Análise de SNOW CRASH – o cyber-romance de Neal Stephenson
Snow Crash é sem dúvida um dos livros
futuristas mais marcantes dos últimos tempos, infelizmente até agora sem
tradução portuguesa. Escrito por Neal Stephenson em 1992 – o mesmo autor
do "eco-thriller" Zodiac – é aquilo que se pode
designar por novela cyberpunk, na esteira de trabalhos como
"Neuromancer" do conhecido William Gibson.
Em termos de cenário, a
acção desenrola-se simultaneamente em dois mundos, o real e o Metaverso.
Este, mais não é que uma imensa Internet a 3 D, um universo em realidade
virtual gerado e interligado por computadores, e onde cada um que esteja ligado
a essa rede tem o seu avatar, a sua representação gráfica neste
ambiente. Os avatars podem ser escolhidos de entre uma série de formatos
pré-concebidos ou ser personalizáveis. Ao contrário da
estruturação ainda incipiente da Web actual, o Metaverso é pois um autêntico
mundo com cenários a 3 dimensões, onde os avatars - as
nossas representações - interagem graficamente.
O que acontece então em
Snow Crash, qual é o cerne do romance? Os Estados Unidos estão divididos numa
série de condomínios geridos privadamente. No aspecto comercial imperam as
"franchises". A antiga administração federal resume-se a Washington
D.C. e o seu principal business é feito pelo que resta do FBI – colheita
e comercialização de informação, aliás, uma das actividades mais prósperas
nessa nova era. A polícia, a justiça, assim como outras funções governamentais
e municipais, está tudo devidamente privatizado, algumas nas mãos de
"franchises". Até as vias de comunicação.
A Máfia está agora
legalizada e é mais uma entre as muitas "franchises" existentes e que
dominam esta nova América. A sua área de intervenção maior? O fabrico e a
entrega escrupulosamente pontual de pizzas ao domicílio. Para isto não há
melhor que a organização do padrinho Uncle Enzo. Indemnizações chorudas são
entregues a quem não receba a pizza dentro dos 30 minutos sagrados após o
telefonema de encomenda. Um acto com direito a cobertura TV a partir de
helicópteros, que começam a pairar como abutres se em algum sítio o ponteiro se
aproxima da meia-hora e sem haver pizza à vista!
Hiro Protagonist é o herói.
Ele é agora um Deliverator, um dos que fazem entregas para Uncle Enzo e que
quase falha. Vale-lhe a ajuda de uma adolescente, YT. Ela é um modelo do novo
tipo de correio: encomendas e cartas sensíveis são levadas pessoalmente
por gente em skateboards, jovens em geral, que se atrelam às viaturas por cabos
com discos magnéticos na ponta. Já não se confia na rede electrónica para o
fluxo de informação sensível. A espionagem, o negócio e tráfico de informação
imperam. Hiro e YT combinam partilhar informações e formar uma joint-venture
nesta área. Todos tentam conseguir informação que tenha algum valor para ser
comercializada, quer isso seja apenas um script, um guião possível para
um filme e que interesse a um certo realizador ou produtor. Hiro Protagonist
abalado pelo quase falhanço na entrega de pizzas resolve desistir da
organização de Uncle Enzo e este está entretanto imensamente agradecido a YT.
Protagonist tem agora tempo
para o seu hobby favorito – o treino com uma espada samurai, no mundo real, e
combate idêntico no mundo virtual, o Metaverso, a tal Internet em 3D. Para trás
fica o Uncle Enzo, as pizzas, e um carro de entregas futurista.
A "franchise"
para a qual trabalhava, tal como todas as franchises ou como qualquer
cadeia de lojas, regem-se afinal por leis semelhantes,
um mesmo código de estratégia, de programação, um mesmo manual de estruturação
do negócio: as instruções de execução são como um ADN compilado em livro ou as
linhas de programação de uma aplicação informática. Tanto uma franchise como um
vírus, por exemplo, e de acordo com o livro, funcionam segundo os mesmos
princípios. O que vinga numa situação aplica-se à outra: há que ter um plano de
negócio suficientemente ‘virulento’, condensá-lo num manual de
instruções – o ADN do negócio – e posicioná-lo numa localização
(hospedeiro) fértil, como seja à beira de uma via principal. Esta informação
funcional irá crescer, expandir-se, até chocar com os seus limites
exteriores, as paredes do organismo ou ambiente.
Como é que Hiro Protagonist
fora aterrar nesse negócio de pizzas? Ele foi um programador de topo da
principal empresa produtora de software e líder mundial de comunicações, regida
por um tal L. Bob Rife. Rife é um texano, fanático, evangelista, um tipo sem
escrúpulos e que aspira ao domínio global. A empresa de Bob Rife é que criou o
Metaverso. Protagonist foi um dos envolvidos na escrita do código inicial.
Enquanto no Metaverso os programadores e a elite giram em torno do The Black
Sun, um clube "in", exclusivo, onde se juntam igualmente novos
artistas e homens de negócios – aliás, os seus avatars - no mundo real Bob Rife tem um iate e gente, muita gente, à
sua volta: o novo iate deste milionário excêntrico é um navio vendido pela
armada americana, nada mais nada menos que o porta-aviões Enterprise! É ele o
centro de The Raft, uma enorme "jangada" constituída por milhares de
navios e embarcações dos mais diversos tipos, ligados por cabos, e que
circulam, giram ou derivam pela periferia do Pacífico quase ao sabor das
correntes, num ciclo sem fim. Vão tocando em várias terras onde aglutinam mais
refugiados para esta gigantesca jangada. Ocasionalmente voltam à costa
ocidental americana como agora está prestes a acontecer, aproximando-se da
Califórnia.
É a ‘jangada’ que traz
assim as novas "injecções" de biomassa. Toda uma nova remessa
de indivíduos que vêm abalar uma estabilidade que nunca é muito longa. Estes
novos imigrantes, estes bárbaros, além de novos factores culturais, como
vêm fazendo, trarão desta vez uma mudança ameaçadora: são eles um dos vectores
para a propagação de um sofisticado vírus, o Snow Crash.
Pergunta-se no livro:
afinal de que é que se trata, esse Snow Crash, qual é a ameaça, é um vírus, uma
droga, uma religião?
- É tudo isso...!
Efectivamente a ameaça de Bob Rife assume três diferentes aspectos. Quer no mundo
virtual, o Metaverso, quer no mundo real, os programadores estão a ser postos
fora de combate por um vírus informático! Em português, chamamos ‘chuva’ ao
fenómeno que é o écran de TV ou um monitor em branco, sem sinal definido. Em
inglês, preferem chamar ‘snow’ (neve). A uma avaria do sistema informático, à
paragem ou bloqueio de um computador refere-se como ‘crash’. A ideia do livro é
que no meio desse caos aparente para os comuns que é um écran com chuva,
pode esconder-se uma terrível mensagem-vírus informática que neutraliza, ataca
os mecanismos linguísticos no cérebro dos programadores avançados, aqueles que
além de poderem trabalhar em linguagens de programação habituais sabem
estruturar e interpretar imediatamente instruções em linguagem máquina ou mesmo
em código binário. Assim, num écran com chuva, essas imagens caóticas podem ter
uma correspondência em binário. São uma imensidão de pontos brancos e pretos
funcionando como os 1s e os 0s binários. Podem assim esconder uma mensagem
subliminar malévola que assalta os níveis neurolinguísticos dos
programadores.
No mundo virtual, aparece
no The Black Sun um avatar a desdobrar um papiro e aí surge uma das tais
mensagens-‘chuva’. Outro avatar a quem foi mostrada a mensagem ficou
literalmente louco, lançando janela fora o avatar de um dos programadores
principais e fundador do clube. No mundo real, Hiro Protagonist receberá a
notícia do internamento em estado grave de um seu antigo colega programador...
Fisicamente, porém, nada de anormal lhe detectam. Encontraram-no em casa,
caído, tendo em cima da mesa o computador "notebook" ligado, mas
"crashado" – em situação de bloqueio – com o écran a mostrar
"chuva"... Acabara de importar do Metaverso um dos ficheiros
infectados.
O problema basear-se-á ao
nível das estruturas neurolinguísticas e inconscientes mais profundas do
cérebro humano. Protagonist começa-se a interessar pelo que está a suceder na
comunidade de programadores, sendo auxiliado pela correio YT e, com a morte de
um outro conhecido, um investigador privado, recebe novas pistas, um acervo de
ficheiros informáticos compilados por esse detective com o nome genérico de
Babel - Infocalipse. Tudo parece conduzir a L. Bob
Rife e à sua empresa de informática e comunicações, à sua ‘jangada’ – The Raft
– que se apresta para trazer a nova carga de biomassa, e ainda, ao recente
interesse de Rife em subsidiar escavações arqueológicas no sul do Iraque em
zonas com vestígios da antiga cultura suméria.
Nas outras duas vertentes,
Bob Rife está envolvido na disseminação do vírus Snow Crash sob
diferentes formas: por um lado, existe uma droga que está a ser especialmente
difundida entre os programadores informáticos da firma – um produto químico mas
cuja fase final de sintetização antes de ser snifado, inalado, pode ser
feita recorrendo a um pequeno tubo acoplado a um computador. A terceira forma é
efectuada através de uma nova igreja pentecostal também criada com a ajuda de
Rife, e que opera como uma autêntica "franchise", a Reverend Wayne’s
Pearly Gates. A versão narcótica do vírus será também espalhada entre os
crentes da igreja e entre a imensa biomassa – a população de refugiados e
potenciais imigrantes – que se aproxima a bordo da ‘jangada’.
Porquê o cuidado na
neutralização dos programadores? Rife quer domesticá-los, controlar todo o mundo real e o
virtual sem obstáculos e evitar que descubram toda a trama que foi criada e que
contra ela possam desenvolver um antídoto. Mas Hiro Protagonist, YT,
Uncle Enzo – padrinho da Máfia e dono da Cosa Nostra Pizza Franchise, líderes
da Nova Hong Kong – um condomínio de gente oriental, e ainda um
ex-latifundiário vietnamita, estão agora todos no mesmo barco para
travarem o Snow Crash. Protagonist estuda um ficheiro informático baptizado
como Asherah (o nome de uma divindade hebraica, canaanita e assíria,
descendente da deusa suméria Inanna) onde estão reunidos alguns dos dados
compilados pelo investigador privado abatido no decurso da pesquisa que
desenvolvia.
Além deste grupo, HP
passará a contar com o apoio de Juanita, também uma antiga colega programadora,
e a quem ele põe ao corrente da gravidade da situação. É ela até quem vai
chegar primeiro à "jangada" para investigar in loco as possibilidades
de neutralização da ameaça.
Um facto curioso é verificado
entretanto: os contaminados, os crentes da nova igreja e também a enorme massa
de refugiados, parecem estar todos eles numa Babel, um estado anterior à
confusão das linguagens. Todos falam num linguarejar, parecem entoar, falar
numa língua primitiva, no que seria o falar línguas bíblico, a chamada glossolália.
Isto tem tudo a ver com antigos mitos babilónicos e sumérios, como Hiro
Protagonist vem a descobrir no espólio deixado pelo investigador morto. Esse é
aliás um dos ângulos do livro, que liga directamente à cultura suméria e ao
conceito de Babel.
O Metaverso tem uma
ferramenta eficaz que vai ajudar HP, a Library (biblioteca) e um óptimo
livreiro, ou antes um bibliotecário - um
programa de computador para encaminhar pesquisas e que interage gráfica e oralmente
com o utilizador. Asherah, o ficheiro legado a Hiro Protagonist, é então
o nome dessa antiga deusa da Mesopotâmia e das terras de Canãan, descendente no
tempo da Ninhursag e da Inanna sumérias. O mundo de Ninhursag (e do deus Enlil)
corresponderá a uma estabilidade mas também a uma estagnação criativa e
linguística pré-Babel. Um outro deus sumério, Enki, será aquele que é
responsável por lançar na civilização um antídoto, um nam-shub
(feitiço) que virá cortar essa estagnação pré-Babel. Segundo o mito, é a Enki
que se deve a confusão Babel, o dispersar da linguagem que possibilita um novo
salto criativo e civilizacional. Enki tanto era o deus das águas profundas como
um deus da sabedoria oculta. Parece, no livro, que cabe a Hiro Protagonist o
papel de Enki... O desempenho de Juanita é comparado ao de Inanna, mas apenas
na sua mítica Descida aos Infernos, conforme ela irá atrevidamente à
‘jangada’, pois aqui esta Inanna moderna acaba mesmo por ajudar na
neutralização do virulento Snow Crash e tal como a referida deusa suméria
operará uma ‘ressurreição’.
"In the Pentecostes,
the christianism was hijacked by viral influences" – no Pentecostes o
cristianismo foi tomado por influências virais (quando, segundo a Bíblia,
viram baixar o Espírito Santo 50 dias após a morte de Cristo e todos se
entenderam então numa língua comum). Esta e outras frases do género são ditas e
explicadas pelo "bibliotecário" do Metaverso, desmontando a
teoria da informação e explicando alguns dos fenómenos na génese e
desenvolvimento do judaísmo e cristianismo a partir de raízes e mitos da antiga
baixa Mesopotâmia, entrecruzando religião, linguagem, e biologia.
É traçada uma relação entre
o que acontece com os programadores atingidos (onde por software se
destruíram ligações de hardware – biológicas, "desligando" a
consciência, o racionalismo) como no caso dos colegas de HP, e a recente
divulgação da língua comum balbuciada pela seita pentecostal do Reverendo
Wayne, funcionando como regressão neurolinguística a nível social, cortando
entre outros alguns dos extractos mais criativos da sociedade, inundando-a ao
mesmo tempo com essa biomassa que chega na ‘jangada’ também narcotizada e
manipulada, e que pela força também, irá ajudar Rife a tomar o poder.
No meio de um sem número de
percalços Hiro Protagonist evolui num cenário em que pontifica o novo rap
japonês e os computadores incorporados na roupa, envergáveis, tanto para ligar
ao Metaverso com óculos 3 D e som de imersão total, como para investigar,
espiolhar o próximo em todas as bandas e frequências – em som, luz visível,
infravermelhos, ultravioletas, espectro de rádiofrequência e na banda de 1
milímetro, a faixa das ondas de radar – sabe-se automaticamente se um suspeito
vem armado, quantos projécteis tem e respectivo calibre.
A acção desenrola-se
essencialmente em Los Angeles e é aqui que HP conhece um dos
personagens mais bizarros do enredo e que é tratado como uma
"entidade soberana"... pela simples razão de
que no side-car da sua mota transporta uma ogiva termonuclear, uma bomba
de hidrogénio de 10 megatoneladas. Este tipo volumoso, natural das ilhas
Aleutas, passeia o "brinquedo" despreocupadamente, ligado via rádio
ao seu corpo – controlando sinais vitais como a pulsação e outros. Ninguém quer
ver tal amigo por perto com a mais leve constipação!,
senão... bummm! Outro detalhe: o brutamontes adora abrir gente ao meio como se
fossem frangos, desde o pescoço às virilhas, com a sua faca afiadíssima, de
aresta de vidro especial, apenas com uma molécula de espessura. Foi com esta
lâmina que dizimou a tripulação de um submarino russo, de onde trouxe a ogiva
atómica.
Antes de abalar em direcção
à jangada HP vê como funcionam alguns dos guardas de condomínios:
os rat-things são como que uma versão robocop canina, ainda com algumas
recordações deixadas pelos implantes de cérebro de cão. Atingem uma velocidade
louca e... não esquecem. Têm uma cauda mais extensa que um cão normal,
parecendo ratazanas gigantescas, mas de revestimento escamoso, metálico.
Protagonist terá que ser
então um novo deus Enki, um "hacker" a quebrar a programação
do Snow Crash, toda esta imensa hipnose e lavagem cerebral, com um novo
nam-shub, um feitiço. Se Bob Rife descobriu alguma coisa nas escavações no sul
do Iraque que lhe permitira construir o Snow Crash linguístico, poderá ter
também o antídoto... A "jangada" será o palco para um dos últimos
actos. A bordo está já Juanita, a antiga colega e ex-namorada de HP. "The
Raft" – a jangada – aproxima-se da costa californiana. No Metaverso está
prestes a começar um apregoado concerto, num show pleno de efeitos especiais em
multimédia e preparado especialmente para programadores.
Antes da aproximação de HP
e YT à costa, para se dirigirem à ‘jangada’, a moça é capturada e levada pelo
colosso das Aleutas que a mantém cativa a bordo. Tenta então seduzi-la mas
desconhece que YT tem instalada nas suas partes
íntimas uma dendatta, uma agulha impregnada de um entorpecente contra
relações indesejadas. Com o brutamontes adormecido é mais fácil a progressão de
HP e YT a bordo, chegando então ao coração desse enorme amontoado de barcos, o
porta-aviões Enterprise – o ‘iate’ de L. Bob Rife. Tal como acontece com alguns
dos crentes da nova seita, aqui alguns dos subjugados têm como que uma pequena
antena implantada num dos lados do crânio. O centro de comunicações do
Enterprise será o posto de comando da invasão, o coordenador desta biomassa que
chega, de todos os novos fiéis e dos programadores amestrados.
Através de um portátil com
telemóvel HP liga-se à rede e no mundo virtual persegue, combate e derrota o
avatar de Raven, o homem da mota com side-car. Depois, já no estádio virtual
onde se inicia o concerto, desfaz a golpes de samurai o avatar que se aprestava
a desenrolar um papiro com o Snow Crash na sua versão informática, binária,
perante o olhar de milhares de programadores.
Na ‘jangada’, e após
atribulações várias, Juanita, Hiro e YT descobrem a colecção de placas
arqueológicas de argila de Bob Rife, desenterradas em Eridu, no sul do Iraque,
a antiga cidade suméria do deus Enki. Decifrada a partir das placas a mensagem
que servirá de antídoto, o tal nam-shub, o feitiço oral que desligará
talvez um input subliminar, e aniquila portanto o Snow Crash
linguístico, o sistema de som e de rádio do Enterprise é usado para difundi-lo.
A biomassa, os programadores dominados, os fiéis da Pearly Gates estão agora
livres. L. Bob Rife, a quem até o que resta do FBI obedecia, está em fuga. Só
falta o acerto de contas final, com Rife ‘himself’. Mas para isso estão
aí os rat-things, os cães robocop, um deles, muito em especial,
que se lembrava – não sabia como – de YT como sua dona... YT recordava-se,
claro, do seu antigo cão, atropelado e levado para uma clínica veterinária,
onde ‘morrera’.
Ao tentar descolar de Los
Angeles International no seu jacto particular, há qualquer coisa que se
movimenta a uma velocidade fantástica pela pista, como que uma enorme ratazana
quase supersónica, faiscando rente ao chão, que se aproxima e choca com a aeronave...
o Lear Jet desintegra-se e com ele o ex-futuro líder mundial.
Que mais adiantar sobre
este romance, já considerado como uma obra de culto na nova vaga dita
cyberpunk? Neal Stephenson faz um belo jogo em toda uma nova área de conceitos
sobre a manipulação e interligação de informação, através de uma série de
ideias choque e provocantes, e tenta evidenciar como a tecnologia da informação
opera e domina social e individualmente, fazendo ainda como se disse já, um
autêntico ‘flash back’ ao que se passou nos alvores da civilização, com os
sumérios, e daí até às influências mesopotâmicas antigas na génese do judaísmo
e cristianismo.
Há relativamente pouco
tempo a TVI apresentou um filme, de produção italiana, Nirvana, que
embora baseado na obra de Neal Stephenson pode-se considerar uma adaptação
pobre e deturpada, em que ao invés de raízes sumérias para o enredo da
história, nos remete para a mitologia e conceitos hindus.
As mais recentes
manifestações de aproximação à glossolália ou "falar línguas",
parecem ter incorporado em algumas das modernas correntes ditas pentecostais e
revivalistas. Alguns perguntam-se já sobre se o mundo neste final de século não
irá atravessar um novo período místico. Harvey Cox, um americano autor de A
Cidade Secular escreveu recentemente (1998) O Regresso de Deus. Para
ele, o pentecostismo cristão, que privilegia uma leitura literal da Bíblia e a
experiência directa do divino, presente em força nas grandes metrópoles do 3º
mundo, vai ser a religião do século XXI.
Crescem paralelamente as correntes carismáticas nas igrejas católica e
protestante. Invocam o Espírito Santo, reconhecem nas suas fileiras dons
(carismas) de profecia e cura, atribuem enorme importância à oração, à emoção,
à dança e ao corpo, e ao falar línguas desconhecidas – glossolália.
Parte da análise acima descrita surgiu no jornal português Publico, de
22 de Agosto de 1999, que por sua vez traduzia um artigo do jornal francês Le
Monde inserido numa série de textos sobre a história do cristianismo.
Mas em Portugal também,
aparecem agora relatos de um reforçar de movimentos carismáticos, pentecostais,
e dos fenómenos de glossolália – o falar línguas estranhas. Em oposição
à fé branda, uma nova experiência parece estar a surgir em muitas
igrejas: palmas, cânticos, um louvor que quase parece um linguarejar com
muita alegria. Em Portugal, tal movimento, de inspiração pentecostal, será
encorpado por um Renovamento Carismático. "É-se apanhado numa torrente de
bem-estar, de calma e felicidade" – referem a um dos jornalistas presentes
numa sessão – "não nos preocupamos com aquilo que dizemos, apenas louvamos
a Deus com sons" – remata uma das fiéis, coordenadora do movimento
português que já existe há
uns 25 anos e onde participam alguns padres brasileiros.
Tal como com o padre
brasileiro Marcelo Rossi é uma corrente dita carismática. Mas Rossi atingiu já
uma enorme projecção mediática. No caso do "Renovamento" existe
também uma forte componente teológica. Para alguns crentes poderá ser mais
difícil a compreensão da oração das línguas. Por norma, no final de um
cântico, a assembleia é envolvida por uma ladainha, um linguarejar de palavras
e sons imperceptíveis. Esse é um dos pontos altos da celebração, apesar de incompreendida
e contestada por sectores da igreja católica.
Na sessão reportada, e
noticiada no mesmo jornal português a que já acima se fez referência, mas na
edição de 14 de Novembro de 1999, uma fiel afirmaria que só agora é que
conseguiu sentir o dom das línguas: "senti-me bem, iluminada por
dentro e imaginei a descida do Espírito Santo".
"São os tempos de
louvor que mais transformações interiores provocam nas pessoas, diz um dos
dirigentes do Renovamento. São curas interiores". O RCC – Renovamento Carismático
Católico – aparentemente é idêntico nas expressões às usadas pelos pentecostais
negros afro-americanos (cânticos, muita alegria, palmas, orações repetidas) e a
novos movimentos vistos como seitas (onde sobressaem êxtases, expressões de
cura, e o falar em línguas estranhas). Em 1976, com um livro – Um Novo
Pentecostes? – o cardeal Léon-Joseph Suenens, bispo de
Bruxelas, escrevia sobre os carismáticos: "percebe-se um amor filial à
igreja, na sua maternidade espiritual, na sua realidade institucional e
sacramental. Sem agarrar-se a uma ideologia de direita ou de esquerda, o
movimento reúne no seu seio as mais diversas tendências cristãs". Em
Portugal serão hoje já uns 50.000 os aderentes.
TEXTOS GNÓSTICOS – OS OUTROS EVANGELHOS
O que entrou e não entrou
na compilação da Bíblia? Quem decidiu? Não foi só o Velho Testamento que foi
alvo de depuração, feita aí pelos hebreus anteriores a Cristo,
nomeadamente pela escola deuteronómica. Fenómenos análogos ocorrem na selecção
e edição dos escritos que compõem o Novo Testamento. Como sempre o vencedor
escreve a História. Mais um exemplo da frase pode ser talvez deduzido a
partir da descoberta efectuada em 1945 no Alto Egipto, em Nag Hammadi, de 52
textos em papiros, traduções em copta de originais gregos, e por acaso salvos
nessa altura de destruição.
A existência desses
escritos vem reafirmar a existência de uma disputa opondo cristãos seguindo já
uma ortodoxia e cristãos gnósticos e os respectivos valores escritos,
isto nos alvores do cristianismo. A maior parte dos vestígios dessa polémica
havia sido varrida ao longo de séculos pela ortodoxia vencedora. Outros livros
sagrados foram mesmo dados como heréticos, nomeadamente, claro, os de origem
gnóstica. O auge desta depuração atingir-se-ia com Constantino, aquando da sua
conversão ao cristianismo no século IV. A depuração religiosa mais uma vez
obedece a ditames políticos. Esta discussão vem agora de novo à baila com a
edição recente de um livro sobre o assunto, "Os Evangelhos Gnósticos",
como relatava a edição do semanário português "Expresso" de 8 de
Outubro de 1999.
O espólio de Nag Hammadi
inclui poemas, mitos, excertos filosóficos e instruções místico-iniciáticas, e
uma recolha de evangelhos cristãos primitivos, designados como apócrifos
(Evangelho de Tomé, Evangelho de Filipe, o Evangelho da Verdade, o Evangelho
aos Egípcios) e outros escritos atribuídos a seguidores de Jesus (Livro Secreto
de Tiago, Apocalipse de Paulo, Apocalipse de
As novas descobertas
contrariam uma ideia de que uma harmonia mística reinasse nos séculos I e II.
Disse-se antes que havia uma forma simples e pura de fé na igreja cristã
primitiva..., que se partilhavam os haveres e respeitava a autoridade dos
apóstolos em unanimidade e que, só mais tarde, chegaram as ‘heresias’, a mais
temida delas a gnóstica, por ser mais culta e estruturada
espiritualmente. Os historiadores concluem agora que já o cristianismo antigo,
nascente, seria muito mais diverso do que se pensava antes e que circulariam
livremente evangelhos com nada de canónico entre os vários grupos cristãos.
Até ao século II os que se
identificavam como cristãos professavam afinal inúmeras crenças e práticas
religiosas. O mesmo sucederia depois com as diversas igrejas cristãs, séculos
mais tarde, principalmente após a Reforma. Mas cerca de 200 anos DC é que se
pode falar numa crescente estruturação e institucionalização em torno de uma
hierarquia – bispos, padres, diáconos - do credo e dos
quatro evangelhos ‘canónicos’. Começava em ‘low profile’ a caça às
bruxas, de tudo quanto caísse fora de um modelo estabelecido. A Igreja, a
estrutura de homens, sobrepunha-se ao dogma, à Fé, à busca interior e em
conjunto da Verdade... O que era então temido pela ortodoxia, especialmente em
relação aos gnósticos?
Quase todas as comunidades
gnósticas admitiam a igualdade da mulher e do homem, na sociedade e no culto,
chegando a nomear mulheres para padres e bispos. Os gnósticos tentavam dar o
testemunho de um ‘ensinamento secreto’ – esotérico – dispensado por
Jesus àqueles mais próximos e amadurecidos. Para eles o mistério da Fé,
a oração inefável e a revelação do divino pela gnose – auto-conhecimento – são
necessários e complementares. E ainda, considerariam supérflua a autoridade e
mediação de uma rígida hierarquia eclesiástica "maioritariamente ignorante
e sectária, ritualista e depositária da tradição apostólica canónica, mas
desprovida de experiência espiritual directa".
Os gnósticos batiam-se
também pelo debate teológico contínuo e rejeitavam o conformismo doutrinal.
Mais importante: tendiam a considerar todas as doutrinas, mitos e especulações
– mesmo não genuinamente cristãs – como sendo também instrumentos de
entendimento e aproximações à verdade e não a própria verdade. Por fim,
contestavam – porque totalitária – a legitimidade da fórmula um só Deus, uma
só Igreja, um só Bispo.
Sobre temas concretos, como
no caso da Ressurreição, porque é que a tradição ortodoxa adoptou uma
interpretação literal? Pela leitura dos quatro evangelhos canónicos até se vê
que embora alguns historiadores do Novo Testamento insistam numa leitura
literal, outros dão interpretações diferentes. Mas depois, até Paulo surge a
defender a doutrina da Ressurreição como fundamental para a fé cristã (e a
mesma doutrina da Ressurreição ia já emparelhar em mitos vários da Europa,
entre os quais os celtas, pelo que se mostraria assim favorável a uma aceitação
a Ocidente). No entanto, sendo as palavras de Paulo tomadas por vezes como
referindo-se a uma ressurreição do corpo, ele ressalva: "digo-lhes irmãos,
a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção (o corpo
mortal) herdar a incorruptibilidade".
A leitura
e interpretação dos evangelhos aceites é contudo um caminho sinuoso e sempre
actualizável, entremeado de fé e dúvida que leva constantemente a novas
leituras e actualizações. É assim que já em 1999 o Catequismo para Adultos ou A
Catequese de Adultos, um conjunto de onze lições editado pela diocese de
Lisboa, admite no capítulo "Quem é afinal Jesus?" – que o Jesus da
História não é a "História de Jesus", a história que nos aparece nos
evangelhos, pois esta história é contada por aqueles que têm fé em Jesus que
ressuscitou e que interpretam as suas recordações.
Em declarações recentes na
imprensa portuguesa, o biblista Carreira das Neves diz que
"verdadeiramente não se sabe nada sobre a infãncia de Jesus" e que
"as próprias descrições sobre o seu nascimento são simbólicas". Por
outro lado, o Padre Feytor Pinto afirma que "não vê qualquer perigo em
divulgar os acrescentos assim feitos aos textos evangélicos, pois resultam das
experiências comunitárias dos primeiros cristãos que ao receberem os textos
originais quiseram exprimir a sua interpretação sobre a mensagem".