SNOW CRAH – Citações e análise
Um ficheiro de Informação pertinente foi legado por Lagos - um investigador que
mais tarde é encontrado assassinado - a Hiro Protagonist, o nosso herói. Esse
material existe dentro de um directório informático com a referência ‘Babel’ - ‘Infocalipse’.
Hiro, um ‘Deliverator’, entregador de pizzas, mas também e sobretudo um
programador destacado, interessa-se pelo assunto. Babel... babble... Infocalipse?
Revê os diversos conceitos.
Babel, histórica e geograficamente, era uma cidade na antiga Babilónia, uma
cidade lendária. Babel é um termo bíblico para a Babilónia. A palavra é
semítica. Bab = portão e El = Deus. BabEl = o Portão de Deus. Terá também algo
de onomatopaico, como imitando alguém que fale numa língua incompreensível, num
balbuciar. A Bíblia está cheia deste tipo de relações linguísticas.
Uma torre construída em direcção ao céu, derrubada por deus... Há nisto tudo uma
antologia de mal-entendidos e concepções erradas. Deus nada terá feito à tal
torre, apenas se estabeleceu um hiato, foi suspensa a construção. "... e o
Senhor disse: que parem. Eles são um só povo e com uma só língua. E isto será
apenas o começo do que se preparam para fazer. Nada mais será impossível para
eles se continuam. Desçamos e confundamos a sua linguagem tal que não se
entendam mais uns aos outros. Assim o senhor espalhou-os a todos por toda a face
da Terra deixando eles de construir a cidade e a torre. Daí em diante o nome da
cidade tornou-se Babel pois foi aí que o senhor confundiu a linguagem de todos
sobre a Terra". – Gen. 11 6-9
Hiro em diálogo com o bibliotecário artificial:
"Então a torre não foi destruída... foi suspensa..."
"Correcto" – responde o assistente electrónico da imensa biblioteca existente em
rede.
"Trata-se então de um bogus!"
"Bogus?"
"Provavelmente falso, algo vago" – Olha, por exemplo, Juanita, uma amiga minha,
acredita que nada é declaradamente verdadeiro ou falso na Bíblia. Pois, se fosse
comprovadamente falso, então a Bíblia é uma mentira. E se fosse comprovadamente
verdadeiro, então a existência de Deus era provada e deixava de haver espaço
para a fé! A história de Babel é comprovadamente falsa pois se eles construíram
uma torre para o céu e deus não a derrubou então ainda estaria por aí, ou pelo
menos algum vestígio...
"Assumir que ela, a torre, era muito alta é apenas mais uma ideia obsoleta: pois
a torre é descrita literalmente como ‘o seu cimo com os céus’. Foi durante
séculos interpretado como dizendo que o topo era tão alto que chegava ao céu,
mas durante o último século, ao escavarem-se e descobrirem-se vários dos
zigurates babilónicos, viu-se que tinham inscritos nos seus topos diagramas
astrológicos, imagens dos céus. A história autêntica será a de uma torre
construída com motivos, diagramas celestes, gravados no topo. Mais plausível que
uma torre a chegar ao céu. ‘Deus atingiu’, desceu sobre os homens, irado, mas a
torre não foi atingida directamente. Eles é que deixaram de a construir devido
ao desastre informacional que sofreram, não podiam mais falar uns com os outros.
E a propósito, desastre é até um termo astrológico que significa má estrela..."
* * *
Simultaneamente e noutro quadrante, aparentemente, a América debate-se com um
novo fenómeno. O continente está prestes a ser atingido por uma onda de
‘biomassa’ humana, de mais refugiados... ‘Biomassa’ é afinal uma porção de
matéria viva. Um termo ecológico. O que fica se de 1 km3 de floresta equatorial
ou oceano se retirar toda a matéria inorgânica, sujidade e água? É também uma
expressão da indústria. A indústria ‘alimenta-se’ da biomassa humana, tal como a
baleia abocanha e filtra o krill! No livro, surge uma imensa ‘jangada’ que tem a
função de trazer mais biomassa, para ‘renovar’ a América.
A maior parte dos países são estáticos, limitam-se a assegurar a natalidade. Mas
os EUA ‘são como uma máquina gigante, envelhecida e a fumegar que se arrasta
apenas pela paisagem, apanhando e engolindo tudo o que surge. Atrás de si deixa
um rasto imenso de lixo. Mais e mais combustível é necessário...’
"A história do Labirinto e do Minotauro, em Creta, lembram-se? - sugere Hiro -
os gregos tinham que arranjar anualmente algumas jovens virgens como tributo a
enviar a Creta. O rei punha-as aí no labirinto e o minotauro devorava-as. E
porque é que ninguém se mexia contra isso? ‘Domesticados’, enviavam todos os
anos as crianças para a matança. A América actualmente desempenha o mesmo papel
que Creta representava para os pobres gregos, porém sem obrigação. Dos países
pobres enviam os seus de livre vontade, para este novo labirinto, aos milhões,
para serem devorados. A indústria alimenta-se deles e de volta cospe, regurgita
imagens, produz e envia mais filmes e séries de TV, imagens de prosperidade e
coisas exóticas para lá do alcance dos seus sonhos mais ousados".
Mas há mais perigos no ar. Talvez, afinal, estejam todos ligados... Hiro
disserta sobre uma nova ameaça que paira agora sobre os programadores: "Os
programadores, hackers, nas ‘linhas de montagem’ de software são patetas ávidos
por infecção e irão cair aos milhares – dissera-lhe Lagos, o detective morto -
tal como o exército assírio de Senaquerib defronte das muralhas de Jerusalém".
"Se se é um hacker ou programador, significa que se possui desenvolvidas certas
estruturas profundas cerebrais, matrizes neurolinguísticas, com que se tem que
preocupar neste novo ambiente cibernético. Como? Da primeira vez que aprendemos
código binário, por exemplo, o cérebro moldou-se, inicia a formação de ligações
e estruturas ao nível mais profundo para acomodar e gerir essse novo tipo de
informação. Os nervos fazem crescer novas ligações conforme vamos usando essas
novas áreas. Os ‘axónios’ dividem-se e abrem caminho por entre as células gliais
em separação. Isto é, o ‘bioware’ auto-modifica-se, evolui. O software, o novo
tipo de informação, torna-se parte do hardware, do equipamento biológico. Todos
os hackers e programadores tornam-se assim vulneráveis a um certo ‘nam-shub’ ".
"Nam-shub?" – interrogara-se Hiro.
"Feitiço, encanto. Um exemplo – havia-lhe explicado Lagos - no antigo culto a
Asherah, as prostitutas procuravam espalhar a ‘doença’, aqui sinónimo de ‘mal’.
Para os da Mesopotâmia não havia qualquer conceito independente de ‘mal’. Apenas
doença ou saúde má. O mal era um sinónimo de doença. Aqui, o mal é um vírus. Não
deixes o nam-shub penetrar no teu sistema operativo biológico (o sistema
neurolinguístico)". Lagos detalhara a ameaça, um ficheiro binário de imagem: "You
can’t get hurt by looking at a bitmap, or can you?" Não adoecemos por olhar para
uma imagem bitmap...?" Ou será que podemos mesmo ser atingidos?
O que se passa afinal no livro com os hackers ‘infectados’ que começam a surgir?
Não haverá qualquer diagnóstico médico físico. É um problema de software, não de
hardware. A um dos programadores aparentemente ‘desligados’, enlouquecido, foi
feito um CAT, NMR, PET, EEG... e fisicamente estava tudo bem. Não havia nada de
errado com o cérebro, o hardware, mas só com o ‘sistema operativo’. O seu
software foi ‘envenenado’. Teve um snow crash dentro da cabeça, para lá dos
problemas psicológicos das categorias conhecidas. Um novo fenómeno, na
realidade, um muito antigo. Ele tinha apenas olhado para uma imagem em
computador, que parecia a ‘chuva’ da televisão..., estática.
"The bitmap wasn’t just random static. Was flashing up a large amount of digital
information in binary form". Afinal a imagem bitmap mostrada não seria apenas
estática mas introduzia vastas quantidades de informação digital binária para o
cérebro. Esta, ia direita ao nervo óptico do sujeito que na realidade é já parte
do cérebro, um terminal do cérebro. Se se era um hacker podia-se ler código
binário directamente. Essa habilidade estava já profundamente gravada nas
estruturas cerebrais. Logo, ficava-se susceptível a esse tipo de informação.
Então, de que tipo de informação estamos a falar, essa que passou para o
cérebro?
"Um ‘metavírus’, a ‘bomba atómica’ da guerra informacional. Um vírus que causará
ou permitirá um sistema auto-infectar-se com novos vírus."
L. Bob Rife é neste livro o dono, não do Black Sun, a firma original de
programação a que pertenceu Hiro, mas do Metaverse, a actual multinacional
planetária, global, de comunicações e informática, TV, cabo, etc, e respectiva
multidão de programadores. Ele é o mau da fita, o ‘senhor dos vírus’ e de uma
droga associada – o Snow Crash - e não apenas no aspecto informático. Vírus...
Em termos de informação, uma frase pode até ser como um vírus, o conceito hoje
em dia é vasto. Dados, pedaço de informação, que passam de pessoa para pessoa,
espalham-se.
O outro vector: sangue e drogas. Uma antiga programadora atingida fala de como
aquilo lhe aconteceu e da vida a bordo da jangada, nessa mistura de ex-hackers e
falabalas, essa mole de refugiados falabaratos que parecem dominar uma nova
língua imperceptível. My old life stopped. Back to baby talk. My computer was
having problems. My system crashed. I saw static. After, they said my blood had
been washed. That I belonged to the word now. In the ‘raft’, more programmers
who had seen the word. Seen on computers or in the TV. In the raft we gave blood!
(A minha vida anterior chegou ao fim. Parece que tinha voltado à fala de bébé.
Aconteceu quando o meu computador começou a ter problemas. O sistema foi-se
abaixo. Só via estática no écran. Mais tarde disseram-me que o meu sangue já
havia sido lavado, que passava a fazer parte da nova palavra. Então, já na
‘jangada’, vi mais programadores que também eles já haviam visto a Palavra. Nos
computadores ou na TV. Na ‘jangada’ dávamos sangue...)
Em termos químicos, a versão tipo droga do "Snow Crash" is a ‘roid" -
comportar-se-á como um esteróide. Atravessa as paredes celulares como tal, e
interfere então com o núcleo, tal como o vírus, do herpes, por exemplo. Altera o
DNA. O ‘anel dos 17’ é o que se chama a um grupo químico com a mesma estrutura
básica incluindo as hormonas artificiais, os esteróides, a testosterona, e que
funciona como que uma chave mágica a passar pelas paredes celulares. Todos eles
têm portanto uma estrutura básica, moléculas com um anel de 17 átomos. Assim os
esteróides são substâncias potentes quando lançadas no corpo humano, vão até ao
íntimo da célula, ao núcleo, e alteram a forma de funcionamento deste.
Quanto ao Snow Crash na forma de droga, não o é na verdade mas aparece associado
a uma combinação delas para que as pessoas o tomem. É soro sanguíneo processado,
retirado de gente já ‘infectada’, programadores atingidos com esse novo fenómeno
misterioso que os está a atingir e enlouquece. Inicialmente ra apenas a versão
em imagem de ‘chuva’ o tal bitmap estranho. O soro é afinal agora mais um meio
de se espalhar. Mas a dispersão tem ainda novos vectores. Outro meio existe,
finalmente, através da igreja pertença de L. Bob Rife. "Mas então o Snow Crash,
isso é um vírus, uma droga ou uma religião?"
"Qual é a diferença?"
"Toda a gente tem ‘religiões’. É como se tivéssemos receptores para a religião
inseridos nas nossas células, na nossa estrutura cerebral. Logo, temos que
preencher esse nicho. A religião costumava ser essencialmente ‘viral’, um pedaço
de informação que se replicava no interior da mente humana – o seu hospedeiro –
saltando de pessoa para pessoa. Esta era a forma habitual e infelizmente é ainda
o caminho actual. Contudo tem havido esforços no sentido de nos retirar das mãos
deste tipo de religião primitiva irracional."
"O primeiro esforço foi efectuado por ‘alguém’ chamado Enki, há cerca de 4.000
anos. O segundo foi feito pela escola hebraica no 8º século AC., pelos judeus,
corridos da sua terra pela invasão de Sargão II, mas isso veio a desembocar num
legalismo inconsistente, vazio. Outra tentativa seria feita por Jesus – mas esta
foi tomada por influências virais logo 50 dias após a sua morte, nos
Pentecostes. O ‘vírus’ seria suprimido pela igreja católica mas estamos
actualmente no meio de uma grande ‘epidemia’ iniciada no Kansas em 1900."
"Pelo que diz Juanita - ‘acredito em deus e em Jesus, mas não na ressurreição
corporal, física’. "
"Como assim?"
"Quem estude a sério os evangelhos vê que a ressurreição é um mito que foi
anexado à história real anos após as histórias concretas terem sido escritas."
E agora a nova igreja de L. Bob Rife está a usar um processo também muito antigo
para se espalhar, difundir informação – a glossolália. É o que parece estar a
acontecer por entre essa ‘biomassa’, essa turba de refugiados transportada pela
‘jangada’ de Bob Rife em direcção à América.
- Glossolália?
Glossolália – o ‘falar línguas’, o ‘milagre das línguas’ descrito na Bíblia, nos
pentecostes, e em Isaías. Exemplo: a ma la ge zen ba dam gal nun ka aria su su
na an da. Ba ma zu na la amu pa go lu ne me a ba du. Ritual religioso.
Glossolália é o termo técnico. Um fenómeno neurológico explorado em rituais
religiosos. Uma coisa cristã? Os pentecostais cristãos pensavam que sim mas
iludiam-se a eles próprios, não foram os precursores. Os pagãos gregos já o
faziam. Platão chamava a isso ‘teomania’. Cultos orientais do império romano
faziam-no também. Mais: os esquimós da baía de Hudson, shamans chukchi, lapónios,
yakuts, os pigmeus semang, cultos do norte de Bornéu, e padres ganenses de
língua trhi. Igualmente os zulus do culto amandiki e a seita chinesa
shang-ti-hui. Médiuns espíritas de Tonga e os do culto umbanda do Brasil. Os da
tribo tungus da Sibéria dizem que quando o shaman mergulha no transe e solta
sílabas incoerentes apreende a língua completa da Natureza.
"A língua da Natureza... – como chamam alguns. A tribo sukuma, em África, diz
que a linguagem glossolália é kinaturu, a língua dos antepassados de todos os
mágicos, que se pensa descenderem de uma certa tribo. Retirando as especulações
místicas parece que a glossolália deriva de estruturas enterradas profundamente
no cérebro, comuns a todas as pessoas".
- Como é que se observa, como é que agem as pessoas durante a glossolália?
- C. W. Shumway estudou a reconstrução de Los Angeles em 1906 e notou seis
sintomas básicos: perda completa do controle racional; domínio da emoção,
conduzindo à histeria; ausência de pensamento ou vontade; funcionamento
automático dos órgãos da fala; amnésia; manifestações esporádicas ocasionais,
como espasmos, contorções. Já Eusébio observara fenómenos análogos por volta do
ano 300 dizendo que o ‘falso profeta’ começa por uma supressão deliberada do
pensamento consciente e termina num delírio sobre o qual não tem controle. Qual
a justificação cristã para isso? Há algo na Bíblia?
- No Pentecostes – que é até uma palavra derivada do grego e significando
quinquagésimo, 50. O 50º dia após a crucificação de Cristo. Vejamos no Actos 2:
4-12 " E eles foram impregnados com o Espírito Santo e todos admirados e
perplexos diziam uns para os outros – o que é que isto quer dizer, o que
significa?" O ocorrido aqui parece Babel ao contrário! Muitas igrejas
pentecostais acreditam que o dom das línguas foi conferido para que pudessem
espalhar a religião entre outros povos sem terem que aprender a respectiva
língua. O termo para isso será antes ‘xenoglossia’, falar uma língua
estrangeira. No século XVI São Luis Bertrand alegadamente usou o dom das línguas
para converter algo entre 30 e 300 mil índios sul-americanos ao Cristianismo.
- E os judeus, o que pensam dessa coisa ocorrida no Pentecostes, da glossolália?
- Era um período de domínio romano mas existiam autoridades religiosas judaicas.
A sociedade de então comportava três grupos principais: os fariseus, os saduceus
e os essénios. Os fariseus eram religiosos estritos, conservadores, com uma
versão muito rígida da religião. A lei para eles era tudo. Para estes, Jesus era
uma ameaça pois propunha um desvio à lei vigente, uma renegociação do contrato
com Deus. Os saduceus eram mais materialistas filosoficamente. As filosofias são
todas ou monistas ou dualistas. Monistas, dizem que o mundo material, físico, é
o único, daí serem materialistas. Os dualistas acreditam num ‘universo binário’,
havendo um mundo espiritual em adição ao mundo material. Numa analogia, os
computadores vivem num mundo dualista, um universo binário. Baseiam-se no 1 e no
0 para representar todas as coisas.
Esta distinção entre algo e nada, esta separação crucial entre ser e não ser é
de facto fundamental e está na base de muitos dos mitos sobre a Criação: mesmo a
palavra science, ciência, deriva de um termo indo-europeu antigo significando
cortar ou separar. O mesmo termo levaria também à palavra shit que na prática
significa separar a carne viva dos dejectos. E é essa mesma raiz que nos dá
ainda as palavras scythe (tesoura) e schism, com conexões óbvias ao conceito de
separação. E sword, espada, sai de uma raiz também com vários ramos. Um é o de
cortar, ou furar; outro é rod, ou poste, cana. E outro ainda é falar.
Falta falar, voltando atrás, ao terceiro grupo social importante entre os
antigos judeus: os essénios. Viviam comunalmente e acreditavam que a higiene
física e espiritual estavam intimamente ligadas. Eles banhavam-se
constantemente, punham-se nus ao sol e usavam enemas – clisteres - e chás.
Purgavam-se amiúde além de outros extremos de comportamento para se assegurarem
de que a comida era pura, não contaminada. Desenvolveram até a sua própria
versão dos evangelhos na qual Jesus curava gente possuída, não por milagres mas
sim por lhes retirar parasitas do corpo, como ténias, etc. Tais parasitas eram
tidos como sinónimo de demónios, possessão demoníaca. Para eles, não havia
distinção entre infecção com um parasita e possessão demoníaca. Só que, eram
estritamente religiosos mas à sua maneira e não consumiam drogas Para a época,
eles eram um estilo de hippies, ecologistas.
Vírus. Infecção. Nam-Shub... Hiro aproveita o diálogo com o bibliotecário para
colocar mais algumas questões.
- O que é um Nam-Shub?
A palavra é um termo sumério. Da Mesopotâmia, de um povo que existiu até 2.000
AC. É a mais antiga das línguas escritas. Será então – perguntam alguns – que as
outras línguas derivam desta? Na verdade não. Não se encontram línguas a derivar
do sumério. O sumério era uma língua aglutinativa, isto é, uma colecção de
morfemas ou sílabas agrupadas em palavras. Não é comum. Se pudéssemos ouvir algo
em sumério seria como uma longa torrente de curtas sílabas todas juntas. Tal
como os exemplos de glossolália.
- Semelhanças com alguma língua moderna?
- Não, não há qualquer relação ‘genética’ encontrada entre o sumério e outra
língua posterior.
- Curioso! O que aconteceu então aos sumérios? Um genocídio?
- Não, foram conquistados mas não há evidências de genocídio. Na história
universal há inúmeros casos de conquistas mas a língua dos conquistados não
desaparece assim sem mais nem menos. Porque é que o sumério então desapareceu?
Só especulando... Haverá ainda alguém que compreenda, leia, descodifique ou
estude sumério? Actualmente só umas dez pessoas em todo o mundo. Um em Israel,
outro no Iraque, um no museu britânico, outro na universidade de Chicago, um
outro na de Pensilvânia.
Mas voltando ao termo nam-shub... refere-se a um discurso com poderes mágicos.
Um encanto, feitiço. É o mais parecido em linguagem comum. Os sumérios
acreditavam no poder da magia. Aliás, citando Samuel Noah Kramer e John R. Maier,
em ‘Myths of Enki, the Crafty God’, New York, Oxford, Oxford University Press,
1989 – religião, magia e medicina estão tão intimamente interligadas na
Mesopotâmia que tentar separá-las é frustrante e talvez uma tarefa inútil (...)
Os ‘encantos’ sumérios demonstram uma conexão tão íntima entre o religioso, o
mágico e o estético, tão completa, que qualquer tentativa de destrinçar uma das
facetas conduzirá a uma distorção do todo. "Uma frase com poderes mágicos..."
Hoje já não se acredita nisto... Só em realidade virtual a magia, a fantasia é
possível! Uma estrutura ficcional feita de código. E o código é apenas uma forma
de linguagem – uma forma de linguagem entendível pelos computadores. O
ciberespaço, a Internet (no livro é o Metaverso) no seu todo pode ser tido como
um único grande nam-shub, permitindo-se a si próprio existir sobre a
infra-estrutura de fibra óptica e outras.
A Investigação prossegue agora sobre os ficheiros herdados de Lagos. Há mais
três objectos que merecem interesse: o primeiro, trata-se de um obelisco de uns
2,5 metros, uma estela coberta com escrita cuneiforme e com uma figura em baixo
relevo gravada no topo. É a estela com o Código de Hamurábi e data de cerca de
1750 AC. O segundo, é um envelope em barro e é sumério, do 3º milénio AC. Foi
achado na cidade de Eridu, no sul do Iraque. O envelope contém uma placa no
interior também em barro onde se encontra o documento propriamente dito. O
envelope protege apenas dos elementos. Eridu foi o centro do culto ao deus
sumério Enki. Por fim, o último objecto em forma de árvore é um totem de um
culto yahueístico da Palestina, um ‘asherah’ e data de cerca de 900 AC. Como é
que estão então os três objectos interligados? Qual o interesse pelos sumérios?
O Egipto foi uma civilização da pedra. Fizeram arte e arquitectura em pedra,
para durar séculos. Mas não é prático escrever em pedra. Inventaram então o
papiro e escreviam nele, mas o papiro degrada-se facilmente. Embora a sua arte e
arquitectura tenham sobrevivido, os seus registos escritos, a sua informação,
dados, desapareceu na maior parte. A escrita era essencialmente de slogans,
chavões, discurso político demagógico. Uma infeliz tendência para escreverem
especialmente a louvar as próprias vitórias militares até antes de as batalhas
na verdade ocorrerem.
Na Suméria foi diferente. Uma civilização do barro, da argila. Tanto para a
construção como para a escrita. Mas estátuas eram em gesso, pelo que se
dissolviam. Tanto os edifícios como as estátuas foram desaparecendo. Contudo, as
placas escritas eram levadas ao forno ou colocadas em recipientes, protegidas.
Assim, grande parte da informação sobre os sumérios sobreviveu. O Egipto deixou
uma herança em arte e arquitectura e os sumérios uma herança em megabytes de
informação escrita. Escreviam em tudo, até nas paredes das casas, em cada
tijolo. Mesmo nos restos espalhados, nas ruínas, se encontra escrita em
abundância. No Alcorão, os anjos enviados contra Sodoma e Gomorra proferem:
‘somos enviados contra uma nação atrevida para que sobre ela façamos cair uma
chuva de tijolos assinados pelo Senhor que destrua os pecadores’. Interessante a
promíscua dispersão de informação escrita num meio que enfrenta o tempo. Como
pólen levado pelo vento...
- O que contém o envelope escrito?
- Talvez um aviso... um tal ‘nam-shub’ de Enki, o deus Enki:
Era uma vez, não havia cobras, não havia escorpiões
Não havia hienas, não havia leões, não havia cães selvagens, não havia lobos,
Não havia medo nem terror, o Homem não tinha rival.
Era uma vez as terras Shubur e Hamazi, a Suméria de língua harmoniosa, a grande
terra das divinas leis dos principados,
Uri, a grande terra que tem tudo o que é próprio,
A terra Martu, que descansa em segurança,
O universo inteiro, o povo em uníssono,
A Enlil numa língua fizeram preces.
Mas então o senhor-pai, o príncipe-pai, o rei-pai,
Enki, o senhor da abundância, cujas ordens eram confiantes
Senhor da Sabedoria que vigia a terra, Senhor dos deuses,
Senhor de Eridu, dotado de sabedoria
Nas suas bocas trocou as palavras, instalou a discórdia,
Na fala do homem que havia sido única.
Essa é a tradução de Samuel Noah Kramer. O nam-shub de Enki será tanto uma
história como um encanto, uma fantasia afinal auto-executável. Na forma original
que a tradução apenas aflora faria na verdade o que ela mesmo descreve. ‘Mudaria
o tipo de discurso, de fala, na boca dos homens!’. Seria a história de Babel. A
base para a história da Torre de Babel bíblica. Todos falavam antes a mesma
língua e então Enki tratou de mudar a sua fala de tal forma que já não se podiam
entender uns aos outros.
- Então, anteriormente, todos falariam em sumério. Depois, a partir de certa
altura, mais ninguém o fazia. Desapareceu. Tal como os dinossáurios. Mas não há
indícios de genocídio que o explique. O que é consistente com a história da
Torre de babel e o nam-shub de Enki.
- Babel de facto aconteceu. Surge um vasto número de línguas. Demasiadas até.
Dezenas de milhares de idiomas. Nalgumas zonas encontra-se gente do mesmo grupo
étnico a algumas milhas de distância umas das outras em vales idênticos, nas
mesmas condições, falando línguas sem absolutamente nada em comum. Isto não é um
caso isolado. É o que ocorre em muitos sítios. Os linguistas tentam compreender
Babel e a questão porque é que as línguas tendem a fragmentar-se em vez de
dinvergirem (?) em relação a uma língua comum. Alguma teoria existe?
- Pois, há quem ache mesmo que Babel foi de facto um acontecimento real,
histórico. Aconteceu num local identificado do espaço e do tempo, coincidindo
com o desaparecimento da língua suméria. Que anterior ao ‘infocalipse’ de Babel
as línguas tendiam na verdade a convergir. Que depois disso, as línguas têm tido
sempre uma tendência inata para divergir e tornarem-se mutuamente
incompreensíveis e que esta tendência reside e permanece enrolada como uma
serpente à volta do tronco cerebral humano.
- Só se explicaria todo esse fenómeno se algo tivesse havido que alastrasse por
entre toda a população mudando as mentes de tal forma que as deixassem incapazes
de processar doravante a língua suméria. Tal como um vírus passando de um
computador a outro danificando cada uma das máquinas por onde vai circulando,
enrolando-se à volta do cérebro (ou circuitos)!
- Há quem chame então a esse fenómeno do nam-shub de Enki um vírus
neuro-linguístico.
- Mas Enki, serria um personagem real?
- Possivelmente, como se vê noutros casos históricos mesopotâmicos de deificação
de sobreanos ou de altos sacerdotes.
- E Enki, teria inventado o tal ‘vírus’ e espalhou-o através da Suméria usando
as tais tabletes de barro...?
- Na verdade foi descoberta até uma placa contendo como que uma carta ao deus
Enki em que um escriba se queixa.
- Uma carta ao deus Enki?
- Uma carta de um tal Sin-Samuh, o Escriba. Começa por louvar a Enki e realçar a
devoção que lhe tem. Então, começa o lamento:
"Como um jovem (... inexperiente ?)
De pulso paralisado
Como um carro com o eixo partido
Fico imóvel
No leito da angústia gemendo Não!
Solto os meus queixumes
O meus corpo antes gracioso estende-se
Pés travados
Põe-me (...) para a cova
O meu aspecto mudou
À noite já não consigo dormir
A força foi-me destroçada
Enquanto a vida me sugam
O dia radioso em trevas se tornou
Para a sepultura deslizei
Eu, um escritor, que muitas coisas conheci, num torpe me tornei
A minha mão a escrita parou
A boca, o discurso abandonou.
(...)
Meu deus, é a ti quem temo.
Uma carta te escrevi.
De mim tem piedade.
O coração do meu deus - dá-mo de volta.
- Bem, e sobre essa estela preta, o que é que existe de informação?
- O obelisco tem o código de Hamurábi e é de cerca de 1750 AC. Enki investiu
bastante na transmissão dos seus conhecimentos ao seu filho, o deus Marduk, a
divindade principal para os babilónios. Os sumérios adoraram Enki e os
babilónios, posteriores aos sumérios, adoraram Marduk, o seu filho. E sempre que
disso tinha necessidade Marduk recorria ao pai Enki para ajuda. Nesta estela
vemos uma representação de Marduk, no trono, com Hamurábi de pé. Segundo
Hamurábi, o código foi-lhe entregue pessoalmente por Marduk. Uma ampliação à
estela mostra no topo a representação do deus Marduk entregando a Hamurábi algo
parecido com um ‘0’ e um ‘1’. Emblemas do poder real de origem obscura, perde-se
na noite dos tempos. Enki será o responsável por esse ‘1’, a ordem, o ser... –
especula Hiro no romance.
- Resta falar sobre a Asherah, o tal poste ou árvore sagrada? De que é que se
trata? Um totem da deusa Asherah? Já antes ouvi, do próprio Lagos, uma frase
comparando, e alertando, sobre algo como as prostitutas do culto de Asherah.
Quem era Asherah?
- Era a esposa de El, também conhecido como Yahweh, isto para os judeus, mas com
raízes muito mais antigas derivando de raízes mesopotâmicas e até sumérias. Ela
é assim ao longo dos tempos e locais também conhecida por muitos outros nomes.
Elat era o seu epíteto mais comum. Os gregos conheciam-na como Dione ou Rhea. Os
canaanitas chamavam-lhe igualmente Tannit ou Hawwa - o mesmo que Eva! O étimo de
Tannit, proposto por Cross, é o feminino de Tannin que significaria ‘o da
serpente’. Asherah possuía ainda um outro epíteto na idade do bronze, ‘dat batni’,
significando precisamente ‘a da serpente’. Para os sumérios ela era a Nintu ou
Ninhursag e o seu símbolo era o de uma serpente enrolada numa árvore ou pau,
aquilo a que se chama um caduceu, portanto com origens bem anteriores às gregas
do caduceu de Hermes-Mercúrio e de Asclepius, como símbolo de salvação ou da
medicina.
- Quem adorava Asherah?
- Toda uma população desde a Índia até Espanha e desde o 2º milénio AC até
dentro da era cristã. Com a excepção dos hebreus que só a adoraram até às
reformas religiosas de Ezequiel e Josiah. Os hebreus não eram monoteístas
Podemos antes chamar-lhes monolatristas. Não negavam a existência de outros
deuses mas era suposto adorarem apenas Yahweh. Asherah era venerada sendo esposa
de Yahweh!
- Não me lembro de na Bíblia, Deus ter uma mulher...!
- Pois, a Bíblia como tal ainda não existia. O judaísmo era uma colecção
dispersa de cultos yahweísticos cada um com diferentes tendências e práticas. As
histórias sobre o Êxodus ainda não estavam formalizadas em escrituras. Nem as
partes posteriores da Bíblia tinham ainda ocorrido.
- Quem decidiu então purgar Asherah do judaísmo?
- A escola deuteronómica. Os que escreveram o livro do Deuteronómio assim como o
de Joshua, Juízes, Samuel e Reis. Eles eram essencialmente nacionalistas,
monárquicos, centralistas. O núcleo duro dos Fariseus, em suma. Na altura em que
o rei assírio Sargão II acabara de conquistar Samaria, o norte de Israel,
levando à migração dos judeus para sul, para Jerusalém. Jerusalém cresce e os
hebreus iniciam uma ocupação de território mais para ocidente, leste e sul.
Foram tempos de intenso nacionalismo e fervor patriótico. A escola deuteronómica
encorpava então estas atitudes nas escrituras rescrevendo e reorganizando os
velhos contos, reeditando-os. Como? Moisés, por exemplo, acreditava ser o rio
Jordão a fronteira de Israel mas os deuteronómicos agora mantinham que Israel
incluía a Transjordânia pelo que se justificava a progressão para leste. Mas há
mais: a lei pré-deuteronómica nada dizia sobre um monarca. Ao contrário, a lei
rescrita pela escola deuteronómica reflectia já um sistema monárquico. Enquanto
a legislação anterior se preocupava maioritariamente sobre os assuntos sagrados,
a nova lei saída desta escola vem agora debruçar-se sobre a educação do rei e da
sua gente, assuntos seculares. Os deuteronómicos insistiam entretanto também em
centralizar a religião no Templo de Jerusalém, destruindo os centros de culto
exteriores.
"Acrescente-se ainda que o Deuteronómico é o único livro do Pentateuco que se
refere a uma Torah escrita segundo o desejo divino, sobre o comportamento do
rei: ‘... e quando ele se senta no trono (...) que possa continuar no seu
reinado, ele e os seus descendentes, em Israel’ – Deuteronómico 17: 18-20"
- Então os deuteronómicos codificaram a religião, puseram-na numa entidade
organizada, auto-replicável, auto-propagável. A Torah, agindo como um vírus,
usando o cérebro humano como hospedeiro. O hospedeiro, o Homem, elaborando dela
novas cópias. E mais gente acorria à Sinagoga para a ler.
- Em suma, os deuteronómicos reformaram o Judaísmo. Em vez da prática de
sacrifícios os judeus agora iam à Sinagoga e liam ‘o Livro’. Se não fossem os
deuteronómicos estariam ainda, talvez, a sacrificar animais e a propagar os seus
credos pela tradição oral. ‘Partilhando seringas’.
- E a ideia de a Torah, a Bíblia, serem então elas próprias um vírus?
- Algo de comum em certas coisas com um vírus, mas diferentes num caso. Como um
vírus benigno, como os usados para vacinações. Neste ponto de vista
considerar-se-ia Asherah e as suas práticas como o vírus mais maligno, capaz de
se espalhar até pela troca de fluidos corporais. Então, em suma, a estricta
religião baseada em livro, dos deuteronómicos, inoculava os hebreus contra o
vírus Asherah, em combinação com a estrita monogamia e práticas kosher
(higiénicas e sagradas).
"As religiões anteriores, da Suméria até aos deuteronómicos, são conhecidas como
pré-racionais. O Judaísmo surgiria então como a primeira das religiões racionais
e como tal muito menos sujeita a infecções virais ao ser baseada em registos
fixos, escritos. Era esta a razão para a veneração da Torah e do cuidado extremo
posto ao elaborarem-se novas cópias dela – higiene informacional!"
- E hoje, estaremos então em que era, na pós-racional?
- Asherah parece ter sido uma portadora, digamos, de ‘infecção viral’. Os
deuteronómicos terão identificado tal situação e ‘exterminaram-na’ ao bloquearem
todos os vectores pelos quais infectava novas vítimas. No respeitante a isto,
infecções virais e grosso modo, examinemos o vírus da herpes simplex, que se
aloja no sistema nervoso e nunca desaparece completamente. É capaz na verdade de
inserir novos genes para os neurónios existentes e geneticamente modificá-los.
Um trabalho de reengenharia. Os terapeutas genéticos actuais usam-no até para
esse propósito. O herpes simplex poderá ser um descendente benigno, moderno, de
Asherar. Nem sempre benigno: em complicações associadas à sida, por exemplo, na
fase final, lesões por herpes podem passar dos lábios até ao fundo da garganta.
Benigno se tivermos imunidades.
- Então o vírus Asherah na verdade alterava o DNA das células cerebrais?
- A parte central da hipótese é que o vírus se pode transmutar ele próprio de
algo transmitido biologicamente, DNA, para uma série de comportamentos...
- Comportamentos...? Como é que se processava a adoração a Asherah?
Sacrifícios?...
- Sacrifícios não, mas há larga evidência de prostituição cultual tanto
masculina como feminina. Figuras, entidades religiosas no local, no templo e em
redor, ofereciam-se, mantinham relações com todos, os crentes... Um caminho
óptimo para espalhar um vírus!
"Anteriormente falámos numa ligação... Eva-Asherah. Eva, cujo nome bíblico é
Hawwa é claramente a interpretação hebraica de um mito mais antigo. Hawwa é uma
deusa-mãe ofidiana, associada a serpentes. Tal como Asherar que é também uma
deusa-mãe ofidiana. E também ambas associadas com árvores. Na Bíblia, Eva é tida
como responsável por levar Adão a comer o fruto proibido, tirado da árvore do
conhecimento do Bem e do Mal. Que é como quem diz, não é apenas um fruto mas sim
Informação. (ou consciência, é este afinal o grande ‘pecado’!)"
"Quanto aos vírus concretamente, podemo-nos interrogar se terão estado sempre
presentes entre nós. Em geral pensa-se que sempre existiram mas isto pode não
ser verdade. Talvez tenha havido um tempo no início em que não existissem ou
fossem no mínimo raros. E a certa altura quando surge um ‘metavírus’, então o
número de diferentes vírus explode. As pessoas adoecem em largas quantidades,
como agora. Isso talvez explicará o mito existente em várias culturas sobre um
paraíso anterior e uma ‘queda’ desse paraíso."
"Voltando um pouco atrás, aos Essénios, eles até pensavam que as
ténias e outros parasitas eram ‘demónios’. Se tivessem alguma ideia sobre vírus
teriam pensado deles a mesma coisa. Já para os sumérios, não havia também um
conceito de Bem e Mal absoluto, isolado. Segundo S. N. Kramer e P. Maier, para
os sumérios o que existia era demónios bons e maus, os bons traziam a saúde
física e emocional, os maus eram os responsáveis pela desorientação (caos!) e
uma variedade de males tanto físicos como emocionais. E estes demónios
dificilmente podem ser distinguidos das doenças que personificam e muitas dessas
doenças até soam aos nossos ouvidos como se fossem psicossomáticas (tal como a
‘doença’ do hacker Da5id, no livro)".
"Então, é como se os conceitos de Bem e de Mal tivessem sido inventados pelo
escritor de Adão e Eva, do mito, em ordem a explicar porque é que se cai doente,
porque se possui vírus tanto físicos como mentais. Assim, quando Eva (Asherah)
leva Adão a comer o fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal, ela estava
a introduzir o conceito do Bem e do Mal no mundo, a introduzir o ‘metavírus’, o
que criou ou proporcionou os vírus propriamente ditos e/ou a sua dispersão."
- Quem escreve então o mito de Adão e Eva?
- Há muita discussão sobre isso... mas um tal Nicolas Wyatt’s interpreta de uma
forma radical o mito e supõe que ele foi de facto escrito como uma alegoria
política pelos deuteronómicos.
- Mas eles escreveram os livros posteriores, não o Génesis?...
- Estiveram porém envolvidos na compilação e edição dos livros anteriores. Por
algum tempo pensou-se que o Génesis fora escrito por volta de 900 AC ou até
antes, muito anterior ao surgir dos deuteronómicos. Análises recentes ao
vocabulário e conteúdo sugerem que grande parte do trabalho editorial e
possivelmente até autoral foi efectuado por alturas do Exílio quando os
deuteronómicos tomaram preponderância. Assim, terão rescrito a história de Adão
e Eva.
"De acordo com a interpretação de Hvidberg e depois de Wyatt, Adão no seu jardim
é uma parábola ao rei no seu santuário, especialmente ao rei Hosea que governou
o reino do norte, o de Israel, até à sua conquista por Sargão II em 722 AC, a
mesma conquista já antes mencionada e que levou muitos hebreus – incluindo os
deuteronómicos – para sul, para Jerusalém. O Eden, a palavra hebraica para
delícias, corresponde então ao estado de graça em que o rei se encontrava
anterior à conquista feita por Sargão II. A expulsão do paraíso para as terras
agrestes mais a leste é pois uma parábola à deportação em massa dos israelitas
para a Assíria seguinte à vitória de Sargão II. De acordo com esta interpretação
o rei havia sido desviado do caminho da rectidão ao manter o culto a El
associado à adoração a Asherah que surge normalmente, como se disse, associada
às serpentes e cujo símbolo é também uma árvore. De certa forma essa ligação a
Asherah levou-o a ser derrotado, conquistado. Então, quando os deuteronómicos se
estabelecem em Jerusalém usam a história de Adão e Eva como um aviso para este
reino sobrevivente no sul, o reino de Judá. E talvez porque ninguém os escutasse
devidamente, terão inventado, inserido, o conceito do Bem e do Mal nesse
processo, como um atractivo, um chamariz..."
"Não Sargão II mas um seu sucessor, Senaquerib, é quem tenta a conquista desse
reino do sul. Porém o soberano de então nesse reino do sul, o de Judá, Hezekiah,
preparara-se devidamente melhorando as defesas em redor de Jerusalém, incluindo
o fornecimento de água potável. Foi ele também o responsável por uma série de
reformas religiosas efectuadas sob a direcção dos deuteronómicos. Então, quando
as forças de Senaquerib cercaram Jerusalém ‘e nessa noite o anjo do Senhor
avançou e chacinou 185 mil no campo dos assírios; e de manhã quando as pessoas
se levantaram, pararam a ver, todos aqueles jaziam por terra. Então Senaquerib,
rei da Assíria, decidiu partir’. Reis 19: 35-36"
"Resumindo, os deuteronómicos através de Hezekiah, instituíram uma política de
higiene informacional em Jerusalém e efectuaram algum trabalho de engenharia
civil, incluindo na parte de fornecimento de água. Sabe-se que bloquearam todas
as fontes de água exteriores à torrente subterrânea dizendo ‘porque virão os
reis da Assíria e encontrarem tanta água?’ – Crónicas 32:4. Os hebreus cavaram
um túnel de mais de 500 metros através de rocha e divergiram toda a água de modo
a passar por dentro da cidade. E quando os soldados de Senaquerib chegaram
acabam por cair mortos vítimas do que poderá ter sido como uma doença
extremamente virulenta e à qual as gentes de Jerusalém estariam aparentemente
imunes. O que estaria na água deixada para os assírios? Algum agente biológico
ou químico?"
- De regresso a Asherah... De onde é que surge?
- Originalmente, da mitologia suméria. E a partir daí é também importante nos
mitos babilónicos, assírios, canaanitas, hebraicos e ugaríticos, que são todos
eles descendentes dos sumérios. É interessante pois os mitos de qualquer forma
passaram, foram transmitidos para as novas línguas, embora a língua original
tivesse morrido. O sumério teria apenas subsistido como uma língua da religião e
de instrução em civilizações descendentes, tal como o latim foi usado na Europa
na Idade Média. Ninguém o falava como língua original mas os instruídos podiam
lê-lo. Assim, desta forma, foi transmitida a religião suméria.
- E o que fazia Asherah nos mitos sumérios?
- Há fragmentos dispersos, alguns de qualidade duvidosa, de difícil sentido para
recompô-los. Como por vezes a linguagem de uma criança de dois anos,
impertinente. Os caracteres às vezes são legíveis e conhecidos mas uma tradução
literal, quando montados, parece uma série de instruções quase sem sentido, como
instruções para programar um vídeo. Monótona repetição, redundância. Escribas
exultando também amiúde as virtudes da sua cidade sobre outra.
- O que é que tornava uma cidade superior a outra, um zigurate maior? Uma melhor
equipa de futebol?!
- Não, melhores ‘me’. As regras, as leis ou princípios que controlavam o
funcionamento da sociedade, o seu sistema operativo. Tal como um código de leis
mas a um nível mais fundamental. Pois: os mitos sumérios não podem ser
interpretados no mesmo sentido que os gregos ou hebraicos. Reflectiam uma
diferença fundamental de consciência em relação à nossa. Uma diferença cultural
que não nos deixa apreciá-la devidamente.
"De qualquer forma os mitos acadianos seguiram-se aos sumérios e são claramente
neles baseados. Os redactores acadianos vasculharam esses mitos mais antigos e
editaram até as partes por nós tidas como bizarras e incompreensíveis e
alinharam-nas em obras maiores tais como o Épico de Gilgamesh. Os acadianos,
note-se, eram semitas, ‘primos’ dos hebreus."
- E então o que é que referem os acadianos sobre ela, Asherah?
- Era uma deusa do erotismo e da fertilidade, mas tem também o seu lado
destrutivo, vingativo. Num dos mitos, Kirta, um rei humano, é tornado gravemente
doente por Asherah. Apenas El, o rei dos deuses, o pode curar. El dá a algumas
pessoas o privilégio de se alimentarem dos seios de Asherah. El e Asherah por
vezes adoptam bebés humanos e deixam-nos amamentarem-se de Asherah. E num dos
textos ela amamenta mais de 70 filhos divinos, ‘espalhando o vírus!’ Bem, estas
são versões acadianas.
Só para dar ideia de como é um conto sumério, veja-se por exemplo a história de
como Asherah fez adoecer Enki. A maneira como a história é traduzida depende até
de como ela é interpretada. Alguns vêm-na como uma história da queda do paraíso.
Outros, vêm-na como uma batalha entre o masculino e o feminino ou entre a água e
a terra. Outros ainda consideram-na como uma alegoria sobre a fertilidade. O
texto seguinte deriva da interpretação de Bendt Alster:
"Enki e Ninhursag (que é Asherah, embora nesta história também comporte outros
epítetos) habitam um local denominado Dilmun. Dilmun é puro, limpo, brilhante.
Não existe doença, as gentes não envelhecem, os animais predadores não caçam...
Mas não existe água! Então Ninhrsag pede a Enki, que é um género de deus da
água, para que traga água para Dilmun. Ele assim faz masturbando-se entre esse
entrançado de ravinas e canais deixando escorrer o seu sémen portador da vida –
a ‘água do coração’ – como lhe chamava. Ao mesmo tempo profere um nam-shub
proibindo todos de entrarem nesta zona. Não queria que ninguém se aproximasse da
sua ‘água do coração’. O mito não explica porquê. Ou pensou que era valioso, ou
perigoso, ou ambos... Então Dilmun é agora um local melhor do que fora antes.
Nos campos produz-se abundante colheita. A agricultura suméria usava já muita
irrigação. Era praticamente dependente disso. E de acordo com os mitos, Enki, o
deus da água, era o responsável por irrigar os campos com a sua ‘água do
coração’."
"Mas Ninhursag (Asherah) viola o seu decreto e pega na ‘água do coração’ de Enki
para se engravidar, o que consegue. Após nove dias de gravidez dá à luz sem
dores uma filha, Ninmu. Mais tarde no mito Ninmu caminha pela margem. Enki
avista-a e fica excitado. Atravessa o rio e mantém relações com ela, com a sua
própria filha. Dessa relação, ela, Ninmu, após nove dias de gravidez,, tem uma
filha, Ninkurra. E o mesmo padrão volta a repetir-se: Enki terá relações com
Ninkurra! Daí nasce uma filha, Uttu (a deusa do estuário). Por esta altura já
Ninhursag se apercebe do que se passa, de toda essa matriz seguida por Enki.
Daí, resolve avisar Uttu para que permaneça em casa prevendo que Enki tentará
aproximar-se de Uttu com oferendas para também a seduzir."
"Enki entretanto volta a encher os canais com a ‘água do coração’
o que faz as colheitas crescer. O jardineiro, o plantador, rejubila e abraça
Enki. Traz-lhe uvas e outra fruta. Mas Enki disfarça-se agora ele próprio como
jardineiro e vai até Uttu procurando conquistá-la. Não há mais detalhes, o mito
conta porém que Ninhursag depois consegue obter uma porção da ‘água do coração’
de Enki retirada das coxas de Uttu. Espalha-a então pelo solo dando vida a oito
plantas. Só faltava Enki ter relações com as plantas! Mas não, a história conta
que o deus Enki acaba por comer as tais oito plantas, isto é, em certo sentido
apreende o segredo dessas oito plantas, ao fazê-lo. Então aqui, para alguns,
teremos um paralelismo, o nosso motivo, o nosso quadro ‘Adão e Eva’ sumérios."
"A história não termina aqui. Ninhursag amaldiçoa Enki dizendo " ‘até estares
morto nunca mais olharei para ti com o olho da vida’ ". Ela desaparece deixando
Enki gravemente enfermo. Oito dos seus órgãos adoecem. Um por cada uma das
plantas. Por fim Ninhursag é persuadida a regressar. Dará então nascimento a
oito divindades, uma para cada parte doente do corpo de Enki até que este, por
fim, é curado. Estas divindades constituem o panteão de Dilmun. Através deste
acto é assim quebrado o ciclo de incesto e criada uma nova raça de deuses,
masculinos e femininos, que se reproduzem normalmente. Bendt Alster interpreta o
mito como uma exposição de um problema lógico: supondo-se que originalmente não
havia nada a não ser um criador, como podiam surgir as normais relações sexuais
binárias?"
"Este mito pode ser comparado com o mito sumério da criação no qual o céu e a
terra estavam unidos no início. Mas o mundo não é na verdade criado até que os
dois sejam separados. Muitos dos mitos da criação começam com um paradoxo da
unidade de tudo, tido como caos inicial ou um paraíso, e o mundo tal como o
conhecemos não tem existência até que esse estado seja alterado. De salientar
aqui que o nome inicial de Enki era EnKur, o senhor de Kur. Para os sumérios,
Kur era o oceano primordial, o caos, conquistado e dominado por Enki. ‘Qualquer
Hacker pode identificar-se com esta figura, a de Enki!’."
"Mas Asherah terá conotações semelhantes. O seu nome em ugarítico ‘atiratu yammi’
significa ‘a que esmaga o dragão marinho’. Tanto Enki como Asherah foram então
figuras que em certo sentido derrotaram o caos. E esta derrota do caos, a
separação do estático, de um mundo unificado para um sistema binário, é
identificada com a Criação."
"Mais: Enki era o ‘en’ da cidade de Eridu. O ‘en’ era como um rei-sacerdote.
Tinha à sua guarda o templo local onde os ‘me’ – as regras da sociedade –
estavam armazenados, nas tais tabletes de argila. Eridu situava-se onde é hoje o
sul do Iraque."
"Como diz Samuel Noah Kramer, Enki era também um deus da sabedoria. Mas essa é
uma tradução deficiente. A sua sabedoria não é aquela de um ancião mas antes o
conhecimento de como fazer as coisas, especialmente as coisas ocultas. Ele será
então um deus da sabedoria oculta. Espanta até os outros deuses com soluções
engenhosas, chocantes, para problemas impossíveis. No geral, é um deus
‘simpático’, ajudando a Humanidade. Os mais importantes mitos sumérios
centram-se nele. É associado também com a água, especialmente com a água doce. É
ele quem irriga os rios, lembre-se, e toda a extensa rede de canais com a sua
‘água do coração’ portadora da vida. Diz-se ter criado o rio Tigre numa única e
marcante masturbação. Ele descreve-se assim a si próprio: "Eu sou o Senhor, o
Mestre. Eu sou aquele cuja palavra subsiste. Eu sou eterno". Outros descrevem-no
assim: "uma palavra tua e as despensas e celeiros enchem-se com grão. Tu que
trazes as estrelas do céu, tu que já contaste o seu número..." "Ele pronuncia e
sabe o nome de todas as coisas criadas..." Pois que em muitos dos mitos da
Criação, nomear uma coisa é criá-la. Em várias histórias ele é referido como um
‘sábio que instituiu os encantos, o da palavra rica’. "Enki, senhor de todas as
ordens certas. A sua palavra traz a ordem para onde antes só existia o Caos, e
pode trazer a desordem onde antes havia a harmonia".
"O papel mais importante de Enki terá sido como o criador e guardião dos ‘me’ e
das ‘gis-hur’ – as palavras-chave e as matrizes que regem o Universo. Os ‘me’.
Os sumérios acreditavam na existência desde os tempos primordiais de uma série
compreensível, fundamental, inalterável, de poderes e tarefas, normas e
standards, regras e regulamentações conhecidas como ‘me’, em relação com o
cosmos e os seus componentes, os deuses e os humanos, cidades e países, e a
todos os aspectos da vida civilizada. Um tipo de Torah, ainda sem estar
estruturada... Com uma impregnação mística, de magia. E em geral lidavam até,
esses ‘me’, com assuntos banais do dia a dia, não apenas com religião."
- Exemplos?
- Num dos mitos a deusa Inanna vai a Eridu e seduz Enki para
que este lhe entregue 94 ‘me’. Consegue, e leva-os para a
sua cidade, Uruk, onde são recebidos no meio de enorme
comoção e alegria. Ela é então saudada como uma salvadora ao
levar a cabo a execução perfeita desses ‘me’. Execução.
Processamento. Tal como um programa de computador.
Aparentemente, funcionavam, desempenhavam-se como algoritmos
para executar certas actividades essenciais à sociedade.
Algumas tinham a ver com o sacerdócio ou a condução do
reino. Outras, explicam como celebrar cerimónias religiosas.
Outras ainda, relacionam-se com a guerra e a diplomacia.
Várias, tinham a ver com arte e obras diversas: música,
carpintaria, pedra, construção, agricultura, até tarefas
simples como acender fogos.
"Em suma, todo um sistema operativo da sociedade. Tal como
um computador, quando se liga. Antes, é só uma série de
circuitos inertes. Para a máquina funcionar tem que se
colocar nesses circuitos uma colecção de regras, instruções,
que digam à máquina como funcionar, como ser um computador!
Parece então os ‘me’ servirem como o sistema operativo da
sociedade organizando uma colecção ‘inerte’ de gente num
sistema funcional. Enki era então o guardião dos ‘me’, um
deus ‘bom’, o mais amado dos deuses...
- Torna difícil entender, sendo ele um ‘tipo bom’, então
porquê o nam-shub, a história de Babel?
- Esse é um dos mistérios de Enki. O seu comportamento nem
sempre foi o mais consistente com as normas actuais. Na
verdade, no outro mito, não se sabe bem se a história do
ciclo incestuoso é para ser lida apenas dessa maneira.
Parece antes uma metáfora para algo diferente, para qualquer
tipo de processo informacional recursivo (feed-back). É a
isso que cheira todo o mito. Para essa gente, a água
equivalia ao sémen. Talvez faça sentido. Talvez não tivessem
o conceito de água pura, toda ela castanha, com lama...
cheia de vírus. Para uma visão moderna, o sémen é um
portador de informação. Tanto para a informação ‘benigna’,
cromossomas, como para os vírus malévolos. A ‘água de Enki’,
a sua ‘data’, dados, Informação, o seu ‘me’, fluía através
da terra da Suméria e fê-la prosperar.
"A Suméria existia na extensa planície entre dois rios
principais, o Tigre e o Eufrates. Era daí que todo o barro
vinha. Tiravam-no directamente das margens. Assim, Enki
providenciava-os com o meio de transportar informação: o
barro. Escreviam na argila húmida e depois secavam-na,
extraíam-lhe a água. Se a água depois a atingisse, a
informação era destruída. Porém se levassem ao lume as
placas, a um forno, retirassem toda a água, estirilizavam de
facto o sémen de Enki pelo calor e então a placa duraria
para sempre, imutável, tal como as palavras na Torah!"
– Mas quem eram afinal todos esses ‘deuses’?
- Há quem pense terem sido magos, mágicos, feiticeiros.
Humanos com poderes especiais ou até... ‘aliens’. Elaborando
sobre os eventuais ‘humanos com poderes especiais’: partindo
do princípio de que o nam-shub de Enki funcionasse como um
vírus e que alguém chamado Enki o tivesse inventado, então
este Enki teria qualquer espécie de poder linguístico para
lá do nosso conceito de ‘normal’. Qual seria o mecanismo e
como funcionaria esse poder? Há alguns exemplos sobre o
poder e uso da linguagem.
"Por exemplo, a crença no poder mágico da linguagem não é
rara tanto entre a literatura mística como académica. Os
cabalistas, místicos judeus da Espanha e Palestina,
acreditavam que uma visão e poder supra-normais podiam ser
atingidos ao recombinarem-se devidamente as letras do ‘nome
divino’. Diz-se que Abu Aharon, um antigo cabalista que
emigrou de Bagdad para Itália, operava milagres através do
poder dos nomes sagrados."
- Mas de que tipo de poder é que se está a falar?
- Muitos dos cabalistas eram teóricos interessados apenas na
meditação pura. Contudo, os cabalistas práticos, esses
tentavam aplicar a força da Cabala na vida do dia a dia. Por
outras palavras, como feiticeiros. Os cabalistas práticos
usavam um intitulado ‘alfabeto arcânjico’ descendente dos
alfabetos teúrgicos grego e aramaico do 1º século, o qual
tinha parecenças cuneiformes (a escrita suméria, e da
Mesopotâmia em geral). Os cabalistas referiam-se a este
alfabeto como ‘escrita do olho’ pois as letras eram
compostas de linhas e pequenos círculos que pareciam olhos.
Mais uma vez a analogia com ‘1s’ e ‘0s’!
"Mais importante: alguns cabalistas dividiam as letras do
alfabeto de acordo com o local onde elas eram produzidas
dentro da boca, no nosso aparelho fonético. Estavam assim a
traçar uma ligação entre a letra impressa numa página e as
conexões neurais que tinham que ser invocadas de modo a
pronunciá-la. Ao analisar a pronúncia de várias palavras
eram capazes de esquematizar o que pensavam ser as profundas
conclusões sobre a sua verdade e significado interior mais
profundo."
"Na área académica tem-se tentado explicar ‘Babel’. Não a
Babel histórica – que muitos consideram um mito – mas o
facto do que já disse atrás, de as linguagens tenderem a
divergir. Uma série de teorias têm sido desenvolvidas no
esforço de considerar todas as línguas, considerar uma regra
comum que as englobe a todas. Até a hipótese ‘viral’!"
"Bem, há duas grandes escolas: a dos Relativistas e a dos
Universalistas. George Steiner sintetiza que os Relativistas
tendem a acreditar que a linguagem não é o veículo de
pensamento mas é o seu meio determinante. A sua estrutura de
conhecimento. As nossas percepções de tudo são organizadas
pelo fluxo de sensações passando nessa estrutura. Assim, o
estudo da evolução da linguagem é o estudo da evolução da
mente humana, ela própria."
"Quanto aos Universalistas, ao contrário dos Relativistas
que dizem que as línguas não precisam de ter qualquer traço
de união entre elas, os Universalistas acreditam que se
analisarmos línguas em número suficiente podemos encontrar
traços que indiquem certos factores comuns. É isso que
pesquisam. Uma raiz comum a todas elas. Até agora, nada. Há
sempre excepções. Mas o Universalismo não é posto de parte.
Diz-se é que os traços comuns estarão profundamente
implantados, enterrados, para serem analisados. O ponto é
que a um certo nível a língua tem que acontecer dentro do
cérebro humano. E todos os cérebros são mais ou menos
idênticos, o hardware é o mesmo, mas não o software!"
"Um francês e um inglês começam com cérebros ‘idênticos’.
Conforme crescem são programados de forma diferente, com
diferente software, aprendem línguas diferentes. De acordo
com os Universalistas, o inglês, o francês, e outras
línguas, partilham certos circuitos que têm as suas raízes
nas estruturas mais profundas do cérebro. Pela teoria de
Noam Chomsky, as estruturas profundas são componentes inatos
do cérebro que permitem efectuar certo tipo de operações
formais em cadeias de símbolos. Ou, segundo Steiner,
seguindo Emmon Bach, estas estruturas profundas levam
eventualmente à partição/ramificação e estruturação do
córtex com a sua imensamente ramificada – e programada, ao
mesmo tempo – rede de canais electroquímicos e
neurofisiológicos."
- Mas não se conseguem observar, provar melhor essas
estruturas? Em quem acreditar, nos Relativistas ou nos
Universalistas?
- No fundo, talvez nem haja assim uma tão grande diferença.
Ambas as teorias são um pouco místicas, chegando ao mesmo
ponto por vias diferentes. Mas há uma diferença ainda. Os
Universalistas dizem que somos determinados pela estrutura
pré-fixada do nosso cérebro, pelos ‘caminhos’ do córtex. Os
relativistas não acreditam que tenhamos quaisquer
limitações.
"Pegando na teoria de Chomsky, pode-se supor que aprender
uma língua seja como inserir código, inicializar um chip de
PROM (programmable read-only memory), os que são usados nas
BIOS dos computadores. Quando vêm da fábrica, vêm limpos.
Uma é única vez recebem informação, não apagável. O software
como que passa a pertencer ao chip. Torma-se hardware.
Podemos ler essa informação mas não rescrevê-la. Talvez os
cérebros dos recém-nascidos não tenham estruturas – como
diriam os Relativistas – e conforme a criança aprende o
cérebro, as estruturas cerebrais desenvolvem-se de acordo, a
linguagem ‘é soprada’ para dentro do hardware e torna-se
parte permanente e integrante da estrutura cerebral
profunda, como dirão os Universalistas."
"Quando se disse que Enki era uma pessoa real, com poderes
mágicos, estava-se a dizer que ele era de certa forma capaz
de entender a ligação entre a linguagem e o cérebro e sabia
como manipulá-la. Da mesma forma que um hacker conhecendo os
segredos de um sistema de computador, pode escrever código
para controlá-lo, ‘nam-shubs’ digitais! Enki tinha a
habilidade de descer ao universo da linguagem e vê-la
perante os seus olhos. Tal como nós pesquisamos na Internet.
Isso dava-lhe o poder de criar os ‘nam-shubs’. Os nam-shubs
tinham o poder de alterar o funcionamento do cérebro e do
corpo."
- Porque é que já não existem nam-shubs, em inglês, por
exemplo? Porque é que hoje já ninguém faz esse tipo de
coisas?
- Segundo Steiner, nem todas as línguas são iguais. Umas são
melhores para o uso de metáforas do que outras. Hebraico,
aramaico, grego e chinês, entregam-se aos jogos de palavras
e mantém-se mais agarradas à realidade. A Palestina tinha
Qiryat Sefer, a ‘cidade da letra’ e a Síria tinha Byblos, a
‘cidade do livro’. Por contraste, outras civilizações
parecem ‘sem discurso’ ou, no mínimo, como o Egipto, não
inteiramente conscientes do poder criativo e transformativo
da linguagem. O sumério teria sido uma língua
extraordinariamente poderosa, pelo menos na Suméria de há
5.000 anos. Uma língua que se entregou ao hacking
neurolinguístico de Enki.
"Os antigos linguistas, assim como os cabalistas,
acreditavam numa língua imaginária. Chamavam-lhe a língua do
Éden, a língua de Adão. Permitia aos homens entenderem-se
uns aos outros, comunicarem sem mal entendidos. Era uma
língua do ‘logos’, do conhecimento, rebatendo ao momento em
que deus criou o mundo por meio de uma só palavra. Na língua
do Éden, nomear a coisa era o mesmo que criá-la. Ainda
segundo Steiner: a nossa fala interpõe-se entre a apreensão
do real e o próprio real, como algo fosco ou um espelho
distorcido. A língua do Éden, pelo contrário, era como um
vidro transparente. Uma luz de total compreensão
atravessa-o. Babel foi então como que uma 2ª queda do
paraíso."
"Isaac, o Cego, um dos primeiros cabalistas, dizia que ‘a
fala do Homem é ligada à fala divina e todas as línguas,
celestes ou humanas, provêm de uma fonte, o ‘nome divino’.
Os cabalistas práticos, os ‘feiticeiros’, envergavam o
título de Ba’al Shem, ‘Mestre do nome divino’."
- A ‘linguagem-máquina’ do universo! Computadores ‘falam’
linguagem-máquina. Escrita apenas em ‘0’ e ‘1’. Código
binário. Ao nível básico, todos os computadores são
programados em cadeias de ‘0’ e ‘1’. Ao programar em
linguagem-máquina estamos a controlar o computador
directamente no seu ‘cérebro’. É a língua do Éden da
máquina! Mas é difícil trabalhar em linguagem-máquina,
‘fica-se louco’!, trabalhando a esse nível de programação.
Então toda uma ‘babel’ de linguagens de programação foi
criada para os programadores: Fortran, Basic, Cobol, Lisp,
Pascal, C, Prolog, Forth, etc. ‘Falamos’ para computadores
numa destas línguas e uma peça de software, o compilador,
converte-a para linguagem-máquina. Não se vê, claro, o
trabalho do compilador. Por vezes as ordens até emergem daí
com erros, tal como se atravessassem um ‘espelho
distorcido’. Um hacker avançado acaba por entender o
funcionamento básico da máquina, ‘vê’ através da linguagem
que está a usar e entrevê o funcionamento ‘oculto’ do código
binário. Torna-se então um tipo de Ba’al Shem...
- As lendas sobre a tal língua do Éden seriam uma versão
exagerada de acontecimentos reais. Reflectiam talvez, essas
lendas, a nostalgia por uma era em que todos falavam
sumério, uma língua superior a todas as que se lhe seguiram.
Seria ela tão boa assim? É difícil dizer, hoje, apreender
todo o significado. As palavras então funcionariam de forma
diferente...
"Se a nossa língua influencia a estrutura física de um
cérebro em desenvolvimento, poder-se-á então dizer que os
sumérios, que falavam uma língua radicalmente diferente de
todas as existentes hoje, teriam cérebros fundamentalmente
diferentes dos nossos. Por essa razão o sumério poderia ser
uma língua ideal para a criação e propagação de vírus. Um
tal vírus, largado na Suméria, espalhar-se-ia rápida e
virulentamente até que todos estivessem infectados. Talvez
Enki soubesse isso. Talvez o nam-shub de Enki não tivesse
sido uma coisa má. Talvez Babel fosse até o melhor que nos
podia ter acontecido!"
"E ao falarmos neste Enki, nas suas habilidades e nos seus
mitos somos obrigatoriamente levados a referirmo-nos a
Inanna – uma outra figura da mitologia suméria. Culturas
posteriores conhecem-na como Ishtar ou Esther. Uma deusa
amada, surge muito associada a Enki. Ela e Enki, conforme as
épocas, tiveram bom e mau relacionamento. Ela foi conhecida
como a rainha de todos os grandes ‘me’. Os ‘me’ pertenciam a
Enki mas ela foi até ao Abzu, ou Apsu, a fortaleza aquática
na cidade de Eridu, onde Enki armazenava os ‘me’ e conseguiu
que ele os entregasse, como já referi anteriormente. Foi
assim que os ‘me’ foram largados na civilização. Enki
encontrava-se seduzido e embriagado. Ao ficar sóbrio ainda
tentou recuperá-los mas já era tarde."
- Há mais alguma coisa interessante sobre esta Inanna?
- Noutro mito, Inanna desce até ao ‘Mundo Inferior’. Ela
agarra em todos os ‘me’ e entra nessa ‘terra do não-retorno’.
Atravessa pois o mundo inferior e alcança aí o templo
governado por Ereshkigal, a deusa da morte. Inanna viaja
disfaraçada mas isso é facilmente descoberto pela visão
poderosa de Ereshkigal. Deixam-na entrar no templo. Logo que
entra é despojada de todas as roupas, jóias e ‘me’ e é
levada nua perante Ereshkigal e os sete juizes do mundo
inferior. Fustigam-na com o olhar, um olhar de morte. Com
uma palavra deles, a palavra que tortura o espírito, Inanna
é transformada em cadáver, um pedaço de carne a apodrecer,
dependurada de um gancho na parede. Isto, segundo a tradução
de Kramer.
Numa análise de Diane Wolkstein, ‘Inanna desistira de tudo,
entregara tudo o que conseguira em vida, até ser despojada,
tudo, excepto o seu desejo de renascer... e, pela sua viagem
ao mundo inferior, apanhava os poderes e mistérios da morte
e renascimento, da ressurreição’. O mensageiro de Inanna
aguarda três dias. Ao ver que ela não regressa do Mundo
Inferior dirige-se aos deuses pedindo auxílio. Nenhum
tenciona ajudar, só Enki, por fim. É ele quem cria dois
seres e os envia ao Mundo Inferior para resgatar Inanna.
Através da magia deles Inanna é trazida de volta à vida.
Retorna do ‘Mundo do Nada’ seguida por uma legião dos
mortos.
"It’s time to get hacking". Bem, é altura de piratearmos um
pouco, de resgatar quem foi apanhado na ‘jangada’ - the raft.
Hiro recompila todo o material, a informação já disponível.
Porquê o projecto Snow Crash? A ideia de Lagos e de L. Bob
Rife. Lagos aproximara-se de L. Bob Rife, que tinha para aí
cerca de um milhão de programadores a trabalharem para ele.
Rife andava paranóico, com receio que eles desviassem,
roubassem ‘data’, informação. Colocava-lhes até as casas sob
escuta. Lagos entretanto na pesquisa de mercado que fizera,
tropeçara na informação sobre as preocupações de Rife. E ao
mesmo tempo, procurava alguém a quem pudesse vender o que
encontrou no estudo que fizera e mantinha na pasta
Babel-Infocalipse.
Bob Rife poderia ter um uso para certos vírus... Fazer uso
desse velhíssimo vírus, algo vocacionado contra pensadores
de elite. Na actualidade, a malta do ‘sacerdócio
tecnológico’, os infocratas. O tal vírus, havia limpo toda a
infocracia na antiga Suméria. Mas isto seria de loucos! É
como descobrir que os empregados roubam esferográficas e
pegarmos neles e matá-los. Não era capaz de funcionar sem
neutralizar a mente dos programadores. Isso, seria na forma
original.
Lagos queria contudo desenvolver as possibilidades.
Pesquisar nesta faceta de guerra informacional. Queria
isolar o factor e modificá-lo para que pudesse ser usado
para controlar os programadores sem contudo lhes dar cabo
dos cérebros. Só que Rife roubou-lhe a ideia sem ser
aperfeiçoada. Dois anos depois, Lagos principia a ficar
apreensivo com o que começou a ver: o crescimento
espectacular da igreja do Reverendo Wayne – Pearly Gates, e
uns tais russos ortodoxos a falar línguas, glossolália. E as
escavações em Eridu... Mais o interesse pela
radioastronomia. Lagos começa então a aproximar-se da nova
Mafia, e de Juanita, e de Mr. Lee. Uma data de gente, que
passou a conhecer o tal projecto.
A Nova Mafia está agora bem aceite, os seus slogans
espalham-se. Há que compreender o seu lema e maneira de
agir: perseguimos grandes objectivos por sob toda a teia de
relacionamento pessoal. "No negócio das pizzas, não se
entrega rapidamente para se fazer mais dinheiro dessa forma
ou porque seja apenas uma política de entregas. Tem que ser
assim pois isso é o cumprimento de uma combinação, um pacto,
entre o Tio Enzo e cada cliente. É assim que se evita a
armadilha da ideologia perpetuante. Ideologia é um vírus.
Efectua-se uma manifestação concreta de um objectivo
político que pode ser abstracto e nós gostamos é do
concreto."
Rebate-se sempre no aspecto! viral da informação
O vírus que atingiu o cérebro de Da5id, o seu bioware, o
equipamento biológico, é uma cadeia de informação binária, e
que no caso lhe foi mostrada na forma de um bitmap, uma
série de pixels – pontos no écran – brancos e pretos, onde
os brancos são zeros e os pretos são uns. Continha pois a
versão digital do vírus Snow Crash. Mas Hiro interroga-se. E
Juanita, porque não é ela atingida pelo Snow Crash? É
curiosa e inteligente, ela, plena de ideias e citações:
‘Condense fact from the vapor of nuance’ (condensar factos a
partir do vapor das nuances!). A maneira como ela consegue
observar as coisas. Ela, que se considera ‘a missionary to
the intelligent atheists of the world (uma missionária junto
dos ateus inteligentes do mundo) e que ‘religion is not for
simpletons’ (a religião não é coisa para gente simplória).
"99% do que se passa na maior parte das igrejas cristãs não
tem nada a ver com a autêntica religião pelo que os
inteligentes consideram que 100% é treta e daí o ateísmo
estar ligado ao ‘ser inteligente’. Passei alguns anos com os
Jesuítas. Olha, o nosso cérebro tem como que um sistema
imunitário tal como todo o corpo. Quanto mais o usamos – a
quantos mais vírus o expomos – assim melhoramos o sistema
imunitário. E eu tenho um tal sistema bem forte. Lembra-te,
eu havia sido ateísta durante um período e voltei então à
religião de uma forma dura. Vim aqui à ‘raft’ de livre
vontade tal como Inanna a descer ao Mundo Inferior!" –
explicará ela depois, quando Hiro a encontra já na jangada.
- Porquê?
- Este é o centro nervoso de uma religião, nova, e ao mesmo
tempo muito antiga. Estar aqui é como seguir Jesus ou Maomé
no seu tempo, observar o nascer de uma nova fé. L. Bob Rife
pode ser um ‘anti-Cristo’ mas é interessante. As placas com
os ‘me’ que me interessam estão aqui, neste ‘Abzu’ de Rife.
Temos que achar a placa com o nam-shub certo, o nam-shub de
Enki, desencadear ‘Babel’!
Os controladores nesta imensa jangada possuem antenas
implantadas no crânio. A base delas ramifica-se, os
terminais enrolam-se, entranham-se pelos cérebros como à
volta da base de uma árvore. Os portadores, a balbuciar em
glossolália. As antenas, em contacto com a parte cerebral
que aloja Asherah...
- Estou à procura de um pedaço de software, ou se quisermos,
de medicina, um remédio, para ser mais específico, que foi
escrito há uns 5.000 anos por alguém sumério chamado Enki,
um hacker neurolinguístico – explica ela - Isto é, alguém
que é capaz de programar a mente de outros com pedaços de
informação verbal, conhecidos como nam-shubs, encantos.’
- Qual é o mecanismo usado nesse processo? Mas Hiro até já
sabia a resposta. Os dois comparam informações.
- Temos dois tipos de linguagem nas nossas cabeças. O tipo
que usamos agora é o adquirido. Vai moldando o nosso cérebro
conforme a vamos aprendendo. Mas há também uma língua que é
baseada nas mais profundas estruturas do cérebro, as que são
em princípio comuns a todos. Tais estruturas consistem de
circuitos neurais básicos cuja existência é primordial para
permitir que os nossos cérebros adquiram então as outras
linguagens (as de uso corrente no dia a dia) de nível mais
elevado. A essas estruturas profundas chamemos se quiserem,
a infra-estrutura linguística.
"Bem, poderemos ter acesso a essas partes recônditas do
cérebro em determinadas condições. Glossolália – o falar em
línguas – é o canal de saída, onde e quando, infra-estrutura
linguística, toma o controle dos nossos órgãos vocais e
falamos, ultrapassando todas as outras linguagens de nível
mais elevado. Há algum tempo já que se sabe isso. Mas há
também um canal de entrada: o circuito também funciona ao
inverso. Debaixo de condições determinadas, os ouvidos – e
olhos – podem ligar directamente a informação recebida às
infra-estruturas cerebrais respectivas, ultrapassando os
níveis superiores da linguagem."
- É o mesmo que dizer que alguém que conheça as palavras ou
sons certos, pode falar, ou então mostrar os símbolos
visuais, ou caracteres, que passando as nossas defesas,
penetram directamente no mais fundo do cérebro. Como um
pirata informático entrando num sistema de computador que
ultrapassa todas as barreiras de segurança e mergulha
directamente no âmago, o que lhe dará um controle absoluto
sobre a máquina. Aqui, o dono do computador nada pode fazer
pois só acede ao sistema a um nível já mais elevado, o tal
que foi ultrapassado.
- Da mesma forma, um hacker neurolinguístico vai
directamente ao fundo do cérebro, não o podemos impedir
porque não podemos controlar o cérebro a esse nível básico.
- Porquê a placa cuneiforme, a que estará aqui a bordo da
jangada?
- A tal língua, a língua-mãe, é um vestígio de uma fase
inicial do desenvolvimento social humano. As sociedades
primitivas eram controladas por regras e leis, ao princípio
verbais, os ‘me’. Estes ‘me’ eram como pequenos programas
para os humanos de então. Eram uma parte necessária na
transição da sociedade das cavernas para uma sociedade
organizada e agrícola. Havia um programa para abrir sulcos
no chão, para arar, ou para plantar cereais. Ou programas
para fazer pão e outros para construir casas. Havia ainda
‘me’ para funções superiores, como a guerra, a diplomacia,
ou celebrar rituais religiosos. Toda a arte necessária para
operar uma cultura auto-sustentável estava contida nestes
‘me’ escritos nas placas de argila ou passados pela tradição
oral.
"De qualquer forma o repositório dos ‘me’ era o templo
local, uma autêntica ‘base de dados’ dos ‘me’, controlado
por um sacerdote-rei, o ‘en’. Se alguém precisava de pão,
pediam ao ‘en’ ou um subordinado e faziam o ‘download’,
traziam do templo o programa correspondente. Poderiam então
seguir as instruções, correr o programa. Quando terminassem,
tinham uma carcaça de pão! Era necessária uma base
centralizada pois os ‘me’ deviam ser programados no tempo,
alguns tinham um timing certo para serem corridos,
executados. Se executassem na altura errada os ‘me’ de uma
plantação ou colheita, o resultado podia ser a fome. E uma
das formas para assegurar o timing correcto era construir
observatórios astronómicos para observar os céus, detectando
a mudança de estações. Assim os sumérios construíam torres
‘com o seu cimo nos céus’ – com diagramas astronómicos no
topo."
- Mas isto tudo parece o ovo e a galinha... Como é que uma
tal sociedade começou por ser organizada?
- ‘Metavírus’
- ?
- Existe uma entidade informacional a que podemos chamar
metavírus. Permite que sistemas de informação (biológicos ou
não) se deixem infectar ou se infectem a eles próprios, com
vírus próprios, personalizados. Isto pode ser um princípio
básico da natureza, tal como a selecção de Darwin, ou ser
até, na verdade, um pedaço de informação que ‘flutua’ pelo
Universo em cometas e ondas de rádio. De qualquer forma, e
resumindo, qualquer sistema de informação a partir de uma
certa complexidade, irá inevitavelmente tornar-se infectado
com vírus, vírus gerados no interior do próprio sistema.
"Em qualquer altura no passado distante os metavírus
infectaram, chegaram à raça humana e assim tem sido desde
então. A primeira coisa que fez foi como abrir toda uma
caixa de Pandora de vírus de DNA – varíola, gripe, etc.
Saúde e longevidade são agora uma coisa do passado. Uma
memória distante deste acontecimento pode ser o que está
preservado nas lendas da expulsão do paraíso, em que a
humanidade é lançada de uma vida feliz para um mundo
infestado pela doença e pela dor."
"Eventualmente a ‘praga’ atingiu uma certa fase de
plataforma, estabiliza. Ainda descobrimos novos vírus de DNA
de tempos a tempos mas parece que os nossos corpos terão
desenvolvido uma certa resistência aos vírus de DNA em
geral. Talvez haja um número limite de vírus que afectem o
DNA humano e que o metavírus os tenha criado a todos. Bem, a
cultura suméria, a sociedade baseada nos ‘me’, era outra
manifestação de metavírus. Só que, neste caso, é um
metavírus linguístico e não de DNA."
- Então, a civilização surge como infecção?
- Civilização, na sua forma primitiva, sim. Cada ‘me’ era um
género de um vírus, lançado, desencadeado, impulsionado pelo
mesmo princípio dos metavírus. Como exemplo, o ‘me’ para
fazer pão: uma vez esse ‘me’ na sociedade torna-se uma peça
de informação auto-sustentável, que subsiste por si. É uma
questão de selecção natural. Quem sabe cozer pão viverá
melhor e estará mais apto a reproduzir-se do que os que não
o sabem fazer. Naturalmente, irão divulgar, espalhar os
‘me’, funcionando como hospedeiros para esse pedaço de
informação auto-replicante. É isso o que faz um vírus. A
cultura suméria, com os seus templos cheios de ‘me’, era
apenas uma colecção de vírus bem sucedidos acumulados ao
longo de milénios. Era uma acção de ‘franchise’ excepto que
tinha os zigurates em vez de arcos dourados (como os da
McDonalds) e placas de argila em vez de manuais
fotocopiados.
"Curiosamente, a palavra suméria para ‘mente’ ou ‘sabedoria’
é idêntica à palavra para ‘ouvido’ ou ‘escutar’. Era o que
eram essas pessoas – ouvidos com corpos atarrachados,
receptores passivos de informação. Mas Enki era diferente.
Enki era um ‘en’ que acontece ser extremamente bom no seu
trabalho. Com uma rara habilidade a escrever novos ‘me’, era
um hacker autêntico. Na verdade terá sido o primeiro homem
moderno, um ser humano plenamente consciente, tal como nós."
"Em dada altura Enki terá visto que a Suméria havia
estagnado num autêntico atoleiro. As pessoas usavam em geral
sempre os mesmos velhos ‘me’ sem surgirem com novos, sem
pensarem por elas próprias, sem racionalizar. Suspeita-se
ter sido Enki um tipo isolado, um dos poucos, ou ele
sozinho, o único ser humano consciente no mundo de então.
Viu que para a raça humana avançar tinha que se libertar das
garras dessa civilização viral."
"Criou então o nam-shub, como um contra-vírus que se
espalharia pelas mesmas vias que os ‘me’ e os metavírus.
Iria até às mais fundas estruturas do cérebro e
reprogramá-las-ia. Então, mais ninguém conseguiria entender
a língua suméria ou qualquer outra linguagem baseada nessa
infraestrutura cerebral. Cortados, separados dessas
estruturas profundas comuns a todos, começámos a desenvolver
novas linguagens que nada tinham em comum umas com as
outras. Os ‘me’ antigos não funcionavam mais e não era mais
possível escrever outros ‘me’ do mesmo tipo. A ulterior
transmissão do metavírus ficava também bloqueada."
- Então, e ninguém morreu por falta de pão, por exemplo?
- Alguns provavelmente. De agora em diante tinham que usar o
cérebro, o neocortex, para descobrir novas formas de o
voltar a fazer. Redescobri-lo. Pode-se dizer que o nam-shub
de Enki terá sido o início da consciência humana, quando
pela primeira vez tivemos que pensar por nós próprios.
"E foi simultaneamente o início da religião ‘racional’, a
primeira vez que se começou a pensar em temas abstractos
como Deus e o Bem e o Mal. É daqui que virá o nome de Babel.
Literalmente significa o Portão de Deus. É a porta que
permitiu a deus alcançar a espécie humana. Babel é uma
porta, uma passagem, nas nossas mentes, uma passagem que é
aberta pelo nam-shub de Enki, que nos libertou dos metavírus
e concedeu a habilidade de pensar. Traz-nos de um mundo
materialista para um universo dualista, um mundo binário,
com uma componente física e outra espiritual. Houve decerto
caos e agitação. Enki, ou o seu filho Marduk, tentaram
recompôr a ordem na sociedade, suplantando o velho sistema
dos ‘me’ com um código de leis, o código de Hamurábi, o que
em parte teve sucesso."
"Prosseguia porém a adoração a Asherah em muitos locais. Foi
um culto incrivelmente tenaz e persistente. Era um
retrocesso apontado à antiga Suméria e que se espalhava
tanto verbalmente como através da troca de fluidos corporais
– além das prostitutas cultuais também adoptavam órfãos e
transmitiam-lhes assim o vírus por via da amamentação."
- Estamos aqui de novo a falar de um vírus biológico...
- Exactamente. Esse é o ponto central de Asherah. Existe em
ambas as facetas. Tomemos o exemplo do vírus herpes simples.
O herpes ‘aponta’ directamente ao sistema nervoso quando
entra no organismo. Algumas estirpes mantém-se no sistema
nervoso periférico mas outras dirigem-se que nem uma bala
para o sistema nervoso central e alojam-se aí
permanentemente, nas células cerebrais, ‘enrolando-se à
volta do cérebro como uma serpente na árvore’! O vírus
Asherah – que pode estar relacionado com a herpes, ou os
dois podem ser um e o mesmo até – passa através das
membranas celulares e fixa-se no núcleo onde se mistura com
o DNA da célula hospedeira, da mesma forma que os esteróides.
- Mas Asherah é bem mais complicado que um simples esteróide.
E após alterar o DNA qual é o resultado?
- Provavelmente traz a tal língua-mãe até mais próximo da
superfície, torna as pessoas mais aptas ao ‘falar línguas’ e
mais susceptíveis aos ‘me’. Tenderá ainda a encorajar um
comportamento irracional, talvez baixe as defesas da vítima
em relação a ideias virais, fá-las mais sexualmente
promíscuas. Será que qualquer ideia viral tem uma
contraparte em vírus biológico? Parecerá que não, apenas com
Asherah tal acontece. De todos os ‘me’ e de todos os deuses
e práticas religiosas que predominavam na Suméria, apenas
Asherah ainda hoje subsiste com certa força.
"Uma ‘ideia viral’ pode sobressair e desaparecer, como
aconteceu com o nazismo, T-shirts dos Simpsons, calças à
boca de sino, etc., mas Asherah, por ter uma faceta
biológica, pode manter-se latente no organismo humano. Após
Babel, Asherah continuou residente no cérebro humano,
passando de mãe para filho e de um amante para outro."
"Somos todos susceptíveis ao impulso de ideias virais tal
como a histeria em massa, ou uma cantiga que fica a bailar
na cabeça e que acabamos por trautear ao longo de todo o dia
e passamos a outro. Anedotas, lendas e mitos urbanos.
Seitas. Marxismo. Não importa o quão espertos nos tornamos,
há sempre esta parte profundamente irracional que nos torna
potenciais hospedeiros para a informação auto-replicante.
Mas sermos fisicamente infectados com uma estirpe virulenta
do vírus Asherah torna-nos logo mais susceptíveis, mais
expostos. A única coisa que trava tais coisas de vencer, e
dominar o mundo, acaba por ser o factor ‘Babel’, essas
paredes de incompreensão mútua que compartimentam a espécie
humana e impede uma maior dispersão de vírus."
"Babel levou a uma explosão no número de línguas. Isso foi
parte do plano de Enki. Monoculturas, como um extenso campo
de milho, são susceptíveis a infecção, mas culturas
geneticamente diversas, tal como uma pradaria, são
extremamente robustas."
"Bem, e tempos depois uma nova língua surge, o hebreu. Uma
língua que possui excepcional flexibilidade e poder. Os
deuteronómicos – o tal grupo de monoteístas radicais nos
séculos VII e VI A.C. foram os primeiros a tirar proveito
disso. Vivia-se um tempo de extremo nacionalismo e xenofobia
o que tornou mais fácil a rejeição de ideias estranhas como
o culto a Asherah. Formalizaram as histórias antigas
constituindo a Torah e implantaram nela uma lei que
assegurava a sua propagação fiel pelo tempo fora. Uma lei
que dizia com efeito ‘façam uma cópia exacta de mim e
leiam-na todos os dias’. E encorajara ainda um tipo de
higiene informacional, uma crença em copiar as coisas
estritamente e tomando elevado cuidado (como uma cópia
digital!) com a informação, que como eles agora
compreendiam, podia ser potencialmente perigosa. Passaram a
fazer da ‘data’, dados, informação, uma substância
controlada."
"Eles até terão ido para além desses conceitos. Há evidência
já nesse tempo de uma cuidadosamente planeada guerra
biológica contra o tal exército assírio de Senaquerib quando
este tentou conquistar Jerusalém".
Aqui Hiro relembra as palavras de Lagos.
"Assim –prossegue ela - os deuteronómicos terão tido também
um ‘en’ deles próprios, um alto-sacerdote e ‘expert’. Ou
ter-se-ão apercebido bem que os vírus podiam ser uma arma e
como tirar então proveito deles, e de estirpes existentes na
natureza. As técnicas cultivadas por esta gente foram
passando em segredo de geração em geração e acabam por se
manifestar até mais tarde, já na Europa, quase 2.000 anos
depois, entre esses ‘feiticeiros’ cabalísticos, os Ba’al
Shem, os ‘Mestres do Nome Divino’."
"De qualquer forma, foi o surgir da religião racional. Todas
as subsequentes religiões monoteístas, classificadas pelos
muçulmanos muito apropriadamente como as ‘religiões do
Livro’, passaram a incorporar em maior ou menor extensão
essas ideias. O Alcorão diz amiúde ser uma transcrição, uma
cópia exacta, de um livro existente no céu. Claro que quem
nisso acreditar nunca se atreverá a mudar uma vírgula
sequer. Ideias como esta foram pois eficazes para parar a
expansão de Asherah de modo que cada palmo de território
onde o culto viral antes aconteceu, da Índia a Espanha,
ficaria sob a alçado do Judaísmo, do Cristianismo ou do
Islão."
"Mas pela sua latência – ‘enrolada no cérebro dos que
infectava’ – foi passando ainda de geração em geração e
encontra sempre um caminho para ressurgir. No caso do
Judaísmo, veio na forma dos Fariseus, os que impuseram uma
teocracia rigidamente legalística sobre os hebreus. Com a
sua estrita obediência às leis guardadas no templo,
administrado por sujeitos sacerdotes mas ao mesmo tempo
investido de autoridade civil, parecia em muito o antigo
sistema sumério e era igualmente paralisante."
"O ministério de Jesus Cristo terá sido um esforço para
retirar o Judaísmo desse atoleiro, género de um eco do que
Enki fizera. O evangelho de Cristo é um novo nam-shub, uma
tentativa de levar a religião para fora do templo, das mãos
dos sacerdotes, e trazer o reino de deus para toda a gente.
É essa a mensagem explicitamente marcada nos sermões de
Cristo e é essa a mensagem simbolicamente encorpada,
representada pelo seu túmulo vazio. Após a cruxificação os
apóstolos foram até ao seu túmulo espetando encontrar o
corpo e em vez dele não acharam nada. A mensagem era clara:
‘não vamos idolatrar Jesus pois as suas ideias subsistem sem
ele, a sua igreja não está centralizada em alguém mas
dispersa por entre a gente’."
"As pessoas, acostumadas à rígida teocracia dos Fariseus,
não podiam conceber a ideia de uma igreja popular,
não-hierárquica. Queriam papas, bispos, padres. E então veio
o mito da ressurreição juntar-se aos evangelhos. A mensagem
foi mudada para uma nova forma de idolatria, pois nesta nova
versão das escrituras Jesus voltava à terra e organizava a
igreja que se tornaria na igreja de todo o império romano do
ocidente e do oriente, mais uma teocracia rígida, brutal e
irracional."
"Paralelamente e ao mesmo tempo, era fundada uma igreja
Pentecostal. Os primeiros cristãos ‘falaram em línguas’.
Conforme a Bíblia reporta, ‘e todos estavam admirados,
perplexos, comentando uns para os outros: o que é que isto
quer dizer?’. Bem, terá sido um ‘surto viral’. Asherah
esteve presente sempre, incrustada, esgueirando-se entre a
população, desde o triunfo dos deuteronómicos. As medidas de
higiene informacional praticadas pelos judeus haviam-na
mantido reprimida. Mas nos primórdios do Cristianismo terá
havido um certo caos, com uma série de radicais, pensadores
livres a girarem à volta, ignorando a tradição. Algum
retrocesso houve em direcção aos dias da religião
pré-racional. Como em sentido à antiga Suméria. E decerto
que começaram a palrar naquela ‘língua do Éden’."
"A igreja cristã instituída recusa-se contudo a aceitar a
glossolália. Suportaram-na por alguns séculos mas
purgaram-na oficialmente em 381 D.C. no Concílio de
Constantinopla. O culto com glossolália mantinha-se nas
franjas do mundo cristão. Mas a igreja acaca por aceitar um
pouco de xenoglossia (glossolália para estrangeiros!) se
isso ajudasse a converter os ateus, como no caso de São
Louis Bertrand, que converte assim milhares de índios no
século XVI espalhando a glossolália pelo continente
americano mais rapidamente que uma epidemia de varíola. Mas
assim que eram convertidos, tratavam de lhes dar com o
latim."
"A reforma abriu um pouco mais a porta. Mas o pentecostismo
não floresceria senão em 1900 quando um pequeno grupo de
estudantes do Colégio Bíblico, no Kansas, começou a ‘falar
línguas’. Daí a prática passou para o Texas, onde ficou
conhecido como o Movimento Revivalista. Espalha-se como um
incêndio através dos Estados Unidos e do mundo, alcançando
até a China e a Índia em 1906. Os ‘mass media’ do século XX,
altos níveis de escolaridade e transportes rápidos, tudo
serviu como vectores excelentes para a ‘infecção’. Num salão
aglomerado do Movimento Revivalista ou num campo de
refugiados do 3º mundo, a glossolália transmite-se de uns
para outros tão rápida como pânico. Nos anos ’80, o número
de pentecostais em todo o mundo contava-se por dezenas de
milhões. Todo este comportamento e prática pode ser seguido
numa linha contínua e em retrospectiva, remontando primeiro
aos cultos pentecostais do início da cristandade e daí até
aos cultos pagãos envolvendo a glossolália. O culto de
Asherah está vivo. O Movimento Revivalista é o culto de
Asherah."
Um resumo final:
Lagos, o investigador assassinado, descobrira um bom pedaço
sobre isto tudo, sobre Asherah. Originalmente, ele fora um
investigador na biblioteca do Congresso. Desenterrou aí e
não só material interessante. Aquilo que podia dar
rendimento, vendia toda a informação respectiva que
encontrasse. Ao deparar com o material sobre Enki e Asherah
acaba por abordar Rife, aquele que mais programadores
empregava. Mas Lagos não era um businessman dotado. Pensava
demasiado por baixo e contava que com um pequeno
investimento apenas, podia transformar essa ‘pirataria’
neurolinguística numa tecnologia que permitiria a Rife tomar
conta, controlar, a informação que passava para o cérebro
dos seus programadores. O que, tirando algumas considerações
morais, não era má ideia.
Mas Rife pensava em grande, e achava que a ideia podia ser
muito mais poderosa. Aproveita a ideia mas corre com Lagos,
e investe numa série de igrejas pentecostais. Acaba por
construir uma série de ‘franchises’ religiosas pelo planeta.
A sua universidade forma milhares de missionários que envia
para o 3º mundo e que aí começam a converter gente tal como
São Louis Bertrand o fizera. O culto da glossolália torna-se
a mais bem sucedida religião desde o surgimento do Islão.
Falam, claro, sobre Jesus, mas tal como muitas
auto-intituladas igrejas cristãs, nada tem a ver com a
cristandade, excepto que usam o seu nome. É uma religião
pós-racional.
Ele, L. Bob Rife, também pretendia espalhar o vírus
biológico como promotor e optimizador do culto, mas não o
podia fazer obviamente pela prostituição cultual por ser
flagrantemente anti-cristã. Mas uma das funções principais
dos seus missionários no 3º mundo era ir para o interior e
vacinar gente, e havia algo mais do que a vacina, nessas
seringas. Aqui, no 1º mundo, já se está vacinado e não
deixamos fanáticos religiosos aproximarem-se a espetar-nos
agulhas. Cá, porém, consomem-se drogas em quantidade. No
nosso caso, portanto, Bob Rife arranjou um método de isolar
o vírus do soro sanguíneo e colocá-lo numa droga conhecida
também como Snow Crash.
Paralelamente, ele tem a ‘raft’ como vector para transportar
centenas de milhares dos seus crentes saídos das partes
miseráveis do continente asiático até às costas dos EUA. O
que os ‘media’ podem dar como imagem da ‘raft’ parece ser,
ao princípio, como um local de caos aberto onde milhares de
diferentes dialectos se entrecruzam, e sem autoridade
central. Mas não é assim. É uma ‘jangada’ altamente
organizada e com um controle apertado. Essa gente
compreende-se, ‘fala em línguas’. Rife pega na xenoglossia e
glossolália e aperfeiçoa-a, torna-a numa ciência. Controla
essa gente implantando em alguns os tais receptores de
rádio, as antenas incrustadas no crânio, transmite-lhes
instruções, ‘me’ directamente ao cérebro. Um em cada cem,
digamos, tem um receptor, actua localmente como um ‘en’,
distribuidor dos ‘me’ para todos os outros.
Rife possui igualmente um metavírus digital, em código
binário, o tal que infecta computadores e os próprios
hackers, via nervo óptico.
- Como é que foi ‘traduzido’ para a forma binária?
- Talvez não tivesse sido necessário traduzi-lo. ‘Pode tê-lo
encontrado no espaço’. Ele possui a melhor rede de
astronomia do mundo, radotelescópios. Escuta os sinais de
outros planetas, dos confins do cosmos. Apercebeu-se que
mais cedo ou mais tarde algo chegaria até nós, um dos
‘pratos’ à escuta iria captar o metavírus...
- Como é que se explica isso?
- Tal metavírus, encorpando o eterno desejo ou tendência de
regresso ao Caos, estará em todo o lado. Em todo o local em
que exista vida o metavírus está presente espalhando-se
através dela. Originalmente seria espalhado pelo espaço
através dos cometas. Poderá ter sido essa até a via como a
vida começou na Terra e como o metavírus chegou até nós. Mas
os cometas são lentos, ao contrário das ondas de rádio. Na
forma binária um vírus pode atravessar o espaço à velocidade
da luz. Infecta um planeta civilizado, entra nos
computadores, reproduz-se e inevitavelmente consegue ser
difundido pelas redes de TV, rádio ou qualquer outro meio.
"Tais transmissões não ficarão retidas na atmosfera mas
propagam-se até ao espaço exterior, para sempre. Ao darem
com outro planeta e cultura civilizada onde exista gente ‘à
escuta das estrelas’, então esse planeta também poderá ser
infectado. Terá sido esse o plano de Rife e que funcionou.
Só que Rife, esperto, apanhou-o de forma controlada,
‘engarrafou-o’. Um agente de guerra informacional, só para
ele. Ao ser introduzido num computador, ‘snowcrasha’ o
computador e torna-o susceptível a ser infectado por
qualquer vírus. Mais devastador ainda, ao atingir o cérebro
de um hacker, alguém que decifre directamente código
binário, com essa habilidade bem entranhada no seu cérebro.
O metavírus binário, aqui, destruirá completamente a mente
do hacker."
Assim, Rife conseguiu dominar dois tipos de pessoas. Por um
lado, os pentecostais, usando os ‘me’ escritos na tal
língua-mãe. E por outro, os hackers, de uma forma ainda mais
violenta, ao danificar-lhes o cérebro através de vírus
binários.
- O que é que ele pretende?
- Ele quereria ser como um Ozymandias, um rei dos reis. É
simples. Uma vez que converta alguém à sua religião, pode
controlá-la com os ‘me’. E pode converter milhões pois
espalha-se como um vírus desenfreado. As pessoas não têm
resistências pois ninguém estava habituado a racionalizar
acerca da religião, pelo menos o suficiente para poderem
argumentar sobre este tipo de situação. Qualquer um que veja
‘programas de treta’ na TV, luta livre, o ‘National Enquirer’,
etc., torna-se uma presa fácil. E então com o Snow Crash
como catalizador, é ainda mais facilmente convertível.
"Uma descoberta chave de Rife foi que não há diferença
significativa entre a cultura moderna e a da Suméria. Temos
uma tremenda força de trabalho que é iletrada ou aletrada e
se baseia na TV – que funcionará como um género de tradição
oral! E temos uma minoria extremamente literada, elite
intelectual, poderosa, como os que usam a Internet, e podem
entender que Informação é Poder, e controlam a sociedade,
pois possuem essa habilidade semi-mística de ‘falar a língua
mágica dos computadores’. O que os torna um bloco que podia
fazer tropeçar Rife. Mas também Rife, sem eles, não
conseguiria fazer nada. E mesmo que conseguisse
convertê-los, não os poderia usar, pois o que eles fazem é
criativo intrinsecamente e não pode ser duplicado por gente
correndo ‘me’. Mas pode ameaçar toda essa elite com esse
instrumento grosseiro do Snow Crash. Foi o que ocorreu com o
programador Da5id. Terá sido uma experiência para ver como
funcionava com um hacker autêntico, e ao mesmo tempo, um
aviso à comunidade hacker, mostrando o poder de Rife. A
mensagem era simples: "se Asherah for largada no seio da
‘igreja tecnológica’..." É como napalm no mato!"
"Tanto quanto se sabe não há maneira de parar o vírus
binário, a não ser um antídoto para a falsa religião de
Rife. O nam-shub de Enki ainda existe. Ele entregou uma
cópia ao seu filho, Marduk, que a passou a Hamurábi. Agora,
Marduk pode ter sido ou não alguém real. A questão é que
Enki salientou, deixou a impressão, que passou o nam-shub,
transmitiu-o, plantou uma mensagem para gerações posteriores
de hackers a poderem descodificar, não fosse Asherah
ressurgir. Decerto estará numa das placas no interior de um
dos envelopes desenterrados na cidade de Eridu. Era esse o
local de Enki, ou seja, Enki era o ‘en’ local de Eridu, e o
templo de Eridu continha os ‘me’ incluindo certamente o
nam-shub procurado."
"Rife, com os nam-shubs de Enki e engenharia reversiva,
desmontando e analisando os ‘me’ de Enki, quis criar os seus
próprios hackers neurolinguísticos que iriam escrever novos
‘me’, que se tornariam nas novas leis básicas, o ‘programa’
para a nova sociedade a criar, no seu entender. Só que entre
esses ‘me’, claro, há uma cópia decerto do nam-shub de Enki,
anti-Asherah, um perigo pois para tão grandes planos. Claro
que ele, Rife, queria identificar essa placa não para
analisá-la mas apenas para tê-la para ele próprio, para que
ninguém a usasse contra si."
- Qual o efeito se a conseguissem obter, e usá-la?
- Se pudermos transmitir tal nam-shub de Enki a todos os
‘en’ na ‘raft’ (a jangada), passariam o mesmo a todos os
outros a bordo. Será algo que irá baralhar os neurónios
correspondentes à tal ‘língua-mãe’ e impedi-los de ser
programados com novos ‘me’. E os tipos com os receptores no
crânio, esses ‘en’, são controláveis a partir da torre do
Enterprise, no centro da jangada... Se conseguirmos deitar a
mão ao nam-shub de Enki e ‘infectar’ com tal antídoto cada
um que está a bordo antes de a ‘raft’ se separar ao chegar à
costa americana, isso será o ideal.
Uma nova arma que o grupo de heróis tem consigo, a Reason,
também está em baixo, ‘crashou’, o sistema operativo acaba
de ser atingido com o Snow Crash digital. Uma nova versão
com um pouco menos de ‘bugs’ está prometida pela produtora,
embora saibam que nunca, nenhuma peça de software está
totalmente isenta de ‘bugs’! No fundo, talvez haja um pouco
de Asherah em cada um de nós!
Snow Crash – conclusão
1) Os hebreus acabam por ver na relação Marduk-Hamurábi dos
babilónios o exemplo da unificação nos mundos: um chefe
único ou cada vez mais poderoso nos Céus; um chefe
unificador na terra, que reúne as antigas cidades-estado.
Mas eles, os hebraicos, não têm um território extenso na
Terra, o mundo, o ‘senhor único e todo poderoso’ para eles,
residirá no além-morte.
2) Na confusão das línguas, atente-se que terá havido por
alturas de ‘babel’ uma intensificação forte dos contactos
com outros povos, laços mesmo com Dilmun, o vale do Indo,
etc. E grandes migrações ocorriam. Chegavam entretanto os
amorritas, entre outros povos semitas, com toda uma
diferente estrutura linguística. Acade cresce.
3) Neal Stephenson não terá tido a coragem ou a vontade para
abordar mais a fundo uma identificação do ‘metavírus’ (e
também do próprio vírus Asherah) com a sida. Lembre-se que o
‘metavírus’ é descrito como ‘dando acesso a todas as outras
infecções’ e que o vírus ‘Asherah’ era ao mesmo tempo um
vírus biológico e comportamental.
4) O ‘panteão’ actual: o automóvel, a casa, a TV, o PC, a
Net, o telemóvel... . A nova ‘Ki’ é a casa, An/Marduk
revêm-se na força do automóvel; Enki é a comunicação mágica
dada pelo T-móvel, pelo PC, pela Net... Inanna está presente
na TV e revistas cor-de-rosa entre muita outra coisa!