘nuclearizado’: uma, em Nagasáki, na altura em que ficou cego, e outra vez então em 1972, quando os americanos ‘nuclearizaram’ a nossa terra.”

Bestial, pensa Y.T.   Arranjou um novo namorado e o tipo é um mutante.   Isso explicará uma ou duas coisas.

“Nasci alguns meses depois” – continua Raven, trazendo assim de forma pertinente a questão à baila.

“Como é que aconteceu ficares ligado a esses Ortos?”

“Distanciei-me das nossas tradições e acabei a morar em Soldotna, a trabalhar em torres de petróleo – diz Raven, como se fosse suposto Y.T. saber ao certo onde é que fica Soldotna – Foi aí que apanhei as minhas bebedeiras e arranjei isto – diz ele apontando para a sua tatuagem – Foi também quando aprendi o que é fazer amor com uma mulher – que é a única coisa que faço melhor do que arpoar.”

Y.T. não pode deixar de pensar que na mente de Raven pinar e arpoar são actividades bastante próximas.   Mas embora rude como ele é, ela não consegue tornear o facto dele estar a pô-la com uma desconcertante excitação.

“Costumava igualmente trabalhar nos pesqueiros, para fazer mais algum dinheiro extra.   Era habitual ao estarmos de volta de uma primeira expedição de quarenta e oito horas aos halibutes – isso era nos antigos tempos em que ainda tínhamos a pesca regulamentada – vestirmos então os nossos fatos salva-vidas, e de cervejas enfiadas nos bolsos pulávamos para a água, mantínhamo-nos por ali a flutuar e a emborcar ao longo de toda a noite.   E uma das vezes estávamos nesta cena e eu tinha bebido até perder a consciência.   E quando acordei, era já o dia seguinte, ou talvez uns dois dias depois, não sei.   E lá estava eu a flutuar no meu fato salva-vidas no meio da enseada de Cook, deixado sozinho.   Os outros gajos no meu barco de pesca haviam-se esquecido de mim.”

Bastante conveniente, pensa Y.T.

“De qualquer modo flutuei durante uns dois dias.   Fiquei completamente cheio de sede.   E acabei assim por ir dar à costa da ilha de Kodiak.   Por esta altura estava realmente enjoado com DTs – delirium tremens – e tudo o mais.   Mas cheguei a terra num local próximo de uma igreja ortodoxa russa e eles é que me encontraram, levaram-me e puseram-me em condições.   E foi aí que eu vi que o modo de vida americano, ocidental, estivera praticamente quase a matar-me.”

Aí vem sermão.

“E percebi que apenas através da fé podemos viver, seguindo um modo de vida simples.   Sem bebedeiras.   Sem televisão.   Nada dessas coisas.”

“Então o que é que fazes num sítio como este?”

Ele encolhe os ombros – “Isto é um exemplo dos maus locais que eu costumava frequentar.   Mas se quiseres encontrar na Jangada alguma comida decente terás que vir a um lugar como este.”

Um criado achega-se da mesa.   Os olhos grandes, os movimentos hesitantes.   Não é para atender nenhum pedido que está ali; vem é para transmitir más notícias.

“Sir, estão a precisar de si na rádio.   Lamento.”

“Quem é?” – diz Raven.

O criado limita-se a olhar em redor como se não pudesse sequer pronunciar o nome em público – “É muito importante” – diz ele.

Raven exala um enorme suspiro, apanha um último naco de peixe e espeta-o na boca.   Põe-se de pé e antes que Y.T. possa reagir pespega-lhe um beijo na bochecha – “Querida, tenho trabalho a fazer ou qualquer coisa assim.   Vais esperar-me aqui, okay?”

“Aqui?”

“Ninguém se vai meter contigo” – diz Raven, para a coisa ficar bem entendida tanto pelo criado como por Y.T.

51

A Jangada tem um ar misteriosamente animado observada à distância de alguns quilómetros.   Uma dúzia de holofotes e no mínimo igual número de lasers encontram-se montados sobre aquela altaneira superestrutura do Enterprise, ondulando para trás e para diante contra as nuvens como uma estreia de Hollywood.   De mais perto aquilo não parece assim tão brilhante e vivo.   O vasto emaranhado baço de pequenas embarcações irradia uma nuvem empalidecida de luz amarela que estraga o contraste.

Um par de fragmentos da Jangada estão em chamas.   Não é nenhuma fogueira alegre, acolhedora, de qualquer género, mas altas labaredas enraivecidas com fumo negro deslizando de lá para fora, como o que obtemos a partir de uma enorme quantidade de gasolina.

“Guerra de gangs, talvez” – teoriza Eliot.

“Fonte de energia” – conjectura Hiro.

“Entretenimento – diz Fisheye – Eles não têm TV por cabo na porra da Jangada.”

Antes de mergulharem realmente no inferno Eliot retira o tampão do depósito de combustível e mete para o interior a vareta indicadora, a tentar verificar o nível de carburante existente.   Não diz nada mas o ar dele não é particularmente feliz.

“Apaguem as luzes todas – diz Eliot quando parece estarem ainda a milhas de distância – Lembrem-se de que fomos já avistados por algumas centenas ou mesmo alguns milhares de pessoas que estão armadas e esfomeadas.”

Vic encontra-se já a fazer a ronda ao barco apagando as luzes por via do simples expediente do uso de um martelo bate-chapas.   Fisheye deixa-se ficar ali a escutar Eliot, de um momento para o outro cheio de respeito.   Eliot prossegue – “Há que tirarmos tudo o que seja roupagem em laranja vivo, mesmo que isso signifique apanharmos frio.   De ora em diante há que nos mantermos o mais baixo possível e não falemos uns para os outros a menos que necessário.   Vic, ficas ali a meia nau com a tua espingarda e esperas que alguém nos foque com um holofote.

“Alguém que nos atinja com um holofote, seja de que direcção for, mandas abaixo.   Isso inclui lanternas a partir de pequenos barcos.   Hiro, a tua missão é patrulhares as bordas do barco.   Vais andando à volta das amuradas deste iate.   Os locais onde vires que algum nadador possa trepar através da orla e deslizar para bordo.   E quando tal acontecer cortas-lhes os braços.   Fica ainda a postos para qualquer tipo de fateixa ou algo do género que atirem.   Fisheye, se algum outro objecto flutuante se aproximar a menos de trinta metros, manda-o ao fundo.

“Se virem pessoal da Jangada com umas antenas a saírem-lhes da carola, tentem abater esses em primeiro lugar pois esses é que podem comunicar uns com os outros.”

“Antenas a saírem da cabeça?” – diz Hiro.

“Yeah.   Um género de gárgulas da Jangada” – diz Eliot.

“Quem é que são esses?”

“Como raios querem que eu saiba?   Apenas os vi poucas vezes e à distância.   Bem, de qualquer forma vou apontar isto para avançar em direcção ao centro e uma vez que estejamos suficientemente perto vira a estibordo e giramos à volta da Jangada em sentido contrário ao do relógio, à procura de alguém que possa querer vender-nos combustível.   Se as coisas ainda correrem piores e acabarmos por ficar na própria Jangada, há que mantermo-nos juntos e alugarmos um guia, pois se tentarem atravessar a Jangada sem a ajuda de alguém que conheça aquela teia, entram mesmo numa má situação.”

“E uma má situação de que género?” – pergunta Fisheye.

“Como ficar pendurado numa rede de carga, apodrecida e coberta de limos, entre dois barcos a bailarem em direcções opostas, e com nada por baixo a não ser água gelada cheia de ratos infestados com peste, lixo tóxico e baleias assassinas.   Alguma pergunta?”

“Yeah – diz Fisheye – Posso ir para casa agora?”

Bem, se Fisheye está assustado, Hiro também está.

“Lembrem-se do que aconteceu a esse pirata chamado Bruce Lee – diz Eliot – Era um tipo poderoso e bem armado.   Interceptou certo dia uma jangada salva-vidas cheia de Refugas, pôs-se à procura de alguma ‘poontang’ e foi morto mesmo antes de saber o que lhe estava a acontecer.   Agora há aí uma quantidade de gente que nos quer fazer o mesmo.”

“Eles não têm nenhum género de polícia ou coisa assim? – diz Vic – Ouvi dizer que tinham.”

Por outras palavras, Vic matou uma porrada de tempo a ir ver filmes da Jangada em Times Square.

“A gente da Enterprise funciona mais num estilo do modo ‘ira divina’ – diz Eliot – Têm aquelas enormes armas montadas pela periferia do convés de voo, grandes metralhadoras Gatling como a Razão mas com balas maiores.   Originalmente foram colocadas aí para mandar abaixo mísseis Exocet.   Atiravam com a força de um meteorito.   Se o pessoal efectuar algum distúrbio na Jangada fazem logo desaparecer o problema.   Mas um assassinato apenas ou uma pequena zaragata não são suficientes para ganhar a atenção daquilo.   Se houver um duelo de rockets entre organizações piratas rivais, então o assunto é diferente.”

Subitamente estão ali como pregados por um holofote tão grande e potente que não conseguem de todo olhar para qualquer lugar perto daquilo.

E logo volta a ficar escuro e um disparo da espingarda de Vic cresta e reverbera por sobre as águas.

“Belo tiro, Vic” – diz Fisheye.

“Parece ser um daqueles barquitos de dealers de droga – diz Vic olhando através do visor mágico da mira – Cinco gajos a bordo.   A virem na nossa direcção – ele dispara novo tiro – Correcção.   Quatro gajos a bordo – Booom – Correcção, já não estão a vir na nossa direcção – Booom.   Uma bola de fogo em erupção no oceano a sessenta metros de distância – Correcção.   Já não existe barco.”

Fisheye ri-se e dá até uma palmada na própria coxa – “Estás a registar isto tudo, Hiro?”

“Não – diz Hiro – Não havia de sair nada.”

“Oh” – Fisheye parece surpreendido como se isso alterasse tudo.

“Isso foi a primeira vaga – diz Eliot – Piratas ricos em busca de colheitas fáceis.   Mas eles têm muito a perder e portanto assustam-se também facilmente.”

“Outro barco grande tipo iate, ao largo – diz Vic – Mas estão a virar de bordo agora.”

Por sobre o ruído grave e gargalhado do grande motor diesel do seu próprio barco, conseguem ouvir o queixume em tom mais elevado de motores fora de borda.”

“Segunda vaga – diz Eliot – Candidatos a pirata.   Estes gajos vêm um pouco mais atirados.   Portanto mantenham-se alerta.”

“Esta coisa tem capacidades de ver na banda de um milímetro – diz Fisheye.   Hiro olha para ele; vê-lhe a face iluminada pelo clarão vindo de baixo, do écran incorporado na Razão – Consigo ver estes gajos como se fosse à porra da luz do dia.”

Vic dispara vários balázios, com um estalo solta o carregador cá para fora e insere um novo.

Um barco insuflável Zodiac passa rasando o topo das ondas bombardeando-os com feixes mortiços de lanternas.   Fisheye dispara um par de rajadas curtas da Razão fazendo estoirar nuvens de vapor quente no frio ar nocturno, mas falha.

“Poupa munições – diz Eliot – Mesmo com UZIs não nos conseguem acertar até que abrandem um pouco.   E mesmo com radar não consegues atingi-los.”

Um segundo Zodiac passa por eles que nem um chicote mas pelo outro lado, e mais próximo que o anterior.   Tanto Vic como Fisheye suspendem o fogo.   Ouvem-nos ali a orbitar, a girarem de volta ao caminho por onde vieram.

“Aqueles dois barcos foram juntar-se ali ao largo – diz Vic – Têm mais dois deles.   Um total de quatro.   Estão a comunicar.”

“Já nos fizeram o reconhecimento – diz Eliot – e estão a planear a táctica deles.   A próxima vez vai ser a sério.”

Um segundo depois dois estrondos fantasticamente altos soam na parte de trás do iate onde se encontra Eliot, acompanhados por breves irrupções de luz.   Hiro volta-se a tempo de ver um corpo colapsar, a tombar sobre o convés.   Não é Eliot.   Eliot está agachado aí empunhando o seu volumoso exterminador de halibutes.

Hiro corre aí para trás e olha para o nadador morto àquela ténue luz dispersa cá para baixo pelas nuvens.   Encontra-se nu à excepção de uma espessa camada de pomada negra e de um cinto com uma arma e faca.   Está ainda agarrado à corda que usou para trepar a bordo.   A corda encontra-se fixa a uma fateixa que se prendeu à fibra de vidro partida e recortada, num dos lados do iate.

“A terceira vaga está a chegar um pouco antecipada – diz Eliot, a voz num tom alto e tremente.   Procura tanto que soe calma que acaba por ter o efeito oposto – Hiro, esta arma ficou só com três munições e estou a guardar a última para ti se algum mais destes cabrões trepar a bordo.”

“Lamento” – diz Hiro.   Desembainha a curta wakizashi.   Sentir-se-ia melhor se pudesse empunhar a sua ‘nove milímetros’ na outra mão, mas ele precisa de uma mão livre para se ir equilibrando e evitar cair borda fora.   Efectua uma volta rápida ao iate, à cata de mais ganchos daqueles, de fateixas, e acaba por descobrir uma no outro lado, enganchada a um dos suportes da balaustrada, uma corda esticada deslizando dela por ali abaixo até ao mar.

Correcção: é um cabo esticado.   A sua espada não será capaz de cortar aquilo.   E é tal a tensão no cabo que não consegue desenganchar a coisa do suporte.

Conforme está por ali acocorado às voltas com a fateixa, uma mão cheia de graxa ergue-se das águas e agarra-lhe o pulso.   Outra mão tacteia pela outra mão de Hiro e em vez disso agarra é na espada.   Hiro de um sacão liberta a lâmina sentindo-a a fazer estragos e espeta a ponta da wakizashi primeiro no lugar entre aquelas duas mãos justamente ao mesmo tempo que sentia uns dentes mergulharem-lhe na virilha.   Mas a virilha de Hiro encontra-se protegida – o conjunto daquele fato de motociclista tem uma concha protectora em plástico reforçado – e assim este tubarão humano tudo o que consegue é abocanhar aquele tecido à prova de bala.   Depois o tipo começa a largar e acaba por escorregar para o mar.   Hiro liberta a fateixa e deixa-a tombar juntamente com ele.

Vic dispara três projécteis em rápida sucessão e uma bola de fogo ilumina todo um dos lados do navio.   Por um instante podem ver tudo o que está à volta deles numa distância de centenas de metros, e o efeito é como o de ligar as nossas luzes da cozinha a meio da noite e deparares com o cimo dos móveis enxameados de ratos.   No mínimo estão ali uns doze pequenos barcos à volta deles.

“Eles têm cocktails Molotov” – diz Vic.

E os gajos nos barcos também os conseguem ver a eles.   Balas tracejantes voam à volta deles provenientes de várias direcções.   Hiro pode ver o clarão na boca dos canos em pelo menos três locais.   Fisheye abre fogo com a Razão uma vez, depois outra, soltando apenas curtas rajadas de algumas dezenas de projécteis cada, e consegue produzir nova bola de fogo, esta aqui mais distanciada do iate.

Decorreram no mínimo cinco segundos desde que Hiro mudou de posição pelo que verifica outra vez esta área em busca de ganchos e retoma então o seu circuito à volta da borda do iate.   Desta vez está tudo limpo.   Os dois ‘bolas-de-graxa’ deviam estar a agir em equipa.

Um Molotov descreve um arco através do céu terminando num impacto na parte de estibordo do iate onde não poderá provocar grande estrago.   Se tivesse aterrado lá dentro seria um pouco pior.   Fisheye utiliza a Razão para dar uma rega pela zona de onde foi lançado o Molotov mas agora que o costado do navio está ali todo iluminado pelas chamas aquilo acaba por atrair mais fogo de armas ligeiras.   A essa luz Hiro consegue descortinar uns rastos de sangue a escorrerem do sítio onde Vic se havia anichado.

A bombordo vê qualquer coisa comprida e estreita e rés-vés com a água, com o torso de um homem sobressaindo daquilo.    O homem tem um cabelo longo que lhe descai à volta dos ombros e numa das mãos empunha uma estaca de uns dois metros e meio.   Ao mesmo tempo que Hiro o vê está ele a lançá-la.

O arpão dardeja através daqueles seis metros de água em aberto.   Os milhões de facetas lascadas da sua cabeça de vidro refractam a luz e fazem-na parecer um meteoro.   Apanha Fisheye pelas costas, trespassa facilmente o tecido à prova de bala que ele enverga por sob o fato e vem sair completamente pelo lado oposto do corpo dele.   O impacto ergue Fisheye no ar e atira-o borda fora; chega à água de cabeça, já morto.

Um apontamento mental: As armas de Raven não surgem no radar.

Hiro volta a olhar para a direcção onde Raven se encontrava mas já ele desapareceu.   Mais um par de ‘bolas-de-graxa’, lado a lado, saltam por sobre a amurada três metros adiante de Hiro, mas por um instante ficam ofuscados pelas chamas.   Hiro saca da sua nove e aponta-a nessa direcção e continua a dar ao gatilho até que ambos tenham tombado de volta à água.   Fica sem saber ao certo quantas munições lhe restam agora na arma.

Há um ruído tossicante, um silvo, e o clarão das labaredas atenua-se e finalmente desaparece.   Eliot atingiu aquilo com um extintor de incêndios.

O iate foge debaixo dos pés de Hiro e ele atinge o convés com a face e ombro.   Pondo-se de pé apercebe-se de que ou abalroaram ou foram abalroados por alguma coisa grande.   Há o ruído de um baque surdo, pés correndo sobre o convés.   Hiro ouve alguns destes pés próximo dele, larga a wakizashi e retira a sua katana, ao mesmo tempo está já a rodopiar atingindo com a comprida lâmina o centro do corpo de alguém.   No entretanto estão para ali a raspar com um facalhão sobre as suas costas só que aquilo não penetra no tecido, aleija só um pouco.   Facilmente liberta a katana, o que é uma sorte estúpida pois esquecera-se de travar o golpe, podia ter ficado com ela lá entalada.   Vira-se novamente e por instinto apara uma facada do outro ‘bola-de-graxa’, ergue a katana e desfere-a em golpe a pique por sobre a carola do gajo.   Desta vez faz como deve ser, mata-o sem enterrar a lâmina.   Há ‘bolas-de-graxa’ de ambos os lados dele agora.   Hiro escolhe uma direcção, faz girar a lâmina lateralmente e decapita um.   Volta-se então.   Outro ‘bola-de-graxa’ ziguezagueia na direcção dele através do inclinado convés com uma estaca aguçada, mas ao contrário de Hiro não consegue manter bem o seu equilíbrio.   Hiro arrasta-se e vai ao seu encontro conservando o centro de gravidade à vertical dos pés, e impala-o na katana.

Outro ‘bola-de-graxa’ observa isto tudo com assombro lá de cima de ao pé da proa.   Hiro dispara sobre ele e ele vem despenhar-se no ‘deck’.   Mais dois ‘bolas-de-graxa’ saltam do barco voluntariamente.

O iate encontra-se emaranhado numa autêntica teia de aranha de cordame emporcalhado e redes de carga que foram estendidas por sobre a superfície das águas, é como uma armadilha para pobres patetas como eles.   O motor do iate está ainda a fazer força mas a hélice deixou de girar; qualquer coisa enrodilhou-se em torno do veio.

Não há agora sinais de Raven.   Talvez que tenha sido apenas um e único ‘contrato’ de eliminação contra Fisheye.   Talvez não tenha querido emaranhar-se naquela teia.   Talvez calculasse que uma vez colocada a Razão fora de combate os ‘bolas-de-graxa’ tomassem conta do resto.

Eliot deixou de estar aos controles.   Deixou até de estar no iate.   Hiro bem o chama mas não há resposta.   Nem sequer ali a mexer-se sobre a água.   A última coisa que fizera foi debruçar-se sobre a borda com o extintor para apagar as chamas daquele cocktail Molotov; quando tiveram aquele solavanco brusco que os imobilizou deverá ter tombado borda fora.

Estão um bocado mais próximos do Enterprise do que alguma vez pensara.   Durante toda aquela luta cobriram uma boa porção de água, chegaram-se ali mais próximo do que deveriam.   De facto nesta altura Hiro está ali rodeado por todos os lados pela Jangada.   Uma iluminação fraca, tremeluzente, é providenciada pelos restos ardentes de Zodiacs que carregavam cocktails Molotov e que se envolveram naquela rede à sua volta.

Hiro não pensa que seja acertado levar o iate de volta ao mar aberto.   Será um bocado competitivo em excesso aí.   Vai lá acima, à frente.   A mala que funciona como fonte de alimentação da Razão e depósito de munições encontra-se aberta sobre o convés; a seu lado, o écran/monitor a cores deixa ler:

 

Sorry, a fatal system error occurred.   Please reboot and try again

(Lamentamos, ocorreu um erro fatal de sistema.   Favor voltar a ligar e tentar de novo)

 

Depois, conforme Hiro continua a olhar para o écran, aquilo ‘passa-se’ completamente e morre de um snow crash.

Vic foi atingido por uma rajada de metralhadora e está igualmente morto.   Em redor deles, meia dúzia de outros barcos balançam ali sobre as ondas, apanhados naquela teia, todos com o aspecto de serem belos iates.   Todos eles não passam porém de cascos vazios, esventrados do seu recheio e motores.   Como chamarizes para patos em frente do esconderijo de um caçador.    Um aviso pintado à mão cavalga sobre uma bóia próxima com a palavra COMBUSTÍVEL em inglês e noutras línguas.

Mais longe no mar, um número de embarcações que antes os estavam a perseguir mantêm-se aí a pairar, bem afastadas daquela rede.   Sabem que não se podem chegar para aqui; este é o domínio exclusivo dos nadadores de graxa negra - as aranhas na teia - e dos quais quase todos estão agora mortos.

Se ele prosseguir até à Jangada propriamente dita não poderá ser pior.   Será que pode?

O iate possui o seu próprio dingue, o tamanho mais pequeno daqueles Zodiacs insufláveis, com um pequeno motor fora de borda.   Hiro lança-o à água.

“Eu vou contigo” – diz uma voz.

Hiro rodopia, sacando de arrasto a arma e vê-se com ela apontada à face daquele filipino, o rapaz da cabina.   O rapaz pisca os olhos, com o ar um pouco surpreso, mas não particularmente assustado.   Afinal, tem vivido todo este tempo com piratas.   Pelo que consta, todos aqueles gajos mortos a bordo do iate também não parecem sequer perturbá-lo.

“Ser teu guia – diz o rapaz – ba la zin ka nu pa ra ta...”

52

Y.T. espera há tanto tempo que chega a pensar que o sol já terá nascido por ora, mas ela sabe que na verdade não terão passado mais que um par de horas.   De certa forma, isso nem sequer importa.   Nada muda por ali: a música toca, a fita do vídeo com desenhos animados rebobina automaticamente e começa de novo, homens entram e bebem e tentam não ser apanhados em olhares demorados para ela.   Até ela podia estar ali afinal agrilhoada à mesa.   Não há maneira de poder encontrar o caminho de volta a partir dali.   Portanto limita-se à espera.

Subitamente Raven está ali de pé em frente dela.   Veste agora umas roupas diferentes, umas roupagens escorregadias e molhadas feitas de peles animais ou alguma coisa assim.   A face vermelha e molhada, de ter estado lá fora.

“O trabalho, ficou todo feito?”

“Praticamente – diz Raven – Fiz bastante.”

“O que é que queres dizer, com bastante?”

“Quer dizer que não gosto de ser chamado quando estou a meio de um encontro, para fazer um trabalho de treta – diz Raven – portanto pus as coisas alinhavadas lá fora e a minha atitude é a de deixar agora os gnomos dele preocuparem-se com os pormenores.”

“Bem, tenho passado um tempo em grande, aqui.”

“Desculpa-me miúda.   Vamos sair daqui” – diz ele, falando com o tom intenso e tenso de um homem que já se está a sentir teso.

“Vamos até ao Core – o Núcleo” - diz ele, uma vez saídos para aquele arr fresco acima do convés.

“O que é que há lá?”

“Tudo – diz ele – As pessoas que dirigem todo este lugar.   A maior parte desta gente – ele abarca com o movimento da mão toda a Jangada – não pode lá entrar.   Eu posso.   Queres ir lá ver aquilo?”

“Certamente, porque não” – diz ela, odiando-se por soar como uma saloia completa.   Mas que mais ia ela dizer?

Começa a conduzi-la ao longo de uma série de portalós iluminados pelo luar numa via que os leva na direcção dos navios maiores localizados no centro da Jangada.   Quase que podias usar skates por aqui mas mesmo assim tens que ser bem bom nisso.

“Porque é que és tão diferente das outras pessoas?” – diz Y.T.   Quase que solta aquilo sem se deter primeiro num bocado de raciocínio sobre isso.

Mas parece ser uma boa pergunta.

Ele ri-se – “Eu sou um aleuta.   Sou diferente de uma série de maneiras...”

“Não.   O que quero dizer é que o teu cérebro funciona de modo diferente – diz Y.T. – Não estás para aí apanhadinho.   Sabes o que quero dizer?   Durante toda a noite não mencionaste uma única vez a Palavra.”

“Há uma coisa que fazemos nos caiaques.   É como surfar” – diz Raven.

“A sério?   Eu também surfo, no trânsito” – diz Y.T.

“Não fazemos isto por prazer – diz Raven – Faz parte do nosso modo de vida.   Vamos de ilha para ilha surfando sobre as ondas.”

“A mesma coisa aqui – diz Y.T. – excepto que vamos de um franchisulado ao outro surfando à custa de carros.”

“Vês, o mundo está cheio de coisas mais poderosas do que nós.   Mas se souberes como apanhar uma boleia, podes alcançar lugares” – diz Raven.

“Correcto.   Estou totalmente ciente do que estás a dizer.”

“É isso que estou a fazer com os Ortos.   Concordo com parte da religião deles.   Mas não com tudo.   Mas o seu movimento tem uma força considerável.   Têm uma quantidade de gente, e dinheiro, e navios.”

“E vais surfando nisso tudo.”

“Yeah.”

“É fixe pelo que posso ver.   O que é que estás a tentar fazer?   Quer dizer, qual é o teu verdadeiro objectivo?”

Estão agora a atravessar uma extensa e larga plataforma.   Subitamente ele mete-se mesmo atrás dela, os braços à volta do corpo dela e ele chega-a para si.   Os bicos dos pés dela mal afloram o chão.   Sente o nariz frio dele contra a sua têmpora e o hálito quente a entrar-lhe num dos ouvidos.   Aquilo envia-lhe um formigueiro que a percorre toda até lá abaixo à ponta dos pés.

“Objectivo de curto prazo ou o objectivo a longo prazo?” – sussurra Raven.

“Humm, a longo prazo.”

“Eu costumava ter este plano... de ir ‘nuclearizar’ a América.”

“Oh.   Bem, isso seria um pouco chocante” – diz ela.

“Talvez.   Depende do modo de disposição em que me encontre.   Além desse, não tenho outros objectivos a longo prazo” – Toda a vez que ele sussurra algo, é um outro bafo a fazer cócegas no ouvido dela.

“E então a médio prazo?”

“Dentro de algumas horas a Jangada irá dispersar-se – diz Raven – Vamos em direcção à Califórnia.   Em busca de um lugar decente para viver.   Poderá haver gente a tentar travar-nos.   A minha tarefa é a de auxiliar estas pessoas aqui a chegarem sãs e salvas a terra.   Assim podes bem dizer que vou para a guerra.”

“Oh, que pena” – murmura ela.

“Portanto torna-se difícil pensar em qualquer coisa para além do aqui e agora.”

“Yeah, estou a ver.”

“Aluguei um quarto porreiro para aí passar então esta minha última noite – diz Raven – Tem lençóis limpos.”

Não por muito tempo, pensa ela.

 

Ela havia imaginado que os lábios dele seriam frios e rígidos como os de um peixe.   Mas fica chocada tão quentes eles são.   Qualquer parte do corpo dele aliás irradia calor como se fosse a sua única maneira de se manter quente lá no Árctico.

Cerca de trinta segundos envolvido no beijo ele abaixa-se e enrola aqueles seus enormes antebraços do tamanho de coxas à volta da cintura dela e iça-a no ar, o que fá-la literalmente descolar os pés dali do ‘deck’.   Temia que ele a levasse para algum lugar horrível mas afinal vê que ele havia arrendado todo um contentor marítimo empilhado lá no alto num dos navios porta-contentores do Núcleo.   O lugar é mesmo como um hotel de luxo para gente poderosa aí no Core.

Ela está a decidir o que fazer com as pernas dela, que estão agora ali inutilmente penduradas.   Nem está ainda pronta precisamente para enleá-las à volta dele, não nesta etapa ainda tão precoce do seu encontro.   Sente então elas serem afastadas, abrirem-se, abrirem-se afastando-se mais, as coxas de Raven devem ser muito mais largas do que é a própria cintura dele.   Ele alçou uma das pernas até à virilha dela e pousou o pé numa das cadeiras de modo que ela está ali escarranchada na coxa dele e com os seus braços ele sustém o corpo dela contra o seu, apertando e relaxando, apertando e relaxando, de tal forma que ela não pode fazer nada a não ser balançar para a frente e para trás com todo o peso apoiado sobre as virilhas.   Alguns músculos importantes, a parte mais elevada dos quadrícepes dele, obliquam onde se juntam aos ossos da pélvis e conforme ele a balança mais juntinhos e apertados, ela acaba por escarrapachar-se toda à volta, tão justa que ela acaba por sentir as costuras nas virilhas do próprio uniforme e as moedas no bolsinho das chaves existente nas jeans pretas de Raven.   Quando ele faz correr as suas mãos por ela abaixo, puxando-a ainda para si, e apertando-lhe as nádegas com ambas as mãos tão grandes que aquilo deve ser como espremer um damasco, dedos tão compridos que se lhe envolvem em redor e se imiscuem pela fenda, ela balança para diante para libertar-se daquilo mas não há sítio algum para ir a não ser em direcção ao corpo dele, a face dela a escapulir-se do beijo e escorregando contra a transpiração no seu largo, liso e imberbe pescoço.   Não consegue impedir-se de soltar como que um regougo logo a tornar-se em gemido e aí é que vê que ele já a conquistou.   Porque ela nunca emite um som a fazer amor, mas desta vez não pode evitar.

E uma vez ela decidida é ela quem se torna impaciente em ir para a frente com aquilo.   Pode mexer os braços, pode mexer as pernas, mas a parte central do seu corpo está ali pregada e não se vai mexer até que Raven se mexa.   E ele não se irá mover até que ela o faça querer mover-se.   Assim ela principia a brincar-lhe com o  ouvido.   Habitualmente a coisa funciona.   Ele tenta escapulir-se dela.   Raven, a tentar escapar de alguma coisa.   Ela goza com a ideia.   Ela tem uns braços tão fortes como os de um homem, fortes de andarem ali atrelados àquele sistema de arpoamento nas auto-estradas, e ela enrola-os então em redor da cabeça dele como se fossem um torno e comprime a sua testa contra o lado da cabeça dele e começa então a orbitar com a ponta da língua à volta do leve rebordo dobrado que orla o ouvido externo dele.

Fica ali paralisado, ele, por um bom par de minutos, a respirar profundamente, enquanto ela vai abrindo caminho para o interior do ouvido, e quando finalmente ela empurra a sua língua pelo canal auditivo ele pula e geme como se acabasse de ser arpoado, ergue-a de cima da sua perna, com um pontapé dispara a cadeira através do quarto com tal velocidade que ela se estilhaça contra a parede em aço do contentor marítimo.   Ela sente-se a cair para trás em direcção ao futon, por um instante pensa que está prestes a ser esborrachada debaixo dele mas ele arca com todo o peso nos seus próprios cotovelos, excepto pela parte inferior do seu corpo que bate de chapa no dela enviando-lhe como que uma nova descarga eléctrica de prazer espinha acima e pernas abaixo.   As coxas e canelas dela estão agora sólidas e tensas como se tivessem mesmo recebido uma carga total de electricidade, não as consegue relaxar.

Ele inclina-se sobre um dos cotovelos por um momento separando os seus corpos, e planta a boca na dela para manter o contacto, enche-lhe a boca com a sua língua, agarra-a ali com isso, enquanto com uma mão desata o colchete no colarinho do uniforme dela e de um repelão corre o zip todo por aí abaixo até às virilhas.   Está agora aberto expondo um longo ‘V’ de pele convergindo a partir dos ombros.   Ele volta a rebolar para cima dela e agarra-lhe o topo da roupa com ambas as mãos e vai puxando aquilo debaixo dela forçando-lhe os braços para baixo e para os lados, amarfanhando o volume daquele tecido e chumaços por sob os rins dela de modo a que fique ali arqueada mais erguida ainda contra o corpo dele.

Então ele fica entre as coxas apertadas dela, entre todos aqueles músculos trabalhados pelo skating e levados ao limite, e as mãos dele voltam a imiscuírem-se para de novo espremerem-lhe as nádegas, desta vez é a pele quente dele contra a dela, é como ela estar abancada numa grelha barrada a manteiga e aquecida, faz-lhe o corpo todo sentir-se mais quente.

Há qualquer coisa que era suposto ela recordar-se por esta altura.   Algo que teria que tratar disso.   Alguma coisa importante.   Uma daquelas tarefas chatas que parecem sempre tão lógicas quando pensas nelas no abstracto e, em momentos como este, parecem tão completamente para além do que importa que isso nunca te ocorre até.

Deve ser alguma coisa que tem a ver com controle de nascimentos.   Ou outra coisa assim.   Mas Y.T. está ali sem saber o que fazer, com toda aquela paixão, portanto tem uma desculpa.   Ela contorce-se e esperneia e sacode com os joelhos até que a roupa exterior e calcinhas deslizem para os tornozelos.

Em três segundos Raven põe-se completamente nu.   Puxa a camisa por sobre a cabeça e atira-a ao calhas, sacoleja para fora as calças e com um pontapé envia-as ao chão.   A sua pele é tão suave como a dela, como a pele de um mamífero que nada pelos mares, mas irradia todo aquele calor em vez de ser fria e tresandar a peixe.   Não lhe vê a gaita mas também não é o que pretende, qual é então a importância disso, não é?

E ela faz uma coisa que nunca antes fizera: vem-se logo que ele entra nela.   É como se a faísca de um relâmpago a trespassá-la a partir do meio de si, pela traseira das suas tensas pernas, espinha acima até aos bicos dos mamilos, ela a exaurir-se ali a sorver o ar, arqueando-se até todo o seu conjunto de costelas parecer ir romper-lhe a pele, e então grita aquilo tudo.   Explode de uma vez só.  Raven estará provavelmente surdo agora.   O que é um problema fodido dele.

E torna-se ali flácida, ela.   Tal como ele fica.   Deverá ter-se vindo ao mesmo tempo.   O que está okay.   Ainda se está no início e o pobre Raven aqui embarcado, devia estar mais entesado que nem um burro.   Lá mais para a frente ela esperará uma contenção maior da parte dele.

Por agora ela sente-se contente em ficar ali por debaixo dele, absorvendo-lhe o calor que emana do corpo.   Há dias já que ela anda friorenta.   Os pés estão ainda frios, ali destapados, mas isso só faz o resto dela sentir-se muito melhor.

Raven igualmente parece contente.   De forma incaracterística, até.   Quer dizer, esta beatitude que se espelha.   Muitos gajos estariam já numa de zapping pelos vários canais de TV.   Raven não.   Contenta-se em ficar aqui deitado toda a noite, respirando suavemente junto ao pescoço dela.   Com efeito, ele vai dormir mesmo por cima.   Como uma coisa que uma mulher mais propriamente faria.

E está sonolenta ela também.   Por um minuto ou dois deixa-se estar, todos estes pensamentos a bailarem-lhe através da cabeça.

Isto é mesmo um lugar bem porreiro.   Como um hotel aí para despesas na gama média lá no Valley.   Nunca imaginou que uma coisa como esta existisse na Jangada.   Mas há também gente rica e gente pobre por aqui, tal como em qualquer outro lado.

Quando chegaram a determinado sítio no caminho para cá, não longe do primeiro dos grandes navios do Core, havia um guarda armado a bloquear a passagem.   Ele deixou Raven atravessar e Raven levou Y.T. consigo conduzindo-a pela mão, e o guarda lançou-lhe a ela um olhar mas não disse nada, conservava a maior parte da sua atenção fixa sobre Raven.

Após isso o caminho tornou-se um bom bocado mais agradável.   Espaçoso, como a passadeira da praia, e não tão pejado com velhotas chinesas arcando gigantescas trouxas às costas.   E não havia aquele cheiro a trampa de forma tão acentuada.

Quando chegaram a esse primeiro navio pertencente ao Núcleo, encontram umas escadas metálicas que os levam do nível do mar até lá acima ao convés.   Daí foram por um portaló para as entranhas de um outro navio, Raven conduzia-a através do local como se já tivesse por lá passado um milhão de vezes, e finalmente acabaram por atravessar um outro portaló para este navio porta-contentores.   E o que estava ali era tal e qual a porra de um hotel: mandaretes de luvas brancas carregando as bagagens de gajos de fato, um balcão de registo, tudo.   Continuava mesmo assim a ser um navio – tudo feito em aço que havia sido pintado e repintado de branco um milhão de vezes – mas nada do que ela contava.   Há até uma pequena plataforma para helicópteros por onde os bosses podem chegar e partir.   E está aí um belo heli, estacionado mesmo ao lado, com um logo que para ela já não é novo: Rife Advanced Research Enterprises / Empreendimentos de Pesquisa Avançada Rife.   RARE.   O pessoal que lhe deu o envelope para entrega na sede do EBGOC.   Tudo aquilo se vai compondo agora: os Feds e L. Bob Rife e a Reverend Wayne’s Pearly Gates e mais a Jangada, fazem todos parte do mesmo esquema.

“Que diabo, quem é que é esta gente toda?” – perguntara ela a Raven logo que viu aquilo.   Mas ele limitou-se a mandá-la estar calada, como a uma criança.

Mais tarde voltou a perguntar-lhe conforme andavam por ali a deambular à procura do quarto e ele disse-lhe: Estes gajos trabalham todos para o L. Bob Rife.   Programadores, engenheiros, malta das comunicações.   Rife é um homem importante.   Com todo um monopólio para tomar conta.

“O Rife está aqui?” – perguntou-lhe ela.   A fingir, decerto, pois que por esta altura já ela tinha adivinhado.

“Ssh” – diz ele.

É um belo pedaço de inform.   Hiro havia de gostar disto, se ela conseguisse mesmo fazer-lho chegar a ele.   E mesmo isso irá ser fácil.   Nunca pensou que existiriam terminais do Metaverso aqui na Jangada mas neste navio há uma fiada completa deles para que os bosses em visita possam conectar-se com a civilização.   Tudo o que ela tem a fazer é chegar a um desses terminais sem acordar Raven.   O que pode ser uma coisa complicada.   É pena que ela não possa tê-lo drogado com alguma coisa, como nos filmes sobre a Jangada.

E é então que aquilo se materializa na sua mente.   Algo que nada até à superfície vindo das profundezas do subconsciente dela tal como acontece com um pesadelo.   Ou quando sais de casa e meia hora depois te lembras que deixaste uma chaleira ao lume.   É a realidade imutável, húmida e fria com a qual não há nada a fazer.

Lembrou-se finalmente ela o que era essa coisa incómoda que a havia perturbado por um momento precisamente antes do instante da queca.   Não era controle de nascimento.   Não era nada que tivesse a ver com higiene.   Era a sua dentata.   A última linha de autodefesa pessoal.   Juntamente com as ‘chapinhas de cão’ do Uncle Enzo fora a única peça de equipamento que os Ortos não lhe tiraram.   Não a tiraram porque eles não alinham nessa coisa de ‘inspecção às cavidades’.

O que significa que no momento em que Raven a penetrou, uma muito pequenina agulha hipodérmica imperceptivelmente deslizou para aquela veia frontal inchada do seu pénis, injectando automaticamente um cocktail de poderosos narcóticos e depressores na sua corrente sanguínea.

Raven foi arpoado no lugar onde menos o esperaria.   Agora vai estar adormecido no mínimo umas quatro horas.

E então, rapaz, é que vai ficar mesmo lixado.

53

Hiro recorda o aviso de Eliot: não ir a bordo da própria Jangada sem ter um guia local.   Este puto deve ser um Refuga que Bruce Lee recrutou de alguma secção filipina da Jangada.

O nome do miúdo é Transubstanciação.   Tranny, como diminuitivo.   Entra para o Zodiac mesmo antes de Hiro lho dizer.

“Espera um seg. – diz Hiro – Temos que ensacar algumas coisas primeiro.”

Hiro arrisca-se a acender uma pequena lanterna e usa-a para ir esquadrinhando o iate todo, apanhando coisas com algum valor: umas poucas garrafas de água potável (presumivelmente), alguma comida, e umas munições extra para a sua nove milímetros.   Pega igualmente numa daquelas fateixas enrolando a respectiva corda ordenadamente.   Parece ser o tipo de coisa que poderá vir a ser útil lá na Jangada.

Tem mais uma tarefa a tratar, mas nada que ele procurasse fazer.   Hiro viveu já numa série de locais onde ratos e até ratazanas eram um problema.   E costumava livrar-se deles usando ratoeiras.   Mas tinha então uma certa dose de má sorte com as coisas.   A meio da noite calhava ouvir o estalo, aquele ruído que faz uma ratoeira ao fechar-se, e então em vez do silêncio iria escutar toda uma correnteza de ruídos de guincharia, movimentos e pancadas, conforme o roedor atingido tentava arrastar-se para zona segura com uma ratoeira trancada sobre uma qualquer parte da sua anatomia, habitualmente a cabeça.   Quando és acordado assim às três da matina para encontrares um ratito vivo sobre a bancada da cozinha e a largar um rasto de tecido cerebral por cima da fórmica, é difícil voltares a pegar no sono, e portanto ultimamente ele tem antes preferido a colocação de veneno.

Mais ou menos num cenário parecido, um homem gravemente ferido – o último contra o qual Hiro disparou – está para ali a estrebuchar pelo convés do iate, lá para cima para a proa, e mantém-se naquele balbuciar.

Mais do que tudo alguma vez ele quisera, Hiro só pretende é apanhar-se a bordo daquele Zodiac e pôr-se a milhas desta pessoa.   Sabe que de modo a ir lá acima ajudá-lo ou acabar-lhe com o sofrimento, vai ter que dar-lhe com um clarão da lanterna e quando o fizer irá ver qualquer coisa que não mais conseguirá esquecer.

Mas tem que fazê-lo.   Engole em seco um par de vezes pois está já titubeante e segue o feixe da sua lanterna até lá à proa.

É muito pior do que ele esperava.

Este homem aparentemente levou com uma bala nalgum local junto da ponte do nariz, em sentido ascendente.   Tudo o que está acima desse ponto ficou praticamente rebentado, desapareceu.   Hiro acaba por estar ali a olhar para um corte em secção do seu cérebro inferior.

E há alguma coisa que está ali espetada a sair-lhe da cabeça.   Hiro calcula que devam ser fragmentos do crânio ou coisa assim.   Mas é demasiado liso e regular para ser isso.

Agora que ultrapassou a sua náusea inicial acha mais fácil olhar para isto.   Ajuda até saber que o gajo já levou o golpe de misericórdia.   Mais de metade do cérebro desapareceu.   Ele está ainda a palrar – a voz soa assobiada e gasosa como um roufenho órgão de tubos, devido às alterações que já sofreu na caveira, mas aquilo trata-se apenas de uma função do tronco cerebral, uma convulsão das cordas vocais.

A coisa saliente da sua cabeça é uma antena-chicote de cerca de trinta centímetros.   Encontra-se revestida a borracha preta, como as antenas dos walkie-talkies da bófia, e está fixada à cabeça por sobre o ouvido esquerdo.   O tipo é um desses cabeças-d’antena para os quais Eliot já havia avisado.

Hiro agarra na antena e puxa.   Poderá levar com ele aquele aparelho de pôr na cabeça, deve ter algo a ver com a forma como L. Bob Rife controla a Jangada.

Aquilo não se solta.   Quando Hiro puxa, o que resta da cabeça do gajo retorce-se todo mas a antena não se liberta.   E é assim que Hiro descobre que aquilo não se trata afinal de qualquer tipo de auscultadores ou aparelho de meter à cabeça.   A antena está permanentemente enxertada na base do crânio do homem.

Hiro mete os seus óculos a funcionar na gama de onda de um milímetro – radar – e fixa-se sobre a cabeça destroçada do tipo.

A antena encontra-se ligada ao crânio por meio de uns parafusos curtos que penetram no osso mas não o furam completamente.   A base da antena contém alguns microchips cujo propósito Hiro não consegue adivinhar somente por olhar para eles.   Mas actualmente consegues enfiar todo um supercomputador num único chip portanto onde quer que vejas mais que um chip, juntos no mesmo sítio, estarás a olhar para um equipamento significante em termos de potência.

Um único fio, fino que nem um cabelo, emerge da base da antena e penetra pelo crânio.   Passa por ali a direito para o tronco central e uma vez aí ramifica-se e volta a ramificar-se numa autêntica rede de fios invisivelmente finos embebidos no tecido cerebral.   Enrolados em torno da base da árvore.

O que explica porquê este gajo continua aí a bombear cá para fora um regular caudal desse balbuciar da Jangada mesmo quando o cérebro já foi para o galheiro: parece que L. Bob Rife descobriu uma maneira de estabelecer contactos eléctricos com a parte do cérebro onde Asherah reside.   Estas palavras não são originadas aqui.   É uma transmissão de rádio pentecostal proveniente através daquela antena.

A Razão encontra-se ainda lá em cima, o seu écran-monitor irradiando para os céus uma estática azulada.   Hiro descobre o interruptor principal daquilo e corta-lhe a corrente.   Computadores com uma potência destas é suposto em princípio desligarem-se automaticamente quando ordenamos nesse sentido.   Ter que desligá-los usando o interruptor de corrente é como embalar alguém para dormir dando-lhe cabo da espinha.   Mas quando o sistema levou com um snow crash perde até a habilidade de se auto-desligar e os métodos primitivos são requeridos.   Hiro coloca o conjunto da Gatling dentro da mala e tranca-a.

Talvez não seja tão pesada como pensara ou talvez ele é que esteja em overdrive de adrenalina.   Depois é que percebe porque é que parece agora muito mais leve: a maior parte do peso eram munições e Fisheye usou já um bocado considerável.   Meio que a carrega, meio que a arrasta até à popa, certificando-se de que o permutador de calor fique sempre dentro de água, e atira-a para o Zodiac numa pirueta.

Isso feito, Hiro mete-se a bordo juntando-se a Tranny e principia a tratar do motor.

“Motor não – diz Tranny – prender muito.”

Correcto.   Aquela teia iria embrulhar-se à volta da hélice.   Tranny mostra a Hiro como encaixar os remos do Zodiac nos suportes respectivos.

Hiro rema um bocado e encontra-se depois numa zona desimpedida e extensa que vai ziguezagueando por ali, Jangada adentro, como uma esteira de água límpida entre blocos de gelo no Árctico.

“Motor okay” – diz Tranny.

Deixa o motor tombar em posição, hélice na água.   Tranny puxa o cordão de arranque e liga-o.   Pega logo à primeira; Bruce Lee dirigia um barco cuidado.

Conforme Hiro começa a navegar através do espaço aberto teme que aquilo seja apenas uma pequena clareira no guetto.   Mas foi apenas uma impressão truculenta causada pelas luzes.   Torneia uma ponta e encontra aquela extensão a desenvolver-se na distância.   É como que uma cintura que percorre todo o perímetro da Jangada.   Pequenas ruelas e até áleas mais pequenas partem desta cintura para diversos guettos.   Através do visor consegue ver que as várias entradas estão guardadas.   Todos são livres de cruzar por ali à volta ao longo da cintura periférica, mas o pessoal torna-se mais protector no que toca à sua zona.

O pior que te pode acontecer na Jangada é a secção local desprender-se do resto.   É por isso que a Jangada é uma tal confusão emaranhada.   Cada vizinhança teme que a  vizinhança vizinha vá dar cabo deles, cortar-lhes as ligações, abandoná-los ali a definhar à fome no meio do Pacífico.   Assim estão constantemente a arranjar novas formas para se ligarem uns aos outros, passando cabos e mais cabos por cima e por baixo e à volta dos vizinhos, ligando-se até a ‘zinhanças mais alargadas ou, preferivelmente, a um dos navios no Core.

Os guardas de qualquer vizinhança / bairro estão armados, é desnecessário dizer.   Parece que a arma de eleição é uma pequena imitação chinesa da AK-47.   A estrutura metálica sobressai relativamente bem no radar.   O governo chinês deve ter cunhado um número incrivelmente grande, inimaginável, destas coisas, nos dias em que passaram uma porrada de tempo a matutar na possibilidade de travar uma guerra terrestre com os soviéticos.

A maior parte deles têm todo o aspecto daqueles milicianos do terceiro mundo que há aí mundo fora.   Mas à entrada de uma destas zonas Hiro repara que o guarda de serviço tem uma daquelas coisas, uma antena-chicote espetada no ar, a sair-lhe da cabeça.

Uns minutos mais tarde chegam a um ponto em que aquela cintura é interceptada por uma larga via que corre a direito na direcção do centro da Jangada, onde se encontram os grandes navios – o Core.   O mais próximo é um porta-contentores nipónico – do género rasteiro, convés plano e com uma ponte elevada, empilhado de contentores marítimos em aço.   Está todo enrodilhado com escadas de corda e escadotes improvisados que permitem às pessoas trepar para este ou aquele contentor.   Em muitos dos contentores vêem-se luzes acesas no seu interior.

“Prédio de apartamentos” – brinca Tranny, reparando no interesse de Hiro.   Sacode depois a cabeça, revira os olhos e esfrega o polegar pelos outros dedos.   Aparentemente esta é mesmo a zona janota.

E a parte porreira daquele cruzeiro chega ao fim quando repara em vários esquifes velozes emergindo de um bairro daqueles, sombrio e fumarento.

“Gang do Vietname” – diz Tranny.   Põe a sua mão sobre a de Hiro e cuidadosa mas firmemente tira-a do manípulo de aceleração do motor fora de borda.   Hiro verifica-os através do radar.   Um par destes gajos vem com essas pequenas AK-47 mas a maior parte deles estão armados com facas e pistolas obviamente em busca de uma aproximação e contacto face-a-face.

Estes gajos nos barcos são os peões, claro.   Tipos com um ar mais importante ficam ali ao longo da margem daquela zona, fumando e observando aquilo.   Um par deles são cabeças-d’antena.

Tranny aumenta a rotação e curva em direcção a uma zona mais esparsa de dhows árabes frouxamente ligados, e manobra através da escuridão por uns momentos, pondo a mão ocasionalmente sobre a cabeça de Hiro e pressionando-a suavemente para baixo para que ele não se prenda nalguma corda, com o pescoço.

Quando emergem daquela flotilha de dhows a gang vietnamita já não está à vista.   Se isto acontecesse à luz do dia os gangsters podiam segui-los se fossem atrás daquele rasto de vapor largado pela Razão.

Tranny condu-los através de uma via de tamanho médio para um aglomerado de barcos de pesca.   Ao centro desta área encontra-se imobilizado um velho arrastão que está a ser desmantelado para sucata, maçaricos de corte iluminando a superfície negra da água a toda a volta.   Mas a maior parte do trabalho está a ser realizado a frio com martelos e cinzéis que irradiam todo um ruído aterrador através das águas planas e ressoantes.

“Casa” – diz Tranny sorrindo, e aponta para um par de casas flutuantes ligadas conjuntamente.   Aqui ainda estão as luzes acesas, uns dois gajos cá fora no convés a fumarem uns charutos grossos e improvisados, e através das janelas podem ver um par de mulheres  ocupadas na cozinha.

Conforme se abeiram os gajos no convés sentam-se, reparam neles, e sacam os revólveres da cintura.   Mas então Tranny começa a falar numa alegre torrente de tagalog.   E tudo muda.

Tranny está ali a receber as boas vindas dispensadas ao Filho Pródigo: gritaria, matronas gordas histéricas, um enxame de putos a sair em pilha das suas camas de rede, a chuchar no dedo e aos pulos ali para cima e para baixo.   Velhotes radiantes, exibindo vastas falhas e manchas pretas nos seus sorrisos, olhando e anuindo com a cabeça e mergulhando ali para o centro para o abraço de ocasião.

E na margem daquele ajuntamento, na zona ainda de trevas, encontra-se um outro cabeça-d’antena.

“Tu, vem também para aqui” – diz uma das mulheres, uma mulher nos seus quarentas, chamada Eunice.

“Está okay – diz Hiro – Não quero intrometer-me.”

A frase é traduzida e como uma onda move-se através daqueles oitocentos e noventa e seis filipinos que convergiram por esta altura ali naquela área.   O dito é saudado com o mais elevado choque.   Intrometer-se?   Impensável!   Disparate!   Como é que se atreve a insultar-nos?

Um daqueles gajos de dentição esburacada, uma miniatura de velhote e provável veterano da 2ª Guerra Mundial, salta para o balouçante Zodiac, cola-se ao chão como uma osga, enrola um dos braços em torno dos ombros de Hiro e espeta um charro na boca.

Perece um gajo sólido.   Hiro inclina-se para ele – “Compadre, quem é o gajo com a antena?   Um amigo vosso?”

“Ná – sussurra o gajo – É um palerma” – ele leva então teatralmente o seu dedo indicador aos lábios e manda-o calar.

54

O segredo está todo nos olhos.   Juntamente com o forçar algemas, pular barreiras ‘Jersey’ e resguardar-se de pervertidos, é uma das habilidades de quinta-essência de um Korreio: deambular num local que não é o teu sem atrair suspeitas.   E fazes isso ao não olhares para ninguém.   Mantém esses olhos apontados para a frente não importa para onde, não os abras demasiado, não ponhas um ar tenso.   Isso, e o facto de ter cá chegado com um gajo que todos temem, permitem-lhe voltar ali percorrendo o porta-contentores até à zona de recepção.

“Preciso de utilizar um terminal da Street – diz ela para o gajo da recepção – podem debitar na conta do meu quarto?”

“Sim, m’dame” – diz o gajo da recepção.    Nem tem que perguntar qual é o quarto em que ela está.   Todo ele é sorrisos, respeito.   Não é o tipo de tratamento que obténs habitualmente quando és um Korreio.

Ela poderia na verdade vir a gostar deste relacionamento com Raven, não fosse o facto de o homem ser um mutante homicida.

55

Hiro esquiva-se relativamente cedo do jantar comemorativo de Tranny, arrasta a Razão para fora do Zodiac até ao pórtico frontal da casa flutuante, abre-a e conecta o seu computador pessoal à bios.

A Razão reinicia-se sem problemas.   É o que era previsível.   Assim como é previsível que posteriormente, numa altura em que ele provavelmente mais precisará que a Razão funcione, é que ela volte de novo a crashar da maneira que fez com Fisheye.   Bem pode entreter-se a desligar e a ligar aquilo todas as vezes que tal acontecer mas é um incómodo ocorrer no calor da batalha e não é o tipo de solução que um hacker admire.   Seria muito mais sensato tratar precisamente de fazer um debug – uma eliminação de erros.

O que ele mesmo manualmente poderia executar caso tivesse tempo.   Mas deverá haver uma forma melhor, mais expedita, de tratar disto.   É possível que por esta altura já as Ng Security Industries tenham corrigido o erro e editado uma nova versão do software.   Se for esse o caso poderá ser capaz de obter uma cópia disso na Street.

Hiro materializa-se no interior do seu escritório.   O Bibliotecário estica a cabeça a partir da sala seguinte no caso de Hiro ter qualquer pergunta para ele.

“O que significa ULTIMA RATIO REGUM[27]?”

“ ‘O Último Argumento dos Reis’ – diz o Bibliotecário – O Rei Luís XIV fez estampar a frase nos canos de todos os canhões forjados durante o seu reinado.”

Hiro levanta-se e caminha até lá fora ao seu jardim.   A motocicleta está à sua espera na passagem em gravilha que conduz ao portão.   Olhando por sobre a vedação Hiro consegue ver de novo as luzes da Baixa erguendo-se à distância.   O seu computador conseguiu voltar a ligar-se à rede global de L. Bob Rife.   Está novamente com acesso à Street.   É como Hiro havia esperado.   Rife deve ter um conjunto completo de ligações por satélite ali no Enterprise conectado a uma rede celular que cobre a Jangada.   De outra forma ele não seria capaz de alcançar o Metaverso a partir da sua própria fortaleza marinha o que não estaria de acordo para um homem como Rife.

Hiro trepa para a sua mota, avança pouco a pouco através do bairro e daí para a Street, e lança-a depois num treino a algumas centenas de quilómetros por hora numa gincana por entre os pilares do monocarril.   Vai contra alguns deles e pára mas isso é o que se esperava.

A Ng Security Industries tem um piso inteirinho num arranha-céus em néon com uma milha de altura próximo da Porta Um, mesmo no centro da Baixa.   Como tudo o mais no Metaverso está aberto vinte e quatro horas por dia pois são sempre horas de negócio algures no globo.   Hiro deixa a mota na Street e toma o elevador até ao 397º andar, e depara-se face a face com uma Daemon recepcionista.   Por um momento é incapaz de traçar o seu background racial; depois apercebe-se de que esta Daemon é meio preta, meio asiática – precisamente como ele.   Se fosse um homem branco que tivesse saído do elevador, ela provavelmente teria sido uma loura.   Um homem de negócios nipónico encontrar-se-ia ali frente a uma desenvolta jovem secretária nipónica.

“Sim, sir – diz ela – É respeitante a vendas ou assistência ao cliente?”

“Assistência ao cliente.”

“E vem da parte de quem?”

“É só escolher, que eu estou com eles”

“Desculpe-me?” – à imagem das recepcionistas humanas a Daemon é especialmente bera a lidar com a ironia.

“De momento, penso estar a trabalhar com a Central Intelligence Corporation, a Máfia, e a Hong Kong Maior de Mr. Lee.”

“Estou a ver – diz a recepcionista tomando apontamento.   Tal como uma recepcionista de carne e osso não é possível impressioná-la – E a que produto é que isto dirá respeito?”

“Razão.”

“Sir!   Seja bem vindo à Ng Security Industries” – diz outra voz.

É uma outra daemon, uma atraente mulher negra/asiática num vestido altamente profissional, que se materializou ali surgida das profundezas daquela suite de escritórios.

Ela precede Hiro ao longo de uma galeria lindamente apainelada, percorrem depois outra galeria longa e apainelada e mais outra galeria longa e apainelada.   De tantos em tantos passos ele vê-se a cruzar mais uma zona de recepção onde avatars vindos de toda a parte do mundo estão sentados em cadeiras, a fazer tempo.   Mas Hiro não tem que esperar.   Ela acompanha-o direitinho em direcção a um belo e amplo escritório apainelado onde um homem asiático se senta atrás de uma secretária juncada de modelos de helicópteros.   Ele é Mr. Ng, ele mesmo.   Põe-se de pé; inclinam-se trocando assim saudações; a moça acompanhante retira-se.

“Está a trabalhar com Fisheye? – diz Ng, acendendo um cigarro.   O fumo rodopia ostensivamente no ar.   Aquilo gasta tamanho poder computacional, realisticamente modelando o fumo que se desprende da boca de Ng, como o necessário para modelar o sistema meteorológico do planeta inteiro.

“Está morto – diz Hiro – a Razão crashou numa conjuntura crítica e ele papou um arpão.”

Ng não reage.   Em vez disso mantém-se apenas ali sentado sem se mexer por alguns segundos, absorvendo estes dados, como se os seus clientes passassem o tempo a ser arpoados.   Provavelmente terá uma base de dados mental de todos aqueles que alguma vez usaram algum dos seus brinquedos e o que é que lhes sucedeu.

“Eu disse-lhe que era uma versão beta – diz Ng – ele deverá ter sabido que não era para usar operacionalmente num corpo a corpo.   Uma navalha de dois dólares ter-lhe-ia dado melhor resultado.”

“Concordo.   Mas ele estava bastante apanhadinho por ela.”

Ng sopra mais fumo cá para fora, pensando.  “Como aprendemos no Vietname, as armas de alta potência transmitem tal sensação de força esmagadora, sensorialmente, que se tornam similares às drogas psicoactivas.   Como o LSD, que pode convencer as pessoas de que conseguem voar – levando-as a mandarem-se de janelas – as armas podem levar as pessoas a sentirem-se ultraconfiantes.   Desviando-se do seu julgamento táctico.   Como no caso de Fisheye.”

“Estarei ciente e lembrar-me-ei disso” – diz Hiro.

“Em que tipo de ambiente de combate pretende usar a Razão?” – diz Ng.

“Tenho que tomar um porta-aviões amanhã de manhã.”

“O Enterprise?”

“Sim.”

“Como sabe – diz Ng, aparentemente numa disposição para conversa – há um gajo que na verdade conseguiu tomar um submarino de mísseis nucleares armado com nada mais que um pedaço de vidro...”

“Yeah, é esse o gajo que matou Fisheye.   Eu posso ter que me haver com ele também.”

Ng ri-se – “Qual é o teu objectivo último?   Como sabe, estamos todos juntos nisto.   Portanto pode partilhar comigo os seus pensamentos.”

“Eu preferiria um pouco mais de discrição neste caso...”

“Demasiado tarde para isso, Hiro” – diz outra voz.   Hiro vira-se para olhar em redor; é Uncle Enzo a ser escoltado porta adentro pela recepcionista – uma mulheraça italiana de assobios.   Apenas alguns passos atrás dele encontra-se um pequeno homem de negócios asiático e uma recepcionista asiática.

“Tomei a liberdade de convocá-los quando chegou – diz Ng – de modo a podermos ter um bate-papo.”

“Prazer” – diz Uncle Enzo, dobrando-se ligeiramente para Hiro.

Hiro retribui o gesto – “Lamento mesmo, sir, acerca do carro.”

“Está esquecido” – diz Uncle Enzo.

O pequeno homem asiático entrou agora na sala.   Hiro finalmente reconhece-o.   É a foto existente na parede de cada ‘Hong Kong Maior de Mr. Lee’ aí pelo mundo fora.

Mais apresentações e gente que se inclina saudando-se a toda a volta.   Subitamente há um número de cadeiras extras que se materializam pelo escritório e assim cada um pega na sua.   Ng sai de trás da sua secretária, e sentam-se formando um círculo.

“Vamos directamente ao que interessa uma vez que assumo que a tua situação, Hiro, poderá ser mais precária que a nossa” – diz Uncle Enzo.

“É uma assunção correcta, sir.”

“Gostaríamos todos de saber que raio está a acontecer” – diz Mr. Lee.   O seu inglês está praticamente desprovido de qualquer pronúncia chinesa; claramente que a sua atraente e louca imagem pública é apenas fachada.

“Disto tudo, até onde é que vocês, pá, já descortinaram?”

“Bocadinhos, peças... – diz Uncle Enzo – Quanto é que já conseguiste descobrir?”

“Quase tudo – diz Hiro – Uma vez que fale com a Juanita, terei o resto.”

“Nesse caso, estás na posse de alguma intel bastante valiosa” – diz Uncle Enzo.   Enfia a mão no seu bolso e retira um hipercartão que estende na direcção de Hiro.   Aquilo diz

 

TWENTY-FIVE

MILLION

HONG KONG

DOLLARS

 

Hiro estica-se e agarra o cartão.

Algures na terra dois computadores trocam rajadas de ruído electrónico e dinheiro é transferido da conta da Máfia para a de Hiro.

“Tomas conta desse lado com a Y.T.” – diz Uncle Enzo.

Hiro anui.   Podes apostar que o farei.

56

“Estou aqui na Jangada à procura de uma peça de software – uma peça de medicina para ser mais específico -  que foi escrita há cinco mil anos atrás por um personagem sumério chamado Enki, um hacker neurolinguístico.”

“O que é que quer isso dizer?” – diz Mr. Lee.

“Refere-se a uma pessoa que era capaz de programar as mentes dos outros através de correntezas orais de informação conhecidas como nam-shubs.”

O rosto de Ng está completamente desprovido de expressão.   Dá outra puxa ao cigarro, atira o fumo para o espaço acima da sua cabeça num geiser, e observa-o a espalhar-se contra o tecto – “Qual é o mecanismo disso?”

“Possuímos dois tipos de linguagem na nossa cabeça.   O tipo que estamos agora a usar é adquirido.   Vai moldando o nosso cérebro conforme a vamos aprendendo.   Mas há também uma língua que é alicerçada nas profundas estruturas cerebrais partilhadas por todos.   Estas estruturas consistem em circuitos neurais básicos que têm que existir de modo a permitir que os nossos cérebros adquiram linguagens de ordem mais elevada.”

“A infra-estrutura linguística” – diz Uncle Enzo.

“Yeah.   Calculo que ‘profunda estrutura’ e ‘infra-estrutura’ signifiquem a mesma coisa.   Bem, de qualquer modo, sob certas condições, conseguimos ter acesso a essas partes do cérebro.   Glossolália – o falar em línguas – é o lado de output, de saída disso para o exterior, onde as estruturas linguísticas profundas se conectam às nossas línguas e falam, torneando todas as linguagens aprendidas, de nível superior.”

“Quer-me dizer que há também um lado de input, de entrada?” – diz Ng.

“Exactamente.   Funciona em sentido inverso.   Sob certas condições, os nossos ouvidos – ou olhos – podem-se ligar a essas estruturas profundas, torneando as funções de linguagem superiores.   O que é o mesmo que dizer que, alguém que conheça as palavras certas, poderá proferir as palavras, ou mostrar-te símbolos visuais, que ultrapassarão todas as nossas defesas e se afundarão directamente no nosso tronco cerebral.   Como um cracker/assaltante electrónico que penetra num sistema de computador, ultrapassa todas as precauções de segurança e conecta-se directamente ao núcleo permitindo-se assim exercer um controle absoluto sobre a máquina.

“Nessa situação o pessoal que seja o dono do computador não pode fazer nada” – diz Ng.

“Certo.   Porque acedem à máquina a um nível mais elevado que foi agora ultrapassado.   No mesmo sentido, uma vez que um hacker neurolinguístico estabeleça ligação às estruturas profundas do nosso cérebro, não conseguimos descartá-lo – pois nem sequer podemos controlar o nosso cérebro a esse nível tão básico.”

“E o que tem isto a ver com uma placa de argila a bordo do Enterprise?” – diz Mr. Lee?”

“Acompanhem-me no seguinte: esta linguagem – esta língua mãe – é um vestígio de uma fase anterior do desenvolvimento social humano.   As sociedades primitivas eram controladas por regras orais chamadas me.   Os me eram como pequenos programas para os humanos.   Constituíram uma parte necessária na transição da sociedade do homem das cavernas para uma sociedade agrícola organizada.   Por exemplo, havia um programa para se lavrar um sulco no solo e plantar os cereais.   Havia um programa para cozer pão e outro para construir uma casa.   Havia também me para funções de nível mais elevado tais como a guerra, a diplomacia e rituais religiosos.   Todo o conhecimento requerido para operar uma cultura auto-sustentada estava contido nestes me, que eram escritos em placas ou passados a todos numa tradição oral.   Em qualquer dos casos o repositório para os me era o templo local, o qual era assim uma base de dados de me, controlado por um sacerdote/rei denominado en.   Quando alguém necessitasse de pão, iriam ao en ou a algum dos seus subordinados e faziam o download[28] – traziam o me respectivo para fazer pão, daí do templo.   Seguiam eles então as instruções devidas – corriam o programa – e quando terminassem, teriam uma carcaça de pão.

“Uma base de dados central era necessária, entre outras razões, porque alguns dos me tinham que ser correctamente temporizados.   Se as pessoas executassem por exemplo o me relativo a lavrar-e-semear na altura indevida do ano, a colheita poderia perder-se e então todos iriam passar fome.   A única forma de se assegurarem de que os me eram corridos no período correcto, num timing acertado, era construírem observatórios astronómicos para a monitorização dos céus verificando a mudança das estações.   Assim os sumérios edificaram torres ‘com os seus topos com os céus’ – encimados por diagramas astronómicos.   O en deveria observar os céus e dispensar os me agrícolas nos períodos certos do ano para manter a economia a girar.”

“Penso que tens aí uma questão da galinha e do ovo – diz Uncle Enzo – Como é que uma tal sociedade começou por se organizar?”

“Há uma entidade informacional conhecida como metavírus, que levará a que os sistemas de informação se infectem a eles próprios com vírus personalizados.   Pode ser que isso seja precisamente um princípio básico da Natureza, como a selecção darwiniana, ou então poderá ser uma verdadeira peça de informação que flutue pelo Universo fora em cometas e ondas de rádio – eu não sei ao certo.   De qualquer modo, onde chegamos é a isto: qualquer sistema de informação de complexidade suficiente irá inevitavelmente tornar-se infectado com vírus – vírus gerados a partir do interior do próprio sistema.

“Em dada ocasião, no passado distante, o metavírus infectou a raça humana e tem permanecido connosco desde então.   A primeira coisa que fez foi gerar toda uma ‘caixa de Pandora’ de vírus ADN – varíola, gripe e por aí fora.   Saúde e longevidade tornaram-se coisas do passado.   Uma memória longínqua deste acontecimento é preservada nas lendas da Queda do Paraíso nas quais a humanidade é ejectada de uma vida de bem estar para um mundo infestado pela doença e pela dor.

“Tal praga acabaria por alcançar como que um planalto de estabilidade.   Ainda hoje nos deparamos com novos vírus de ADN de tempos a tempos mas parece que os nossos corpos desenvolveram uma resistência aos vírus em ADN, em geral.”

“Talvez – diz Ng – haja só um certo número de vírus que possa trabalhar sobre o ADN humano, e que o metavírus os tenha já criado a todos.”

“Poderá ser.   De qualquer modo, a cultura suméria – a sociedade baseada em me – foi outra manifestação dos metavírus.   Excepto que neste caso era numa forma linguística – ao invés de ser em ADN.”

“Desculpe-me – diz Mr. Lee – Está a dizer que a civilização começou como uma infecção?”

“A civilização na sua forma primitiva, sim.   Cada me era um género de vírus lançado pelo princípio do metavírus.   Tome-se o exemplo do me para cozinhar pão.   Uma vez esse me chegado à sociedade era uma peça de informação auto-sustentável.   É uma questão simples de selecção natural:  as pessoas que soubessem como fazer pão iriam viver melhor e ser mais aptas a reproduzirem-se do que as que não sabiam.   Naturalmente elas irão propagar o me servindo como hospedeiros para este método de informação auto-replicante.   Isso torna-o num vírus.   A cultura suméria – com os seus templos recheados de me – era isso mesmo, uma colecção de vírus bem sucedidos acumulados ao longo de milénios.   Era uma operação de franchises excepto que tinha zigurates em vez de arcos dourados e placas de argila no lugar de manuais em capas com três argolas.

“A palavra suméria para ‘mente’ ou ‘sabedoria’, é idêntica à palavra para ‘ouvido’.   É o que eram todas essas pessoas: ouvidos com corpos a eles anexos.   Receptores passivos de informação.   Mas Enki era diferente.   Enki era um en que na verdade calha ser particularmente bom no trabalho que faz.   Tinha a rara habilidade de escrever novos me – ele era um hacker.   Foi na verdade o primeiro homem moderno, um ser humano completamente ciente, tal como nós.

“A dado ponto Enki percebeu que a Suméria havia estagnado.   As pessoas levavam a cabo constantemente os mesmos velhos me, sempre, não idealizavam novos me, não pensavam por si próprias.   Suspeito que ele estava isolado, sendo um dos poucos – talvez o único – ser humano consciente no mundo.   E percebera que de forma à raça humana avançar, eles teriam que ser libertos do grilhão desta civilização viral.

“Assim ele criou o nam-shub de Enki, um antivírus que se espalhou ao longo das mesmas vias que os me e o metavírus.   Aquilo alcançava até às profundas estruturas do cérebro e reprogramava-as.   Daí em diante ninguém conseguia mais entender a língua suméria ou qualquer outra linguagem baseada nas estruturas profundas.   Separados dessas nossas profundas estruturas comuns a todos, principiámos a desenvolver novas linguagens que não tinham nada em comum umas com as outras.   Os me não mais funcionavam e não era possível escreverem-se novos me.   A transmissão posterior do metavírus fora bloqueada.”

“Porque é que não pereceram todos à fome por falta de pão, tendo perdido o me de ‘fazer pão’?” – diz Uncle Enzo.

“A alguns provavelmente sucedeu isso.   Todos os demais tiveram que usar os níveis superiores dos seus cérebros e descobriram como fazê-lo.   Assim pode-se dizer que o nam-shub de Enki foi o primórdio da consciência humana – quando pela primeira vez tivemos que começar a pensar por nós próprios.   Foi também o princípio da religião racional, a primeira vez que as pessoas começaram a pensar sobre temas abstractos como Deus e o Bem e o Mal.   É daí de onde advém o nome Babel.   Literalmente significa ‘Portão de Deus’.   Foi o portão que permitiu a Deus alcançar a raça humana.   Babel é uma porta de entrada nas nossas mentes, uma porta de entrada aberta pelo nam-shub de Enki que nos resgatou do metavírus e concedeu-nos a habilidade de pensarmos – transportou-nos de um mundo materialista para um mundo dualista – um mundo binário – tanto com uma componente física como com uma componente espiritual.

“Houve provavelmente caos e sublevações.   Enki, ou o seu filho Marduk, tentaram reimpôr ordem na sociedade ao suplantarem o antigo sistema dos me com um código de leis – o Código de Hamurábi.   Foi parcialmente bem sucedido.   A adoração a Asherah prosseguiu porém em muitos locais.   Era um culto incrivelmente persistente, um retrocesso à Suméria e que se espalhou tanto verbalmente como disseminando-se através da troca de fluidos corporais – eles tinham prostitutas cultuais e também adoptavam órfãos e passavam-lhes o vírus pela via da amamentação.”

“Espere um minuto – diz Ng – Agora está a falar de novo num vírus biológico.”

“Exactamente.   É esse o ponto principal de Asherah.   É ser ambos.   Como um exemplo, veja-se o herpes simplex.   O herpes atira-se direitinho ao sistema nervoso quando entra no organismo.   Algumas estirpes mantêm-se no sistema nervoso periférico mas outras apontam que nem uma bala para o sistema nervoso central e alojam-se aí permanentemente nas células do cérebro – enrolando-se em torno do tronco cerebral como uma serpente à volta de uma árvore.   O vírus Asherah, que poderá estar relacionado com a herpes, ou podem eles até serem um e único, o mesmo, passa através das paredes celulares e vai para o núcleo onde se mistura com o ADN da célula do mesmo modo que os esteróides o fazem.   Mas Asherah é um bocado mais complicado que um esteróide.”

“E quando ele altera esse ADN, qual é o resultado?”

“Ainda ninguém o estudou, excepto talvez o L. Bob Rife.   Penso que ele definitivamente trará a tal língua mãe para mais perto da superfície, tornará as pessoas mais aptas a falarem em línguas e mais susceptíveis aos me.   Eu acharia que igualmente tenderá a encorajar um comportamento irracional, talvez baixando as defesas das vítimas no tocante a ideias virais, torná-las sexualmente promíscuas, provavelmente, tudo junto até, do que disse acima.”

“Terão todas as ideias virais uma contraparte em vírus biológicos?” – diz Uncle Enzo.

“Não.   Tanto quanto eu saiba só Asherah a tem.   Daí que, de todos os me, e todos os deuses e práticas religiosas que predominaram na Suméria, hoje apenas Asherah persiste em força.   Uma ideia viral pode ser eliminada – como aconteceu com o nazismo, com as calças à boca de sino, e T-shirts do Bart Simpson – mas Asherah, por ter uma faceta biológica, pode permanecer latente no organismo humano.   Após Babel, Asherah estava ainda residente no cérebro humano, sendo transmitida de mãe para filho e de um amante ao outro.

“Todos nós somos susceptíveis à investida de ideias virais.   Como a histeria em massa.   Ou uma cantilena que nos entra na cabeça e fica aí a sussurrar-nos o dia todo até a pegarmos a qualquer outro.   Anedotas.   Mitos urbanos.   Religiões disparatadas.   Marxismo.   Não importa o quão espertos nos tornámos, há sempre esta parte irracional profunda que nos faz a todos hospedeiros potenciais para informação auto-replicante.   Mas sendo-se fisicamente infectado com uma estirpe virulenta do vírus Asherah torna-te um bom bocado mais susceptível.   O único aspecto que impede estas coisas de se apossarem de todo o planeta é o factor Babel – os muros da mútua incompreensão que compartimentariam a raça humana e param a dispersão do vírus.

“Babel levou a uma explosão no número de línguas.   Isso era parte do plano de Enki.   Monoculturas como um campo de milho são susceptíveis a infecções mas culturas geneticamente diversas como uma pradaria são extremamente robustas.   Após poucos milhares de anos, uma nova língua desenvolvia-se – o hebraico -  língua que possuía excepcional flexibilidade e poder.   Os deuteronómicos, um grupo de monoteístas radicais no sexto e sétimo séculos A. C. foram os primeiros a tirar proveito dela.   Viviam numa era de nacionalismo ferrenho e de xenofobia, o que tornou mais fácil para eles rejeitarem ideias estranhas como a adoração a Asherah.   Eles formalizaram as antigas histórias constituindo a Torah e implantaram dentro dela uma lei que assegurava a sua propagação através da história – uma lei que dizia, de facto, ‘façam uma cópia exacta de mim e leiam-na todos os dias’.   E encorajaram eles um género de higiene informacional, uma crença em copiar as coisas estritamente e em tomar cuidado extremo com a informação, a qual como eles bem percebiam, é potencialmente perigosa.   Fazem dos dados/informação, uma substância controlada.

“Podem até ter ido para além disso.   Há evidências de uma cuidadosamente planeada guerra biológica contra o exército de Senaquerib quando ele tentou conquistar Jerusalém.   Portanto os deuteronómicos poderão ter tido eles próprios um en.   Ou talvez que tenham apenas percebido suficientemente bem os vírus, que soubessem assim como tirar partido de estirpes que ocorriam naturalmente.   Os conhecimentos cultivados por estas pessoas eram passados em segredo de uma geração a outra e viriam a manifestar-se dois mil anos depois, na Europa, por entre os feiticeiros cabalísticos – Ba’al Shems – os mestre do nome divino.

“Em qualquer caso, isto foi o nascimento da religião racional.   Todas as subsequentes religiões monoteístas – conhecidas pelos muçulmanos, apropriadamente, como as ‘religiões do Livro’ – incorporavam em dada extensão essas ideias.   Por exemplo o Corão afirma e torna a afirmar que ele mesmo é uma transcrição, uma cópia exacta, de um livro nos Céus.   Naturalmente, quem quer que seja que acredite nisso não se irá atrever a alterar o texto de modo algum!   Ideias tais como esta foram tão eficazes em prevenir o propagar de Asherah que, por fim, todo o centímetro quadrado de território onde o culto viral em dada altura prosperou – da Índia à Espanha – ficaria sob o domínio do Islão, da Cristandade ou do Judaísmo.

“Mas derivado da sua latência – enrolado à volta do tronco cerebral daqueles que infecta passa de uma geração a outra – encontra sempre maneiras de voltar à tona.   No caso do judaísmo, voltou na forma dos fariseus, que impuseram uma rígida teocracia legalística sobre os hebreus.   Com o seu rígido apego a leis armazenadas num templo, administrado por tipos clericais investidos de autoridade civil, assemelhava-se ao antigo sistema sumério e era de igual modo asfixiante.

“O ministério de Jesus Cristo foi um esforço para libertar o judaísmo desta condição – género de um eco do que Enki fizera.   O evangelho de Cristo é um novo nam-shub, uma tentativa de levar a religião para fora do templo, das mãos dos clericais, e trazer a todos o Reino de Deus.   Essa é a mensagem explicitamente soletrada pelos seus sermões, e é essa a mensagem simbolicamente encorpada no túmulo vazio.   Após a crucificação os apóstolos dirigiram-se ao seu túmulo esperando encontrar-lhe o corpo e em vez disso com nada depararam.   A mensagem era bastante clara: não iremos idolatrar Jesus pois as suas ideias subsistem por si, a sua igreja não está mais centralizada numa pessoa mas dispersa por entre toda a gente.

“As pessoas que estavam habituadas à rígida teocracia dos fariseus não podiam conceber a ideia de uma igreja popular, não hierarquizada.   Queriam papas, bispos e padres.   E assim o mito da ressurreição foi adicionado aos evangelhos.   A mensagem foi mudada para uma forma de idolatria.   Nesta nova versão dos evangelhos, Jesus regressava à terra e organizava uma igreja, que posteriormente se tornaria na Igreja do Império Romano do Oriente e do Ocidente – mais uma rígida, brutal e irracional teocracia.

“Ao mesmo tempo, estava a ser fundada a Igreja Pentecostal.   Os primeiros cristãos falavam em línguas.   A Bíblia diz, ‘E todos estavam assombrados e perplexos, dizendo uns para os outros: o que é que isto significa?’   Bem, penso que possa ser capaz de responder a essa questão.   Aquilo foi um surto viral.   Asherah estivera sempre presente, oculta por entre a população desde os tempos do triunfo dos deuteronómicos.   As medidas de higiene informacional praticadas pelos judeus mantiveram-na contida.   Mas nos primeiros dias da cristandade deve ter havido um certo caos, uma quantidade de radicais e pensadores livres a girar por ali,  desprezando a tradição.    Recuos em direcção aos dias da religião pré-racional.   Retrocessos à Suméria.   E muito seguramente, todos eles começaram a falar uns para os outros na língua do Éden.

“A igreja cristã dominante recusou-se em aceitar a glossolália.   Durante alguns séculos limitava-se a desaprová-la e purgaram-na oficialmente no Concílio de Constantinopla em 381.   O culto glossolálico foi-se mantendo nas franjas do mundo cristão.   A igreja estaria desejosa em aceitar uma pequena dose de xenoglóssia se isso ajudasse  na conversão dos ateus, como no caso de St. Louis Bertrand que converteu milhares de índios no século dezasseis, disseminando a glossolália através do continente mais rapidamente que varíola.   Mas tão logo eram convertidos era suposto esses índios calarem-se com isso e falarem em latim como todos os demais.

“A Reforma veio abrir um pouco mais a porta.   Mas o Pentecostalismo na verdade não arrancou até se chegar a 1900 quando um pequeno grupo de estudantes do Colégio Bíblico, no Kansas, começaram a falar em línguas.   Espalharam a prática até ao Texas.   Aí isso ficou conhecido como Movimento Revivalista.  Tal como um fogo descontrolado espalhou-se por todos os Estados Unidos, depois pelo mundo, alcançando a China e a Índia em 1906.   Os mass media do século vinte, as altas taxas de alfabetização, e os transportes de alta velocidade, tudo isso serviu de vectores soberbos para a infecção.   Num salão do Movimento Revivalista a abarrotar, ou num acampamento de refugiados do Terceiro Mundo, a glossolália transmite-se de uma pessoa a outra tão rápida como o pânico.   Pela década de oitenta, o número de pentecostais em todo o mundo cifrava-se nas dezenas de milhões.

“E veio então a televisão, e o Reverendo Wayne, suportado pelo vasto poderio dos media de L. Bob Rife.   O comportamento que o Reverendo Wayne promulga através dos seus shows televisivos, panfletos e franchises, pode ser seguido em retrospectiva numa linha contínua até aos cultos pentecostais da cristandade nascente, e daí, remontando até aos cultos da glossolália pagã.   O culto de Asherah vive.   Os Portões de Pérola do Reverendo Wayne são o culto de Asherah.”

57

“Lagos viu tudo isto.   Originalmente ele era um investigador na Biblioteca do Congresso, mais tarde tornou-se parte da CIC quando esta absorveu a Biblioteca.   Profissionalmente, ganhava a vida descobrindo coisas interessantes na Biblioteca, factos que mais ninguém se tinha preocupado em analisar.   Tratava então de sistematizar tais factos para vendê-los assim às pessoas interessadas.   Uma vez descoberto todo este material sobre Enki/Asherah foi procurar alguém capaz de pagá-lo e acabou por decidir-se por L. Bob Rife, o ‘senhor da Banda Larga’ das comunicações, dono do monopólio de fibra óptica, e que empregava na altura mais programadores do que todos os outros na terra.

“Lagos, no que é típico para alguém que não é um homem de negócios, cometeu uma falha fatal: pensou demasiado por baixo.   Viu que com um pequeno capital inicial este hacking neurolinguístico poderia ser desenvolvido como uma nova tecnologia que iria permitir a Rife manter a posse da informação que havia chegado aos cérebros dos seus programadores.   O que, considerações morais à parte, não era uma má ideia.

“Rife gosta de pensar em grande.   Ele imediatamente viu que esta ideia podia ser muito mais poderosa.   Apanhou a ideia de Lagos e disse ao próprio Lagos para se pôr ao fresco.   Começa então a enterrar uma pipa de massa em igrejas pentecostais.   Adquiriu uma pequena igreja em Bayview, Texas, e transformou-a numa universidade.   Pegou num pregador biscateiro, o Reverendo Wayne Bedford, e fê-lo mais importante que o Papa.   Construiu por todo o planeta uma série de franchises religiosas que se bastam a si próprias, e usou a sua universidade e o respectivo campus no Metaverso para angariar dezenas de milhares de missionários que se espalharam por todo o Terceiro Mundo e começaram a converter gente aos centos de milhares tal como St. Louis Bertrand.   O culto com a glossolália de L. Bob Rife é a mais bem sucedida religião desde a criação do Islão.   Produzem uma quantidade de discurso sobre Jesus, mas tal como muitas outras autodenominadas igrejas cristãs nada tem a ver com a cristandade excepto que usam o seu nome.   É uma religião pós-racional.

“Ele queria igualmente espalhar o vírus biológico como promotor ou optimizador do culto, mas na verdade não podia ir avante com isso através do uso de uma prostituição cultual porque isso é flagrantemente anti-cristão.   Mas uma das mais importantes funções dos seus missionários no Terceiro Mundo era a de ir para as terras do hinterland, do interior, e vacinarem gente – e havia ali mais do que vacinas naquelas seringas.

“Aqui no Primeiro Mundo, todos foram já vacinados e não admitimos que fanáticos religiosos apareçam por aí a espetarem-nos agulhas.   Tomamos porém uma quantidade de drogas.   Assim, para nós, ele idealizou um método para extrair o vírus do soro sanguíneo humano e distribui-lo como uma droga chamada Snow Crash.

“No entretanto arranjou a Jangada, a funcionar como um meio para transportar centenas de milhares dos do seu culto desde as miseráveis paragens da Ásia para os Estados Unidos.   A imagem da Jangada produzida pelos media é a de um lugar de caos extremo onde milhares de diferentes línguas são faladas e onde não existe uma autoridade central.   Mas não é nada disso afinal.   É altamente organizada e estritamente controlada.   Esta gente toda, fala em línguas uns com os outros.   Bob Rife pegou na xenoglóssia e aperfeiçoou-a, tornou-a uma ciência.

“Consegue controlar esta gente ao implantar receptores de rádio no interior dos seus crânios, radiodifundindo instruções – me – directamente aos seus troncos cerebrais.   Se uma pessoa em cem tiver um receptor, ela pode actuar como sendo o en local e distribuir os me de L. Bob Rife a todos os outros.   Irão executar as instruções de L. Bob Rife como se tivessem sido programados para isso.   E neste momento ele tem um milhão destas pessoas a pairar ao longo da costa da Califórnia.

“Ele possui também um metavírus digital, em código binário, que pode infectar os computadores, ou os hackers - através do nervo óptico.”

“Como é que ele o traduziu para a forma binária?” – diz Ng.

“Não penso que o tenha feito.   Penso que o encontrou no espaço.   Rife é dono da maior rede de radioastronomia do mundo.   Ele não efectua uma autêntica radioastronomia com isso – pôs-se apenas à escuta de sinais de outros planetas.   Tornou-se evidente que mais cedo ou mais tarde um dos seus enormes pratos iria captar o metavírus.”

“Como é que isso era evidente?”

“O metavírus está em toda a parte.   Em todo o lado onde existe vida o metavírus está lá presente também, propagando-se através dela.   Originalmente foi espalhado por aí fora, pelos cometas.   Provavelmente terá sido assim que pela primeira vez a vida chegou à terra e foi provavelmente assim como o metavírus também cá chegou.   Mas os cometas são lentos ao contrário da rapidez das ondas de rádio.   Na forma binária um vírus pode saltitar, ricochetear pelo Universo fora à velocidade da luz.   Infecta um planeta civilizado, entra nos seus computadores, reproduz-se e inevitavelmente acaba por difundir-se na televisão e rádio ou no que quer que seja.   Tais transmissões não se detêm no limite da atmosfera – irradiam para o espaço, para todo o sempre.   E se atingem um planeta com outra cultura civilizada, onde exista gente à escuta das estrelas da forma como Rife o faz, então esse planeta tornar-se-á igualmente infectado.   Eu penso que esse terá sido o plano de Rife, e penso que funcionou.   Só que Rife era esperto – captou aquilo de uma maneira controlada.   Pô-lo numa garrafa.   Um agente de guerra informacional para ele usar à sua discrição.   Quando é colocado num computador, aquilo ‘snowcrasha’ o computador ao levá-lo a infectar-se a si próprio com novos vírus.   Mas torna-se muito mais devastador quando atinge a mente de um hacker, uma pessoa que tenha uma capacidade de interpretação de código binário edificada nas estruturas profundas do seu cérebro.   O metavírus binário irá destruir a mente de um hacker.”

“Assim Rife pode controlar dois tipos de pessoas – diz Ng – Pode controlar os Pentecostais ao usar me escritos na língua mãe.   E consegue controlar os hackers de um modo muito mais violento ao danificar os seus cérebros com vírus binários.”

“Exactamente.”

“O que pensa que Rife quer?” – diz Ng.

“Ele pretende ser um Ozimandias, Rei dos Reis.   Vejam, é simples: uma vez que te converta à sua religião ele pode controlar-te com os me.   E ele pode converter milhões de pessoas à sua religião pois ela espalha-se como a porra de um vírus – as pessoas não têm resistências a isso pois ninguém está habituado a pensar sobre religião, as pessoas não são suficientemente racionais para argumentarem sobre este tipo de coisas.   Basicamente, alguém que leia a National Enquirer ou seja um espectador ferrenho de ‘luta livre pro’ na TV é fácil de converter.   E com o Snow Crash como promotor é ainda mais fácil arranjar convertidos.

“A visão chave de Rife foi a de que não existe diferença entre a cultura moderna e a da Suméria.   Temos uma brutal força de trabalho que é analfabeta e não letrada e se baseia na TV – que é um género de tradição oral.   E possuímos uma elite de poder, pequena e extremamente instruída – a gente que viaja pelo Metaverso, basicamente – as que compreendem que informação  é poder e que controlam a sociedade pois têm esta habilidade semimística de falarem as linguagens mágicas dos computadores.

“Isso faz de nós  um grande bloco onde o plano de Rife podia tropeçar.   Gente como L. Bob Rife não pode fazer nada sem nós, hackers.   E mesmo se pudesse converter-nos, não conseguiria usar-nos, porque o que nós realizamos é de natureza criativa e não pode ser duplicado por pessoas a correrem me.   Mas ele pode ameaçar-nos com esse tosco instrumento que é o Snow Crash.   Isso, calculo, foi o que sucedeu a Da5id.   Aquilo pode ter sido uma experiência só para ver se o Snow Crash funcionava num hacker a sério, e pode ter sido como um tiro de aviso com a intenção de demonstrar à comunidade hacker o poder de Rife.   A mensagem: ‘se Asherah for difundida no seio do clero tecnológico...’.”

“É como napalm sobre flores silvestres” – diz Ng.

“Tanto quanto sei, não há maneira de parar o vírus binário.   Mas há um antídoto para aquela falsidade de religião de Rife.   O nam-shub de Enki ainda existe.   Ele entregou uma cópia ao seu filho Marduk, que a passou a Hamurábi.   Agora, Marduk poderá ter sido ou não uma pessoa real.   A questão é que Enki arredou-se do seu caminho para deixar a impressão que tinha transmitido de alguma forma o seu nam-shub.   Por outras palavras, ele estava a deixar uma mensagem que gerações posteriores de hackers era suposto descodificarem caso Asherah ressurgisse.

“Estou razoavelmente convencido de que a informação que precisamos está contida no interior de um envelope de argila que foi desenterrado da antiga cidade suméria de Eridu no sul do Iraque há dez anos atrás.   Eridu era o sítio de Enki; por outras palavras, Enki era o en local de Eridu, e o templo de Eridu continha os me dele, incluindo o nam-shub de que andamos à procura.”

“Quem é que desenterrou tal envelope?”

“As escavações em Eridu foram inteiramente patrocinadas por uma universidade religiosa em Bayview, Texas.”

“Do L. Bob Rife?”

“Acertou.   Ele criou um departamento de arqueologia cuja única função foi pôr a descoberto a cidade de Eridu, localizar o templo onde Enki guardava todos os seus me e trazê-los todos para cá.   L. Bob Rife queria aplicar a ‘engenharia reversiva’ às capacidades que Enki possuía; ao analisar os me de Enki, pretendia criar os seus próprios hackers neurolinguísticos que pudessem criar novos me que se iriam tornar nas regras básicas, o programa para a nova sociedade que Rife quer criar.”

“Mas por entre estes me existe uma cópia do nam-shub de Enki – diz Ng – o que é perigoso para o plano de Rife.”

“Correcto.   Ele queria essa placa, também – não para analisá-la – mas para guardá-la para si próprio, para que ninguém pudesse assim usá-la contra ele.”

“Se conseguires obter uma cópia deste nam-shub – fiz Ng – que efeito isso iria ter?”

“Se pudéssemos transmitir o nam-shub de Enki a todos os en na Jangada, eles iriam retransmiti-lo a todas as pessoas a bordo da Jangada.   Ele iria bloquear os neurónios deles relativos à língua mãe e impedir Rife de programá-los com novos me – diz Hiro – Mas nós na verdade precisamos de ter isto feito antes que a Jangada se desfaça – antes que os Refugas venham todos para terra.   Rife fala para os seus en através de um transmissor central no Enterprise que presumo ser de um alcance razoavelmente modesto, mais ou menos do tipo de alcançar só o que está em linha de visão.   Bem em breve ele usará tal sistema para distribuir um grande me que irá levar a que todos os Refugas venham para terra como um exército unificado e sob ordens de marcha coordenadas.   Por outras palavras, a Jangada irá dispersar-se e após isso não será mais possível alcançar todas estas pessoas com uma única transmissão.   Portanto temos que tratar da coisa o mais cedo possível.”

“Mr. Rife irá ficar muitíssimo desagradado – prediz Ng – irá tentar retaliar desencadeando... libertando o Snow Crash contra o clero tecnológico.”

“Eu sei disso – diz Hiro – mas só me posso preocupar com uma coisa de cada vez.   Uma ajuda aqui seria bem-vinda.”

“É mais fácil dizer que fazê-lo – diz Ng – Para alcançar o Core, o Núcleo, tem que se sobrevoar a Jangada ou conduzir um pequeno barco através do seu seio.   Rife tem um milhão de pessoas por aí com espingardas e lança-mísseis.   Mesmo os sistemas de armas ‘high-tech’ não podem derrotar o fogo organizado de armas ligeiras numa escala maciça.”

“Tragam então alguns helis para a vizinhança daqui – diz Hiro.   Alguma coisa.   Qualquer coisa.   Se conseguir deitar as mãos  ao nam-shub de Enki e infectar com ele todos a bordo da Jangada, então vocês poderão aproximar-se em segurança.”

“Vamos ver o que é que podemos arranjar” – diz Uncle Enzo.

“Óptimo – diz Hiro – Agora, o que há sobre a Razão?”

Ng murmura algo e um cartão surge na sua mão – “Aqui está uma nova versão do software de sistema – diz ele – Deve ser um pouco menos deficiente, livre de bugs.”

“Um pouco menos?”

“Não há nunca nenhuma peça de software completamente livre de bugs.”

Uncle Enzo diz – “Calculo que haja sempre um bocadinho de Asherah em cada um de nós.”

58

Hiro encontra o caminho de saída e apanha o elevador até cá abaixo à Street.   Quando sai daquele arranha-céus em néon, uma rapariga a preto-e-branco está sentada na sua motocicleta a brincar com os controles.

“Onde é que tu estás?” – diz ela.

“Estou na Jangada, também.   Ei!, acabámos de fazer vinte e cinco milhões de dólares.”

Ele está ciente que pelo menos desta vez Y.T. irá ficar impressionada com qualquer coisa que ele diga.   Mas não.

“Isso dará para me fazer um funeral mesmo a sério quando me despacharem para casa nalguma peça de Tupperware” – diz ela.

“Porque é que iria isso acontecer?”

“Estou em sarilhos – admite ela pela primeira vez na sua vida – Penso que o meu namorado vai matar-me.”

“Quem é o teu namorado?”

“Raven.”

Se os avatars pudessem empalidecer e ficarem tontos e terem que se sentar na borda do passeio, o de Hiro é o que faria – “Agora sei porque é que ele tem tatuado na testa ‘Deficiente Controle de Impulsos’.”

“Magnífico.   Estava a contar conseguir um pouquinho de cooperação ou no mínimo, talvez algum conselho” – diz ela.

“Se pensas que ele te vai matar estás enganada, pois se estivesses certa já estarias morta agora” – diz Hiro.

“Isso depende das tuas apreciações” – diz ela.   E põe-se-lhe a contar uma história altamente divertida sobre uma dentata.

“Vou tentar ajudar-te – diz Hiro – mas por outro lado não sou necessariamente o gajo mais seguro na Jangada com que podes andar.”

“Já contactaste com a tua namorada?”

“Não.   Mas tenho boas esperanças disso.   Conquanto me mantenha vivo.”

“Boas esperanças de quê?”

“Do nosso relacionamento.”

“Porquê? – pergunta ela – O que é que mudou entre o então e o agora?”

Esta é uma daquelas questões extremamente simples e óbvias, e que é irritante porque Hiro não está seguro da resposta – “Bem, eu penso que descobri o que é que ela estava a fazer – porque é que veio aqui.”

“E então?”

Outra pergunta simples e óbvia – “Então, sinto que agora a compreendo.”

“Tu compreende-la?”

“Yeah, bem... no género disso.”

“E é suposto que isso seja uma coisa boa?”

“Bom, seguramente.”

“Hiro, tu és mesmo palerma.   Ela é uma mulher, tu és um gajo.   Não é suposto tu compreenderes-la.    Isso não é do que ela anda atrás.”

“Bom, então de que é que ela anda atrás, na tua suposição – tendo em mente que tu nunca encontraste na verdade a mulher, e que tu andas a sair com o Raven?”

“Ela não quer que tu a compreendas a ela.   Ela sabe que isso é impossível.   Ela apenas quer que tu te compreendas a ti próprio.   Tudo o mais é negociável.”

“Achas?”

“Yeah.   Certamente.”

“O que é que te faz pensar que eu não me compreenda a mim próprio?”

“É simplesmente óbvio.   És um hacker realmente esperto e o maior lutador de espadas do mundo – e andavas a entregar pizzas e a promover concertos sem fazeres nenhum dinheiro com isso.   Como é que esperavas que ela...”

O resto é submergido pelo som rompendo através dos seus auscultadores, vindo da Realidade: um ruído estridente de algo a rasgar-se, a sobressair agudo e distinto acima do ruído troante de um impacto pesado.   Depois há apenas o berrar das aterrorizadas crianças ali da zona, os gritos de homens em dialecto tagalog, e o som gemido e borbulhante de uma traineira de pesca, em aço, que colapsa sob a pressão do mar.

“O que é que foi isso?” – diz Y.T.

“Meteorito” – diz Hiro.

“Huh?”

“Continua em sintonia – diz Hiro – Penso que vim parar ao meio de um duelo de metralhadoras Gatling.”

“Vais desligar-te?”

“Só ficar calado por um segundo.”

Esta zona tem a forma de um ‘U’, construída em torno de um género de angra ali na Jangada onde meia dúzia de velhos barcos de pesca ferrugentos se encontram ligados.   Um molhe flutuante composto a partir de pontões desiguais corre ao longo da margem.

O arrastão vazio, aquele que as pessoas ali se encontravam a desmantelar para sucata, acaba de ser atingido por uma descarga daquela arma grande no convés do Enterprise.   É como se uma onda enorme lhe tenha pegado e tentasse embrulhá-lo à volta do pilar: todo um dos lados está derrubado para dentro, proa e popa acabam por se encontrar uma em direcção à outra.   A quilha está rebentada.   As suas entranhas esvaziadas estão a ingurgitar uma vasta e contínua torrente de água do mar de um castanho sombrio, sugando para o seu interior aquela imundície variegada como um homem a afogar-se sorve ar.   Vai em direcção ao fundo com grande rapidez.

Hiro empurra a Razão de novo para dentro do Zodiac, salta a bordo e liga o motor.   Não há tempo para desprender o barco do pontão e assim golpeia através do cabo com a sua wakizashi e descola dali.

Os pontões estão já a descair arrastados para o centro e para o fundo, puxados conjuntamente pelas linhas de amarração do navio destroçado.   O arrastão despenha-se da superfície das águas a tentar levar consigo toda a vizinhança completa como se fosse ele um buraco negro.

Um par de homens filipinos está já ali fora com canivetes, a golpear aquele material todo que enreda e mantém junta toda a zona, tentando desprender dali as partes que não podem ser salvas.   Hiro atarefa-se sobre um dos pontões que está já submergido à altura dos joelhos, e encontra as cordas que o ligam ao pontão seguinte que está ainda mais profundamente submerso e tenta a katana nelas.

As cordas restantes estalam que nem tiros de espingarda e então o pontão fica liberto disparando para a superfície tão veloz que quase faz virar o Zodiac.

Uma secção inteira da ponte cais que emparelha com o lado do arrastão, não pode ser salva.   Homens com canivetes de pesca e mulheres com cutelos de cozinha puseram-se de joelhos, a água subindo-lhes já quase abaixo dos queixos, cortando a libertarem a sua zona.   E aquilo vai-se soltando, uma corda de cada vez, catapultando filipinos ao ar, ao calhas.   Um rapaz com um machete corta o último cabo que sobrava o qual  estoirando lhe vem abrir um látego através da face.   Finalmente a Jangada está livre e flexível uma vez mais, balouçando e ondulando de volta a um equilíbrio, e onde se encontrava a traineira não há agora nada senão um gorgolejante redemoinho que vomita ocasionalmente um pedaço solto de destroço flutuante.

Alguns outros treparam já para o pesqueiro que se encontrava amarrado logo a seguir à traineira.   Sofreu igualmente alguns danos: vários homens aglomeram-se em cacho e inclinam-se sobre a amurada a fim de examinarem um par de largas crateras de impacto sobre o costado.   Cada buraco encontra-se rodeado por uma mancha brilhante do tamanho de um prato de jantar que com o rebentamento ficou livre de qualquer tinta ou ferrugem.   No centro está um buraco do tamanho de uma bola de golfe.

Hiro decide que é altura de partir.

Mas antes de fazê-lo procura no seu impermeável e saca cá para fora um porta-notas, onde  conta alguns milhares de Kongbucks que retira.   Coloca-os sobre o convés deixando-os calcados por baixo de um canto do depósito de gasolina em aço vermelho.   Então, faz-se à ‘estrada’.

Não tem qualquer dificuldade em encontrar o canal que conduz ao bairro – à vizinhança – seguinte.   O seu nível de paranóia está elevado e assim vai reparando à frente e atrás conforme pilota o seu caminho dali para fora, espreitando para todos os pequenos becos.   Num desses nichos vê um cabeça-d’antena a linguarejar ali qualquer coisa.

A próxima vizinhança é malaia.   Algumas dúzias deles estão agrupados perto da ponte, atraídos pelo barulho.   Conforme Hiro vai a entrar na zona deles vê homens a correr pela ondulante ponte-cais que funciona como via principal, empunhando armas e facas.   O ‘policiamento’ local.   Mais homens com a mesma descrição emergem de atalhos e esquifes e sampanas, juntando-se a eles.

Um tremendo ruído, estrondoso, estilhaçante e de dilaceração, soa mesmo ao lado dele como se um camião carregado de madeira acabasse de se esmagar contra uma parede de tijolos.   A água esparrinha o seu corpo e um hausto de vapor passa-lhe sobre o rosto.   Depois a calma regressa.   Ele volta-se, devagar e relutantemente.   O pontão mais próximo já lá não está, apenas uma sopa turbulenta e ensanguentada de estilhaços e aparas.

Ele volta-se entretanto para olhar à retaguarda.   O cabeça-d’antena que vira há segundos atrás encontra-se agora em campo aberto, ali isolado na borda de uma jangada.   Todos os demais já deram o fora dali.   Consegue ver os lábios daquele bastardo a moverem-se.   Hiro atira o barco numa curva, e volta para trás em direcção a ele, sacando a sua wakizashi com a mão livre e golpeia-o, mesmo em cheio, acaba com o tipo.

Mas irá haver mais.   Hiro sabe que eles agora andam todos à procura dele.   Os atiradores lá no Enterprise não se importam com quantos mais destes Refugas terão de matar de forma a apanharem Hiro.

Da área malaia ele passa para um bairro chinês.   Este aqui está melhor elaborado, contém uma quantidade de navios em aço e barcaças.   Prolonga-se na distância, até bem longe do Core, tanto quanto Hiro consegue perceber daquela posição desvantajosa em que se encontra ali ao nível do mar.

Ele está a ser observado por um homem lá do alto da superestrutura de um desses navios chineses, outro cabeça-d’antena.   Hiro vê o maxilar do gajo agitando-se conforme ele vai enviando as suas notícias actualizadas para a ‘Central da Jangada’.

A enorme arma Gatling no convés do Enterprise volta a abrir fogo de novo e dispara outro meteorito de balázios de urânio empobrecido contra os costados de uma barcaça desocupada a cerca de seis metros de Hiro.   Todo esse lado da barcaça dobra-se sobre si próprio para dentro, como se o aço se tivesse liquefeito e se escoasse por um ralo abaixo, e o metal torna-se brilhante conforme as ondas de choque simplesmente transformam aquela grossa camada de ferrugem num aerossol, com o sopro a libertam daquele suporte de aço para o ar numa onda sonora tão poderosa que magoa Hiro no fundo do seu peito e o faz sentir-se mesmo mal.

A arma é controlada por radar.   É bastante acurada quando dispara contra uma peça de metal.   É um bom bocado menos acurada quando está a tentar atingir carne e sangue.

“Hiro?   Que porra é que está a acontecer?” – é Y.T. a gritar nos seus auscultadores.

“Não posso falar.   Leva-me até ao meu escritório – diz Hiro – Puxa-me até ao assento de trás da mota e depois condu-la até lá.”

“Não sei conduzir uma mota” – diz ela.

“Aquilo só tem um controle.   Torce o acelerador e aí vai ela.”

E então ele aponta o seu barco para fora na direcção do mar aberto e sulca pela água.   Tenuamente sobreposta à Realidade consegue ver a figura em preto-e-branco de Y.T. sentada à sua frente na motocicleta; ela estica-se para pegar no acelerador e ambos são chutados para diante, e esbarram contra a parede de um arranha-céus à velocidade de Mach 1.

Ele desliza daquela vista sobreposta do Metaverso tornando os óculos inteiramente transparentes.   De seguida mete o seu sistema em modo gárgula integral: luz visível optimizada com infravermelhos e falsas cores, mais radar na onda de banda de um milímetro.

A sua visão do mundo torna-se num granuloso preto-e-branco, muito mais brilhante que anteriormente.   Aqui e ali certos objectos resplandecem indistintamente em rosa ou vermelho.   Isto vem do espectro infravermelho e significa que estas coisas estão mornas ou quentes; as pessoas surgem em rosa, e os motores e fogos a vermelho.

O que é fornecido pelo radar da banda de 1 mm é sobreposto de uma forma muito mais limpa e nítida, num verde néon.   Tudo o que é feito de metal aparece ali.   Hiro encontra-se agora a navegar por entre uma avenida de água em cinzento escuro granuloso e bordejada pelo cinzento claro granuloso das pontes cais amarradas a barcaças e navios num nítido verde-néon e que incandescem de uma forma vermelhusca, aqui e ali, onde quer que estejam a gerar calor.   Não é uma vista porreira.   De facto, aquilo é tão torpe que provavelmente explicará porque é que os gárgulas são, em geral, tão socialmente retardados.   Mas acaba por ser um bom bocado mais útil que a visão em carvão-sobre-ébano que ele antes tinha.

E aquilo salva-lhe a vida.   Conforme zumbe por um curvo e apertado canal, uma apertada parábola verde surge suspensa através da água em frente dele, levantando-se subitamente da água e de um golpe retesando-se numa perfeita linha recta ao nível do pescoço.   É um pedaço de corda de piano.   Hiro curva-se debaixo daquilo e acena aos homens chineses, aos jovens que prepararam aquela armadilha improvisada, e prossegue caminho.

O radar capta três indivíduos indistintos em tom rosa empunhando AK-47s chinesas e que se encontram na margem do canal.   Hiro corta para um outro canal lateral e evita-os.   Mas é uma passagem mais estreita e ele não está seguro onde é que vai ter.

“Y.T. – diz ele – onde diabo é que estamos?”

“A conduzir pela rua abaixo em direcção à tua casa.   Já a ultrapassámos umas seis vezes.”

À frente o canal torna-se num beco sem saída.   Hiro faz uma de cento-e-oitenta graus.   Com o enorme permutador de calor arrastado atrás dele o barco não está nem perto de ser tão manobrável ou rápido como Hiro quer que seja.   Volta a passar sob o fio a servir de armadilha e principia a explorar outro canal estreio que havia ultrapassado anteriormente.

“Okay, estamos em casa.   Estás sentado à tua secretária” – diz Y.T.

“Okay – diz Hiro – Isto vai ser um pouco intricado.”

Ele abranda até ficar imóvel, em ponto morto, a meio do canal.   Perscruta em volta à cata de milicianos e cabeças-d’antena e não encontra nenhum.   Há uma mulher chinesa de metro e meio no barco próximo dele e que segura um cutelo  quadrado, a retalhar qualquer coisa.   Hiro calcula que seja um risco que possa tomar, e assim desliga-se da Realidade e regressa ao Metaverso.

Está sentado à sua secretária.   Y.T. de pé a seu lado, braços cruzados, irradiando uma atitude com ‘A’ grande, pose teatral.

“Bibliotecário?”

“Sim, sir” – diz o Bibliotecário, caminhando calmamente para o interior.

“Preciso de diagramas do porta-aviões Enterprise.   Rápido.   Se me conseguires arranjar algo em 3-D isso seria magnífico.”

“Sim, sir” – diz o Bibliotecário.

Hiro estica-se e agarra a Terra.

“VOCÊ ESTÁ AQUI” – diz ele.

A Terra roda até que ele está a olhar a direito à vertical da Jangada.   Depois aquilo mergulha para ele a um ritmo terrífico.   Toma-lhe apenas três segundos para chegar ali.

Se ele se encontrasse nalguma parte normal e estabilizada do mundo como a parte baixa de Manhattan, isto iria funcionar na verdade a 3-D.   Ao invés, ali tem que se remediar essencialmente com imagens de satélite em modo bidimensional.   Está a olhar para um ponto vermelho sobreposto numa fotografia a preto-e-branco da Jangada.   O ponto vermelho encontra-se ao centro de um apertado canal de água, a negro: VOCÊ ESTÁ AQUI.

É mesmo assim um dédalo incrível.   Mas é um bom bocado mais fácil de delinear um labirinto quando o olhas de cima.   Em de cerca de sessenta segundos ele está ali cercado pelo Pacífico.   É uma alvorada em cinzento, por causa da neblina.   O penacho de vapor que se solta do permutador térmico da Razão apenas a torna um pouco mais espessa.

“Onde raio é que estás?” – diz Y.T.

“A deixar a Jangada.”

“Xiii..., obrigada por toda a tua ajuda.”

“Estou de volta num minuto.   Só preciso de um segundo para me pôr em ordem.”

“Há uma quantidade de gajos assustadores por aqui à volta – diz Y.T. – e estão a observar-me.”

“Está okay – diz Hiro – Estou certo que irão dar ouvidos à razão.”

59

Ergue a tampa da enorme mala.   O écran está ainda ligado mostrando-lhe o ambiente de trabalho plano com uma barra de menus no topo.   Usa uma trackball – uma esfera ali embutida – para fazer um dos menus desenrolar-se para baixo:

AJUDA

Preparação

Disparando a Razão

Dicas Tácticas

Manutenção

Reabastecimento

Resolução de Problemas

Miscelânea

 

Sob o tópico ‘Preparação’ há mais informação do que a que ele possivelmente pretende sobre o assunto, incluindo meia hora de um vídeo horrivelmente repetitivo com luminosidade a mais, mostrando um gajo asiático corpulento e com uma cara cheia de cicatrizes, cujo rosto parece ter ficado paralisado num permanente ar de desdém.   Vê-se ele a vestir-se.   Põe-se em forma com alguns exercícios especiais de alongamento.   Depois, abre a Razão, verifica se os canos não apresentam estragos ou sujidade.   Hiro passa sobre aquilo tudo pondo o vídeo em avanço rápido.

Finalmente o asiático corpulento enverga a arma.

Fisheye não estava na verdade a usar a Razão como deve ser; aquilo vem com o seu próprio suporte que é para ser preso ao corpo com umas correias para que possas absorver o coice com a pélvis, levando com a força de recuo mesmo no centro de gravidade do corpo.   O suporte possui uns amortecedores de choque e uma belas coisinhas hidráulicas em miniatura para compensar o peso e o recuo.   Se envergares todo esse equipamento da forma correcta a arma torna-se muito mais fácil de usar certeiramente.   E se estiveres com uns óculos de computador ela irá sobrepor os úteis cabelos cruzados de um ponto de mira sobre o que quer que seja para onde a arma aponte.

“A sua informação, sir” – diz o Bibliotecário.

“Serás suficientemente capaz para conectares essa informação com a do módulo “YOU ARE HERE?” – diz Hiro.

“Vou ver o que posso fazer, sir.   Os formatos parecem ser reconciliáveis.   Sir?”

“Sim?”

“Estes diagramas já têm alguns anos.   Desde que foram feitos o Enterprise foi adquirido por um proprietário privado...”

“Que poderá ter feito algumas alterações.   Gotcha.”

Hiro está de volta à Realidade.

Descobre uma avenida desimpedida naquelas águas e que conduz por ali adentro até ao Core.   Correndo ao longo de uma das margens tem um género de passagem pedestre, feita a partir de um conjunto aleatório -  uma procissão aparentemente infindável de portalós, pontões, pranchas, esquifes abandonados, canoas de alumínio e bidões de combustível.   Em qualquer outro lugar do mundo seria uma corrida de obstáculos; aqui no Quinto Mundo é uma autêntica super-autoestrada.

Hiro leva o barco mesmo a direito ao longo da parte central, não muito rápido.   Se bater contra alguma coisa o barco poderá voltar-se.   A Razão afundar-se-á.   E Hiro, que se encontra atado à Razão.

Mudando para o modo de gárgula ele consegue claramente distinguir uma esparsa linha descontínua de cúpulas hemisféricas alinhadas a bordejarem o convés de voo do Enterprise.   O equipamento de radar atenciosamente identifica-as sobre a sua área de visão como antenas de radar de armas Phalanx anti-mísseis.   Por baixo de cada cúpula salienta-se uma arma de canos múltiplos.

Ele abranda quase em paragem total e ondula com o cano da Razão por um instante para a frente e para trás até que uns cabelos cruzados risquem o seu campo de visão.   É o ponto de mira.   Fá-los estabilizar ao centro mesmo sobre uma daquelas armas Phalanx e prime o gatilho durante meio segundo.

A enorme cúpula transforma-se numa fonte de destroços dentilhados, em lascas.   Por baixo, os canos da arma estão ainda visíveis, manchados com algumas marcas vermelhas;  Hiro faz baixar um nico aqueles cabelos cruzados e dispara outra rajada de cinquenta projécteis, o que separa a peça do seu suporte.   Então a fita de munições daquilo começa a deflagrar esporadicamente e Hiro tem que buscar outro alvo.

O olhar dele detém-se sobre a peça Phalanx seguinte e encontra-se afinal a mirar a direito pelos seus canos abaixo.   É tão assustador aquilo que ele involuntariamente prime o gatilho e dispara uma rajada longa que parece no fundo não ter qualquer efeito.   Então o seu campo de visão é obscurecido por algo bem próximo; o recuo atirou-o lá para trás, passando um decrépito iate acostado paralelamente à margem do canal.

Ele sabe o que se vai passar a seguir – o rasto de vapor torna fácil eles descobrirem-no – portanto como uma mola põe-se dali para fora.   Um segundo depois o iate é simplesmente empurrado para baixo de água por uma descarga daquela enorme peça.

Hiro corre durante alguns segundos, encontra um pontão onde se pode equilibrar e volta a abrir fogo com uma prolongada rajada; quando termina, a orla do Enterprise apresenta uma mordidela denteada semicircular retirada do sítio onde antes estivera a Phalanx.

Volta a navegar de novo no canal principal e segue-o para o interior até acabar por baixo de um dos navios do Core, um porta-contentores convertido num alto complexo de apartamentos.   Uma rede de carga serve como rampa de um a outro.   Provavelmente servirá também como ponte levadiça quando indesejáveis tentam trepar lá acima a partir do guetto.   Hiro será tão indesejável como alguém na Jangada o pode ser, mas deixam aquela rede de carga ali para ele.

Está porreiro.   Por agora ele mantém-se no pequeno barco.   Zumbe passando rente ao lado do porta-contentores e faz uma curva em ‘U’ à volta da sua proa.

O vaso seguinte é um enorme petroleiro que na sua maior parte estará vazio e se encontra bem elevado na água.   Olhando para cima para aquele canyon alcantilado em aço separando os dois navios, não vê quaisquer redes de carga estendidas entre eles.   Não querem por ali ladrões ou terroristas a chegarem até ao petroleiro e a perfurarem-no à cata de combustível.

O próximo navio é o Enterprise.

Os dois vasos gigantes, o petroleiro e o porta-aviões, navegam paralelamente, sempre a uma distância que varia entre três e quinze metros, unidos por uma quantidade gigantesca de cabos e mantidos separados por vastíssimos airbags como se espremessem alguns balõezinhos entre eles para evitarem roçar um no outro.

Os enormes cabos não se limitam a estar atados de um ao outro; fizeram ali uma coisa mais inteligente com pesos e roldanas, presume que para permitir uma certa folga quando o mar bravio atirar os navios em direcções opostas.

E Hiro navega o seu próprio ‘airbag’ pelo meio deles.   Este túnel de aço cinzento está tranquilo e isolado se compararmos com a Jangada; excepto no tocante a ele, ninguém terá alguma razão para aqui estar.   Por um minuto quer apenas sentar-se ali e relaxar.

O que não será muito provável, quando pensas nisto tudo – “TU ESTÁS AQUI” – diz ele.

A sua visão do casco do Enterprise – uma suave extensão nesse aço cinzento – transforma-se agora num diagrama de estrutura em rede tridimensional mostrando-lhe todas aquelas entranhas do navio no outro lado dessa parede.

Por aqui ao longo da linha de água, o Enterprise tem uma cintura de blindagem bem espessa, anti-torpedo.   Não é nada promissora.   Mais lá para cima a armadura torna-se mais fina e as coisas do outro lado parecem ser melhores, salas - na verdade - em vez de tanques de combustível ou berços de munições.

Hiro escolhe um espaço marcado como ‘Sala dos Oficiais’ e abre fogo.   O casco do Enterprise é surpreendentemente robusto.   A Razão não abre logo uma cratera através daquilo; leva alguns momentos para a rajada penetrar.   E mesmo então tudo o que faz é abrir um buraco de cerca de quinze centímetros de largura.   O coice já atirou entretanto Hiro de encontro ao casco ferrugento do petroleiro.

De qualquer modo não pode levar a arma com ele.   Mantém o gatilho premido e tenta é conservá-la apontada numa direcção consistente até que as munições acabem.   Então desamarra as correias daquilo do seu corpo e deixa afundar toda aquela coisa ao mandá-la borda fora.   Irá até ao fundo e a posição fica marcada por uma coluna de vapor; posteriormente a Hong Kong Maior de Mr. Lee bem pode enviar um dos seus pelotões da acção directa ambiental para a recolher.   Então poderão arrastar Hiro perante o Tribunal de Crimes Ambientais, se assim o quiserem.   Por agora ele não se rala.

É preciso meia dúzia de tentativas para fixar a fateixa lá em cima naquele buraco dentilhado, seis metros acima da linha de água.

Ao se contorcer e avançar pelo orifício o seu impermeável emite uns ruídos de estalos e uns silvos, conforme aquele metal aguçado e aquecido derrete e rasga através do tecido sintético.   Acaba por deixar uns retalhos atrás dele, pegados ao casco.   E acabou por arranjar umas queimaduras de primeiro e segundo grau nas partes da sua pele que estão agora expostas, mas na verdade não doem ainda.   É como são as coisas quando nos ferimos.   Mais tarde é que irá doer.   As solas dos seus sapatos derretem e crepitam ao marchar sobre pedaços incandescentes de estilhaços.

A sala está bem fumarenta mas os porta-aviões afinal não são nada se não estiverem precavidos contra fogos e não há muito aqui neste local que seja inflamável.   Hiro limita-se a caminhar através do fumo até à porta que foi já cravejada, feita num naperon em aço pela Razão.

Com um pontapé mete-a fora da ombreira e penetra num local que no diagrama está simplesmente marcado como ‘Corredor’.   Depois, porque a altura parece tão boa como outra qualquer, desembainha a sua katana.

60

Quando o seu parceiro está fora a fazer alguma coisa na Realidade, o avatar dele fica assim tipo flácido.   O corpo com o aspecto do de uma boneca insuflável e o rosto, esse, continua a passar por todo o tipo de exercícios de distensão.   Ela não sabe o que anda ele a fazer mas tem todo o ar de ser excitante pois a maior parte do tempo ele está ou extremamente surpreso ou aterradoramente assustado.

Logo depois de ele ter efectuado a conversa com aquele tipo Bibliotecário sobre o porta-aviões começa a ouvir ruídos profundos, ribombantes – barulhos provindos da Realidade – do exterior.   Soa a um cruzamento entre uma metralhadora e uma serra circular.   Todas as vezes que ouve aquele ruído a face de Hiro fica com este ar atónito como: ‘vou morrer’.

Há alguém a bater-lhe no ombro.   Algum tipo importante que terá algum encontro importante no Metaverso a uma hora tão matutina, e que acha que o que quer que seja que esta Korreio está a fazer não será tão importante assim.   Ela ignora-o por um minuto.

Então o escritório de Hiro deixa de estar ali focado, salta no ar como se estivesse pintado no reflexo de uma janela e ela está já a olhar para a face de um gajo.   Um gajo asiático.   Um tipo temível.   Um cabeça-d’antena.   É um daqueles gajos arrepiantes, com uma antena.

“Okay – diz ela – o que é que queres?”

Ele agarra-a pelo braço e arrasta-a para fora da cabina do terminal.   Há um outro tipo com ele e este agarra no outro braço dela.   E todos juntos principiam a caminhar dali para fora.

“Solta-me a porra do braço – diz ela – eu vou com vocês.   Está okay.”

Não é a primeira vez que ela é atirada para fora de um prédio cheio de gente importante.   Desta vez, porém, é um pouco diferente.   Desta vez os porteiros são um par que parecem caracteres de plástico em tamanho real da ‘Toys ‘R Us’.

E não é só o caso de que os gajos provavelmente não falem inglês.   É que eles não se comportam normalmente.   Ela acaba por conseguir torcer e soltar um dos braços e o gajo não lhe bate nem nada parecido, limita-se a voltar-se para ela rigidamente e tacteia-a mecanicamente até que a tem de novo segura pelo braço.   Não há qualquer alteração no rosto dele.   Os seus olhos, fixos como faróis avariados.   A boca está aberta o bastante para o deixar respirar através dela mas os lábios não se mexem nunca, nunca muda de expressão.

Encontram-se num complexo de camarotes de navio e contentores abertos, cortados, que funcionam como o lobby de um hotel.   Os cabeças-d’antena arrastam-na porta fora e atravessam aquela marcação em traços cruzados e toscos da placa para helicópteros.   Também é mesmo a tempo pois vem aí um heli a aterrar.   Os procedimentos de segurança neste lugar deixam muito a desejar; podiam ter ficado sem cabeça.  É aquele heli jeitoso de uma corporação com o símbolo RARE que ela antes já vira.

Os cabeças-d’antena tentam rebocá-la sobre um género de portaló que os conduz por sobre as águas ali à vista, por baixo, até ao navio seguinte.   Ela consegue voltar-se para trás e agarra-se com ambas as mãos ao corrimão, engancha as pernas em torno dos seus suportes e finca-se aí.

Um deles agarra-a à volta da cintura por trás e tenta soltar-lhe o corpo dali enquanto o outro mete-se em frente dela e vai-lhe descolando os dedos um a um do corrimão.

Vários gajos amontoam-se no exterior do heli da RARE.   Vestem uns macacões com material enfiado pelos bolsos e pelo menos um estetoscópio ela consegue ver.   Arrastam para fora do heli umas malas grandes em fibra de vidro, com cruzes vermelhas pintadas nos lados, e correm para dentro do navio porta-contentores.   Y.T. sabe que isto não está a ser feito em prol de nenhum anafado homem de negócios que tenha entalado uma das bolas do seu escafiado saco de tomates.   Vão mas é reanimar o namorado dela.   Raven espicaçado de genica: precisamente o que o mundo precisa nesta altura.

Rebocam-na pelo convés do navio seguinte.   Daí tomam uma coisa que está a fazer de escada e que os deixa trepar para o navio que vem a seguir a esse, o qual é bastante grande.   Ela pensa ser um petroleiro.   Consegue ver através de todo aquele vasto convés, por entre um emaranhado de tubos, com ferrugem a entranhar-se pela pintura branca, e depara com o Enterprise do outro lado.   É para aí que eles vão.

Não existe qualquer ligação directa.   Uma grua no convés do Enterprise rodopiou já para suspender uma pequena gaiola em rede metálica sobre o petroleiro, alguns pés apenas acima do convés dali; anda acima e abaixo e desliza ao mesmo tempo para a frente e para trás sobre uma área relativamente grande conforme os dois navios balançam em sentidos diferentes, e como um pêndulo oscila no extremo do seu cabo.   Num dos lados possui uma porta a qual está mantida aberta.

Empurram-na mais ou menos de cabeça, mantendo-lhe os braços à força alinhados com o corpo de modo a que ela não possa afastar aquilo e levam então alguns segundos dobrando-lhe as pernas por debaixo do corpo.   Por agora tornou-se óbvio que falar não adianta, portanto limita-se a lutar em silêncio.   Consegue dar a um deles uma bela patada na ponte do nariz e tanto sente como ouve o osso a quebrar, mas o homem não reage de modo nenhum a não ser rebatendo a cabeça atrás por força do impacto.   Está tão ocupada a observá-lo, esperando para ver quando é que ele vai descobrir que tem o nariz partido e que é ela a responsável disso, que até deixa de espernear e de se debater o tempo suficiente para que a metam completamente na gaiola.   A porta bate então ao cair, fechando-se.

Um guaxinim treinado poderia facilmente conseguir abrir a portinhola.   Esta gaiola não é própria para conter gente.   Mas na altura em que ela já deu a volta ao corpo de forma a poder chegar com as mãos à porta está já a seis metros acima do nível do convés e olhando para baixo vê uma calha de água negra entre o petroleiro e o Enterprise.   Mesmo lá no fundo repara num Zodiac abandonado balouçando para trás e para diante entre aquelas paredes de aço.

Nem tudo está propriamente bem a bordo do Enterprise.   Nalgum lugar haverá algo que está para ali a arder.   Há gente a disparar armas.   Não está muito ciente, ela, de que queira lá estar.   Enquanto se mantém ali içada no ar aproveita para um reconhecimento ao navio e confirma que não há nenhum caminho para o exterior, nem aqueles úteis portalós ou coisecas a fazer de escadas.

Está a ser baixada em direcção ao Enterprise.   A gaiola pôs-se a querenar para trás e para a frente roçando mesmo acima do convés, pendurada ainda pelo cabo, e quando toca no ‘deck’ finalmente derrapa por uma curta distância antes de se imobilizar.    Sonoramente ela abre a escotilha e arrasta-se dali para fora.   E agora o quê?

Há uma rodela no estilo do centro de um alvo pintada sobre o convés com alguns helicópteros estacionados em redor da sua orla e presos aí.   E há um helicóptero, um mamute, dois motores a turbinas, no género de uma banheira voadora enfeitada com metralhadoras e mísseis, colocada precisamente no centro dessa rodela, todas as luzes ligadas, motores a zumbir, e os rotores a girar ainda sem efeito de tracção.   Um pequeno cacho de homens aguarda ao lado dele.

Y.T. caminha nessa direcção.   Ela odeia isto.   Ela sabe que isto é o que é suposto ela fazer.   Mas não há na verdade outra escolha.   Profundamente, desejaria que tivesse a sua prancha ali consigo.   O convés deste porta-aviões é dos melhores territórios para skating que ela viu até hoje.   Já viu em filmes que os porta-aviões possuem enormes catapultas a vapor para atirar os aviões para os céus.   Imaginem o que seria viajar à custa de uma catapulta a vapor, na tua prancha!

Conforme se dirige para o helicóptero um dos homens à espera destaca-se do grupo e caminha ao encontro dela.   Ele é grande, com um  corpo que parece um bidão de 55 galões e um bigode que nos cantos se revira para cima.   E conforme ele avança para ela está-se a rir de um modo satisfeito o que a torna chateada.

“Bom, não te pareces com uma coisinha perdida! – diz ele – Merda, oh miúda, estás aí é como um rato afogado e seco outra vez.”

“Obrigada – diz ela – Pareces-me um fiambre retalhado.”

“Muito engraçada” – diz ele.

“Então como é que não te estás para aí a rir?   Com receio que seja verdade?”

“Olha, diz ele – não tenho tempo para estes gracejos de adolescente.   Cresci e amadureci precisamente para m’afastar disto.”

“Não é que não tenhas tempo – diz ela – É que não tens muito jeito para isso.”

“Sabes quem é que eu sou?” – pergunta ele.

“Sim, sei.   Sabes quem é que eu sou?”

“Y.T.    Uma Korreio de quinze anos.”

“E amigalhaça pessoal de Uncle Enzo” – diz ela – sacando veloz a corrente com as chapinhas-de-cão e lançando-as.   Ele segura-as numa das mãos, espantado, e a corrente enrola-se-lhe em torno dos dedos.   Levanta-os e põe-se a lê-las.

“Bom, bom – diz ele – É uma pequena lembrança e pêras” – volta a atirá-las para ela – “Sei que estás numa boa com o Uncle Enzo.   De outro modo eu tratava mesm’era d’afogar-te em vez de trazer-te aqui p’rá festança.   E francamente não dou um chavo por nada – diz ele – porque pela altura do dia findar, ou Uncle Enzo perdeu o lugar, ou serei eu então, como disseste, um ‘fiambre retalhado’.   Mas calculo que para o Big ‘Wop’ (Bola-de-Sebo) será menos provável ele lançar um Stinger pelas turbinas ali do meu heli se souber que a sua pequenina chiquita se encontra a bordo.”

“Não é disso que se trata – diz Y.T. – Não é uma relação em que a pinocada faça parte” – mas ela está bem contrariada ao verificar que as chapinhas, depois deste tempo todo, não tiveram qualquer efeito mágico sobre os patifes.

Rife volta-se e começa a andar de regresso ao heli.   Após alguns passos vira-se para trás e olha para ela, parada ali, tentando não chorar.   “Vens?” – diz ele.

Ela olha para o heli.   Um bilhete para fora da Jangada.

“Posso deixar um bilhetinho para o Raven?”

“Tanto quanto possa dizer respeito ao Raven, penso que já trataste de tudo – haw haw haw!   Vamos, miúda, estamos para ali a gastar jet fuel – isso não é bom para a porcaria do ambiente.”

Ela segue-o até ao aparelho, trepa a bordo.   Está quente e luminoso aqui dentro, com assentos giros.   É como entrar em casa depois de um duro dia em Fevereiro, de andanças pelas auto-estradas de mais cascalho, e refastelar-se depois numa poltrona de descanso toda almofadada.

“Mandei refazer o interior – diz Rife – Este é um helicanhão grande old sov (dos antigos, e dos soviéticos) e não foi desenhado a pensar em conforto.   Mas é o preço a pagar por toda aquela armadura blindada.”

Há dois outros gajos aqui.   Um, à volta dos cinquenta, tipo magricelas, poros grandes, óculos bifocais de aros metálicos, e transporta um ‘lap-top’.   Um ‘technic’.   O outro é um afro-americano corpulento e com uma arma – “Y.T. – diz o sempre bem educado L. Bob Rife – apresento-te Frank Frost, o meu ‘director técnico’, e Tony Michaels, o meu chefe de segurança.”

“M’dame” – diz Tony.

“Comovai?” – diz Frank.

“Chupem-m’os dedos.”

“Não pises é nisso, por favor” – diz Frank.

Y.T. olha para baixo.   Trepando para o assento livre mais próximo da porta pisara um pacote pousado no chão.   Tem as dimensões aproximadas de uma lista telefónica, mas é irregular, bastante pesado, enfaixado naquele plástico transparente e com pequenas bolhas e que é próprio para embrulhar.   Ela consegue ter um vislumbre do que está lá dentro.   Quanto à cor, é de um castanho-avermelhado claro.   E coberto de esgravatadelas de galinha.   Duro que nem uma rocha.

“O que é isso? – diz Y.T. – Pão caseiro, é?  Da mamã?”

“É um artefacto antigo” – diz Frank, todo lixado.   Rife abafa o riso, grato e aliviado que Y.T. esteja agora a insultar outro que não ele.

Um outro homem vem aí a caminhar pelo convés de voo, amarrecado que nem um pato, tendo um mortal receio daquelas rodopiantes pás do rotor, e trepa a bordo.   Tem à volta dos seus sessenta, e com um penacho tipo dirigível daquele cabelo branco que não ficou de forma alguma emaranhado pelo fluxo de ar descendente.

“Alô a todos – diz ele animadamente – Não creio que me tenha já encontrado com todos vós.   Só cheguei aqui esta manhã e agora cá vou eu outra vez de regresso!”

“Quem é que você é?” – diz Tony.

O novo gajo fica com um ar desanimado – “Greg Ritchie” – diz ele.

Então, quando ninguém parece reagir, ele sacode-lhes a memória – “Presidente dos Estados Unidos.”

“Oh!   Desculpe-me.   Prazer encontrá-lo, senhor Presidente – diz Tony estendendo a mão – Tony Michaels.”

“Frank Frost” – diz Frank estendendo a mão e parecendo enfastiado.

“Não se rale comigo – diz Y.T., quando Richtie olha na direcção dela – sou uma refém.”

“Força no torque desta coisa – diz Rife para o piloto – Em direcção a L.A.   Temos uma missão para comandar.”

O piloto tem uma face angular e que, após as experiências dela na Jangada, Y.T. reconhece como tipicamente russa.   Começa a brincar com os controles.   Os motores zumbem mais alto e o matraquear das pás do heli eleva-se.   Y.T. sente, embora não as ouça, um par de pequenas explosões.   Também todos os outros as sentem mas só Tony reage; abaixa-se no chão do helicóptero, puxa de uma arma que traz sob o casaco e abre a porta do seu lado.   Entretanto o zunido dos motores baixa um pouco em tom e o rotor recua para a posição neutra.

Y.T. consegue vê-lo do lado de fora da janela.   É Hiro.   Vem todo envolto em fumo e sangue, e numa das mãos segura uma pistola.   Disparou apenas um par de tiros para o ar, para chamar a atenção deles, e agora postou-se atrás de um dos helis estacionados para ter cobertura.

“És um homem  morto – grita Rife – Estás retido na Jangada seu palerma.   Tenho aqui um milhão de myrmidions[29] – lacaios.   Vais matá-los a todos?”

“As espadas não ficam sem munições” – grita Hiro.

“Bem, o que é que queres?”

“Quero a placa.   Dás-me a placa de argila e podes então descolar à vontade e deixar o tal milhão desses teus cabeças-d’antena lacaios matarem-me.   Não me dás a placa, e esvazio este carregador pelo pára-brisas do teu heli.

“É à prova de bala!   Haw!” – diz Rife.

“Não, não é – diz Hiro – tal como os rebeldes no Afeganistão o comprovaram.”

“Ele tem razão” – diz o piloto.

“Foda-se para este pedaço de merda soviética!   Puseram-lhe todo aquele aço na pança e depois vão meter-lhe um pára-brisas em vidro?”

“Dá-me a placa – diz Hiro – ou disparo sobre o heli.”

“Não, não vais – diz Rife – ‘que tenho aqui a Tinkerbell.”

No último instante Y.T. tenta atirar-se para baixo e esconder-se para que ele não a veja.   Sente-se envergonhada.   Mas Hiro, por um momento apenas, vê-a, troca um olhar com ela, e ela pode observar a derrota inundar-lhe a face.

Num mergulho atira-se para o chão e consegue meter meio corpo de fora por sob o fluxo dos rotores.   Tony agarra-a pelo colarinho do macacão e arrasta-a de novo para dentro.   Empurra-a para baixo, ela no chão sobre a barriga, e mete um dos joelhos dele sobre os rins dela para a segurar ali.   Entretanto o motor está de novo a ganhar potência e fora da porta aberta ela consegue ver aquele horizonte em aço do convés do porta-aviões a quedar-se do seu campo de visão.

Após todo este tempo ela lixou o plano.   Deve a Hiro uma indemnização.

Ou talvez não.

Mete a base de uma das mãos contra a aresta da placa de argila e empurra com quanta força pode.   Aquilo escorrega sobre o chão, vacila na soleira, e rodopia para fora do helicóptero.

Mais uma entrega feita, outro cliente satisfeito.

61

Por um minuto ou cerca disso o heli paira a cinco metros sobre a sua cabeça.   Todos a bordo de olhar fixo na placa que rebentou para fora do invólucro, no centro daquela rodela no solo.   O plástico rompeu-se nos cantos, e fragmentos – fragmentos grandes – ejectaram-se da placa de argila até vários pés de distância em redor, em todas as direcções.

Hiro também olha para aquilo, ainda a salvo sob cobertura de um dos helis estacionados.   Concentra-se tanto naquela placa que até esquece de se fixar em qualquer outra coisa.   Então um par de cabeças-d’antena aterra nas suas costas esmagando-lhe o rosto contra o flanco do helicóptero.   Desliza para baixo e aterra sobre a própria barriga.   O braço da arma está ainda livre mas mais um par de cabeças-d’antena senta-se aí.   Um outro par sobre as pernas, igualmente.   Não se pode mexer mesmo nada.   Não consegue ver outra coisa excepto a tablete quebrada ali a cinco metros de distância sobre o convés de voo.   O som e a ventania do heli de Rife atenuam-se num distante ruído insistente e inócuo que leva um tempo dilatado a extinguir-se por completo.

Sente uma picada atrás do ouvido, antecipando um bisturi e a perfuração.

Estes cabeças-d’antena operam sob um controle remoto a partir de algum outro sítio.   Ng parecia pensar que eles teriam um sistema de defesa da Jangada organizado.   Talvez exista um ‘hacker-em-comando’, um en localizado na torre de controle do Enterprise, mantendo estes gajos em movimento por aí à volta tal como um controlador de tráfego aéreo.

De qualquer maneira, não se salientam muito em espontaneidade.   Sentam-se sobre ele por alguns minutos antes de se decidirem o que fazer a seguir.   Depois,  há muitas mãos a baixarem-se e a apanhá-lo pelos pulsos e tornozelos, cotovelos e joelhos.   Arrastam-no atravessando o convés de voo como ‘gatos pingados’, ele de face ao céu.   Hiro olha para a torre de controle e vê um par de rostos a olharem cá para baixo para ele.   Um deles – o en – está a palrar para um microfone.

Chegam por fim a um enorme elevador-plataforma que se afunda para as entranhas do navio já fora da vista da torre de controle.   Detém-se num dos ‘decks’ inferiores, aparentemente é um convés-hangar onde costumavam guardar as aeronaves.

Hiro escuta uma voz feminina dizendo as palavras de forma suave mas clara: “me lu lu um al nu um me en ki me em me lu lumu me al nu um me al nu um me me um lu e al nu um me dug ga um me um lu e al nu um me...”

Está a uns noventa centímetros de altura sobre o convés e cobre a distância em queda-livre, arreando com as costas no chão e chocando com a cabeça.   Todos os seus membros carambolam lassos sobre o metal.   À volta dele vê e ouve os cabeças-d’antena que desabam como toalhas molhadas a caírem de um suporte.

Não consegue mexer qualquer parte do corpo.   Tem algum controle, pouco, sobre os olhos.   Um rosto entra no seu leque de visão e ele tem dificuldades em distingui-lo bem, não consegue focá-lo razoavelmente mas reconhece algo na postura dela, a forma como sacode o cabelo para trás quando descai sobre o ombro.   É Juanita.   Juanita, com uma antena despontando da base do crânio.

Ela abaixa-se ajoelhando-se ao lado dele, inclina-se para ele com as mãos em concha sobre um dos seus ouvidos e sussurra.   O bafo quente faz-lhe comichão no ouvido, ele tenta esquivar-se mas não consegue.   E ela está a sussurrar mais uma extensa correnteza de sílabas.   Então endireita-se e espicaça-o a ele de lado.   Contorce-se fugindo dela.

“De pé, seu ronhas” – diz ela.

Ele levanta-se.   Está bom, agora.   Mas todos os cabeças-d’antena estão ali em redor dele perfeitamente paralisados.

“Apenas um pequeno nam-shub que desencadeei – diz ela – irão ficar bem.”

“Ôi” – diz ele.

“Ôi, é bom ver-te, Hiro.   Vou dar-te um abraço, olha aí a antena.”

E ela abraça-o.   E ele abraça-a também.   A antena está por cima do nariz dele, mas está okay.

“Uma vez esta coisa retirada, todo o cabelo e o resto voltará a crescer – sussurra ela.   Finalmente ela larga-o – Na realidade o abraço foi mais para mim do que para ti.   Tem sido um tempo de solidão por aqui.   De solidão e medo.”

Este é um comportamento tipicamente paradoxal para Juanita – tornar-se sentimental e emotiva numa ocasião como esta.

“Não me iludas – diz Hiro – mas não és agora uma desses maus?”

“Oh, por causa disto?”

“Yeah.   Não trabalhas para eles?”

“Se fosse isso, não estou a fazer um trabalho lá muito bom – ri-se ela, apontando para o círculo de cabeças-d’antena imóveis – Não.   Isto não me faz efeito.   Mais ou menos fez, por um bocado, mas há formas de contrariá-lo.”

“Porquê?   Porque é que não te afecta?”

“Passei os últimos anos envolvida com os Jesuítas – diz ela – Olha.   O teu cérebro possui um sistema imunitário, tal como o teu corpo.   Quanto mais o usares – a quantos mais vírus te expuseres – o teu sistema melhor imunizado ficará.   E eu consegui um sistema imunitário dos diabos.   Lembras-te, durante um certo tempo fui ateia e então regressei à religião mas de uma forma séria.”

“Porque é que não te lixaram do mesmo modo que aconteceu ao Da5id?”

“Eu cheguei aqui voluntariamente.”

“Como Inanna.”

“Sim.”

“Porquê iria alguém querer vir aqui voluntariamente?”

“Hiro, não descobriste?   É isto mesmo.   Isto é o centro nevrálgico de uma religião que é novíssima e ao mesmo tempo muito antiga.   Estar aqui é como acompanhar Jesus ou Maomé às voltas, pormo-nos a observar o nascer de uma nova fé.”

“Mas isto é terrível.   Rife é o Anti-Cristo.”

“Claro que é.   Mas é interessante contudo.   E Rife conseguiu algo mais a seu favor: Eridu.”

“A cidade de Enki.”

“Exactamente.   Apanhou todas as placas que Enki alguma vez escreveu.   Para uma pessoa interessada em religião e hacking este é o único lugar do mundo para se estar.   Se essas placas estivessem na Arábia, colocaria um chador na cabeça e queimava a minha carta de condução e iria até lá.   Mas as placas estão é aqui e portanto desta forma acabei por deixá-los ligarem-me isto.”

“Então este tempo todo o teu objectivo era estudares as placas de Enki.”

“Para conseguir os me, tal como Inanna.   Mais?”

“E tens estado a estudá-las?”

“Oh, sim.”

“E?”

Ela aponta para os cabeças-d’antena ali caídos – “E consigo fazê-lo agora.   Sou uma ba’al shem.   Consigo fazer hackings (programações) ao tronco cerebral.”

“Okay, olha.   Estou contente por ti, Juanita.   Mas no entretanto defrontamo-nos com um pequeno problema.   Estamos rodeados por um milhão de pessoas que nos querem liquidar.   Consegues paralisá-los a todos?”

“Sim – diz ela – mas isso então iria matá-los.”

“Sabes o que temos a fazer, não sabes, Juanita?”

“Libertar o nam-shub de Enki – diz ela – Executar o processo de Babel.”

“Vamos buscá-lo” – diz Hiro.

“Comecemos pelo princípio – diz Juanita – A torre de controle.”

“Okay, prepara-te para apanhar a placa e eu tomo conta da torre de controle.”

“Como é que vais fazer isso?   A cortar o pessoal à espada?”

“Yeah.   É a única coisa para que elas são boas.”

“Vamos antes fazer ao contrário” – diz Juanita.   Ela levanta-se e caminha dali para fora atravessando o convés-hangar.

 

O nam-shub de Enki é uma tablete embrulhada num envelope de argila coberto com o equivalente, em escrita cuneiforme, a um autocolante de aviso.   O conjunto completo estilhaçou-se em dezenas de pedaços.   A maior parte deles permaneceu envolta no interior do plástico mas alguns houve que foram a rolar pelo convés de voo.   Hiro recolhe-os a todos ali na plataforma heli e trá-los para o centro dessa rodela.

No momento em que conseguiu já cortar o plástico envolvente, Juanita está a acenar para ele a partir das janelas no alto da torre de controle.   Retira todas as peças que parecem fazer parte do envelope e coloca-as numa pilha separada.   Põe-se então a juntar o que resta da própria placa num grupo coerente.   Não é óbvio, ainda, como montar aquilo tudo junto, e ele não tem tempo ali para puzzles de peças recortadas.   Assim, met’óculos para o seu escritório, usa o computador para tirar um instantâneo electrónico, uma foto digital dos fragmentos, e chama o Bibliotecário.

“Sim, sir?”

“Este hipercartão contém uma foto de uma placa de barro, estilhaçada.   Conheces algum software que seja bom para voltar a montar de novo isso correctamente?”

“Um momento, sir – diz o Bibliotecário.   Depois, um hipercartão surge na mão dele.   Entrega-o a Hiro.   Contém uma foto de uma placa inteira – “É este o aspecto, sir.”

“És capaz de ler sumério?”

“Sim, sir”

“Consegues ler alto esta placa?”

“Sim, sir.”

“Prepara-te para fazer isso.   Aguenta aí um segundo.”

Hiro caminha até à base da torre de controle.   Existe aí uma porta que lhe dá acesso através de um poço de escadas.   Trepa até à sala de controle, uma estranha mistura da Idade do Ferro e de ‘high-tech’.   Juanita encontra-se aqui à espera, rodeada por cabeças-d’antena pacificamente adormecidos.   Bate levemente num microfone que se projecta saindo de um painel de comunicações e no topo de um ‘pescoço de ganso’ flexível – o mesmo micro para o qual o en estivera antes a falar.

“Ao vivo e para a Jangada – diz ela – Vamos a isto.”

Hiro mete o seu computador no modo de som alto e vai-se colocar junto ao microfone – “Bibliotecário, lê-me isso” – diz ele.   E uma torrente de sílabas corre para fora do altifalante.

A meio daquilo Hiro lança um olhar a Juanita.   Está de pé, ela, no canto mais afastado da sala, com os dedos enfiados nos ouvidos.

Lá em baixo na base das escadas um cabeça-d’antena começa a palrar.    Mais fundo, no interior do Enterprise, há mais falatório a decorrer.   E nada daquilo faz algum sentido.   Apenas uma quantidade de balbuciar.

Há um passadiço exterior na torre de controle.   Hiro vai aí fora para escutar a Jangada.   De todos os quadrantes ao redor deles ergue-se agora um rugido surdo, não o das ondas ou o do vento, mas o de um milhão de vozes humanas libertas falando numa confusão de línguas.

Juanita sai também para escutar aquilo.   Hiro repara num fiozinho de vermelho sob o ouvido dela.

“Estás a sangrar” – diz ele.

“Eu sei.   Um poucochinho de cirurgia à antiga – diz ela.   A voz está tensa e hesitante – Tenho andado por aí com uma lâmina de bisturi para casos como este.”

“O que é que fizeste?”

“Introduzi-o por sob a base da antena e cortei a ligação que ia para o interior do meu crânio” – diz ela.

“Quando é que fizeste isso?”

“Enquanto estavas lá em baixo no convés de voo.”

“Porquê?”

“Porque é que pensas que é? – diz ela – Para que não ficasse exposta ao nam-shub de Enki.   Sou uma hacker neurolinguística agora, Hiro.   Atravessei o inferno para obter este conhecimento.   É uma parte de mim.   Não esperes que me submeta a uma lobotomia.”

“Se conseguirmos sair disto, serás a minha miúda?”

“Naturalmente – diz ela – Agora vamo-nos mas é pôr fora disto.”

62

Só estava a fazer o meu serviço, pá – diz ela – Este tipo, Enki, tinha que fazer chegar uma mensagem ao Hiro e eu entreguei-a.”

“Calada! – diz Rife.   Não diz aquilo como se estivesse lixado.   Apenas pretende é que ela esteja quieta.   Porque o que ela fez não causa agora qualquer diferença, com todos aqueles cabeças-d’antena amontoados em cima de Hiro.

Y.T. olha pela janela.   Vão na esgalha por cima do Pacífico, mantendo-se bem baixo que a água parece roçar velozmente debaixo deles.   Não sabe a quanto é que vão de velocidade mas aparenta ser diabolicamente rápido.   Sempre pensou que o oceano era suposto ser azul mas é de facto o mais monótono tom de cinzento que ela já viu.   E há quilómetros e quilómetros dele.

Após alguns minutos, um outro heli chega-se junto deles e começa a voar a par, mesmo perto, em formação.   É o tal heli da RARE cheio de médicos.

Através da janela da cabina consegue ver Raven abancado num dos assentos.   Ao princípio ela pensa que ele esteja ainda inconsciente pois está ali todo corcunda sem se mover.

Então ele ergue a cabeça e ela vê que ele está d’óculos no Metaverso.   Ele levanta uma mão para puxar os óculos por um instante para cima da testa, lança um olhar de soslaio pela janela e vê-a a observá-lo.

Os olhos encontram-se e o coração dela começa a saltitar ali à volta debilmente como um coelhito num desses sacos herméticos ‘ziploc’.   Ele envia-lhe um sorriso irónico e acena.

Y.T. volta a sentar-se no seu lugar e faz deslizar para baixo a pala da janela.

63

Do pátio da frente de Hiro até ao cubo negro de L. Bob Rife próximo da Porta 127 vai meia distância de todo o perímetro do Metaverso, são 32.768 quilómetros.   A única parte difícil, na verdade, é sair-se da Baixa.   Pode como habitualmente conduzir a sua mota a direito através de outros avatars, mas a Street encontra-se igualmente juncada com veículos, animerciais, painéis comerciais, plazas públicas e outros pedaços de software de aspecto sólido que entram na sua trajectória.   Já para não mencionar algumas distracções.   Para a sua direita, um quilómetro afastado do The Black Sun, existe um fundo buraco na linha de horizonte da hiper-Manhattan.   É uma plaza aberta de quilómetro e meio de diâmetro, um género de parque onde os avatars se podem juntar para concertos, convenções e festivais.   A maior parte dele é um anfiteatro, como um prato fundo, e capaz de albergar simultaneamente perto de um milhão de avatars.   Lá em baixo no solo existe um vasto palco circular.

Normalmente o palco é ocupado pelos maiores grupos de rock.   Esta noite está por conta das mais grandiosas e brilhantes alucinações que a mente humana pode inventar.   Um dístico tridimensional está suspenso por cima dele anunciando o acontecimento da noite: um concerto gráfico de beneficência montado a favor de Da5id Meier que está ainda hospitalizado com uma inexplicável doença.   O anfiteatro está meio cheio de hackers.

Uma vez saído da Baixa, Hiro torce o acelerador até ao máximo e cobre os restantes trinta e dois mil e alguns quilómetros no espaço de cerca de dez minutos.   Sobre a sua cabeça os trens expresso assobiam ao longo da via a uma velocidade metafórica de dez mil milhas por hora, e ele ultrapassa-os – dir-se-ia que eles estão até imóveis.   Isto pode ser assim porque ele segue numa linha absolutamente recta.   No seu software de mota tem codificada uma rotina que a faz acompanhar automaticamente a faixa do monocarril de tal forma que nem tem sequer que se preocupar a conduzi-la.

Entretanto Juanita permanece a seu lado na Realidade.   Ela tem colocado um outro par d’óculos; vai vendo precisamente todas as mesmas coisas que Hiro vê.

“Rife tem uma ligação móvel a partir do seu heli da companhia, tal e qual como uma ligação de bordo de um avião comercial, e ele assim consegue conectar-se ao Metaverso quando vai no ar.   Enquanto for a voar essa é a sua única ligação ao Metaverso.   Poderíamos ser capazes de abrir caminho, um hacking até essa ligação, e bloqueá-la ou alguma coisa...”

“Esse material de comunicação de baixo-nível está demasiado cheio de ‘medicina preventiva’ que dava para nos entretermos esta década – diz Hiro, travando a sua mota para uma paragem quase total – C’o caraças!   Tal e qual como Y.T. o descreveu.”

Está defronte da Porta 127.   O cubo negro de Rife está aí como Y.T. o descrevera.   Não há qualquer porta.

Hiro começa a caminhar afastando-se da Street, vai na direcção do cubo.   Não reflecte mesmo luz nenhuma, de tal forma que ele nem consegue ver se aquilo está a dez pés ou a dez milhas dele até que os daemons de segurança começam a materializar-se.   Há ali meia dúzia deles, todos grandes avatars robustos em macacões azuis, com um aspecto assim num tipo para-militar, mas sem patente.   Nem precisam de patente pois todos estão a correr o mesmo programa.   Materializam-se à volta dele num semicírculo ordenado com um raio de uns três metros, bloqueando o avanço de Hiro para o cubo.

Baixinho, Hiro murmura uma palavra e desaparece, passou a ser um avatar invisível.   Seria muito interessante ficar por ali e ver como é que estes daemons de segurança lidam com o assunto mas ele agora tem é que pôr-se a andar antes que tenham uma oportunidade para se readaptarem.

Mas os daemons não se ajustam ao que ocorreu, pelo menos não muito bem.   Hiro corre por entre dois dos daemons de segurança e dirige-se para a parede do cubo.   Finalmente alcança-a esbarrando contra ela, acabando por se imobilizar.   Os daemons de segurança viraram-se já todos para ali e perseguem-no.   Podem calcular onde é que ele esteja – o computador ao menos pode indicar-lhes isso – mas não conseguem fazer-lhe nada a ele.   Tal como os daemons porteiros/seguranças no Black Sun e que Hiro ajudara a escrever, eles empurram o pessoal por aí fora aplicando as regras básicas da física avatar.

Quando Hiro está invisível, há muito pouco para eles, para empurrarem.   Mas caso estejam bem escritos terão formas bem mais subtis de o embaraçarem e portanto ele não perde tempo.   Espeta a katana contra a face do cubo e segue-a através da parede saindo pelo outro lado.

Isto é um hack, uma golpada.   Baseada na verdade num muito antigo hack, uma aberta – uma ambiguidade - que ele descobrira anos atrás quando estava a tentar enxertar as regras de luta de espadas no software já existente do Metaverso.   A sua lâmina não tem o poder de retalhar um buraco na parede – isto significaria alterar permanentemente a forma de uma construção alheia – mas possui o poder de penetrar em coisas.   Os avatars não têm tal capacidade.   É esse afinal o propósito de uma parede no Metaverso; é ser uma estrutura que não permita aos avatars penetrá-la.   Mas como tudo o mais no Metaverso esta regra mais não é que um protocolo, uma convenção que diferentes computadores concordam em seguir.   Em teoria, não poderá ser ignorada.   Mas na prática, depende da habilidade que diferentes computadores têm de trocar informação de forma muito precisa, a alta velocidade, e nos momentos devidamente correctos.   E quando estás conectado a um sistema via ligação por satélite tal como Hiro está, ali fora na Jangada, há um retardo conforme os sinais ricocheteiam no satélite e voltam.   Tal atraso pode ser explorado vantajosamente se te moveres o suficientemente rápido e nem olhares para trás.   Hiro corta a direito através da parede vindo literalmente na cauda daquela sua katana que em tudo penetra.

A Rifelândia é um vasto espaço brilhantemente iluminado, ocupado por formas elementares apresentadas em cores primárias.   É como estar-se dentro de um brinquedo educativo desenvolvido para ensinar geometria de sólidos a crianças de três anos: cubos, esferas, tetraedros, poliedros, ligados a uma rede de cilindros, linhas e espiras.   Mas neste caso isto foi já muito longe, muito para lá do controle, como se todos os blocos de Tinkertoys e Lego alguma vez feitos tivessem sido ali todos encaixados conjuntamente de acordo com algum esquema há muito esquecido.

Hiro já há bastante tempo que anda pelo Metaverso para saber que a despeito da aparência agradavelmente brilhante desta coisa ela é de facto tão simples e utilitária como um campo da tropa.   Isto é um modelo de um sistema.   Um grande sistema complexo.   As formas provavelmente representarão computadores, ou nodos centrais na rede global de Rife, ou franchises da Pearly Gates, ou qualquer outro tipo de escritórios locais e regionais que Rife possui a funcionar pelo mundo fora.   Trepando sobre esta estrutura e indo até essas formas brilhantes Hiro poderia, provavelmente, revelar algum do código que permite à rede de Rife operar.   Poderia talvez tentar um hacking, artilhá-la como Juanita sugerira.

 Mas não há interesse em mexer com algo que ele não descortine.   Podia perder horas tolhido à volta de um pedaço de código para vir depois a descobrir que era o software de controle dos autoclismos no Colégio Bíblico Rife.   Portanto Hiro continua a movimentar-se e a olhar para o emaranhado de formas, tentando reconhecer um certo padrão naquilo.   Por agora, ele sabe que conseguiu entrar na ‘sala das máquinas’ de todo o Metaverso.   Mas não tem ideia do que anda à procura.

Acha que este sistema consiste realmente de várias redes separadas, todas enfeixadas no mesmo espaço.   Há um entrançado extremamente complicado de finas linhas vermelhas, milhões delas, correndo de um lado para o outro entre milhares de pequenas bolas vermelhas.   Apenas como ideia ao calhas, Hiro acha que isto poderá representar a rede de fibra óptica de Rife com os seus inúmeros escritórios locais e nodos, espalhados pelo mundo inteiro.   Há um número de redes menos complicadas noutras cores, que poderão representar linhas coaxiais, tais como as que costumavam usar para a TV por cabo ou até linhas de telefone de voz.

E há uma rede encorpada, construção pesadona, rude, toda em azul.   Consiste de um número pequeno – menos de uma dúzia – de grandes cubos azuis.   Estão ligados uns aos outros mas a nada mais por uns tubos azuis espessos; os tubos são transparentes e no interior deles Hiro repara em feixes de ligações mais pequenas em várias cores.   Leva um momento, a Hiro, a captar isto tudo, pois os cubos azuis estão quase obscurecidos; encontram-se todos cercados por pequenas bolas vermelhas e outros nodos pequenos, como se fossem árvores estando todas recobertas com ‘kudzu’[30].  

Parece ser uma rede mais velha, pré-existente, de qualquer género, com os seus próprios canais internos, na maioria de um tipo primitivo como de telefone de voz.   Rife enxertou-a densamente com os seus próprios sistemas de mais elevada ‘tecno’.

Hiro manobra até conseguir um olhar mais próximo de um dos cubos azuis, espreitando através da desordem de linhas que cresceu à sua volta.   O cubo azul possui uma grande estrela branca em cada uma das suas seis faces.

“É o governo dos Estados Unidos” – diz Juanita.

“Aonde os hackers vão para morrer” – diz Hiro.   O maior e contudo o menos eficiente produtor no mundo, de software para computador.

Hiro e Y.T. já se fartaram de comer ‘junk food’ – comida sem jeito – por diferentes tascas em toda a L.A. – donuts, burritos, pizzas, sushi, a lista toda disso – e tudo o que Y.T. está sempre a falar é da mãe dela e do serviço temível que ela tem lá com os Feds.   A arregimentação.   Os testes com o detector de mentiras.   O facto de que apesar de todo o trabalho que executa, não tem na verdade ideia nenhuma sobre em que é que o governo está na realidade a trabalhar.

Tem sido sempre um mistério igualmente para Hiro mas, ora, é como o governo é.   Foi inventado para lidar com as coisas com que o empreendimento privado não se importava, o que significa que provavelmente não haverá razão para a sua existência; nunca sabes o que é que eles fazem ou porquê.

Tradicionalmente os hackers têm olhado com horror para essas lojas de exploração de empregados, as lojas de programação pertença do governo - tentam sempre esquecer que aquela merda alguma vez exista.

Mas eles têm milhares de programadores.   Os programadores trabalham doze horas por dia com base num retorcido sentido de lealdade pessoal.   As suas técnicas de engenharia-de-software, conquanto cruéis e repulsivas, são bastante sofisticadas.   Devem estar envolvidos nalguma coisa tremenda.

“Juanita?”

“Yeah?”

“Não me perguntes porque é que penso isto.   Mas creio que o governo conseguiu a adjudicação de um grande projecto de desenvolvimento de software para o L. Bob Rife.”

“Faz sentido – diz ela – Ele tem tal relacionamento de amor-e-ódio com os seus programadores, precisa deles mas não tem confiança neles.   O governo é a única organização em quem Rife confiaria para escrever algo importante.   Imagino o que seja?”

“Calma – diz Hiro – Calma.”

Está agora à mera distância de uma pedrada de um enorme cubo azul localizado ao nível do solo.   Todos os outros cubos azuis parecem ligar-se a esse.   Uma motorizada encontra-se estacionada junto ao cubo, desenhada em modo de cor mas só um niquinho acima do preto e branco: grandes pixéis dentilhados e uma limitada palete de cores.   E tem um sidecar.   E Raven está ali ao lado.

Nos braços transporta qualquer coisa.   É uma outra construção geométrica simples, uma elipsóide alongada e lisa, em azul, com uns dois pés de comprido.   Da maneira como ele se movimenta, Hiro calcula que Raven acabou de a remover do cubo azul; carrega-a até à mota e aconchega-a aí no sidecar.

“The Big One – A Grande Bomba” – diz Hiro.

“Exactamente o que temíamos – diz Juanita – a vingança de Rife.”

“Destinada ao anfiteatro.   Onde os hackers estão para ali todos aglomerados, num mesmo local.   Rife vai infectá-los a todos de uma vez só.   Vai-lhes esturricar as mentes.”

64

Raven encontra-se já montado na mota.   Se Hiro o perseguir ali a pé poderá talvez apanhá-lo antes que alcance a Street.

Mas pode ser que não consiga.   Nesse caso Raven estaria já no seu caminho em direcção à Baixa a dezenas de milhares de quilómetros por hora enquanto Hiro estivesse ainda a tentar o retorno à sua própria mota.   A velocidades dessas uma vez que Hiro perca Raven de vista perdeu-o para sempre.

Raven arranca com o motor da mota e começa a manobrar cuidadosamente por entre aquela confusão apontado à saída.   Hiro descola dali tão veloz quanto as suas pernas invisíveis o permitem. A direito em direcção à parede.

Perpassa-a um par de segundos depois e corre de regresso à Street.   O seu pequeníssimo avatar invisível não pode operar a mota, remete-se portanto à aparência normal, pula para a motorizada e vira-a para dar-lhe a volta.

Olhando para trás repara em Raven a conduzir em direcção à Street, a bomba lógica irradiando um suave azul como água pesada num reactor.   Ainda nem viu Hiro, até agora.

É esta a oportunidade.   Saca da sua katana e aponta a mota para Raven, atira-a até a uns cem quilómetros à hora.   Não há interesse em aproximar-se demasiado rápido, ali; a única forma para matar o avatar de Raven é decapitá-lo.   Esborrachá-lo com a motorizada não surtirá qualquer efeito.

Um daemon de segurança corre na direcção de Raven a esbracejar.   Raven olha e repara agora em Hiro vindo sobre si, e irrompe para diante.   A espada corta o ar atrás da cabeça de Raven.

Demasiado tarde.   Raven deve ter desaparecido, por agora, mas voltando-se para olhar em redor Hiro pode vê-lo no meio da Street.   Esbarrou contra um dos pilares que suporta a via de monocarril – uma irritação perene para motociclistas de alta velocidade.

“Merda!” – dizem ambos simultaneamente.

Raven endireita a mota na direcção da Baixa e revolve o manípulo acelerador ao mesmo tempo que Hiro atrás dele entra por sua vez na Street fazendo o mesmo, a acelerar.   Em poucos segundos estão os dois apontados à Baixa indo p’rá aí a uns oitenta mil quilómetros por hora.

Hiro segue meio quilómetro atrás de Raven mas consegue avistá-lo perfeitamente: as luzes públicas combinam-se em duas suaves listras gémeas paralelas, em amarelo, e Raven resplandece ali no centro delas, uma tempestade de cor barata e grandes pixéis.

“Se conseguir decapitá-lo, estão acabados” – diz Hiro.

Gotcha – diz Juanita – Pois se matares Raven ele é chutado para fora do sistema.   E não pode voltar-se a registar na rede até que os Daemons do Cemitério se descartem do seu avatar.”

“E eu controlo os Daemons do Cemitério.   Portanto tudo o que tenho a fazer é matar uma única vez este bastardo.”

“Uma vez que eles cheguem a terra com os seus helis, terão um melhor acesso à rede – podem arranjar mais alguém que tenham no Metaverso para substitui-lo” – avisa Juanita.

“Errado.   Porque Uncle Enzo e Mr. Lee estão à espera deles em terra.   Têm que fazê-lo durante a próxima hora, ou nunca mais.”

65

Y.T. desperta subitamente.   Nem imaginava que estivera a dormir.   Alguma coisa naquela batida ritmada das pás do rotor tê-la-á embalado.   Deve estar extenuada para a merda é o que é.

“Que porra é que se passa com a minha rede de comm’s – está L. Bob Rife a guinchar – as comunicações?”

“Ninguém responde – diz o piloto russo – Nem a Jangada, nem L.A., nem Khyooston.”

“Liga-me por telefone para o LAX – diz Rife – Quero apanhar o jacto para Houston.   Vamos mas é pôr o traseiro lá no campus e ver o que se está a passar.”

 O piloto entretém-se com o painel de controle – “Probliema” – diz ele.

“O quê?”

O piloto põe-se apenas a sacudir a cabeça, desolado – “Alguém está a intrometer-se no telefone-satélite.   Estamos a levar com uma interferência.”

“Eu devia ser capaz de conseguir uma linha” – diz o Presidente.   Rife limita-se a lançar-lhe um olhar como pois é, palerma.

“Alguém tem a porra de uma moeda? – berra Rife.   Frank e Tony ficam espantados por um minuto – Vamos aterrar na primeira cabina pública que virmos e fazer a merda de uma chamada telefónica – ele ri-se – Acreditam nisto?   Eu, a usar um telefone?”

Um segundo mais tarde Y.T. olha pela janela e fica estonteada ao ver terra de verdade lá em baixo, e uma auto-estrada de duas faixas serpenteando por uma cálida e arenosa linha de costa.   É a Califórnia.

O heli abranda, chega-se mais próximo da superfície começando a seguir a auto-estrada.   A maior parte dela encontra-se livre de plástico e luzes néon mas não passa muito tempo até apontarem a um curto pedaço de um guetto de franchises edificado em ambos os lados da via num local em que ela se distancia um pouco da praia.

O helicóptero pousa no parque de estacionamento de um Buy ‘n’ Fly.   Afortunadamente que o parque está quase vazio, não trincham a cabeça de ninguém.   Um par de jovens diverte-se nos videojogos no interior e só num relance é que reparam na surpreendente visão ali daquele heli.

Contentíssima da silva, ela, Y.T., está totalmente embaraçada por ser vista com este sortido estúpido de cotas peidentos.   O heli fica ali mesmo, em stand by, enquanto L. Bob Rife salta para fora e corre até ao telefone público embutido na parede fronteira.

Estes gajos foram suficientemente estúpidos para a porem no assento mesmo junto ao extintor de incêndios.   Não há razão para não tirar partido do facto.   Torce-o para fora do suporte retirando virtualmente no mesmo movimento o pino de segurança e aperta o gatilho apontando direitinho ao rosto de Tony.

Nada acontece.

“Foda-se!” – grita ela e atira-o a ele, aliás, empurra-o contra ele.   Ele, que estava inclinado para a frente agarrando-a já no pulso, sofre agora o impacto do extintor a atingir-lhe a face, e isto é suficiente para colocar uma mossa significativa na atitude dele.   Dá-lhe a ela tempo bastante para colocar as pernas para o exterior do aparelho.

Tudo começa a sair lixado.   Um dos bolsos tem o zip aberto e ela está meio a cair meio a rolar para fora do heli, mas o suporte do extintor prende-se àquele bolso e retém-na.   Na altura em que se desenvencilha disso já Tony recuperou, agora está ali de gatas a tentar agarrar-lhe o braço.

Isso consegue ela evitar.   Corre livremente para o parque de estacionamento.   Nas suas costas encontra-se limitada pelo Buy ‘n’ Fly e ao longo dos lados por uma alta vedação, a fronteira que separa este lugar de um Templo NeoAquariano numa das partes e de um franchisulado da Hong Kong Maior de Mr. Lee na outra.    A única possibilidade de escapar é sair para a estrada – do outro lado do helicóptero.   Mas o piloto, Frank e Tony, saltaram já do aparelho e bloqueiam-lhe essa fuga para a estrada.

No Templo NeoAquariano não irão ajudá-la.   Se ela pedir e rogar, pode ser que acabem por incluir o nome dela nos seus mantras da próxima semana.   Mas a Hong Kong Maior de Mr. Lee é outra história.   Corre para a vedação e começa a tentar amarinhá-la.   Dois metros e meio de rede encimada por fita farpada.   Mas a roupagem dela deverá resistir à fita cortante.   Em grande parte.

Chega a cerca de meia altura.   Então há uns braços atarracados mas fortes que estão em torno da sua cintura.   Está mesmo sem sorte.   L. Bob Rife alça-a da vedação para fora, ela inutilmente a espernear e a agitar com os braços no ar.   Ele recua alguns passos e começa a carregá-la de regresso na direcção do helicóptero.

Ela ainda olha para trás, para a franchise da ‘Hong Kong’.   Esteve quase a conseguir.

Há alguém no parque de estacionamento.   Um Korreio, a cruzar por ali vindo da auto-estrada, só como que para arrefecer e fazer a coisa numa boa.

“Hey! – grita ela.   Tacteia com a mão e aperta o interruptor na lapela do seu uniforme tornando-o azul e laranja – Hey!   Sou uma Korreio!   O meu nome é Y.T.!   Esta escumalha de gajos maníacos - raptaram-me!”

“Wow – diz o Korreio – um aborrecimento do caraças” – ele pergunta-lhe algo então.   Mas ela não consegue ouvir pois o heli está ali a acelerar mais o rodopianço das pás.”

“Estão-me a levar para o LAX!” – grita ela com toda a força dos pulmões.   Então Rife atira-a para o interior do helicóptero, a cara primeiro.   O heli eleva-se, cuidadosamente monitorizado por uma audiência de antenas no telhado da Hong Kong Maior de Mr. Lee.

No parque de estacionamento o Korreio observa a descolagem do helicóptero.   É mesmo fixe vê-lo com aquela quantidade de estrondosas armas.   Mas esses malandros no interior do helicóptero estavam a molestar à grande aquela garota.

O Korreio saca o seu telemóvel da bolsinha, conecta-se ao Comando Central da RadiKS e prime um grande botão vermelho.

Acaba de activar um Código.

 

Dois mil e quinhentos Korreios agrupam-se nas margens em betão armado do L. A. River.   Lá no fundo da vala do rio Vitaly Chernobyl e os Meltdowns estão precisamente a chegar à parte realmente boa do seu próximo grande êxito em single - ‘Control Rod Jam’ /  Vareta de Controle Encravada.   Um número de Korreios tiram proveito desta faixa para umas piruetas acima e abaixo por aquelas margens do ribeiro; apenas Vitaly, ao vivo, pode conseguir tamanha adrenalina neles, a bombar ali a tal ponto que lhes permita surfar uma margem tão pronunciada a mais de cento e trinta à hora sem fazerem um buracão no cimento.

E então a massa escura de fãs dos Meltdowns torna-se numa galáxia giratória laranja-avermelhada conforme duas mil e quinhentas novas estrelas surgem.   É uma visão estonteante e ao princípio eles até pensam ser um novo efeito visual arranjado por Vitaly e pelos seus gestores de imagem.   É como um movimento súbito, em massa, de Bics, excepto mais luminoso e mais organizado; cada um dos Korreios olha para baixo para o cinto dele, ou dela, e vê que uma luz vermelha se encontra a piscar no seu telefone pessoal.   Segundo parece, algum pobre skater terá reportado um Código de ocorrência.

 

Numa franchise da Hong Kong Maior de Mr. Lee nos arredores de Phoenix, o Tipo-Rato número B-782 desperta.

Fido está a acordar pois os cães encontram-se a ladrar esta noite.

Há sempre um ladrar.   Muito do ladrar é lá muito distante.   Fido sabe que esses ladrares longínquos não são tão importantes como os próximos, ali chegados, e portanto ele em geral dorme sem ligar a isso.   Mas às vezes um ladrar distante poderá trazer um som especial que tornará Fido excitado e não pode deixar de acordar.

Agora mesmo escuta um desses ladrares.   Vem de muito longe mas é urgente.   Está muito perturbado um cachorrinho algures.   Tão perturbado que o ladrar dele se espalhou a todos os outros cachorrinhos do grupo.

Fido presta atenção ao ladrar.   Também ele se torna excitado.   Alguns estranhos maus chegaram lá bem próximo do pátio de um dos cachorrinhos bons.   Estavam numa coisa voadora.   Eles tinham uma quantidade de armas.

Fido não gosta muito de armas.   Um estranho com uma arma acertou-lhe uma vez e feriu-o.  Então aquela menina boa veio e ajudou-o.

Estes são uns estrangeiros extremamente maus.   Qualquer bom cãozinho com a sua cabeça em condições havia de querer fazer-lhes mal e pô-los a desandar.   Ao ouvir aquele ladrar Fido está a ver como é que é o aspecto deles e escuta o som que fazem.   Se algum desses estranhos muito maus se chegarem a este pátio, ele irá ficar extremamente perturbado.

Então Fido entende que os estranhos maus estão a perseguir alguém.   Pode ver que eles estão a magoá-la pela forma como soa a voz dela e pela maneira como se mexe.

Os estranhos maus estão a fazer mal à menina boa que gosta dele!

Fido fica mais zangado do que alguma vez esteve, ainda mais zangado do que quando um homem mau o alvejou, há muito tempo.

O seu serviço é de manter estranhos maus fora do seu pátio.   Não faz nada mais além disso.

Mas é ainda mais importante proteger a menina boa que gosta dele.   Isso é mais importante do que qualquer outra coisa.   E nada pode pará-lo.   Nem mesmo a vedação.

A vedação é muito alta.   Mas consegue-se lembrar de há muito tempo atrás quando costumava saltar sobre as coisas que eram mais altas que a sua cabeça.

Fido sai da sua casinhota, recurva as suas longas patas por baixo dele e salta sobre a vedação que circunda o pátio antes de se ter lembrado que não é capaz de saltar sobre ela.   Esta contradição, porém, dissolve-se nele; como um cão, a introspecção não é um dos seus pontos fortes.

O ladrar espalha-se a outro lugar mais distante.   Todos os bons cachorrinhos que moram neste lugar distante estão a ser avisados para estarem alerta a esses estranhos mesmo maus e à menina que gosta de Fido pois eles estão a ir para esse lugar.   Fido vê o sítio na sua mente.   É grande e largo, plano e aberto, como um campo bom para correr atrás de Frisbees.   Tem muitas coisas voadoras grandes.   À volta dos seus lados há alguns pátios onde moram bons cachorrinhos.

Fido pode ouvir esses bons cãezinhos a ladrar em resposta.   Sabe onde é que eles se encontram.   Muito longe.   Mas pode-se lá chegar pelas ruas.   Fido conhece uma série enorme de diferentes ruas.   Põe-se a correr ao longo das ruas, e ele sabe onde está e para onde é que vai.

Ao princípio o único traço que o B-782 deixa da sua passagem é um trilho dançante de chispas que segue pelo centro do guetto de franchises.   Mas uma vez que ele chega a um segmento longo e rectilíneo de auto-estrada começa a largar uma evidência mais pronunciada: como que uma espuma azulada de vidro de segurança estilhaçado, atirado em spray para o exterior em troços paralelos a partir de todas as quatro faixas de trânsito, conforme janelas e pára-brisas de veículos são soprados das suas molduras, espalhados pelo ar ao estilo das ‘caudas de frango’ formadas na esteira de uma lancha rápida.

Como parte da política de boa vizinhança de Mr. Lee todos os Tipo-Ratos são programados para nunca ultrapassarem a barreira do som em áreas habitadas.   Mas Fido está com demasiada urgência para ter que se preocupar com políticas de boa vizinhança.   Passe-se a barreira do som.   Venha o barulho.

66

“Raven – diz Hiro – deixa-me contar-te uma história antes de te matar.”

“Estou a ouvir – diz Raven – É uma viagem comprida.”

Todos os veículos no Metaverso possuem telefones de voz incorporados.   Hiro simplesmente ligou para casa, para o Bibliotecário, e pô-lo à procura do número de Raven.   Estão agora a seguir naquela perseguição cerrada através da superfície negra do planeta imaginário embora Hiro vá ganhando terreno a Raven, metro a metro.

“O meu pai esteve na tropa na 2ª Guerra Mundial.   Mentiu acerca da sua idade para poder alistar-se.   Puseram-no no Pacífico a fazer trabalho rasca.   Em todo o caso acabou por ser capturado pelos nipónicos.”

“Então?”

“Então, levaram-no para o Japão.   Meteram-no num campo prisional.   Estava aí uma quantidade de americanos, mais alguns britânicos e alguns chineses.   E um par de gajos que não sabiam bem como situar.   Pareciam índios.   Falavam um pouco de inglês.   Mas falavam até melhor em russo.”

“Eram aleutas – diz Raven – Cidadãos americanos.   Mas ninguém tinha ouvido falar deles   Muita gente não sabe que os japoneses conquistaram território americano durante a guerra – várias ilhas no extremo da cadeia das Aleutas.   Habitadas.   Pelo meu povo.   Levaram os dois mais importantes aleutas e meteram-nos nesses campos de concentração lá no Japão.   Um deles era o mayor de Attu – a autoridade civil mais importante.   O outro era até mais importante, para nós.   Era o chefe arpoador da nação aleuta.”

Hiro diz – “O mayor ficou doente e morreu.   Não tinha quaisquer imunidades.   Mas o arpoador era um filho da puta rijo.   Adoeceu algumas vezes mas sobreviveu.   Ia trabalhar para o exterior, nos campos, juntamente com o resto dos prisioneiros, na produção alimentar para sustentar o esforço de guerra.   Trabalhou na cozinha a preparar a mistela para os prisioneiros e para os guardas.   Para ele guardava sempre um pedaço.   Todos o evitavam pois cheirava terrivelmente.   A sua cama fazia a camarata tresandar.”

“Estava a cozinhar veneno para baleias, veneno de acónito, a partir de cogumelos e outras substâncias que encontrava pelos campos e ocultava nas roupas” – diz Raven.

“Paralelamente – continua Hiro – andavam lixados com ele porque uma vez havia partido uma vidraça da janela, lá na camarata, e por todo o resto do Inverno aquilo deixava entrar o ar frio.   De qualquer modo, um dia, após o almoço, todos os guardas ficaram terrivelmente doentes.”

“Veneno de baleia no peixe guisado” – diz Raven.

“Os prisioneiros estavam já no exterior trabalhando nos campos e, quando os guardas começaram a sentir-se mal, principiaram a conduzi-los a todos de volta às camaratas pois não conseguiam manter a vigilância sobre eles, estando para ali todos dobrados com cólicas estomacais.   E nesta altura tardia da guerra não era fácil arranjar reforços.   O meu pai era o último da fila de prisioneiros.   E este gajo aleuta ia mesmo à frente dele.”

Raven diz – “Conforme os prisioneiros estavam a atravessar uma vala de irrigação, o aleuta mergulhou para a água e desapareceu.”

“O meu pai não sabia o que fazer – diz Hiro – até que ouviu um grunhido vindo do guarda que fechava a fila.   Voltou-se e viu que este guarda tinha uma lança em bambu toda espetada através do corpo.   Surgida ali vinda do nada.   E continuava sem conseguir ver o aleuta.   E então um outro guarda foi ao piso com a garganta rasgada, e aí estava o aleuta, a tomar balanço e a atirar mais outra flecha que derrubou ainda outro guarda.”

“Tinha andado a fabricar arpões e ia escondendo-os debaixo de água nas valas de irrigação” – diz Raven.

“Então – continua Hiro –  o meu pai achou que estava acabado.   Pois não importava o que dissesse aos guardas, iam considerá-lo como tendo feito parte de uma tentativa de fuga e iriam trazer uma espada para lhe podarem a cabeça.   Portanto, calculando que poderia contudo mandar abaixo alguns dos inimigos antes que o apanhassem, agarrou na arma do primeiro guarda que havia sido atingido, saltou lá para baixo para a protecção oferecida pela vala, e alvejou mais dois guardas que haviam voltado ali para investigar.”

Raven diz – “O aleuta correu para a vedação do perímetro que era uma coisa pouco sólida em bambu.   Supostamente existia aí um campo de minas mas ele correu direito através do local e sem problemas.   Ou ele estava cheio de sorte ou então as minas – se é que existia alguma – eram poucas e estavam muito dispersas.”

“Não se preocupavam em ter uma segurança estrita do perímetro – diz Hiro – pois o Japão é uma ilha, portanto mesmo que alguém escapasse, para onde é que podiam fugir?”

“Um aleuta podia fazê-lo, contudo – diz Raven – podia ir em direcção ao litoral mais próximo e construir para si um caiaque.   Podia levá-lo mesmo até ao mar e ir seguindo o seu caminho acompanhando a linha de costa japonesa, e então surfar de uma ilha para a outra, todo o percurso de volta até às Aleutas.”

“Correcto – diz Hiro – e essa era a única parte da história que eu nunca compreendi, até que te vi em mar aberto, com o teu caiaque numa velocidade tal que suplantava a de uma lancha rápida.   E foi então que juntei as peças todas.   O teu pai não era um louco.   Tinha um plano perfeitamente bom.”

“Sim.   Só que o teu pai não entendera tal plano.”

“O meu pai passou sobre as pegadas do teu através do campo minado.   Estavam livres – mas no Japão.   O teu pai começou a dirigir-se para o sopé do monte em direcção ao oceano.   O meu pai queria antes avançar para cima, para as montanhas, achando que eles podiam talvez viver num local isolado até que a guerra chegasse ao fim.”

“Era uma ideia estúpida – diz Raven – o Japão é densamente povoado.   Não há lugar algum para onde pudessem ir sem serem notados.”

“O meu pai nem sequer sabia o que era um caiaque.”

“A ignorância não é desculpa” – diz Raven.

“A discussão deles – a mesma discussão que estamos a ter agora – foi a sua perdição.   Os japoneses apanharam-nos numa estrada mesmo nos arredores de Nagasáki.   Nem sequer tinham algemas, portanto amarraram-lhes as mãos atrás das costas com atacadores e fizeram-nos ajoelhar na estrada, face a face.   Então o tenente tirou a espada para fora da bainha.   Era uma espada antiga; o tenente era de uma orgulhosa família de samurais e a única razão para que ele estivesse ali nestas instalações da frente doméstica foi que tivera praticamente uma perna toda estropiada logo no início da guerra.   Ergueu a espada acima da cabeça do meu pai...”

“...Produziu um som agudo retinindo no ar – diz Raven – que afligiu os ouvidos do meu pai.”

“Mas nunca chegou a descer.”

“O meu pai viu o esqueleto do teu pai ajoelhado em frente dele.   Foi a última coisa que jamais viu.”

“O meu pai estava a olhar para a direcção oposta a Nagasáki – diz Hiro – Ficou cego temporariamente pela luz; tombou para a frente e pressionou a face contra o solo para tirar dos olhos aquela terrível luz.   Então tudo estava de novo de volta ao normal.”

“Excepto que o meu pai estava cego – diz Raven – apenas podia ouvir o teu pai a lutar com o tenente.”

“Era um samurai meio cego e perneta com uma katana contra um homem grande, forte e saudável, com as mãos atadas atrás das costas – diz Hiro – uma luta bem interessante.   Mesmo uma bela luta.   O meu pai venceu.   E foi o fim da guerra.   As tropas de ocupação chegaram lá duas semanas depois.   O meu pai foi para casa e por algum tempo chutado de um sítio para o outro e finalmente teve um puto nos anos setenta.   Tal como o teu.”

Raven diz – “Amchitka, 1972.   O meu pai foi duas vezes nuclearizado por vocês, seus bastardos.”

“Compreendo a profundidade dos teus sentimentos – diz Hiro – mas não achas que já conseguiste vingança bastante?”

“Não há nada disso de bastante” – diz Raven.

Hiro dispara a motocicleta para diante e acerca-se de Raven girando a sua katana.   Mas Raven estica-se para trás – controlando-o pelo espelho retrovisor – e apara o golpe; numa das mãos empunha um facalhão comprido.   Então Raven corta a velocidade a quase nada e mergulha entre um par de pilares.   Hiro ultrapassa-o, abranda em demasia, e consegue um relance de Raven passando por ele numa guincharia, já do outro lado do monocarril;   por alturas em que já acelerou e cortou através de outro intervalo, Raven já ziguezagueara por sua vez de novo para o outro lado.

E assim prosseguem a coisa.   Vão correndo ao longo do comprimento da Street numa matriz entrelaçante nesse ziguezague cortado para um lado e para o outro por sob o monocarril.   O jogo é simples.   Tudo o que Raven tem a fazer é conseguir que Hiro vá contra um dos pilares.   Hiro iria ficar imóvel por um instante.   Por essa altura Raven terá desaparecido fora do alcance visual, e Hiro não terá maneira de seguir-lhe a pista.

É um jogo mais fácil para Raven do que para Hiro.   Mas Hiro é melhor neste tipo de coisas do que Raven.   E isso torna o jogo até mais equilibrado.   Prosseguem em slalom ao longo da via do monocarril a velocidades variando dos cem aos cem mil quilómetros por hora;   a toda a volta, agora, urbanizações comerciais incipientes, laboratórios de alta-tecno  e parques de diversão, perdem-se nas trevas da distância.   A Baixa está já defronte deles tão alta e brilhante como a aurora boreal erguendo-se da água negra do Mar de Berings.

67

O primeiro disco arpão bate no bojo do helicóptero conforme eles estão a baixar sobre o Valley.   Y.T. mais que sente aquilo do que propriamente escuta, conhece tão bem aquele doce impacto que o pode sentir de modo idêntico como essas hipersensíveis jigajogas sísmicas detectam tremores de terra no outro lado do planeta.   Então meia dúzia de outros discos magnéticos atingem-nos em rápida sucessão e ela tem que se conter para não se inclinar e espreitar para fora da janela.

Claro.   O bojo do helicóptero é uma sólida parede de aço soviético.   Agarrará os discos arpões como se fosse cola.   Isto, se se mantiverem a voar suficientemente baixo para serem ‘arpoados’, o que terão que fazer para conservar o heli abaixo do alcance do radar da Máfia.

Pode ouvir o crepitar do rádio lá à frente – “Levanta isso Sasha, estás a apanhar com alguns parasitas.”

Ela olha pela janela.   O outro heli, o pequeno e em alumínio, da corporação, encontra-se a voar acompanhando-os um pouco mais acima no ar e toda a gente a bordo a espreitar pelas janelas observando o pavimento por baixo deles.   Excepto Raven.   Raven está ainda com a viseira posta, fixo no Metaverso.

Merda.   O piloto está a puxar o heli para uma altitude mais elevada.

“Okay, Sasha.   Já te livraste desses – diz o rádio – mas tens ainda um par dessas coisas d’eles arpoarem suspensas da pança, certifica-te que não ficam engatadas em nada.   Os cabos são mais fortes do que aço.”

É tudo o que Y.T. necessita.   Abre a porta e salta para fora do aparelho.

No mínimo é o que aquilo parece às pessoas que estão a bordo.   Na verdade ela agarrou-se a um puxador, nessa descida, e acaba é por estar ali pendurada da oscilante porta escancarada, a olhar para o bojo do helicóptero.   Um par de discos arpão estão presos aí.   Nove metros abaixo pode ver os punhos pendentes das extremidades dos seus cabos, flutuando na corrente de ar.   Olhando pela porta aberta não consegue ouvir Rife mas pode vê-lo aí sentado ao lado do piloto, gesticulando: para baixo, trá-lo para baixo!

Que é o que ela calculara.   Esta coisa de reféns funciona nos dois sentidos.   Ela de nada serve a Rife a menos que ele a conserve e que esteja inteirinha numa única peça.

O helicóptero começa a perder altitude de novo, regressando lá abaixo em direcção às faixas gémeas de loglo que marcam a avenida que corre sob eles.   Y.T. põe-se a rodopiar um pouco de um lado para o outro, presa à porta, finalmente oscila mais ainda e de tal forma que consegue enganchar com o pé um dos cabos de arpoamento.

O próximo passo irá doer para os diabos.   Mas o tecido rijo do macacão deverá obstar a que ela perca demasiada pele.   E a visão de Tony – investindo para ela tentando agarrar-lhe a manga - reforça-lhe a tendência natural para não pensar nisso muito a sério.   Larga uma das mãos da porta do aparelho, agarra o cabo-arpão, enrola-o à volta da luva umas duas vezes e liberta então a outra mão.

Estava correcta.   Aquilo dói para os diabos.   Conforme balança debaixo da barriga do helicóptero, longe da manápula de Tony, alguma coisa estala no interior da mãozinha dela – provavelmente um desses ossitos engraçados.  Mas põe o cabo enrolado em torno do seu corpo do mesmo modo que Raven o havia feito quando com ela efectuou o tal rappel do barco para fora, e consegue um deslizar controlado, embora ardente, até lá baixo à extremidade.

Até lá baixo ao punho, é isso mesmo.   Engancha-o ao cinto para que não caia e anda por ali à volta que nem um pião pelo que acha ser um minuto inteiro até deixar de estar embaraçada no cabo, apenas suspensa pela cintura, girando e girando mais à volta, ali entre o aparelho e a via, sem controle.   Pega então no punho com ambas as mãos e desatrela-o do cinto pelo que está de novo pendurada pelos braços, o que era a parte importante do exercício.   Conforme roda vê o outro heli acima dela e desviado para o lado, num relance capta os rostos que a observam, sabe que tudo isto está a ser reportado por rádio, para Rife.

Muito seguramente.   O helicóptero corta para cerca de metade da velocidade com que seguia e perde alguma altitude.

Ela activa outro controle e desenrola do punho a totalidade do cabo, caindo seis metros num instante pleno de suspense.   Agora está ela ali a voar ao longo da auto-estrada três ou quatro metros acima do solo, a fazer uns setenta quilómetros à hora.   As placas de reclames passam disparados por ela de ambos os lados como meteoros.   A não ser um enxame de Korreios, o trânsito está ligeiro.

O helicóptero da RARE vem aí a matraquear, perigosamente perto, e ela olha para o aparelho só por um instante, e vê Raven a olhar para ela através da janela.   Puxou os óculos acima, para a testa, por um segundo apenas.   Tem um certo ar espelhado na face e ela calcula que no fim de contas não se encontra chateado com ela.   Ele ama-a.

Ela larga-se do punho e manda-se para uma queda-livre.

Ao mesmo tempo, torce no seu colarinho cervical o dispositivo de libertação manual para entrada no ‘modo completo Homem Michelin’, ao serem detonados pequenos cartuchos de gás em localizações estratégicas em torno do seu corpo.   O maior deflagra como uma ‘M-80’, uma bomba,  na traseira do pescoço, desfraldando o colarinho do macacão num saco de gás cilíndrico que dispara para cima aconchegando-lhe toda a cabeça.   Outros airbags deflagram em torno do dorso e da pélvis, tomando atenções extremas àquela coluna espinal.   As articulações, essas estavam já protegidas pelo armogel.

O que não quer dizer que aquilo não aleije quando aterra.   Não pode ver nada devido ao airbag em torno da cabeça, claro.   Mas sente-se ricochetear pelo menos umas dez vezes.   Resvala por uns quatrocentos metros e, aparentemente, de caminho carambola em diversos carros; bem consegue ouvir os pneus deles a chiar.

Finalmente, é de rabo que passa través do pára-brisas de alguém e termina escarrapachada pelos seus assentos da frente; acabam por se desviar contra uma barreira separadora.   O airbag esvazia-se logo que tudo pare de mover, e ela arrebata-o para fora do rosto.

Os ouvidos dela retinem ou algo no género.   Nem consegue ouvir nada.   Talvez tenha rebentado os tímpanos quando os airbags deflagraram.

Mas há também a questão do grande helicóptero o qual possui um talento para fazer barulho.   Ela arrasta-se dali para fora, para o capot do automóvel, sentindo os pedacitos de vidro de segurança debaixo dela a gravarem sulcos paralelos sobre a pintura.

O enorme helicóptero soviético de Rife encontra-se mesmo aqui a pairar a uns seis metros sobre a avenida, e ao tempo em que ela o vê já ele conseguiu acumular mais uns doze discos arpão.   Os olhos dela seguem os cabos até ao nível da estrada e vê os Korreios esticando as linhas; desta vez não vão deixá-lo.

Rife começa a desconfiar e o aparelho ganha altitude erguendo das suas pranchas os Korreios.   Mas um semi-reboque de fundo duplo que passa agora derrama um pequeno exército de Korreios – deve haver ali uma centena deles presos à pobre coisa – e dentro de poucos segundos todas as suas MagnaPoons são aerotransportadas e pelo menos metade fixa-se à armadura blindada logo à primeira tentativa.   O helicóptero sacoleja para baixo até que todos os Korreios estão de novo no solo.   Mais vinte Korreios chegam ali em correria e alvejam-no; os que não conseguem agarrar-se a  ele fazem-no ao punho de alguém já ligado, somando o seu peso.   O heli tenta por diversas vezes elevar-se mas a esta altura do campeonato já bem que pode ser acorrentado ali ao asfalto.

Começa a vir abaixo.   Os Korreios vão dispersando dele para o exterior fazendo com que o aparelho desça no meio de uma explosão radial de cabos de arpoamento.

Tony, o gajo da segurança, desce pela porta aberta movendo-se devagar, erguendo bem os pés para poder caminhar através daquela teia de cabos mas conseguindo ainda reter o seu equilíbrio e dignidade.   Avança distanciando-se do heli até estar fora do círculo das pás do rotor, saca então de uma UZI de sob a gabardina e dispara uma curta rajada.

“Afastem-se da merda do nosso heli!” – está ele a gritar.

Os Korreios, duma maneira geral, fazem-no.   Não são estúpidos.   E Y.T. está agora a salvo no pavimento, a caminhar já por ali, a missão está cumprida, a situação de Código terminou, não há razão para chatear ainda mais estes rufias do helicóptero.   Desprendem os seus discos arpão da barriga do aparelho e enrolam os cabos.

Tony olha à volta e vê Y.T.   Ela caminha directamente em direcção ao aparelho.   O corpo torcido dela move-se de um modo sem graça.

“Para o helicóptero, sua cabra com sorte!” – diz ele.

Y.T. apanha um dos punhos de arpoamento ali caídos que ainda ninguém teve a preocupação de enrolar.   Prime o botão que faz desligar o electromagneto e a cabeça daquilo cai da blindagem do heli.   Enrola-o até ficarem apenas uns quatro pés de cabo bambo entre o punho e a ‘cabeça’ – o disco.

“Havia este bacano chamado Ahab sobre o qual eu li – diz ela redemoinhando o disco-arpão por cima da cabeça – Ficou com o cabo-arpão dele todo enrolado à volta da coisa a que estava a tentar fixar-se.   Foi um grande erro.”

E ela deixa o disco daquilo voar.   Passa ascendentemente através do plano das pás do rotor junto ao centro e ela pode admirar aquele cabo inquebrável começar a enrolar-se à volta das partes delicadas do eixo do rotor como um garrote em torno do pescoço de uma bailarina.   Através do pára-brisas do aparelho consegue ver Sasha a reagir, mexendo freneticamente nos interruptores, puxando alavancas, a boca soltando uma longa fiada de pragas em russo.   O punho do cabo é-lhe sacado da mão e ela só vê aquilo a ser puxado, sorvido para o centro como num buraco negro.

“Calculo que como certas pessoas, não soube quando devia parar” – diz ela.   Depois volta-se e afasta-se do aparelho.   Atrás dela pode ouvir grandes peças a girarem de forma muito errada, a correrem umas contra as outras em alta velocidade.

Rife já há bom tempo atrás que estava a topar o que ia acontecer.   Está já a correr pelo meio da auto-estrada empunhando uma pistola-metralhadora numa das mãos, em busca de uma viatura para requisitar.    Por cima, o helicóptero da RARE paira e observa; Rife olha para o alto e com uma mão faz gestos para diante, gritando: “Vão para o LAX!   Vão para o LAX!”

O heli executa uma última órbita sobre aquele cenário observando conforme Sasha mete o arruinado helicanhão em modo de cold shutdown – de completamente desligado - observando Korreios furiosos submergindo e desarmando Tony, Frank e o Presidente, observando Rife parado no meio da faixa esquerda e a obrigar um veículo das Pizzas CosaNostra a parar e a forçar o condutor a sair.

Mas Raven não observa nenhuma destas ocorrências.   Através da janela olha é para Y.T.   E quando o heli finalmente se inclina para diante e acelera penetrando na noite ele ri-se pleno de ironia para ela e ergue o polegar.   Y.T. morde o lábio inferior e atira-lhe um gesto obsceno com o dedo médio esticado.   Com isso, a relação deles está terminada, espera-se que para sempre.

Y.T. leva uma prancha emprestada de um aterrado skater e impulsiona-se ela própria pela rua até ao mais próximo Buy ‘n’ Fly e começa a tentar telefonar à mamã, para uma boleia até casa.

68

Hiro perde Raven a alguns quilómetros fora da Baixa, mas nesta altura não importa já; dirige-se é directamente à plaza e começa então a orbitar o anel do anfiteatro em alta velocidade, como se fosse uma vedação de um só homem.   Raven efectua a sua aproximação dentro de poucos segundos.   Hiro sai da sua órbita e avança para ele a direito e entrechocam-se como um par de cavaleiros de torneio medievais.   Hiro perde o braço esquerdo e Raven deixa cair uma perna.   Os membros tombam no chão.   Hiro larga a katana e usa o braço que lhe resta para sacar antes a sua ‘espada de uma mão só’ – um melhor oponente, de qualquer modo, para o comprido facalhão de Raven.

Intercepta Raven mesmo no momento em que ele se prepara para precipitar-se sobre o rebordo do anfiteatro e empurra-o para o lado; o embalo que Raven leva atira-o a meia milha dali, em meio segundo.

Hiro persegue-o seguindo uma série de cálculos elaborados – ele conhece este território como Raven conhece as correntes das Aleutas – e então estão eles a esgalhar por aí através das estreitas ruelas do bairro financeiro do Metaverso, acenando um ao outro compridas facas, retalhando e aparando centenas de avatars de roupagem às risquinhas que acontece estarem no seu caminho.

Mas parece nunca se atingirem um ao outro.   As velocidades são tão, tão grandes, os alvos demasiado pequenos.   Hiro até aqui tem tido sorte – tornou Raven apanhado pelo pulsar da competição, fê-lo extenuado para uma luta.   Mas Raven não precisa de nada disto.   Pode voltar ao anfiteatro, facilmente até, sem se preocupar em liquidar Hiro primeiro.

E finalmente é que descobre isso.   Embainha a faca e mergulha por uma ruela entre arranha-céus.   Hiro segue-o mas na altura em que chega à mesma ruela já Raven desapareceu.

 

Hiro passa por sobre o bordo do anfiteatro a uns trezentos à hora, alcandora-se no espaço, e em queda-livre desce agora sobre as cabeças de um quarto de milhão de hackers que o acolhem barulhentamente animados.

Todos eles conhecem Hiro.   É o gajo das espadas.   Um amigo de Da5id.   E como sua contribuição pessoal para o evento de beneficência ele aparentemente está decidido a uma luta de espadas com um género de mal jeitoso daemon de mota e de aspecto aterrador.   Não mexam em nada, isto é que vai ser um show dos diabos.

Aterra sobre o palco e ressalta até se imobilizar junto à sua mota.   A mota ainda a funcionar, mas ali em baixo é inútil.   Raven encontra-se a uns dez metros, sorriso trocista escancarado para ele.

“Bombas largadas! – diz Raven.   Com uma das mãos retira a ‘pastilha’ irradiante em azul do interior do sidecar e deixa-a cair sobre o centro do anfiteatro.   Quebra-se como a casca de um ovo e há luz a brilhar dali para fora.   A luz começa a crescer e a tomar forma.

A multidão torna-se excitada.

Hiro corre na direcção da bomba.   Raven trava-o.   Raven não pode contudo cirandar por ali a pé pois perdeu uma perna.   Mas pode ainda controlar a mota.   Tem agora desembainhado o facalhão e as duas lâminas entrechocam-se por cima da bomba que se tornou entretanto no vórtex de um deslumbrante e ensurdecedor tornado de luz e som.   Formas coloridas, distorcidas pela sua imensa velocidade, disparam do centro daquilo e tomam posição por cima das cabeças deles edificando uma imagem tridimensional.

Os hackers ficam delirantes.   Hiro sabe que o Quadrante Hacker no The Black Sun estará neste preciso momento a esvaziar-se.   Todos a engarrafarem-se pelas saídas para a rua, a apressarem-se pela Street até ali à plaza para virem assistir ao fantástico espectáculo proporcionado por Hiro, espectáculo de luz, som, espadas e magia.

Raven esforça-se por empurrar Hiro.   Na Realidade a coisa devia funcionar pois Raven terá uma força poderosa.   Mas os avatars são todos de força idêntica a menos que com algum hacking alteres isso da forma devida.   Portanto dá um valente encontrão e puxa depois de novo da faca para que possa desferir um golpe no pescoço de Hiro quando Hiro tentar afastar-se dele.   Só que Hiro não foge dali.   Espera por uma abertura e então decepa a mão armada de Raven.   Então, e só pelas comichões, decepa-lhe igualmente a outra mão.   A multidão ulula em delírio.

“Como é que detenho esta coisa?” – diz Hiro.

“Isso ultrapassa-me.   Eu só as’entrego” – diz Raven.

“Tens uma concepção do que acabaste de fazer?”

“Yeah.   Realizei a ambição de uma vida – diz Raven, um enorme e relaxado sorriso de desprezo cobrindo-lhe o rosto – ‘nuclearizei’ a América.”

Hiro decapita-o.   A multidão daqueles hackers fadados à extinção ergue-se de pé e guincha.

Então, todos ficam silenciosos conforme Hiro abruptamente desaparece.   Voltou de novo ao modo de um pequeníssimo/invisível avatar.   Paira no ar, agora, por sobre os estilhaçados restos daquela bomba; a gravidade trá-lo justamente para o centro daquilo.   Conforme cai vai murmurando para si próprio: ‘SnowScan’.   É o módulo de software que escreveu enquanto estava a matar tempo na jangada salva-vidas.   O tal módulo que se mete à procura do Snow Crash.

 

Com Hiro Protagonist aparentemente saído de cena, os hackers voltam a sua atenção para a gigantesca construção que se ergue daquele ovo.   Todo aquele non-sense da luta de espadas deve ter sido apenas uma peça introdutória meio amalucada – uma maneira excêntrica, tipicamente à Hiro, de atrair a atenção deles.   O espectáculo de luz e som é que é a atracção principal.   O anfiteatro está agora a encher-se rapidamente pelos milhares de hackers que ali estão a chover vindos de todo o lado: ao longo da Street -  provenientes do Black Sun, ou a enfileirarem saídos das grandes torres de escritórios onde as principais corporações de software têm as suas sedes, tudo gente d’óculos no Metaverso oriunda de todos os pontos na Realidade conforme se espalha palavra sobre esta extravagância através de toda uma teia de ‘boataria’ em fibra óptica a correr à velocidade da luz.

O show luminoso terá sido delineado como se antecipasse a existência de retardatários.   Vai sendo construído - falso clímax após falso clímax - como um caro espectáculo de fogo de artifício, e cada um deles é melhor que o anterior.   É tão vasto e complicado que ninguém lhe consegue ver mais que 10 por cento;   podias passar um ano a observá-lo repetidamente que ias vendo sempre coisas novas.

É uma estrutura de mais de quilómetro e meio de altura, de imagens em movimento bi- e tridimensionais, interligadas no espaço e no tempo.   Há ali de tudo.   Filmes de Leni Riefenstahl.   As esculturas de Michelangelo e as invenções ficcionais de Da Vinci tornadas reais.   Perseguições de aviões da 2ª Guerra Mundial tornadas mais próximas e depois mais distantes, ali no meio, a derraparem para cima da multidão, disparando, ardendo e explodindo.   Cenas de um milhar de filmes clássicos, fluindo e mesclando-se conjuntamente numa única vasta e complicada história.

Mas a determinado ponto começa a simplificar-se e a estreitar-se numa única coluna de luz brilhante.   Nesta altura é a música que suporta o show: uma possante batida grave, um profundo e ameaçador ostinato que a todos comunica que se mantenham atentos, o melhor está ainda para vir.   E todos observam.   Religiosamente.

A coluna de luz principia a fluir para cima e para baixo e converte-se numa forma humana.   Na verdade são quatro formas humanas femininas, nuas e de pé, ombro com ombro, voltadas para o exterior, como cariátides.   Cada uma delas transporta algo comprido e delgado nas suas mãos: um par de rolos.

Um terço de milhão de hackers dirige o seu olhar espantado para aquelas mulheres ali erguendo-se sobre o palco conforme levantam os braços acima das cabeças e desdobram os quatro rolos tornando cada um deles num écran plano de televisão do tamanho de um campo de futebol.   Vistos a partir dos assentos do anfiteatro os écrans virtualmente bloqueiam o céu; são tudo o que dali qualquer um consegue ver.

Ao princípio os écrans estão vazios mas finalmente a mesma imagem salta para a existência em todos os quatro simultaneamente.   É uma imagem que consiste em palavras; aquilo diz

 

 

SE ISTO FOSSE UM VÍRUS

VOCÊS ESTARIAM AGORA MORTOS

FELIZMENTE NÃO É

O METAVERSO É UM LUGAR PERIGOSO;

COMO É QUE VAI A SUA SEGURANÇA?

 

LIGUE PARA HIRO PROTAGONIST SECURITY ASSOCIATES

PARA UMA CONSULTA INICIAL GRÁTIS

 

 

 

69

“Isto é exactamente o tipo de ‘alta-tecno’ sem sentido que nunca, vez alguma, resultou, quando o tentámos no Vietname” – diz Uncle Enzo.

“Está bem visto, o seu ponto.   Mas desde então a tecnologia percorreu um longo caminho – diz Ky, o homem da vigilância da Ng Security Industries.   Ky está em conversa com Uncle Enzo através de radioauscultadores; a sua carrinha, recheada de equipamento electrónico, encontra-se oculta a uns quinhentos metros de distância nas trevas junto a um armazém de carga do LAX – “Estou a monitorizar todo o aeroporto e o que quer que dele se aproxime através de um display tridimensional do Metaverso.   Por exemplo, sei que faltam as suas ‘chapinhas de cão’ as quais traz habitualmente à volta do pescoço.   Sei que anda com um kongbuck e oitenta e cinco kongpences de trocos no bolso esquerdo.   Sei que tem uma navalha no outro bolso.   Parece até ser uma das boas.”

“Não subestimem nunca a importância da boa preparação” – diz Uncle Enzo.

“Mas não entendo é porque é que anda com uma prancha de skate.”

“É uma substituição, para aquela que Y.T. perdeu em frente ao EBGOC – diz Uncle Enzo – É uma longa história.”

“Sir, temos um relato vindo de um dos nossos franchisulados” – diz um jovem tenente num blusão da Máfia, correndo para ali pela placa do aeroporto com um walkie-talkie preto na mão.   Não é realmente um tenente; a Máfia não é muito entusiasta no uso de patentes militares.   Mas por alguma razão Uncle Enzo pensa nele como ‘o tenente’ – “O segundo heli pousou no parque de uma artéria comercial a cerca de quinze quilómetros daqui e encontrou-se com o carro das pizzas, recolheu o Rife e voltou a descolar.   Estão no seu caminho para aqui, agora.”

“Mandem alguém lá para ir buscar o carro das pizzas abandonado.   E o condutor que tenha um dia de folga” – diz Uncle Enzo.

O tenente parece o seu quê de espantado com o facto de Uncle Enzo preocupar-se com tão ínfimos detalhes.   É como se o Don andasse para cima e para baixo pelas auto-estradas a recolher lixo ou algo assim.   Mas anui respeitosamente, acabando assim de aprender alguma coisa: os pormenores contam.   Volta-se e começa a falar para o seu rádio.

Uncle Enzo tem sérias dúvidas acerca deste companheiro.   É uma pessoa de blazer, um adepto na gestão da burocracia menor de um franchisulado da Nova Sicília, mas faltando-lhe aquele tipo de flexibilidade que, por exemplo, Y.T. possui.   Um caso clássico do que vai mal na Máfia nos dias de hoje.   A única razão porque o tenente até está aqui é por a situação ter estado a evoluir tão rapidamente e, claro, por causa de todos os homens de qualidade que perderam no Kowloon.

Ky chega de novo através da rádio – “Y.T. acaba de contactar a mãe e pediu-lhe boleia – diz ele – Gostaria de ouvir a conversa?”

“Não, a menos que tenha alguma significância táctica” – diz Uncle Enzo com vivacidade.   Mais uma coisa a riscar da lista; estava preocupado acerca do relacionamento de Y.T. com a mãe e tinha até intenção de falar com ela a esse respeito.

O jacto de Rife está na placa, os motores a funcionar em espera, aguardando para deslizar para a pista de descolagem.   No cockpit estão o piloto e co-piloto.   Até há meia hora atrás eram empregados leais de L. Bob Rife.   Então ficaram sentadinhos e a observar pelo pára-brisas como aquela dúzia de indolentes da segurança de Rife, que estavam estacionados em volta do hangar, tiveram de diversas maneiras os miolos estoirados, as goelas cortadas, ou então limitaram-se simplesmente a deixar cair as armas, puseram-se de joelhos e renderam-se.   Agora tanto o piloto como o co-piloto fizeram já os seus votos de lealdade perpétua à organização de Uncle Enzo.   Uncle Enzo podia tão só tê-los arrastado dali e substituído pelos seus próprios pilotos mas deste modo é melhor.   Se Rife conseguir de alguma maneira chegar ali à aeronave irá reconhecer os seus próprios pilotos e pensar que tudo está nos conformes.   E o facto de os pilotos estarem ali sozinhos no cockpit sem qualquer supervisão directa da Máfia irá meramente enfatizar a grande confiança que Uncle Enzo já depositou neles e no voto que tomaram.   Irá na verdade salientar o seu sentido do dever.   Irá amplificar o desagrado de Uncle Enzo caso venham a quebrar os seus votos.   No fim de contas Uncle Enzo não tem dúvidas algumas sobre estes pilotos.

Está menos contente com os arranjos aqui e que foram feitos mais apressadamente.   O problema é, como habitual, a imprevisível Y.T.   Não estavam a contar que ela saltasse de um heli em movimento e se escapasse de L. Bob Rife.   Por outras palavras estava antes à espera de uma negociação de refém algo mais tarde, após Rife ter voado com Y.T. de volta à sua sede em Houston.

Mas tal situação com refém não mais existe e assim Uncle Enzo sente que é importante travar Rife agora, antes que ele regresse a esse seu território doméstico de Houston.   Apelou a um realinhamento de vulto das forças da Máfia e neste instante dezenas de helicópteros e de unidades tácticas encontram-se à pressa a redesenhar as suas trajectórias e a tentar convergir sobre o LAX, tão velozmente quanto possível.   Mas no entretanto Enzo está aqui com um reduzido número dos seus próprios guarda-costas pessoais, e mais esse homem na vigilância tecnológica, da organização de Ng.

Encerraram o aeroporto.   Isso foi fácil de realizar: trataram de meter alguns Town Cars Lincoln sobre todas as pistas, isso só para começar, e foram então até à torre de controle e anunciaram que dentro de poucos minutos iam entrar em guerra.   Por agora o LAX está provavelmente mais calmo do que alguma vez esteve em qualquer altura desde que foi construído.   Uncle Enzo até consegue ouvir o fraco bater da rebentação na praia a oitocentos metros de distância.   É quase agradável estar-se aqui.   O tempo, quase abrasador.

Uncle Enzo está numa de cooperação com Mr. Lee, o que significa, a cooperar com Ng, e Ng conquanto altamente competente, tem uma inclinação para o tecnológico - coisa em que Uncle Enzo não confia plenamente.   Antes preferiria um único bom soldado em sapatos polidos e armado com uma ‘nove’ a uma centena dessas coisecas de Ng e unidades portáteis de radar.

Quando chegaram aqui estava à espera de um amplo espaço aberto no qual se confrontasse com Rife.   Em vez disso o cenário está todo ele numa confusão.   Algumas dezenas de jactos e helicópteros de companhias estão parqueados na placa.   Por perto há todo um sortido de hangares privados cada um com a sua própria área de estacionamento vedada e contendo um número de carros e outros veículos utilitários.

E também estão bem próximos de um parque de tanques de combustível onde é armazenada a reserva de jet fuel do aeroporto.   Isso quer dizer uma quantidade de tubos, estações de bombagem e traquitana hidráulica a nascer ali do chão.   Tacticamente a área tem mais em comum com uma selva do que com um deserto.   A placa e a pista, elas próprias são, claro, mais ao estilo de um deserto, embora tenham regos de drenagem onde qualquer número de homens podia ser escondido.   Portanto uma melhor analogia podia ser ‘guerra de praia no Vietname’: uma vasta área aberta que abruptamente se torna em selva.   Não é o local favorito de Uncle Enzo.

“O heli está a aproximar-se do perímetro do aeroporto” – diz Ky.

Uncle Enzo volta-se para o seu tenente – “Todos em posição?”

“Sim, sir.”

“Como é que sabes?”

“Todos comunicaram há poucos minutos.”

“Isso não quer dizer absolutamente nada.   E sobre o carro das pizzas?”

“Bem, pensei que pudesse tratar disso depois, sir...”

“Tens que ser capaz de fazer mais que uma coisa ao mesmo tempo.”

O tenente afasta-se, envergonhado e aterrorizado.   “Ky – diz Uncle Enzo – alguma coisa de interesse a passar-se no nosso perímetro?”

“Nada mesmo” – diz Ng.

“Alguma coisa desinteressante?”

“Alguns trabalhadores da manutenção, como habitual.”

“Como é que sabe que eram trabalhadores da manutenção e não soldados de Rife com roupagens?   Verificou a identificação deles?”

“Soldados transportam armas.   Ou no mínimo, facas.   O radar mostrou que estes homens não.   Q.E.D..”

“Ainda a tentar obter nova comunicação de todos os nossos homens – diz o tenente – calculo que estejamos com um pequeno problema na rádio.”

Uncle Enzo coloca um braço em redor dos ombros do tenente – “Deixa-me contar-te uma história, filho.   Desde o primeiro momento que eu te vi que pensei que me parecias familiar.   Finalmente descobri que me fazias recordar alguém que uma vez conheci:   um tenente que foi o meu oficial de comando.   Por algum tempo, lá no Vietname.”

O tenente fica emocionado – “A sério?”

“Sim.   Era jovem, brilhante, ambicioso, bem educado.   E bem intencionado.   Mas tinha certas deficiências.   Possuía uma inabilidade teimosa no conseguir apanhar o fundamental da nossa situação lá.   Um género de bloqueio mental, se quiseres, que nos causou a nós, que servíamos debaixo do seu comando, experimentarmos o mais intenso tipo de frustração.   Por uns tempos, filho, aquilo esteve muito precário, não me importo de te dizer isto.”

“E como é que a coisa terminou, Uncle Enzo?”

“Terminou bem.   Estás a ver, um dia, tomei a meu cargo acabar com ele com um tiro na nuca.”

Os olhos do tenente tornam-se muito grandes e a sua face parece paralisada.   Uncle Enzo não tem simpatia nenhuma para com ele: se ele lixar este esquema, há gente que pode morrer.

Alguma nova correnteza de balbuciar radiofónico chega pelo aparelho colocado à cabeça do tenente – “Oh, Uncle Enzo?” – diz ele muito calmo e relutantemente.

“Sim?”

“Estava-me a perguntar sobre aquele automóvel das pizzas?”

“Sim?”

“Não está lá.”

“Não está lá?”

“Aparentemente, quando baixaram para recolher o Rife, um homem saiu do helicóptero e entrou para o carro das pizzas e conduziu-o dali para fora.”

“Para onde é que ele conduziu o veículo?”

“Não sabemos, sir, tínhamos apenas um observador na área e ele estava era a seguir o Rife.”

“Tira da cabeça os radioauscultadores – diz Uncle Enzo – e desliga-me esse walkie-talkie.   Precisas é dos teus ouvidos.”

“Os meus ouvidos?”

Uncle Enzo tomba para se agachar e caminha com vivacidade através do pavimento até se encontrar entre um par de pequenos jactos.   Silenciosamente pousa a prancha de skate.   Desaperta depois os atacadores e tira os sapatos.   Tira também as meias e enfia-as a rechear os sapatos.   Do bolso, saca a navalha e abre-a de sacão, retalha ambas as pernas das calças desde a bainha às virilhas, amarrota o tecido por aí acima e corta-o fora.   De outra forma o tecido iria roçagar sobre as suas peludas pernas quando andasse e faria barulho.

“Meu Deus! – diz o tenente, um par de aviões adiante – Al está aqui caído!   Meu Deus, está morto!”

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Uncle Enzo deixa o colete vestido pelo menos por agora, pois é escuro e além disso é forrado a cetim e portanto relativamente silencioso.   Trepa então para a asa de um dos aviões de modo a que as suas pernas não possam ser vistas por ninguém que se agache no chão.   Acocora-se no topo da asa, abre a boca para que melhor possa ouvir e mete-se à escuta.

A única coisa que consegue captar de início é um ruído desigual, um salpicar que não estava ali anteriormente, como água vertendo de uma torneira meio aberto sobre um pavimento nu.   O som parece provir de um avião ali perto.   Uncle Enzo receia que possa ser jet fuel a escorrer para o chão, parte de um esquema para rebentar com esta zona do aeroporto e liquidar toda a oposição de um golpe só.   Silenciosamente desliza para o solo e progride com cuidado contornando dois aviões adjacentes, parando de tantos em tantos metros à escuta, e finalmente vê o que é: um dos seus soldados foi literalmente cravado à fuselagem em alumínio de um Learjet por meio de uma longa estaca de madeira.   Sangue escorre da ferida pelas pernas das calças, pinga dos seus sapatos e salpica a placa alcatroada.

Vindo detrás dele Uncle Enzo ouve um grito breve que subitamente se transforma numa cortante exalação gorgolejante.   Já a ouviu no passado.   É a de um homem a ter uma faca afiada ser-lhe passada através da garganta.   Indubitavelmente que se trata do tenente.

Tem alguns segundos agora para se movimentar livremente.   Nem sabe até contra o quê, contra quem está ele ali a defrontar-se, e precisa de o saber.   Corre assim na direcção de onde veio o grito, movendo-se rapidamente da cobertura dada por um dos jactos até ao seguinte, mantendo-se abaixado a rastejar.

Vê um par de pernas a mover-se do lado oposto da fuselagem de um dos aparelhos.   Uncle Enzo encontra-se perto da ponta da asa do jacto.   Coloca sobre ela ambas as mãos e empurra para baixo com todo o seu peso e depois larga-a.

A coisa funciona: o jacto balança na direcção dele, sobre a suspensão.   O assassino pensa que Uncle Enzo acaba de saltar para a extremidade da asa, e assim trepa para a asa oposta e aguarda com as costas contra a fuselagem, à espera de emboscar Enzo quando ele trepasse sobre o cimo do aparelho.   Mas Enzo está ainda no chão.   Corre em silêncio na direcção da fuselagem, pés descalços, curva-se debaixo dela e emerge daí já no outro lado com a navalha numa mão.   O assassino – Raven – encontra-se precisamente onde Enzo esperava que estivesse.

Mas Raven está já a ficar desconfiado; põe-se de pé para espreitar sobre o topo da fuselagem e isso coloca a garganta fora de alcance.   Enzo lança-se então em busca das pernas dele.

É melhor ser-se conservador e conseguirmos o que é possível do que ir para uma jogada em grande mas deitar tudo a perder, e assim Enzo estica-se na direcção do outro justamente quando Raven está já a olhar para baixo para ele, e golpeia o tendão de Aquiles da perna esquerda de Raven.

Ao afastar-se para se proteger há alguma coisa que o atinge com muita força no peito.   Uncle Enzo olha para baixo e fica espantado por ver um objecto transparente emergindo do lado direito da sua caixa de costelas.   Olha então para cima para se deparar com o rosto de Raven a dez centímetros apenas do seu.

Uncle Enzo recua afastando-se da asa.   Raven estava a contar saltar para cair em cima dele mas em vez disso tropeça para o chão.   Enzo volta a avançar, navalha em riste, mas Raven sentado sobre o tarmac sacou já uma segunda faca.   Investe sobre o interior da coxa de Uncle Enzo e provoca certos estragos; Enzo dá umas passadas para o lado esquivando-se à lâmina e desferindo o seu próprio ataque, e acaba por fazer um curto mas profundo corte no cimo do ombro de Raven.   Raven bate-lhe no braço desviando-o para o lado antes que Enzo, outra vez, se possa fazer à garganta dele.

Uncle Enzo está ferido e Raven está ferido.   Mas Raven não pode estar mais em posição favorável; é tempo de fazer um pouco o ponto da situação.   Enzo sai dali para fora, embora quando se mexa tenha dores terríveis que lhe percorrem de cima abaixo o lado direito do corpo.   Mas também há algo que lhe martela agora nas costas; sente uma lancinante dor sobre um dos rins mas apenas por um momento.   Volta-se, para ver um sangrento pedaço de vidro a estilhaçar-se sobre o pavimento.   Raven deve ter atirado aquilo às suas costas.   Mas sem a força habitual do braço de Raven por trás do impulso, não deve ter havido o balanço suficiente para conseguir penetrar completamente através do tecido à prova de bala e acabou por tombar.

Facas de vidro.   Não admira que Ky não as detectasse através da gama de ondas de um milímetro, do radar.

Na altura em que alcança a cobertura dispensada por outro avião, o seu sentido auditivo é submergido pela aproximação de um helicóptero.

É o heli de Rife, descendo sobre a placa a algumas dezenas de metros do jacto.   O trovejar das pás do rotor e o sopro daquela ventania parecem penetrar pelo cérebro de Uncle Enzo.   Cerra os olhos contra aquele vento e perde totalmente o equilíbrio, não tem ideia onde está até que bate de chapão, de corpo inteiro, contra o solo.   O pavimento por baixo dele está escorregadio e morno, e Uncle Enzo calcula que esteja a perder uma grande porção de sangue.

Fixando o olhar através da placa vê Raven a conseguir encaminhar-se para a aeronave, coxeando horrendamente, uma pata virtualmente inutilizada.   Finalmente desiste dela e vai antes ao pé-coxinho saltitando sobre a perna boa.

Rife já desceu do helicóptero.   Raven e Rife estão a conversar, Raven gesticulando ali para trás na direcção de Enzo.   Então Rife com a cabeça assenta a sua concordância e Raven volta-se, os dentes brilhantes e brancos.   Não está tanto com aquele esgar desdenhoso quanto se encontra a sorrir já em antecipação.   Começa a saltitar na direcção de Uncle Enzo puxando outra faca de vidro para fora do casaco.   O bastardo transporta um milhão dessas coisas.

Ele vem atrás de Enzo e Enzo nem sequer se pode pôr de pé sem desmaiar.   Enzo olha em redor e nada mais vê a não ser uns skates e um par de sapatos caros e meias a cerca de uns seis metros dele.   Não se pode ter em pé mas pode ainda executar aquele rastejar dos GI’s – os tropas americanos – e começa assim a puxar-se para diante sobre os cotovelos ao mesmo tempo que Raven vem aí na direcção dele ao pé-coxinho.

Encontram-se numa faixa aberta entre dois jactos adjacentes.   Enzo está sobre a sua própria pança, estirado por cima da prancha de skate.   Raven está de pé, aguentando-se com uma das mãos sobre a asa do jacto, a faca em vidro, reluzente, na sua outra mão.   Enzo vê o mundo agora num débil preto-e-branco, como um baratucho terminal do Metaverso; é como os seus companheiros costumavam descrever a coisa, lá no Vietname, mesmo antes de sucumbirem à perda de sangue.

“Espero que tenhas feito os teus últimos ritos – diz Raven - pois não há tempo para chamar um padre.”

“Não é preciso nenhum” – diz Uncle Enzo, e esmurra o botão dos skates, o tal com o dístico ‘RadiKS Narrow Cone Tuned Shock Wave Projector’[31].

A concussão quase lhe arranca a cabeça.   Uncle Enzo, se sobreviver, nunca mais ouvirá bem.   Mas aquilo fá-lo despertar um bocadinho.   Ergue a cabeça da prancha e observa Raven ali especado e aturdido, de mão vazia, um milhar de pequeníssimas lascas de vidro quebrado chovendo do seu casaco.

Uncle Enzo rebola sobre as costas e agita no ar a sua navalha.   “Eu por mim prefiro o aço – diz ele – Vai uma barba?”

71

Rife abarca aquilo tudo e compreende o cenário de forma absolutamente clara.   Bem que adoraria ver como é que a coisa ia terminar mas é um homem demasiado ocupado; gostaria de se pôr ao fresco daqui para fora antes que o resto da Máfia, e Ng, e Mr. Lee e todos esses palermas venham atrás dele com os seus mísseis detectores de calor.   E não há tempo para esperar pelo coxinho do Raven para regressar aqui, todo o caminho aos pulinhos.   Um gesto de polegar erguido para o piloto e principia a escalar os degraus para o interior do seu jacto privado.

Faz-se dia:  um muro de labaredas laranja encapelando-se em vaga cresce silenciosamente a partir daquele parque de depósitos a uma milha dali, é como um crisântemo em efémero lapso de tempo.   Tão vasto e complicado no seu desabrochar e incontrolado crescimento que Rife se detém a meio das escadas para observar.

Um poderoso distúrbio perpassa através das chamas deixando um rasto linear nessa luz, como um raio cósmico disparado através de uma câmara de vapor.   Pela força da sua passagem deixa atrás uma onda de choque que se torna claramente visível nas chamas, um cone brilhante em expansão que é uma centena de vezes maior que aquela fonte sombria no seu vértice, uma coisa negra em forma de bala apoiada em quatro pernas que escoiceiam rápido demais para serem visíveis.   Tão pequena e rápida que L. Bob Rife nem seria capaz de vê-la não estivesse ela a vir directamente apontada na direcção dele.

 Vai traçando o seu caminho por sobre uma vasta confusão de canalizações a céu aberto, a tubagem que transporta o combustível para os jactos, e saltando sobre alguns obstáculos, enterrando os seus grampos metálicos noutras partes aí, retalha-as sob o impulso explosivo das suas patas, põe em ignição o conteúdo daquilo com as faíscas que voam de onde quer que toque o pavimento.   Recolhe então as quatro patas por baixo dele para se lançar num salto de trinta metros disparado para o topo de um depósito enterrado e usa este como plataforma de lançamento para novo pulo extenso e em arco que o leva sobre a rede de vedação que separa o parque de combustível do aeroporto propriamente dito, e aí configura-se para um galope esgalhado, firme e poderoso, acelerando ao longo daquele plano perfeitamente geométrico da pista, perseguido por uma enorme e afunilada língua de chamas que se estende preguiçosamente desde o meio da conflagração e revoluteia para o interior de si própria conforme desenha correntes de fluxo na esteira da onda de choque do Tipo-Rato.

Alguma coisa diz a L. Bob Rife para se distanciar do jacto que está carregado de combustível.   Volta-se e meio que salta, meio que se despenha escadas abaixo, movendo-se desajeitadamente, pois está concentrado no Tipo-Rato em vez de olhar para o chão.

O Tipo-Rato, apenas uma pequena coisa escura rente ao solo visível somente por virtude da sua sombra contra as chamas e pela fiada de chispas brancas onde as suas patas escavacam o pavimento, efectua uma ligeira correcção de trajectória.

Não vem apontado para o jacto; vem é na direcção dele mesmo.   Rife muda de ideias e corre escada acima três degraus de cada vez.   A escada flecte-se e reage sob o seu peso lembrando-lhe da fragilidade do jacto.

O piloto observa aquilo a vir e nem espera para recolher a escada antes de soltar travões e enviar o avião a deslizar até à cabeceira da pista, girando o nariz para um azimute distante do Tipo-Rato.   Soca já a fundo os manípulos aceleradores – o throttle – por pouco não levando o jacto com uma asa ao chão conforme o atira nessa apertada curva, os ponteiros dos instrumentos a invadir o vermelho logo que tem a aeronave centrada com o enfiamento da pista.   Agora apenas podem observar para a frente e para os lados.   Não conseguem ver o que os persegue.

Y.T. é a única pessoa que tem a possibilidade de ver aquilo ocorrer.   Tendo facilmente penetrado a segurança do aeroporto com o seu passe de Korreio, vai deslizando até à placa adjacente ao terminal de carga.   Daí tem uma visão excelente e desimpedida através de um quilómetro de pista, e vê tudo a acontecer: o avião a rugir pista fora, puxarem a porta para a fechar já ele vai lançado disparando umas pálidas chamas azuis dos exaustores das turbinas, a tentar ganhar velocidade para a descolagem, e Fido a persegui-lo tal como um cão atrás de um gordo carteiro e a executar um tremendo pulo final pelo ar, e tornando-se ele próprio num autêntico míssil Sidewinder voa de nariz direitinho ao escape do motor esquerdo.

O jacto explode a cerca de três metros do solo apanhando Fido, L. Bob Rife e o vírus, todos juntos envoltos na sua chama pura e esterilizadora.

Tão querido!

Por um momento queda-se ali a observar o rescaldo: os helicópteros da Máfia a aproximarem-se, médicos que desembarcam mais as suas caixas de socorros, saquetas de sangue e macas.   Soldados da Máfia a correrem numa azáfama por entre os jactos privados, aparentemente à procura de alguém.   Um carro de entrega de pizzas arranca de uma das áreas de estacionamento, pneus a berrar, e um automóvel da Máfia descola logo no seu encalço numa perseguição a quente.

Mas após um pedaço aquilo torna-se maçudo e então ela dirige-se em skates de regresso ao terminal principal, praticamente só à sua própria custa, embora consiga atrelar-se por um instante a um camião-tanque.

A mamã está ali à espera dela no seu estúpido carrinho que mais parece uma drageia colorida junto ao ‘Levantamento de Bagagens’ da United - tal como haviam combinado ao telefone.   Y.T. abre a porta, atira a prancha para o banco de trás e entra para o carro.

“Para casa?” – diz a mamã.

“Yeah, para casa, acho que está bem.” g


 

 

Agradecimentos

 

Este livro germinou de uma colaboração entre mim e o artista Tony Sheeder e cujo objectivo original era publicar uma novela gráfica criada em computador.   No geral, eu tratava das palavras e ele das imagens; mas mesmo consistindo até este trabalho quase inteiramente de texto, certos aspectos dele provêm dos meus debates com Tony.

Este romance, foi bastante difícil escrevê-lo, e recebi uma boa dose de belos conselhos da parte dos meus agentes Liz Darhansoff, Chuck Verrill e Denise Stewart, que leram os primeiros rascunhos.   Outras pessoas sujeitas aos manuscritos iniciais foram Tony Sheeder; Dr. Steve Horst - da Wesleyan University - que elaborou extensas e muito lúcidas anotações sobre tudo o que tivesse a ver com cérebros e computadores (e que subitamente se foi abaixo com um vírus cerca de uma hora depois de o ter lido); e o meu cunhado Steve Wiggins, correntemente na Universidade de Edinburgo que, só para começar, me iniciou acerca de Asherah, e também me foi fornecendo documentos úteis e citações conforme eu penosamente ia vasculhando através da Biblioteca do Congresso.

Marco Kaltofen, como habitualmente, funcionava da mesma forma expedita e enciclopédica que o Bibliotecário quando eu tinha interrogações sobre alguns ‘porquês’ e ‘ondes’ de questões a ver com a história do lixo tóxico.   Richard Green, o meu agente em L.A., prestou-me algum auxílio com a geografia dessa cidade.

Bruck Pollock leu atentamente as provas mas com uma rapidez fervilhante, e efectuou diversas sugestões úteis.   Foi o primeiro, e certamente que não o último, a realçar que BIOS na verdade significa ‘Basic Input/Output System’, e não ‘Built-In Operating System’ como tenho aqui (e como a coisa deveria ser); mas creio que me é permitido passar por cima e enterrar na poeira todas as outras considerações na minha prossecução de um jogo de palavras convincente, e assim ficou imutável essa parte do livro.

A ideia de uma ‘realidade virtual’ como o Metaverso está já agora disseminada na comunidade ligada à criação gráfica por computador e vem sendo implementada numa quantidade de maneiras diferentes.   A visão específica do Metaverso tal como é expressa neste romance teve origem numa discussão ociosa entre mim e Jaime ‘Capitão BandaLarga’ Taaffe – o que não significa que a responsabilidade por qualquer dos aspectos irrealistas ou enganadores do Metaverso devam ser imputados a outrém que não a mim.

As palavras ‘avatar’ - no sentido aqui usado - e ‘Metaverso’ são invenções minhas, que arranjei quando decidi que os termos existentes (tal como ‘realidade virtual’) eram simplesmente demasiado inestéticos para empregar.

Pensando na forma como o Metaverso poderia ser construído, fui influenciado pelo ‘Apple Human Interface Guidelines’  (Linhas Gerais para uma Interface Humana, da Apple), que é um livro que explica a filosofia por trás do Macintosh.   Mais uma vez, este ponto é referido apenas como um reconhecimento da benéfica influência do pessoal que compilou o citado documento, não para ligar esses pobres inocentes aos resultados disso.

Em graciosa flexão, que incluo aqui somente por ser agradavelmente auto-referencial, tornei-me intimamente familiarizado com o funcionamento interno do Macintosh durante as fases iniciais desse maníaco e condenado projecto de um romance gráfico, quando ficou claro que a única forma de pôr o Mac a fazer as coisas de que precisávamos era escrevermos nós uma quantidade de software próprio de processamento de imagem.   Terei passado provavelmente mais horas a codificar durante a produção deste trabalho do que na verdade a escrevê-lo, ainda que no final ele acabasse por se desviar de tal conceito gráfico original, tornando inútil de um ponto de vista prático a maior parte desse trabalho.

Finalmente, deverá ser salientado que quando escrevi o material sobre Babel estava por assim dizer assente nos ombros de muitos, muitos historiadores e arqueologistas, que na verdade é que efectuaram a pesquisa; muitas das palavras ditas pelo Bibliotecário tiveram origem nessas pessoas e tentei que o Bibliotecário lhes desse esses créditos onde tal era devido, verbalmente colocando as devidas anotações aos seus comentários, como um bom colegial, coisa que eu não sou.

Após a primeira publicação de Snow Crash, soube que o termo ‘avatar’ vinha na verdade a ser usado há alguns anos como parte de um sistema de realidade virtual chamado Habitat, desenvolvido por F. Randall Farmer e Chip Morning-Star.   O sistema corre em computadores Commodore 64 e embora nos EUA tenha morrido completamente, é ainda popular no Japão.   Além dos avatars, o Habitat integra muitas das características básicas do Metaverso tal como descritas neste livro.

 

O autor agradece neste livro a permissão de uso de uma imagem retirada da obra de Julian Jaynes, de 1976 – The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind 

 

 


 

[1] Em português diz-se que a TV está com ‘chuva’.

[2] Loglo – de logo (logotipo, emblema, anúncios) + glow (clarão).   O clarão dos anúncios luminosos

[3] (Aeroporto de Los Angeles – Internacional)

[4]usualmente,  pirata informático ou especialista em programação informática

[5] Abreviatura de You store it (arrume você mesmo)

[6] erro de programa informático

[7] V.A. – Veterans Assistance

[8]  tipo de imagem digital construída ponto a ponto usada em desenho por computador

[9] um blá-blá-blá, um balbuciar sem nexo.   O autor salientará no texto a sua semelhança fonética precisamente com a palavra Babel associada à confusão das línguas.

[10]hacks’, no original  (golpeia, pirateia) – nada a ver aqui com pirataria informática mas sim com um golpe real à pirata!

[11] Jesus ‘Hell’ (Inferno) Christ

[12] ‘intel’, de ‘intelligence’- como usar ‘inform’ em português para designar ‘informação’

[13] Town Car – uma gama de modelos da Lincoln

[14] aqui o sentido de ‘bugs’ é o de aparelhos de escuta/observação e não um erro informático

[15] actualmente, os Crips são uma das gangs de Los Angeles

[16] intravenosos

[17] South Philly – calão – do sul da Filadélfia

[18]hacking’, no original

[19] Nas calmas, ex-LAX

[20] WASP – denominação dada aos americanos Brancos Anglo-Saxónicos e Protestantes

[21] Trocadilho com defecament / defecação

[22] Em inglês, ‘squid’

[23] operações ‘secas’ - sem envolver violência ou morticínio

[24] a conhecida zona de prostituição de Bangkok, Tailândia

[25]410’ – um calibre menor

[26] Razão / Argumento

[27] A Última Razão – ou Argumento – dos Reis; Guerra

[28] download – em informática, descarregar de um outro computador para o nosso alguma informação

[29] seguidores/lacaios, também os seguidores de Aquiles na guerra de Tróia - a raiz grega da palavra também tem a ver com ‘formigas’

[30] uma trepadeira japonesa de flores vermelhas

[31] Projector de Onda de Choque Configurado em Cone Estreito, da RadiKS